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quinta-feira

Fortes e Fortalezas de Cascais



por João Aníbal Henriques

Guarda avançada de Lisboa, a quem garantia protecção na entrada da barra marítima do Rio Tejo, Cascais foi sempre uma das peças fundamentais da estratégia defensiva da capital. Por isso, e ao longo de toda a sua História, foram muitas as estruturas defensivas que aqui foram construídas e os regimentos de homens que as vieram ocupar. Num périplo pelas fortificações marítimas e pela arquitectura militar, maravilhe-se com a forma como as pedras duras e as muralhas se espraiam em horizontes azuis repletos de sol e no recorto românticos das pequenas enseadas que outrora tiveram de guardar…

Trajecto:

Comece o seu passeio e admire o Forte do Facho em frente à Boca do Inferno. Siga pela Avenida Rei Humberto II de Itália e vire à direita no Beco do Farol até encontrar o portão do Farol de Santa Marta. Atravesse a ponte a contorne a fortaleza até chegar à Avenida Dom Carlos I. Saia da Fortaleza de Cascais e vire para a Rua Tenente Valadim e encontre a antiga porta do Castelo de Cascais e os restos a muralha. Desça a Rua Marques Leal Pancada até à praia, atravesse a esplanada e siga pela Rua Fernandes Thomaz, Rua da Saudade e Rua Frederico Arouca até ao Hotel Albatroz. Observe o antigo Baluarte de Nossa Senhora da Conceição onde está o Palacete Palmela. Continue pelo paredão até ao Estoril e admire o antigo Forte de Santo António da Assubida (actual Palacete Barros). Vire à esquerda contornando o Palacete Barros e suba a Rua de Olivença até encontrar o Forte Velho ou de São Pedro da Poça. Do outro lado da Praia da Poça, numa arriba sobranceira ao mar, está o Forte de São Teodósio da Cadaveira. Seguindo pela marginal, encontrará o Forte de Santo António da Barra a cerca de 1300 metros do seu lado direito.



01) Vigia do Facho / Boca do Inferno

Data de 1793 e é a única torre de vigia que subsiste do antigo sistema defensivo da Costa de Cascais. Servindo para reforçar a capacidade de observação da costa em ângulos de menor visibilidade, estas torres eram edificadas entre os fortes que guardavam os principais ancoradouros e eram equipados com um destacamento formado por um Cabo e por um Soldado.




02) Forte de Santa Marta

Construído no Século XVII por ordem de D. Luís de Menezes, o Forte de Santa Marta erguia-se junto ao espaço onde actualmente se encontra o farol. Os vestígios de muralhas que ainda subsistem são o que sobra da estrutura defensiva original que guardava a possibilidade de utilização da denominada Ponta do Salmodo para um eventual desembarque inimigo em Cascais. Há ainda notícia da existência neste mesmo espaço de uma antiga ermida do Século XVI dedicada a Santa Marta.




03) Cidadela de Cascais e Fortaleza de Nossa Senhora da Luz

Composta por várias fortificações construídas ao longo de várias épocas, a actual Fortaleza de Cascais compõe-se de vários espaços com forte impacto na paisagem e um grande interesse para uma visita. Na sua componente mais antiga, pode ver-se a Fortaleza de Nossa Senhora da Luz, datável do Século XV, que foi posteriormente reformulada durante a Dinastia Filipina (Século XVI) e durante o reinado de Dom João IV (Século XVIII). No Século XIX, a partir de 1870, a antiga Casa do Governador foi adaptado a Palácio Real, ali se instalado o Rei Dom Luís I e depois o seu filho Dom Carlos, durante o período estival. Importante é ainda a Capela de Nossa Senhora da Vitória, muito liga ao culto a Santo António.





 04) Castelo de Cascais

Quando em 1364 Cascais recebeu a sua Carta de Foral atribuída pelo Rei Dom Pedro, já a Vila possuía um castelo antiquíssimo que lendariamente remontava ao período da dominação árabe. Apesar de quase completamente destruído com o terramoto de 1755, subsistem ainda hoje alguns troços de muralha e a porta principal, junto à qual, durante muitas gerações, se reuniam os homens-bons do Concelho, para tomarem em conjunto as principais decisões de que a terra necessitava.




