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quinta-feira

O Hotel Miramar no Monte Estoril: uma questão de vocação




por João Aníbal Henriques

Existem construções que transcendem o imenso valor que se associa ao seu uso e que, pelas suas características intrínsecas, se impõem na paisagem definindo com precisão a vocação das localidades onde foram construída. É o que acontece com o Chalet Almeida Pinheiro, mais conhecido como Hotel Miramar, em pleno coração do Monte Estoril…

O Chalet Almeida Pinheiro, situado em pleno coração do Monte Estoril, é uma das peças mais emblemáticas da arquitectura de veraneio em Portugal. Concebido para cumprir a dupla função de ostentar a riqueza, o poder e a diferença da sua primeira encomendadora, uma “excêntrica africanista” de acordo com a descrição do Engenheiro Almeida Pinheiro que o construiu, e de servir como habitação de luxo para a mesma, a casa apresentava uma volumetria excepcional, impondo-se na paisagem e no registo de veraneio que caracterizava as casas existentes na sua envolvência.

De acordo com as descrições da época, a dimensão do Chalet Almeida Pinheiro era de tal forma inusitada que a casa fazia lembrar uma enorme praça de touros colocada estrategicamente dentro de um grande e frondoso jardim que, encobrindo tenuamente alguns dos seus detalhes, despertava a curiosidade e o interesse de quem por ele passava naqueles tempos. Deixava implícita uma certa descrição, apesar de o apelo maior seguir na linha da ostentação, apelando à imaginação e ao enleio.
E desde logo, quando ainda era uma construção muito recente no autêntico emaranhado de egos que deu forma ao desenho arquitectónico do Monte Estoril original, se transformou no cadinho maior da identidade monte estorilense assumindo papel fulcral na definição estética do que haveria de vir a ser aquela localidade enquanto berço primária da vocação turística municipal.




Os principais elementos definidores da importância arquitectónica do Chalet Almeida Pinheiro tiveram uma função estética e decorativa. 

Os torreões, altaneiros mas propositadamente desnivelados, recriavam em pleno romantismo a ideia de coisa velha e antiga, lançando em quem o observava a dúvida sobre a verdadeira origem daquela construção. No final do Século XIX, quando a casa foi construída, não havia no horizonte possibilidade alguma de uma enorme batalha em terras estorilenses, nem tão pouco se augurava a possibilidade de construir um castelo com pretensões funcionais. A ideia subjacente ao projecto, mais do que dependente da realidade vivida de forma efectiva, pretendia reforçar o vínculo identitário com o revivalismo decorativo do romantismo grassante, recriando cenários plenos de imaginação e ficcionando uma realidade que se assumia como cenário maior no qual os seus proprietários representavam o papel da sua vida. Como é evidente, os torreões do Chalet Almeida Pinheiro nunca defenderam nada nem ninguém, apesar de as mísulas de cantaria fazerem lembrar velhos merlões de castelos que outros sítios têm a sorte de ter. Mas, em termos da sua funcionalidade estética, cumpriram religiosamente o seu papel de sublinhadores da importância da já referida “excêntrica africanista” no contexto social romântico do Monte Estoril de então e, por outro lado, reforçaram os vínculos entre a nova construção que viu a luz do dia somente em 1899 e as restantes casas torreadas que davam forma à identidade estética e arquitectónica daquela que era considerada a “pérola de Portugal”.

A arcaria que suportava o alpendre situado na fachada principal, encimada mais tarde pela propaganda ao Hotel Royal e ao Hotel Miramar que o substituiu, recupera também ela a formulação estética daquilo que mais tarde vem a ser a “Casa Portuguesa”. A encomendadora, que teria enriquecido em África e que era de origens humildes de uma das aldeias provincianas do interior Português, precisava avidamente de se mostrar aos seus pares e, sobretudo, de o fazer de forma linear e inquestionável. E a casa, repositório maior dos seus anseios, surge no Monte Estoril do Século XIX como memória maior do velho solar de província que assenta os seus alicerces em laços de sangue antigos e perenes cujas origens se perdem nos princípios do próprio tempo…

Por fim, recriando-se enquanto cenário enquadrador do alpendre profundamente prenhe dos valores ancestrais da Portugalidade e do torreão altaneiro em guarda perante uma invasão que simplesmente se ousava imaginar, o muro delimitador da propriedade rematava a paisagem com um apelo quase rude às memórias da pedra solta de uma qualquer casa rural na várzea sintrense. Naquela altura, como é evidente, poder-se-ia ter colocado ali um muro de emparelhamento regular e com corte rectilíneo dando foco à casa e cumprindo a função de segurança que um qualquer muro deve ter. Mas não foi assim. Em linha com tudo o resto, o muro é também ele próprio elemento estruturante da paisagem e reforço emblemático da força da casa no contexto do Monte Estoril que estava a nascer. Pretendia transparecer a ideia de coisa antiga e forte, em linha com a ambição social de quem o concebeu.




