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sexta-feira

As Cocheiras do Monte Estoril




por João Aníbal Henriques

A excelência urbana do Monte Estoril, Concelho de Cascais, resulta da conjugação entre a forma de viver da sua comunidade e a definição criteriosa do seu espaço comunitário. As casas, as ruas, a decoração dos jardins e até as técnicas construtivas utilizadas na construção das habitações, dos seus muros delimitadores e dos seus equipamentos, fazem parte de um projecto global que pressupõe a recriação de um ideário social bem definido.

Um dos melhores exemplos desta projectada qualidade, até porque foi sempre imaginado e concebido como um equipamento de índole prática que se destinava a fins pragmaticamente dependentes do devir quotidiano da localidade, é o das Cocheiras do Monte Estoril.




Aqui, marcada pelo binómio que se caracteriza em permanência pelo contraste entre a existência burguesa e a aristocracia tradicional, acaba por influir na criação de uma nova identidade local, na qual o próprio carácter cénico da paisagem, do vestuário e da decoração das diversas casas, garante a manutenção das prerrogativas que mantêm no seu lugar cada uma das partes que compõem a nova totalidade social.

As Cocheiras do Monte Estoril são, por isso, um exemplo paradigmático dessa situação. Com uma colocação geográfica extraordinariamente boa, situada muito próximo da zona mais central daquela que foi na época a mais nobre das nobres localidades da Costa do Sol, o pequeno complexo das cocheiras possui características cénicas que permitem entendê-lo como uma espécie de tradução da sua singularidade face à totalidade do espaço envolvente.

Muito próxima dos outros, de que depende para sobreviver, a comunidade de assalariados que habita nas cocheiras possui um espaço próprio que, em termos do seu enquadramento estrutural, se alicerça em princípios estéticos que lhe garantem não se confundir com as partes restantes da paisagem urbana.

Construídas de raiz para albergar os empregados da Companhia do Monte Estoril, principalmente os operários que trabalharam na construção da linha férrea que ligava o Monte Estoril a Pedrouços, as cocheiras possuem no seu andar térreo uma série de espaços para guardar animais. Com todo o terreno vago que envolve o Monte Estoril, no qual facilmente se poderiam construir as instalações necessárias à colocação dos animais, a Companhia opta por colocá-los em conjunto com os seus operários, demonstrando assim que a centralidade do espaço construído para esse efeito, contrariamente àquilo que seria de esperar, não é definidora de uma qualidade e de uma excelência na sua existência, mas sim de uma certa discriminação, essencial para que se possa alicerçar a educabilidade que deveria enformar a criação da nova sociedade estorilense.




Em termos estéticos, a decoração utilizada para a concretização destas ideias, misto de beleza que deveria envolver uma zona nobre por excelência, e de uma certa particularidade que garantisse a satisfação da diferença, alicerça-se na utilização de uma cor diferente daquela que era utilizada para a generalidade das restantes habitações daquele novo espaço. Assim, enquanto que o ideal estético da denominada ‘Casa Portuguesa’, com a sua luminosidade alva nas paredes, envolvida nos pormenores rocambolescos de uma exuberância que dota aquele espaço de características que o vão transformando numa zona única em todo o panorama turístico português, assenta na pintura em tinta branca, fazendo recriar os laços existentes entre a nova vivência e aquilo que se pretendia consubstanciar como a existência tradicional do País, as cocheiras adoptam uma luminosidade opaca, baseada nos tons amarelados, ao qual se apensam alguns elementos decorativos em madeira. A utilização da cor, marcando a distinção do espaço servil face ao espaço nobre da localidade, e a decoração em madeira, marcando uma aproximação aos ideais estéticos de índole romântica que garantiam a dependência de ambos os espaços, é assim fundamento de uma formalização objectiva do património edificado enquanto elemento gerador de educação na nova comunidade.

A importância patrimonial das Cocheiras do Monte Estoril é, desta forma, profundamente dependente da hierarquia social que compôs a localidade na segunda metade do Século XIX, definindo um enquadramento cénico ao qual não é alheia a necessidade de construir uma sociedade diferente.

Hoje, quando o Plano Director Municipal de Cascais abre caminho a uma apreciação casuística de cada uma das peças patrimoniais do município, vale a pena visitar as recuperadas (e adaptadas) Cocheiras do Monte Estoril, onde é possível distinguir perfeitamente a inter-dependência que existe entre cada edifício e o carácter singular daquela outrora distinta localidade Cascalense.




Compreender o Monte Estoril exige uma perspectiva de conjunto. Cada uma das suas casas; cada detalhe do traçado sinuoso de cada arruamento; cada uma das pedras aparentemente mal-aparelhada  que compõe os seus muros; e até o aspecto algo arruinado de alguns dos jardins que sobreviveram desde a sua concepção romântica; faz parte do charme que levou longe o nome de Cascais.

Não compreender este princípio, que a Companhia Mont’Estoril utilizou na concepção linear da localidade, é condenar o Monte Estoril de outrora ao desaparecimento, carregando consigo a excelência pela qual Cascais foi mundialmente reconhecida em tempos que já lá vão. 

segunda-feira

Memórias da Vivenda Monte Branco - Monte Estoril




Memórias da antiga Vivenda Monte Banco, no sítio do Lago, no Monte Estoril, entretanto demolida e substituída por um incaracterístico edifício moderno e de betão, sem qualquer espécie de respeito e consideração pela identidade deste local tão especial.












quinta-feira

Gestão Pública e Privada na História do Monte Estoril




por João Aníbal Henriques

No Monte Estoril, foi criada de raiz a partir de 1880 uma estância habitacional e turística que funcionou como motor de um estereótipo urbano que, após ter sido importado das mais cosmopolitas cidades europeias, se adaptou perfeitamente ao devir social e histórico das localidades cascalenses.

