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terça-feira

O Teatro Gil Vicente em Cascais




por João Aníbal Henriques

Quando Cascais assistiu, nos idos de 1869, à inauguração do Teatro Gil Vicente, recém-construído a expensas do ilustre Cascalense Manuel Rodrigues Lima, ainda não tinha perfeita consciência da importância desse acto e dessa data da História da própria vila.

É que, nesse ano, Cascais era ainda a pequeníssima aldeia de pescadores situada numa das zonas mais longínquas dos arredores de Lisboa, conhecida mais pelo seu peixe e pela sua importância estratégica de âmbito militar, do que pela arte, ciência, sociedade ou cultura.

Mas foi em 1869, com a inauguração do teatro, que tudo começou a mudar.

Logo nesse mesmo ano, depois de os jornalistas lisboetas noticiarem a inauguração de um “teatro de luxo na vila de Cascais”, os cerca de 500 lugares da sala de espectáculos esgotaram várias vezes. Por ali, como se de uma grande capital cosmopolita se tratasse, passaram os grandes nomes da vida artística europeia dessa época. Desde o grande actor Vale, passando por Mercedes Blasco, Laura Ferreira, Pedro Cabral, Beatriz Rente e Pereira da Silva, muitos foram os nomes famosos que levaram longe a fama da nova casa de espectáculos e da própria vila de Cascais, recriando em torno da povoação uma mística de interesse que nunca mais desapareceu.

Terá sido também a partir da construção do Teatro Gil Vicente, que se criaram em Cascais numerosos grupos, colectividades, associações e academias, que alteram por completo a vivência social e cultural do velho burgo. O teatro de amadores, ainda hoje recordado com nostalgia por ter marcado de forma perene a História de Cascais, desenvolveu-se sempre em torno deste espaço. D. Fernando Atalaia, Rodrigo Berquo, Maria Luís da Costa, Belmira Lima, D. José de Atalaia, Ermelinda Assunção, subiram ao palco lado-a-lado com celebridades estrangeiras como Sandor Vegh, Eisenberg, Hans Munch e Karl Engel. E o fulgor manteve-se inalterado durante praticamente um século. Francisco Carneiro, Luís Costa Constante, João Constante, Helena Pinto, Edmundo Ferreira, Jaime Salgado, Marília Costa, Cármen Mota, João Carriço, Juvenália Tavares, são apenas alguns exemplos dos muitos artistas amadores que durante muitas décadas foram criando, encenando e fazendo subir ao palco algumas das mais divertidas, cómicas, dramáticas e culturalmente emblemáticas peças de teatro do país.


Foi também a inauguração do Teatro Gil Vicente, com toda a animação que a envolveu, que motivou o Rei Dom Luís I e a Corte Portuguesa, a escolherem Cascais como estância de veraneio a partir de 1870, tendo a Família Real assistido, de forma reiterada, a várias peças de teatro e inúmeros eventos culturais nas cadeiras deste novo espaço de entretenimento.



quarta-feira

O Convento de Mafra 298 Anos Depois




por João Aníbal Henriques

Existem realidades que são maiores do que a História e que subjugam os factos, os documentos e a factualidade. Transcendem-se a si próprias, repercutindo os sonhos de quem as idealizou e os horizontes infinitos e intemporais que são sempre sinónimos da genialidade. É o que acontece com o Palácio / Convento de Mafra. Que importa recordar no dia em que se cumprem 298 anos desde aquele dia extraordinário em que Dom João V ali colocou a primeira pedra.




O Convento de Mafra, localizado a poucos quilómetros de Lisboa, foi uma das mais impactantes obras de arquitectura jamais concretizadas em Portugal. Com os seus mais de 40000 m2 de área total, os seus impressionantes 29 pátios, as 880 divisões e as duas mais de 4500 portas e janelas, o edifício produz um enorme impacto visual a quem dele se acerca, sendo um repositório que está à altura do facto de ter sido edificado durante o mais rico de todos os reinados dos reis portugueses.

Dom João V, cognominado como o magnânimo, teve a sorte de alcançar o ouro do Brasil durante o seu reinado. E com ele, impôs-se como um dos mais poderosos reis europeus. Casado com a arquiduquesa Maria Ana Josefa da Áustria (1683-1754), filha do Imperador Leopoldo I, da Casa dos Habsburgos, foi pai do futuro rei Dom José I de Portugal  e, por morte deste, do Rei Dom Pedro III. Durante a sua vida, assente na magnanimidade da sua imensa riqueza, teve uma intervenção política muito relevante ao nível da cena política internacional e foi um dos monarcas Portugueses que maior influência teve na definição do rumo da Europa durante a sua época.

Mas o dia 17 de Novembro de 1717, quando decorreu a primeira pedra do futuro Convento de Mafra, tem um profundo significado simbólico para o então Rei de Portugal em linha, aliás, com todo o simbolismo associado ao edifício, à sua decoração e até ao uso que teve ao longo dos últimos séculos. Tendo tido grande dificuldade em gerar a sua descendência, Dom João V terá feito uma promessa a Deus de que edificaria um convento em Mafra no caso de lhe nascer um filho varão no prazo de um ano a contar daquela data. Diz-se ainda que a promessa, feita por um rei que nunca foi coroado, visto que, tal como os seus antecessores desde o restauracionista Dom João IV, decidiu coroar no seu lugar a imagem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, Padroeira de Portugal, aconteceu durante uma das crises de melancolia do monarca. De facto, nos dias que antecederam o lendário episódio, Dom João V ter-se-ia retirado para o Alentejo devido à estranha doença que o afectava. E terá sido num dos dias de maior prostração, quando a rainha o encontrou desolado sob a sua poderosíssima condição, que terá formulado o seu voto do qual resultou a construção do vetusto monumento.




