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segunda-feira

O Colégio João de Deus no Monte Estoril - Oitenta Anos Depois



por João Aníbal Henriques

Em Agosto de 1936, há precisamente 80 anos, terminava o primeiro ano lectivo no Colégio João de Deus, no Monte Estoril. Nascido depois da cisão que marcou o fim do Bairro Escolar do Estoril, fundado em 1928 por João de Deus Ramos, João Soares, Virgílio Vicente da Silva e Mário Pamplona Ramos, o novo estabelecimento de ensino depressa conquistou o prestígio que havia de o acompanhar ao longo de toda a sua história, assente num projecto pedagógico alternativo e inovador delineado pelo pedagogo João de Deus e concretizado pelo pragmático Professor José Dias Valente.


Professores do Bairro Escolar do Monte Estoril (1935)


O Colégio João de Deus, que fechou portas em 1970, ainda é hoje pólo aglutinador de vidas e de vontades, reunindo num almoço anual composto por antigos alunos e suas famílias, largas dezenas dos rapazes que durante quase quatro décadas encheram de barulho e de vida os cantos e recantos do Monte Estoril. Por incrível que pareça, mais de quarenta anos depois do seu encerramento, é forte e firme o sentido de pertença que une os antigos alunos ao velho colégio, bem como perenes são as memórias que guardam como testemunho do seu início de vida dentro das paredes do velho colégio estorilense.

Quando há 80 anos atrás abriu as suas portas, como consequência de um movimento espontâneo de um conjunto de professores do antigo Bairro Escolar em apoio ao seu mentor João de Deus que tinha optado por sair da antiga sociedade que controlava o projecto educativo do Bairro Escolar, o Colégio João de Deus pretendia recriar o ideário de uma pedagogia nova que acompanharia a recuperação de Portugal. Exigente e cuidada, a prática educativa defendida pelos professores fundadores assentava num apelo permanente à liberdade. Pretendia-se cortar as amarras com a educação enciclopédica e monolítica que até aí tinha sido a referência em Portugal, para dar corpo a uma forma de ensino que compreendia, promovia e apoiava as singularidades de cada um dos seus alunos, fomentando um crescimento em conjunto, como se de uma comunidade quase familiar se tratasse, que permitisse aproveitar de forma eficaz o que de melhor cada um possuía.



Os professores-fundadores do Colégio João de Deus (1936)


E como os planos raramente se concretizam tal e qual como foram idealizados e a componente aleatória do destino se impõe normalmente aos planos dos homens, o velho projecto imaginado por João de Deus Ramos de criação de uma espécie de campus educativo em terras do Estoril acaba por soçobrar perante a inexorável realidade, criando espaço para o surgimento de uma nova prática que haveria de vingar contornando as vicissitudes e aproveitando os acontecimento pródigos do devir.

Depois de concretizados os desaguisados que puseram fim à sociedade educativa do bairro, um grupo de professores dos quais faziam parte Mário Pamplona Ramos, Augusto Mimoso, Henrique Perestrelo de Alarcão, Álvaro Themudo, Armando Lucena, Aníbal Henriques, Rubi Marques e José Guerreiro, tomou a iniciativa de concretizar o projecto educativo do seu mestre num espaço alternativo que projectaram construir.



Primeiro número do boletim "Nós Queremos" do Colégio João de Deus (1937)


Mas nem tudo foi fácil para este grupo de revolucionários pois, por motivos eminentemente pessoais, e também pelo cansaço que derivava de uma longa dedicada à escola e à educação, João de Deus Ramos não aceitou encabeçar o novo projecto obrigando os promotores a encontrarem alguém com a capacidade e com a disponibilidade para o fazer. E, dando espaço ao destino, a escolha recaiu sobre um lisboeta com experiência no ensino e com vontade e os meios necessários para liderar o novo projecto. Antigo colega da Faculdade de Letras de Aníbal Henriques e Freitas e Silva, com os quais tinha mantido laços fortes de amizade, José Dias Valente é assim convidado para vir dirigir o novo colégio, cargo que vai ocupar até ao seu encerramento definitivo em 1970.



José Dias Valente e Aníbal Henriques na cerimónia dos 25 anos do Colégio João de Deus


José Dias Valente (1902-1977), eminente professor e pedagogo, chega assim ao Estoril onde vai da forma ao mais conseguido dos projectos educativos concretizados em Cascais. Ao longo dos 35 anos em que dirigiu o Colégio João de Deus, Dias Valente transformou literalmente a vida de milhares de Portugueses, tendo deixado uma herança de sabedoria que perdura ao longo dos anos e que tanta importância teve na concretização do Portugal moderno em que hoje vivemos.

Oitenta anos depois do início daquela aventura educativa, quando ainda estão vivos muitos daqueles que penhoradamente assumem ter sido o Colégio João de Deus o cadinho que lhes formou o carácter e os preparou para a vida, importa homenagear José Dias Valente e todos aqueles que com ele tiveram a coragem de concretizar um projecto assim.





sexta-feira

Monte Estoril - Uma Estória da História de Cascais






Situada estratégicamente junto ao litoral cascalense, a povoação do Monte Estoril é certamente um dos locais que merece um maior cuidado de observação e análise. A sua importância, mais do que pelo enorme e valioso espólio arquitectónico e cultural que possui, vem-lhe da sua situação actual, misto de um cenário abandonado e destruído, onde a podridão, em conjunto com a actual putrefacta acção do Homem, tem vindo a promover o desenvolvimento de um caótico centro de consumo e distribuição de estupefacientes.

A situação actual do Monte Estoril, agravada por um desconhecimento paulatino relativamente às suas origens, é assim de perfeito desentendimento histórico, sociológico, cultural ou mesmo comercial, uma vez que, neste outrora rico e característico interstício da nossa linha de costa, é possível encontrar uma incompreensível mistura de novas edificações, inseridas numa arquitectura moderna e incaracterística, com velhos e esplenderosos edifícios de finais do século passado, excelentemente bam conservados e mantidos e que, por seu turno, possuem nas vizinhamças semi-destruídos restos do Monte Estoril de outrora, com as suas paredes enventradas e de onde se pode observar as muitas seringas e demais apetrechos que ali são deixados para as noites seguintes de prazer. Os interesses de todos aqueles que por ali habitam ou simplesmente passam, estão assim em confronto permanente, tornando também este espaço, outrora conhecido pela sua vivência comunitária, num sítio sem memória, sem passado, sem presente e sem perspectivas de futuro.