A Companhia Mont’Estoril, que em 1890 tinha como principais accionistas o Conde de Moser, Carlos Pecquet Ferreira dos Anjos, a Sociedade Agrícola e Financeira de Portugal e o Banco Lisboa & Açores foi sempre, desde a sua fundação, o exemplo ideal de um projecto global de urbanização que se deparou com os problemas resultantes das muitas questiúnculas de pequena importância que impedem o excelente cumprimento do desiderato que inicialmente se propõe. De facto, quando foi criado, a Companhia Mont’Estoril pretendia unicamente transformar o Pinhal da Andreza, espaço vazio onde, segundo Branca Colaço e Maria Archer, se ouvia somente o sussurrar permanente do pinheiral, numa estância de renome internacional na qual a qualidade de vida urbana, assumidamente assente na vertente privada de todas as componentes urbanas do empreendimento, se assumia como principal objectivo.



Para o cumprir, os primeiros impulsionadores deste projecto, utilizando o prestígio social e profissional de cada um, recorreram a capitais privados para adquirir toda a área de implantação do actual Monte Estoril [excepção feita ao Monte Palmela]. Posteriormente, e dando mostras de uma larga criatividade que transcendia de forma absurdamente extraordinária tudo aquilo que se afigurava como procedimento normal em Cascais ou em Portugal, entenderam ser essencial que se procedesse a uma planificação prévia e minuciosa de tudo aquilo que se pretendia fazer. No âmbito desta actividade, foram projectados os arruamentos, a distribuição de água, as infra-estruturas primárias  como esgotos, iluminação, etc., as construções, e mesmo os pormenores decorativos de cada um dos equipamentos que haveriam de servir a nova localidade.



Como é evidente, sobretudo se pensarmos que no local onde a Companhia Mont’Estoril pretendeu erguer a sua novíssima estância, existia um espaço sem uso que envolvia uma das mais agradáveis zonas costeiras do Concelho de Cascais, fácil se torna perceber que a sua utilização como passagem pública seria óbvia, evidente e natural. De facto, povoações situadas a Norte do Monte Estoril, como a Amoreira, o Casal do Giraldo, Alcabideche ou Alcoitão, serviam-se de caminhos milenares que atravessavam o Pinhal da Andreza para aceder aos seus lares. Quando a nova companhia se instalou, dando início ao processo de urbanização, jamais se pensou em coarctar os direitos de atravessamento que ali existiam, nem tão pouco em privar as populações das redondezas daquilo que haviam sido as principais linhas que orientaram até aí a sua existência.

Apesar de tudo, e como consequência de um conjunto de querelas levantadas por parte de alguns dos inquilinos das propriedades da Companhia, no ano de 1900, o Presidente da Câmara Municipal de Cascais, Jayme Arthur da Costa Pinto, envia aos Directores da Companhia Mont’Estoril um ofício indicando que a pedido de um grupo de moradores da localidade, a edilidade iria proceder a uma vistoria coerciva à urbanização com o intuito de garantir que fica salvaguardado o livre trânsito e os direitos de propriedade dos requerentes.

Como resposta a esta missiva, e demonstrando que a legitimidade inerente ao carácter privado do empreendimento e ao conjunto de espaços de uso público que o integravam, se via reforçada com esta forma de gestão urbana, os administradores da Companhia Mont’Estoril, Arthur de Souza Tavares Perdigão e Carlos da Costa Osório, sublinham junto do Presidente que a edilidade não tem qualquer espécie de direitos nos terrenos pertencentes àquela entidade, tendo sido, por isso, ilegal, a vistoria que haviam anteriormente anunciado. Em termos que podemos considerar pouco próprios para lidar com uma instituição de sublinhada legitimidade como era a edilidade cascalense, os dois responsáveis indicam à câmara que, caso seja necessário, enviarão para a justiça este tipo de procedimentos: “Não reconhecendo direitos alguns à Câmara Municipal de Cascaes, ou a qualquer particular, contra a posse e propriedade da Companhia, e estranhando o procedimento havido, «por acto particular», sem processo judicial nem ordem de juiz, invadindo propriedade alheia, esta Companhia expoz sua situação legal e protestou contra o que se pretendia praticar. [...] Todos estes actos são até previstos e punidos no Código Penal”.




O ilustrado Presidente da Edilidade, remetendo para o uso milenar daqueles acessos por parte da população circunvizinha, responde aos proprietários que se não podem tolerar interferências de particulares na gestão corrente dos espaços públicos municipais: “Acusando a recepção do ofício de V.Exªs. de 11 do corrente, cumpre-me , em nome da Câmara da minha presidência, declarar que, as Ruas e Avenidas do Mont’Estoril, há anos abertas ao trânsito e ao serviço público, não estão, nem podem estar sujeitas aos caprichos ou interesses de qualquer particular, tanto mais, que, algumas daquelas vias públicas, são apenas variantes dos antigos caminhos para os lugares da Amoreira, Alcabideche e outros”.