De facto, apesar de o primeiro filho do rei não ter sido varão, pois nasceu a Princesa Maria Bárbara, futura rainha de Espanha por casamento com Fernando VI, o Rei Português decidiu não só manter a sua promessa de construção do pequeno convento destinado a cerca de 13 frades capuchos arrábidos, como incrementou o projecto juntando-lhe um inusitado palácio real que causou a estupefacção e a surpresa dos Portugueses de então.

Com o traço de João Frederico Ludovice, Mafra assenta numa planta também ela estranha para a sua época. Com as dimensões extraordinárias que foram indicadas pelo Rei, o Convento de Mafra sobrepõe-se de forma básica à planta da Baixa Pombalina de Lisboa, construída pelo Marquês de Pombal depois do Terramoto de 1755. A sua biblioteca, os aposentos de caça e os longuíssimos corredores que ligam as diversas alas do edifício, consolidam uma fachada decorada com uma escadaria monumental que nos transporta até à basílica. E por baixo de todo esse espaço, escondem-se dos olhares menos atentos os espaços de morte onde se acumulam os restos mortais de várias centenas de religiosos que ali viveram e morreram ao longo dos anos.

Estranho ainda, pelo seu carácter vincado e linearmente ostensivo, os espaços vãos existentes entre os tectos dos andares superiores e a cúpula exterior do monumento. Nessas zonas inacessíveis mas bem acabadas, montaram-se vastos espaços de culto ritualístico maçónico, bem patentes na simbologia e na imensa parafernália de instrumentos que a decora. A ideia do Grande Construtor é, aliás, o persistente sinal que acompanha o Rei na sua demanda pela eternidade, consolidando a premissa de que Mafra não é só aquilo que se vê e que existe uma causa discretamente marcada nas suas paredes da qual dependeu a orientação e a decisão real.




A vertente simbólica do Convento de Mafra, explicando o tantas vezes mal compreendido carácter perdulário de Dom João V, transmite-nos a certeza de que o monumento é significativamente o expoente máximo da expressão religiosa de Portugal, numa tentativa de tradução cosmológica da realidade imensa do universo que necessariamente terá de passar o entendimento mesquinho do dia-a-dia Português. Mafra é, para Dom João V, o palácio-convento que hoje temos. Mas é sobretudo, na sua vertente mística de um Rei magnânimo, uma espécie de altar-mor de Portugal, idealizado para aproximar o País do seu eterno destino de representação na Terra do cruzeiro de luz que emana do céu. A visão quinto-imperial que transvaza a demanda do Prestes João e que enforma a épica empresa dos descobrimentos, consolida-se aqui no palácio onde o império aguarda a chegada nunca concretizada do desejado, numa prática de despojamento que coroa como imperador o mais puro e inocente dos rapazes. Porque nem sempre aquilo que lá está é exactamente o que percebemos e, sobretudo, porque raramente aquilo para onde olhamos é aquilo que vemos.




Nos míticos subterrâneos de Mafra, onde a lenda diz que existem ratazanas imensas que são capazes de se alimentar de seres humanos, nada existe de extraordinário, para além da cloaca colossal para dar vazão à imensidade de gente que utilizava o edifício. Mas no topo das torres, onde o céu já se sente, aí sim, existem os vestígios de uma porta para o paraíso terrestre.
Num espaço repleto de lendas e de ideias-feitas, genericamente resultantes do impacto imenso que um edifício com estas características sempre tem, importa ainda relembrar os míticos carrilhões.

Construídos em Antuérpia e Liége por Guilherme Withlockx e Nicolau Levache, respectivamente, terão custado a módica quantia de 50000 moedas de ouro ao cofre Português. Diz-nos a lenda que , tendo encomendado o primeiro, o seu manufactor terá comentado que era obra de grande monta para um Estado tão pequeno… ao que o rei Português, mostrando bem o poder que resultava da sua imensa riqueza, terá respondido que duplicava a encomenda e desejava adquirir não um mas dois carrilhões para o seu edifício mafrense!




Lenda ou realidade, o Convento de Mafra é hoje uma realidade que se impõe a todos os Portugueses. Se para uns representa o exercício perdulário que sugou imensamente o erário pública, para outros é certamente o expoente máximo da visão ancestral de um dos reis que melhor personificou a tradicionalmente portuguesa demanda do Graal.

Vale a pena visitar com atenção e cuidado, libertando-se de preconceitos e alumiando os recantos mais sombrios de uma história que ainda tem muito para contar ao País onde nasceu. E no fim, depois de subir aos carrilhões e de descer aos sombrios recessos dos subterrâneos, é essencial sair pela “porta do cavalo”… se souber!




segunda-feira

Deu Lá Deu e o Eterno Feminino de Monção



por João Aníbal Henriques

Existem poucas terras assim! Monção, vila minhota situada no extremo Norte de Portugal, junto na margem do Rio Minho e a um passo da Galega Salvaterra del Miño, teve sempre uma história conturbada e marcada por constante ataques e contra-ataques oriundos do país vizinho.

Mas, no furor bélica dos muitos episódios que dão corpo à sua existência, são vários os momentos em que a defesa da localidade e, por consequência, a defesa de Portugal, foram empreendidas com muito êxito por mulheres.

Aconteceu no Século XVII, com as intervenções da Condessa de Castelo Melhor e de D. Helena Peres que, em ocasiões diferentes e separadas por um hiato temporal de quinze anos, tomaram em mãos o encargo de defender a sua terra.

