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terça-feira

Padre Raúl Cassis Cardoso (1928-2019)



Figura marcantíssima, interveniente, controversa e sempre presente na História recente de Cascais, faleceu hoje, aos 90 anos de idade, o Padre Raúl Cassis Cardoso.

Nascido no Distrito de Santarém, o Padre Raul foi ordenado Sacerdote em 1952 pelo então Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira e, depois de um périplo pelas Paróquias de Carregueiros, Pedreira, Calhandriz e Alverca do Ribatejo, assumiu a liderança da Paróquia de Cascais em 1970, ainda na juventude dos seus 41 anos. Durante os que 4 décadas em que esteve em Cascais, o Padre Raúl foi responsável pela dinamização generalizada da Paróquia local, tendo sido o motor principal de muitos dos movimentos paroquiais que deram forma ao Cascais que hoje temos.

 Activo e sempre interveniente, nem sempre de trato fácil quando em causa estavam as suas mais profundas convicções, foi líder espiritual de uma comunidade que nele se reviu durante muitos anos e cujo exemplo motivou as vidas de quase todos aqueles que com eles tiveram a sorte de se cruzar. Quando em 2008 deixou a liderança da Paróquia de Cascais, e se retirou para aqueles que seriam os seus últimos anos de vida, o Padre Raúl manteve-se permanentemente bem vivo na memória de milhares de Cascalenses que recordavam com saudade a sua dedicação à Igreja e à comunidade local. 

Ainda há pouco tempo, quando a atribuição de um topónimo com o nome de um dos seus antecessores a um arruamento na Freguesia de Cascais o fez regressar à terra onde trabalhou durante tantos anos, foi com amizade que a comunidade local o recebeu, enchendo com o carinho de um familiar muito próximo os ânimos daqueles que tiveram a oportunidade de com ele conviver.

O Padre Raúl Cassis Cardoso marcou Cascais, a Paróquia que tão bem dirigiu e a vida de centenas de crianças (hoje adultos) que dele receberam as primeiras orientações espirituais. Que descanse em paz como merece. Cascais não o vai esquecer.

sexta-feira

O Círio de Nossa Senhora do Cabo na Paróquia de Cascais




por João Aníbal Henriques

Depois de um interregno de mais de 50 anos desde a sua última visita a Cascais, a Veneranda Imagem Peregrina de Nossa Senhora do Cabo regressou à Nossa Terra, no ano de 2002-2003 retomando assim o milenar Círio Saloio do Cabo Espichel.

A iniciativa do então Prior de Cascais, Padre Raul Cassis Cardoso, foi essencial para a recriação daquela que é uma das mais antigas tradições Cascalenses. Numa parceria com a Sociedade Propaganda de Cascais, que nessa altura assumiu a responsabilidade de recuperar a memória ancestral daquele importante acto devocional, foi possível reconstituir os rituais que a passagem do tempo havia feito esquecer e recriar toda uma existência religiosa que há muito tempo não existia nesta Freguesia.




Para o êxito desta iniciativa, que consolidou de forma efectiva a Identidade Cascalense, foi essencial o trabalho conjunto e o apoio da então Câmara Municipal de Cascais, presidida pelo Dr. António Capucho, da Junta de Freguesia de Cascais, Presidida por Pedro Silva, e da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Cascais. Mas, acima de tudo, foi de primordial importância a forma extraordinariamente empenhada e motivada que caracterizou a participação dos cascalenses e das diversas instituições da sociedade civil de então nas muitas cerimónias que fizeram parte deste Círio.




O Círio de Nossa Senhora do Cabo Espichel, expressão ancestral de uma devoção profundamente ligada à terra e à sobrevivência das comunidades dela dependentes, recupera a antiga lenda do aparecimento de Nossa Senhora a um saloio de Alcabideche precisamente no ponto de ligação entre Cascais e Sintra. O investigador Vítor Adrião, no seu livro “Sintra Serra Sagrada”, aponta expressamente a sobreposição simbólica do Cabo Espichel, promontório sagrado da Portugalidade, à imagem ideal do Monte Carmelo, eixo de Fé da comunidade religiosa carmelita que em Cascais veio ocupar e dinamizar o antigo Convento de Nossa Senhora da Piedade e que, dessa forma, congregou as mais sublimes expressões da sabedoria sagrada na comunidade Cascalense. Diz Adrião que “os dogmas teologais terão servido, tão só, de capa protectora, ante o vulgo profano, ao entendimento iluminado da Sabedoria Divina oculta dentro das paredes pias deste Colégio de Filosofia, esta que é, sabe-se, o umbral dialéctico da Teosofia”.