Para abordar de forma congruente o Monte Estoril de hoje, após vários períodos mais ou menos prolongados de incúria e destruição exacerbada, interessa fundamentar as observações que pretendemos em três perspectivas diferentes, afinal de contas as únicas que o tornaram naquilo que hoje representa: o local; a história; e as suas gentes.

Em primeiro lugar, este sítio é o resultado de um processo recíproco de interacção entre o Homem, o meio e a história que, em conjunto, fundaram uma povoação em que o caos aparente se transforma em harmonia, e em que o sentido inerente à sua disposição, embora dixando transparecer o êxito das acçãoes que ali foram levadas a efeito, depressa se transforma em acaso e insucesso, factores onde assenta, com raízes profundas o sucesso de outrora.



O Monte Estoril é, acima de tudo, uma mistura quase incompreensível de um cosmopolitismo lusitano com um aparente portuguesismo estrangeirado, conjugados com uma acção de reciprocidade aparentemente caótica, mas que mais não é do que o cume da montanha do paradoxo. Contradição, paradoxo e acaso são assim as principais formas que orientaram a criação deste outrora considerado “paraíso terrestre”, incompreensível à mente humana da actualidade sempre muito sujeita às pressões quotidianas da vida moderna, mas plena de sentido quando observada pelos eternos românticos do fim do século XIX. O sentido do Monte Estoril, bem presente em todos aqueles que daqui se consideram, muito embora possam ter nascido no ponto mais nórdico da Europa ou no extremo sul da Oceania, está assim patente e escondido; patente para quem o não procurar, perdendo-se no seio das ruelas ladeadas de jardins; e escondido, de todos os olhares atentos que por ali procurem observar algo de mais vigoroso e rico.

Torna-se assim difícil, perante esta pequena introdução, mencionar aquilo que foi, que é e que poderia vir a ser o Monte Estoril, uma vez que não existe um só, mas muitos, de acordo com a perspectiva de quem o observa. Tal como Cascais e as pequenas aldeias saloias que compõem o seu concelho, este pequeno aglomerado populacional vale por aquilo que representa, um símbolo da Portugalidade e uma ideia de algo que consegue existir para além de tudo aquilo que o Homem possa imaginar.

Dizia em tempos que já lá vão o sábio Santo Agostinho (1), que o tempo já não existe. O passado, segundo o próprio, não o podemos observar pois já passou, tendo deixado de existir; o futuro, ainda não veio, pelo que não existe também; e o presente pela fugacidade que o caracteriza, ainda não é presente quando nele pensamos porque ainda não veio, e já é passado quando esse momento passa, não podendo assim existir também. O mesmo se passa com o Monte Estoril, patente na mente de quem o imaginou, mas diferente daqueles que o programaram. O Monte Estoril é assim algo que não existe, existindo eternamente, fruto do pensamento dos Homens, da vontade dos Deuses, e adaptado aquilo que cada um dele espera.

A recuperação do Monte Estoril, mais do que um exercício de reordenamento urbanístico, tal como se fará noutras aldeolas do concelho de Cascais, é sobretudo a requalificação da conjugação daqueles três factores: o local, a sua história, e as suas gentes. A programada substituição da população Monte Estorilense por escritórios e serviços, tal como foi defenido no Plano Director Municipal de Cascais, é retirar deste espaço grande parte da sua marginalidade, mas é também retirar deste espaço priviligiado uma vivência característica e sã, que sempre norteou a actuação das populações que aqui habitaram. Se, pela mesma razão, se efectivarem estas ideias expressas pela edilidade cascalense, mais um passo terá sido dado para acabar com tudo aquilo que historicamente representa Cascais.

Se tal assunto, numa primeira análise, parece não interessar muito para o desenvolvimento harmonioso da Área Metropolitana de Lisboa e do próprio País, imaginemos a actuação análoga de muitas outras cãmaras municipais, sem qualquer espécie de representatividade efectiva, transformando Portugal num espaço turístico sem qualquer espécie de atractivo, e de onde estão ausentes todas as características da Portugalidade.

O Monte estoril de outros tempos oferecia o sol e o mar, conjugando tais factores com a beleza da sua paisagem e com o resplandecente movimento social que apresentava. O Monte Estoril de hoje não pode oferecer o seu sol que, como sabemos, está estragado pelas consequências nocivas de muitas décadas de utilização de aerossóis sobre a camada de ozono; o Monte Estoril de hoje não pode oferecer a praia, pois as águas do seu mar estão poluídas e mal-cheirosas, fruto de muitos anos de caos urbanístico e de uma construção desregrada que continua a aumentar; o Monte Estoril de hoje não pode apresentar a paisagem como atractivo principal, pois o abandono em que se encontra, fruto da especulação imobiliária e da incúria de muitos anos, o transformaram num subúrbio descaracterizado e perigoso da vila de Cascais; e por fim, e se calhar é esta a perincipal doença que apresenta, o Monte Estoril de hoje não pode já apregoar a cordialidade e simpatia que carcterizava os seus habitantes, pois muitos já faleceram e, aqueles que ainda ali habitam, têm de se precaver contra a incerteza de encontros fortuitos e maléficos com personagens altamente marginais que por ali deambulam.

Vamos criar um Monte Estoril novo mas velho ao mesmo tempo! Vamos contribuir para a recriação de Cascais e de Portugal! Vamos ser, ao mesmo tempo, membros e interventores na governação deste concelho, deixando administrar aqueles que verdadeiramente sejam cascalenses e portugueses, venham eles de onde vierem!...



Para o Paraíso Natural do Monte Estoril...

As abordagens que têm sido levadas a efeito sobre o Monte Estoril, sejam elas de cariz turístico, cultural ou mesmo social, possuem até hoje um elemento comum: o facto de assentarem, em exclusivo, sobre a dicotomia entre o património edificado e as pessoas que ali desenvolveram as suas actividades.

De facto, se atendermos ao Monte estoril de hoje, depressa nos aperceberemos de que essa relação recíproca entre as edificações e as pessoas que as utilizaram são a peça-chave para a compreensão daquilo que foi esta pequena povoação, outrora connhecida como a Côte d' Azur Portuguesa. No entanto, e porque de uma perspectiva geral pretendemos tratar, difícil seria deixar de abordar a temática directamente relacionada com o meio envolvente que, como se usa hoje dizer, diz respeito a todos, cabendo a todos um papel único na sua salvaguarda.

