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segunda-feira

A Capela de São Sebastião em Cascais




por João Aníbal Henriques

Passaram-se muitos meses desde que o temporal do Outono de 2015 destruiu o cruzeiro, o alpendre e o adro da Capela de São Sebastião, em Cascais. Mas, finalmente, foram efectuadas as obras de recuperação e reposta a dignidade daquela importante peça do património cascalense.

A Capela de São Sebastião, construída provavelmente em 1628, atendendo à inscrição existente na base do seu cruzeiro, possui um interessante conjunto azulejar cujas origens dispersas não se conhecem com exactidão.

A sua localização, fora da localidade e já muito perto da Enseada de Santa Marta, terá sido determinante para a sua formulação arquitectónica simples, em estilo dito “chão” e para as suas origens eminentemente ruralizantes. Situada originalmente na cerca do antigo Convento de Nossa Senhora da Piedade (actual Centro Cultural de Cascais), seria certamente posto avançado de oração e recolhimento daquele importante núcleo religioso da Vila de Cascais.




De acordo com alguns autores, serão do antigo convento, que foi construído em 1594 por D. António de Castro, então Senhor de Cascais e pela sua mulher D. Inês Pimentel, alguns dos painéis de azulejos que hoje se podem ver na capela e nas zonas envolventes. O mais importante, hoje colocado de forma cenicamente impactante no jardim construído no local pelos Condes de Castro Guimarães, é precisamente a “Procissão Alquímica” em que Nossa Senhora é transportada aos céus numa imensa carruagem inserida num cortejo do qual fazem parte algumas das mais importantes figuras da imagética transcendental da Portugalidade Sebástica.

O certo é que quer na figura “Civitates Urbius Terrarum” da autoria de Georgius Branius, de 1572, quer na planta geral da Vila de Cascais, datada de 1594 e guardada no Arquivo Geral de Simancas, a pequena capela surge expressamente representada, sendo certo, por esse motivo, que já nessa altura fazia parte do património religioso da localidade.




Na parede do adro, com datação provável dos finais do Século XVII, e correspondendo a uma das campanhas de obras de remodelação que o edifício terá sofrido ao longo da sua história, existe um painel azulejar polícromo dedicado ao Santíssimo Sacramento e, como não poderia deixar de ser numa peça de património de índole rural, à Imaculada Conceição da Virgem Maria. Uma vez mais, como é evidente, cerca de dois séculos antes de o Papa Pio IX, através da bula Inneffabilis Deus, ter solenemente definido a Imaculada Conceição como dogma, em linha com o que acontece com as principais orientações cultuais no Portugal de então e, especialmente, com as ancestrais tradições religiosas existentes no Concelho de Cascais.

O orago Sebastianista da capela, apelando ao supremo poder de Deus perante os homens e à permanente necessidade destes de tentarem impor a sua vontade, recupera também ele os laivos dessa paulatina degeneração dos cultos mais antigos das populações locais que, depois de Cristianizados, acabam por integrar-se de forma definitiva no conjunto de pressupostos sagrados que dão forma à Fé local.



A recuperação da Capela de São Sebastião, para além de um importante contributo para a consolidação da vocação turística municipal, que depende da existência de uma oferta significante que concretize a Região do Estoril como um destino turístico de excepção no contexto europeu, significa ainda o assumir da Identidade Cascalense, assente num imaginário colectivo na qual as memórias físicas se cruzam quase sempre com os vestígios materiais de gerações ancestrais.

É, por isso, uma boa notícia para a Nossa Terra!

O Visconde da Luz e o Despertar do Cascais Contemporâneo




Estávamos no ano de 1862, não passando  a Vila de Cascais de um pequeno burgo piscatório, quando nela se instalou Joaquim António Velez Barreiros, Visconde de Nossa Senhora da Luz, numa moderna casa de veraneio que mandou construir na Vila Nova, antigo Alto da Bela Vista.

Este acontecimento, que poderia ser fortuito no desenrolar do devir histórico da localidade, foi determinante para a História de Cascais, marcando de forma definitivamente um processo de modernização que, conjugado com a chegada da Corte e do Rei Dom Luís, transformará definitivamente Cascais num dos mais cosmopolitas destinos turísticos do Mundo. A chegada do Visconde da Luz, acompanhada por uma série de benefícios que por sua iniciativa melhoraram drasticamente a vida na vila, ofereceram a Cascais um laivo de contemporaneidade que alterou por completo a vivência piscatória e ruralizante que a caracterizava até aí.

Acompanhando o Visconde da Luz, muitos foram os lisboetas ilustres que escolheram Cascais para seu destino de veraneio. E, em conjunto com o saudoso Presidente da Câmara João de Freitas Reis, foram o motor de arranque de um conjunto de obras públicas que dotaram Cascais de infraestruturas de excelência que culminaram na escolha da Vila por parte do Rei e da Corte.




Por postura camarária de 24 de Maio de 1860, já por sugestão do Visconde da Luz, João de Freitas Reis cria a nova estrada entre Cascais e Oeiras, obra fulcral no desenvolvimento das comunicações entre a Foz do Tejo e a Capital. Paralelamente, a mesma postura determina ainda que todos os carros, ómnibus, seges e bestas somente pudessem transportar pelo empedrado, sob pena de multa. Para o embelezamento desta importante via pública cedeu a câmara, a instâncias do Visconde da Luz, as varas necessárias para protegerem o crescimento das árvores então plantadas.

Foi esta postura, assente no pressuposto de que valia a pena apostar numa dinâmica diferente para a Vila de Cascais, que gerou a onda de mudanças que caracterizam esta terra daí por diante. O Visconde da Luz, ainda antes de ter efectivamente passado a residir em Cascais, foi figura determinante na definição de um modelo urbano que assentava na qualidade de vida de todos aqueles que habitavam na localidade. E foi, por esse motivo, o grande impulsionador do Cascais que hoje (ainda) temos.