Num dos seus artigos mais emblemáticos sobre o Monte Estoril, a Professora Raquel Henriques da Silva caracteriza o esquema quase “esquizofrénico” do local para sublinhar o seu carácter único e excepcional. De facto, o caso do Chalet Almeida Pinheiro, com a sua imensa excentricidade e pujança, só podia ter surgido naquele local e naquela época, num Monte Estoril onde tudo transbordava de romantismo e de sonho. O carácter onírico da localidade, onde os telhados de duas águas aguardam eternamente os nevões enormes que se sabe de antemão que nunca chegarão, e os castelos medievais construídos já em pleno Século XX sem nenhuma funcionalidade nem utilidade prática que não fosse a de servirem inocentemente de cadinho de esperança para o carácter mas sonhador dos seus habitantes, sobrepõem-se a todos os resquícios de lógica e de discernimento. Ali, num espaço de sonho em que se sonha, tudo é de facto passível de acontecer e, em linha com esse pressuposto, o custo de cada uma destas excentricidades é tido como um investimento.

No Monte Estoril de 1899 o Chalet Almeida Pinheiro é muito mais do que uma casa qualquer. É símbolo maior de uma movimento arquitectónico recriado de raiz a partir daquele que será porventura o primeiro masterplan Português. Aqui vale tudo e tudo faz sentido fazer, até porque sendo palco de excêntricos, era simultaneamente uma ponte maior entre as agruras da vida real e o sonho maior que todos afincadamente desejamos viver. Foi esse pressuposto, mais do que qualquer preciosismo canónico que a arquitectura de então pudesse ter, que fez desta uma localidade total e completamente diferente. E foi essa diferença, marcada pela igualmente diferente maneira de ali se viver, que recriou a identidade coesa, forma, determinante e determinada que perdurou (contra tudo e contra todos) até época muito recente.

Mas como todos os sonhos são frágeis e inconsistentes, também este clima de quase-loucura que o Monte Estoril teve o ensejo de desenvolver, se debateu com problemas estruturais que o pragmatismo da vida normal sempre tem a capacidade de oferecer. E, logo na abertura do novo Século, quando Portugal se envolveu nos períodos negros das revoltas políticas e a Corte de sangue azul desapareceu para sempre, os castelos de cartas que os sonhadores de outros tempos haviam ousado empreender, desmoronaram-se sucessivamente ao sabor do um vento que rapidamente os fez tremer.

E as casas, castelos e torreões, despidos de utilidade prática, tiveram de ser reconvertidos e reconfigurados perante a nova lógica funcionalista que acabava de nascer. Vendidos e restruturados, acabaram quase todos por assumir novas funções e por desempenhar papéis diferentes num Portugal novo que a Implantação da República acabou por trazer. Como peças únicas que eram, e com custos de produção incomportavelmente altos para a época de crise que o novo regime consolidou por muito tempo, tornaram-se cada vez mais motivo acrescido de interesse por parte de todos aqueles que desejavam deslumbrar-se com a pujança artística que estas construções acabavam por ter.

Ao Monte Estoril, primeiro de Lisboa e arredores e depois de todos os cantos e recantos do Mundo, vinham muitos para passear nas ruelas pseudo-medievais, para se deslumbrarem com os castelos fugazes e com os muros de pedra, e para apreciarem os jardins imensos onde cresciam pretensamente livres espécies vegetais que haviam sido plantadas ali depois de terem sido trazidas de origens inóspitas somente com o intuito de fazerem diferença e de acentuarem o cenário de exclusividade que o Monte Estoril conseguiu ter.




