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terça-feira

Villa Romana de Freiria em Cascais


Devolvida aos Cascalenses 2000 anos depois…




por João Aníbal Henriques

2000 anos depois de Titvs Cvriativs Rvfinvs ter chegado à Lusitânia oriundo de Roma e ter solicitado autorização aos Deuses Manes para se instalar no território que hoje pertence ao Município de Cascais, os vestígios que restam da sua enorme villa agro-senhorial foram finalmente devolvidos a Cascais e aos Cascalenses!

A Villa Romana de Freiria, localizada junto a Polima, na Freguesia de São Domingos de Rana, tem uma ocupação humana que se perde nas brumas do tempo. Utilizada provavelmente desde a Pré-História, mercê da sua localização privilegiada junto ao estuário do Rio Tejo e do carácter muito fértil das suas terras agrícolas, Freiria apresenta vestígios únicos que atestam os principais momentos da evolução civilizacional do Homem, e um conjunto de estruturas do período romano que são peças únicas da arqueologia mundial.




Entre os dois conjuntos termais, com águas quentes e frias, o espaço habitacional e de lazer profusamente decorado com mosaicos e irrigado com um complexo sistema de distribuição de águas avançadíssimo para o seu tempo, e as estruturas agrícolas de grandes dimensões e de uma qualidade construtiva sem par, a Villa Romana de Freiria possui um potencial cultural extraordinário que se cruza com o valor turístico que a vocação de Cascais não permite renegar.

Descoberta por Virgílio Correia no início do Século XX, a Villa Romana de Freiria foi escavada em dezenas de campanhas que se prolongaram ao longo de todo o século, num esforço hercúleo que permitiu recolher milhares de artefactos únicos e atestar de forma comprovada a imensa importância do local.



Desde meados do século passado, quando a expansão urbanística da região de Grande Lisboa determinou o alastramento absurdo da mancha habitacional e reformatou a matriz urbanística das periferias a partir do caos imposto pelas construções clandestinas, que Freiria foi sendo envolvida por centenas de construções desregradas que, para além de comprometerem a integridade do espaço, acabaram por influir de forma dramática na sua conservação e na possibilidade do seu usufruto por parte da população local.

Praticamente desconhecidas dos Cascalenses, as ruínas romanas foram sobrevivendo aos ataques sucessivos das últimas décadas através do enorme esforço da equipa de arqueólogos que foi acompanhando e estudando o local e que, através de estratagemas quase impensáveis, foram conseguindo esconder, tapar e guardar alguns dos mais importantes detalhes do espaço, salvando assim a sua integridade até à actualidade.




O poder político (ou melhor dizendo) os poderes políticos que sucessivamente foram tomando conta dos destinos de Cascais, demonstraram sempre uma incapacidade latente ao nível decisório, tendo sido todos eles incapazes de contribuir o que quer que seja para a salvaguarda e para o aproveitamento do potencial deste local.

No início dos anos 90 do século passado, quando a Freguesia de São Domingos de Rana cresceu de forma desmesurada e desregrada, a Villa Romana de Freiria foi literalmente engolida pela clandestinidade envolvente, havendo mesmo casas, oficinas e outro tipo de construções que utilizaram materiais das próprias ruínas para as suas próprias edificações. E quando foi apresentada a primeira proposta de um Plano de Pormenor que visava salvar o local, a inoperância política de quem mandava impediu a sua cabal concretização e manteve o cenário de abandono e de incúria até praticamente à actualidade.




As memórias de Titvus Cvriativs Rvfinus, o romano de cepa que chegou a Freiria no Século I d.C. pareciam estar destinadas a uma mera prateleira numa qualquer sala de museu, à medida em que o abandono do espaço incitava à presença dos caçadores de tesouros, dos curiosos e dos detectores de metais, iam esboroando aos poucos aquele que era um dos principais patrimónios de Cascais.

Mas nesta semana, num acto digno de louvor, a Câmara Municipal de Cascais terminou e inaugurou uma intervenção extraordinária no local.