O meio ambiente do Monte estoril, pelo menos aquele que hoje encontramos, nada tem a ver com o outro que foi encontrado por José Jorge de Andrade Torresão, o primeiro dos grandes construtores dos chalés de veraneio do Monte. Segundo Branca Gontha Colaço e Maria Archer (2), numa das mais sentidas obras escritas sobre os concelhos de Cascais e Oeiras, e que, à laia de permeioaconselhamos vivamente a leitura e a reflexão sobre os assuntos focados, revelam ter sido o território actualmente ocupado pela povoação em questão, completamente deserto, apenas ornado de vastas manchas verdes de pinheiros que, inclusivamente, acabaram por influenciar a própria toponímia antiga do sítio, que se chamou, durante muitos anos, simplesmente Pinhal da Andreza: «Solidão absoluta. Nem casa nem choupana, Pã vagueava no seu domínio como um verdadeiro deus. Não se ouvia balido de ovelha nem flauta de pastor. O mar inundava, com seu canto majestoso, a solidão magnífica. Os pinheirais gemiam em uníssono as saudades dos temporais».



Estudar o Monte Estoril de hoje, pensando demoradamente sobre a razão de ser dos diversos chalés de diferentes características inexplicavelmente salpicando as antigas matas de pinheirais e ocupando progressivamente as apetecíveis colinas, é sobretudo um esforço de reconstituição daquilo que foi este mesmo território antes de possuir as actuais edificações. Como tal, qualquer estudo que se faça sobre a arquitectura e o urbanismo do Monte Estoril terá de possuir, a suportá-lo, uma abordagem mais alargada que permita perceber, em termos de colocação e divisão do espaço, qual a lógica subjacente ao desenvolvimento que se efectivou durante a última décadado século XIX. Como é óbvio, daqueles que primeiro chegaram a este sítio, encontraram uma disponibilidade total de ocupação do espaço, disponibilidade essa patente devido ao total alheamento dos construtores face ao enquadramento do conjunto edificado, uma vez que o mesmo não existia; alheamento ainda face a possíveis sujeições legais, pois não existiam parâmetros rígidos nem definidosque orientassem os projectos (quando existiam os projectos); e alheamento, afinal de contaspois o facto de o terreno não estar ainda muito utilizado, permitia a escolha precisa do local para criar a nova habitação, bem como a forma através da qual se desenvolveriam os arruamentos e os jardins que a iriam circundar. Actualmente, quando alguém escolhe um terreno para edificar uma habitação, tem obrigatóriamente de ter em conta as casas construídas em redor, tal como os acessos e o seu estado, e a forma como o quintal se poderá articular com a edificação e com a rua, de modo a promover as necessidades da família ocupante e de melhor cumprir os objectivos para que foi criada. Tal facto, ao contrário do que sucedeu no Monte estoril, ajudou a criar na actualidade uma certa monotonia de valores estéticos, facto que podemos observar nos novos bairros recentemente construídos, bem como nas vedações em tapume metálico que abundam em quase todos os quintais cascalenses. A rua assume aqui uma função de mera passagem deixando de marcar significativamente o carácter do local, facto que é acentuado pela cada vez maior necessidade de privacidade, que vai alterar toda a estratégia das relações de vizinhanças e, assim, reestruturar a concretização histórica do povoado.

No Monte Estoril, a ausência de construções foi motivo sobejamente suficiente para afastar dos primeiros edificadores todos e quaisquer receios de falta de privacidade, facto facilmente contemplável através dos muretes de baixa altura que circundavam as habitações. Por outro lado, a própria vivência social da época, fruto do enriquecimento abrasileirado de muitos burgueses lisboetas, criava a necessidade de promover a sociabilidade, facto que condicionou de modo perene as próprias características das ruas que tinham como principal função a de facilitar o acesso às novas edificações, mostrando, ao mesmo tempo, o esplendor de todas aquelas que ficavam na vizinhança.

As características das casas, bem como os pormenores que rodeiam a sua arquitectura, assumem assim um papel de verdadeiros documentos no que diz respeito à compreensão daquilo que foi a estrutura mental e social que esteve na origem do Monte Estoril. Os pequenos espanta-fantasmas, de ferro forjado e de formas arrojadas, muitas vezes aliados a janelas de águas-furtadas conjugadas com telhados de duas águas muito inclinados acentuando acentuando o seu carácter nórdico, mais não são do que características para serem admiradas do exterior, tanto mais que representavam a possibilidade de estas grandes famílias burguesas lisboetas usufruírem dos lucros que obtinham com as suas práticas comerciais e, assim, demonstrarem a aristocracia cascalense, que continuava a veranear em Cascais sem qualquer espécie de condições, que o seu poderio económico lhe permitia usufruir de excelentes condições de férias, muito embora não fossem bem recebidos nas praias da moda frequentadas pela Família Real e pela generalidade dos membros da corte.

Cascais mantinha nessa altura, praticamente todas as velhas estruturas que possuía muito antes de ser o local escolhido para o fim da época estival da corte. As casas, deterioradas por muitos anos de uso, e pelo completo desajustamento face às novas necessidades, só muito dificilmente se adaptavam às novas necessidades, sendo por isso bastante complicado, à grande aristocracia portuguesa, poder desenvolver umas férias na praia mantendo o estilo de vida que possuíam na capital. Pelo contrário, no Monte Estoril, a nova burguesia enriquecida, dada a facilidade que possuía na construção dos seus chalés, podia facilmente impor-se pela moda, aproximando-se assim daqueles que até aí tinham conseguido manter a supremacia do relacionamento da alta-sociedade portuguesa. Ramalho Ortigão, numa das suas mais conhecidas obras dedicadas ao acto de veranear, não deixa de acentuar que embora Cascais fosse a mais importante praia da Estremadura, possuindo até o palácio real, não deixava de sofrer com a falta de desenvolvimento urbano que a caracterizava (3): «Como povoação, Cascais é a mais importante das praias da Estremadura. É cabeça de concelho. O número dos seus fogos é de cerca de 1.700 - exactamente o mesmo número que existia há cem anos, o que prova que Cascais, se não tem prosperado, também não tem decaído durante o curso do último século». Tal facto é ainda acentuado pela estagnação que caracterizava os preços pedidos pelas habitações na vila de Cascais: «[...] A renda das casas, que se alugam com mobília e louça durante os meses de temporada de banhos, com quanto não seja absolutamente elevada, é ainda pouco menos do que o preço porque as mesmas casas se venderiam, se alguém as comprasse, há quinze anos» (4).