A dualidade entre o público e o privado, contrapondo decisões consideradas essenciais pela administração da estância turística do Monte Estoril com necessidades de gestão corrente da edilidade, ficou cada vez mais evidente, à medida em que se foram esbatendo as características privativas e elitistas da Companhia que, com a proibição do jogo, viu altamente prejudicada a procura aos seus serviços e se viu constrangida a vender largas parcelas da sua enorme propriedade inicial. Na querela levantada por um grupo de moradores e/ou proprietários de lotes no Monte Estoril junto da Câmara Municipal, é visível a perda progressiva da força urbana da Companhia, bem como a diluição dos rígidos princípios doutrinários que haviam enformado a criação daquela nova localidade e que, como todos bem sabemos, haviam sido os principais responsáveis pelo elevado índice de qualidade até aí apresentado. No conjunto de correspondência trocada entre as duas instituições, o edil Jayme Arthur da Costa Pinto chega ao ponto de ostensivamente sugerir o recurso aos tribunais para a resolução do problema, colocando-se numa posição de vantagem perante o conjunto de pretensões dos outros litigantes: “A própria Companhia que V.Exªs. dirigem, compreenderá decerto, que esta Câmara não podia ficar indiferente perante a ameaça, em parte realizada, de se privar o público da livre passagem das ruas em que V.Exªs. mandaram colocar marcos; procedimento este, que alarmou os proprietários do Mont’Estoril, os quais, em representação legal, vieram à Câmara pedir providências urgentes afim de não serem esbulhados os seus direitos”.

Com as duas partes em litígio, ou melhor, com a penosa disputa que se estabeleceu entre uma entidade que pela primeira vez em Portugal procedeu à criação de uma urbanização ampla e previamente planeada, e o grupo de proprietários que, após terem adquirido lotes ou edificações no seu seio, acabaram por sentir que o conjunto de obrigações impostas pela entidade vendedora, e que se destinavam a garantir que os parâmetros de qualidade se atingiam e se mantinham eram demasiadamente onerosas, o Monte Estoril acabou por se tornar no primeiro exemplo daquilo que mais tarde se vai tornar o dia-a-dia do urbanismo no Concelho de Cascais: excelência, beleza e qualidade, na generalidade dos panfletos propagandísticos que promovem as novas urbanizações, mas um desesperante e abandonado caos urbanístico a caracterizar a dura realidade que posteriormente se implementa.




O princípio do fim da excepcionalidade do Monte Estoril, ao contrário do que pretendem fazer crer alguns investigadores, não se ficou a dever ao complicado processo de falência da Companhia. Pelo contrário!... O processo de insolvência da Companhia Mont’Estoril, bem visível, por exemplo, nos relatórios de contas relativos aos anos de 1908, 1909 e 1910, foi somente a primeira consequência daquilo que poderíamos considerar como a transição de uma gestão privada para uma gestão pública do espaço global do povoado.

Enquanto a Companhia Mont’Estoril controlou a totalidade dos elementos urbanos do povoado, desde os esgotos, à iluminação, passando pela distribuição de águas e pela limpeza dos arruamentos, a generalidade das despesas era assumida pela sua administração, que recolhia essas verbas do exercício das suas funções e das participações várias vezes solicitadas aos seus accionistas privados. No decorrer desse período, e pese embora o conjunto de pesados encargos que cabiam aos proprietários, a excelência era uma questão de honra no Monte Estoril, e a vida no povoado, em todos os pequenos pormenores que caracterizam o dia-a-dia, afigurava-se radiosamente fantástica.

Quando alguns proprietários, sentindo ser muito mais confortável e menos dispendioso, fazer transitar para a edilidade o conjunto de compromissos que haviam assumido junto da Companhia, e que eram as suas obrigações pessoais na manutenção dos parâmetros de qualidade que, inclusivamente, os havia impelido a adquirir as suas novéis propriedades, o processo de descalabro torna-se irreversível, e a qualidade urbana de outros tempos inicia uma fase de desmoronamento que se mantém até hoje.




Em 1911, quando o próprio Conselho de Administração, provavelmente bafejado com as interessantes e apelativas ideias de uma República recém-instituída, se resigna a esta passagem de testemunho, escreve-se então a primeira página do livro que leva à falência da Companhia, e que fará do Monte Estoril aquilo que ele é hoje: um monte em ruínas, envolto em betão, e sem qualquer espécie de resquícios de uma qualidade urbana que o caracterizou noutros tempos. O texto que o Conselho de Administração insere no relatório de actividades atrás mencionado é exemplificativo desta inversão de princípios orientadores (21): “Na ocasião de elaborarmos este relatório, uma comissão da qual fazem parte alguns dos mais distintos moradores do Mont’Estoril e que tomou sobre si a generosa iniciativa de promover melhoramentos locais para levantar o Mont’Estoril à altura a que a sua fama lhe dá direito, substituindo-se a esta administração para, entre outros trabalhos, conseguir a transferência das nossas ruas para a Câmara Municipal de Cascaes, transacção essa que se impõe pela necessidade de nos libertarmos dessa responsabilidade, dada a redução das nossas receitas e ainda pelo facto de o uso dessas ruas somente aproveitar ao Município. Além dessa circunstância existe ainda a de a transferência referida representar a vontade de todos os habitantes do Mont’Estoril que muitos são, pois entendem que esta Companhia já fez o mais que pode, de modo a reconhecerem a sua ausência de direitos para reclamarem contra o mau estado das ruas cuja reparação deve pertencer de facto ao Município que do Mont’Estoril cobra farta percentagem das receitas do Estado que incidem sobre a propriedade daquela estância”.