Para além de vedar de forma total o espaço da villa romana, e de recriar um conjunto de passadiços em madeira que permitem percorrer todo o perímetro do monumento sem comprometer a estrutura arqueológica, a intervenção agora concretizada contempla a colocação de sinalética com a identificação dos principais motivos de interesse para quem o visita e, acima de tudo, informação clara e eficiente acerca do que se está a ver e a interpretar.

Com esta intervenção agora inaugurada, Freiria é finalmente devolvida aos Cascalenses, a Cascais e a Portugal, que agora passa a poder usufruir, a conhecer e a reconhecer uma peça ímpar na História deste local.

Desta maneira, mercê do circuito interpretativo, da salvaguarda da integridade do espaço, e do conforto para a visitação, a Villa Romana de Freiria transforma-se no cadinho que desde sempre deveria ter sido de potenciação cultural do local. E, ao invés do que muitos diziam quando há cerca de 20 anos se instalou a polémica acerca do estado de abandono do monumento, passou a ser também um dos principais motores qualificadores de todo o espaço envolvente, fomentando a identidade local e as potencialides turístico-culturais de Cascais e da Freguesia de São Domingos de Rana.




Com a inauguração do pólo universitário de Carcavelos, e a selagem recente do aterro de Trajouce, cria-se nesta zona um eixo de crescimento sustentado e de qualidade que não pode deixar ninguém indiferente. Todo o Vale da Ribeira da Lage, desde o Bairro do Pomar das Velhas até ao novo pólo universitário de Carcavelos, passa agora a ter condições para se destacar da paisagem inóspita da invasão clandestina que caracterizou o Cascais de outros tempos, traduzindo-se em elementos geradores de qualidade de vida para todos os Cascalenses.

Estão de parabéns as equipas de arqueólogos que desde há muitas décadas dedicaram o seu tempo a lutar pela preservação de Freiria. Estão de parabéns as equipas técnicas que idealizaram e concretizaram este importante programa de salvaguarda. E estão de parabéns, os decisores políticos que foram capazes de passar das palavras aos actos e de (finalmente) devolver a Cascais um dos valores maiores da sua culturalidade.




Ganhou Cascais. Ganharam os Cascalenses e ganhou Portugal.

quinta-feira

Cascais a Duas Velocidades

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A inauguração da A5, em 1991, modificou radicalmente os equilíbrios urbanos no Concelho de Cascais. O novo eixo viário, cortando longitudinalmente o território municipal, transformou-se numa barreira artificial que literalmente afastou o litoral do interior e produziu duas realidades distintas que desde há mais de 25 anos afectam a qualidade de vida de muitos Cascalenses.

A diferença entre o Cascais do interior e o do litoral é abissal. Depois da inauguração da auto-estrada, a gestão urbanística do território situado a Norte sofreu as consequências do afastamento físico provocado pela mesma e desenvolveu-se a partir de um modelo vivencial marcado pela proliferação das construções clandestinas e pela paulatina destruição dos antigos núcleos urbanos consolidados.

Aldeias como a Abóboda, Quenene, Polima, Trajouce, Tires ou Talaíde, foram completamente desvirtuadas, perdendo a Identidade arreigada que possuíam e desenvolvendo novos reequilíbrios profundamente marcados pela anomia social e por um cenário de caos que se espraiou na degradação da segurança, da mobilidade, da habitação, da saúde, da educação, do património e das demais áreas que se sabe que são indicadores essenciais para a qualidade de vida das populações.

A vocação turística municipal, que era o pilar sustentador do antigo PUCS (Plano de Urbanização da Costa do Sol), foi substituída em 1997 pelo primeiro PDM (Plano Director Municipal), que assumiu a legalização a todo o custo como principal prioridade municipal. E desta maneira, com fundamento legal e suporte político dos partidos que desde então governaram Cascais, praticamente 1/3 do território concelhio foi absorvido pelo desregramento urbano e fez colapsar os últimos resquícios da cidadania Cascalense.