O contraste entre a velha aristocracia portuguesa, desde sempre acompanhando a corte e possuidora de genes que se ligavam directamente a vários episódios importantes da História de Portugal, estava patente em muitas ocasiões em longo deste verão, sendo de salientaro peso que tal diferença teve na forma como foi edificada a nova estância balnear do Monte estoril, e esta, em época subsequente, na mais jovem Estoril. É ainda Ramalho Ortigão que, nas suas “Praias Portuguesas”, muito ao estilo da literatura Nacional da época, melhor descreve esta disfuncionalidade social, responsável por episódios caricatos, divinamente relatados por Ferreira de Andrade na sua “Vila da Corte” (5) e que, pela sua importância na compreensão da ambiência e do enquadramento paisagístico do Monte Estoril, não hesitamos em transcrever: «As senhoras da burguesia destoam neste meio e não fazem bem em sujeitar-se ao contraste desse confronto, a não ser que não tenhamlevado as suas jóias, que não ponham senão vestidos velhos, que usem o mais simples dos penteados e que sejam despretenciosas e boas, - no qual caso todas as mulheres, qualquer que seja o seu nascimento e a sua categoria, são igualmente elegantes e distintas».

Esta necessidade de mostrar aquilo que possuíam, valorizando assim a posição recentemente assumida em desprimor daquilo que eram as bases sólidas da aristocracia de então, demonstra de sobremaneira as tentativas sucessivas que esta classe social desenvolveu com o intuito de se aproximar da elite social do País. Esses esforços, verificáveis quotidianamente através dos ornamentos e das jóias que procuravam ostentar, jóias essas que, na grande maioria dos casos não eram acessíveis à maior parte dos membros da aristocracia depauperada, causavam assim reacções cada vez maiores de encerramento dentro dos diversos grupos, que se protegiam desta forma das investidas cada vez mais audaciosas que eram promovidas pela burguesia.

Em termos mais simbólicos, era nas casas que se podiam encontrar os maiores vestígios da transformação social verificada em Portugal naquela época, sendo que, de entre todas as povoações deste País, o Monte Estoril é, com toda a certeza, aquela que maiores potencialidades de demonstração possui. as suas edificações, ornamentadas excessiva e excentricamente, promoviam o aparecimento de uma ambiência nova, facto que causou grandes transtornos à elite social vigente. As casas do Monte Estoril, principalmente aquelas que foram construídas com intuitos puramente de veraneio, são assim a face visível de uma terrível luta fratricida, que, que culminou em Cascais na tomada de poder por parte das forças revolucionárias republicanas, fruto de um exacerbado ódio criado no seio de uma dicotomia que separava o Monte de Cascais, e depois do Estoril e das restantes povoações da costa litoral deste concelho. Em relação a esta luta, é ainda Ramalho Ortigão quem na obra citada, melhor descreve a forma como se procurava a todo o custo, furar as apertadas teias da modernidade social, servindo-se de um saber instituído, mas também utilizando os estratagemas que derivavam na recente ascensão financeira do grupo: «Os homens novos que quiserem fazer o que se chama a entrada no mundo, a investtidura social, devem procurar esta praia para abrir a brecha, para penetrar na praça. Aconselhar-lhes-emos nesse caso que não emitem os homens que acompanham essas senhoras e são seus pares. Não, caro leitor inexperiente e amigo! Se quiseres ser recebido nesta sociedade portuguesa - em que se pegam os touros, em que se toca a guitarra, em que se dança o fado - não toques o fado, não pegues os touros, não bebas, não fumes, não deites para trás o chapéu dando-lhe um piparote na aba. Tudo isso fazem os fidalgos, mas tu, burguês, nunca parecerás um fidalgo se o fizeres. Parecerás apenas um moço de cavalariça e nenhuma dessas senhoras consentirá em que lhe apertes a mão. Não tenhas também muito espírito, nem maneiras muito acentuadas, nem opiniões muito expressivas. Sê o mais que possas fácil, complacente, obscuro, nulo. Vai à missa, lê o teu ripanço, está de joelhos na igreja, confessa-te uma ou duas vezes, veste-te como um padre ou como um saloio, dá-te um ligeiro ar idiota, inofensivo, pascácio. Terás um sucesso infalível. As senhoras receber-te-ão com agrado, como um auxiliar que não que não compromete, como um passivo, como um neutro. Apresentar-te-ão, rindo, às suas amigas. Pedir-te-ão os pequenos serviços suaves que se encarregam aos procuradores e aos capelães: que chegues uma cadeira, que vás buscar as luvas, o lenço ou o chapéu de sol que esqueceu, que acompanhes esta, que vás chamar aquela, que deites no correio uma carta para aqueloutra, etc.; terás uma incumbência de responsabilidade nos pic-nics, nos passeios em burro, nas soirées de subscrição; serás o ponto ou o contra-regra, o comparsaou o criado que traz a carta nas representações de salão. Converter-te-ás finalmente num personagem que será lembrado, requerido, utilizado. No ano seguinte àqueleem que por estes meios te ouveres introduzido na sociedade, poderás então tocar guitarra, enrolar nos dedos, em pleno clube, diante das senhoras, um pestilento cigarro de papel, arrojar o chapéu da testa para a nuca com o piparote fadista, e falar o calão - porque terás tomado posse, e principiarás a exercer o teu lugar de janota nacional, encartado e inamovível».

A constante luta travada entre os membros da burguesia endinheirada portuguesa e a velha e empobrecida aristocracia de cepa, tiveram o seu pontomais fulgurante na velhíssima vila de Cascais, que assistiu, em poucos anos, a uma radical transformação urbanística. Para responder à chegada da corte, muitos houveram que resolveram escolher Cascais para estância de veraneio, e esses, quando possuíam as posses necessárias para tal efeito, não hesitavam em construir as casas ao estilomais arrojado de então, servindo-se dessa construção e do seu esplendor para alicerçar a sua posição no espectro social nacional. É esse o caso, por exemplo do Palácio dos Duques de Palmela, construído de caordo com elevados parâmetros de qualidade e subordinado à experiência de arquitecto requintado e muito escolhido, com o intuito de fazer frente a uma ostentação que a coroa e a rainha dificilmente conseguiram suportar no seu mal-acabado palácio real adaptado da velha fortaleza de Cascais.