Nasce assim o turismo em Portugal. E nasce no Monte Estoril porque ser aquele um local único no Mundo inteiro. Nasce no Monte Estoril porque ali era possível usufruir dos bons ares da praia, da vida excelente que se afagava com o tom azulado dos sangues dos que ali viviam sempre, e também da paisagem marcante e marcada pela  força bruta e inesperada de imóveis como este.

Quando em 1906 o Engenheiro Almeida Pinheiro vendeu a sua casa a uma sociedade de empreendedores, nasce na velha mansão o mítico Royal Hotel e em 1914, depois de se afirmar no contexto da Primeira Grande Guerra, é novamente vendido a Ricardo Allen, Salvador Villanova e Ventura Garcia que o adaptam funcionalmente a um novo registo de hotel, e o rebatizam com o nome de Hotel Miramar.

Funciona assim, já perdido nas suas origens mais remotas e no sonho inalcançado a velha africanista de outras eras e de outros tempos, até 1975 quando é destruído por um incêndio.

Passaram-se muitas décadas desde que o Chalet Almeida Pinheiro desapareceu fisicamente da praxis urbana monte estorilense. Mas a pujança da sua força, o carácter enorme do seu torreão e o enquadramento cénico dos seus muros ancestrais, sobreviveu até hoje, mostrando que mais do que a sua funcionalidade, é a sua presença física que serve de fulcro identitário maior da comunidade onde se insere. Apesar do estado avançado de ruína, ele continua a fazer parte da estrutura cénica do Monte Estoril que ainda temos.



sexta-feira

Requalificar o Monte Estoril




O Monte Estoril é um dos mais fantásticos recantos do Concelho de Cascais. Resultando da conjugação de diversos factores extraordinários, para ali confluíram diversos contributos que transformaram o antigo Pinhal da Andreza num sítio pleno de charme e cheio de segredos e de histórias que o tornaram muito especial.

A visão dos seus fundadores, mesclada pelo carácter onírico que muito contribuiu para o encanto romântico que todos lhe reconhecem, foi a pedra basilar que sustentou um projecto arrojado e determinante que haveria de dar o mote para o subsequente nascimento dos Estoris e para a consolidação de Cascais como destino turístico de excepção em termos internacionais.




Mas o Monte Estoril beneficiou ainda do carácter visionário de muitos dos seus moradores que, desde o final do Século XIX, têm sido capazes de recriar o espaço em torno de uma vivência social e cultural única que foi sempre determinante para a consolidação da estrutura urbana em que a povoação assenta.

Tendo sido o primeiro projecto urbanístico criado de raiz em Portugal, o Monte Estoril foi cadinho de experiências diversas que a memória local ainda consegue preservar. Do “Jazigo” de Manuel Duarte aos torreões altivos da “Vivenda Miramonte”, passando pelo autêntico castelo do antigo “Hotel Miramar” ou pela selva romântica que ainda sobrevive da inesquecível “Villa Montrose”, são muitos os exemplos de peças arquitectónicas cenograficamente integradas na localidade e que constroem no Monte Estoril um ambiente irrepetível em qualquer outro lugar de Portugal.




Mas, como pérola que é, o Monte Estoril foi sempre também alvo privilegiado da cobiça, do desnorte eleitoral e da incapacidade política que pontualmente vai afectando a vida neste concelho. Foi-se salvando, sem se livrar de pontuais atentados contra a sua excelência perpetrados aqui e ali ao longo dos tempos, pela argúcia, capacidade de entrega e devoção imensa dos Monte Estorilenses que desde sempre foram imbatíveis na defesa dos interesses do local.

Em 2002, quando Cascais começava a respirar de alívio depois da autêntica onda de betonização que varreu o concelho desde meados da década de 80, a Associação de Moradores do Monte Estoril preparou um plano global de salvaguarda urbana e patrimonial que entregou à edilidade cascalense.

O projecto, intitulado “PIRME – Projecto Integrado de Requalificação do Monte Estoril”, foi uma das mais inéditas e inovadoras propostas de requalificação urbanística jamais realizadas em Portugal, apresentando uma visão independente e livre de um grupo muito vasto de moradores, comerciantes, hoteleiros e demais operadores que trabalhavam no local. Da comissão promotora faziam parte Alfredo Dias Valente de Carvalho, António Pinto Coelho de Aguiar, Diogo Velez Mouta Pacheco de Amorim, Jaime Roque de Pinho de Almeida (Lavradio), João Aníbal Queirós Felgar Veiga Henriques, Joaquim Manuel Cardoso Mendes, José Francisco Gomes Santos Fernandes, José Luís de Athaíde de Almeida e Silva, Luís Miguel Lupi Alves Caetano, Manuel Pinto Barbosa, Paulo Ribeiro Maia de Loureiro e Salvador Correia de Sá.