O Círio Sagrado de Nossa Senhora do Cabo, profundamente sentido pela comunidade cascalense, insere-se assim numa dinâmica de Fé da qual depende a existência efectiva dos mais ancestrais arquétipos de pensamento de Cascais. É essa ligação, quantas vezes menosprezada ao longo da História mais recente desta terra, que determina e possibilita a criação e desenvolvimento dos laços essenciais de cidadania comunitária na Nossa Terra.




A memória colectiva de Cascais, em 2002-2003 como em todas as outras vezes em que a Imagem de Nossa Senhora do Cabo por aqui passou, ficou profundamente marcada por este acontecimento que só se repetirá, no âmbito da concretização da praxis determinada pelo ancestral círio saloio, em 2032. Nessa altura, recuperando as memórias calorosas que marcaram o início do Século XXI e o despontar do novo milénio, Cascais renovará os votos de Fé e devoção que marcaram sempre a sua História, reforçando os vínculos de cidadania que esta última visita de Nossa Senhora do Cabo foi capaz de fazer renascer.

A bem de Cascais!

Fotografias da autoria de Sara Liberdade

Milagre de Novembro em Cascais





Eu sou aquelle, que Cascaes já vi,
eu sou o que Cascaes não vejo já,
de quanto era dantes fumos dá,
e tudo he fumo o que contém em si.

Frei António do Espírito-Santo
Mestre de Filosofia do Convento de Nossa Senhora da Piedade em Cascais
1756


por João Aníbal Henriques

Eram 9h45 da manhã desse dia 1 de Novembro de 1755 quando a Vila de Cascais viveu o pior cataclismo da sua História. Depois de um início de dia calmo e ameno, que fez sair a população das suas casas para se dirigir às igrejas e capelas para assistir à Santa Missa do Dia de Todos-os-Santos, começaram a ouvir-se ao longe os rugidos tremendos oriundos das entranhas da terra e a sentir-se os primeiros tremores que anunciavam o terror que estava para vir.




Assustados, os Cascalenses de então refugiram-se na oração e, de dentro dos espaços sagrados de Cascais, assistiram incrédulos à completa destruição da sua terra. À medida que os abalos iam aumentando, fazendo cair pedras e as paredes velhas, aumentava o clamor do rugido que se ia misturando com a gritaria enlouquecida da população com a visão turvada pelo medo e pela morte. E como se não bastasse, porque a natureza foi especialmente truculenta naquele dia nefasto, num instante transbordaram as águas da Ribeira das Vinhas que encheram a vila e provocaram afogamentos sem igual. O mar, enraivecido também ele pelo desastre que se abatia sobre Portugal, galgara os rochedos e entrava livremente em Cascais, esmagando com a sua força muitos daqueles que procuravam sobreviver à desgraça geral.

Não tendo outro local para onde fugir, um grupo de Cascalenses refugiu-se dentro da frágil Capela de Nossa Senhora da Conceição, ali procurando a protecção divina contra a desgraça que imperava ao seu redor. Unidos pela sua Fé, fizeram um voto a Nossa Senhora dos Inocentes pedindo protecção contra o desastre que enfrentavam. E, tendo sido ouvidos pela Senhora da Conceição, que logrou salvar a singela capelinha dos fenómenos desastrosos que por todos os lados a atacavam, salvaram-se todos os que ali se tinham abrigado. Agradecidos pela mercê, criaram uma irmandade que tinha como principal objectivo o cumprimento do voto feito a Nossa Senhora, consignado numa Procissão que aconteceu anualmente até 1920, sempre com a presença de todo o povo de Cascais.