(Imagens Real Villa de Cascaes)

terça-feira

A Singularidade e o Escadote Social de Cascais




O Concelho de Cascais, pela sua situação estratégica no seio da Península de Lisboa, e pela notoriedade que granjeou ao longo do último século e meio de uma história verdadeiramente extraordinária, é um dos espaços mais atractivos de Portugal, possuindo uma fama que o precede e que é conhecida e reconhecida por toda a Europa.

O cunho cosmopolita desta terra, assente nos pressupostos atrás definidos, é de extraordinária importância na definição da vida quotidiana do Concelho. Com um ímpeto progressista que surge associado à permanente capacidade de recriar paradigmas renovados a partir dos problemas com os quais se debate, Cascais esteve sempre um passo à frente do resto do Pais e caracterizou-se sempre pela inovação e pela modernidade.




Apesar de existirem aspectos positivos e negativos associados a esta situação, pois o crescimento desmesurado, associado à falta de planeamento e de rigor e de, em muitos momentos da nossa história, ter sido governada de forma pouco capaz, acabou por resultar nalgum caos urbano que se espraiou, com características diferenciadas, um pouco por todo o território municipal, o certo é que a fama de Cascais sobreviveu sempre e foi capaz de se impor às várias gerações que até agora habitaram o concelho.

A ideia de qualidade que Cascais deixa transparecer, conjugando o glamour das suas zonas mais emblemáticas com a fama que carregou até bem longe as suas potencialidades, transformou-se em ideias e estereótipos de um determinado tipo de vida que, não sendo linearmente real, serviu sempre de base para que viver em Cascais fosse considerado algo de verdadeiramente notável. Em consequência disso, e pelo menos desde que o Rei Dom Luís escolheu Cascais para estância de veraneio, nos idos de 1870, que esta terra é palco assumido para os devaneios de índole diversa que dão forma à sociedade portuguesa.

Como se de um escadote real se tratasse, Cascais é o local que procuram todos aqueles que alcançam a fortuna e o êxito, sendo aqui o melhor espaço para poderem usufruir das suas conquistas. Da mesa forma, e no plano oposto, Cascais é também o local escolhido por todos aqueles que anseiam pelo prestígios e pelo êxito, recriando em seu torno um espaço onírico que serve de cenário para a concretização dos sonhos que ainda faltam acontecer.




A singularidade de Cascais é, desta forma, dupla e dúbia. Associa-se às grandes figuras da nossa história que por cá passaram, e também aos grandes desaires e apaixonantes episódios que aconteceram dentro das fronteiras do Concelho, tornando-o único e irrepetível por aquilo que é, mas também por aquilo que muitos acreditam que ele pode vir a ser.

Um dos aspectos em que mais se faz sentir esta espécie de pressão positiva, que se fundamenta na solidez estrutural que todos ligamos à qualidade, é o da habitação. As casas, as ruas, os espaços públicos e os acessos a Cascais, sempre foram aspectos essenciais neste pressuposto de afirmação que a terra procura promover. Quem alcançou o sucesso, constrói normalmente em Cascais uma casa à altura do seu sucesso, ao mesmo tempo que quem procura o êxito opta por uma habitação que transpareça o fim último que procura atingir. Por tudo isto, durante muitas décadas, o crescimento e a consolidação da paisagem urbana no Concelho fez-se num processo de paulatina afirmação da qualidade, assumindo uma componente estética que reforçou de sobremaneira a já de si grande fama que a terra transportava. Os parâmetros volumétricos, as cores, as formulações geométricas e os materiais utilizados, eram geralmente de grande qualidade e inseriam-se nos mais vanguardistas movimentos da culturalidade das épocas em que se concretizavam.




No que aos espaços públicos diz respeito, o movimento foi idêntico, assistindo-se à criação de infra-estruturas e equipamentos de grande qualidade, em linha com o que se passava com a habitação privada. A qualidade de vida que resultou deste processo, evidente para toos aqueles que aqui viviam e mesmo para os que somente a visitavam, redobraram a fama de excelência que lá fora já caracterizava o concelho, exigindo que governantes e governados se pautassem por níveis de excelência pouco usuais no Portugal de então. Dos colégios e das escolas que recebiam as novas gerações, aos restaurantes, jardins, hotéis e campos de golfe, Cascais foi-se apetrechando de tudo aquilo que caracterizava uma grande capital, ao mesmo tempo que era capaz de preservar a pequenez das terras de sonho e das estâncias turísticas que desde o século XIX consolidaram o seu prestígio um pouco por toda a Europa.

Tendências Demográficas no Cascais Medieval




por João Aníbal Henriques

O primeiro numeramento de Cascais data de 19 de Setembro de 1527. Sendo já posterior à época medieval, da qual não existem registos efectivos acerca do que se passava neste concelho, vamos tomar como base desta análise a curva demográfica de Cascais durante este período da baixa Idade Média e a partir daí comparar teoricamente as tendências das principais cidades Portuguesas e Europeias, assumindo, desta forma, alguma linearidade nos comportamentos demográficos da velha vila de pescadores.

Assim, à excepção de Toulouse, a tendência mais evidente da demografia urbana europeia é a de um aumento sustentado do contingente populacional. Assim acontece com as principais cidades da Europa de então, tendência que se confirma em Portugal com os dados que temos relativos à cidades de Lisboa ou de Lagos. Da mesma forma, encontra-se uma tendência generalizada para um período de recessão nos finais do Século XIII e inícios dos Século XIV que, com um carácter fulgurante em cidades como Florença, em Itália, atingiu de forma medíocre as restantes cidades europeias com dados conhecidos. Segundo Carlo Cipolla, a crise que afectou a Europa nessa época não passou de uma rectificação natural da demografia urbana, respondendo de forma directa ao excesso populacional acumulado em determinadas regiões, ainda sem o suporte essencial em termos de salubridade e saúde pública e pouco preparadas para sustentar esse crescimento.

Por esse motivo, muitas foram as cidades e/ou pequenos aglomerados populacionais que viram bastante reduzido o seu contingente populacional durante este período, provocando um surto de mortandade que acompanhou o recrudescimento de diversas epidemias e doenças.