Tinha como objectivo principal, para além de recriar um perímetro de protecção em torno das fronteiras urbanas do Monte Estoril, o de garantir que os moradores cumprissem aquilo que consideravam o seu dever participar na gestão e na orientação dos destinos da sua terra. Diziam de forma sublinhada que o fazia “à margem dos partidos políticos, mas não contra eles”, com uma forma de participação responsável, cordata e consciente. Mas também exigente…

Como é fácil de perceber, a qualidade incontestável do documento, atestado até pelas mais proeminentes autoridades políticas do Cascais de então, em nada influi nos destinos do Monte Estoril. A Sua independência relativamente aos muitos interesses de toda a ordem que sempre sobreviveram naquele local, condenou-o ao fracasso e a uma frustrante viagem em direcção ao caixote do lixo.




Com a entrada em vigor do novo PDM – Plano Director Municipal, que não assume a vocação municipal do concelho e que, por isso, não define as linhas programáticas estratégicas que hão-de marcar a existência urbanística do Concelho durante o seu período de vigência, alterou-se de forma substancial a política de salvaguarda patrimonial no Monte Estoril. Ao contrário do que até aqui existia, o novo PDM renega a unidade urbanística da localidade, composta por um conjunto de edifícios que a própria AMME inventariou e integrou no PIRME, e aposta numa apreciação casuística das intervenções que venham a ocorrer nos limites da localidade. Faz depender, desta forma, todo e qualquer projecto que venha a surgir do gosto específico de quem o aprecia. E assim, destruindo a unidade urbanística que deu corpo à excelência deste local, coloca em risco o carácter único e especial que ainda caracteriza o Monte Estoril, abrindo portas para quase tudo seja possível fazer.

Nesta época de mudança profunda que agora começa, importa homenagear a AMME pela coragem e determinação que colocou na apresentação deste inédito projecto. E relembrar todos os Cascalenses de que o Monte Estoril tem sido capaz de defender o seu carácter extraordinário desde meados do Século XIX. 

segunda-feira

Em Memória do Cruzeiro e do Monte Estoril





Tragicamente, depois de quase sessenta anos de uma História repleta de muitos acidentes, o edifício histórico do Centro Comercial Cruzeiro, no Monte Estoril (Concelho de Cascais) vai conhecer o seu futuro.

O projecto inicial, da autoria de Manuel António da Cruz e de João da Cruz, ditou o seu original nome, que foi consolidado pelo facto de se situar num local onde se cruzavam duas das antigas linhas de águas naturais do Monte Estoril.

Com a primeira pedra lançada em 1947, em pleno período de crise provocado pelo pós Segunda Guerra Mundial, a construção do edifício sofreu vários reveses, tendo sido Fausto de Figueiredo, o fundador do moderno Estoril, uma das personalidades que mais o atacou temendo que o mesmo pudesse vir a condicionar o sucesso do seu próprio projecto urbanístico.

No entanto, depois da inauguração, em 1951, a Revista Portuguesa de Turismo consagra-lhe um enorme e muito elogioso artigo, no qual o considera um dos mais arrojados e interessantes projectos do Portugal moderno. No dizer da revista, foi “um dos melhores da Europa” de então…

Foi, de facto, o primeiro centro comercial Português e apesar do estado de abandono profundo em que ficou desde finais da década de setenta do Século XX, manteve sempre a sua importância na definição das memórias e da Identidade Cultural daquela localidade.

Recentemente, depois de se ter entaipado o edifício, pretensamente para evitar acidentes que resultassem da queda de pedaços de cantaria que se soltassem dos rebordos superiores do imóvel, surgiu finalmente o novo projecto para o edifício que se pretende que venha a ocupar este lugar.