Esquecido por todos ao longo deste tempo, e vivendo numa espécie de clima brando de auto-gestão, o interior de Cascais passou a viver em ciclos de quatro anos. Esquecido pelo poder político durante a maior parte do tempo, era literalmente invadido pelos diversos partidos em época eleitoral, numa lógica de propaganda que ciclicamente o enchia de novas passadeiras, bancos de jardim, semáforos e novos arruamentos, bem como de festas e foguetes para comemorar o sempre propagado “interesse extraordinário pelo interior de Cascais”.


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Com a aprovação do novo PDM em 2015 (Ver AQUI), perdeu-se a grande oportunidade da década para inverter esta situação. Ao invés do que seria de esperar, o novo plano não assume a bipolaridade territorial e, por isso, não projecta uma nova dinâmica que permitiria ir progressivamente invertendo esta dramática situação.

E que fácil seria fazê-lo! Até porque, tal como acontece no litoral, o interior é um espaço  riquíssimo de potencialidades que a generalidade dos Cascalenses desconhece. Do património à paisagem, passando pelo que resta da identidade rural desses espaços antigos e pela pujança empreendedora das suas novas populações, a zona Norte do território Cascalenses possui todas as condições que lhe permitiriam requalificar-se e garantir a todos os cidadãos os mesmos parâmetros de qualidade que algumas zonas mais privilegiadas já têm.

A nível das acessibilidades, seria essencial que existisse um verdadeiro plano municipal de mobilidade. Sem a propaganda política que distorce a realidade, exigir-se-ia que fossem criados verdadeiros corredores cicláveis entre as duas partes, complementando uma rede real de transportes que assumisse a componente de serviço público da sua função, e reaproximasse os munícipes.

Os eixos verdes das ribeiras que transversalmente cruzam o concelho, desde a Ribeira dos Mochos até à Ribeira da Laje, são canais naturais que estão adaptados à situação imposta pela A5 e que, até por isso, poderiam ser rentabilizados de forma integrada num plano municipal que abrangesse as duas realidades de Cascais. No caso da Ribeira das Vinhas, por exemplo, o eixo verde que acompanha o leito é transitável desde o coração da vila até à Barragem do Rio da Mula (Ver AQUI e AQUI), configurando uma verdadeira preciosidade na reformatação social das localidades por onde vai passando.

Ao nível da gestão urbana, seria essencial um recentrar das prioridades de investimento no interior, assumindo uma intervenção de fundo que efectivamente transformasse as legalizações forçadas dos antigos bairros clandestinos em acções verdadeiras de requalificação, aproximando paulatinamente os índices de qualidade urbana de ambas as partes do concelho. Os núcleos patrimoniais mais importantes como FreiriaAlapraiaAlto do Cidreira, ou os Casais Velhos, deveriam ser transformados em fulcro desse investimento, consubstanciando uma política que recuperasse efectivamente a qualidade urbana e que, ao mesmo tempo, promovesse a memória colectiva e a Identidade Municipal.

Como é evidente, uma intervenção nesta linha, que esbatesse a diferenciação negativa que afecta a territorialidade de Cascais, seria um projecto de longa duração. E, por isso, é incompatível com os ciclos eleitorais autárquicos que de quatro em quatro anos subvertem a realidade e impõem interesses terceiros aos interesses legítimos e Cascais e dos Cascalenses.

Mas, num ano em que o céu de Cascais será riscado em permanência pela magia dos foguetes e o ar se vai encher do ribombar dos tambores que acompanharão as muitas festas que se vão fazer, vale a pena apresentar uma vez mais a sugestão, porque dela depende o futuro desta Nossa Terra.

quarta-feira

A Igreja de São Domingos de Rana




por João Aníbal Henriques

Profundamente ligada ao trabalho da pedra, numa zona do Concelho de Cascais onde as pedreiras e os ofícios de cantaria assumiam especial importância, a Igreja de São Domingos de Rana é um dos mais importantes imóveis históricos que fazem parte do Património Cascalense.

