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quinta-feira

O Castelo de Palmela




por João Aníbal Henriques

Altaneiro no cimo da Serra de São Luís, o Castelo de Palmela é, provavelmente, aquele que tem o melhor enquadramento cenográfico natural de Portugal. Com vista privilegiada para o Estuário do Sado, controlando as Serras da Arrábida e as terras de Tróia, o castelo apresenta características típicas das várias épocas construtivas a que foi sujeito.

A ocupação original do espaço, provavelmente da época Neolítica, ainda em período Pré-Histórico, enquadra-se na vivência mais comum deste tipo de construções, aproveitando a sua situação estrategicamente relevante para, num laivo de recrudescimento de eventuais posturas, se impor perante a envolvência e definir em seu turno uma vasta área de paz e de prosperidade.




A ocupação deste local é, assim, linear e contínua ao longo dos séculos, com focos permanentes de ocupação humana que lhe foram conferindo, através das suas intervenções na paisagem, a forma e as características que hoje apresenta.

Depois de Visigodos e de Muçulmanos terem feito de Palmela uma povoação de destaque no contexto da ocupação humana do território agora Português durante a Idade Média, foi na época conturbada da reconquista que se definiram em definitivo as suas dinâmicas de ocupação e de desenvolvimento.



Quando Dom Afonso Henriques, no esforço de reconquista das Terras de Portugal, derruba Lisboa, em 1147, abriu caminho para outras lutas e vitórias, que se estenderam, ainda na mesma data, a Sintra, Alenquer e Palmela.

Mas foi sol de pouca dura… a sua posição privilegiada na paisagem e a situação estratégica na defesa das entradas por mar via Rio Sado, tornavam Palmela demasiado importante para que a reconquista Cristã fosse facilmente concretizada e definitiva. Estratégias de contra-ataque, numa tentativa permanente de recuperar esta peça tão importante para a afirmação do poderio militar muçulmano, tornaram este castelo alvo de vários episódios sangrentos de conquistas e reconquistas, passando sucessivamente de mão para mão com evidentes prejuízos para a população e para a paz do local. Depois de recuperada pelos Árabes, Palmela foi reconquistada e novamente perdida pelas forças da Cristandade em 1158 e em 1165, data em que o Rei Dom Sancho I, numa tentativa fugaz de condicionar o destino do local, entrega o castelo à Ordem Militar de Santiago.

Mesmo assim, perante o poderio inaudito do líder muçulmano Abu Yusuf Ya’qub al-Mansur, voltou a cair nas mãos do inimigo e só em 1205 entrou em definitivo em mãos Cristãs.




Mas mesmo assim não foram de paz permanente os tempos do Castelo de Palmela. Mesmo depois de estar definitivamente integrada no Reino de Portugal, foi alvo de investidas e ataques que a desfiguraram, gerando um clima de insegurança e de incerteza que se prolongou pelos tempos. Em 1382, durante o reinado do Rei Dom Fernando, as tropas Castelhanas saquearam a cidade o o seu castelo, produzindo um índice de devastação que desfigurou de forma perene a estrutura defensiva daquele baluarte, obrigando à realização de obras profundas com vista à sua recuperação e ao reforço da sua capacidade de resistência às investidas dos inimigos, que lhe confeririam o aspecto que hoje lhe conhecemos.

Em 1384, novamente no âmbito de um cerco que punha em causa da sobrevivência do próprio Estado de Portugal, foi dos torreões do Castelo de Palmela que Santo Condestável Dom Nun’Álvares Pereira, o monge consagrado à devoção de Maria, avisou o Mestre de Aviz da chegada dos Castelhanos, acendendo ali enormes fogueiras que foram vistas a partir de Lisboa.