O milagre de Nossa Senhora da Conceição dos Inocentes, perpectuado em Cascais através da singela presença do antigo templo, é marca perene da devoção ancestral dos Cascalenses à sacralidade primordial da Senhora da Conceição. Simbolicamente agregada aos arquétipos ancestrais da fertilidade, congregando em seu torno o papel de mãe e protectora que ilumina aqueles que têm Fé na sua mensagem, a ritualidade mística que envolve esta devoção é inquestionavelmente um dos alicerces principais da vivência sagrada da vila de Cascais.




Não se conhecendo com rigor a data de construção da capela, mas inferindo que o ano de 1609 que consta no cruzeiro construído ao seu lado poderá corresponder ao início da sua edificação, a Capela de Nossa Senhora da Conceição dos Inocentes, para onde se transferiu o culto religioso depois de o terramoto ter destruído quase por completo todas as restantes igrejas e capelas da vila, apresenta uma planta simples à qual foram adicionados, já em meados do Século XIX, os dois corpos laterais, em linha com aquilo que era a tradição mais antiga da religiosidade de raiz rural que proliferava junto da população.

Passando hoje bastante despercebida no caminho de veraneio para o paredão, a Capela de Nossa Senhora da Conceição dos Inocentes carrega consigo uma das principais memórias de Cascais e aquela que é a pedra basilar da Identidade Municipal dos Cascalenses. O milagre de Novembro de 1755, quando se passaram já 261 anos desde aquela manhã faídica, é a prova cabal da ligação dos Cascalenses ao poder da Fé e à inequívoca capacidade que sempre demonstraram ter de viver de forma assumida os valores e os princípios que nortearam o seu devir existencial.



quinta-feira

A (in) Dignidade da Morte em Cascais




por João Aníbal Henriques

A morte faz parte da vida e é um momento pelo qual todos os seres humanos estão condenados a passar. Apesar disso, é daqueles fenómenos que geralmente nos passa ao lado, que acontece aos outros e que procuramos manter a distância para nos defendermos da sua permanente proximidade… no momento em que a legalização da eutanásia em Portugal está na ordem do dia, vale a pena reflectir calmamente sobre as reais implicações da vida e da morte no nosso dia-a-dia.




Por iniciativa do bloco de esquerda, deu entrada na Assembleia da República uma petição solicitando a legalização da eutanásia. O documento, assinado por dezenas de pessoas e muitas individualidades com prestígio junto da sociedade Portuguesa, surge numa linha de defesa intransigente do denominado ‘direito à autodeterminação’ de cada um, e sustenta-se numa pretensa defesa da dignidade da morte e de combate ao sofrimento.

Para os defensores da eutanásia, o acto de matar alguém cujo prognóstico médico já não permite longevidade na duração da sua vida, é um acto de misericórdia para com o doente e ajuda a preservar a sua dignidade durante os seus últimos momentos de vida.

Mas a dignidade da vida não pode medir-se pela bitola do sofrimento. Pois se assim fosse, todos aqueles que por infortúnio da sorte sofrem durante a sua vida, seriam indignos também… E não são. O sofrimento, seja ele causado pela dor provocada por uma doença ou por um acidente, pela morte de alguém que nos é muito querido, pela perda do trabalho ou por qualquer outro motivo de entre tantos que infelizmente afectam a humanidade, é parte integrante da vida e deve ser vivido de forma digna até ao fim, sendo que cabe à sociedade encontrar respostas que permitem minorá-lo e resolver as causas que o provocaram. É esse o pilar principal da solidariedade que nos humaniza!

Na petição que solicita a legalização da eutanásia, defende-se que o combate ao sofrimento se faça através da morte. Mas, como bem refere a nota da Conferência Episcopal Portuguesa sobre a mesma eutanásia, “não se elimina o sofrimento com a morte: com a morte elimina-se a vida da pessoa que sofre”. E é completamente diferente o modo de fazer e o resultado destas práticas antagónicas. Compreender o sofrimento, conhecer as suas causas e debelá-lo de todas as maneiras possíveis, é uma obrigação da sociedade perante aqueles que sofrem. Matar, pura e simplesmente, aquele que sofre, é contornar a sua causa e provocar artificialmente uma resposta final, sem possibilidades de reversão, que acaba com o efeito mantendo aquilo que o causou.

