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segunda-feira

Politicamente Correcto: Duarte Pacheco e a Urbanização da Costa do Estoril



No dia 30 de Outubro de 1932, quase dez meses depois do início das obras de construção da actual Estrada Marginal, o Ministério das Obras Públicas deu início à segunda fase dos trabalhos.

Fazia parte do projecto inicial do Engº. Duarte Pacheco, complementando a componente de melhoramento de acessibilidades à Costa do Estoril, a criação de uma envolvente cenográfica que motivasse a actividade turística nesta região. A nóvel Estrada Marginal, com passeios de dois metros de largura em ambos os lados, calcetados “à antiga portuguesa”, com árvores colocadas de 5 em 5 metros, e com um murete em buxo que deveria ser interrompido de forma abrupta em todos os locais onde existissem motivos de interesse, era assim uma espécie de grande cenário onde os poucos automobilistas que existiam naquela época deviam circular de forma lenta e compassada, assegurando assim o usufruto total da riqueza paisagística da região.




Esta estrada, preparada cuidadosamente e decalcada de outras semelhantes que nessa altura surgiam nas principais estâncias turísticas do norte da Europa, mostrava um Cascais verdadeiramente espectacular, tapando cuidadosamente os troços mais degradados que, de acordo com o projecto, deveriam ser corrigidos ao longo da década de 40.

Complementarmente, e prevendo que o atractivo da Marginal suscitaria um incremento do interesse por Cascais, Duarte Pacheco projectou a construção de uma autoestrada que sairia das Amoreiras, em Lisboa, e se estenderia até ao Guincho. É que, segundo a memória descritiva do projecto, não seria possível assistir ao aumento de população criado pelos atractivos que a Marginal suscitava, sem que, em alternativa, se criassem também circuitos de acesso rápido que motivassem a instalação de indústrias e serviços que apoiassem a nova comunidade nascente.

Mas como Duarte Pacheco sabia que o surto de construção provocado pelo incremento da qualidade de vida na Costa do Estoril,  traria problemas sociais totalmente diferentes dos que existiam até aí, optou ainda por tomar a iniciativa de preparar aquele que foi um dos primeiros planos de urbanização portugueses: o Plano de Urbanização da Costa do Sol, mais conhecido como PUCS, que ficou concluído em 1948.

Da conjugação destes três grandes empreendimentos, Duarte Pacheco pretendia retirar as condições necessárias à consolidação daquilo que hoje chamamos “vocação turística de Cascais”, através de um plano global que abarcava os aspectos relacionados com o urbanismo, com as acessibilidades, com o emprego e com o turismo.



O crescimento que se previa para o Concelho de Cascais, com a introdução destas novidades, devia dar-se de forma progressiva, ordenada e equilibrada, preservando o bem estar e a qualidade dos habitantes e residentes, e promovendo um incremento que acompanhasse a chegada de novos moradores.

De facto, quase nada aconteceu como o Ministro das Obras Públicas previu.

A inauguração da Marginal, acompanhada de um acréscimo substancial de automóveis e de circulação, fez-se sem que tivessem sido concluídos os acabamentos sonhados por Duarte Pacheco; nessa altura, com a morte prematura desse visionário ministro, deram-se por concluídas as obras de construção da autoestrada para Cascais, só concretizadas no troço que ia até ao Estádio Nacional, e privou-se o Concelho daquela que seria a sua mais importante artéria viária; e o PUCS, malgrado as suas boas intenções e espírito inovador, viu-se constrangido em regular somente uma estreita faixa do litoral concelhio.




Conclusão: Cascais cresceu de forma drástica no seu território interior, entupindo assim a cenográfica Estrada Marginal; no litoral, mercê do desenvolvimento de novas técnicas de engenharia que não existiam em vida de Duarte Pacheco, a paisagem foi quase completamente absorvida pelos edifícios de betão; e a tão sonhada vocação turística foi constrangida pela anarquia urbana que se instalou.