Mas a mais célebres das Monçanenses, sepultada actualmente na sua Igreja Matriz e oferecendo o seu nome para topónimo da praça principal daquela vila verdejante, foi Deu-la-Deu Martins, casada com D. Vasco Rodrigues de Abreu, o Alcaide-Mor de Monção.

Reza a lenda que em 1368, durante a guerra entre o monarca Português Dom Fernando I e o rei castelhano Dom Henrique de Trastâmara, foi montado cerco à vila minhota. A capacidade das forças atacantes era brutal e a duração do cerco foi fazendo mossa nas já muito depauperadas reservas nacionais, a tal ponto que se perspectivava uma rápida capitulação por falta de víveres, água e mantimentos.

Num laivo de genialidade a que certamente não é alheio a capacidade estratégica da heroína, a mulher do alcaide decide juntar todos os poucos víveres que restavam e, perante o espanto e certamente a incompreensão dos seus conterrâneos, manda lança-los por terra das muralhas altaneiras que protegem a vila.

Os castelhanos, convencidos da prosperidade que se vivia lá dentro, reforçada pelo facto de verem atirar fora mantimentos que eles consideravam essenciais à sobrevivência da população, resolverem então desistir do cerco e abandonar a cidade que desta forma sobreviveu.



Praça Deu Lá Deu - Monção


Igreja dos Capuchos - Monção



quinta-feira

Aylan Kurdi e a Europa




por João Aníbal Henriques

No dia em que se cumprem 74 anos desde o início dos gaseamentos aos judeus perpetrado pelo III Reich nazi durante a II Guerra Mundial, chegam-nos as imagens (nem o adjectivo chocante é suficiente para as descrever) de homens e crianças mortos que deram à costa na Praia de Bodrum, na Turquia.

No desespero extremo de quem tem como único objectivo na vida o de sobreviver, os refugiados entregam-se ao destino na tentativa vã de chegar à Europa. E fazem-no porque a ideia de uma Europa Unida se gera a partir dos valores (teóricos) da fraternidade, da liberdade, do humanismo, da democracia e do respeito. E são esses valores e esses princípios ilusórios, que muitos ainda tentam utilizar para descrever a Europa que temos, que ditam a tragédia real que sobre eles se vai abatendo.

Porque a Europa que temos não é unida. Porque a Europa em que vivemos não é fraterna. Porque esta Europa não sabe o que é o humanismo. Porque a Europa que subsiste não reconhece o direito universal à democracia nem se respeita…

E não se julgue que é um problema da Europa de hoje e das tentativas populistas de transformar o velho continente das Nações numa amálgama federal de dependências. Não. Este problema afectou profundamente a Europa no início do Século XX, conduzindo ao eclodir da guerra em 1914; reiterou-se a partir do início da década de 30 levando ao início da Segunda Grande Guerra em 1939; e depois, mais ou menos controlados pelo peso dos media e pelas campanhas propagandísticas que contornam a realidade e toldam o entendimento dos povos, deu forma ao desastroso drama dos Balcãs, ao desmantelamento das antigas repúblicas soviéticas e a muitos outros focos de ódio entranhados no País Basco, na Catalunha, na Ucrânia, na Bélgica, na Irlanda do Norte, na Escócia, etc.

A Europa federal de índole franco-alemã que nos querem impor é anti-natural e por natureza anti-valores. É uma Europa virada para o seu umbigo Berlinense, centrada na defesa da riqueza e da materialidade e sulcada pelo rigor dos calendários eleitorais dos seus membros. Tudo o resto são ninharias que não importam aos governantes.

Um nojo. Esta Europa que ainda temos. 

terça-feira

O Castelo de Castro Laboreiro (Parque Nacional da Peneda-Gerês)




por João Aníbal Henriques

Existem lugares que estão prenhes de memórias e de vida. Neles subsistem memórias ancestrais, marcadas nas rochas firmes que as sustentam, em laivos de ritos que se repetem milenarmente e que quase tocam a eternidade. Castro Laboreiro, no Concelho de Melgaço, no Norte de Portugal, é um excelente exemplo de um espaço assim. Nele convivem muitas gerações que se cruzam nos seus quereres, nos seus sonhos e nas suas emoções, repetindo-se num monumento cíclico eterno que surge perenes nas paredes, no chão e nas rochas do lugar.

Com uma história ancestral, provavelmente contemporânea do nascimento da espécie humana na Terra, Castro Laboreiro ganha o seu topónimo do seu velho e vetusto castelo – ou castro – que estrategicamente colocado no topo do morro nos deixa perceber que importância teve este lugar na definição dos limites territoriais do nosso País.




O castelo ou castro, atribuído na literatura mais antiga ao período romano, surge durante o romantismo como sendo de origem árabe, facto que se sustenta na efectiva influência que os norte-africanos tiveram na consolidação do espaço territorial do El-Andaluz. Sabe-se hoje, no entanto, que o castelo é muito mais velho do que isto e que, no deambular transumante da pré-história, seria já um local de extrema importância, pelo menos durante o período de veraneio.

As suas raízes celtas, imbuídas no espírito das muitas tribos que aqui estavam sedeadas e que se digladiavam de forma permanente protegendo-se nos fortes e contra-fortes que as serranias proporcionavam, é uma certeza inultrapassável que ajuda a percebe melhor a forma consentânea que o espaço apresenta quando relacionada com a existência ambígua dos seus primeiros ocupantes.