Na História recente do Mundo, temos infelizmente muitos exemplos de gente que defendeu práticas semelhantes para resolver problemas idênticos. Na Alemanha dos anos 30 do século passado, a morte dos inaptos (por diversos motivos que os dirigentes e então identificaram como válidos), foi a solução encontrada para resolver os problemas. Consequência principal: à sombra da argumentação que defendia a morte assistida, morreram muitos milhões de inocentes com implicações psicossociais únicas na configuração da civilização em que hoje vivemos.

Dirão alguns que a comparação é excessiva. Dirão outros que no caso em apreço serão decisores médicos aqueles que, com critérios científicos, avalizarão a sua concretização. Mas não é assim. Nos países que já legalizaram a eutanásia, multiplicam-se os exemplos de situações em que o critério que presidiu à decisão da morte foi um conceito abstracto de “sofrimento intolerável”. Mataram-se pessoas que sofriam por estar vivas e já não desejavam continuar a viver; mataram-se pessoas com desgostos variados que as colocavam num sofrimento atroz; e até se mataram crianças que padeciam de doenças graves e que nem sequer foram elas a escolher!




E em todos esses casos, teria sido sempre possível defender a dignidade da vida, ajudando essas pessoas a encontrar novos caminhos, novas alternativas e a recuperar o sentido e o valor da sua vida. E nos casos de doença, seria também possível, com os conhecimentos médicos que hoje temos, garantir o controle da dor física e reforçar de forma humanizada a resposta aos padecimentos de outro género que aqueles pacientes estavam a viver.

Mas a eutanásia pressupõe uma solução mais rápida e limpa, em que a sociedade vira as costas de forma simples aqueles que estão a sofrer e em que ratifica o acto da morte como forma de resolver o problema.

E isso é indigno da nossa humanidade. É indigno do dom da vida e da condição civilizacional que actualmente ainda temos.




Para ajudar a aprofundar este tema, procurando dar um contributo sereno e humanizado para a discussão que agora começa, a Paróquia de Cascais recebeu recentemente Isabel Galriça Neto e Pedro Vaz Pato para uma conferência sobre e eutanásia que decorreu no Centro Cultural de Cascais. Com lotação esgotada, foram muitos aqueles que ouviram as explicações dos dois especialistas sobre as várias questões associadas a este problema e que perceberam as reais implicações que a eventual aprovação desta proposta virá trazer. 

Os argumentos, compilados na nota pastoral que a Conferência Episcopal Portuguesa agregou num documento sobre o que está em jogo na eutanásia (ver AQUI), são simples de compreender. Não se trata de questões ideológicas ou de convicções religiosas. Trata-se tão somente da defesa da dignidade da vida e da responsabilidade que perante ela todos nós temos.

Nota: Fotografias da conferência são propriedade da Paróquia de Cascais no Facebook

quarta-feira

As Igrejas e a Religiosidade de Cascais




por João Aníbal Henriques

A religiosidade ancestral de Cascais, visível através dos monumentos que contribuem para a face urbana da vila, é marcada por um conjunto de lendas e tradições que englobam resquícios de muitas épocas e vivências diferentes.

O Cristianismo, realidade nascente em Cascais logo nos dealbar da sua existência, é somente uma das faces de um edifício muito mais vasto do qual fazem parte os fundamentos do islamismo que tanta expressão teve neste território, e também de muitos outros credos e facções que corporizaram um impressionante espólio cultural que os Cascalenses, muitas vezes sem disso se aperceberem, acabam por integrar no seu dia-a-dia.

O culto a Nossa Senhora, por exemplo, espraia-se nas suas várias devoções, de que em Cascais temos expressão na Senhora da Conceição, Padroeira de Portugal, na Senhora dos Navegantes, na Senhora da Vitória, na Senhora da Assunção, na Senhora do Rosário, na Senhora de Fátima, etc. Mas na sua essência mais profunda, as raízes perdem-se nos tempos longínquos, anteriores ao nascimento da própria mãe de Jesus Cristo, tendo-se adaptado aos tempos e às vontades e perseverado no inconsciente das populações.