Apesar de tudo, a construção da Estrada Marginal e os projectos do PUCS e da Autoestrada de Cascais, são exemplos paradigmáticos daquilo que deveria ter sido o devir histórico deste Concelho.

Duarte Pacheco, homem de ideais mas também de trabalho prático e de capacidade concretizativa, faleceu cedo demais e não conseguiu acompanhar os resultados da sua obra. Por certo, se não fosse aquele fatídico acidente, teria garantido a concretização de todos os seus aspectos, e assegurado a eficácia da sua ideia.

A sua capacidade política, bem como o seu carácter visionário, são a prova viva de que é possível programar um desenvolvimento sustentável para Cascais.

Assim haja vontade, capacidade e... disponibilidade para o fazer!


terça-feira

Estoril: O Glamour Real...





por João Aníbal Henriques

Da Igreja de Santo António e do Convento Franciscano do Estoril ao glamour do Casino, vão poucos passos mas uma História longa e verdadeiramente ímpar. A estância turística do Estoril, outrora estação terminal do charmoso Sud-Express, enche-se com as fragrâncias próprias de uma localidade que sempre quis ser uma grande referência de relevo internacional. Pelas ruas do Estoril, onde reis, rainhas, príncipes e princesas se cruzavam naturalmente com escritores, pintores, cantores, actores e espiões de gabarito mundial, ecoam ainda hoje os sons e as cores do mítico James Bond ou das maiores divas do cinema americano.

Trajecto:

Este passeio começa na Estrada Marginal em frente à Igreja de Santo António onde poderá ver o Casal de São Roque, a Igreja e a antiga Casa Paroquial. Mais à frente, ainda na marginal, encontrará o Edifício da Estação Telefónica do Estoril em frente à bomba de gasolina. Segue através da Rua Melo e Sousa onde verá a casa Camilo Farinas e a Casa Bustorff da Silva à sua esquerda e da Rua do Algarve, onde vai encontrar a Vivenda Volubilis. Daí segue para a Avenida Dom Nuno Álvares Pereira, virando à esquerda para a Rua da Beira baixa até encontrar a Casa do Rei Karol da Roménia. Virar para a Rua de Inglaterra que deverá subir até encontrar a Villa Giralda, virando novamente à direita através da Rua da Índia até regressar à Avenida Dom Nuno Álvares Pereira. A Casa Teixeira Beltrão fica à sua esquerda. Descer a Avenida General Carmona, passando pelas Casas Vale Florido e Boavista, até à Praça Almeida Garrett, onde encontrará o edifício do antigo Casino Estoril. Descer a Avenida Clotilde e admirar à esquerda o Hotel Palácio do Estoril seguido do edifício das Arcadas do Parque. Do outro lado da Avenida Marginal, por detrás da bomba de gasolina, estão as magníficas Cocheiras santos Jorge. Subindo a Avenida Marginal no sentido Nascente encontrará à esquerda a Estação dos Correios e a Casa de São Francisco. Mesmo ao lado está a Casa de Nossa Senhora de Fátima. Siga pela Avenida Biarritz e pela Rua do Porto até ao Hotel de Inglaterra.


 01) Casal de São Roque / Palacete Schroter / Tamariz

Construído sobre o antigo Forte de São Roque, que defendia o areal do Juncal de eventuais desembarques inimigos, o Palacete Schröter foi construído no início do Século XX pelo Conselheiro Driesel Schröter. A escolha de espécies exóticas para o seu jardim, nomeadamente o tamarindo, acabou por influenciar de forma decisiva a toponímica local, tendo a praia passado a designar-se como Tamariz. Depois de vendido, o palacete foi adaptado a casa-de-chá que assumiu o mesmo nome e impôs o Tamariz nos hábitos requintados da sociedade Estorilense. 