Sem se conhecer a data da sua fundação, nem tão pouco se a antecedeu qualquer outra espécie de espaço de culto ou edifício sagrada que tenha anteriormente ocupado o alto da colina onde se ergue este templo, remete para a lenda e para as tradições orais as principais indicações que nos permitem compreender o imóvel no contexto da religiosidade rural do interior do Concelho de Cascais.





Reza a lenda que, algures durante a Idade Média, os trabalhadores que tiravam pedra das muitas pedreiras existentes nesta zona, viam amiúde a figura de São Domingos de Gusmão passeando reiteradamente por aquela zona. O santo, historicamente nascido em Castela em Junho de 1170 e que foi fundador da Ordem dos Pregadores, mais tarde conhecidos como Dominicanos, está ligado de forma directa aos rituais de despojamento que determinam a essência sagrada do culto Cristão em Portugal.




Depois de ter viajado ainda muito novo até à Dinamarca para participar no acto solene de trazer para a Península Ibérica a noiva Escandinava do Príncipe de Castela, São Domingos terá ficado profundamente impressionado com a falta de conhecimentos que aqueles povos teriam de Cristo e da sua doutrina. Nasce-lhe assim, num acto de inspiração que muda vida até à actualidade, a ideia de criar uma ordem cujo objectivo essencial seria o de evangelizar esses territórios, conquistando Almas novas para o orfeão Cristão. As dificuldades, no entanto, associadas a várias experiências que o ajudaram a despertar os sentidos e a clarividência, mostraram-lhe que o Ser Humano não é naturalmente bom nem tem uma natural propensão para a bondade. Pelo contrário! O apelo do mal e da maldade, reconhecido nos mais mesquinhos apontamentos da vida de cada comunidade, mostraram a São Domingos que o único caminho possível em direcção ao Céu e a Deus, era o da abdicação total e absoluta à mundanidade e à materialidade da vida corrente, como forma de propiciar a libertação do anjo sagrado que o Santo considerava que existia dentro de cada um e que se mantinha subjugado pelas tentações carnais do mundo e da sociedade.

Domingos de Gusmão, com influência existencial marcada pelo ideário cátaro, liberta-se assim das pulsões da natureza e determina uma ordem na qual o afastamento do mundo e das coisas é a regra principal. A Ordem de São Domingos, mendicante de origem, é assim o repositório mais profundo da ancestralidade mística de Portugal, num plano de existência na qual a iluminação advém directamente da capacidade de libertar o espírito do que da compilação da doutrina conventual.




A propensão para locais recônditos e remotos, dos quais fosse possível obter uma visão periférica e exterior do mundo, surge em sequência com a escolha lendária do local onde havia de vir a ser erguida a Igreja de São Domingos de Rana. No cimo da colina de Rana, da qual é possível abarcar uma paisagem que se estende por terra e pelo mar ao longos de muitos quilómetros de distância, a actual igreja motiva o eremita a uma comunhão directa com Deus através de um esforço de contemplação do qual não está alheada a entrega total e absoluta aos ideias de despojamento que serão sempre apanágios das mais iluminadas e marcantes figuras da História de Portugal.

Em termo históricos, a Igreja de São Domingos que hoje temos é o produto dos restos da antiga igreja construída no início do Século XVIII e que foi amplamente destruída pelo terramoto de 1755. Há, no entanto, notícia, de que antes dessa data, já em meados do Século XVI, ali existia um templo Cristão, cujas origens documentais se desconhecem.

A qualidade dos materiais da igreja, até por ser esta uma terra de canteiros e de pedreiras florescentes, dão corpo a um dos mais importantes monumentos do Concelho de Cascais. A sua fachada, altivamente erguida com vista para Sul e para o Estuário do Rio Tejo, denotada uma riqueza arquitectural que destoa da pobreza tradicional das povoações da envolvente. As suas duas torres sineiras, uma das quais ostentando um vetusto relógio de Sol, enquadram-se nos padrões construtivos que deram o mote à reconstrução do concelho nos finais do Século XVIII e início do Século XIX; apresentando um porte altivo que contrasta com a singeleza do seu interior.