O Castelo de Palmela é, desta forma, uma das peças mais interessantes do património militar Português. Não só pelas características específicas que denotam a conturbação de quase dois mil anos de uma história pouco fácil, mas também pela sua intervenção específica nos destinos que a História reservou a Portugal.








sexta-feira

O Castelo de São Mamede em Guimarães




por João Aníbal Henriques

Quando a História se cruza com a lenda, recriando um cenário onírico onde fantasia e realidade compõem um espaço único que calcorreamos, criam-se as condições para que um determinado lugar assuma laivos de deslumbramento que perduram ao longo dos anos.

É o que acontece na Cidade de Guimarães, comummente aceite como “Berço de Portugal”, no topo da sua colina de Nossa Senhora da Oliveira onde se ergue o seu altaneiro castelo. A construção, que quase parece ter sido esculpida como se de um cenário de teatro se tratasse, impõe-se na paisagem da cidade e define de forma evidente o imaginário colectivo dos vimaranenses e representa a própria identidade de Portugal.




De acordo com a documentação histórica, o Castelo de Guimarães foi começado a construir pela Condessa Mumadona Dias, viúva do poderosíssimo Conde Hermenegildo Gonçalves que governou o Condado Portucalense no final do Século X. No ano de 968, para defesa de uma comunidade monástica que havia criado no sopé do monte de Guimarães, a condessa emite um documento de doação do castelo à comunidade religiosa com vista à sua protecção contra os gentios. Nesse documento, é mencionado expressamente que as obras de construção já estavam terminadas e que a designação oficial da fortaleza era São Mamede. Será, porventura, um dos mais antigos documentos de fundação existentes em Portugal e, com a clareza notarial que apresenta, é por certo o principal atestado que nos permite conhecer e perceber o processo que conduziu à formação da nossa identidade e, posteriormente, a conquista da independência nacional.

Depois da conturbação normal que resulta da morte da condessa e do processo de posse pelo qual lutaram os seus descendentes, o Castelo de Guimarães volta a intervir directamente no devir nacional quando é entregue, por ordem do Rei Afonso VI de Leão e Castela, ao Conde Dom Henrique. A doação real, resultante do casamento do nobre borgonhês com a filha segunda do monarca, D. Teresa, acompanha o processo de criação formal do Condado Portucalense e, segundo reza a lenda, é a principal responsável pelo facto de ali ter nascido Dom Afonso Henrique que, mais tarde, virá a ser o primeiro Rei de Portugal.



A ligação de Dom Afonso Henriques a Guimarães, eivada dos mistérios próprios das histórias que se criam e desenvolvem no imaginário popular, relaciona-se por sua vez com a célebre Batalha de São Mamede, na qual o futuro monarca derrota a sua mãe e assume oficialmente os destinos do país emergente. Ali, no ímpeto de uma das batalhas mais significantes da História de Portugal, o auto-proclamado rei desfere o golpe final contra a sua mãe. Em termos simbólicos, é este o momento decisivo na cisão definitiva entre a lealdade jurada ao rei estrangeiro e o assumir de um caminho novo, marcado pela protecção divina e até pela presença do Filho de Deus junto do novo rei, num episódio cujos contornos surgem enublados pela passagem do tempo, entrando numa zona de não-tempo e não-espaço onde desaparecem os indícios daquilo que é real e do que é imaginário.

São Mamede, o mártir Cristão que lendariamente nasce envolvido pela desgraça e que ao longo da vida se concentra numa relação de dependência profunda e directa da mercê de Deus, personifica a concretização do impossível e a o apelo à força de uma Fé que supera a própria existência do real. Tal como Dom Afonso Henriques fará em meados do Século XII, Mamede de Cesareia está marcado pelo destino. A ele compete zelar pelos fracos e pelos desprovidos de sorte, garantindo-lhes o estabelecimento de pontes directas com o céu. No cimo da colina do castelo, depois de ultrapassada a Capela de São Miguel, chega-se então ao portão daquele espaço especial, e cruzando-se a sua entrada, deparamo-nos com o cenário mais linear do que foi o próprio nascimento de Portugal.