Mas, contrariando a vontade dos Monte Estorilenses; subvertendo a importância e o valor do Cruzeiro na consolidação da Identidade Local; esquecendo que a própria envolvência do Monte Estoril é uma preciosidade que importa valorizar; e sobretudo que existe uma História repleta de muitas estórias que transformam este lugar num dos mais significantes para a História de Cascais; o projecto em curso (que as imagens que juntamos traduzem muito bem) opta por construir um edifício de traça pós-moderna, sem qualquer espécie de ligação estética ao velhinho Cruzeiro, numa atitude de total desrespeito pela memória do Monte Estoril.

Parece que é esta a sina, novamente, do património, das memórias e da Identidade de Cascais!






quinta-feira

Câmara Municipal de Cascais Suspendeu Plano de Pormenor do Hotel Miramar no Monte Estoril





Numa iniciativa inédita na vida política Cascalense dos últimos anos, o Presidente da Câmara Municipal de Cascais, Carlos Carreiras, anunciou a suspensão do Plano de Pormenor para o Hotel Miramar, no Monte Estoril, de forma a ouvir os moradores do local e a integrar as suas opiniões no projecto de recuperação a realizar naquele espaço.

Com esta decisão a Câmara Municipal de Cascais contribui para a preservação da Identidade Municipal, valorizando a participação cívica e fomentando a verdadeira representatividade democrática.

Em termos práticos, os Monte Estorilenses pretendem a reconstrução do centenário hotel que ardeu durante o Verão de 1975, mantendo as principais linhas orientadoras da sua identidade e preservando uma volumetria e dimensão que seja adequada ao espaço em questão e à vocação turística de qualidade que todos desejam para o Concelho de Cascais.

A suspensão deste Plano de Pormenor da autoria de Gonçalo Byrne, também autor dos muitos constatados edifício Estoril-Sol e Plano de Pormenor da Cava do Viriato, em Viseu, vem garantir a requalificação do núcleo histórico do Monte Estoril e, a médio prazo, valorizará também o investimento que o promotor efectuou naquele imóvel através do up-grade urbanístico que se verificará no local.

Em declarações à Antena 1 e em resposta à conferência promovida pela Associação de Moradores do Monte Estoril (AMME), o edil Carlos Carreiras refere que está convencido que será possível encontrar uma solução que garanta a recuperação urbanística da envolvência em sintonia com a vontade expressa pelos moradores.

Bem esteve a Associação da Moradores do Monte Estoril, pela forma sentida e fundamentada como lidou com o problema, mas também o novo Presidente da Câmara Municipal de Cascais que, com esta sua decisão histórica, vem criar espaço para que se desenvolvam projectos que salvaguardem as memórias de Cascais e a qualidade de vida das futuras gerações de Cascalenses.

quarta-feira

Associação de Moradores Quer Salvar o Monte Estoril e o Antigo Hotel Miramar





O Movimento S.O.S. Monte Estoril, pela voz dos responsáveis pela Associação de Moradores do Monte Estoril (AMME), foi ontem oficialmente apresentado à comunicação social e tornou público um abaixo-assinado dirigido à Câmara Municipal de Cascais, à Assembleia Municipal de Cascais e à Sociedade Estoril-Sol, solicitando à autarquia o arquivamento do “Plano de Pormenor para a Reestruturação Urbanística do Terreno do Hotel Miramar”, mandado elaborar por aquela sociedade, e entretanto já com o parecer positivo da Câmara Municipal de Cascais; o qual, a ser executado irá destruir definitivamente o Monte Estoril.

Este Movimento de contestação, do qual faz parte igualmente o Cidadania CSC, entre outros movimentos e associações, conta já com a adesão de muitos cidadãos preocupados com o que poderá efectivamente acontecer no coração do Monte Estoril, nomeadamente Marcelo Rebelo de Sousa (1º subscritor do abaixo-assinado), Raquel Henriques da Silva (2º), André Gonçalves Pereira (3º), Carlos Pimenta (4º), Eugénio Sequeira (5º), Daniel Proença de Carvalho (6º), Rita Ferro (7º), João Carlos Espada (8º), Isabel Magalhães (9º), Pedro Feist (10º), Filipe Soares Franco (11º), Alípio Dias (12º), Manuel Pinto Barbosa (13º) entre muitos outros.

