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quinta-feira

Manuel Possolo e as Memórias Profundas de Outros Carnavais em Cascais




por João Aníbal Henriques

Quando Manuel Possolo nasceu, em 1910, Cascais enfrentava um dos maiores desafios da sua história. A implantação da república, pondo fim à relação afectiva que a vila possuía com a Família Real, condicionou o desenvolvimento da localidade, exigindo imaginação e uma imensa capacidade de adaptação para que os novos tempos mantivessem incólume o registo de qualidade que até aí tinha sido apanágio de Cascais.

Mas a Nossa Terra esteve à altura do desafio. Marcando de forma extraordinária os novos tempos de Portugal, Cascais foi capaz de se reinventar, recriando uma nova geração de Cascalenses que souberam honrar a herança dos antepassados, ousando singrar um caminho novo ao qual dedicaram a sua vida e que foi essencial na definição da nossa nova identidade.

José Florindo de Oliveira, Boaventura Ferraz, Armando Vilar, Fausto Figueiredo e Abreu Nunes foram alguns dos vultos maiores desta época grandiosa. A vocação turística de Cascais, que a marca “Estoril” dignamente representou, assentava no carácter único desta terra especial e na dinâmica empresarial dos seus primeiros promotores. Mas entre eles, com uma capacidade visionária e um espírito empreendedor fora do usual, estava alguém que marcou definitivamente o futuro municipal…

Manuel Possolo foi um dos mais activos membros da sociedade civil Cascalense. Enquanto director da Sociedade Propaganda de Cascais, foi um dos fundadores do Clube Naval de Cascais e um dos entusiastas que deu corpo às inúmeras iniciativas de propaganda da vila, nomeadamente os concursos de montras, os bailes de angariação de fundos para construção do hospital e da praça de toiros e os corsos de Carnaval.




A sua paixão pelos cavalos, que começou com a transformação do fosso da Cidadela numa espécie de picadeiro que servia para treino hípico, culminou com a realização de muitas dezenas de concursos de saltos que transformaram os Estoris numa das referências hípicas mundiais.

Foi ele quem viabilizou a cedência de uns terrenos que pertenciam ao Visconde dos Olivais, para ali se construir um moderno e magnífico hipódromo onde decorreu, em 1937, o primeiro grande concurso hípico de Cascais. A qualidade do seu trabalho foi reconhecida em 1961, quando o Presidente da República o agraciou com a Medalha de Mérito Desportivo, assumindo a importância que teve na promoção internacional de Cascais através da fama de excelência e do prestígio que os concursos hípicos que organizava traziam para a Costa do Estoril.

Quase esquecido da generalidade dos Cascalenses, que recentemente viram uma parte substancial dos terrenos do hipódromo transformados num inusitado parque de estacionamento (!), a memória de Manuel Possolo perdura singelamente na designação oficial do equipamento que criou: “Hipódromo Municipal Manuel Possolo”.

Faleceu no Carnaval de 1979 e a sua memória cruza-se com a Memória Colectiva e com a própria Identidade Municipal.

A bem de Cascais!

terça-feira

São José da Parede na Dinâmica Urbanística de Cascais




por João Aníbal Henriques

A gestão dos critérios urbanísticos numa determinada localidade, mais do que o resultado de uma prática projectada de antemão, é usualmente a consequência mais visível do devir político e comunitário dos seus habitantes.

Quando a comunidade é activa e pragmática no estabelecimento das prioridades que hão-de definir o seu espaço, temos como resultado um menor peso do poder político central e, como consequência, uma maior liberdade de critérios de construção e decoração. Quando a isso juntamos um afastamento geográfico relativamente ao poder decisor, aumenta ainda mais a autonomia comunitária e alarga-se o espectro de soluções que hão-de espelhar-se no cenário urbano que se cria em seu torno.

Um dos exemplos mais paradigmáticos desta situação, é o da Vila da Parede, no Concelho de Cascais, ou seja, uma localidade nascida no útero de periferia suburbana de Lisboa, marcada desde sempre pela negligência ao nível das instituições municipais e Nacionais, e profundamente constrangida pela necessidade de se auto-definir ao nível do seu carácter comunitário.

Nascida de forma enquadrável nos modelos evolutivos mediterrâneos, a Parede até no seu topónimo deixa antever uma necessidade de afirmação que resulta do processo histórico da sua concretização.




Muito embora só exista, em termos institucionais desde o início do século XX, a localidade da Parede, cabeça da antiga Freguesia, resulta teoricamente da evolução de uma existência que havia sido marcada pela aldeia de Cai-Água (hoje São Pedro do Estoril) e essa, por seu turno, marcada também pela existência de diversas comunidades pré-históricas que utilizaram o seu espaço. Em termos práticos, no entanto, e tal como o comprova o levantamento patrimonial Cascalense (ver HENRIQUES, João Aníbal, Levantamento Exaustivo do Património Cascalense, Cascais, Fundação Cascais, 2000), não existem praticamente laços de união entre as duas realidades, uma vez que, a moderna Parede, de cariz republicano e revolucionário, e assumidamente a mais proletária de todas as localidades do concelho de Cascais, é uma realidade que resulta da chegada dos novos habitantes pré-industriais que para ali vão trazer um sentimento de suburbanidade que a antiga aldeia rural não conhecia. Os paredenses, hoje entendidos como parte integrante, a todos os níveis da vivência cascalense, foram, durante várias décadas, o resultado da existência de uma comunidade proletária em que o estabelecimento urbano se alicerçou nos princípios, nas orientações e nas motivações que anteriormente mencionámos.

Em termos físicos, com base na divisão dos terrenos que faziam parte das grandes quintas que o Comandante Nunes da mata ali adquiriu para mandar edificar, a preços módicos e acessíveis, uma nova povoação que correspondesse às necessidades efectivas da classe trabalhadora que não suportava habitar na cidade de Lisboa, onde os preços das acessibilidades eram pagos com valores que eles não podiam aguentar, a Parede do século XX conhece a auto-construção como forma eminente de se urbanizar. As velhas azenhas e moinhos, colocados estrategicamente para receberem sem encargos de maior os produtos agrícolas do interior do território, e para poderem enviar apara Lisboa as farinhas após terem sido manufacturadas, deixaram de fazer sentido num espaço onde todos eram iguais e onde todos sabiam fazer o mesmo. Os operários que se instalaram na Parede, oriundos de muitas partes do país, e observando o mesmo ritual quotidiano de utilização do comboio para chegar à capital, tornaram obsoleta a economia tradicional deste espaço, facto que obrigou a que se destruísse quase todo o parque habitacional antigo e tradicional, que hoje praticamente é impossível observar no interior da localidade da Parede, e o substituísse pelas novas casas de cariz operário e burguês, que seguiram quase à risca, as orientações apontadas por Leontidou.