Hoje, milhares de anos depois desse período áureo de Castro Laboreiro, a população continua a viver de forma cruza entre as   “inverneiras”, ou seja, os espaços de habitação situados nos vales que envolvem o lugar, como Bico, Cailheira, Curveira, Bago de Cima e Bago de Baixo, Ameijoeira, Laceiras, Ramisqueira, João Lavo, Barreiro, Acuceira, Podre, Alagoa, Dorna, Entalada, Pontes, Mareco, Ribeiro de cima e Ribeiro de Baixo e as “brandas” os espaços ocupados durante o período estival e situados na regiões mais altas que envolvem a localidade. As principais “brandas” são Vila, Várzea Travessa, Picotim, Vido, Portelinha, coriscadas, Falagueiras, Queimadelo , Outeiro, Adofreire, Antões, Rodeiro, portela, Formarigo, Teso, Campelo, Curral do Gonçalo, Eiras, Padresouro, Seara, e Portos. O ritual de passagem de trecos e tarecos entre as duas casas pelas famílias castrejas, repete-se ainda hoje numa espécie de ritual cíclico que perpetua a própria Alma Lusitana neste lugar tão especial.



Os dólmenes situados junto à localidade, ainda hoje motivo que redobra o interesse por uma visita, atestam e testemunham a herança simbólica e sagrada de um espaço que provavelmente só assim explica a sua longevidade.

De facto, com uma situação geográfica extrema, Castro Laboreiro viveu durante milénio num isolamento muito profundo, facto que contextualiza a excelente preservação dos seus monumentos mas, também, a manutenção quase se poderia dizer inusitada de uma estrutura de pensamento que se consolida à medida em que os séculos vão passando.  Certo, no entanto, é que as agruras do tempo e do clima e até a própria produtividade da terra são insuficientes para explicar a  teimosia humana em permanecer por aqueles lados, isto se não tivermos em linha de conta a beleza natural que envolve todo o espaço e que é de tal forma impactante que se torna difícil de descrever.

Situada em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês, que seria por si só motivo que chegaria para explicar o interesse de a visitar, a localidade de Castro Laboreiro vale ainda a pena pelos seus excelentes restaurantes e magnífica gastronomia que oferecem aromas e sabor a uma visita ao local.
Mas no alto, alcandorado nas penhas que protegem a fronteira, o castelo sobrevive ainda, assente nas ruínas que sobreviveram a um raio que o destruiu por completo no Século XIV e que Dom Dinis mandou reconstruir.

O caminho íngreme e difícil, num acesso que só é possível fazer-se durante o Verão, transporta-nos até a mais de 1000 metros de altura, deixando antever, aqui e ali, pequenos panos das antigas muralhas. Só quando chegamos lá acima, já bem perto das enormes rochas onde está alicerçada a entrada principal, começamos a perceber o assombroso daquele local. Uma paisagem sem fim, num conjunto de planos infinitos que reforçam a sensação de pequenez e de insignificância que este tipo de locais sempre nos trás.



Classificado como Monumento Nacional desde 1944, o Castelo de Castro Laboreiro foi conquistado por Dom Afonso Henriques em 1141 que lhe terá construído uma torre de menagem isolada que lhe conferiu a configuração tradicional dos castelos românicos.

Depois de consolidada a Nacionalidade e de terminadas as lutas fratricidas que deram corpo à independência de Portugal, Castro Laboreiro nunca perdeu da sua importância estratégica, facto que se percebe através de uma análise linear à forma como se situa a sua muralha relativamente à fronteira galega. No seu interior, abaixo do marco geodésico que ocupa o espaço onde estava outrora a torre medieval, existe ainda o redil onde se juntava o gado das redondezas, protegido pelos muros grossos das investidas sempre terríveis de inimigos e animais selvagens.  

Em suma, Castro Laboreiro e o seu velho castelo são uma das pérolas inesquecíveis de Portugal. Valem a distância necessária para lá chegar e justificam por si só o passar por lá uns dias de férias.








quarta-feira

Alcácer do Sal e a Igreja de Santa Maria do Castelo



João Aníbal Henriques

O exercício cénico que resulta do horizonte verde que se espalha para lá do rio é realidade recente, do Século XIX, quando o arroz substituiu o sal enquanto gerador da riqueza de quantos habitavam naquele espaço. Mas, algures por entre as pedras antigas alcandoradas no topo da colina do castelo, sente-se no ar uma paz desconcertante que contrasta de forma ávida com a guerra que permanente assolou a cidade de Alcácer do sal.

Situada no Distrito de Setúbal, a História de Alcácer faz-se de um conjunto muito rocambolesco de rocambolescos episódios que se sucederam de forma sucessiva na construção daquele espaço. Habitada desde a pré-história, quando o local onde hoje se situa a Pousada Dom Afonso II era já um espaço amuralhado para defender o precioso sal, a cidade foi descendo a colina até à beira-rio, à medida que se apaziguavam os ânimos e se estabeleciam os poderes definitivos que lhe conferiram a formulação espacial que hoje nos apresenta.

Salacia Imperatoria Urbs, dando corpo e fazendo jus à riqueza de sempre de Alcácer do Sal, foi sempre ponto de referência neste troço final do Rio Sado, impondo-se à realidade nativa pré-existente e abrindo caminho para a magnificência imperial que os Árabes souberam aproveitar.




Embora não esteja ainda provado, pois as campanhas arqueológicas ainda seguem inconclusivas, parece que o local onde se situa a actual Igreja Matriz, teria sido anteriormente a Mesquita Maior do tempo dos Árabes. O certo, porque subsistem hoje vários elementos dessa época integrados na arquitectura cristã e tardo-românica que a caracteriza, é que há cerca de dois mil anos,  a Igreja de Santa Maria do Castelo seria um templo romano. E, mais importante ainda, as colunas que estão visíveis na estrutura actual comprovam que o edifício romano subsistia quando se procedeu à reforma da Igreja, nos idos do Século XIII, que lhe conferiu o aspecto actual.