02) Igreja de Santo António

Construída no mesmo lugar onde em 1527 se encontrava uma pequena ermida de madeira dedicada a São Roque, a Igreja de Santo António do Estoril é um edifício datado do início do Século XVIII e esteve associada ao antigo Convento Franciscano de Santo António. Depois de ter sido arrasada durante o terramoto de 1755 foi rapidamente reconstruída com a traça que hoje apresenta, tendo sido novamente destruída por um incêndio em 1927 que obrigou a nova remodelação. Teve grande importância na vida política Portuguesa do início do Século XX devido à acção do seu primeiro Prior Monsenhor António José Moita. 






03) Casa Paroquial

A Casa Paroquial que está associada à Igreja de Santo António do Estoril foi edificada em meados do Século XIX por José Viana da Silva Carvalho, o proprietário original do Estabelecimento de banhos do Estoril. Depois, por intervenção do Prior do Estoril, Monsenhor António José Moita, foi readaptada para Casa Paroquial e foi sede de diversas instituições de apoio e intervenção social do Estoril. 





04) Edifício da Estação Telefónica do Estoril

Apesar de ser uma das primeiras obras de traço assumidamente modernista que o Arquitecto Adelino Nunes assinou no Estoril, o Edifício da Estação Telefónica do Estoril, edificado em 1933, é um extraordinário exemplo da forma como a nova concepção dos espaços se adapta com rigor às condições dos terrenos e à paisagem envolvente. Construído de forma linear e com um só andar térreo, o edifício evidencia-se pelo apelo ao movimento conseguido através da utilização cruzada de diversos corpos arquitectónicos, imaginado por dar continuidade à linha imposta pela Avenida Marginal e pela linha férrea envolvente. 





05) Casa Camilo Farinhas

Construída em 1930 por Camilo Farinhas, utiliza um projecto do Engenheiro Jacinto Reis Bettencourt em que a inovação assenta na utilização de uma ampla varanda para promover os valores estéticos tradicionais da denominada Arquitectura Portuguesa. A Casa Camilo Farinhas, que marca a charneira entre o tradicionalismo do projecto original de Martinet e as novas tendências modernistas no Estoril, é um dos últimos exemplos daquilo que haviam sido as propostas urbanísticas da Sociedade Estoril Plage. 





06) Casa Bustorff da Silva / Casal Branco

A casa de António Júdice Bustorff da Silva foi edificada em 1923 utilizando os valores urbanísticos e arquitectónicas da denominada Casa Portuguesa. A volumetria simples, que contrasta de forma evidente com a generalidade das casas construídas nessa época no Estoril, promove uma marca revivalista através da utilização de um modelos construtivo de génese ruralizante ainda com laivos do movimento romântico que o precedeu. 





07) Vivenda Volubilis

Marcando a paisagem envolvente através do impacto que consegue impor devido ao seu posicionamento no topo da colina que marca o início do Alto Estoril, a Vivenda Volubilis é um exemplo expressivo da arquitectura de cenário que dá forma à fácies urbana dos Estoris. Pensada para traduzir os ideias de beleza e força, traduzidos nos seus traços firmes de inspiração clássica, é uma casa de finais da década de 30 do Século XX que traça a forma desse período de afirmação da região. 




08) Casa Rei Karol da Roménia

Construída originalmente para Octávio Pinto da Rocha, que em 1928 requisitou ao Arquitecto Jorge Segurado uma habitação em estilo neo-clássico, foi mais tarde residência do Rei Karol da Roménia e adaptada por diversas vezes para se aproximar do ideal apalaçado que hoje apresenta. Apesar de bastante desfigurada com a alteração que lhe foi imposta para criação de um moderno condomínio, guarda ainda as memórias da sua antiga função real. 




09) Villa Giralda

Marcada ainda hoje pelas memórias muito vivas do exílio da Família Real Espanhola em Portugal, a Villa Giralda foi a sua residência oficial durante quase três décadas. Com uma vista privilegiada sobre o Estoril, foi no seu jardim que por acidente o actual Rei Juan Carlos disparou e matou o seu irmão o Infante Dom Alfonso. Com os seus muros baixos e a fachada aberta para a Rua de Inglaterra, a Villa Giralda é hoje a melhor imagem do cosmopolitismo real que deu forma à organização social do Estoril sobretudo no período que se seguiu às duas guerras mundiais.  