Zonas pouco apetrechadas em termos urbanísticos, como era o caso da Vila de Cascais durante esse período, sofreram assim as consequências nocivas da sua impreparação, facto que conduz a um intervalo de tempo que se caracteriza por uma imensa razia em termos do número de habitantes, obviamente com repercussões directas a várias níveis da organização social dessas terras. Será possivelmente esta a explicação que nos permite perceber o reduzidíssimo número de Cascalenses que existiam nessa época e que Oliveira Marques aponta num dos seus artigos sobre Cascais: ”É provável que em meados de trezentos, para mais com as consequências da peste negra, o número de habitantes da jovem vila não fosse além dos duzentos ou trezentos, se é que os atingia sequer. E no termos correspondentemente”.

Na carta régia de 1385 de Dom João I, o despovoamento de Cascais torna-se evidente, sentindo o monarca que chegou à altura de incentivar o mesmo. É também nesta mesma carta que o rei levanta o problema do Castelo de Cascais, sublinhando a sua importância na estratégia de defesa de Lisboa. Sê-lo-á em termos meramente militares e políticos ou também em termos económicos e estratégicos?...

No que concerne à densidade populacional nas freguesias cascalenses, é notório e muito evidente a enorme discrepância existente entre aos espaços rurais e urbanos. Esta dualidade surge bem expressa nos números que traduzem, por exemplo, a realidade na Freguesia de Cascais, que sobressai com 10,5 habitantes por km2, em contraste com os cerca de 4,3 habitantes por km2 em espaços como Carcavelos e São Domingos de Rana. Na primeira temos uma realidade marcantemente urbanizada, recriando-se em torno do conjunto habitacional coeso que enche o seu espaço amuralhado, e nas segundas surge a realidade de âmbito rural, com as explorações agrícolas e o minifúndio a imporem a sua realidade.

Embora pouco importante para a determinação daquilo que foi Cascais durante este período, é certo que este quadro nos permite supor um povoamento da vila de Cascais muito anterior àquele que supostamente surge na documentação oficial, precedendo-a e alterando os dados efectivas recolhidos em época posterior. Fazendo o exercício de completar os dados inexistentes de Cascais com aqueles que caracterizam as restantes cidades de Portugal e as principais tendências nos espaços urbanos europeus, parece lícito supor que a continuidade da linha demográfica na vila se encaixa no fluxo corrente que caracteriza a Europa anteriormente.

Prova ainda mais contundente deste pressuposto é a que nos oferece o Professor Oliveira Marques no estudo atrás mencionado e que nos diz que: “O número de besteiros do conto, de cerca de 1422, atribuía ao Concelho de Cascais 20 besteiros, cifra igual na comarca da Estremadura, à de Sintra e à do Soure e próxima à de Alenquer e à de Óbidos”. Este mesmo número está confirmado no número de besteiro existentes no Algarve, em linha com o que se passa em espaços pujantes demograficamente como Castro Marim, Albufeira e Aljezur.

segunda-feira

Cascais e o Terramoto de 1755




por João Aníbal Henriques

O cataclismo que se abateu sobre Lisboa no dia 1 de Novembro de 1755 deixou um rasto de destruição na Vila e no Concelho de Cascais. O terramoto e o posterior maremoto, foram acompanhados de incêndios e muitos dos principais edifícios que existiam foram completamente destruídos.

A face urbana da Vila de Cascais, com a monumentalidade própria de uma pequena vilória piscatória, sofreu enormes alterações e, mercê dos muitos interesses instalados nesta terra, terá sido porventura o terramoto o embrião da primeira operação de especulação que Cascais conheceu…

De facto, as Memórias Paroquiais, bem como as respostas dos reitores das igrejas às questões levantadas pelas autoridades depois do terramoto, apresentam-nos informações muito úteis para conhecer e compreender o que então aconteceu em Cascais. A menção à antiga torre-relógio, que desapareceu nessa manhã fatídica, e a organização espacial dentro das muralhas do velho castelo, estão bem expressas nas palavras do pároco de então: “Está esta vila sem relógio porque este, e sua grande torre feita pelos mouros, que sefes em cinzas. O palácio dos marqueses de Cascaes uq era de hua excelente perspectiva, e de exquisitas pinturas, com hua bella ermida, desconhecesse tudo pelo que foi, e já não hé (…). Nesta freguesia há hu castelo, cujo hoje está todo cheio de moradores e para nada serve mais, porem ahinda selhe conservão alguas amejas, cujo fica para abanda da ribeira, pegado com os palacios dos marqueses de Cascaes”.



Também Frei António do Espírito-Santo, um dos frades carmelitas do Convento de Nossa Senhora da Piedade (actual Centro Cultural de Cascais), dá-nos conta do estado do castelo após o terramoto de 1755: “cahio a torre com o seu mais especioso relógio nas sonoras vozes do seu sino, que fica olhando para norte, e matando 22 pessoas”.

Esta torre, bem identificada em muita da cartografia antiga que se conhece, corresponderia à torre que se situava na parte Nascente do Castelo, com frente para a área do antigo Rossio. Teria planta redonda, em linha com a tradição arquitectónica deste tipo de edifícios, facto ainda visível nas fotografias tiradas no início do Século XX por João da Cruz Viegas, D. António de Castelo-Branco e pelo Visconde de Coruche. De salientar que alguns dos torreões do antigo castelo, marcando os eixos que deram forma ao núcleo urbano inicial da Vila de Cascais, subsistiram até aos anos 60 do século passado, quando foram demolidas no âmbito do surto de construção que assolou Cascais nessa época.
Em termos religiosos, eram vários os edifícios que existiam em Cascais neste final do Século XVIII. Mas a maior parte, mercê das agruras do cataclisma, acabou por ficar muito danificado ou mesmo completamente destruído.