Estas novas edificações, longe de seguirem os modelos desde sempre utilizados pela tradicionalidade local, impuseram-se através da diferença, fazendo apelo a formulações estéticas e decorativas que permitiam a utilização de muitas das bases culturais que traziam das suas terras de origem, e que eram sistematicamente adaptados à nova vivência de conjunto que aqui procuravam estabelecer. Vivendas como a do ‘Gato’, bastante próxima do centro da urbanidade paredense, são exemplos paradigmáticos da forma como a utilização decorativa de novas formulações, acaba por influir na capacidade de efectivarem, através do cunho artístico pessoal dos seus criadores, uma afirmação pessoal e comunitária da qual depende o próprio nascimento da povoação.

De facto, se nos ativermos às necessidades culturais da população, depressa compreenderemos a importância que assume a possibilidade de, através da decoração das suas casas, ganharem uma forma de afirmação que está em consonância com tudo aquilo que é o espírito que enforma o nascimento da institucionalidade e do poder da própria povoação. As casas, espelho muito fiel do sentir cultural de cada um dos seus habitantes, são, no seu conjunto um misto da harmonia que resulta da afirmação pessoal dos diferentes tipos de comunidade que ali habitam, com a heterogeneidade que marca a diferença que entre eles, de uma forma permanente e quase imutável, se vai efectivando.

A nível da estrutura urbana, ou seja, da forma como se dispõem os edifícios no seio da complexidade real que resulta da necessidade de se conseguir, na teia emaranhada de edifícios que compõem as diversas ruas marcadas pela construção não-planificada, discernir linhas orientadoras que promovam o entendimento sobre as bases culturais que a enformam, é possível perceber que existe uma competição básica, de âmbito individual, dela resultando a grande maioria das orientações que agregam as casas, a sua decoração, e os próprios quarteirões onde se inserem.




Desta forma, ao nível da visibilidade e do ordenamento do território, no seio de todas as incongruências que caracterizam a falta de plano e de previsão urbana, é possível encontrar linhas mestras, em que a colocação espacial de cada edifício, mais do que propriamente a sua localização paisagística ou as acessibilidades, é definidora dos fundamentos que regem as relações sociais. Esta situação, assaz curiosa se entendermos que no seio destas povoações a visibilidade da casa, muitas vezes construída num interstício sem quaisquer condições, é mais significante do que a própria qualidade da sua construção ou as vistas que dela se fruem, permite-nos ainda perceber qual é, verdadeiramente, a importância que a imagem e, logo, a própria decoração, exercem sobre aqueles que a constroem.

Na Parede, cada canto e recanto reflecte esta vivência profundamente sentido daqueles que construíram a povoação. Com uma aparência erudita nas suas zonas nobres e a singeleza decorativa mais simples nas zonas marcadas pelo desfavorecimento sócio-cultural, a vila define parâmetros de urbanidade que dão corpo à sua existência.




Para compreender o que é hoje a Parede em termos patrimoniais, importa perceber quais são as principais linhas definidoras da sua evolução histórica, nelas congregando tudo aquilo que contribuiu para a gestão dos equilíbrios sociais que tornaram possível a sua sobrevivência histórica. Por isso, é essencial a capacidade de ver para além da monumentalidade que o património por vezes exige, para se encontrar, quantas vezes perdido algures num laivo de excelência perdida no contra-forte de um qualquer muro de suporte, a informação que é necessária para entender a organização social a comunidade.

A Vila da Parede, suficientemente longe do exercício do poder para sonhar com a verdadeira expressão da liberdade, mas também demasiadamente importante para poder subtrair-se à evolução histórica de Cascais e da Região de Lisboa, é exemplo paradigmática da excelência urbanística, representando um papel fundamental na definição da Identidade Municipal de Cascais.

segunda-feira

5 de Outubro de 1143: cumprem-se hoje 872 anos de independência de Portugal




por João Aníbal Henriques

No dia 5 de Outubro de 1143, há precisamente 872 anos, o Rei Afonso VII de leão e Castelo reconheceu o antigo Condado Portucalense como reino independente e Dom Afonso Henriques como rei. Neste dia nasceu Portugal.

Com a assinatura do Tratado de Zamora, assente nos factos atrás mencionados, o novo monarca Português dá início à designada Dinastia Afonsina e ao processo lento, moroso e complicado de fazer reconhecer Portugal pela Santa Sé.

Em 1143, o tratado veio reconhecer o reino e o rei, mas Afonso VII exigiu que para que esse reconhecimento se efectivasse, o rei português aceitasse manter-se como seu vassalo directo. Afonso Henriques, sabendo de antemão que a liberdade de movimentos e de determinação da sua história dependiam do reconhecimento papal, enceta um percurso que se arrastará até 1179 quando o Papa promulga a Bula Manifestus Probatum e definitivamente assume o rei português como seu vassalo directo, libertando-o dos laços que o mantinham na dependência de Castela.

Ao longo destes quase novecentos anos de história, Portugal tornou-se num caso extraordinário na Península Ibérica e na Europa, sendo afinal o único dos pequenos reinos que conseguiu sobreviver aos desígnios dos grandes países que se impuseram. Com excepção do período de domínio filipino, entre 1580 e 1640 e, mesmo assim, sob o lema de “dois países e uma só coroa”, dado que os monarcas espanhóis mantiveram a independência formal de Portugal assumindo no nosso país uma designação diferente daquela que utilizavam em Espanha, Portugal foi capaz de responder sempre aos grandes desafios que se lhe colocaram, contornando dificuldades e impondo-se sobre as suas especificidades e características.

Em 13 de Junho de 1985, em conjunto com Espanha, Portugal voluntariamente assina o tratado de adesão à então CEE, depois de um processo diplomático longo e muito complicado cujo principal mentor foi Mário Soares. A concretização deste desígnio é, aliás, confirmada em Janeiro de 1986, em cerimónia que decorreu no Mosteiro dos Jerónimos, já com Cavaco Silva enquanto Primeiro-Ministro.





Mas são muitos os factos e os acontecimentos que causam estranheza neste dia 5 de Outubro. A começar pelo (quase) incrível facto de não ser feriado em Portugal neste dia em que se comemora o nascimento do País e a conquista da independência nacional. 5 de Outubro de 1143 deveria ser estudado, compreendido e devidamente assinalado pois é ele que determina toda a existência política do nosso País até à entrada neste Europa. Depois, mais estranho ainda, é o facto de tanto esforço e dedicação que foram necessários para cumprir este objectivo, tenham sido anulados pelo esforço feito por Mário Soares e Cavaco Silva para desbaratar essa independência numa adesão incondicional e destravada a uma Europa com qual nada tínhamos a ver. E, sobretudo, o facto de esta entrega incondicional da nossa soberania, ter sido alcançada numa posição de subserviente obediência aos organismos Europeus, sem que Portugal tenha sido capaz de oferecer à Europa um contributo que resultasse das suas imensas potencialidades, não valorizando a sua entrada com um contributo que capitalizasse as suas posições e decisões, mas tão só enquanto membro-pedinte que ficou refém dos fundos e das infra-estruturas que a Europa ofereceu.