10) Casa Teixeira Beltrão

Projectada pelo Arquitecto Carlos Ramos e edificado em 1923 para Luís Teixeira Beltrão, o edifício, hoje abandonado, apresenta reminiscências dos laivos neo-árabes do período romântico que a antecedeu. A escadaria da entrada, monumentalizando uma fachada volumetricamente pouco interessante, recria um ambiente apalaçado que se afirma perante o portuguesismo das casas envolventes. 




11) Casa Vale Florido

Com projecto do Arquitecto Cristino da Silva e construída em 1939, a Casa Vale Florido é um dos melhores exemplos da arquitectura modernista no Estoril. Inserida num lote perpendicular ao estacionamento em forma de meia-lua que serve de cenário à fachada principal do Casino Estoril, foi alvo de grande controvérsia no momento da sua construção por ter sido apresentada como um contra-ponto ao modelo da dita “Casa Portuguesa” que nessa altura imperava na região. 




12) Casa Boavida

Tal como a anterior, a Casa Boavida segue os cânones construtivos da arquitectura modernista tendo sido edificada na década de 40 com projecto do Arquitecto Cristino da Silva. Tendo feito evoluir os conceitos originais desse movimento de vanguarda, o arquitecto utiliza nesta casa alguns dos principais traços que o aproximam da estética nacionalista como são os arcos e as pérgolas. 




13) Antigo Casino Estoril

Apesar de ter sido inaugurado somente em Agosto de 1931 o edifício do antigo Casino Estoril foi construído depois da adaptação do projecto original do Arquitecto Silva Júnior. A reformulação das ideias originais constantes do projecto urbanístico de Martinet e sobretudo o contributo dos Arquitectos Raoul Jorde e Pardal Monteiro, foram essenciais para o assumir das suas linhas modernistas que acabaram por ser percursoras de um vasto movimento arquitectónico que teve grande influência na História da Arquitectura em Portugal. 




14) Hotel Palácio Estoril

Inaugurado no dia 31 de Agosto de 1930, com uma cerimónia plena de pompa em que até o Presidente da República esteve presente, o edifício do Hotel Palácio do Estoril integra-se no original Plano de Urbanização do Estoril que Fausto de Figueiredo encomendou ao arquitecto Francês Henry Martinet. Utilizando valores estéticos neo-clássicos, em que se misturam alguns laivos do antigo romantismo com as novas orientações do modernismo, é o mais conceituado estabelecimento hoteleiro por onde passaram as principais figuras dos mundos da política, da moda, do espectáculo, das artes e das letras de todo o Mundo. 




15) Arcadas do Parque

Datadas de 1915 e inseridas no projecto assinado pelo Arquitecto Francês Henry Martinet para a Sociedade Estoril Plage, o edifício das Arcadas do Parque cumpre o propósito definido pelo promotor Fausto Cardoso de Figueiredo de criar um ambiente de grande conforto urbano, sempre com um cunho de base familiar, na sua nova estância balnear. Fechando o espaço, as arcadas definem os traços principais da arquitectura de fachada que há-de transformar-se na imagem de marca dos Estoris. 





16) Cocheiras Santos Jorge

Propriedade da Família Santos Jorge, que teve enorme influência na criação dos Estoris, as Cocheiras Santos Jorge foram projectadas pelo Arquitecto Norte Júnior em 1916, tendo feito parte da antiga casa de família que entretanto foi demolida. Utilizando um estilo eclético mas marcado de forma vincada por um revivalismo de orientação neo-romântica, é um expressivo exemplo da arquitectura de cenário que constrange a imagem promocional dos Estoris. 