O Monte Estoril, em momento subsequente vai servir de resposta desta nova classe burguesa ao atrevimento social da aristocracia, utilizando para tal os recursos que possuia em maior quantidade: dinheiro, ideias inovadoras e espaço livre.

Foi sobretudo a conjugação deste capital imediato com a liberdade espacial que caracterizava o velho Pinhal da Andreza, que condicionou o aparecimento de uma povoação baseada em novos parâmetros urbanísticos, onde as dificuldades geográficas naturais, de acordo com o projecto de Carlos Anjos, se tornariam um incentivo essencial para a criação de uma ambiência que não existia em mais nenhuma parte do mundo. A construção do lago, e do aqueduto que traria a água da sua quinta de Vale de Cavalos, serve assim de exemplo para demonstrar quão importante era, para a época em questão, a ostentação da superioridade burguesa nacional, dispondo de verbas de valor e de força empreendedora, conseguindo tornar um desinteressante pedaço de terra, em mais um quase celestial povoado cascalense. O cuidado posto neste empreendimento foi de tal ordem, que o próprio Carlos Anjos previu com todo o cuidado o enquadramento necessário à criação de um ambiente novo, preservando as espécies vegetais de maior valor e misturando-lhes os vestígios de outras espécies exóticas trazidas de diversas partes do mundo O ponto a que chegou esse projecto foi tão profundo que o seu mentor previu ainda a cobertura das ruas com areia, como forma de promover a beleza e limpeza do sítio, bem como as aves que vagueariam por entre as ramagens viçosas e fulgurantes das espécies para aqui transportadas. O constante chilrear de pássaros mais ou menos conhecidos, misturado com o esplendor vegetal, completaria assim o conjunto fornecido pelas diversas edificações que possuiam também elas características que as tornavam únicas em todo o País.

A complementar estes aspectos urbanísticos a Sociedade do Monte Estoril, no mesmo projecto, proibiu a construção de muros de grandes dimensões, complementando tais directivas com a obrigatoriedade da recolha de pedras das praias Monte Estorilenses para a sua construção. As copas das árvores, tocando-se sob o azul do céu, em conjunto com os muros rústicos de pedra natural, promoveriam assim a tal envolvência espacial que a burguesia necessitava para transformar a sua estância de veraneio num local onde a qualidade de vida fosse, de facto, altamente apetecível.

Se no Monte Estoril foi possível criar uma povoação com estas bases, e que de facto se tornou única no mundo, tal se ficou a dever, em primeira análise ao envolvimento natural que lhe esteve na origem, sendo que a completa liberdade espacial, mesclada com as dificuldades geográficas que existiam em grande quantidade, promoveria neste sítio o nascimento de uma simbologia dinâmica e definitiva, transformando o Monte em algo de único que o devir histórico cascalense não tem conseguido preservar.








NOTAS:


(1) AGOSTINHO, Santo, Confissões de Santo Agostinho, Porto, Livraria Apostulado da Imprensa, Junho de 1984, pp. 303-304.

(2) COLAÇO, Branca de Gonta e ARCHER, Maria, Memórias da Linha de Cascais, Lisboa, [S/N], 1943.

(3) ORTIGÃO, Ramalho, As Praias de Portugal, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1943.

(4) Ob. Cit.

(5) ANDRADE, Ferreira de, Cascais - Vila da Corte, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964.

quarta-feira

A Vivenda Miramonte: Um Repositório de Memórias do Monte Estoril





Apesar do seu aspecto rústico e quase inconsistente, a Vivenda Miramonte, situada na Rua do Lido, no Monte Estoril, é hoje um dos principais bastiões da memória urbana daquela localidade. Rodeada dos seus torreões e da cocheira que ainda hoje guarda os vestígios empoeirados dos últimos cavalos que ali pernoitaram, a Vivenda Miramonte foi a casa de José Dias Valente, fundador e Director do Colégio João de Deus, e personagem incontornável na História do Monte Estoril.

Construída já no início do Século XX, mas aproveitando os resquícios de um movimento romântico que o Monte Estoril nunca rejeitou, a Vivenda Miramonte é hoje um dos paradigmáticos exemplos da memória urbana do Concelho de Cascais.

Rodeada de um pequeno castelo, recriando o carácter altaneiro dos torreões que decoravam as vivendas mais eruditas, a Vivenda Miramonte complementa um quadro geral de que fazem parte da Capela, a garagem e o edifício das cocheiras. Do cimo dos seus mirantes, e fazendo jus ao nome da própria casa, o Monte Estoril surge em todo o seu esplendor, tornando invisíveis os muitos problemas que agravam paulatinamente a qualidade de vida naquele lugar.

Utilizando profusamente os valores arquitectónicos entendidos como tipicamente portugueses, dos quais se destacam o telhado de beiral duplo e o painel azulejar com a identificação do imóvel, a Vivenda Miramonte reúne as características próprias da habitação erudita de Cascais e a sublime singeleza das aldeias rurais do termo de Lisboa, produzindo um efeito cenográfico exemplar, que transforma este imóvel numa espécie de duplicação adaptada daquilo que eram os valores tradicionais da portugalidade.

A importância da Vivenda Miramonte, no entanto, não se fica por aqui. Para além dos aspectos relacionados com as suas características físicas, foi ali que habitou durante várias décadas o antigo fundador e Director do Colégio João de Deus.

José Dias Valente, detentor de uma inteligência invejável e de uma capacidade de concretização sem par, foi sempre considerado pelos que o conheciam como uma das principais referências do Monte Estoril.

Pelo Colégio João de Deus, durante vários anos o único estabelecimento de ensino liceal existente na Linha de Cascais, passaram muitas gerações de portugueses que contactaram e conheceram de perto o carácter do seu Director. Conhecido pela rectidão e pelo aprumo que dedicava aos seus afazeres, Dias Valente demonstrou sempre ao longo da sua vida que os valores que o norteavam se sobrepunham a quaisquer outras necessidades.

Como contava amiúde o Dr. Mário Quina, amigo próximo de Dias Valente e médico do Colégio João de Deus, em certa altura, logo no início da sua carreira académica, quando era ainda um mero principiante no curso de letras da Universidade Clássica de Lisboa, foi-lhe marcado um teste escrito logo para a manhã. No decorrer da prova, e perante a estupefacção dos seus colegas, o professor reparou que ele não estava a escrever, questionando-o sobre o que se passava. A resposta, imediata e fulgurante, não se fez esperar: “ainda não estou preparado”. O mestre, como é evidente, não gostou do que ouviu e a crítica foi imediata. Enchendo-se de brios, Dias Valente responde-lhe simplesmente: “Para aprender a sua matéria chegam-me 24 horas”. “Então” – disse-lhe o professor – “venha amanhã a exame”. Como era seu hábito, passou a noite a estudar e, no dia seguinte fez uma excelente prova, cujo mérito foi publicamente reconhecido.