O mártir São Mamede, depois de atacado no estômago pelo rei pagão, sobreviveu graças à intervenção de Deus Pai. Directamente do céu, foi a própria divindade quem lhe colocou um estômago novo, permitindo-lhes resistir ao ataque e sobreviver para continuar a promover a sua Fé. Mas, quando tudo parecia indicar um desfecho oposto, Deus dirige-se a Mamede e diz-lhe que os seus dias na Terra chegaram ao fim… e ele aceita, numa entrega consubstancial à vontade do seu Pai, e entrega prazeirosamente a Alma ao Criador, sabendo de antemão que o milagre que deu forma à sua curta vida era, ele mesmo, a pedra angular que reforçaria a Fé de tantos que haveriam ainda de nascer num futuro que ele não sonhava e nem sequer concebia.

Ao fundar Portugal, o Rei Afonso Henriques cumpre destino idêntico. Dá forma, corpo e vida ao novo Estado de Portugal, numa entrega absoluta à vontade de Deus e antecipadamente disposto a sacrificar a sua vitória em prol de um outro qualquer desígnio. A subida do monte em Guimarães, tendo como horizonte da Senhora da Oliveira cuja orientação assegurava o bom carácter do seu trajecto, fê-la de forma totalmente desligada da matéria, numa quase absurda ingenuidade de sentimentos que o afastavam do tempo e do espaço em que viveu. Por isso Ourique foi algures em Portugal, embora tenha sido palco privilegiado da visita do próprio filho de Deus! E, sem tempo e sem espaço, foi em todo o território de Portugal que isso aconteceu.




Como para poder nascer é necessário morrer, numa inversão completa da lógica de pensamento que constrange a cultura Ocidental, Afonso Henriques gera o novo reino num registo de imaterialidade que permite ao improvável país novo a sobrevivência num cenário em que nada o deixaria antever. Foi um milagre o nascimento de Portugal e milagre maior ainda a sua sobrevivência durante tantos séculos. Tudo foi possível, soba égide de São Mamede, porque em Guimarães, cadinho sagrado da Alma de Portugal, Afonso foi capaz de viver em pleno a consagração e de concretizar o irrealizável aos olhos dos homens por exclusiva vontade de Deus…

Depois de obras profundas realizadas no castelo pelo Rei Dom Dinis, o mesmo que foi casado com a alquímica Rainha Santa que transmutava a matéria aos olhos do povo e do seu Rei, o Castelo de São Mamede ganha a fora que hoje ainda tem. Passam-se depois vários séculos de paulatino abandono, mercê da estabilização territorial que torna inútil o altaneiro castelo, processo que culmina com a sua classificação como Monumento Nacional em 1908, que virá a desencadear uma intervenção profunda realizada em pleno Estado Novo pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Deste período ficou o aspecto cenográfico das suas muralhas, apimentadas com as ameias neo-medievais, que o retiraram do desinteressante e pouco edificante papel de fortaleza principal do Reino, para lhe conferir o título onírico de Berço de Portugal.

Em Guimarães ainda hoje se sente no ar o perfume fugidio desse sonho de antanho. As pedras das casas e das velhas capelas, erguidas à sombra do portentoso castelo e das imensas lendas que sempre o rodearam, vão refulgindo num brilho obscuro que acompanha os momentos bons e maus de Portugal.

É obrigatório visitar, explorar a fundo e conhece cada detalhe deste castelo excepcional. Até porque ali (ali mesmo naquele recanto sombrio do velho recinto amuralhado) nasceu Portugal!

segunda-feira

E Assim Nasceu Portugal: 23 de Maio de 1179




Alexandre, Bispo, Servo dos Servos de Deus, ao Caríssimo Filho em Cristo, Afonso, Ilustre Rei dos Portugueses, e a seus Herdeiros IN PERPETUUM.