No dia 5 de Outubro de 2015, marcado pela ausência do Presidente da República nas muitas cerimónias que procuram reforçar as memórias da revolução que nefastamente e de forma antinatural implantou a república em Portugal (porque está sossegado a pensar), importa recordar os bravos de 1143, que neste dia deram corpo ao mais importante dia da vida Nacional.

sexta-feira

O Estoril na Implantação da República




por João Aníbal Henriques

Quando em 1910 o regime republicano foi implantado em Portugal, os Estoris, conheciam uma vivência social muito próxima daquela que caracterizava a vila de Cascais, local de eleição da Corte, desde 1870, quando D. Luís I a escolheu como estância de veraneio.

Este facto, aliado à necessidade de capital para alicerçar os grandes investimentos urbanos que acompanham a viragem do século, aproxima o Estoril de uma posição conservadora que, em termos teóricos, deveria garantir-lhe alguns problemas após o dia 5 de Outubro de 1910.

No entanto, e contrariando as expectativas, tal assim não aconteceu, uma vez que a implacabilidade das forças republicanas, que sem grandes esforços movimentaram as suas hostes em todo o concelho a partir do núcleo da Parede chefiado por Nunes da Mata, conseguiu modificar pacificamente o regime, obrigando a sociedade estorilense, embora periclitante face a um apoio que era fundamental para levar a efeito o projecto de transformar este novo local numa estância turística de qualidade que estivesse a par com aquilo que de melhor existia na Europa, a entender que o novo regime, pese embora as suas deficiências, se encontrava preparado para não abandonar as suas conquistas facilmente, facto que contribuiu decisivamente para que tendencialmente se assistisse à criação de um acordo pacífico que facilitou o processo de mudança.



A pacividade desta mudança, no que concerne à Igreja de Santo António do Estoril, garantiu-lhe uma segurança que contribuiu para que em 1919, quando se cria a Junta Paroquial que  posteriormente será entregue a Monsenhor António José Moita, o inventário do seu recheio se mantivesse incólume e intacto, como se comprova pelo documento notarial que sela a entrega de todo o espólio pelo Ministério dos Assuntos Internos à Irmandade de Santo António do Estoril. A riqueza de tudo o que ali existia, e a guarda zelosa que é promovida pela alta burguesia estorilense que, desde 1834 controlava o edifício e tudo o que havia pertencido ao anterior convento, garantem à futura Paróquia um fundo de reserva que lhe permite desenvolver a quase totalidade dos projectos pensados, criados e levados a efeito por Monsenhor Moita.

Sem contactos directos com as correntes laicas e progressistas mais radicais, que noutras partes do País promoveram uma enorme devastação no património da Igreja, o Estoril de 1910 conhece o novo regime de uma forma bastante indirecta, somente através dos representantes municipais que, da Parede e a mando das hierarquias superiores dos partidos, obrigam a um pacifismo que interessa a ambas as partes. Ao Estoril, porque dele dependia o futuro do empreendimento turístico; e à elite republicana, porque ela própria dependia das potencialidades que o Estoril, paradigmático no contexto Nacional, conseguisse manter enquanto pólo atractivo de investimentos e elemento gerador de riqueza para os cofres muito depauperados do Estado.



Este carácter de elite da Paróquia do Estoril, alicerçado no nascimento da Irmandade de Santo António, no dia 15 de Abril de 1916, no nº 24 da Rua Nova do Almada, onde se situava o escritório do muito conceituado e futuro Presidente desta organização, o Conselheiro Ernesto Driesel Schröter, é demonstrativa do valor político e social que já referimos e, sobretudo, do carisma que envolve Monsenhor António José Moita a quem vão entregar a recém criada Junta Paroquial. Do elenco constitutivo na nova Irmandade, detentora de uma personalidade jurídica para a qual muito contribuiu a luta do futuro prior do Estoril, constam nomes como o de Carlos Augusto Velez Caldeira Castel-Branco, vice-presidente em parceria com seu irmão João Arnello Velez Caldeia Castel-Branco; Carlos Eduardo Mahoney, secretário em parceira com José Vianna Ferreira Roquette; António José Vianna, rico proprietário do Estoril; António Vianna Ferreira Roquette; João Sabino Vianna; António dos Santos Jorge; João Jacinto Seabra; Thomas d’Aquino d’Almeida Garrett; Agostinho de Carvalho; Ernesto do Canto Andrade; e José Paulo da Câmara. O Presidente Ernesto Schröter, na época Presidente da Associação Comercial de Lisboa e administrador do Banco de Portugal é, como já referimos, considerado por Manuel Villaverde Cabral como um marco na viragem no regime republicano e na contra-revolução que ditará, em 1928, o início do Estado-Novo, devido à sua intervenção no Ministério das Finanças do Governo de João Franco.

É precisamente este importante e influente Presidente da Irmandade de Santo António do Estoril, apoiado nas suas lides políticas pelas mais altas esferas do catolicismo português, quem escolhe Monsenhor António José Moita para assumir a coordenação da nova paróquia, facto bastante demonstrativo das tendências e dos princípios defendidos pelo prior, bem como da convicção e dinamismo com que ele empreende a direcção dos seus projectos.




Não será assim por acaso que a Paróquia do Estoril, já de si diferente por tudo aquilo que apontámos, se mantêm até quase ao final do século com apenas três priores: Monsenhor António José Moita; O Cónego Manuel José de Sousa; e, por fim, o Padre Armindo, sempre mantendo uma dinâmica de intervenção da qual faz parte um interesse permanente pelo desenvolvimento de medidas de intervenção de carácter social que promovam uma existência concertada e dotada de qualidade de vida na localidade. 



terça-feira

Palavra de Honra! O Caso do Yacht Thermopylae Afundado na Baía de Cascais

 
 
 
Depois de muitos anos de pesquisas e esforços inglórios, um conceituado investigador marítimo terá finalmente conseguido determinar com precisão o ponto da Baía de Cascais onde estão submersos os destroços do Clipper Thermopylae.
 
A história desta embarcação faz parte dos anais da própria História da Navegação Mundial. Construído no Século XIX por um importante armador britânico, o Thermopylae foi, durante várias décadas, uma das principais jóias marítimas da Coroa Inglesa.
 
De porte robusto, e com os seus três mastros oferecendo-lhe uma imponência difícil de igualar, o Thermopylae foi durante muito tempo o veleiro mais veloz do Mundo, mantendo uma rivalidade permanente com o seu conterrâneo Cutty Sark que ainda hoje faz as delícias dos amantes do mar e dos desportos náuticos. Conta-nos o Comandante Peter Kemp “que o mais rápido clipper que se construiu em qualquer época foi o Thermopylae, no seu tempo o orgulho do serviço da Marinha Britânica”.
 