Ao acabar o curso, e por discordar do sistema vigente, pretendeu defender uma tese sob o tema “A Escola Normal Superior Deve Ser Encerrada Por Imoral”. Como é fácil de perceber, a teses nem sequer foi aceite, facto que se traduziu numa espera de mais dois anos pela licenciatura, até que, de facto, a Escola Normal Superior fosse encerrada.

Todos estes factos, aliados à necessidade premente que o Monte Estoril possui de conseguir recuperar as características próprias da sua antiga qualidade, impõem a recuperação das memórias associadas às casas, às ruas e aos recantos da povoação.

Se assim não se fizer, corre-se o risco de desaparecerem as estórias que deram forma à História dos Estoris.

terça-feira

O Colégio João de Deus e o Bairro Escolar do Monte Estoril





A principal inovação do Monte Estoril, apesar de mal conhecida da generalidade dos cascalenses, foi no entanto de ordem pedagógica, tendo sido instalados na povoação, entre 1928 e 1974, dois dos mais importantes estabelecimentos de ensino do nosso País.

O primeiro, constituído por sociedade entre João de Deus Ramos, João Lopes Soares, Virgílio Vicente da Silva e Mário Pamplona Ramos, designava-se Bairro Escolar, tendo sido inaugurado em 30 de Agosto de 1928.

Funcionando no local onde hoje se encontra a Urbanização do Lago, em torno do espaço onde Carlos Anjos tinha tentado criar artificialmente um vasto lago com água trazida da sua Quinta de Vale de Cavalos, o Bairro Escolar obedecia a parâmetros pedagógicos inovadores, criados sobretudo pelo génio inventivo de João de Deus Ramos.

Baseado numa disciplina escolar diferente da usual, na qual a rigidez caserneira, empregada pela rotina para obrigar as crianças ao silêncio, à compostura e ao estudo, era substituída pela arte de estudar, na qual o ambiente de simpatia e fraternalismo promoviam no aluno a vontade de aprender, o Bairro Escolar nasceu praticamente depois de vinte anos de projectos e de tentativas de concretização do seu fundador.

Numa memória descritiva publicada pouco tempo depois de abandonar aquela que o próprio considerava a sua grande obra, João de Deus Ramos explica o sucesso do Bairro Escolar pela grande qualidade pedagógica do seu corpo docente, mas também pela filosofia e pelo código de princípios que regia a instituição: “Há mais de vinte anos que eu imaginara um colégio bem diverso de quantos tive ocasião de conhecer. Nem o convento sombrio, misterioso, onde faz medo entrar. Nem o palácio acolhedor, mas impróprio na sua solenidade de interiores luxuosos, geralmente danificados pelo tempo. Nem as camaratas desconfortáveis que lembram pela alvura e pela extensão enfermarias de hospital. Nem os longos corredores, tristes e soturnos. Nem os srs. Prefeitos que amedrontam a delicadeza impressionável das crianças. Nem o fanatismo religioso que alucina e amortece o espírito. Nem a irreligiosidade vazia que prende o homem à terra, vencido pela convicção do inexplicável. Nem ainda aquela neutralidade acomodativa e hipócrita, em matéria religiosa, que por ser neutralidade não é coisa nenhuma”.

Se, numa primeira fase, o vigor e a capacidade concretizativa de João de Deus Ramos garantiram ao Bairro Escolar um sucesso incomparável, sobretudo se nos ativermos ao facto de que o aparelho educativo português daquela época era completamente incapaz de responder com coerência às necessidades novas de uma sociedade tecnológica e cientificamente mais evoluída, numa segunda fase, a pujança do estabelecimento de ensino e os primeiros vestígios de lucros, acabaram por comprometer completamente o projecto original.

De facto, entre 1928 e 1934, enquanto João Soares se encontra ausente e se mantêm em João de Deus Ramos a incumbência de implantar o colégio, a sociedade foi paulatinamente prosperando, assistindo-se a um aumento gradual do número de alunos e a uma fama que ultrapassou rapidamente as fronteiras mais difusas da Costa do Estoril. Ao ponto de, ao regressar ao Estoril e à lides educativas, o próprio João Soares ter enviado ao seu sócio João de Deus Ramos, em 4 de Março de 1934, uma extensa missiva em que expressava o seu apreço pelo trabalho realizado durante o período em que esteve ausente: “Ninguém como eu – absolutamente ninguém – fará maior justiça aos seus [referindo-se a João de Deus Ramos] enormes e constantes sacrifícios durante mais de três anos consecutivos, procurando sempre elevar e consolidar a boa fama do «Bairro» e fazer face aos seus pesados encargos, numa luta esgotante e quase heróica. Outro – que não tivesse a sua formidável resistência moral, ou não possuísse a sua exuberante imaginação – fatalmente teria sucumbido! E só eu sei quanto tenho sofrido por o ver sozinho aí e não poder auxiliá-lo eficazmente...”

No princípio de Agosto de 1935, numa reunião da Assembleia Geral em que se apresentaram os primeiros resultados positivos no exercício da sociedade, é o próprio João Soares que, indignado com a sua situação, se afasta do Bairro Escolar, impondo a venda das suas quotas a um comerciante problemático do Estoril, Negrão Buizel, que foi responsável por uma série de querelas que acabaram por destruir todo o projecto.

As alegações de João Soares, poucos minutos depois de se inteirar pela primeira vez da gestão do seu sócio e amigo de há longos anos, prendem-se sobretudo com a indefinição latente da sua posição no seio do colégio. De facto, devido a problemas políticos complicados, muitos dos quais relacionados com a sua prisão, João Soares pouco ou nada contribuiu para a consolidação do Bairro Escolar, acusando agora João de Deus Ramos de possuir um “feitio absorvente, autoritário e ditatorial”, e declarando que “sendo adversário de todos os ditadores, não podia mais tempo suportar aquela ditadura, o que o levava ao convencimento de pôr à disposição da Sociedade a sua quota, sem condições”.