Em termos territoriais e devido à posição estratégica que ocupa perante o território que a envolve, a Igreja de São Domingos de Rana foi sempre referência essencial para a navegação, servindo de guia para as entradas e saídas da Barra do Tejo.

Concretizando na solidez do seu porte a Fé dos habitantes de São Domingos de Rana, a igreja de São Domingos é um dos mais interessantes atestados do poder que a devoção tem na formação das comunidades locais, tendo sido ela o principal factor determinante da criação da própria localidade que a envolve.

segunda-feira

Nossa Senhora da Conceição da Abóboda em Cascais




por João Aníbal Henriques

O dogma da Imaculada Conceição faz parte dos mais ancestrais arquétipos da Portugalidade. Praticamente desde a fundação da nacionalidade, provavelmente recuperando laivos de Fé que nos chegam desde o princípio dos tempos, que a Senhora da Conceição está directamente ligada aos mais importantes acontecimentos que regem a História de Portugal.




Em termos oficiais, foi no dia 8 de Dezembro de 1325, a pedido da Rainha Santa Isabel e por proposta do Bispo Dom Raimundo de Coimbra, que Nossa Senhora da Conceição foi decretada Padroeira de Portugal. Anos mais tarde, depois da Restauração da Independência Nacional, o Rei Dom João IV consagrou Portugal a Nossa Senhora da Conceição, sendo que desde essa altura, num reconhecimento perene à sua intervenção relativamente ao destino de Portugal, nenhum monarca Português voltou a usar a Coroa, colocada na imagem venerada em Vila Viçosa.

Também em 1385, na chegada ao trono da Dinastia de Avis, é Nossa Senhora da Conceição que corporiza a devoção principal de Portugal. Dom João I, Mestre de Avis, bem como o seu braço direito, o Condestável D. Nun’Álvares Pereira, dedicam a Nossa Senhora as suas vitórias e consagram-lhe o País numa profunda devoção. O Mosteiro de Santa Maria da Batalha, por um lado, e o Convento do Carmo, por outro, utilizam como sustentáculo de Fé precisamente o despojamento total relativamente à materialidade e uma entrega plena à Divindade. O Condestável, do alto do imenso poder político e económico que havia conquistado, entrega mesmo a sua vida, os seus bens e a sua própria identidade a Nossa Senhora, tendo morrido como simples Frei Nuno de Santa Maria, num exercício de despojamento total que representa a consagração profunda de Portugal ao seu novo estado.




Em Cascais, são vários os espaços de culto dedicados a Nossa Senhora da Conceição e geralmente relacionados com espaços de raiz rural, nos quais a memória colectiva preserva lembranças de antigos milagres onde a principal marca é a transmutação da matéria. Numa abordagem eminentemente alquímica relacionada com a importância de Nossa Senhora na defesa dos mais pobres e dos mais desesperados, numa linha que entronca nos milagres atribuídos à Rainha Santa, simultaneamente mulher do Rei Dom Dinis e zeladora dos interesses (leia-se conhecimentos) templários preservados em Portugal através da Ordem de Cristo, Nossa Senhora da Conceição intervêm directamente junto da comunidade Cascalense, interferindo positivamente no seu quotidiano e provocando alterações profundas na prática religiosa desta Nossa Terra.