Mais à frente, deixando denotar alguma arbitrariedade na forma como altera a sua postura sobre os poderes públicos vigentes, e possivelmente deixando antever um cansaço que ficou a dever-se a mais de duas décadas de luta permanente com um conjunto de proprietários que permanentemente se inibe de investir nas suas propriedades como forma de contribuir para o bem comum da povoação, o mesmo Conselho de Administração apresenta uma espécie de rol de equipamentos urbanos que deveriam transitar para o poder público e que, pela sua actualidade e valor, são demonstrativos do estado de desenvolvimento que o Monte Estoril conheceu na sua faceta urbana, enquanto esteve dependente da iniciativa privada, em comparação com outras zonas do Concelho de Cascais que, dependendo sempre da gestão pública, ainda hoje não possuem este tipo de equipamentos que os monte-estorilenses do início do Século XX já há muito conheciam: “Entregaríamos, portanto, as ruas com as suas colunas e candeeiros de iluminação, bancos, arvoredo, e marcos, assim como o colector geral, que constitui actualmente o nosso único domínio de subsolo e transferiríamos para a Câmara, o contrato de iluminação das ruas que em tempos firmámos com as Companhias Reunidas Gaz e Electricidade. Entendemos que todo o nosso cuidado deve incidir sobre o legítimo respeito e observância dos contratos em tempos celebrados entre esta Companhia e Carlos Pecquet Ferreira dos Anjos, as Companhias Reunidas Gaz e Electricidade e Geral de Águas”.


O grau de aperfeiçoamento urbano do Monte Estoril era de tal maneira que, quando comparamos o projecto que enformou a concepção da localidade, ainda algum tempo antes do final do Século XIX, com aquilo que os partidos políticos da actualidade incluem nos seus programas eleitorais, ficamos deveras surpreendidos por encontrarmos como coisa concreta naquele lugar desde há mais de cento e vinte anos, coisas que noutras partes do Concelho de Cascais, continuam a ser miragens por concretizar em pleno Século XXI... A criação de uma rede de esgotos adaptada às necessidades da povoação; a preocupação permanente de gerir com qualidade o sistema de águas, por forma a garantir um fornecimento ininterrupto aos habitantes; a iluminação pública como sinónimo de conforto urbano e de segurança dos transeuntes; os bancos públicos; as árvores; e os marcos informativos e delimitadores de propriedade; são apenas alguns exemplos de equipamentos que existiam já no Monte Estoril em 1910 (serão provavelmente os mesmos que ainda hoje lá se encontram), e que, sendo assumidamente essenciais para a qualidade de vida diária das populações, teimam em continuar a não existir em vastas zonas habitacionais do Concelho de Cascais que sempre dependeram em exclusivo dos poderes públicos.

sexta-feira

Monte Estoril - Uma Estória da História de Cascais






Situada estratégicamente junto ao litoral cascalense, a povoação do Monte Estoril é certamente um dos locais que merece um maior cuidado de observação e análise. A sua importância, mais do que pelo enorme e valioso espólio arquitectónico e cultural que possui, vem-lhe da sua situação actual, misto de um cenário abandonado e destruído, onde a podridão, em conjunto com a actual putrefacta acção do Homem, tem vindo a promover o desenvolvimento de um caótico centro de consumo e distribuição de estupefacientes.

A situação actual do Monte Estoril, agravada por um desconhecimento paulatino relativamente às suas origens, é assim de perfeito desentendimento histórico, sociológico, cultural ou mesmo comercial, uma vez que, neste outrora rico e característico interstício da nossa linha de costa, é possível encontrar uma incompreensível mistura de novas edificações, inseridas numa arquitectura moderna e incaracterística, com velhos e esplenderosos edifícios de finais do século passado, excelentemente bam conservados e mantidos e que, por seu turno, possuem nas vizinhamças semi-destruídos restos do Monte Estoril de outrora, com as suas paredes enventradas e de onde se pode observar as muitas seringas e demais apetrechos que ali são deixados para as noites seguintes de prazer. Os interesses de todos aqueles que por ali habitam ou simplesmente passam, estão assim em confronto permanente, tornando também este espaço, outrora conhecido pela sua vivência comunitária, num sítio sem memória, sem passado, sem presente e sem perspectivas de futuro.

Para abordar de forma congruente o Monte Estoril de hoje, após vários períodos mais ou menos prolongados de incúria e destruição exacerbada, interessa fundamentar as observações que pretendemos em três perspectivas diferentes, afinal de contas as únicas que o tornaram naquilo que hoje representa: o local; a história; e as suas gentes.

Em primeiro lugar, este sítio é o resultado de um processo recíproco de interacção entre o Homem, o meio e a história que, em conjunto, fundaram uma povoação em que o caos aparente se transforma em harmonia, e em que o sentido inerente à sua disposição, embora dixando transparecer o êxito das acçãoes que ali foram levadas a efeito, depressa se transforma em acaso e insucesso, factores onde assenta, com raízes profundas o sucesso de outrora.