Esperando dos restantes sócios, Luís Cardoso e Jaime Reis, um apoio incondicional às suas pretensões, agora que as vicissitudes políticas pareciam estar ultrapassadas, João Soares ouviu desagradado as apreciações positivas e as palavras de incentivo e apreço que foram dirigidas a João de Deus Ramos pelos seus colegas. É o próprio visado, João de Deus Ramos, quem, pouco tempo depois da reunião, frisa ter-se admirado com a forma pouco simpática com que Soares assistiu à Assembleia: “Mas eu vi: não foi sem contracção das suas linhas fisionómicas que João Soares ouviu em silêncio estes louvores. Provavelmente preferia que tal não fosse verdade...”

E se até esse momento a amizade entre os dois pedagogos havia prevalecido, baseada num respeito mútuo e numa confiança que o tempo mostrou não ser imerecida, a ruptura tornou-se incontornável a partir desta reunião. João Soares, apostado na criação de um estabelecimento de ensino completamente controlado por si, desejava avidamente afastar-se da figura simpática, extrovertida, e fraterna de João de Deus Ramos. Este último, desejando manter vivo aquele que havia sido o grande projecto pedagógico da sua vida, recusa o afastamento, aceitando, um pouco contrafeito, a venda das quotas de Soares a um desconhecido comerciante.

A entrada de Américo Buizel no Bairro Escolar, numa avidez de lucro imediato e de controle absoluto de toda a sociedade, relativizando os interesses pedagógicos e as necessidades educativas do seu corpo discente, acabou por levar ao afastamento do fundador e de grande parte dos seus mais ilustres professores.

São aliás estes professores quem, assumindo um apoio incondicional a João de Deus Ramos, visível através das muitas actas dos Conselhos Escolares, e de inúmeras cartas e missivas que enviam aos sócios e ao próprio Director Pedagógico, criam no Monte Estoril aquele que virá a ser o grande pilar da educação cascalense até ao 25 de Abril de 1974.

Em 3 de Janeiro de 1936, numa carta assinada pessoalmente pelos professores do Bairro Escolar, nomeadamente Mário Pamplona Ramos, Augusto Mimoso, Henrique Perestrelo de Alarcão, Álvaro Themudo, Armando Lucena, Aníbal Henriques, Rubi Marques e José Guerreiro Cristovão, explica-se aos pais dos alunos do Bairro Escolar o que se passou naquele estabelecimento, informando-se ainda de que será brevemente criado um novo colégio, mantendo a orientação pedagógica utilizada por João de Deus Ramos no antigo: “O que o Bairro Escolar vale, com a antiga organização e métodos, mereceu o aplauso e a preferência de V.Exª., confiando-lhe o educando que tem a seu cargo. Entenderam os professores que não se devia interromper tão magnífica iniciativa e, por isso, solicitaram o apoio do Sr. Dr. João de Deus Ramos e resolveram abrir novo colégio ainda na primeira quinzena do mês de Janeiro. Deferida esta solicitação, achamo-nos em condições de cumprir o nosso objectivo; poderemos, assim, obedecendo ao mesmo pensamento, continuar a preparação moral, espiritual e física dos alunos, muitos dos quais são já nossos discípulos de há anos”.

E logo a seguir, em 5 de Janeiro do mesmo ano, os antigos professores do Bairro Escolar informavam as famílias dos alunos: “Temos a honra de comunicar a V.Exª. que no dia 12 se fará a abertura solene do novo colégio que os antigos professores do Bairro Escolar resolveram fundar por motivos que V.Exª. conhece. Porque se propõem continuar a magnífica obra pedagógica, realizada pelo seu Director, o novo estabelecimento de ensino terá a denominação de Colégio de João de Deus. A sua sede é na Vila Pomares, no Monte Estoril”.

Construída na última década do Século XIX, pela Marquesa de Pomares, a sede do novo Colégio de João de Deus é vincadamente marcada pelo carácter cosmopolita da sua construção.

A Marquesa de Pomares, uma das cortesãs que acompanharam neste seu quase exílio, a Rainha Dona Maria Pia, após a morte do seu marido, o Rei Dom Luís I, edificou no Monte Estoril um sólido palacete que encarnou a generalidade dos valores arquitectónicos e monumentais desta localidade. Realçando a sua identidade através de um arco de entrada de características monumentais, ao qual se junta o apelo romântico aos torreões ameados, tão em voga num local que recriava um ambiente medieval a partir da sua estrutura urbana, a Vila Pomares depressa se tornou num dos mais emblemáticos símbolos do Estoril, por ali tendo passado, no decorrer da sua vigência aristocrática ou no seu posterior percurso escolar, grande parte dos vultos da vida política, empresarial e social portuguesa da primeira metade do Século XX.

No dia 12 de Janeiro de 1936, quando o Colégio de João de Deus se instala na Vila Pomares, tendo como principais orientadores o Dr. José Dias Valente, que assumiu as funções de Director, e os antigos professores do Bairro Escolar, Dr. Álvaro Themudo, Dr. Aníbal Henriques, Dr. Freitas e Silva e Capitão Álvaro Perestrelo, o Monte Estoril adquiriu finalmente o seu estatuto de diferença, consolidando as inovações diversas que possuía no seu seio, a um vanguardismo pedagógico que se manteve durante quase quarenta anos.

A Associação dos Antigos Alunos do Colégio de João de Deus, ainda hoje activa, quando se passaram já mais de vinte e cinco anos após o encerramento do colégio, personifica o carácter inovador das relações educativas desenvolvidas pelo estabelecimento, nas quais a proximidade entre mestres e discípulos se afigurava como fundamental.

Nos aniversários da fundação, de forma imperceptível, foram sempre os alunos que organizaram e desenvolveram as comemorações oficiais. Grandiosas, magnificentes e sentidas, as festas nos muitos aniversários do Colégio de João de Deus tiveram sempre uma coisa em comum: a presença permanente e activa de centenas de ex-alunos que, mesmo depois de terminarem a sua formação, e muitos deles depois de encetarem percursos profissionais e políticos de grande destaque, compareceram sempre à chamada daquele que consideravam o “seu” colégio.

Júlio dos Santos, um dos ex-alunos que incentivou a comemoração do segundo aniversário através da edição de um jornal onde figuravam as opiniões de quase todos, escrevia em 12 de Janeiro de 1938 que o Colégio de João de Deus era para ele uma alegria que não podia deixar de exteriorizar: “Eu, que tenho acompanhado desde sempre o seu engrandecimento regozijo-me de todo o coração com tão faustoso acontecimento, e estou convencido que todos os meus colegas pensam e sentem o mesmo, porque o nosso colégio há-de progredir, progredir sempre, e ainda porque todos unidos, como leais amigos e dedicados ao nosso Director e Professores, respiramos aqui um ambiente familiar que nos cativa e nos conforta, e recebemos ensinamentos e carinhos que jamais olvidaremos por entre os espinhos da vida...”