Na localidade da Conceição da Abóboda, junto a Polima, na Freguesia de São Domingos de Rana, Nossa Senhora apareceu a uma pobre e esfomeada pastora que por ali andava a tomar conta do seu rebanho. Pedindo-lhe que se dirigisse à vizinha localidade de Freiria, enquanto ela própria zelava pelos animais do rebanho, Nossa Senhora indicou à pastora um forno de pão ao qual se deveria dirigir para pedir alimento. Ali chegada, a pastorinha explicou à forneira que a Senhora lhe tinha aparecido e pedido que colocasse para si um pouco de pão no forno. Esta, zombeteira e não acreditando na criança, põe no forno uma bola minúscula de massa que, depois de cozer se transforma num enorme pão. Não o querendo entregar, repete a operação com uma quantidade de massa ainda mais reduzida, mas o fenómeno volta a repetir-se de igual maneira. E numa terceira tentativa, colocando no forno uma míseras migalhas de farinha que dão origem ao maior pão jamais cozido naquele forno, a padeira apercebe-se da estranheza do que estava a acontecer e convence-se de que fora efectivamente a Senhora da Conceição que ali estava a intervir.

Simultaneamente, perto do local onde havia ficado o rebanho, um fidalgo local andava a caçar lebres. Um acidente, no entanto, fez com que a sua espingarda tivesse rebentado com um tiro mas, milagrosamente, sem lhe provocar qualquer espécie de ferimento. Tentando perceber o que se passava, o senhor encontra a pastorinha e a forneira que lhe contam o que se havia passado, tendo ele mandado erguer uma pequena ermida no local onde aparecera Nossa Senhora, como agradecimento pela sua intervenção miraculosa no acidente que sofreu.




A Capela de Nossa Senhora da Conceição da Abóboda é, assim, um testemunho físico extraordinário da ligação precoce que o povo de Cascais tem à Padroeira de Portugal, numa expressão de singeleza profunda que segue em linha com o apelo ao despojamento que o culto mariano expressa na sua origem sagrada.

De linhas simples e com elementos decorativos de índole profundamente rural, a capela apresenta uma só nave, onde sobressai a pedra tumular datada de 1579 mandada construir por Frei Gonçalo de Azevedo e o remate do arco de acesso ao Altar no qual se podem ver as cruzes da Ordem de Malta, à qual pertencia o frade fundador. No corpo da capela, merece especial destaque a imagem de Nossa Senhora do Ó, de origem desconhecida mas certamente de origem ainda medieval, entroncando no culto provavelmente pré-Cristão que evolui até chegar precisamente à Senhora da Conceição.




A singeleza da velhinha Capela de Nossa Senhora da Conceição da Abóboda contrasta de forma extraordinária com a grandeza do significado profundo que ela agrega e, sobretudo, com a sua importância na definição da Identidade Cascalense. Assumindo que a própria Nacionalidade depende das bases de sustentação ao nível da cultura e da espiritualidade, facilmente se percebe que a Capela da Abóboda é peça essencial do património municipal de Cascais.

Deve ser conhecida, reconhecido e valorizada.

A bem de Cascais!

O Milagre de Cascais




Foi com emoção à flor da pele que um grupo de várias dezenas de Cascalenses acompanhou o Movimento SerCascais no passeio "O Milagre de Cascais", guiado por João Aníbal Henriques a pedido da AMUCA - Associação de Moradores da Urbanização das Casas do Adro. O passeio, que levou os participantes numa viagem no tempo, estendeu-se entre a povoação de Outeiro de Polima e da Conceição da Abóboda, em São Domingos de Rana, mostrando a Villa Romana de Freiria e as muitas estórias que dão forma à História de Cascais. No fim, foi a líder do SerCascais, Isabel Magalhães, quem deu forma ao "milagre", explicando que do empenho de todos depende o futuro do Concelho. Isabel Magalhães é candidata independente à presidência da Câmara Municipal de Cascais. 








quarta-feira

A Villa Romana de Freiria e as Tristes Memórias Históricas de Cascais




Classificada como Imóvel de Interesse Público desde o dia 19 de Junho de 1997, através da Resolução do Conselho de Ministros nº 96/1997, a Villa Romana de Freiria  é uma das mais preciosas peças do património histórico Cascalense.

Situada entre as povoações de Polima e Outeiro de Polima, na Freguesia de São Domingos de Rana, a Villa Romana de Freiria é um dos mais emblemáticos exemplares deste tipo de ocupação em todo o Mundo Romano.