Depois da chegada do vapor, e depois de centenas de missões cumpridas com êxito sob bandeira britânica, o Thermopylae foi vendido em hasta pública e adquirido por Portugal. A partir dessa altura, com o nome de “Pedro Nunes”, calcorreou as águas sob domínio português como navio-escola, e continuou a sua carreira de sucesso e prestígio.
 
Em 1907, depois de Portugal ter adquirido as suas primeiras embarcações a motor, o Thermopylae deixou novamente de servir, tendo sido encostado à Doca de Santos, em Lisboa, onde esteve durante algum tempo a servir de cais para descarregamento de carMas as autoridades portuguesas de então, cientes do prestígio, da fama, e da história fantástica do navio, depressa perceberam que aquelas funções não estavam de acordo com o Thermopylae. E a opção era uma de duas: o desmantelamento e a venda como sucata, tal como acontecia normalmente em situações semelhantes; ou o seu afundamento puro e simples, para que repousasse em paz nas águas profundas do oceano para o qual havia sido construído.
 
No dia 13 de Outubro de 1907, no âmbito de um festival naval realizado em Cascais sob protecção de Sua Majestade o Rei D. Carlos, que era simultaneamente o Comodoro do Clube Naval de Lisboa, o Thermopylae foi afundado ao largo da Vila, servindo de alvo aos torpedeiros que a Marinha de então estreava.
 
Com pompa e circunstância, e cumprindo todo o cerimonial inerente ao desaparecimento daquele que era já então uma lenda dos mares, o povo de Cascais assistiu dignamente ao afundamento do navio, que foi acompanhado de salvas de palmas e de disparos de honra dos canhões da Cidadela.
 
De acordo com as notícias de então, pretendia-se “poupar ao Thermopylae a ignomínia da venda para sucata”, oferecendo-lhe um desaparecimento digno do seu nome.
 
Estranhos tempos esses em que o Estado Português, que poderia ter arrecadado nos seus cofres uma verba substancial com o desmantelamento do navio, tenha optado por fazê-lo desaparecer, em prol da honra, da memória e da história de um barco. Estranhos tempos esses em que ainda não se falava de democracia mas em que o respeito, a lealdade e a transparência imperavam. Estranhos tempos esses em que o Rei Dom Carlos dizia acerca de cascais “que era a terra onde o povo era mais nobre e onde a nobreza era mais popular!”
 
Palavra de honra!

sexta-feira

A República em Cascais (1910-2010) – O Devir Histórico e a Identidade dos Cascalenses





por: João Aníbal Henriques

Compreender o devir histórico de Cascais ao longo dos últimos anos do Século XIX, tal como as diversas questões inerentes ao desenvolvimento das estruturas organizativas da sociedade Cascalense, longe de ser passível de determinação individual, pressupõe um arreigado exercício de contextualização e de integração cronológica, social e espacial.

De uma maneira geral, tanto para os que dela são naturais como para aqueles que nela somente residem, a Vila de Cascais é um local com inúmeros atractivos. A proximidade da capital, as condições estratégicas de defesa, o clima privilegiado e as diversas linhas de água que a percorrem, foram as condições essenciais que definiram a ocupação humana que se estende desde o Paleolítico até à actualidade.

Deixando de lado os mais remotos e inatingíveis tempos da sua vida, e tomando em consideração somente o período que se estende entre 1143 e o dia 5 de Outubro de 1910, podemos distinguir na vida Cascalense quatro períodos fundamentais: o primeiro, que se estende desde o dealbar da Nacionalidade, em 1143, até 1364, corresponde ao período de afirmação da pequena vila piscatória como Concelho, desenvolvendo as suas instituições e a força do seu tecido social (4). O segundo, de 1364 até 1870 (5), caracteriza-se fundamentalmente pelo desenvolvimento das suas capacidades naturais. A pesca e as actividades em prol da defesa de Lisboa, a agricultura e a pecuária, encontram neste período a sua época de desenvolvimento e consolidação, antevendo a preparação das condições essenciais à radical transformação de que vai ser alvo no último quartel do Século XIX. O terceiro período da História de Cascais encontra-se situado entre os anos de 1870, data em que Dom Luís I, com o seu amor pelo mar e pelas actividades marítimas, passa a utilizar a vila como estância de banhos, para onde trás a Corte durante a época estival. E o último, corresponde ao período compreendido entre a implantação da república e a actualidade, onde o nível de vida, as capacidades da vila e as suas riquezas naturais, vêm-se progressivamente degradando, mercê da utilização exaustiva dos seus recursos e pautando a sua existência por uma contínua expansão turística massificada, onde pouco lugar sobeja para conhecer, reconhecer e potencializar a sua natural vocação de qualidade.

O presente trabalho, longe de procurar apresentar alternativas ao rumo tomado pelo Concelho ao longo do último Século, debruçar-se-á principalmente sobre os dois últimos períodos da existência da Vila, sendo que, pelas radicais diferenças que os caracterizam, e de entre um e o outro não ter existido uma evolução paulatina mas sim um processo revolucionário de modificação radical, será lógico encontrar no primeiro as sementes do segundo, e no segundo, de igual modo, as ramificações e consequências que resultam do primeiro.

As condicionantes básicas às existências destas duas formas de pensamento que, como se actualmente não são radicalmente opostas no que concerne à sua função prática, mudando-se os nomes e os processos de execução, mas mantendo-se as obras básicas de implantação, estão assim patentes em diversos momentos e decisões tomadas pelos órgãos competentes, sejam eles os diversos clubes, sociedades e grupos desportivos e culturais, como também na Câmara Municipal, na Junta de Turismo, de entre outras. As formas de propaganda de cada um dos regimes, bem como as benesses ou as imposições que ambos utilizaram durante a vigência dos seus mandatos, servirão assim de base à compreensão da consciência cívica e política da sociedade que, sem possuir um papel activo na gerência e/ou na administração da terra, se vê embrenhada em todas as questões, sofrendo na sua pele inocente as consequências negativas das decisões e medidas tomadas pelos governantes de ambas as facções.

(4) COLAÇO, Branca de Gontha e ARCHER, Maria, “Memórias da Linha de Cascais”, Lisboa, (SN), 1943.
(5) HENRIQUES, João Aníbal, “O Urbanismo de Cascais na Época Moderna”, Jornal da Costa do Sol, 22 de Julho de 1993.

A República em Cascais (1910-2010) – O Visconde da Luz e a Modernização Urbana





por: João Aníbal Henriques

Decorria o longínquo ano de 1862, quando a Vila de Cascais não passava ainda de um pequeno burgo piscatório, que Joaquim António Velez Barreiros, Visconde de Nossa Senhora da Luz, resolveu edificar na Vila Nova, antigo Alto da Bela Vista, a sua moderna casa de veraneio.