17) Edifício dos Correios do Estoril

Sendo assumidamente a grande referência da arquitectura modernista do Estoril, o edifício dos Correios do Estoril foi edificado em 1936 sobre um projecto assinado pelo Arquitecto Adelino Nunes. Utilizando uma planta em V que lhe permite rentabilizar a forma do lote onde se insere, e apostando no destaque conferido à estrutura cilíndrica da fachada, o edifício marca o ponto de viragem no desenvolvimento urbano do Estoril representando o assumir do modernismo como principal traço da construção da cosmopolita estância balnear. 




18) Casa de São Francisco

Seguindo a linha orientadora do modernismo Estorilense, basicamente assente nos projectos do Arquitecto Adelino Nunes, António Varela projecta em 1936 uma casa de habitação destinada ao Engenheiro António Cortez de Lobão. A regularidade das fachadas, contrariada neste caso por uma inusitada entrada lateral, é contrariada pelos baixos-relevos que a decoram e lhe conferem algum movimento. É, para todos os efeitos, um dos mais relevantes exemplos de arquitectura modernista no Estoril. 




19) Casa de Nossa Senhora de Fátima

Datada de 1921, a Casa de Nossa Senhora de Fátima utiliza o modelo de implantação definido pelo Arquitecto Norte Júnior, repescando os valores mais tradicionais da Casa Portuguesa e apostando nos painéis de azulejos como elemento diferenciador. Foi construída pela Companhia de Crédito Edificadora Portuguesa, responsável pela promoção urbana do Estoril. 




20) Hotel da Inglaterra

Seguindo as orientações estéticas constantes no original projecto de Martinet, o edifício onde actualmente funciona o Hotel de Inglaterra foi construído em 1916 para Alexandre Nunes de Sequeira. Apesar de bastante alterado em 1917 para ser adaptado às funções hoteleiras, mantém incólumes os valores arquitectónicos definidos no projecto assinado pelo Arquitecto Silva Júnior. 

(c) HENRIQUES, João Aníbal, Levantamento Exaustivo do Património Cascalense, Cascais, Fundação Cascais, 2000













sexta-feira

A Propaganda do Estoril





As publicações de propaganda editadas pelo Estado através da Sociedade de Propaganda de Portugal, são unânimes na forma como a imensidão da capacidade de oferta do Estoril abre o leque das possibilidades a esta terra. 

Em 1935-40, Nuno Catharino Cardoso sublinha que a heterogeneidade daqueles que habitam no Estoril, respondendo de forma conveniente aos desejos dos muitos visitantes que nessa altura transformavam a Praia do Tamariz num dos mais significantes destinos de férias em Portugal (nunca é demais relembrar, agora que se comemoraram os cinquenta anos da invenção do biquini, que em Portugal só no Tamariz se podiam ver as senhoras com esse novo modelos de fato-de-banho e que de todo o País chegavam “turistas” que tinham como único objectivo vir ver as estrangeiras que ousavam gozar o Sol Estorilense com essa diminuta indumentária) implicava a existência de diversos tipos de oferta. 




Depois de elogiar o cosmopolitismo do Estoril, onde as nacionalidades se cruzavam de uma forma que a Europa só nessa altura começava a conhecer, o autor sublinha a grandiosidade e a modernidade dos edifícios Estorilenses, a beleza do seu parque e as arcarias que lhe forneciam um toque de glamour e simultaneamente de conforto que quase as transformava numa extensão das casas das suas gentes, Catharino Cardoso não hesita em considerar a pluralidade da oferta turística Estorilense como a principal base qualificadora do seu posicionamento: “Com hotéis de primeira ordem, tais como o Hotel Palácio Estoril e de todas as classes e com cómodas pensões, os Estoris devido ao seu clima privilegiado em que predominam magníficas temperaturas de Inverno e verão, tão benignas que até permitem que se tomem todo o ano banhos de mar e de sol, clima maravilhoso que dá mais de três mil horas de sol por ano, estão justamente destinadas a um grande e justo futuro entre todas as estâncias portuguesas”. 