Datada dos Iºs e IIºs Séculos da Era Comum, Freiria teve ocupação comprovada pelo menos desde o Calcolítico, visíveis as peças do Período Campaniforme e, sobretudo, da Idade do Bronze que ali foram encontradas. A existência de um povoado amuralhado numa dessas épocas, atestado por diversos achados avulso, aponta para uma ocupação intensiva e de grande continuidade, facto que determina a qualidade extrema dos objectos cerâmicos ali encontrados. De acordo com os arqueólogos responsáveis pelo estudo do povoado, Guilherme Cardoso e José d’Encarnação, a qualidade dessas peças denuncia uma ligação comercial aos centros onde elas eram produzidas: “Salienta-se a excelente qualidade das peças estudadas, demonstrando-se que nos encontramos perante uma população que está, efectivamente, em contacto com os melhores centros produtores de determinados objectos, mormente no que concerne aos objectos de adorno encontrados (fecho de cinturão, fíbulas, contas de colar...)”.

Já no período de ocupação romana, a Villa terá pertencido a T(itus) Curiatius Rufinus, tendo em conta a inscrição patente na sua lápide funerária dedicada à divindade pré-romana Tribunnis.

A principal peça deste período, um quadrante solar datável dos primeiros séculos da Era Cristã, complementa o enquadramento facultado pela existência de um celeiro que, a todos os níveis, só encontra paralelo num outro situado na Cidade Espanhola de Cáceres e que se encontra associado a um moinho. Para além destes, existe ainda uma domus de características excepcionais, composta por um Peristilo e Impluvium circundado de "espelhos de água" e o envolvente corredor provido de colunas. De salientar são ainda os pavimentos em mosaicos policromos que revestiam algumas da habitações e que, mercê do estado geral de abandono e incúria em que se encontra o monumento, estão agora espalhados por todo o recinto.

Na parte rural, e para além do celeiro e do moinho, existem ainda vestígios de um antigo cemitério, com área própria para incineração dos cadáveres, um complexo de termas, com banhos quentes e frios, um lagar e um forno de cozer pão. Para além disto, foi ainda encontrado um enorme conjunto de telhas que os arqueólogos consideram ter feito parte de uma estrutura coberta que ligaria as diversas partes que compõem a Villa Romana.

Nos dias que correm, e em que Cascais necessita avidamente de se afirmar no contexto de uma Europa ávida de memórias, é particularmente preocupante assistir de forma impávida à degradação galopante que tomou conta deste monumento. Em primeiro lugar porque sendo um Imóvel de Interesse Público, reconhecido pelo Estado e classificado oficialmente, deveria ser alvo de medidas concretas de protecção que salvaguardassem o seu valor e a sua importância para o conhecimento da História e da Identidade deste recanto de Portugal. Depois porque, num Concelho como o de Cascais em que a vocação é o turismo de qualidade, o potencial desta estação arqueológica se perde por completo pelo estado generalizado de evidente desconsideração a que foi votado pela Autarquia.

O desinteresse pela cultura, pela História e pelas memórias, agrava-se em Freiria pelo desrespeito que tal situação representa perante o trabalho dos arqueólogos que escavaram e estudaram este monumento, e principalmente pela dedicação de Guilherme Cardoso, que ali literalmente deixaram o seu suor, trabalho, dedicação e empenho em prol da recuperação da memória da nossa terra.

É uma pena que existam outros interesses, bem visíveis em Freiria e nos bairros clandestinos que legalmente vão envolvendo o monumento, que se vão sobrepondo aos interesses de Cascais e dos Cascalenses…






sexta-feira

As Aldeias Rurais e o Futuro de Cascais





Apesar de serem poucos aqueles que as conhecem, as aldeias de génese rural existentes no Concelho de Cascais possuem um potencial turístico e cultural incontornável. A degradação paulatina de que têm sido alvo é completamente descabida num espaço que pretende ver sedimentada a denominada “vocação turística”, e a sua recuperação exige uma intervenção imediata e consequente. A sua atractividade, no contexto de uma urbanidade que tem vindo a perder a identidade cultural, é essencial para que Cascais possa readquirir a qualidade de vida de outros tempos.