05) Baluarte de Nossa Senhora da Conceição / Casa Palmela

A construção do Baluarte de Nossa Senhora da Conceição, consta no Plano de Fortificação da Costa de Cascais, da autoria de Luís de Menezes e foi construído em meados do Século XVII. Situado estrategicamente num esporão sobre o mar, controlava os eventuais desembarques que poderiam acontecer no areal da Praia da Conceição e, a Nascente, em toda a linha de costa que se estendia até ao Estoril. No Século XIX foi vendido em hasta pública à Família Palmela e totalmente reformulado para habitação.



06) Forte de Santo António da Assubida / Palacete Barros

A fortificação original, denominada Forte de Santo António da Assubida e também conhecido como Forte da Cruz de Santo António da Subida, data do Século XVII e tinha como função principal o controle ao areal da actual Praia do Tamariz, cruzando fogo com o antigo Forte do Juncal que se situava onde hoje se encontra o Palacete Tamariz. No Século XX foi adquirido em hasta pública por João Martins de Barros que o demoliu, tendo sido construído no seu lugar o Palacete Barros com projecto do Arquitecto Cezane Ianz.




07) Forte Velho / Forte de São Pedro da Poça

Construído em 1642, depois da Restauração da Independência, estava ligado ao antigo Forte de São João através de uma muralha defensiva que protegia o areal da Praia da Poça, em São João do Estoril. A partir de 1947 e depois de muitas utilizações pontuais, foi entregue à então Junta de Turismo da Costa do Estoril que o transformou numa das mais requintadas e conhecidas casas de chá da região.




08) Forte de São Teodósio da Cadaveira

Originalmente envolvido de todos os lados por uma cortina de trincheiras, que funcionava como primeira linha de defesa, o Forte de São Teodósio da Cadaveira foi uma das mais importantes peças da estrutura defensiva da Costa de Cascais. Construído em 1642, integrado no reforço defensivo promovido por D. João IV depois da Restauração da Independência, perdeu as suas funções militares durante o Século XIX e está abandonado praticamente desde a construção da Avenida Marginal, em 1940, cujas obras obrigaram à demolição das suas estruturas de apoio.


 09) Forte de Santo António da Barra

Foi construído no final do Século XVI por ordem do Rei Espanhol D. Filipe II com projecto assinado por Vicenzio Casale. No princípio do Século XX é adaptado a colónia de férias do Instituto Feminino de Educação e Trabalho de Odivelas. A partir de 1968 ficou directamente ligado à História de Portugal, por ter sido ali que o Presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar, teve o acidente durante as férias que o afastou do governo e lhe causou a morte. 

HENRIQUES, João Aníbal, Levantamento Exaustivo do Património Cascalense, Cascais, Fundação Cascais, 2000

Memórias de Cascais na Época Medieval




por João Aníbal Henriques

Sendo certo que é geralmente difícil conhecer em profundidade as raízes medievais de uma terra ou lugar, o certo é que, naquelas em que a importância estratégica se apresenta, as menções diversas em documentação de vários géneros e a sua ligação aos mais importantes episódios da História Nacional, acabam por nos oferecer caminhos e pistas que facilitam esse reconhecimento e a compreensão dessa realidade. É esse o caso da Vila e do Concelho de Cascais.

Neste caso específico, existem variadíssimas razões para que tal aconteça. Em primeiro lugar porque, como acontece na generalidade dos casos análogos, o Castelo Medieval de Cascais teve certamente a sua origem em estruturas defensivas anteriores, muito possivelmente durante o domínio Árabe da Península Ibérica (711-1147) facto que lhe conferiu uma História longa no tempo e um assentamento humano que, prolongando-se ao longo de muitas gerações, deixa evidentemente vestígios das suas actividades. Depois, e tal como nos comprova a arqueologia, porque a generalidade destes espaços, e Cascais não foi excepção, viram-se ocupados por construções de outras origens que, principalmente em épocas de paz prolongada, iam subvertendo a sua original componente defensiva e militar, num uso de índole habitacional e doméstico. Ou seja. Reconfigurando-se o seu miolo, as estruturas defensivas originais perpectuaram-se no seio da estrutura urbana posterior e, dessa maneira, permitiram a conservação de muitos dos seus vestígios e de muitas postas sobre a forma como se organizavam anteriormente.