Reconquistada em definitivo para a cristandade em época já tardia e quando reinava Afonso II, depois de um processo muito complicado de conquistas e reconquistas que se prolongou praticamente desde a fundação da Nacionalidade, a cidade foi-se aglomerando inicialmente dentro do perímetro amuralhado, principalmente no espaço situado junto à igreja, e só posteriormente se alastrou ao declive que nos leva até ao Sado.

A Igreja Matriz, espécie de sentinela altiva guardando as memórias dos tempos e das eras que por ali deixaram marcas, foi classificada como Imóvel de Interesse Público em 1951 e partilha a sua localização privilegiada com o antigo paço real onde actualmente funciona a pousada (e onde se diz que será criado um espaço museológico para expor os muitos materiais de grande interesse e importância que foram sendo recolhidos na região).







quinta-feira

A Capela de Nossa Senhora da Conceição em Arcos de Valdevez




por João Aníbal Henriques

Existem locais que transcendem o tempo com a sua capacidade de atravessar incólumes as eras pelas quais a humanidade vai passando. É o que acontece num dos recantos menos conhecidos mas mais emblemáticos de Arcos de Valdevez na antiquíssima capela de Nossa Senhora da Conceição.

O vetusto monumento, erigido provavelmente ainda no Século XIV quando Dom Fernando, o Formoso, ainda respirava saúde e a Rainha Leonor Teles, a Aleivosa, se entretinha com o estrangeiro João Fernandes  Andeiro, é um dos mais interessantes exemplares da arquitectura românica do Norte de Portugal.

Essencialmente com cunho funerário, remetendo para os ancestrais arquétipos da Senhora da Conceição, a que concebe, a capela apresenta uma formulação espacial sóbria ao gosto da sua época, apesar das alterações impostas na transição para o período gótico, como o arco da frontaria principal e, mais recentemente, pelo altar de orientação “quase” barroca e já de finais do Século XVIII.

Na sua intemporalidade solidamente arreigada ao poder das grossas cantarias que a sustentam, a Capela de Nossa Senhora da Conceição de Arcos de Valdevez remete-nos para um imaginário profundamente ligado ao período de consolidação da nacionalidade, no qual a memória antiga associada à Identidade de Portugal se mostra no seu total esplendor, oferecendo um espectáculo emocionante no qual os princípios de uma religiosidade católica muito profundamente sentida se misturam com os laivos distantes de uma espiritualidade ainda bárbara mas significante.




A Senhora da Conceição, venerada aqui através de um monumento que deixa antever a orientação sagrada da própria localidade, assume simultaneamente a sua fácies Cristã e pagã, num esforço de gerar consensos que estabeleçam pontes entre o passado e o futuro daqueles que por ali lutam quotidianamente por uma sobrevivência sã. A morte e a vida, partilhando aqui uma espécie de universo místico que contrasta de forma evidente com a vida quotidiana que se vive lá fora, dão o mote para o choque dual entre os contrastes formados pela luz e pela sombra, pelo calor e pelo frio e pela magia e misticismo que se impõe à religiosidade canónica da comunidade envolvente.

São emoções únicas que valem a pena conhecer em Arcos de Valdevez.




quarta-feira

O Forte do Pessegueiro em Porto Côvo




por João Aníbal Henriques

O Forte do Pessegueiro, situado junto à praia homónima no Lugar de Porto Côvo, Concelho de Sines, resultou da adaptação de uma antiga fortificação marítima construída pelo Arquitecto Italiano Filipe Terzio em 1588 a mando do então Governo Espanhol.

Cruzando fogo com a Ilha do Pessegueiro, faixa de terra de sabor romântico situado em frente ao lugar de Porto Côvo e onde existiam duas batarias de defesa de costa, o forte também é designado por Forte de Nossa Senhora do Queimado, por Forte da Ilha de Dentro ou por Forte de Santo António do Pessegueiro. Desta maneira, um pouco ao sabor dos rocambolescos episódios que deram forma à história de Portugal naquele final do Século XVI, a fortificação servia de garante contra desembarques indesejados nas enseadas amenas que existem no local e impedia o aproveitamento dos extensos areais por eventuais tropas invasoras que pretendessem retomar a defesa de Portugal.

Em 1590, já com nova plataforma construída a partir de desenhos de Alexandre Massai, o forte foi adaptado com a colocação de quatro peças de artilharia que reforçavam o seu poder de fogo e a sua capacidade de actuação em possíveis cenários de invasão.

De resto, depois da restauração da independência, em 1640, o forte esteve sujeito a um período de abandono do qual só recuperou já em 1690 quando o engenheiro militar João Rodrigues Mouro projectou uma nova construção de raiz no mesmo local mas que fez desaparecer por completo os vestígios das construções anteriores.

Peça essencial na defesa costeira de Portugal, o forte integra ainda uma pequena ermida dedicada a Nossa Senhora da Queimada, tendo desempenhado papel de extraordinário relevo ao contribuir para o reforço da independência nacional ao longo das muitas tentativas de recuperação do poder por parte dos invasores espanhóis.

São de realçar, para além dos baluartes triangulares que lhe emprestam o ar austero que ainda ostenta, o enorme fosso que o envolvia, obrigando à construção de uma ponte que transforma a frontaria e a porta de entrada numa espécie de castelo medieval. Vale a pena a visita pela extraordinária integração na paisagem e pelo impacto visual conferido pela maravilhosa Ilha do Pessegueiro.