Está claramente demonstrado que, como bom filho e príncipe católico, prestaste inumeráveis serviços a tua mãe, a Santa Igreja, exterminando intrepidamente em porfiados trabalhos e proezas militares os inimigos do nome cristão e propagando diligentemente a fé cristã, assim deixaste aos vindouros nome digno de memória e exemplo merecedor de imitação. Deve a Sé Apostólica amar com sincero afecto e procurar atender eficazmente, em suas justas súplicas, os que a Providência divina escolheu para governo e salvação do povo. Por isso, Nós, atendendo às qualidades de prudência, justiça e idoneidade de governo que ilustram a tua pessoa, tomamo-la sob a protecção de São Pedro e nossa, e concedemos e confirmamos por autoridade apostólica ao teu excelso domínio o reino de Portugal com inteiras honras de reino e a dignidade que aos reis pertence, bem como todos os lugares que com o auxílio da graça celeste conquistaste das mãos dos sarracenos e nos quais não podem reivindicar direitos os vizinhos príncipes cristãos. E para que mais te afervores em devoção e serviço ao príncipe dos apóstolos S. Pedro e à Santa Igreja de Roma, decidimos fazer a mesma concessão a teus herdeiros e, com a ajuda de Deus, prometemos defender-lha, quanto caiba em nosso apostólico ministério. Continua, pois, a mostrar-te filho caríssimo, tão humilde e devotado à honra e serviço da tua mãe, a Santa Igreja Romana, e a ocupar-te em defender os seus interesses a dilatar a fé cristã de tal modo que esta Sé Apostólica possa alegrar-se de tão devoto e glorioso filho e não duvide da sua afeição. Para significar que o referido reino pertence a São Pedro, determinaste como testemunho de maior reverência pagar anualmente dois marcos de oiro a Nós e aos nossos sucessores. Cuidarás. por isso, de entregar tu e os teus sucessores, ao Arcebispo de Braga pro tempore, o censo que a Nós e a nossos sucessores pertence. Determinamos, portanto, que a nenhum homem seja lícito perturbar temerariamente a tua pessoa ou as dos teus herdeiros e bem assim o referido reino, nem tirar o que a este pertence ou, tirado, retê-lo, diminuí-lo ou fazer-lhe quaisquer imposições. Se de futuro qualquer pessoa eclesiástica ou secular intentar cientemente contra o que dispomos nesta nossa Constituição, e não apresentar satisfação condigna depois de segunda ou terceira advertência, seja privada da dignidade da sua honra e poder, saiba que tem de prestar contas a Deus por ter cometido uma iniquidade, não comungue do sacratíssimo Corpo e Sangue de Jesus Cristo nosso divino Senhor e Redentor, e nem na hora da morte se lhe levante a pena. Com todos, porém, que respeitarem os direitos do mesmo reino e do seu rei, seja a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo, para que neste mundo recolham o fruto das boas obras e junto do soberano juiz encontrem o prémio da eterna paz.

Amen. Amen.

Pedro. Paulo.

Alexandre Papa III

23 de Maio de 1179



5 de Outubro de 1143: cumprem-se hoje 872 anos de independência de Portugal




por João Aníbal Henriques

No dia 5 de Outubro de 1143, há precisamente 872 anos, o Rei Afonso VII de leão e Castelo reconheceu o antigo Condado Portucalense como reino independente e Dom Afonso Henriques como rei. Neste dia nasceu Portugal.

Com a assinatura do Tratado de Zamora, assente nos factos atrás mencionados, o novo monarca Português dá início à designada Dinastia Afonsina e ao processo lento, moroso e complicado de fazer reconhecer Portugal pela Santa Sé.

Em 1143, o tratado veio reconhecer o reino e o rei, mas Afonso VII exigiu que para que esse reconhecimento se efectivasse, o rei português aceitasse manter-se como seu vassalo directo. Afonso Henriques, sabendo de antemão que a liberdade de movimentos e de determinação da sua história dependiam do reconhecimento papal, enceta um percurso que se arrastará até 1179 quando o Papa promulga a Bula Manifestus Probatum e definitivamente assume o rei português como seu vassalo directo, libertando-o dos laços que o mantinham na dependência de Castela.