De acordo com o testemunho do Reitor da Igreja Matriz de Cascais, Padre Manoel Marçal da Silvejra, ao responder em 1758 aos inquéritos paroquiais, nada sobrou do terramoto e o que se manteve de pé estava em tais condições que a ele lhe parecia que mais valia destruir para construir novas edificações de raiz do que proceder ao seu restauro: “(…) a villa ficou toda arruinada até ao chão. Não há caza, wur ou não cahisse em terra, ou não ficase abalada, ameaçando ruína. Os templos, a ponte, a cidadela, e os eus quartéis, tudo está demolido, e feito em pó. A major parte da villa haita ahinda em barracas fora, e dentro do destricto, a ponte está com hu só arco em pee, e senaõ passa po rella, sem que se reparasse ahinda nada, somente alguas czas setem levantado, poucas, ao mesmo tempo, que outras, com as tempestades e ventos, se tem acabado de postrar”.

Do reitor da Freguesia da Ressureição, a segunda freguesia de Cascais e situada no espaço extra-muros, recebemos a informação de que foi esta uma das mais afectadas freguesias do país com a catástrofe do terramoto de 1755: “De todas as terras foi esta aq. Experimentou mayor ruina (conforme dizem todos) por causado ditto terramoto, pois todos os edifícios serruinarão, e quazi todos cahiram, e algum q. nan cahio de todo ficou inahabitavel, mas ao prezente is se acham muntos deles reedificados”.

Mas, se é certo que a destruição provocada pelo terramoto foi enorme, certa é também a dose de exagero patente em todos estes documentos, explicável possivelmente com a necessidade de chocar quem os lê-se para sensibilizar o poder nacional para a necessidade de recursos que Cascais sentia para proceder à sua recuperação urbana. De facto, tendo ruído a Igreja da Ressurreição, que se situava sensivelmente onde actualmente se encontra a estação de comboios, muitos outros monumentos civis, militares e religiosos se mantiveram de pé o foram reconvertidos e/ou recuperados e ainda hoje podem ser apreciados na Vila de Cascais.




A Igreja de Nossa Senhora da Assunção, por exemplo, uma construção de meados do Século XVII que resistiu à força do terramoto, foi bastante alterada no seu exterior tendo sofrido várias alterações que lhe conferem a imagem que hoje apresenta. Na sacristia e no arco que suporte o coro, ainda são visíveis as sequelas do cataclisma, ao lado com uma pequena inscrição que informa que o templo havia sofrido obras de restauro em 1720 à custa dos irmãos pescadores.

Mais à frente, e para além dos muros antigos do castelo, a Cidadela de Cascais e a Fortaleza de Nossa da Luz resistiram ao terramoto, tendo acontecido o mesmo com o Convento de Nossa Senhora da Piedade que, já no Século XIX, foi comprado em hasta pública pelo Visconde do Gandarinha que o adaptou a residência de veraneio. Quando essas obras foram efectuadas, estavam ainda em estado razoável de conservação a antiga sala do capítulo, a capela, o claustro, a cisterna e mesmo o friso de janelas viradas a Sul que ainda hoje se mantém.




Da mesma maneira, e para além das pequenas capelas de Nossa Senhora de Porto Seguro e de Nossa Senhora da Conceição, sobreviveram ainda as capelas de Nossa Senhora da Vitória, a Igreja da Misericórdia e a Igreja e Nossa Senhora dos Navegantes que foram reconstruídas depois da catástrofe.




Tendo exagerado de forma linear a verdade do que aconteceu, a documentação coeva dá-nos uma primeira imagem do que era Cascais naquela época. E, sabendo nós que o ímpeto de construção que se lhe segue fica a dever-se à generalizada informação de ruína eminente em que pretensamente Cascais se encontrava, fácil se torna perceber que naquela altura, como ainda hoje, foi sobre inverdades e premissas adaptadas às necessidades do momento, que se deu uma nova cara ao Cascais de sempre.

quarta-feira

História do Urbanismo de Cascais na Idade Moderna




por João Aníbal Henriques

As tendências urbanísticas de um local, mais do que um reflexo do gosto de então, espelham sobretudo o pulsar interno da ida de uma nação ou de um povoado.

A dispersão das casas, o maior ou menor estreitamento das suas vias, a altura e o aspecto das suas edificações, a monumentalidade das suas igrejas e templos, são acima de tudo características ditadas por uma série de situações que derivam directamente do devir das populações.

Assim, para compreender o Cascais da actualidade, importa conhecer melhor a história do seu desenvolvimento urbano, dele retirando as pistas que nos permitirão conhecer e perceber o substrato político, económico e social que deu corpo àquilo que hoje temos e somos.

Com este objectivo bem definido, vamos então traçar as verdadeiras tendências urbanas desta região, utilizando a documentação histórica coeva e integrando-a, sempre que possível naquela que exista para os concelhos limítrofes.

A demografia, na sua vertente mais pura, assim como os censos populacionais, as inquirições religiosas e os demais instrumentos de trabalho desta área científica, reforçarão as hipóteses e as pistas que daremos acerca do pulsar político de Cascais ao longo dos tempos.

O Concelho de Cascais, rico, ontem como hoje em potencialidades e belezas naturais, desde cedo despertou a atenção e o interesse da espécie humana. A amenidade do seu clima, a riqueza das suas águas, a fertilidade das suas terras e a posição estrategicamente privilegiada em que se encontra, foram factores decisivos na definição da história municipal.




Deixando de lado as questões directamente relacionadas com os primeiros anos da ocupação do território (que poderá rever AQUI), procuraremos acima de tudo dar uma panorâmica daquilo que foi Cascais e o seu termo no período imediatamente posterior à libertação jurídica face a Sintra.

Assim, no período que medeia o ano de 1364, data em que Dom Pedro I concede o foral a Cascais, e o ano de 1370, data em que Cascais fica efectivamente livre do jugo de Sintra pela mão do Rei Dom Fernando I, todo o termo do Concelho sofre enormes transformações.

Se, por um lado, assistimos à criação de toda a plêiade de cargos administrativos inerente à nova posição política concelhia, por outro, terão de ser criadas as condições urbanísticas necessárias à manutenção e alojamento das pessoas que resultam deste acréscimo populacional. O termo de Cascais, por seu turno, e mercê das enormes dificuldades que resultavam do esforço de manter e defender a independência, teve também de contribuir para esse esforço de afirmação política, assistindo-se na mesma época ao aproveitamento de uma série de potencialidades que existiam em todo o território municipal.