O Monte Estoril é, acima de tudo, uma mistura quase incompreensível de um cosmopolitismo lusitano com um aparente portuguesismo estrangeirado, conjugados com uma acção de reciprocidade aparentemente caótica, mas que mais não é do que o cume da montanha do paradoxo. Contradição, paradoxo e acaso são assim as principais formas que orientaram a criação deste outrora considerado “paraíso terrestre”, incompreensível à mente humana da actualidade sempre muito sujeita às pressões quotidianas da vida moderna, mas plena de sentido quando observada pelos eternos românticos do fim do século XIX. O sentido do Monte Estoril, bem presente em todos aqueles que daqui se consideram, muito embora possam ter nascido no ponto mais nórdico da Europa ou no extremo sul da Oceania, está assim patente e escondido; patente para quem o não procurar, perdendo-se no seio das ruelas ladeadas de jardins; e escondido, de todos os olhares atentos que por ali procurem observar algo de mais vigoroso e rico.

Torna-se assim difícil, perante esta pequena introdução, mencionar aquilo que foi, que é e que poderia vir a ser o Monte Estoril, uma vez que não existe um só, mas muitos, de acordo com a perspectiva de quem o observa. Tal como Cascais e as pequenas aldeias saloias que compõem o seu concelho, este pequeno aglomerado populacional vale por aquilo que representa, um símbolo da Portugalidade e uma ideia de algo que consegue existir para além de tudo aquilo que o Homem possa imaginar.

Dizia em tempos que já lá vão o sábio Santo Agostinho (1), que o tempo já não existe. O passado, segundo o próprio, não o podemos observar pois já passou, tendo deixado de existir; o futuro, ainda não veio, pelo que não existe também; e o presente pela fugacidade que o caracteriza, ainda não é presente quando nele pensamos porque ainda não veio, e já é passado quando esse momento passa, não podendo assim existir também. O mesmo se passa com o Monte Estoril, patente na mente de quem o imaginou, mas diferente daqueles que o programaram. O Monte Estoril é assim algo que não existe, existindo eternamente, fruto do pensamento dos Homens, da vontade dos Deuses, e adaptado aquilo que cada um dele espera.

A recuperação do Monte Estoril, mais do que um exercício de reordenamento urbanístico, tal como se fará noutras aldeolas do concelho de Cascais, é sobretudo a requalificação da conjugação daqueles três factores: o local, a sua história, e as suas gentes. A programada substituição da população Monte Estorilense por escritórios e serviços, tal como foi defenido no Plano Director Municipal de Cascais, é retirar deste espaço grande parte da sua marginalidade, mas é também retirar deste espaço priviligiado uma vivência característica e sã, que sempre norteou a actuação das populações que aqui habitaram. Se, pela mesma razão, se efectivarem estas ideias expressas pela edilidade cascalense, mais um passo terá sido dado para acabar com tudo aquilo que historicamente representa Cascais.

Se tal assunto, numa primeira análise, parece não interessar muito para o desenvolvimento harmonioso da Área Metropolitana de Lisboa e do próprio País, imaginemos a actuação análoga de muitas outras cãmaras municipais, sem qualquer espécie de representatividade efectiva, transformando Portugal num espaço turístico sem qualquer espécie de atractivo, e de onde estão ausentes todas as características da Portugalidade.

O Monte estoril de outros tempos oferecia o sol e o mar, conjugando tais factores com a beleza da sua paisagem e com o resplandecente movimento social que apresentava. O Monte Estoril de hoje não pode oferecer o seu sol que, como sabemos, está estragado pelas consequências nocivas de muitas décadas de utilização de aerossóis sobre a camada de ozono; o Monte Estoril de hoje não pode oferecer a praia, pois as águas do seu mar estão poluídas e mal-cheirosas, fruto de muitos anos de caos urbanístico e de uma construção desregrada que continua a aumentar; o Monte Estoril de hoje não pode apresentar a paisagem como atractivo principal, pois o abandono em que se encontra, fruto da especulação imobiliária e da incúria de muitos anos, o transformaram num subúrbio descaracterizado e perigoso da vila de Cascais; e por fim, e se calhar é esta a perincipal doença que apresenta, o Monte Estoril de hoje não pode já apregoar a cordialidade e simpatia que carcterizava os seus habitantes, pois muitos já faleceram e, aqueles que ainda ali habitam, têm de se precaver contra a incerteza de encontros fortuitos e maléficos com personagens altamente marginais que por ali deambulam.

Vamos criar um Monte Estoril novo mas velho ao mesmo tempo! Vamos contribuir para a recriação de Cascais e de Portugal! Vamos ser, ao mesmo tempo, membros e interventores na governação deste concelho, deixando administrar aqueles que verdadeiramente sejam cascalenses e portugueses, venham eles de onde vierem!...



Para o Paraíso Natural do Monte Estoril...

As abordagens que têm sido levadas a efeito sobre o Monte Estoril, sejam elas de cariz turístico, cultural ou mesmo social, possuem até hoje um elemento comum: o facto de assentarem, em exclusivo, sobre a dicotomia entre o património edificado e as pessoas que ali desenvolveram as suas actividades.

De facto, se atendermos ao Monte estoril de hoje, depressa nos aperceberemos de que essa relação recíproca entre as edificações e as pessoas que as utilizaram são a peça-chave para a compreensão daquilo que foi esta pequena povoação, outrora connhecida como a Côte d' Azur Portuguesa. No entanto, e porque de uma perspectiva geral pretendemos tratar, difícil seria deixar de abordar a temática directamente relacionada com o meio envolvente que, como se usa hoje dizer, diz respeito a todos, cabendo a todos um papel único na sua salvaguarda.