Ao longo destes quase novecentos anos de história, Portugal tornou-se num caso extraordinário na Península Ibérica e na Europa, sendo afinal o único dos pequenos reinos que conseguiu sobreviver aos desígnios dos grandes países que se impuseram. Com excepção do período de domínio filipino, entre 1580 e 1640 e, mesmo assim, sob o lema de “dois países e uma só coroa”, dado que os monarcas espanhóis mantiveram a independência formal de Portugal assumindo no nosso país uma designação diferente daquela que utilizavam em Espanha, Portugal foi capaz de responder sempre aos grandes desafios que se lhe colocaram, contornando dificuldades e impondo-se sobre as suas especificidades e características.

Em 13 de Junho de 1985, em conjunto com Espanha, Portugal voluntariamente assina o tratado de adesão à então CEE, depois de um processo diplomático longo e muito complicado cujo principal mentor foi Mário Soares. A concretização deste desígnio é, aliás, confirmada em Janeiro de 1986, em cerimónia que decorreu no Mosteiro dos Jerónimos, já com Cavaco Silva enquanto Primeiro-Ministro.





Mas são muitos os factos e os acontecimentos que causam estranheza neste dia 5 de Outubro. A começar pelo (quase) incrível facto de não ser feriado em Portugal neste dia em que se comemora o nascimento do País e a conquista da independência nacional. 5 de Outubro de 1143 deveria ser estudado, compreendido e devidamente assinalado pois é ele que determina toda a existência política do nosso País até à entrada neste Europa. Depois, mais estranho ainda, é o facto de tanto esforço e dedicação que foram necessários para cumprir este objectivo, tenham sido anulados pelo esforço feito por Mário Soares e Cavaco Silva para desbaratar essa independência numa adesão incondicional e destravada a uma Europa com qual nada tínhamos a ver. E, sobretudo, o facto de esta entrega incondicional da nossa soberania, ter sido alcançada numa posição de subserviente obediência aos organismos Europeus, sem que Portugal tenha sido capaz de oferecer à Europa um contributo que resultasse das suas imensas potencialidades, não valorizando a sua entrada com um contributo que capitalizasse as suas posições e decisões, mas tão só enquanto membro-pedinte que ficou refém dos fundos e das infra-estruturas que a Europa ofereceu.


No dia 5 de Outubro de 2015, marcado pela ausência do Presidente da República nas muitas cerimónias que procuram reforçar as memórias da revolução que nefastamente e de forma antinatural implantou a república em Portugal (porque está sossegado a pensar), importa recordar os bravos de 1143, que neste dia deram corpo ao mais importante dia da vida Nacional.

quarta-feira

O Castelo de Montemor-o-Novo e a Vergonha de Portugal...




por João Aníbal Henriques

Ligado, de forma perene, às memórias de Vasco da Gama e à preparação da viagem marítima para a Índia, o Castelo de Montemor-o-Novo é um dos mais emblemáticos e maiores castelos de Portugal.

Situado no alto e um morro sobranceiro à planície alentejana, o castelo tem uma História antiga que provavelmente se perde nas brumas antigas da pré-História. Ali terá existido um castro que foi mais tarde romanizado, transformando-se então no centro de uma das mais importantes malhas viárias do império. Nele convergiam as Estradas de Évora e Mérida e, por outro lado, as que levavam a Olissippo e ao estuário do Rio Tejo, chamando-se nessa época Castrum Malianum. É esse facto, aliás, que explica o reforço do amuralhamento primitivo da cidade, reforçando a importância estratégica da sua localização.




O carácter de Montemor-o-Novo reforçou-se ainda nos inícios da Idade Média quando o território foi conquistado pelos Muçulmanos. É neste período que  a cidade conhece a presença de Almansor que, mais tarde, acabaria por ficar definitivamente marcado na toponímia do local, dando nome ao ribeiro que ainda hoje corre no local.