São, desta forma, desta época, a maior parte das edificações e casas antigas de Cascais, principalmente aquelas que vieram ocupar os espaços situados no núcleo intra-muralhas e na margem direita da Ribeira as Vinhas, e que complementaram os extensos espaços ocupados pelas habitações dos pescadores espalhadas ao longo da linha do mar. Estas, como é evidente, seriam muito mais precárias, construídas de madeira e em forma de abarracamentos. O Paço dos Senhores de Cascais, de influência marcadamente italiana, surge somente em finais do Século XVI, pese embora se situasse dentro do perímetro das muralhas antigas da vila, sensivelmente onde hoje se encontra a Casa do Conde Monte Real, na Avenida Dom Carlos. O Convento de Nossa Senhora da Piedade, já fora desse mesmo recinto, é seu contemporâneo, complementando assim os domínios de Gomes Lourenço de Avelar a quem Dom Fernando entregara, em 1370, as terras de Cascais: “seu caualleyro e […] guarda moor e leal vassalo”.

No dia 7 de Junho de 1373, cerca de três anos depois da primeira doação, o mesmo monarca desfaz o documento original, penalizando Gomes Lourenço de Avelar por este se ter recusado a entregar um dos seus filhos como refém no âmbito da assinatura do Tratado de Santarém. Neste último documento, a vila de Cascais é entregue a Henrique Manuel de Vilhena, figura pouco quista entre as gentes do concelho. É aqui que pela primeira vez surge uma menção ao Reguengo de Oeiras que, a partir desta mesma altura, passa a integrar o termo de Cascais.

Em 3 de Julho de 1384, sabemos que Henrique Manuel de Vilhena já havia sido desapossado do senhorio, porque andava então “em deserujço destes regnos e senhor com elrey de Castella” (Chancelaria de Dom João I).

Nesta época o território do termo de Cascais seria já muito semelhante àquele que conhecemos actualmente, exceptuando-se a integração do Reguengo de Oeiras ou de parte dele, conforme veremos adiante, e o acrescento posterior de alguns territórios que ainda pertenciam a Sintra e que o Rei, por considera-los seus, resolveu integrar no termo cascalense. Na carta de foral de 8 de Abril de 1370, Dom Fernando I integra no termo de Cascais territórios bem definidos: “Por seu termo como se começa pollo porto de Touro (fooz do Touro) e desy per cima da debaruas de Rey e dhy acima da malueirra e pella pena da era e desy como se vay dhi endiante atta o açude daacenha do tarãbulho e desy como se vay per cima de janas torta os fornõs da cal acima daaçenha do caminho todo agoas vertentes e desy pella strada dirrejta ao rio do trotulho com villa noua e desy como se vay pela strada do camjnho de lixboa atta as portas de manique e dhy adiante pello veeiro acima como se vay topar na strada de sintra que vay topa na ponte do rio ao mar vaao todalas quetaães e herdades que ora o dicto gomez Lourenço há em rio de mouro aaller e aaquê daagoa do dicto rio de mouro e outrossy a aldeã dalgafamy”. (Chancelaria de Dom Fernando).




O aspecto urbano de Cascais e do seu termo seria assim uma constante de contradições incluindo no seu seio o povoamento rural das zonas interiores, as zonas que haviam sofrido maiores influências islâmicas situadas nas faldas da Serra de Sintra, bem como as zonas mais urbanas situadas no centro da vila, consolidando assim um quadro marcadamente ecléctico e de abertura cultural que dará corpo àquilo que tem sido Cascais ao longo dos anos.

De salientar ainda, neste quadro daquilo que é a face urbanística de Cascais nos inícios da Idade Moderna, o povoamento disperso em pequenos casais espalhados aleatoriamente ao longo dos mitos e pequenos riachos que lhe sulcavam a terra. Este aspecto, como se verá no desenvolvimento económico concelhio (ver HENRIQUES, João Aníbal, História Rural Cascalense, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 1997), prenderá a atenção de Jorge Fernandez, enviado do Rei que, em 19 de Setembro de 1527 elabora o primeiro censo populacional conhecido para esta vila.

Ainda hoje, em certos cantos e recantos pouco conhecidos do concelho, e possível vislumbrar os restos desses casais, marcados profundamente pela vida simples e pacata que neles se levava.



terça-feira

Cascais na Idade Média Clássica




por João Aníbal Henriques

A reconquista Cristã e a entrada de novas gentes no actual território da Península de Lisboa, veio afectar de sobremaneira o Concelho de Cascais. É ponto assente entre os estudiosos da matéria, que Cascais exista já em 1147 e que foi alvo do interesse do novo rei de Portugal, Dom Afonso Henriques.

Segundo Pedro Barruncho, na sua obra “Villa e Concelho de Cascais”, datada de 1873, “é mais provável, para começarmos em mais próximos tempos, que pouco antes ou depois da tomada do Castelo de Cintra, se não ao mesmo tempo, o lugar de Cascaes entrasse no domínio do novo reino Lusitano”.

Esse facto é por demais evidente se nos debruçarmos mais profundamente sobre o Foral de Dom Manuel em que se pode ler acerca das preocupações que tanto Dom Afonso Henriques como Dom Sancho I tiveram em relação a este pequeno território: “Achámos visto os foraes por El-Rei D. Affonso Henriques e por El-Rei D. Sancho seu filho que os direitos e foros da dita villa de Cascaes sa hão-de arrecadar e pagar d’aqui em diante na maneira e formas seguintes […]”.

Este documento, com data de 15 de Novembro de 1514, é ponto fulcral de mudança e transição no estudo da História da Vila de Cascais a nível demográfico. Por um lado, ele comprova a importância da vila para os monarcas das primeira e segunda dinastias, quer seja a nível militar e estratégico, como defesa do estuário do Tejo perante as ameaças Almorávidas, quer a nível político. Por outro lado, ele diz-nos que Cascais possuía já um número razoável de habitantes que lhe permitia alguma expressão ao nível dos centros de poder governamental.