E a cordial familiaridade continua vinte e cinco anos depois. No dia 12 de Janeiro de 1961, por ocasião das Bodas de Prata do Colégio, são novamente os antigos alunos quem explica a razão de ser de tão próxima relação: “Como não podia deixar de ser, neste dia reuniram-se aqui todos os antigos alunos em franca confraternização. Todos vieram para ver o que há tanto tempo haviam deixado, todos vieram para se sentar nas mesmas carteiras que usaram e que actualmente são as dos seus filhos, todos vieram para ouvir os seus antigos professores, todos vieram para deixar numa aula ou num pátio, no ombro de um antigo mestre ou na face dum antigo colega, uma lágrima amiga, essencialmente franca e significativa”.

sexta-feira

José Dias Valente: Quando Educar Ainda era Uma Vocação





Nascido em Lisboa, no dia 11 de Fevereiro de 1902, o Dr. José Dias Valente foi, sem sombra de dúvidas, uma das mais importantes personalidades da História da Pedagogia Portuguesa do Século XX.

Licenciado em letras pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e proprietário, fundador e principal impulsionador do Colégio de João de Deus, no Monte Estoril, o Dr. José Dias Valente teve um percurso académico e profissional marcado pelas vicissitudes próprias de alguém que se encontrava muito para além das capacidades próprias do seu tempo.

Em 1985, quando decorria mais uma cerimónia de comemoração do aniversário da fundação do colégio, o médico de sempre, o Dr. Mário Quina, que já havia transitado de iguais funções no antigo Bairro Escolar, menciona com emoção os primórdios da constituição daquela importante instituição monte estorilense: “É claro que me lembro com muita saudade dos professores fundadores, do Dr. Aníbal Henriques, do Dr. Freitas e Silva, do Dr. Álvaro Themudo e de outros, mas, se me permite, eu daria uma vez mais prioridade à pessoa do próprio Dr. Dias Valente. Ele era o pivot à volta do qual tudo girava. E à sua forte personalidade, a que já me referi amiúde, que se deve a magnitude da obra que realizou”.

Detentor de uma inteligência invejável, por todos considerado intelectualmente superior e moralmente sobredotado, o Dr. José Dias Valente demonstrou permanentemente ao longo da sua vida que os valores que o enformavam se sobrepunham a todas e quaisquer outras necessidades.

Em certa altura, logo no início da sua carreira académica, quando era ainda um mero principiante no curso de letras da Universidade Clássica de Lisboa, foi-lhe marcado um teste escrito logo para a manhã. No decorrer da prova, e perante a estupefacção dos seus colegas, o professor reparou que ele não estava a escrever, questionando-o sobre o que se passava. A resposta, imediata e fulgurante, não se fez esperar: “ainda não estou preparado”. O mestre, como é evidente, não gostou do que ouviu e a crítica foi imediata. Enchendo-se de brios, Dias Valente responde-lhe simplesmente: “Para aprender a sua matéria chegam-me 24 horas”. “Então” – disse-lhe o professor – “venha amanhã a exame”. Como era seu hábito, passou a noite a estudar e, no dia seguinte fez uma excelente prova, cujo mérito foi publicamente reconhecido.

Ao acabar o curso, e por discordar do sistema vigente, pretendeu defender uma tese sob o tema “A Escola Normal Superior Deve Ser Encerrada Por Imoral”. Como é fácil de perceber, a tese nem sequer foi aceite, facto que se traduziu numa espera de mais dois anos pela licenciatura, até que, de facto, a Escola Normal Superior fosse encerrada.

No Colégio de João de Deus, no Monte Estoril, o Dr. José Dias Valente desempenhou um papel fundamental. Para além de ter sido proprietário daquele estabelecimento de ensino, foi também seu director e principal doutrinador pedagógico.

Ciente da importância desses cargos, e das enormes responsabilidades a eles inerentes, o Dr. José Dias Valente acompanhou de perto todos os actos, decisões e problemas do seu colégio.

Lembrado por muitos como figura severa e exigente, é também considerado pelos mesmos um educador afável, sensível e inteligente, que conhecia os meandros da aprendizagem e da educação, e que sabia como enquadrá-los num modelo pedagógico que, de forma coerente, permitisse ensinar, educar e desenvolver os indivíduos, ao mesmo tempo que lhes facultava as ferramentas necessárias à consolidação das suas capacidades e interesses.

O Dr. José Dias Valente, professor e educador, foi sobretudo um pedagogo que defendia ideias e princípios considerados revolucionários no seu tempo. As teorias da não-directividade, desenvolvidas nos finais da década de 60 do Século XX um pouco por toda a Europa, foram para esta grande figura da pedagogia monte estorilense factos e princípios que orientaram toda a prática educativa do Colégio de João de Deus.

Considerando o indivíduo como um ser autónomo, dotado de vontade, interesse e capacidades próprias, o Dr. José Dias Valente entendia que o acto de ensinar devia ser acompanhado pela acção formativa. Ou seja, defendia que a abertura latente no processo de educação, abrangendo a escola, a família e a própria comunidade onde o indivíduo estava inserido, se caracterizava sobretudo pelo seu cunho pessoal, dependendo de cada sujeito, de cada educando e de cada educador. Para ele, cada estudante, cada aluno, cada professor e cada funcionário do seu Colégio representavam um pequeno mundo. Era necessário compreender individualmente cada um deles, integrando-o nas características gerais do grupo que procurava formar, para poder desenvolver de forma coerente o modelo pedagógico e educativo que defendia.

Foi, por tudo isso, um espírito crítico relativamente às correntes ao seu tempo, mal compreendido e, sobretudo, subaproveitado. A sua obra, no entanto, perdura no tempo e no espaço, tendo afectado positivamente milhares de jovens que passaram pelo Colégio de João de Deus, e por consequência as suas famílias através de várias gerações.

Homenageado recentemente através da toponímia do Monte Estoril, que perpectuou o seu nome num arruamento situado junto ao Jardim dos Passarinhos e muito próximo do seu Colégio de João de Deus, o Dr. José Dias Valente faleceu na sua residência, junto ao Largo Ostende, no dia 12 de Março de 1977.