E mais à frente, quando descreve os complementos da oferta do Estoril, também sublinha a existência de encantos naturais que se conjugam com os desportos que ali se praticam, referindo o golfe, o ténis e a natação com as áreas com mais interesse.




quarta-feira

O Veraneio em Cascais




Um clima e uma paisagem caracterizados por uma qualidade incomparável, aos quais se vem aliar um posicionamento estratégico sem igual no contexto Nacional, marcado pela proximidade face a Lisboa, e pela existência de excelentes condições de utilização dos seus vastos areais, fazem do actual Concelho de Cascais um espaço desde sempre atractivo para a ocupação humana.

A partir de finais do século XIX, sobretudo como consequência da intervenção urbana extremamente activa do Visconde da Luz, todas estas condicionantes evoluem recriando um espaço verdadeiramente apto a receber os novos visitantes. A construção da Estrada Marginal, que estabelece uma rápida e eficaz ligação a Oeiras e a construção do Caminho de Ferro até Pedrouços, criam novas acessibilidades que aproximam ainda mais Cascais da Capital.

A aristocracia de Lisboa, habituada a um ambiente seleccionado e a uma qualidade de vida a que se alia sempre o período de veraneio numa das longínquas praias da zona de Belém à Cruz Quebrada, passa a encontrar nesse locais , em consequências das transformações referidas, um número cada vez maior de lisboetas.

Cascais, e algum tempo depois os estoris, tornam-se assim o destino privilegiado da elite social dessa época. Suficientemente próximas de Lisboa para se tornarem acessíveis nos curtos espaços de tempo livre, e suficientemente distantes para garantirem a paz que o bulício da capital já não permitia, a Costa do Estoril assume-se definitivamente como a mais cosmopolita das terras de Portugal, para ali afluindo todos aqueles que valorizavam as suas características naturais e sociais.

Em 1870, quando o próprio Monarca D. Luís I, se instala na Cidadela de Cascais, é traçado em definitivo o destino turístico da localidade, facto que se consubstancia na introdução de uma série de inovações que fazem deste lugar um dos mais prósperos da época. A par da iluminação pública eléctrica , da rede de telefones, da electrificação do comboio, Cascais assiste à construção de um parque patrimonial sem igual.

As novas habitações, ostentando de uma forma marcante as origens sociais dos seus proprietários, vão tornar-se símbolos de uma nova sociedade, na qual a modernidade, o desenvolvimento e o progresso se assumem como elementos fundamentais. As características tipológicas das habitações desta época, inseridas num movimento de renovação da arquitectura europeia que altera radicalmente a paisagem das localidades portuguesas, recriam um ambiente em que a ostentação é demonstrativa de um novo estatuto.

Conhecer o Cascais de veraneio, no seio de uma amálgama de estilos que suportam uma sociedade muito própria, é reconhecer em cada um deste imóveis os traços marcantes de uma da memória daqueles que os projectaram e construíram o Portugal em que hoje vivemos.

O Veraneio Idílico em Paço d'Arcos




Depois de setecentos anos de História, Portugal percebeu que muito embora pareça separar, o destino do mar é reunir as pessoas. Com uma costa extraordinária pela extensão e pela beleza, somente a partir do Século XIX é que os portugueses se decidiram a aproveitar as potencialidades do seu Oceano. Paço d’Arcos, com a sua praia ilustre e as suas casas bonitas, foi das primeiras localidades portuguesas a transformar-se num moderno centro de veraneio.

Muito embora seja anterior a 1698, conforme se comprova pela inscrição existente no seu interior, a Igreja do Senhor Jesus dos Navegantes, em Paço d’Arcos, foi totalmente reedificada em 1877. Apesar do seu ar austero, e de um carácter eminentemente piscatório, foi o primeiro sinal visível da enorme e perene ligação que a localidade manteria em permanência com o mar.

Nos dias de temporal, quando as correntes e as ondas do mar se uniam para impedir o trabalho dos marinheiros, era na Igreja do Senhor Jesus dos Navegantes que todos se reuniam, rezando em uníssono pela melhoria das condições. Paço d’Arcos, nessa altura um mero lugar quase incógnito do Termo de Oeiras, estava marcado pelos arcos bem desenhados do seu palácio, rendendo-se inteiramente ao que de bom e de mau lhe traziam as ondas do Oceano.