Para cumprir cabalmente este seu desiderato, a AMME apela à participação de todos neste abaixo-assinado que será essencial para a recolha dos apoios necessários à revisão deste inquietante projecto: http://www.gopetition.com/petition/43663.html

A Vivenda Miramonte: Um Repositório de Memórias do Monte Estoril





Apesar do seu aspecto rústico e quase inconsistente, a Vivenda Miramonte, situada na Rua do Lido, no Monte Estoril, é hoje um dos principais bastiões da memória urbana daquela localidade. Rodeada dos seus torreões e da cocheira que ainda hoje guarda os vestígios empoeirados dos últimos cavalos que ali pernoitaram, a Vivenda Miramonte foi a casa de José Dias Valente, fundador e Director do Colégio João de Deus, e personagem incontornável na História do Monte Estoril.

Construída já no início do Século XX, mas aproveitando os resquícios de um movimento romântico que o Monte Estoril nunca rejeitou, a Vivenda Miramonte é hoje um dos paradigmáticos exemplos da memória urbana do Concelho de Cascais.

Rodeada de um pequeno castelo, recriando o carácter altaneiro dos torreões que decoravam as vivendas mais eruditas, a Vivenda Miramonte complementa um quadro geral de que fazem parte da Capela, a garagem e o edifício das cocheiras. Do cimo dos seus mirantes, e fazendo jus ao nome da própria casa, o Monte Estoril surge em todo o seu esplendor, tornando invisíveis os muitos problemas que agravam paulatinamente a qualidade de vida naquele lugar.

Utilizando profusamente os valores arquitectónicos entendidos como tipicamente portugueses, dos quais se destacam o telhado de beiral duplo e o painel azulejar com a identificação do imóvel, a Vivenda Miramonte reúne as características próprias da habitação erudita de Cascais e a sublime singeleza das aldeias rurais do termo de Lisboa, produzindo um efeito cenográfico exemplar, que transforma este imóvel numa espécie de duplicação adaptada daquilo que eram os valores tradicionais da portugalidade.

A importância da Vivenda Miramonte, no entanto, não se fica por aqui. Para além dos aspectos relacionados com as suas características físicas, foi ali que habitou durante várias décadas o antigo fundador e Director do Colégio João de Deus.

José Dias Valente, detentor de uma inteligência invejável e de uma capacidade de concretização sem par, foi sempre considerado pelos que o conheciam como uma das principais referências do Monte Estoril.

Pelo Colégio João de Deus, durante vários anos o único estabelecimento de ensino liceal existente na Linha de Cascais, passaram muitas gerações de portugueses que contactaram e conheceram de perto o carácter do seu Director. Conhecido pela rectidão e pelo aprumo que dedicava aos seus afazeres, Dias Valente demonstrou sempre ao longo da sua vida que os valores que o norteavam se sobrepunham a quaisquer outras necessidades.

Como contava amiúde o Dr. Mário Quina, amigo próximo de Dias Valente e médico do Colégio João de Deus, em certa altura, logo no início da sua carreira académica, quando era ainda um mero principiante no curso de letras da Universidade Clássica de Lisboa, foi-lhe marcado um teste escrito logo para a manhã. No decorrer da prova, e perante a estupefacção dos seus colegas, o professor reparou que ele não estava a escrever, questionando-o sobre o que se passava. A resposta, imediata e fulgurante, não se fez esperar: “ainda não estou preparado”. O mestre, como é evidente, não gostou do que ouviu e a crítica foi imediata. Enchendo-se de brios, Dias Valente responde-lhe simplesmente: “Para aprender a sua matéria chegam-me 24 horas”. “Então” – disse-lhe o professor – “venha amanhã a exame”. Como era seu hábito, passou a noite a estudar e, no dia seguinte fez uma excelente prova, cujo mérito foi publicamente reconhecido.

Ao acabar o curso, e por discordar do sistema vigente, pretendeu defender uma tese sob o tema “A Escola Normal Superior Deve Ser Encerrada Por Imoral”. Como é fácil de perceber, a teses nem sequer foi aceite, facto que se traduziu numa espera de mais dois anos pela licenciatura, até que, de facto, a Escola Normal Superior fosse encerrada.

Todos estes factos, aliados à necessidade premente que o Monte Estoril possui de conseguir recuperar as características próprias da sua antiga qualidade, impõem a recuperação das memórias associadas às casas, às ruas e aos recantos da povoação.

Se assim não se fizer, corre-se o risco de desaparecerem as estórias que deram forma à História dos Estoris.