Em termos de desenvolvimento urbano, a importância de Montemor-o-Novo é bem patente no rápido e fulgurante aumento da população que, extravasando as muralhas do seu castelo, rapidamente de estende pelas colinas que o envolvem. Desde meados do Século XIX, com a pacificação do território e a progressiva degradação das condições de salubridade dentro das muralhas, foi a povoação medieval quase completamente abandonada em prol da afirmação da nova cidade extra-muros.

No seu regresso à Portugalidade, Montemor-o-Novo  foi reconquistado definitivamente pelo Rei Dom Sancho , em 1201, depois de Dom Afonso Henriques a ter reconquistado uma primeira vez em 1160. Trinta anos depois, em 1190, a cidade foi novamente tomada pelos Árabes que aí se mantiveram até à sua expulsão definitiva.

Para assegurar o seu repovoamento e defesa, o rei conquistador concedeu-lhe o primeiro Foral em 1203, documento esse que foi reconfirmado pelo Rei Dom Manuel I já no Século XVI (1503).




Palco de cortes por diversas vezes, foi em Montemor-o-Novo que o Rei Dom Manuel I tomou a decisão de enviar Vasco da Gama na sua viagem marítima até à Índia, sendo, por isso, aí que reside aquela que será porventura uma das decisões mais importantes para o devir histórico da própria humanidade. Como se diria mais tarde “de Montemor-o-Novo se mudou o Mundo e as suas gentes”…

Foi também em Montemor-o-Novo que nasceu São João de Deus (1495-1550), fundador da Ordem dos Hospitalários que ainda hoje se encontra espalhada por todo o Mundo.




Em termos de património, foi a cidade alvo de diversas campanhas de recuperação e actualização que, para além de alterarem de forma profunda a sua paisagem, acabaram por determinar o galopante estado de degradação que o terramoto de 1755 acabaria por acentuar.

Apesar disso, a Praça de Montemor-o-Novo resistiu ao ataque de Junot, durante as Invasões Francesas, tendo sido quartel-general das hostes liberais durante a Guerra Civil que opôs Portugueses contra Portugueses em pleno Século XIX.

Classificado como Monumento Nacional desde 1951, e apesar da sua extraordinária importância na percepção de Portugal e da sua História, o Castelo de Montemor-o-Novo continua num estado de degradação que é, de todo, incompatível com as potencialidades que apresenta.




Continuamente apresentado como palco de grandes campanhas de estudo e de intervenções arqueológicas, quase sempre acompanhadas de projectos para recuperação e musealização do espaço, o certo é que as muralhas continuam a apresentar um estado de ruína e de abandono que representam uma autêntica vergonha Nacional.



Dentro do recinto, e para além da recuperada Igreja de Santiago, faz dó visitar as ruínas do Paço Real, da Igreja de São João Baptista ou da Igreja de Santa Maria do Bispo… Uma verdadeira tristeza… 











sexta-feira

Portugal e a História da Europa


A Europa é um continente em permanente ebulição. As transformações e a mudança, marcando o devir da História, alteram permanentemente a forma e os equilíbrios dos Estados, fazendo nascer e morrer Nações. É interessante ver este vídeo e perceber que num timeline longo como é aquele que traduz os dois últimos milénios, existe uma só Nação que permanece firme nas suas fronteiras e sobrevive, contra tudo o que seria expectável, aos desafios que as mudanças dos outros parecem querer obrigá-la a fazer. Chama-se Portugal e nasceu oficialmente assim em 1143. 

quarta-feira

História da Vila e do Concelho de Cascais





por João Aníbal Henriques

Com uma vasta história repleta de pequenos incidentes, Cascais é uma vila com um ambiente que nos envolve desde o momento em que nela entramos.