O processo desenvolvido desde então, a par com diversas medidas introduzidas ao nível do embelezamento do passeio e acessos à povoação, produziu assim transformações perenes na diminuta povoação que a dotaram das condições necessárias para se tornar no centro cosmopolita de turismo que a caracterizaria durante as duas últimas décadas do Século XIX.

Foi a acção conjunta de diversos forasteiros, atraídos para Cascais depois da instalação do Visconde da Luz, a par com a vontade expressa por parte de alguns ilustres moradores, dos quais fez parte o saudoso Presidente da Câmara João de Freitas Reis, que determinou o futuro da localidade. Por postura camarária de 24 de Maio de 1860, o referido Presidente da Edilidade, de comum acordo com os anteriormente referidos, cria a estrada entre Cascais e Oeiras, obra fulcral no desenvolvimento das comunicações entre a foz do Tejo e a capital. Paralelamente, a mesma postura determina que todos os carros, ómnibus, seges e bestas somente pudessem transportar pelo empedrado, sob pena de multa. Para o embelezamento desta importante via pública cedeu a Câmara, a instâncias do Visconde da Luz, as varas necessárias para a protecção do crescimento das inúmeras árvores então plantadas.

Provado que está o esforço empreendido pela classe dirigente do pequeno burgo no sentido de o dotar das infra-estruturas necessárias ao seu desenvolvimento, promovendo assim as condições naturais que lhe estavam inerentes, poder-se-á pois concluir da conjugação de esforços efectuada em torno destas iniciativas, envolvendo naturais e recém-chegados à Vila de Cascais.

A República em Cascais (1910-2010) – O Crescimento Real





por: João Aníbal Henriques

Povoada até aí quase exclusivamente por agricultores que ocupavam a sua zona mais interior, e uns poucos pescadores assentes na faixa litoral, a Vila de Cascais assistiu passivamente a uma radical transformação social.

Se a presença no povoado de um pequeno convento da Ordem Carmelita, dedicado a Nossa Senhora da Luz, serviu de incentivo à modernização de algumas das actividades desenvolvidas no sector primário da economia, a extinção das Ordens Religiosas, com toda a problemática que a envolveu, representou o final da única instituição relevante no desenvolvimento social de Cascais. Por esse motivo, quando em 1832 o edifício do convento é vendido em hasta pública, são poucos os interessados em adquiri-lo, sendo que, em pouco mais de cinquenta anos, conheceu um elevado número de proprietários, tendo entrado na posse do Visconde do Gandarinha já após o surto de desenvolvimento encetado pelo Visconde da Luz (6) já no último quartel do Século XIX.

Foi, no entanto, o gosto pelo mar da Princesa Maria Pia de Sabóia, que no dia 5 de Outubro de 1863 chegou a Cascais para desposar o monarca Português Dom Luís I, que contribuiu de sobremaneira para a transformação do espectro social da vila. As suas origens Italianas, da Família Sabóia, misturadas com as reminiscências da Dinastia de Saxe-Coburgo-Gotha, da qual descendia, faziam dela uma das mais espontâneas admiradoras das belezas naturais, as quais cascais possuía em grande abundância…

Um novo ciclo vai dimanar para Cascais destas novidades que, em conjunto com a acção dinamizadora do Visconde da Luz, vão trazer a esta Vila o esplendor da fina-flor da sociedade da época. A chegada da Corte, noticiada pela imprensa no mês de Setembro de 1870 (7), vem marcar para sempre o devir histórico da localidade, que passa assim a usufruir do estatuto de Vila da Corte. Por este motivo, passam a afluir a Cascais em carácter de veraneio ou mesmo em esporádicos passeios dominicais, uma numerosa horda de forasteiros que entregam à povoação Cascalense um movimento que ela nunca sonhara poder vir a conhecer. É neste contexto festivo, rodeado de um fausto difícil de igualar, e em que as grandes famílias Portuguesas lutavam para se impor, que se celebravam constantemente grandes recepções e jantares, aos quais, todo aquele que pretendesse atingir o estatuto de galã social, não se poderia furtar.

Muitas vezes com prejuízo irremediável para o restante do ano, as famílias Lisboetas alugavam as modestas habitações dos pescadores da Vila, onde, de acordo com os relatos da época (8) sobreviviam sem as menores condições de higiene e comodidade, não dispensado, no entanto, a utilização dos melhores serviços de prata que possuíssem nos seus palácios na capital. Num curioso episódio descrito por Dom Tomaz de Mello Breyner, Conde de Mafra, é possível vislumbrar as pitorescas situações a que se podia assistir durante a estação estival Cascalense (9). É enquadrado neste ambiente forjado que se assiste a um progressivo aumento das actividades na Vila que para aqui atrai um cada vez maior número de visitantes.

Os anos que decorrem após 1870 são férteis na actividade de construção, aparecendo diversos chalets e palacetes que garantiam uma maior comodidade aos grandes senhores do Reino. É este o caso das obras de remodelação da Cidadela, para a estada da Família Real, bem como a construção dos Palácios dos Duques de Palmela, a “Casa da Serra” de Andrade Torrezão, e diversos palacetes pertencentes, de entre outros, a António José Marques Leal, Francisco Ribeiro Ferreira, Duques de Loulé, Eduardo Plácido, Marquês da Foz, D. António de Lencastre, Carlos Mantero, Marquês do Faial, D. Nuno d’Almada, Conde de Arnoso, D. António de Avillez, Raul Lino, Jorge O’Neill, Francisco Vilaça e os Condes de Castro Guimarães.

Paralelamente a este esforço modernizativo que obrigou a uma radical transformação da paisagem urbana do burgo, ocorreu a acção social da Duquesa de Palmela que, mercê da sua abastada posição económica, provocou uma renhida concorrência com a Rainha, promovendo recepções e jantares a um ritmo alucinante, para os quais eram convidados os maiores e mais importantes fidalgos do País. O Palácio Real da Cidadela, para além de não possuir o fausto do da Duquesa de Palmela, sofria com a depauperada situação financeira da Rainha Dona Maria Pia, que se via obrigada a grandes esforços para manter o seu esplendoroso nível de vida.