Assim, e tendo presente a subjugação administrativa a Sintra que Cascais sofria nessa época, podemos vislumbrar de forma mais linear a curva demográfica da vila durante este período já longínquo da História. É facto assente que desde épocas remotas existiria uma estrada que garantiria a ligação a Lisboa. Essa estrada, designada por “Caminho Velho” em certos documentos medievais, existiria já desde o tempo dos Romanos e possuiria uma extensão que estabeleceria a ligação a Sintra. Por este motivo, e porque Sintra dependia de Cascais e do seu porto para a exportação, pois a única solução para transportar produtos perecíveis para Lisboa era por mar, lógico seria que Cascai tivesse já nesta altura um contingente significativo de homens do mar que, conjuntamente com as suas famílias, se dedicassem à arte de marear. Tal facto é confirmado por José d’Encarnação e Guilherme Cardoso que se têm dedicado à procura da origem do povoamento do território Cascalense: “Uma das preocupações que temos é precisamente a de localizar os vestígios dessa via quando se faz qualquer urbanização no Concelho, uma vez que é muito provável que existisse, e existia mesmo, não temos dúvida nenhuma (temos documentos medievais que nos falam por exemplo na via velha, no caminho velho). É, portanto, possível que esse caminho velho fosse um caminho já utilizado no tempo dos Romanos – tinha forçosamente de existir uma estrada de Lisboa para Cascais, pois ao contrário do que se pensa, eles preferiam afastar-se do mar”.

Cascais foi, por isso, causa e efeito da reconquista Cristã, pois que, com o seu porto, contribui fortemente para o desembarque das naus da referida reconquista. Por outro lado, essa mesma reconquista contribuiu por sua vez para um desvanecer das fronteiras a Sul, e a consequente estabilidade que dela resultou contribuiu de forma decisiva para a facilitação do povoamento do território que, a par com a expansão demográfica e económica da Europa, vêm facilitar o desabrochar de novas povoações e o crescimento das já existentes.

Como é evidente, nem todos concordam linearmente com esta premissa. Oliveira Marques, por exemplo, contradiz-se ao referir-se a Cascais da seguinte maneira: “Apesar de todos estes povoamentos, o território de Cascais – como aliás toda a região litoral a Ocidente de Lisboa – era considerada como terra bravia e despovoada nos começos da nacionalidade”. Mas mais à frente, na mesma obra, acaba por atestar a importância de Cascais ao sublinhar a relevância da entrega do “Sturil”, actual lugar do Estoril, a Estevão Eanes, valido de Dom Afonso III, que comprova a importância daquele que é hoje o território municipal Cascalense.


Outros Carnavais em Cascais




O Carnaval foi sempre uma das festas tradicionais de Cascais. Desde tempos imemoráveis, mas principalmente depois do desenvolvimento que resultou da chegada da corte para o final do estio, em 1870, o Domingo e a Terça-feira de Carnaval eram sinónimo de festa, brincadeiras e de um clima generalizado de boa disposição que envolviam as ruas e as pessoas que moravam em Cascais. Nesses outros Carnavais, eram as instituições de Cascais e os Cascalenses que as dirigiam, quem organizava os desfiles, os bailes e as demais tropelias que davam forma ao carnaval na nossa terra. Desde 1939, quando foi criada pela mão de Nunes do Santos, Florindo de Oliveira e, mas tarde, por Armando Vilar e Joaquim Aguiar, que a Sociedade Propaganda de Cascais começou a liderar a organização das festas, dando corpo a um conjunto de iniciativas nas quais participavam, de forma directa e indirecta, quase todos os Cascalenses. 






quarta-feira

As Cheias em Cascais - 19 de Novembro de 1983




Cumprem-se hoje 31 anos desde que Cascais amanheceu coberta de água. Naquela madrugada, numa noite de Sexta-feira para Sábado, preparava-se mais uma manhã de mercado saloio no centro da Vila. Por todo o lado, num cenário dantesco no qual o caos imperava, fluíam ao sabor das águas os sacos de batatas, as caixas de legumes e mesmo os carros e carrinhas que os transportavam. Naquela manhã, mesmo perante o pânico que estava instalado, ouviram-se desde cedo o som dos motores dos barcos que aproveitaram a situação para roubar lojas e casas. Ao mesmo tempo, na actual Praça Francisco Sá Carneiro, um casal de idosos morreu enquanto tentava desesperadamente serrar com uma faca de cozinha as grades que poucos dias antes havia mandado colocar nas suas janelas...  31 anos depois, aqueles que tiveram a infelicidade de acordar rodeados de águas, sem electricidade, telefone ou qualquer outro tipo de comunicação, ainda sentem no ar o cheiro putrefacto que emanava daquelas águas lamacentas. Nalguns recantos da vila, dentro de casas e em muros que ninguém imaginaria que algum dia estiveram submersos, ainda hoje se podem ver os restos das lamas que o dia 19 de Novembro de 1983 trouxe para Cascais. 













Fotos Recolhidas em Real Villa de Cascaes no Facebook

segunda-feira

A Casa dos Expostos de Cascais



por João Aníbal Henriques

Abordar a História de Cascais, numa primeira vista, pressupõe a menção a um infindável rol de nomes, mais ou menos importantes, ou de personalidades que viveram ou desempenharam as suas funções profissionais neste concelho. Para além destes, em alguns casos, fala-se também de conhecidas confrarias e corporações, que deixaram marcas profundas e de  grande relevo no desenvolvimento histórico da localidade.

No final do século XVIII, quando Portugal assumiu por fim a necessidade de congregar esforços no sentido de precaver a nação contra os infortúnios alheios, foi criada em Lisboa, de acordo com as ordens de Pina Manique  e as directivas da Rainha D. Maria, uma instituição de caridade denominada «Casa dos Expostos». Cascais, como peça fundamental do devir histórico da época, não esteve alheio a esta questão, decorrendo pouco tempo até que em aqui se instalasse um organismo semelhante.




De acordo com as informações de Carlos Andrade Teixeira, ilustre Cascalense, a Casa dos Expostos de Cascais teria sido criada no ano de 1822, recebendo no dia 27 de Julho uma primeira criança do sexo masculino, que foi posteriormente baptizada com o nome de Prudêncio e que viria a falecer um ano mais tarde.