De uma maneira geral, tanto para os que dela são naturais como para os que nela somente residem, Cascais apresenta-se com um enorme potencial atractivo, e embora o presente seja uma constante no quotidiano de cada um, também o passado nos espreita por cana “vinte passos” que nela damos.

Temos vindo a utilizar com relativa frequência o nome de Cascais, embora este nome seja efectivamente recente. O seu topónimo originário, segundo algumas teses, remonta provavelmente à época romana, tendo por base termos latinos como Cascales ou Cascanes. Desde as mais elaboradas até àquelas que se rodeiam de uma espessa auréola de melancolia, espelhando de sobremaneira a tradição popular, muitas tem sido apresentadas ao longo dos últimos séculos da nossa História.



A título de exemplo, e porque é de facto aquela que até há poucos anos traduzia a forma de pensar dos pescadores desta pequena vila, vamos transcrever a do Dr. Pedro Lourenço de Seixas Barruncho, que na sua obra “Villa e Concelho de Cascaes”, publicada no ano de 1873 nos explica a origem deste topónimo da seguinte maneira: “Da origem do seu nome lemos em Bluteau, que a villa de Cascaes principiara haveria duzentos anos; que os primeiros que a habitaram foram pescadores de redes, os quais para as lançarem ao mar primeiro as mascaravam com folhas de aroeira, que se punham em molhos em tinas ou talhas grandes onde metiam as redes. Que se fora povoando a villa cada vez mais, e assim também as tinas e talhas, a que os pescadores chamavam casqueiros, parecendo que d’ahi vinha, por corrupção de vocábulo, o nome de Cascaes, originado no costume de perguntar uns aos outros – encascaste já?”

No entanto, mais verosímil, concreta e digna de consenso entre a generalidade dos historiadores que se dedicam ao estudo deste nosso concelho, parece ser a tese segundo a qual o topónimo de Cascais resultaria da evolução concreta de uma expressão amplamente Portuguesa: Cascal, ou seja, um local coberto de cascas ou conchas de marisco. Assim, o mprimeiro nome desta bonita vila terá sido o de “Aldeia dos Cascais”, o qual, por simplificação, se transformou em Cascais.

Encontra-se actualmente comprovada a estada em Cascais de um aglomerado humano desde o aparecimento do Homem, no Paleolítico. Existem disso vestígios estudados no Guincho e no Alto do Estoril, onde apareceram calhau rolados e utensílios datados desta época. No entanto, mais interessantes são as necrópoles do Poço Velho, Alapraia e São Pedro do Estoril, de onde se retirou um importante espólio ao nível da cerâmica campaniforme.

Desde o Século II a.C. que Cascais se encontra ocupado pelos romanos, e existem actualmente muitos vestígios dessa ocupação espalhados por todo o território municipal de Cascais.



Ao contrário do que até aqui se pensava, também a ocupação Árabe teve a sua importância no devir Histórico do Concelho. Para além dos topónimos que traduzem essa permanência, como Alcabideche, Alvide ou Alcoitão, de entre outros, existem também, e actualmente ainda em estudo, um cemitério e alguns silos de armazenagem de grão em Alcabideche.

Durante a Época Medieval, já seria Cascais uma aldeia com alguns recursos humanos, coadjuvados, como não podia deixar de ser, por uma vasta rede de potencialidades económicas baseadas na prática da pesca e da caça especializada, principalmente do Açor.



O Século XVII vai ser também um dos períodos mais prósperos para a vida deste pequeno município, assistindo à publicação por Frei Nicolau de Oliveira de um elogio político com vista a trazer para Portugal a corte dos Filipes, no “Livro das Grandezas de Lisboa” de 1620.



A estada de vários dos nossos ilustres monarcas em Cascais encontra-se comprovada desde D. Afonso Henriques, que segundo reza a lenda, descansou e tomou o seu repasto matinal à sombra de uma centenária palmeira que ainda em meados do Século XX existia na travessa com o mesmo nome.

