Fazia parte da estrutura inicial da Quinta da Machada e foi adquirida no início do Século XX por Henrique Simões Felgar (1893-1986). Casa oitocentista, representativa do esquema tradicional beirão, com planta rectangular de dois pisos, sendo o térreo para arrumos e recolha de animais e o superior a habitação propriamente dita. Telhado de quatro águas. Escadaria granítica central de acesso ao piso superior, formando alpendre com colunas de fuste liso e arcaria em ferro forjada, típica da arquitectura do ferro. Piso inferior de cantaria e o superior de fasquiado rebocado. Manutenção de algumas janelas de guilhotina. Apesar de fazer parte da Base de Dados do Património Nacional (Ver AQUI), foi proposta a sua demolição no âmbito do Plano de Pormenor da Cava do Viriato, a autoria do Arquitecto Gonçalo Byrne, no âmbito do Projecto Viseu Polis.
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terça-feira
Maria Pedra de Felgar
por João Aníbal Henriques
Maria gemia alto, sem pudor nem
vergonha, deitada na enxerga de estopa que tinham colocado no meio da sala.
Apesar da penumbra que a envolvia, impedindo-a de ver a tez congestionada da
parteira gorda que andava para trás e para a frente sem conseguir esconder a
preocupação enorme que sentia, via-se que estava envolvida em bujardas de
sangue que se espalhavam de forma atroz por toda a dependência.
Ao fundo, encostada a parede,
estava Cipriana, a sua mãe. Precocemente envelhecida depois da morte do marido
Pedro, que sucumbira há uns meses às febres que se lhe tinham pegado ao corpo e
à alma depois de uma noite ao relento para tomar conta do rebanho, rezava de
forma inconsciente fiadas de Padres Nossos e Avés Marias que se refugiavam nos
seus lábios misturando-se com o desespero crescente.
A sua filha, ainda demasiado nova
para o que quer que seja, estava a fraquejar perante as dores daquele parto
prematuro. Tinha engravidado de um rapazola de ar jovial que aparecera lá na
aldeia uns meses antes e que, sem ninguém saber quem era, tinha aproveitado bem
a inocência quase infantil dela para a encher com os sonhos e fantasias da
cidade grande e de tudo aquilo que ele lhe dizia que por lá se podia fazer. E
depois encheu-a de vez… matou-lhe a mocidade sem qualquer espécie de
preocupação… E desapareceu para sempre.
E Maria, a criança jovial que até
aí tinha sido, deixou imediatamente de o ser. E foi olhada de lado e mal falada
dia-a-após-dia por toda a povoação. Em Felgar, ali naquele recôncavo formado
pelos rochedos que envolviam Penacova, a menina deixou de ser menina e
tornou-se simplesmente na Maria, a folgosa, a filha do Pedro, a Maria Pedra de
Felgar.
Lá fora, quando surgiam no
horizonte os primeiros raios de luz, criando aquela sensação de um dia que
ainda não é dia mas que também já não é noite, escureciam para sempre os sonhos
da menina e da sua mãe. E em Felgar, mesmo que o bebé agora nascido conseguisse
fugir da marca aleivosa com que o destino o marcou ainda antes da nascença, já
não havia lugar para elas.
Cruzaram-se os dias, os anos e as
gerações. Mudaram-se os rumos, as paisagens e os ensejos. Maria cresceu e
morreu sofrendo sempre. A sua mãe, Cipriana, não resistiu à tristeza que lhe
enrugou a face demasiado cedo e pereceu pouco tempo depois de ter nascido o
neto.
Os sonhos de Maria Pedra,
cruzados com os do seu filho António, que ela registou com o apelido Simões em
honra daquele que lhe tinha desgraçado os anseios, dissiparam-se nas curvas da
vida e cresceram e morreram sistematicamente à medida em que nasciam, viviam e
morriam também os seus filhos, netos e bisnetos.
Muitos anos depois daquela
madrugada triste, os biombos do tempo já se tinham aberto e fechado muitas vezes
e a memória de Maria estava extinta para todo o sempre. Mas ela vivia ainda nos
mesmos sonhos e nos mesmos problemas dos que lhe sucederam.
Porque é sempre tudo igual.
Porque não muda nada. Porque é precisamente esse o verdadeiro encanto.
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