(6) A respeito da via no Convento de Nossa Senhora da Piedade e do complexo processo de que foi alvo e definiu as inúmeras modificações acontecidas no final do Século XIX ver: MENDES, Fernando Viana, “Escavações Arqueológicas Mostram Quatro Séculos de História”, Jornal A Zona, 12.02.1993; TEIXEIRA, Carlos A., “Escavações Arqueológicas em Cascais Desvendam Quatro Séculos de História”, Jornal da Costa do Sol, 13.02.1992; HENRIQUES, João Aníbal, “O Estado da Cultura ou a Cultura do Estado”, Jornal Tribuna Regional, Janeiro de 1993; BARAONA, Joaquim, “As Casa da Gandarinha em Cascais: Tudo Concertado Antes do Final do Ano”, Jornal Tribuna Regional, Setembro de 1993; TEOTÓNIO PEREIRA, Inês, “Sem Piedade”, Jornal O Independente, 15.10.1993; HENRIQUES, João Aníbal, “As Casas da Gandarinha em Cascais – A Hora da Mudança”, Jornal da Costa do Sol, 28.10.1993; HENRIQUES, João Aníbal, “Casas Abandonadas de Cascais: As Casas da Gandarinha e o Convento de Nossa Senhora da Piedade”, Jornal Tribuna Regional, Outubro de 1993; HENRIQUES, João Aníbal, “Convento de Nossa Senhora da Piedade – 400 Anos de História”, Jornal da Costa do Sol, 17.03.1994; HENRIQUES, João Aníbal, “História Rural Cascalense”, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 1997.
(7) Jornal do Comércio, Domingo, 15 de Setembro de 1870: “Cascais – Os bons e pacíficos cidadãos de Cascais fizeram esplêndida recepção a El-Rei e à Rainha, que para fazerem uso de banhos no mar, chegaram àquela Vila às seis e um quarto da tarde do dia 12. Desde o princípio da Vila até à Cidadela, as janelas estavam enfeitadas com bandejas, globos de vidro, e vistosas colchas de damasco. As ruas encontravam-se cobertas de areia e de buxo”.
(8) Diário de Notícias, 28 de Agosto de 1871.
(9) “A Madame Dupias vinha a Cascais de visita a uma amiga doente, moradora numa rua estreita, pobre, suja e calçada com pedregulhos, encontrou uma titular das suas relações saindo de uma habitação modestíssima e preparando-se para entrar num coupé bonito, puxado por bela e bem arreada parelha, com um cocheiro bem fardado e um trintanário bem posto de chapéu na mau, abrindo a portinhola. Esta senhora em Lisboa vivia numa casa magnífica”.

A República em Cascais (1910-2010) – Modernização e Prosperidade no Final do Século XIX





por: João Aníbal Henriques

Paralelamente ao grande desenvolvimento social da Vila, um complexo sistema de alterações económicas vem gradualmente contribuir para modificações profundas no nível de vida da sua população.

Se o sector da construção constituiria na época uma das mais rendosas actividades profissionais, mercê do elevado número de construções e melhoramentos introduzidos na Vila (10), os serviços de apoios ao cada vez mais elevado número de habitantes e visitantes iam crescendo também. Par fazer face ao crescimento exponencial da procura, abrem na Vila de Cascais diversas padarias e fábricas de pão, que importavam o trigo e farinha necessários aos produtores instalados no vizinho Concelho de Oeiras (11).

Como complemento a esta actividade de panificação, e de acordo com a anterior tradição do Concelho, implementaram-se diversas fábricas de tratamento e conserva de peixe, que serviam de base à dieta alimentar dos veraneantes e que perduraram activas até à década de sessenta do Século seguinte (12). A actividade hortícola, até aí promovida basicamente pelos “saloios” da Várzea de Sintra, conhece também um importante crescimento nas regiões interiores do próprio Concelho, notando-se nesta época um crescimento significativo nas povoações de Alcabideche, Adroana, Manique, São Domingos de Rana, Malveira-da-Serra, de entre outras, que exportavam as suas produções para o núcleo principal do Concelho onde já desde a década de 80 do Século XIX existia um importante mercado para comercialização de produtos agrícolas.

Acompanhando este surto de desenvolvimento económico, e em linha com o que acontecia nas principais estâncias balneares Europeias, os jornais da época publicitavam cada vez mais as actividades desenvolvidas na Vila de Cascais. Em 1870, no dia 24 de Julho, o Diário de Notícias anuncia o aluguer de uma moradia em Cascais, bem como uma viagem de recreio no vapor “Lusitano” entre Lisboa e a Vila. Facto curioso nessa notícia é o de, em relação ao preço do bilhete, que ele seria o mesmo do costume, o que deixa antever a grande procura de que seria alvo esse meio de transporte.

Em 13 de Agosto de 1871, na sua folha oficial, o mesmo Diário de Notícias publicava um decreto com a concessão do caminho-de-ferro do sistema americano ao Duque de Saldanha, na Estrada Real nº 67, de Lisboa a Cascais, e no dia 28 de Setembro do mesmo ano é anunciada a inauguração da luz eléctrica.

Do ponto de vista cultural, representou um momento áureo da vida na Vila de Cascais a realização no Concelho do Congresso Internacional de Arqueologia, em 1880, que para aqui trouxe centenas de congressistas oriundos de diversas partes do Mundo. Assim, durante um breve mas significativo dia, os grandes nomes da arqueologia mundial tiveram a oportunidade de visitar os monumentos Pré-Históricos da Vila de Cascais, terminando o seu passeio, já bastante tarde, num baile de gala oferecido pela Rainha.

Enquadrado no esforço do Visconde da Luz em modernizar a Vila, e com a autoria de Manuel Rodrigues de Lima, construiu-se em 1869 uma sala de espectáculos em Cascais. Pelo Teatro Gil Vicente, que recebeu recentemente obras avultadas de remodelação (15) passaram os grandes nomes do espectáculo do Século XIX, como Mercedes Blasco, Laura Ferreira, Pedro Cabral, Pereira da Silva, Beatriz Rente, Rodrigo Berquó , Dom Fernando Atalaia, D. Belmira Lima, etc.

Ao contrário do que se poderia pensar, a morte de Dom Luís I, grande impulsionador da vida em Cascais, ocorrida em 1889, não representou o fim da época de esplendor. O próprio cortejo fúnebre do Rei, maravilhosamente descrito por Ramalho Ortigão nas suas “Farpas” (16), representou um dos acontecimentos sociais mais marcantes do final do Século, tendo sido acompanhado de perto por todos os grandes nomes da aristocracia Nacional.

Após a subida ao trono de Dom Carlos I, que continuou a escolher Cascais como a sua praia de banhos, e no próprio ano da morte do rei Popular, é inaugurado o transporte ferroviário para Lisboa (17). A continuidade na utilização das praias da linha como pontos fundamentais da vida social de então, marcaram decisivamente a política daquela época. No “António Maria” de 29 de Setembro de 1881 (18), esboça Bordalo Pinheiro a sua primeira nota relativamente a esta extraordinária Praia da Corte. Por esta altura era o Teatro Gil Vicente palco de inúmeras actuações, durante o dia com “matinés” infantis que serviam para entreter as crianças e as suas “nannys” enquanto os pais passeavam descontraidamente pelo Passeio Marítimo, e à noite com grandiosas actuações de música ligeira, ópera e teatro. No Jornal “GilBrás” de dia 28 de Outubro de 1899, são-nos anunciadas duas grandiosas e opulentas festas de caridade que decorreram no Teatro Gil Vicente (19).