A Igreja de Nossa Senhora da Soledade de Porto Côvo




por João Aníbal Henriques

Num Alentejo muito singular, no qual as planícies quase eternas se adornam com as arribas frenéticas de mar e de sal, encontramos o sítio de Porto Côvo, marcado pela brancura quase inebriante das suas casas e pelos tons fortes do azul-cobalto que dá corpo às barras que decoram as suas fachadas singelas.

E é de singularidade que tratamos quando entramos no Largo Marquês de Pombal, coração deste recanto único de Portugal, desenhado no Século XVIII à imagem e à semelhança da Baixa Pombalina na tão longínqua capital. Situado no coração do lugar de Porto Côvo, o largo mistura a arquitectura típica do Alentejo com os laivos de opulência de uma Lisboa de cujos ecos aqui chegam somente as inconsistências próprios da distância… Grandeza simples e uma pequenez grandiosa, recriam um cenário quase mágico a que não fica indiferente, pela sua forma, pela localização e pelas características do seu culto, a Igreja de Nossa Senhora da Soledade (ou de Porto Côvo), pontuando com a monumentalidade das grandes cidades o lugarejo de praia em que o povoado se transformou.

Na frontaria estão os sinais indiscutíveis da sua nascença alentejana. Os traços simples que aqui se misturam com laivos tradicionalistas do estilo neoclássico, surgem em contraponto com a grandiosidade do retábulo de talha dourada que lhe confere um toque barroco que não deixa indiferente quem a visita. 

A imagem de Nossa Senhora da Soledade, também ela singela na voluptuosidade das suas vestes roxas, é assim o corolário de um templo projectado no Século XVIII por Joaquim Guilherme d'Oliveira, que justifica a visita e que compõe as magníficas paisagens marítimas do lugar.





sexta-feira

Figos de Cascais ou Figos de Rabadilha




Reza a lenda que durante o período de ocupação filipina, o edil de Cascais apoiava a causa dos usurpadores espanhóis e que traía Portugal…

Ora vivia nesta altura na velha vila piscatória um judeu velhaco que ocupava os seus dias à procura de estratagemas para afrontar o poder e para se impor aos grandes senhores que oprimiam o seu povo. Atencioso, rico e influente, o dito Judeu começou a enviar diariamente ao edil de Cascais uma bandeja de ouro com os melhores figos da sua quinta.

Do alto da sua sobranceria, o senhor de Cascais tomou o acto como um gesto de simpatia muito usual naquela época para ganhar os favores daqueles que governavam o concelho. E deleitava-se com os figos oferecidos pelo judeu, não se coibindo de lhes gabar o extraordinário e único odor que tanto apreciava e que o deixava tão satisfeito.

Mas um dia, quando o judeu foi preso pela inquisição, foi instado a contar publicamente os seus segredos. E eis que, para gáudio dos Cascalenses que defendiam a sua pátria contra os interesses estrangeiros, explicou o estranho e inesperado odor que tanto agradava ao senhor de Cascais…é que, antes de os enviar ao edil, o judeu passava-os pelo rabo e era ali que eles ganhavam o aroma que conquistara o palato do senhor cascalense!

Assim nasceu, com força de uma lição que perdura ao longo dos séculos, a lenda dos “Figos de Cascais”, popularmente conhecida como a lenda dos “Figos de Rabadilha”.

quarta-feira

A China – Quando a Natureza e a Verdade se Renegam a Cada Esquina…





por João Aníbal Henriques

A China é o maior e o mais populoso País do Mundo. Com os seus perto de um bilião e meio de habitantes, ocupando uma imensidão de mais de nove milhões de quilómetros quadrados, a República Popular da China conjuga uma história milenar, patente em cada canto e recanto e sensível em milhares de pequenos laivos da vivência cultural do seu povo, com uma espécie de história nova, de pouco de setenta anos, que acompanha algo a que por lá se chama “revolução cultural” e que ditou os destinos do controle do Partido Comunista Chinês desde o fim da guerra civil que aconteceu em meados do Século XX.

Quando se chega à China tudo é inesperado e a sensação que perdura, mais do que os sons marcantes e os cheiros que preenchem todos os detalhes da sua paisagem marcante, é uma sensação de choque cultural que se traduz num impacto muito grande.

Com um regime político muito marcado pelo totalitarismo político do Partido Comunista, bem visível nos símbolos, nas cores e na profusa presença de militares nas ruas das cidades, a China empreendeu um esforço hérculeo ao longo das últimas décadas para literalmente apagar das memórias dos seus habitantes os ensinamentos antigos que haviam dado corpo à identidade  nacional. Quem hoje visita a China, e salvo as raríssimas excepções de monumentos ancestrais que não foi possível demolir pelo impacto que tiveram e continuam a ter um pouco por todo o Mundo, como a Cidade Proibida, a Grande Muralha da China, etc. vê um país marcadamente ocidentalizado, com avenidas largas repletos de milhões de carros em engarrafamentos constantes, enormes arranha-céus ao jeito do que se faz na Alemanha e na América e centenas de gigantescos centros comerciais, copiados dos que existem no Ocidente mas agigantados ao gosto chinês, nos quais se encontram as marcas e as lojas mais importantes da Europa actual.




É por isso um banho de água fria, para quem lá chega à espera de encontrar os vestígios da cultura milenar chinesa, da sua forma de vestir e de estar, bem como os retorcidos telhados dos pagodes ancestrais. Tudo isso desapareceu mercê da revolução dita cultural que o regime empreendeu, e foi paulatinamente substituído por uma espécie de grande cenário Ocidental onde se tenta copiar de forma espampanante o que se faz por cá.