Na sua vertente urbana, é nas igrejas que encontramos os vestígios mais impositivos desta prática, sendo Cascais uma vila rica em património religioso.

A Igreja dos Navegantes é, de acordo com as mais abalizadas opiniões, o mais antigo templo existente actualmente em Cascais. Também denominada de Nossa Senhora dos Prazeres ou de São Pedro Gonçalves, é vulgarmente denominada como “Igreja dos Homens do Mar”, seus fundadores, pertencentes à irmandade dos marítimos de Cascais. A monumentalidade da obra, e as dificuldades inerentes à canonização de Frei Pedro Gonçalves, estiveram na origem de diversos factores que levaram ao imenso atraso da sua construção. As suas características arquitectónicas, mais até do que a documentação conhecida sobre o templo, indicam que foi reconstruída em 1729, embora as suas torres só tenham sido concluídas em 1942.




A Igreja da Misericórdia, situada em pleno coração da actual Vila de Cascais, é um edifício construído em 1777 sobre as ruínas de um templo anterior e que ruiu com o terramoto de 1755. As reutilizações de materiais anteriores, ainda hoje bem visíveis na estrutura do edifício, levam a que se pense que a origem ancestral da igreja anterior remonte aos idos de 1551, data da instituição de Misericórdia em Cascais. O facto de na Sacristia se encontrarem vestígios de uma antiga Capela de Santo André, parece indicar uma fundação mais antiga, ou talvez a uma remodelação ou ampliação que terá acontecido algures em meados do Século XVI.




A Ermida de Nossa Senhora da Conceição dos Inocentes, situada em local próximo da antiga Igreja da Ressurreição, foi erigida em 1634, conforme indica o cruzeiro colocado junto à sua entrada. O terramoto de 1755 marca profundamente o seu culto, uma vez que, segundo reza a lenda, a intercessão da padroeira terá estado na base de um grande milagre. Nesta ermida se refugiaram os habitantes de Cascais quando do terramoto, não tendo o edifício sofrido qualquer dano como consequência daquele catastrófico acontecimento, mesmo estando tão próximo do mar.

O Convento de Nossa Senhora da Piedade, eram sem sombra para dúvidas um dos mais importantes e emblemáticos edifícios da vila. Para além da sua monumentalidade, ainda hoje visível em vários pormenores que acabaram por ser integrados no processo de adaptação a casa de veraneio e posteriormente a centro cultural, era ali que existia o primeiro colégio de filosofia de Portugal, nele convergindo grande parte dos principais vultos da espiritualidade de então.

A capela que integra o edifício, e que é hoje utilizada como auditório, será datável do Século XVI, sendo contemporânea da construção do próprio convento. No entanto, e tal como este, a capela actual nada tem a ver com a antiga, quer em termos arquitectónicos, quer em termos da disposição do seu espaço. Do que lhe aconteceu naquela manhã fatídica do dia 1 de Novembro de 1755 sabemos, por intermédio de um dos seus frades que continuou a viver no meios das suas ruínas, “do que se proveita ficar o de Nª Srª. da Piedade com suas paremestras em alto, se todas estão inclinadas e fora dos prumos e as abóbadas da igreja e seu frontispício até à barra rendido, suas celas e oficinas abauladas e o claustro sem palmo de parede que não esteja caído?”.

A Ermida de Nossa Senhora da Guia, comummente datada do Século XVI, é atribuída à Ordem de São Francisco, não só porque pertencia a uma ordem de freiras, como também pela indicação fornecida pelo pároco da Freguesia da Ressurreição. Uma das suas lápides sepulcrais possui a data de 1577. Embora também tivesse sofrido bastante com o terramoto de 1755, perdendo grande parte da sua fachada e a grande escada mencionada pelo Padre Marçal da Sjlveira, é ainda possível encontrar por lá alguns vestígios da construção original.

O grande número de edifícios religiosos que existem no casco mais antigo de Cascais, aponta assim para o forte e arreigado sentimento religioso da população, provando também que existiam meios financeiros suficientes para a sua construção. A indústria das pescas, de acordo com as invocações que perduram nos seus interiores, terá sido a fonte desses meios, ainda que muitos deles se saiba que provieram de ordens religiosas, do Patriarcado de Lisboa e mesmo de alguns particulares.