A partir do Século XIX, quando as grandes cidades se vão transformando em espaços pesados com os resquícios das primeiras actividades industriais, o mar, o sol e a praia ganham outro valor, depressa se assumindo como a fuga possível às muitas epidemias e doenças que começavam a aparecer.

De acordo com Ana Gaspar, o alastramento da ideia de praia está directamente relacionada com os avanços na higiene pública, uma vez que a postura médica a define como método de profilaxia e tratamento de inúmeras doenças. A tuberculose, principal enfermidade desse tempo, mata cada vez mais doentes, transformando-se numa enorme praga que constrange a vida quotidiana e transforma mentalidades.

É precisamente nesta época e clima que Paço d’Arcos floresce, juntando ao seu velho palácio e à ancestral igreja, toda uma panóplia de novas construções que vão transformando por completo a face da vila. A inauguração do Caminho de Ferro entre Pedrouços e Cascais, em 1889, veio democratizar o acesso à água e ao mar, facto que ajudou a alterar ainda mais os hábitos requintados da velha aristocracia lisboeta.

Habituados a utilizar as praias semi-desertas dos subúrbios mais próximos da Capital, como Belém, Pedrouços ou Algés, os aristocratas lisboetas viram-se invadidos por inúmeros veraneantes de condições social diferente da sua que, com a modernização dos transportes, viam facilitado o acesso àqueles locais. Para todos os que não possuíam condições económicas para alugar casa junto à praia, os novos transportes representavam a possibilidade de passar alguns dias a banhos.

Procurando fugir do contacto pernicioso dos novos turistas, a aristocracia vai-se afastando de Lisboa, assumindo-se Paço d’Arcos como local privilegiado de veraneio. Pouco desenvolvida em termos estruturais, e por isso detentor da possibilidade de edificação de inúmeras habitações construídas de acordo com os mais modernistas valores da época, a localidade estava ainda bastante próxima da capital para permitir contactos rápidos em caso de necessidade, e suficientemente distante para resguardar o contacto social indesejado.

É nesta época distante que surgem em paço d’Arcos inúmeros chalets ao gosto suíço, bem como uma actividade comercial invejável, que satisfazia todos os desejos dos veraneantes. A publicidade, agora entendida como principal factor incentivador do usufruto destes espaços, é pródiga em anúncios que garantiam higiene, segurança e limpeza.

Unindo o útil ao agradável, as ilustradas senhoras de Lisboa encontravam em Paço d’Arcos as melhores profilaxias para os seus males, e uma sociedade ilustre e requintada que durante a noite se perdia por entre as inúmeras festas e espectáculos que por ali se realizavam. Ramalho Ortigão, nas suas “Praia de Portugal”, afirma ser Paço d’Arcos a praia aristocrática dos subúrbios de Lisboa: “... as caleches, os criados, as librés dos senhores ministros, as saute-en-barque de flanela e os chapéus canotier dos jovens senhores adidos de embaixada espargem nos passeios um aspecto de côrte, que os olhos admitidos aos grandes esplendores agradecem, bem como um perfume de moda que aceitam reconhecidos os narizes haut-placés”.

Para este clima festivo e aristocrático contribuía também a permanência em veraneio de El-Rei Dom Fernando e da sua esposa Condessa d’Edla, normalmente instalados no Palácio Bessone, junto ao rio. Esplendoroso, fino e delicado, são apenas alguns dos adjectivos utilizadas por Branca Gontha Colaço e Maria Archer quando descrevem o grandioso baile de despedida do ilustre Soberano numa das suas estadias em Paço d’Arcos.

Muito embora tenha perdido, em prol de Cascais e dos estoris, o esplendor de outros tempos, Paço d’Arcos continua a ser “a antiga praia das supremas elegâncias”.