O meio ambiente do Monte estoril, pelo menos aquele que hoje encontramos, nada tem a ver com o outro que foi encontrado por José Jorge de Andrade Torresão, o primeiro dos grandes construtores dos chalés de veraneio do Monte. Segundo Branca Gontha Colaço e Maria Archer (2), numa das mais sentidas obras escritas sobre os concelhos de Cascais e Oeiras, e que, à laia de permeioaconselhamos vivamente a leitura e a reflexão sobre os assuntos focados, revelam ter sido o território actualmente ocupado pela povoação em questão, completamente deserto, apenas ornado de vastas manchas verdes de pinheiros que, inclusivamente, acabaram por influenciar a própria toponímia antiga do sítio, que se chamou, durante muitos anos, simplesmente Pinhal da Andreza: «Solidão absoluta. Nem casa nem choupana, Pã vagueava no seu domínio como um verdadeiro deus. Não se ouvia balido de ovelha nem flauta de pastor. O mar inundava, com seu canto majestoso, a solidão magnífica. Os pinheirais gemiam em uníssono as saudades dos temporais».



Estudar o Monte Estoril de hoje, pensando demoradamente sobre a razão de ser dos diversos chalés de diferentes características inexplicavelmente salpicando as antigas matas de pinheirais e ocupando progressivamente as apetecíveis colinas, é sobretudo um esforço de reconstituição daquilo que foi este mesmo território antes de possuir as actuais edificações. Como tal, qualquer estudo que se faça sobre a arquitectura e o urbanismo do Monte Estoril terá de possuir, a suportá-lo, uma abordagem mais alargada que permita perceber, em termos de colocação e divisão do espaço, qual a lógica subjacente ao desenvolvimento que se efectivou durante a última décadado século XIX. Como é óbvio, daqueles que primeiro chegaram a este sítio, encontraram uma disponibilidade total de ocupação do espaço, disponibilidade essa patente devido ao total alheamento dos construtores face ao enquadramento do conjunto edificado, uma vez que o mesmo não existia; alheamento ainda face a possíveis sujeições legais, pois não existiam parâmetros rígidos nem definidosque orientassem os projectos (quando existiam os projectos); e alheamento, afinal de contaspois o facto de o terreno não estar ainda muito utilizado, permitia a escolha precisa do local para criar a nova habitação, bem como a forma através da qual se desenvolveriam os arruamentos e os jardins que a iriam circundar. Actualmente, quando alguém escolhe um terreno para edificar uma habitação, tem obrigatóriamente de ter em conta as casas construídas em redor, tal como os acessos e o seu estado, e a forma como o quintal se poderá articular com a edificação e com a rua, de modo a promover as necessidades da família ocupante e de melhor cumprir os objectivos para que foi criada. Tal facto, ao contrário do que sucedeu no Monte estoril, ajudou a criar na actualidade uma certa monotonia de valores estéticos, facto que podemos observar nos novos bairros recentemente construídos, bem como nas vedações em tapume metálico que abundam em quase todos os quintais cascalenses. A rua assume aqui uma função de mera passagem deixando de marcar significativamente o carácter do local, facto que é acentuado pela cada vez maior necessidade de privacidade, que vai alterar toda a estratégia das relações de vizinhanças e, assim, reestruturar a concretização histórica do povoado.

No Monte Estoril, a ausência de construções foi motivo sobejamente suficiente para afastar dos primeiros edificadores todos e quaisquer receios de falta de privacidade, facto facilmente contemplável através dos muretes de baixa altura que circundavam as habitações. Por outro lado, a própria vivência social da época, fruto do enriquecimento abrasileirado de muitos burgueses lisboetas, criava a necessidade de promover a sociabilidade, facto que condicionou de modo perene as próprias características das ruas que tinham como principal função a de facilitar o acesso às novas edificações, mostrando, ao mesmo tempo, o esplendor de todas aquelas que ficavam na vizinhança.

As características das casas, bem como os pormenores que rodeiam a sua arquitectura, assumem assim um papel de verdadeiros documentos no que diz respeito à compreensão daquilo que foi a estrutura mental e social que esteve na origem do Monte Estoril. Os pequenos espanta-fantasmas, de ferro forjado e de formas arrojadas, muitas vezes aliados a janelas de águas-furtadas conjugadas com telhados de duas águas muito inclinados acentuando acentuando o seu carácter nórdico, mais não são do que características para serem admiradas do exterior, tanto mais que representavam a possibilidade de estas grandes famílias burguesas lisboetas usufruírem dos lucros que obtinham com as suas práticas comerciais e, assim, demonstrarem a aristocracia cascalense, que continuava a veranear em Cascais sem qualquer espécie de condições, que o seu poderio económico lhe permitia usufruir de excelentes condições de férias, muito embora não fossem bem recebidos nas praias da moda frequentadas pela Família Real e pela generalidade dos membros da corte.