Paralelamente, era inaugurada em Cascais uma Real Praça de Toiros, onde lidaram alguns dos melhores toureiros da época. D. António Vasco de Mello, como cavaleiro, e José Martinho Alves do Rio, como farpeador, deram assim início a uma tradição tauromáquica arreigada que se estendeu quase até à actualidade e à qual desde logo se juntou o próprio Rei Dom Carlos I. Desde essa altura, muitas foram as touradas importantes realizadas em Cascais, sendo naturais desta Vila os senhores Dom Francisco de Avillez, Alberto O’Neill, Simão da Veiga, João da Veiga, Affonso Villar, Zêa Bermudez e Estêvão Vanzeller, responsáveis pela implantação da tauromaquia como grande espectáculo artístico Nacional.

A primeira exposição fotográfica que se realizou no nosso País, e que contou com a participação de artistas como Frederico Pinto Basto, Ennes Ulrich, Francisco de Herédia e o próprio Visconde da Luz, teve lugar em Cascais no dia 13 de Outubro de 1898. Foi este evento noticiado como grande acontecimento pelo Diário de Notícias (26) que mudou radicalmente o conceito nacional relativamente à fotografia, que passou a ser vista como uma arte equiparada à pintura e à escultura, e não como uma mera actividade figurativa.

Todas estas transformações, que aconteceram durante o período compreendido entre a chegada do Visconde da Luz e o final do reinado de Dom Carlos I, tiveram profundas consequências na Vila de Cascais e nas suas gentes. Se até aí produziam essencialmente para se auto-abastecerem, sendo a exportação para a Capital um fenómeno isolado e pouco digno de nota, a chegada da Corte marcou um definitivo ponto de viragem. A criação de postos de trabalho, que inicialmente acontecia somente durante o período estival, não tardou a alargar-se ao restante tempo do ano, à medida em que a aristocracia Lisboeta aqui ia investindo a sua riqueza, sobretudo construindo casas que lhes permitiam usufruir dos banhos e da companhia Real com mais conforto e comodidade. O apoio dado directamente por Dom Carlos I aos grupos recreativos, culturais e desportivos incentivo à criação de raízes sólidas neste local.

Paulatinamente, os que inicialmente só vinham para Cascais passar curtos períodos, começaram a instalar-se definitivamente, promovendo uma autêntica revolução no tecido social da antiga vila de pescadores.

Fácil de torna perceber, desta maneira, a forma hospitaleira e a efectiva alegria com a qual os Cascalenses receberam os seus novos e ilustres moradores, bem como a harmonia social e cultural que se recriou a partir desse momento. A chegada da Corte a Cascais, e a relação íntima de Cascais com o regime Monárquico, acabou por constranger em definitivo a implementação na Vila das medidas revolucionários que os partidários do 5 de Outubro aqui quiseram promover.

(10) Ver Nota (5)
(11) MIRANDA, Jorge, “Tecnologia Tradicional e Sistemas de Moagem em Oeiras”, in Actas dos Encontros de História Local, Oeiras, câmara Municipal de Oeiras, 1992.
(12) GOES, Maria das Dores, “A Real Fábrica de Lanifícios de Cascais”, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964
(13) Diário de Notícias, 28 de Setembro de 1898, “deve ser iluminada a Cidadela de Cascais para marcar a data de aniversário do Princípe Real Dom Luís Filipe”
(14) Ver Nota (3)
(15) Jornal da Costa do Sol, Fevereiro de 1994
(16) ORTIGÃO, Ramalho, “As Farpas”, Pag. 291
(17) Jornal O Aldense
(18) GilBrás, 28 de Outubro de 1899
(19) Diário de Notícias, 14 de Outubro de 1898

A República em Cascais (1910-2010) – A Vila da Corte no Processo Revolucionário






por João Aníbal Henriques

A criação de muitos postos de trabalho, e o incentivo dado à criação e posterior promoção do sector produtivo Cascalense durante os reinados de Dom Luís I e Dom Carlos I, foram os principais factores que estiveram na base da modernização e ao rejuvenescimento social e cultural da Vila de Cascais.

Finalmente, após mais de quinhentos anos de História, Cascais sai do marasmo em que se encontrava, assistindo ao progressivo enriquecimento do seu povo. Pela primeira vez na História de Cascais, os naturais possuem as condições necessárias para se poderem desenvolver, incrementando as suas tradicionais ocupações, como a agricultura, as pescas e as indústrias conserveiras, e intentando novos investimentos em áreas de negócios mais rentáveis.

Com um quadro político desta natureza, e com a criação de extraordinários (e pouco usuais para a época) jardins e espaços públicos (o Jardim Visconde da Luz e a Parada são exemplos emblemáticos desta situação), paralelamente ao apoio que é dado aos corpos de salvamento de actividades marítimas, e a criação de novos arruamentos e meios de transporte, fácil será perceber as inúmeras dificuldades sentidas pelos propagandistas republicanos para poderem disseminar por aqui as suas ideias (21).

Segundo nos relata Ferreira de Andrade (22), o dia 1 de Fevereiro de 1908 representou o fim trágico do período de esplendor e crescimento da Vila de Cascais: “Não mais se animaram nessas tardes festivas dos últimos dias de Setembro os passeios e as praças da povoação. Um silêncio tétrico, pressago, pairava sobre a Vila. Dona Maria Pia continuava veraneando na sua vivenda no Mont’Estoril. D. Manuel II e sua mãe raras vezes se deslocavam à Cidadela (…)”.

O primeiro sinal de uma prática republicana em Cascais é-nos relatado pelo Professor Marques Guedes (23): “Um iniciado da Carbonária, que ameaçara denunciar alguns cúmplices num roubo de cartuchame, apareceu morto no fundo a alterosa falésia contra a qual as vagas se arrojavam em fúria em dias de temporal. Apresentava vestígios de para lá ter sido arremessado”.

Como vinha acontecendo desde a chegada a Cascais do Rei Dom Luís I, no já longínquo ano de 1870, as festas locais começaram a preparar-se no dia 2 de Outubro de 1910. Corridas de Toiros, torneios de tiro aos pombos e outras actividades festivas que acompanhavam as tradicionais regatas, encontravam-se em fase final de preparação quando chegaram a Cascais as primeiras notícias relativas aos motins ocorridos em Lisboa.

Acerca deste período, primorosamente descrito pelo Marquês do Lavradio nas suas “Memórias”, poucas informações existem para além de alguns apontamentos dispersos publicados no jornal “O Século”.