Mas tenta-se somente. Porque por detrás das fachadas de vidro, dos carros alemães e das lojas mais requintadas de Paris, sobressaem ainda os gestos antigos que os Chineses teimam em perder… os arrotos sonoros em plena rua, a preparação de comida à porta de casa, as cuspidelas para o chão e o lixo que esvoaça por todo o lado, contrastam de sobremaneira com aquilo que imaginamos para um lugar assim. E depois a desordem ordenada e controlada que existe por todo o lado. Num País onde não é possível navegar livremente na internet, as ruas estão cheias de prostitutas e chulos que perseguem os poucos turistas ocidentais que por ali andam, oferecendo o seu produto e tentando levar os mais incautos para aventuras estranhas e muitos caras das quais poucos têm a coragem de voltar a falar mais tarde.



E o engano é palavra de ordem que não deixa ninguém indiferente. À sombra da sua incapacidade de falar outra qualquer língua para além do Chinês e da natural dificuldade de comunicação que daí advém, qualquer ocidental que entre num táxi, que tente comprar o que quer que seja e que não esteja habituado aos usos e costumes daquela gente, será enganado com toda a certeza.

Apesar de tudo isso, da falta que fazem as memórias antigas de um País antiquíssimo e que tanta importância teve na nossa forma de estar e de ser, o impacto de uma visita à China traduz-se numa experiência de vida, provavelmente mais impactante do que qualquer outra viagem que alguém possa tentar fazer.

Vale a pena? Vale certamente!

Pequim vs Beijing




Existem elementos incontornáveis numa visita a Pequim. Para além da sua imponência e antiguidade, são marcos fulgurantes na imaginação de qualquer um e definem com rigor aquilo que um turista Ocidental pensa antes de chegar a um destino tão impactante. A Cidade Proibida, a Praça de Tian’anmen, a Grande Muralha ou o Templo do Céus, são parte da paisagem e da aura de mistério que acompanha esta enorme metrópole asiática.

Tendo anteriormente designações diferentes, como Zhongdu, Dadu ou Cambuluc, Pequim (ou Beijing na ortografia local) é a actual capital da China. Com uma imensa população de quase 24 milhões de habitantes, é a segunda cidade chinesa depois de Shanghai e aquela que conjuga maior simbolismo no contexto da ditadura comunista que actualmente se está ali a viver.





Fundada originalmente no Século XIII, quando Genghis Khan unificou um conjunto de pequenos povoados ali existentes, Pequim (ou Capital do Norte) foi crescendo ao sabor das muitas vicissitudes que deram forma à sua História. Ali residiram as principais figuras da História da China e ali se centralizam as estruturas de poder ao longo dos últimos séculos.

A Praça da Paz Celestial ou Praça de Tian’amnen




A Praça da Paz Celestial, como optou por chamar-lhe o regime comunista que controla o País, também conhecida por Praça de Tian’amnen, é a maior do Mundo e foi inaugurada em 1651 às portas da Cidade Proibida. Por ali se representaram as encenações das grandes paradas e dos espectáculos com maior impacto políticos da Ásia e nela se desencadearam acontecimentos políticos que mudaram para sempre a percepção do Mundo em relação a este país tão marcante. Foi ali, em 1989, que centenas de estudantes foram massacrados pelo regime depois de tentaram mostrar a sua insatisfação pelo que estava a acontecer.

Hoje, rodeada de enormes medidas de segurança muito visíveis (e também de outras que ninguém vê mas que se sentem), alberga o monumento de memória ao antigo líder comunista Mao Tsé-Tung (1893-1976) e a tumba onde se encontra exposto o seu corpo embalsamado e está permanentemente cheia com centenas de milhares de visitantes maioritariamente chineses que, com um permanente sorriso nos lábios, por ali deambulam horas e horas a fio para poderem ver de perto o corpo daquele a quem, por medo ou respeito, continuam a chamar o “Grande Timoneiro”. E quase faz impressão olhar para aquele mar de gente, ali às portas da antiquíssima Cidade Proibida, gesticulando de satisfação em filas intermináveis que rodeiam o monumento várias vezes e onde passam horas após horas só para comprar o bilhete.



Mao Tsé-Tung e a Revolução Cultural Chinesa




E se a cidade tem uma história ancestral, marcante principalmente no Século XV quando a Cidade Proibida foi construída, o certo é que a sua importância foi reforçada no dia 1 de Outubro de 1949 quando Mao Tsé-Tung (1893-1976) ali proclama o nascimento da actual República Popular da China. Tendo sido conquistada pelo poder Nipónico em 1937, que manteve o controle sobre a cidade até à sua derrota na II Guerra Mundial em 1945, Pequim foi libertada pelo exército liderado por Mao e posteriormente reconquistada pelo poder comunista após a Guerra Civil que impôs o actual regime político.

E foi precisamente o auto-designado Grande Líder que, com a ajuda de uma das suas mulheres, empreende entre 1966 e 1969 aquilo a que optou designar por Revolução Cultural que literalmente deu forma à China actual e que tanta influência tem ainda hoje na formulação plástica e social o povo Chinês.

Tendo reformulado praticamente todos os aspectos da via quotidiana no seu País, o regime comunista optou por uma solução final que pusesse cobro a toda e qualquer possibilidade de protesto ou de sublevação. Para além de destruir grande parte do património histórico e cultural do País, que associava à possibilidade de descentrar as atenções do povo das inovações e do progresso que o regime comunista pretendia impor, a revolução cultural foi palco de grandes perseguições a oposicionistas, artistas e a todos os que ousassem pensar de maneira diferente. A autêntica lavagem cerebral levada a cabo por Mao Tsé-Tung, apagando os vestígios da milenar história chinesa e reforçando os laços com o movimento comunista, estendeu-se a escolas, empresas e às suas, que se encheram de simbologia do regime e apagaram por completo tudo aquilo que dissesse respeito a outros tempos.