Já vão muito longe os tempos em que se consideravam os resquícios da ruralidade portuguesa como exemplos malditos de uma actuação política que se dizia que tinha feito estagnar o País. Hoje, sobretudo nos países mais desenvolvidos, o que ainda resta de uma existência ruralizante e tradicional é aproveitado e rentabilizado turística e culturalmente.

A raiz cultural do nosso País, marcada de forma eminente pelo cunho de um tradicionalismo ligado aos trabalhos do mar e da agricultura, não pode alhear-se dessa realidade.

Contrariamente ao que parece mostrar a intervenção das entidades oficiais ligadas às Autarquias e às instituições governamentais com responsabilidades na área do Ordenamento do Território, da Cultura e do Turismo, o reconhecimento, a recuperação e a promoção dos resquícios da nossa identidade rural são actividades fundamentais para a criação de uma oferta turística que permita a Portugal enfrentar com dignidade os desafios novos que lhe surgirão ao longo dos próximos tempos.

De facto, impedido de produzir em termos agrícolas, incapaz de produzir industrialmente, e marcado em permanência pelo jugo implacável do desemprego, restam poucas saídas para que Portugal possa sustentar-se económica e financeiramente de forma condigna. O sector do turismo, principalmente num Concelho como o de Cascais, transformou-se no fulcro de todo o desenvolvimento, dele dependendo o comércio, os serviços e mesmo a gestão urbana do território.

Aldeias antigas como as da Charneca, Birre, Areia, Torre, Malveira da Serra, Janes, Zambujeiro, Atrozela, Alcabideche, Cabreiro, Murches, Livramento, Adroana, Pau Gordo, Galiza, Murtal, Caparide, Zambujal, Tires, Mato Cheirinhos, Trajouce, Conceição da Abóboda, Polima, Rana ou Rebelva, são apenas alguns exemplos de povoações que possuem ainda bem vivas as memórias de uma ruralidade que alicerçou toda a nossa História municipal. Possuem também, ainda com elevado potencial turístico que se encontra em risco eminente de desaparecer, restos únicos de habitações, fontes, chafarizes, portais, moinhos, fornos de pão e de cal, para além de um enorme manancial de lendas e de histórias locais, que noutros países e concelhos são atractivo turístico essencial e incontornável.

Em Cascais, perdidos nas faldas confusas de um alárvico e permanente apelo às novas construções, os resquícios existentes desta ruralidade perdida estão votados ao abandono e ao esquecimento. Exemplares únicos de casais saloios e rurais, com estruturas construtivas integráveis naquilo que é costume designar como “arquitectura chã”, vão sendo substituídos por prédios de concepção duvidosa e de assumida negação da tradicionalidade local.

Com o desaparecimento destes vestígios, e com a consequente fragilização da nossa Identidade Municipal, fica também posta em causa a vocação turística de Cascais e a possibilidade de voltarmos a ser o destino de excepção de outros tempos.

O turista moderno, culto e bem preparado, já não quer chegar a Cascais para passar cinco ou seis dias estirado ao sol. Hoje, numa lógica de bem-estar social e cultural, o ambiente envolvente, a tradicionalidade, o tipicismo, e a aprendizagem social, são partes importantes na promoção turística dos destinos europeus.

O Concelho de Cascais, apesar de todas as vicissitudes por que tem passado, possui as condições necessárias para encetar os esforços que tornarão possível este desiderato, sempre na certeza de que apostar na tradicionalidade daquilo que resta das nossas aldeias rurais, é garantir o futuro do turismo, do comércio e dos serviços, e o emprego e a estabilidade social dos munícipes cascalenses.

Nas aldeias rurais cascalenses, mais do que num sol e numa praia totalmente envolvidos em betão, reside grande parte do potencial que alicerçará a nossa vocação, oferecendo a todos um futuro socialmente saudável e economicamente sustentado.