Cascais mantinha nessa altura, praticamente todas as velhas estruturas que possuía muito antes de ser o local escolhido para o fim da época estival da corte. As casas, deterioradas por muitos anos de uso, e pelo completo desajustamento face às novas necessidades, só muito dificilmente se adaptavam às novas necessidades, sendo por isso bastante complicado, à grande aristocracia portuguesa, poder desenvolver umas férias na praia mantendo o estilo de vida que possuíam na capital. Pelo contrário, no Monte Estoril, a nova burguesia enriquecida, dada a facilidade que possuía na construção dos seus chalés, podia facilmente impor-se pela moda, aproximando-se assim daqueles que até aí tinham conseguido manter a supremacia do relacionamento da alta-sociedade portuguesa. Ramalho Ortigão, numa das suas mais conhecidas obras dedicadas ao acto de veranear, não deixa de acentuar que embora Cascais fosse a mais importante praia da Estremadura, possuindo até o palácio real, não deixava de sofrer com a falta de desenvolvimento urbano que a caracterizava (3): «Como povoação, Cascais é a mais importante das praias da Estremadura. É cabeça de concelho. O número dos seus fogos é de cerca de 1.700 - exactamente o mesmo número que existia há cem anos, o que prova que Cascais, se não tem prosperado, também não tem decaído durante o curso do último século». Tal facto é ainda acentuado pela estagnação que caracterizava os preços pedidos pelas habitações na vila de Cascais: «[...] A renda das casas, que se alugam com mobília e louça durante os meses de temporada de banhos, com quanto não seja absolutamente elevada, é ainda pouco menos do que o preço porque as mesmas casas se venderiam, se alguém as comprasse, há quinze anos» (4).

O contraste entre a velha aristocracia portuguesa, desde sempre acompanhando a corte e possuidora de genes que se ligavam directamente a vários episódios importantes da História de Portugal, estava patente em muitas ocasiões em longo deste verão, sendo de salientaro peso que tal diferença teve na forma como foi edificada a nova estância balnear do Monte estoril, e esta, em época subsequente, na mais jovem Estoril. É ainda Ramalho Ortigão que, nas suas “Praias Portuguesas”, muito ao estilo da literatura Nacional da época, melhor descreve esta disfuncionalidade social, responsável por episódios caricatos, divinamente relatados por Ferreira de Andrade na sua “Vila da Corte” (5) e que, pela sua importância na compreensão da ambiência e do enquadramento paisagístico do Monte Estoril, não hesitamos em transcrever: «As senhoras da burguesia destoam neste meio e não fazem bem em sujeitar-se ao contraste desse confronto, a não ser que não tenhamlevado as suas jóias, que não ponham senão vestidos velhos, que usem o mais simples dos penteados e que sejam despretenciosas e boas, - no qual caso todas as mulheres, qualquer que seja o seu nascimento e a sua categoria, são igualmente elegantes e distintas».

Esta necessidade de mostrar aquilo que possuíam, valorizando assim a posição recentemente assumida em desprimor daquilo que eram as bases sólidas da aristocracia de então, demonstra de sobremaneira as tentativas sucessivas que esta classe social desenvolveu com o intuito de se aproximar da elite social do País. Esses esforços, verificáveis quotidianamente através dos ornamentos e das jóias que procuravam ostentar, jóias essas que, na grande maioria dos casos não eram acessíveis à maior parte dos membros da aristocracia depauperada, causavam assim reacções cada vez maiores de encerramento dentro dos diversos grupos, que se protegiam desta forma das investidas cada vez mais audaciosas que eram promovidas pela burguesia.

Em termos mais simbólicos, era nas casas que se podiam encontrar os maiores vestígios da transformação social verificada em Portugal naquela época, sendo que, de entre todas as povoações deste País, o Monte Estoril é, com toda a certeza, aquela que maiores potencialidades de demonstração possui. as suas edificações, ornamentadas excessiva e excentricamente, promoviam o aparecimento de uma ambiência nova, facto que causou grandes transtornos à elite social vigente. As casas do Monte Estoril, principalmente aquelas que foram construídas com intuitos puramente de veraneio, são assim a face visível de uma terrível luta fratricida, que, que culminou em Cascais na tomada de poder por parte das forças revolucionárias republicanas, fruto de um exacerbado ódio criado no seio de uma dicotomia que separava o Monte de Cascais, e depois do Estoril e das restantes povoações da costa litoral deste concelho. Em relação a esta luta, é ainda Ramalho Ortigão quem na obra citada, melhor descreve a forma como se procurava a todo o custo, furar as apertadas teias da modernidade social, servindo-se de um saber instituído, mas também utilizando os estratagemas que derivavam na recente ascensão financeira do grupo: «Os homens novos que quiserem fazer o que se chama a entrada no mundo, a investtidura social, devem procurar esta praia para abrir a brecha, para penetrar na praça. Aconselhar-lhes-emos nesse caso que não emitem os homens que acompanham essas senhoras e são seus pares. Não, caro leitor inexperiente e amigo! Se quiseres ser recebido nesta sociedade portuguesa - em que se pegam os touros, em que se toca a guitarra, em que se dança o fado - não toques o fado, não pegues os touros, não bebas, não fumes, não deites para trás o chapéu dando-lhe um piparote na aba. Tudo isso fazem os fidalgos, mas tu, burguês, nunca parecerás um fidalgo se o fizeres. Parecerás apenas um moço de cavalariça e nenhuma dessas senhoras consentirá em que lhe apertes a mão. Não tenhas também muito espírito, nem maneiras muito acentuadas, nem opiniões muito expressivas. Sê o mais que possas fácil, complacente, obscuro, nulo. Vai à missa, lê o teu ripanço, está de joelhos na igreja, confessa-te uma ou duas vezes, veste-te como um padre ou como um saloio, dá-te um ligeiro ar idiota, inofensivo, pascácio. Terás um sucesso infalível. As senhoras receber-te-ão com agrado, como um auxiliar que não que não compromete, como um passivo, como um neutro. Apresentar-te-ão, rindo, às suas amigas. Pedir-te-ão os pequenos serviços suaves que se encarregam aos procuradores e aos capelães: que chegues uma cadeira, que vás buscar as luvas, o lenço ou o chapéu de sol que esqueceu, que acompanhes esta, que vás chamar aquela, que deites no correio uma carta para aqueloutra, etc.; terás uma incumbência de responsabilidade nos pic-nics, nos passeios em burro, nas soirées de subscrição; serás o ponto ou o contra-regra, o comparsaou o criado que traz a carta nas representações de salão. Converter-te-ás finalmente num personagem que será lembrado, requerido, utilizado. No ano seguinte àqueleem que por estes meios te ouveres introduzido na sociedade, poderás então tocar guitarra, enrolar nos dedos, em pleno clube, diante das senhoras, um pestilento cigarro de papel, arrojar o chapéu da testa para a nuca com o piparote fadista, e falar o calão - porque terás tomado posse, e principiarás a exercer o teu lugar de janota nacional, encartado e inamovível».