As diversas incongruências e incompatibilidades relatadas nessas notas de imprensa, demonstram de sobremaneira a imensa confusão que grassava no Reino e também na Vila de Cascais. Em nota publicada no dia 7 de Outubro, “O Século” afirma que desde que se iniciaram os tumultos em Lisboa que Cascais vive ansiosamente sempre à espera de notícias que rareavam na localidade. Não funcionando já os comboios, Dom Afonso, tio do Rei Dom Manuel II, percorreu por diversas vezes a Vila em automóvel, não parando nem sequer durante a noite. Em relação ao povo, o mesmo jornal afirma que se manteve cordato, não havendo conflitos, muito embora centenas de homens de Cascais e das proximidades se mantivessem armados e aguardando ordens. No seguimento desta informação, o jornal “O Século” afirma ainda que de manhã, quando Dom Afonso embarca no Yate Amélia, se despediu da Vila chorando, e dizendo que levava o bom povo de Cascais no coração. Entretanto, na Vila, aguardava-se com ansiedade o resultado da revolução. Quando às nove horas da manhã chegou a notícia da proclamação da república, Dom Fernando de Castelo-branco, administrador do Concelho, pede de imediato a sua demissão.

No Diário de Notícias do dia 6 de Outubro de 1910, pode ler-se que José João Diniz, acompanhado pelas Filarmónicas da Parede e de Carcavelos, só nessa tarde conseguiu chegar a Cascais, percorrendo no meio do maior entusiasmo as ruas da Vila, e tomando posse do cargo de administrador provisório do Concelho, nomeado por ordem do governo provisório.

Seguindo o exemplo do que havia acontecido em Lisboa, nessa mesma tarde, aqueles que na véspera haviam aclamado Dom Manuel II e acompanhado a figura simpática do Infante Dom Afonso, assistem com emoção ao içar da bandeira bicolor da revolução triunfante, desaparecendo num ápice a popularidade que até aí granjeava a Família Real.

(21) Ver Diário de Notícias de 29.09.1904; 21.09.1904; 01.10.1908; Jornal O Dia de 02.08.1904; Ilustração Portuguesa de 03.10.1904
(22) Ver Nota (3)

A República em Cascais (1910-2010) – Consequências da Revolução Republicana





por: João Aníbal Henriques


Tal como vimos anteriormente, parece ter sido pacífica a intervenção dos Cascalenses na mudança do sistema governativo e na implantação da república. Se nos detivermos nas notícias publicadas pelos jornais “Diário de Notícias” e “O Século”, a massa popular ter-se-á mantido pacatamente armada, esperando notícias da revolta Lisboeta. No entanto, para além de não nos referirem a origem sócio-cultural da gente que mencionam, tão pouco nos informam sobre a sua origem geográfica. Seriam Cascalenses ou habitantes que vieram para a Vila oriundos de outros locais?

O facto de “O Século”, na sua edição de dia 07 de Outubro, ter relatado a forma fácil como o Infante Dom Afonso terá percorrido as ruas da Vila, quem sabe tentando suster a vaga revolucionária que o Rei Dom Manuel II, seu sobrinho, não tinha a capacidade de deter, demonstra-nos a fraca iniciativa e apoio do povo de Cascais que, para além de não deter o Infante nas suas manobras, continua a acompanhá-lo sempre ao longo das suas deambulações e está com ele até ao embarque final.

Nessa altura, quando ele entra no Yate Real Amélia, e em contradição com as notícias sobre as expectativas que pairariam sobre o povo de Cascais, o mesmo jornal refere a mágoa com a qual o Infante entra no barco e se despede dos seus amigos de Cascais que leva consigo no coração. Já no “Diário de Notícias”, o relato da demissão de Dom Fernando Castelo-branco do seu cargo de Administrador Concelhio é seguida da descrição do longo passeio deste pela Vila antes de a abandonar, na companhia do Infante, não tendo nesse percurso sido admoestado por quaisquer acções populares.

Nas “Memórias” do Marquês do Lavradio, veraneante de Cascais e amigo íntimo do Rei Dom Carlos I, o mesmo nos fornece informações contraditórias relativamente aos relatos publicados nos jornais. Dever-se-á isto à natural dificuldade de comunicações, próprias de qualquer processo revolucionário, ou à natureza manobrante dos órgãos de comunicação social afectos ao novo regime?

Provado parece, agora que se passaram já cem anos desde a revolução de Outubro de 1910, que as guarnições armadas sitiadas na Fortaleza de Nossa Senhora da Luz, acompanharam as mudanças políticas revolucionárias. A guarnição de infantaria da Cidadela, segundo informações do Jornal “O Século”, estaria ausente quando lá chegou o Infante Dom Afonso, na madrugada do dia 5 de Outubro, acompanhado por vários populares que o pretendiam defender. Acerca deste regimento, no entanto, não existem mais notícias, pressupondo-se que estaria em Lisboa apoiando o esforço revolucionário.

Em relação às populações dos arredores da Vila, para além daquelas marcadamente rurais, situadas na zona Norte e Poente, parece também provado o apoio e o conluio que deram à revolução as populações da Parede, Carcavelos e São Domingos de Rana. Para esse facto terá contribuído o isolamento destes locais em relação ao pólo central da Vila, não usufruindo directamente dos benefícios que resultaram da instalação da Corte nem das regalias comerciais que enriqueceram os muitos pequenos produtores agrícolas e hortícolas que exportavam para Cascais o produto do seu trabalho.

A inauguração da linha-férrea, bem como o enorme afluxo populacional que ela trouxe a essas zonas do Concelho, no princípio do Século XX como hoje, contribuiu para a sua descaracterização e para o acentuar das assimetrias sócio-económicas relativamente às zonas desenvolvidas e cosmopolitas do espaço onde estava a Corte. Para juntar a tudo isto, essas zonas tinham vindo a ser alvo de diversos problemas de índole político-administrativo tendo, sucessivamente, feito parte de diversas reformas municipais (24) que as afastaram do interesse dos responsáveis pelo poder local.

Ainda não devidamente estudada, mas decerto repleta de interesse político, está a proliferação de associações civis de carácter local em todas estas povoações do interior. O afastamento a que tinham sido votadas, terão sido os factores essenciais no aparecimento de diversas associações, clubes e grupos locais, que terão servido de base à propaganda revolucionária republicana e que aí terá encontrado a abertura cultural essencial ao desenvolvimento dos novos ideais. É este o caso de instituições como a Associação de Educação Popular do Zambujal, Grupo de Alentejanos Residentes em Tires, Grupo de Instrução Popular da Amoreira, Grupo Sportivo de Carcavelos, Sociedade de Educação Social de São João do Estoril, que terão sido fundados como forma de fazer frente às necessidades culturais, recreativas e educativas das populações do interior.

As associações similares do litoral, pelo contrário, possuem características bastante diferentes, servindo essencialmente para fazer frente às necessidades práticas do dia-a-dia. É este o caso das associações e grupos cénicos dos bombeiros, do Clube Naval de Cascais, do Grupo de Salvamento Marítimo, do Sporting Clube de Cascais, etc.