Ainda hoje, na fachada principal da entrada da Cidade Proibida, se ostenta a fotografia do líder revolucionário, literalmente vigiando o seu povo e reverenciado como se de uma divindade se tratasse… 

A Cidade Proibida




E o maior choque para quem visita a China pela primeira vez será possivelmente a Cidade Proibida. Conjunto monumental de templos e palácios utilizados pelos vários imperadores chineses desde 1420, quando foi construído, a Cidade Proibida é possivelmente o monumento chinês que transversalmente acompanha o imaginário de todos aqueles que já pensaram estar neste lugar tão diferente.

Palco de filmes e de dramas imperiais, vedada ao acesso do cidadão comum, a Cidade Proibida é um autêntico e maravilhoso palco onde se recriavam os espectáculos que sustentavam a magnificência do poder político Chinês.




Actualmente, depois da revolução cultural de Mao Tsé-Tung, franquearam-se os portões antigamente sempre fechados e o povo literalmente tomou conta do espaço. Perdendo grande parte da sua mística e o antigo silêncio que dava corpo à apreciação do lugar e que é contado e recontado por todos os viajantes antigos que tiveram a sorte de lá entrar, a Cidade Proibidade está sempre literalmente a abarrotar de milhares e milhares de visitantes, maioritariamente chineses, que entram aos gritos, preenchem cada recanto e vão (literalmente) arrancando bocados dos adornos existentes no local.

Sem qualquer outra espécie de orientação para além de umas ténues informações muitos genéricas acerca dos nomes ancestrais daquelas vastas praças e terraços, os visitantes seguem ao ritmo da curiosidade, espreitando aqui e além as muitas salas que enchem o lugar e ouvindo aqui e ali algumas palavras ditas por algum guia mais descuidado. Não existe informação escrita, placas indicativas ou sequer livros à venda com notas sobre o lugar (o único sítio onde encontrámos um livro em inglês sobre a história da Cidade Proibida foi na área de embarque do Aeroporto), tudo acontecendo ao sabor do nada que tudo enche! Perde-se a simbologia, o significado profundo e a magnificência milenar de uma história que importava recordar.




















Shanghai ou Xangai e Pudong


Situada junto à foz do Rio Yangtze, importante empório comercial durante muitos séculos, a Cidade de Shanghai é actualmente a maior cidade da China e possivelmente uma das maiores metrópoles do Mundo.



Considerada como “Cidade Mercado” em 1074, foi sempre ponto central na distribuição das riquezas produzidas no vastíssimo território Chinês e um porto da maior importância. De tal forma assim foi que, em 1842, quando a revolução industrial simplesmente começava na Europa, Shanghai se tornou no ponto-angular do comércio asiático, facto que ficou consubstanciado no Tratado de Nangum.

Profundamente ocidentalizada, com a sua estrutura urbana marcada por alguns dos maiores arranha-céus do mundo, Shanghai consubstancia o seu impacto na linha costeira do Rio Huangpo e no magnífico cenário do Pudong e a Torre Pérola Oriental, visto a partir do Bund.

A torre, construída entre 1991 e 1995, foi desenhada por Jia Huan Cheng e, com os seus 468 metros de altura, é actualmente uma das mais altas torres de televisão do Mundo, tendo-se assumido como ex-libris da cidade. O seu traço, baseado num poemos da Dinastia Tang, procura recriar a linha de paisagem com os traços de um alaúde…

Do outro lado, causando estranheza por ter sobrevivido ao surto implacavelmente destruir da revolução comunista, sobrevive um antigo palacete colonial actualmente utilizado como Embaixada da Rússia na China.










Guangzhou e o Cantão



De todas as cidades Chinesas, Guangzhou é possivelmente aquela que melhor traduz o estado em que se encontra China actual. Empório comercial antiquíssimo, fundada no Século II a.C. e com mais de dois milénios de História, Guangzhou ou Cantão, como é conhecida no Ocidente, é a capital da província de Guangdong, um dos mais prósperos territórios do País.

E se o Cantão é bem conhecido dos Portugueses, existindo centenas de relatos e descrições de viagens feitas à cidade ao longo de muitos séculos, até porque um tratado de 1511 atribui a Portugal o monopólio do comércio em Guangzhou, já pouco resta da magnificência de outrora.

Os antigos bairros, as casas típicas, os templos e as ruelas estreitas, foram progressivamente substituídos por enormes arranha-céus com dezenas e nalguns casos centenas de andares de altura, muitas vezes pintados de dourado e verdadeiramente resplandescentes, num processo de descaracterização total que cumpre os objectivos ditados pela dita revolução cultural comunista. Sendo actualmente a terceira metrópole da China continental, com mais de 13 milhões de habitantes, Guangzhou é uma espécie de enorme centro comercial, cruzando vários centros comerciais entre si e que se estende por cima e por baixo da terra.

Da sua história mais rocambolesca, subsiste o velho abrigo anti-bombardeamentos, resquício da pressão japonesa durante a II Grande Guerra, mas que se encontra literalmente perdido debaixo de uns quantos arranha-céus e de uma amálgama de centenas e centenas de lojas aglomeradas em vários centros comerciais subterrâneos.

O que sobrevive da antiquíssima cultura Chinesa? Pouco mais de nada. Os maus hábitos arreigados por práticas de sucessivas gerações, a sujidade que permanentemente vai enchendo as ruas das suas cidades, alguns hábitos alimentares também eles associados a práticas de pouca higiene e… nada mais. 

Uma pena.