A boa relação e interajuda existe entre os pescadores da vila e os frades das ordens religiosas aqui instaladas, está bem patente nas palavras do já mencionado Padre Marçal da Sjlveira, que nos diz que foram os frades quem ensinou aos pescadores da vila a secar e a conservar os seus peixes.

Sendo intemporal a importância deste património para o sustento da tão vilipendiada vocação turística municipal, o certo é que as igrejas, ermidas e capelas de Cascais são ainda hoje pedras basilares na formatação cultural e social desta terra. Eixos assumidos de uma religiosidade transversal a todas as épocas da História de Cascais, calcorrear estes edifícios representa um passo essencial na definição e na compreensão do que é ser Cascalense.

Culto e Ritualidade: A Arquitectura Religiosa de Cascais




por João Aníbal Henriques

A vivência religiosa de Cascais, sempre profundamente ligada à vida no mar e a todas as adversidades que dela resultam, é marcada de forma profusa pela construção de locais de culto e de momentos que salvaguardam a interdependência entre a componente humana e divina das populações. De grandes igrejas com muitos séculos, até às ermidas de diminutas dimensões que se escondem despretensiosamente por detrás das penedias, a arquitectura religiosa Cascalense carrega consigo segredos ancestrais que ajudam a perceber melhor a própria História de Portugal.




 Trajecto:

Comece o passeio na Estação de comboios de Cascais e desça a Travessa da Conceição em direcção ao mar. Vire à esquerda e passe o Hotel Albatroz encontrando a Capela de Nossa Senhora da Conceição à sua direita. Logo depois, sobranceiro à praia, está o crucifixo de Nossa Senhora da Conceição. Volte para trás e desça a Rua Frederico Arouca (antiga Rua Direita) virando na terceira travessa à esquerda até chegar ao Largo da Misericórdia. Contorne à igreja e desça a Rua da Saudade, virando à esquerda para a Rua Fernandes Thomaz e desfrutando da vista dos miradouros que vai passando. Desça a escadaria em direcção à Baía e atravesse a esplanada marítima junto à Praia dos Pescadores. Suba a Rua Marques Leal Pancada, situada à esquerda do edifício da Câmara Municipal, até ao Largo da Assunção. Contorne a igreja e siga para a Cidadela de Cascais através da porta situada no início da Avenida D. Carlos I. Saia da Cidadela em direcção à Avenida Rei Humberto II de Itália. Cerca de 30 metros depois encontrará à sua direita a Estátua do Papa João Paulo II e do outro lado da Rua o Centro Cultural de Cascais onde se situa a Capela de Nossa Senhora da Piedade. Siga essa mesma avenida em direcção a Sul e entre no portão do Parque Marechal Carmona situado à direita. A ermida fica à sua direita, logo depois da entrada e quase em frente ao museu. Atravesse o Parque Marechal Carmona e saia para o Largo Domingos d’Avillez, atravesse a Avenida da República e siga pela Avenida Vasco da Gama. Vire à direita na Avenida Emídio Navarro e siga até à Rua dos Navegantes. A Igreja encontra-se à sua direita. Contorne a igreja e siga pela Rua Latino Coelho em direcção a Sul até encontrar a Residencial Solar Dom Carlos. A Capela de Nossa Senhora da Nazaré está junto à residencial do seu lado esquerdo. 



01) Capela de Nossa Senhora da Conceição dos Inocentes

Construída por um voto formulado depois de um naufrágio ocorrido na Baía de Cascais em 1609, a ermida original foi alterada já no Século XIX quando lhe foram acrescentados os corpos laterais. Da sua história é de salientar o facto de ter escapado incólume ao terramoto de 1755 e de, por isso, se terem salvado todos os fiéis que lá estavam nesse momento a assistir à Missa. Depois desse episódio tornou-se num dos mais venerandos espaços religiosos de Cascais.




02) Crucifixo de Nossa Senhora da Conceição

Construído nas arribas junto à Praia da Conceição e ao lado da Capela de Nossa Senhora da Conceição dos Inocentes, este crucifixo marca o naufrágio acontecido nas águas da Baía de Cascais no ano de 1609. 