A constante luta travada entre os membros da burguesia endinheirada portuguesa e a velha e empobrecida aristocracia de cepa, tiveram o seu pontomais fulgurante na velhíssima vila de Cascais, que assistiu, em poucos anos, a uma radical transformação urbanística. Para responder à chegada da corte, muitos houveram que resolveram escolher Cascais para estância de veraneio, e esses, quando possuíam as posses necessárias para tal efeito, não hesitavam em construir as casas ao estilomais arrojado de então, servindo-se dessa construção e do seu esplendor para alicerçar a sua posição no espectro social nacional. É esse o caso, por exemplo do Palácio dos Duques de Palmela, construído de caordo com elevados parâmetros de qualidade e subordinado à experiência de arquitecto requintado e muito escolhido, com o intuito de fazer frente a uma ostentação que a coroa e a rainha dificilmente conseguiram suportar no seu mal-acabado palácio real adaptado da velha fortaleza de Cascais.

O Monte Estoril, em momento subsequente vai servir de resposta desta nova classe burguesa ao atrevimento social da aristocracia, utilizando para tal os recursos que possuia em maior quantidade: dinheiro, ideias inovadoras e espaço livre.

Foi sobretudo a conjugação deste capital imediato com a liberdade espacial que caracterizava o velho Pinhal da Andreza, que condicionou o aparecimento de uma povoação baseada em novos parâmetros urbanísticos, onde as dificuldades geográficas naturais, de acordo com o projecto de Carlos Anjos, se tornariam um incentivo essencial para a criação de uma ambiência que não existia em mais nenhuma parte do mundo. A construção do lago, e do aqueduto que traria a água da sua quinta de Vale de Cavalos, serve assim de exemplo para demonstrar quão importante era, para a época em questão, a ostentação da superioridade burguesa nacional, dispondo de verbas de valor e de força empreendedora, conseguindo tornar um desinteressante pedaço de terra, em mais um quase celestial povoado cascalense. O cuidado posto neste empreendimento foi de tal ordem, que o próprio Carlos Anjos previu com todo o cuidado o enquadramento necessário à criação de um ambiente novo, preservando as espécies vegetais de maior valor e misturando-lhes os vestígios de outras espécies exóticas trazidas de diversas partes do mundo O ponto a que chegou esse projecto foi tão profundo que o seu mentor previu ainda a cobertura das ruas com areia, como forma de promover a beleza e limpeza do sítio, bem como as aves que vagueariam por entre as ramagens viçosas e fulgurantes das espécies para aqui transportadas. O constante chilrear de pássaros mais ou menos conhecidos, misturado com o esplendor vegetal, completaria assim o conjunto fornecido pelas diversas edificações que possuiam também elas características que as tornavam únicas em todo o País.

A complementar estes aspectos urbanísticos a Sociedade do Monte Estoril, no mesmo projecto, proibiu a construção de muros de grandes dimensões, complementando tais directivas com a obrigatoriedade da recolha de pedras das praias Monte Estorilenses para a sua construção. As copas das árvores, tocando-se sob o azul do céu, em conjunto com os muros rústicos de pedra natural, promoveriam assim a tal envolvência espacial que a burguesia necessitava para transformar a sua estância de veraneio num local onde a qualidade de vida fosse, de facto, altamente apetecível.

Se no Monte Estoril foi possível criar uma povoação com estas bases, e que de facto se tornou única no mundo, tal se ficou a dever, em primeira análise ao envolvimento natural que lhe esteve na origem, sendo que a completa liberdade espacial, mesclada com as dificuldades geográficas que existiam em grande quantidade, promoveria neste sítio o nascimento de uma simbologia dinâmica e definitiva, transformando o Monte em algo de único que o devir histórico cascalense não tem conseguido preservar.








NOTAS:


(1) AGOSTINHO, Santo, Confissões de Santo Agostinho, Porto, Livraria Apostulado da Imprensa, Junho de 1984, pp. 303-304.

(2) COLAÇO, Branca de Gonta e ARCHER, Maria, Memórias da Linha de Cascais, Lisboa, [S/N], 1943.

(3) ORTIGÃO, Ramalho, As Praias de Portugal, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1943.

(4) Ob. Cit.

(5) ANDRADE, Ferreira de, Cascais - Vila da Corte, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964.