A casa onde funcionava a "Roda", situava-se numa pequena edificação saloia na Travessa da Nazaré, e que ainda hoje existe embora muito alterada na sua formulação urbanística original, e estava munida de uma roda de madeira, que girava em torno de um eixo central, de modo a que as crianças enjeitadas pudessem ser colocadas no seu interior, sem qualquer espécie de identificação da pessoa responsável pelo acto. Depois, as crianças passavam rapidamente para as mãos de uma ama que as recolhia e que, a expensas do estado, promovia a sua educação durante os primeiros anos de vida.

As amas de Cascais, também elas figuras humildes e dedicadas ao ofício pelas necessidades financeiras, tinham obrigatoriamente de ser moças casadas e minimamente preparadas para o desempenho das suas funções, tal como se pode ler no despacho geral do intendente: «[...] moça casada, fecunda, bem constituída e aceada, a qual se conservará enquanto for possível;».

Se do ponto de vista psicológico o abandono de crianças nos últimos anos do século XVIII parece ser um aspecto ímpio da vivência portuguesa, por outro a instituição da Casa dos Expostos ou da Roda, é também ela evidenciadora de um sentido novo que emanava dos órgãos de estado portugueses. Estas crianças, que ganhavam assim uma oportunidade para se manterem vivas, embora em condições de extrema pobreza, estavam destinadas quase sempre a uma morte a prazo. Os cuidados de saúde daquela época, bem como a motivação que levava à candidatura das amas àquele cargo, determinava quase sempre a morte prematura do abandonado, que se sujeitava, sem que qualquer culpa lhe fosse formulada, a todas as vicissitudes que ordenavam a vida da Rodeira. Este problema, indiciador de uma certa sensibilidade por parte das entidades públicas Portuguesas, é também ele evidenciador de outras questões: Como é óbvio, a preocupação fica certamente a dever-se ao elevado número de crianças abandonadas, evidenciando um clima de instabilidade moral que grassava no País nessa época...




Numa perspectiva patrimonial, e porque a Casa da Roda de Cascais ainda se mantém no seu sítio, importante seria a recuperação integral daquele espaço. A manutenção da antiga Roda no centro da vila, indiciadora de todos os problemas económico-sociais anteriormente mencionados, é um excelente exemplo crítico de uma sociedade que não se encontra ainda muito longe de nós e que poderia contribuir para o reforço da atractividade da Vila de Cascais.

As características arquitectónicas do imóvel, perfeitamente enquadráveis na tipologia corrente no núcleo histórico da vila de Cascais, permitiram a subsistência de uma componente da memória colectiva que muitas vezes é delegada para segundo plano. A compreensão da história do município Cascalense, bem como da forma como se constituíram, programaram e delimitaram as funcionalidades urbanísticas deste espaço, ficaram a dever-se a componentes sociais e psicológicas que são levadas em conta na sua constituição e que poderiam ajudar-nos a perceber melhor a forma como funcionava a estrutura social desta nossa terra.

O centro histórico de Cascais, com as ruelas envolvidas em sombras escuras e húmidas, é o resultado da interacção da geografia, do urbanismo pré-existente, mas também dos condicionalismos sociais que deram forma à comunidade Cascalense. 

Desconhecida por quase todos, a Casa dos Expostos de Cascais é um exemplo da potencialidade patrimonial deste concelho, desaproveitada e tristemente votada a uma anomia que tanta insatisfação latente vai consolidando em torno de um identidade há muito deturpada pelos interesses específicos e particulares daqueles que nos governam.

Uma tristeza!

“Parede – a Terra e a sua Gente” de José Pires de Lima




Há livros que são maiores do que as bibliotecas onde estão guardados e histórias que transcendem largamente a História que contam. É isso que se passa com o livro “Parede – a Terra e a sua Gente”, da autoria de José Pires de Lima, que foi apresentado publicamente na passada Sexta-feira na Sociedade Musical União Paredense.

A obra, assente num trabalho monumental de investigação e de recolha de contactos, documentos e depoimentos relativos a mais de um século de vida daquela importante localidade Cascalense, traduz de forma sentida não só a História da Parede, como também todos os pormenores, os detalhes e as minúcias de centenas de Paredenses que até agora eram anónimos, mas que foram os principais responsáveis pela excelência que ali se vive e se sente.

Na sessão de apresentação, numa SMUP que foi demasiado pequena para acolher a imensa multidão de Paredenses que acorreram em massa para assistir a este lançamento histórico, o autor referiu reiteradamente que a Parede é um local especial… e é mesmo! Só assim se compreendendo o carácter vincado de uma identidade que encheu cada recanto daquela sala, num exercício de cidadania activa que é dificilmente replicável em qualquer outra povoação de Cascais ou mesmo de Portugal.

E José Pires de Lima, numa catarse de memória que limpou velhas gavetas e caixas de recordações há muito perdidas nas arrecadações daquelas gentes, criou eternidade na Parede, ressuscitando vidas e carregando-as para planos de memória que vão perdurar ao longo dos próximos séculos. Na plateia, para além de muitos daqueles que são parte desta história, estavam também os filhos e netos dos que a fizeram e que, desta maneira, passarão a conhecer, a perceber e a valorizar as dores e os sucessos que seus alcançaram para fazer da Parede aquilo que eles actualmente conhecem. A Parede também é agora deles!

Não tem preço o trabalho que José Pires de Lima agora traz a público. É impossível antever, de forma pragmática, as repercussões geracionais que o empenho que colocou na preparação desta obra terão no futuro da memória, da identidade e da cidadania Cascalense!




Os dois volumes da obra “Parede – a Terra e a sua Gente” vão estar à venda na sede da SMUP na Parede. 
www.smup.pt

quinta-feira

Condenados às Galés pelo Futuro de Cascais





por João Aníbal Henriques


Quando Cascais era ainda uma pequena e quase insignificante vila recém-criada, o seu povoamento mereceu uma especial atenção do também recém-eleito Rei D. João I de Portugal. 