03) Igreja da Misericórdia

O edifício actual, do Século XVII, terá provavelmente substituído uma antiquíssima ermida consagrada pelos pescadores de Cascais. Tendo sido muito afectada pelo terramoto de 1755, foi reinaugurada em 1777 com a formulação especial que ainda apresenta. São de salientar as peças de arte sacra que apresenta. 



04) Igreja de Nossa Senhora da Assunção

É a Igreja Matriz de Cascais. Sendo muito antiga, e não se conhecendo com exactidão a sua origem, sabe-se que já existia no Século XVI. Com o terramoto de 1755 conheceu profunda ruína e as obras de recuperação deram-lhe a traça que hoje apresenta. É de salientar o importante espólio azulejar setecentista e as pinturas de Josefa d’Óbidos.




05) Capela de Nossa Senhora da Piedade

Estando actualmente desprovida de culto, a Capela de Nossa Senhora da Piedade fazia parte do antigo Convento de Nossa Senhora da Piedade, inaugurado em 1594 pelos Senhores de Cascais. Recuperada no Século XIX quando o Visconde da Gandarinha a integrou na sua casa de veraneio a Capela apresenta ainda hoje a formulação espacial original.




06) Estátua do Papa João Paulo II

Estátua evocativa da memória peregrina do Papa João Paulo II da autoria do escultor Alves André, inaugurada em 2010 pela Paróquia de Cascais. É hoje motivo de grande veneração, conhecendo um aumento exponencial do número de fiéis que a procuram. 




07) Ermida de São Sebastião

Datada provavelmente de 1628, conforme indicação do cruzeiro colocado à sua entrada, a Ermida de São Sebastião apresenta traça rústica em linha com a sua estrutura maneirista. Importantes, pelo impacto visual que produzem, são os painéis azulejares datáveis do Século XVIII com episódios da vida de São Sebastião.

 08) Capela de Nossa Senhora da Vitória

Construída dentro da Cidadela de Cascais, a capela de Nossa Senhora da Vitória data provavelmente da segunda metade do Século XVIII, de acordo com a data inscrita nos seus painéis de azulejos. A traça que apresenta, resultante das obras de recuperação promovidas depois do terramoto de 1755, é marcada pela sobriedade de estilo e pelo apelo estético do revestimento azulejar. Está ligada ao culto a Santo António depois de ali ter estado sedeado o Regimento XIX de Infantaria que lutou sob a égide do santo taumaturgo. 




09) Igreja dos Navegantes

Inaugurada em 1720 a actual Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes conheceu grande destruição durante o grande terramoto de 1755, tendo sido recuperada somente em meados do Século XX. Tendo substituído no mesmo lugar a antiga ermida dos pescadores, teve durante muitos anos a invocação de São Pedro Gonçalves. 



10) Capela de Nossa Senhora da Nazaré

Integrada no antigo Solar dos Falcões, a Capela de Nossa Senhora da Nazaré data da primeira metade do Século XVIII. Tendo escapado quase incólume à destruição imposta pelo grande terramoto de 1755, albergou durante muitos anos o culto da paróquia, enquanto decorriam as obras de recuperação da Igreja Paroquial. De traça simples, são de realçar os painéis de azulejos em tons de azul e branco típicos da época e a evocação à Senhora da Nazaré. 

(c) HENRIQUES, João Aníbal, Levantamento Exaustivo do Património Cascalense, Cascais, Fundação Cascais, 2000.







Relíquias de Dom Bosco Estiveram no Externato de Nossa Senhora da Assunção em Cascais



No âmbito da comemoração do bicentenário do nascimento de São João Bosco, fundador da Congregação Salesiana, as relíquias de Dom Bosco estiveram no Concelho de Cascais.

Numa visita profundamente marcante para os alunos, professores e pais das escolas Salesianas do Concelho de Cascais, as relíquias estiveram no Colégio Salesiano do Estoril, no Externato de Nossa Senhora da Assunção, no Externato de Nossa Senhora do Rosário e também na Casa de Maria Auxiliadora no Monte Estoril.