Cascais, de forma especial, pela proximidade ao mar e pela sua posição estratégica na guarda de Lisboa, necessitou de permanentes e profundas intervenções de manutenção e adaptação, pelo que o devir histórico das suas muralhas de foi permanentemente readaptando ao longo do tempo.

Por todas estas razões, o que muitas vezes nos resta em termos informativos relativamente a estes espaços, é uma amálgama de vestígios diversificados que não nos permite esmiuçar de forma profunda e rigorosa as origens reais e o momento do seu surgimento.

Por último, importa sublinhar que os testemunhos que subsistem dessas épocas são normalmente subvertidos por exageros, falta de isenção e, sobretudo, pela necessidade de adequação a interesses específicos que conjunturalmente afectavam a terra, as entidades oficiais, ou mesmo o próprio autor dessas palavras. A documentação, enformando desse desígnio, deverá ser, por isso, perscrutada com especial atenção, retirando delas as pistas que permitirão reinterpretar as palavras que contêm à luz do que hoje conhecemos sobre a realidade dessa época.

Em termos pictográficos, profusamente utilizados para tentar compreender a forma como Cascais existiu e evoluiu ao longo dos tempos, verifica-se ser muito difícil, devido a imprecisões diversas que a documentação apresenta, discernir aí a visão concreta sobre a realidade local. As plantas e imagens, desenhadas à mão por gente que por vezes tinha pouco apetência para as artes plásticas, condicionada pelo facto de não serem raros os casos de calques efectuados sobre outros decalques já de si portadores de diversas deficiências, tornam-se instrumento incapazes de nos apontar os dados pelos quais tanto ansiamos.

Em resumo, e salvo a possibilidade de uma eventual descoberta fortuita de nova documentação esquecida num qualquer arquivo, é praticamente impossível definir com total exactidão os contornos do que foi Cascais durante a época Medieval.

Ponto de honra é, no entanto, a certeza absoluta de que Cascais foi terra de importância extraordinária na definição do Portugal moderno. A comprová-lo, para além da relevância estratégica da sua posição de controlo da entrada na barra do Tejo e, por isso, enquanto guarda avançada de Lisboa, está a sua posse, durante este período por gente da primeira linha de fidalgos essenciais para a Casa Real. Gomes Lourenço de Avelar e, mais tarde, Henrique Manuel de Vilhena, foram ambos figuras excelsas de um Portugal ainda em afirmação no contexto de uma Europa envolvida em precariedade e, por tudo isso, são provas cabais do interesse que a Coroa dedicava a esta pequena Vila plantada junto ao mar.

A tudo isso não será estranho, até porque daí derivaram os muitos sucessos que nasceram da crise de 1383-1385, o facto de as Guerras com Castela terem aumentado a importância da Vila, tornando-a ponto fulcral na estratégica defensiva do Reino de Portugal.

As guarnições de soldados que acorreram à Vila, principalmente depois de Dom Pedro I lhe ter concedido a independência relativamente a Sintra, povoaram de forma permanente a outrora insignificante vilória, suscitando interesses complementares, ao nível do comércio e dos serviços, que condicionaram de sobremaneira a História recente de Cascais.

Cascais é, desta maneira, peça incontornável na medievalidade Portuguesa, assumindo papel de grande relevo na reformulação da pirâmide político-social Nacional. Nessa altura, como hoje, conhecer as origens da Identidade Cascalense, é perceber como é que a gestão das potencialidades deste tipo de territórios pode ser essencial na definição daquilo que somos, do que sentimos, do que fazemos e do que pensamos.