Numa carta datada de 15 de Novembro de 1385, quando o seu fiel vassalo Dr. João das Regras estava prestes a transformar-se em donatário do Concelho, o popular Rei procura criar incentivos que ajudassem a fixar novos habitantes à terra de Cascais. Nesse documento, inédito pela forma como pretende intervir no devir natural da localidade, D. João I ordena que os Cascalenses que habitem na Vila de Cascais não podem ser forçados a embarcar nas galés como acontecia na generalidades das póvoas marítimas portuguesas.

O alcance desta medida foi de tal ordem que Cascais conheceu, a partir dessa data, um aumento exponencial da sua população, criando assim uma comunidade autónoma e solidamente estruturada, que suportou (por vezes de forma heróica) as contrariedades de mais de 618 anos de História.

O discernimento do Rei, e a enorme consciência que demonstrou ter relativamente aos interesses de Cascais ao promulgar este decreto, contrasta de forma quase dramática com a situação que hoje vivemos.

Sete décadas depois, e com um índice populacional que coloca o Concelho quase no topo da tabela dos mais populosos do País, Cascais debate-se com problemas variados que resultam de uma crescente anomia social e de uma descaracterização preocupante.

O incentivo criado no Século XIV parece que resultou de forma eficaz, porque Cascais depressa se transformou num dos mais atractivos Concelhos de Portugal, para o qual continuaram (e continuam ainda) a afluir anualmente milhares de novos habitantes.




Ao contrário do que acontecia nessa altura, em que o poder político sabia exactamente quais eram ao males que Cascais possuía, e sobretudo quais eram os remédios que deveriam ser utilizados para os combater, o Cascais actual parece vogar incólume ao largo das evidências. O acréscimo populacional que resultou da falta de regras efectivas de crescimento do Concelho, agregado ao laxismo que culminou no aparecimento de milhares de bairros clandestinos, não foi acompanhado de medidas e/ou planos que permitissem uma real integração comunitária dos recém-chegados.

A sociedade cascalense, ferida de morte de cada vez que chegava a Cascais mais um agregado familiar sem relações com o Concelho, foi-se descaracterizando progressivamente. As infra-estruturas, por seu turno, foram também ficando cada vez mais desadequadas perante a realidade local.

Do trânsito até aos esgotos, passando pelo ambiente, pela segurança, pela saúde ou pelo património, tudo foi perdendo qualidade, quase até ao ponto de transformar Cascais num mero subúrbio incaracterístico de Lisboa.




Em 1385, para além da consciência que o poder teve relativamente à realidade local, houve coragem para tomar medidas concretas que fossem atractivos à fixação da população e que permitissem resolver o despovoamento que nessa época afectava Cascais.

Hoje, perante a passividade de quem nos governa, resta esperar que haja alguém que, para resolver o problema do sobre-povoamento, decrete a obrigatoriedade de forçar a entrar nas galés aqueles que, por inoperância, incompetência, ou meramente por distracção, não tomam as medidas que precisamos para resolver os problemas de Cascais.



terça-feira

A Corte em Cascais (1870-1910)





por: João Aníbal Henriques

Foi motivo de grande perplexidade  para o País a chegada da Corte a Cascais em 1870. Ao contrário do que vinha sucedendo desde há muitos séculos, a Família Real optou por deixar Sintra no final do Verão para vir para Cascais onde o Rei Dom Luís se deleitava com os salpicos salgados da água do mar. A decisão de se instalar na até aí quase desconhecida vila situada no extremo mais Ocidental da Europa, surge envolvida em polémica e nalguma galhofa junto dos círculos socialmente mais favorecidos da moderna sociedade Lisboeta. É que enquanto que em Sintra, em Évora, em Mafra ou em Vila Viçosa a Corte se deslocava de palácio em palácio, instalando-se em edifícios deslumbrantes que davam forma à grandeza que se imagina que acompanha sempre a figura do Rei, em Cascais a Família Real ficava instalada no Palácio do Governador da Cidadela que é, na sua diminuta expressão, o reaproveitamento das antigas instalações militares da velha guarnição…

Mas a situação ainda se complica um pouco mais quando falamos do resto da Corte. As grandes famílias Portuguesas, habituadas ao fausto e à grandiosidade dos salões da capital, sentem-se obrigadas a vir para Cascais com os Reis e a Família Real, mas aqui chegadas, contrariamente ao que acontece noutros locais, não têm outro remédio senão instalar-se nas minúsculas e velhas casinhas dos pescadores, trazendo consigo os serviços de refeições, toda a loiça, roupa de cama, etc. Nos primeiros dias depois da chegada a Cascais chegava a ser cómica a cena, com dezenas de criados trajados a rigor a esforçarem-se o mais que podiam para limpar e aconchegar os casebres Cascalenses que os pescadores locais lhes alugavam para a estadia de veraneio.




Nas revistas da moda e até junto dos mais conceituados escritores da época como Ramalho Ortigão, são às dezenas as crónicas e as descrições deste inusitado momento. Cascais, povoação conhecida por ser “feia” e pelo ditado que corria de boca em boca e dizia “a Cascais uma vez e nunca mais”, sentava-se ao espelho e pinta-se como se fosse uma primeira bailarina de uma qualquer sala de ópera Europeia. Depois de tratada, e principalmente durante os meses em que por cá permaneciam os visitantes ilustres da capital, tornava-se o espaço da moda onde convinha ser-se visto pois disso dependia o êxito social do Inverno seguinte.




A partir dessa altura, como se tivesse sido transformada num enorme palco de teatro, Cascais tornou-se a terra do fingimento. Fingia-se não sentir o desconforto dos casebres precários onde "sangues-ilustres" eram consumidos pelos percevejos; fingia-se ter dinheiro que não se tinha ou, tendo-o, fingia-se ter um sangue azulíssimo… Era em Cascais que, depois de muito penar nos empregos e trabalhos árduos da capital, se gastavam as economias guardadas com esforço; e era também aí, em episódios caricatos e repetidos vezes sem conta ao longo dos anos, que se traçavam as alianças entre as famílias, as estratégias empresariais e muitas vezes até os casamentos que deram forma a uma nova geração de Portugueses.