A recepção aos restos mortais de Dom Bosco, preparada a rigor por uma comunidade salesiana dinâmica e muito empenhada, assumiu redobrada importância numa altura em que a sociedade Portuguesa atravessa uma crise profunda e exige uma nova postura e uma nova maneira de enfrentar os desafios que o Mundo vai trazendo.

O exemplo de Dom Bosco, que há quase um século e meio deu origem à Comunidade Salesiana que hoje se encontra bem espalhada pelo Mundo, foi o mote que deu forma à visita, sublinhando-se a simplicidade da sua vida e o exemplo de entrega total e absoluta àqueles que mais necessitam.

Impactante, marcante e em muitos casos, profundamente emocionante, a chegada das relíquias de São João Bosco ao Externato de Nossa Senhora da Assunção, em Cascais, foi certamente um dos momentos mais importantes no percurso educativo das muitas crianças e jovens que actualmente ali preparam a sua vida sob a tutela do exemplo de vida de Dom Bosco.

Porque vale a pena sublinhar a actualidade desta mensagem...



terça-feira

Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes em Cascais


As memórias que ficam da Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes em Cascais neste ano de 2012. Foi um marco essencial na memória dos homens do mar e renova anualmente a sua Fé na intervenção de Nossa Senhora nas lides marítimas de Cascais.


sábado

Via Sacra Pascal na Paróquia de Nossa Senhora da Assunção em Cascais





Foram várias centenas os fiéis de Cascais que na noite de Sexta-feira Santa acompanharam a Via Sacra Organizada pela Paróquia de Cascais, pelos Escuteiros e pelos diversos Movimentos da Igreja.

Num exercício de grande profundidade simbólica e em moldes que há já muitos anos não se viam em Cascais, os paroquianos aderiram de uma forma extraordinária ao apelo do Padre Nuno Coelho, Prior de Cascais, dando mote a um momento de grande e fecunda partilha de Fé através das ruas da Vila.

Preparando desta forma o Domingo de Páscoa, e adivinhando desde logo a plenitude da Ressurreição de Jesus Cristo, Cascais deu uma vez mais provas da importância que a Igreja e os diversos movimentos paroquiais que dela dependem têm no fomento de uma vida onde os valores humanistas e Cristãos assumem um papel preponderante no dia-a-dia da comunidade.






domingo

A Devoção de Cascais a Nossa Senhora dos Navegantes





A ligação de Cascais ao mar, provavelmente tão antiga quanto a existência de vida humana neste território, tem o seu ponto mais alto na procissão anual dedicada a Nossa Senhora dos Navegantes.

Cumprindo a ancestral devoção dos pescadores de Cascais à sua padroeira, a procissão inicia-se na Vila e tem o seu momento mais significante quando os andores embarcam para um passeio marítimo engalanado com as cores garridas que os homens do mar utilizam para decorar os seus barcos. A meio percurso, quando a imagem da Senhora dos Navegante chega à Guia, é lançada a bênção ao mar, aos pescadores e ao povo de Cascais.

Esta tradição, imensamente significante para as gentes de Cascais, tem as suas raízes provavelmente no Século XV, quando a devoção a São Pedro Gonçalves é progressivamente substituída pela da Senhora dos Navegantes. Depois de muitos anos de concretização, foi a procissão interrompida em 1834, quando o liberalismo ditou o fim das Ordens religiosas, tendo sido retomada em Agosto de 1942 para comemorar a reconstrução dos torreões da Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes, no casco velho da Vila de Cascais, que tinham sido destruídos pelo terramoto de 1755.

Este ano, uma vez mais, a procissão saiu à rua acompanhada pelo Padre Nuno Coelho – Prior da Paróquia de Nossa Senhora da Assunção, por milhares de pessoas e pelas entidades oficiais do Concelho, cumprindo assim um ritual antigo que faz parte da Identidade Municipal.

Praticamente 650 anos depois de ter visto reconhecida a sua autonomia municipal, e de ter o seu foral vincadamente marcado pela necessidade de dotar os homens do mar com as condições necessárias ao cumprimento da sua tarefa essencial, Cascais reconhece de forma sentida a sua ligação perene ao mar, aos rituais que marcaram a vida dos seus avós e à devoção que deu força e alento à povoação para se impor no contexto Nacional.