D. Dinis e D. José dirigiram-se também aos meandros deste pequeno povoado, com o intuito, segundo dizem as lendas, de se banharem nas águas medicinais que são características da Praia da Poça, em São João do Estoril, e as de Santo António, na quinta com o mesmo nome a que Fausto Cardoso de Figueiredo, no início do Século passado, transformou numa das mais ilustres estâncias balneares da Europa, só comparada em qualidade com a “Cote d’Azur” Francesa.

Daí em diante, resta-nos salientar o proeminente papel que cascais vai desempenhar, quando foi escolhida para albergar a Corte durante os meses do final do Verão e do Outono, assistindo-se nessa época à inauguração da iluminação pública a gás, do telefone, do telégrafo e do comboio.



Acontecimento importante foi também a inauguração da luz eléctrica, levada a cabo como presente de aniversário do Príncipe Real, e que marcou um ponto fulcral na História recente de Portugal.

Passados estes anos dourados da sua História, Cascais é hoje a vila pacata que conhecemos, e que de uma maneira ou de outra, fazendo jus à sua essência cosmopolita, continua a atrair a atenção da generalidade da população Portuguesa e de milhares de estrangeiros que, sempre que podem, a utilizam como destino privilegiado de férias ou residência fixa.




terça-feira

As Fundações de Portugal




Até há cerca de 37 anos, era normal e corrente apontar 1143 como o ano da Fundação de Portugal. Marcava-se assim que formalizava o nascimento deste País e, acima de tudo, definia-se um período a partir do qual da nacionalidade se impôs a todos aqueles que habitavam neste rectângulo situado no extremo Ocidental de uma Europa completamente trespassada pelas crises sucessivas e por problemas irresolúveis em termos da gestão dos poderes vigentes.

Em 2011, mercê de um extraordinário trabalho de investigação efectuado pelo Diário de Notícias, ao qual se está a conceder pouca importância mas que é a mais cabal explicação para a situação de caos político-económico em que vivemos, ficámos a saber que existem 640 fundações de capital público em Portugal e que, desde 2008, foram criadas 88 novas fundações a um ritmo de uma a cada doze dias.

Como bem sabemos, a figura jurídica subjacente à criação da uma fundação é o fundo, normalmente legado por um fundador, para perpectuar um trabalho ou projecto numa área específica de interesse.

Ora não é nada disso que acontece com as ditas fundações públicas. Criadas por iniciativa do estado, são fundadas sobre fundos que pertencem ao contribuinte, ou seja, a cada um de nós, subvertendo assim o carácter dessas instituições.

Ao fazer isso, o estado está a enganar os cidadãos. Em primeiro lugar porque utiliza o seu dinheiro para criar essas estruturas num acto para o qual não foi mandatado, sem disso prestar as devidas contas e sem consultar aqueles que deveria representar. Depois, porque ao pagar os seus impostos, o cidadão fá-lo precisamente para se assegurar que existem os meios suficientes para que a estrutura estatal funcione e, dessa forma, possa cumprir o principal objectivo para o qual o estado existe: trabalhar para o cidadão.

Existem duas explicações possíveis para a criação de uma fundação pública a cada doze dias que passam numa época de profunda e grave crise que põe até em causa a Soberania Nacional: ou o estado assume que é incapaz de cumprir as obrigações para as quais os Portugueses o mandataram, e assim cria as fundações para suprir essas deficiências, e nesse caso – por ser incapaz – deveria ser pura e simplesmente despedido; ou, noutra perspectiva, cria as ditas fundações pura e simplesmente para assegurar que existe uma rede de cargos, lugares e posições que distribui ao conjunto de apoiantes do partido que o suporta e, nesse caso, deve ser despedido por estar a servir-se dos bens públicos em proveito próprio.

Em qualquer das situações, e volto a repetir que desde 2008, em plena crise que coloca em causa a Soberania Nacional e a verdadeira fundação de Portugal em 1143, se criaram 88 fundações por iniciativa pública, estão a enganar os Portugueses.