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segunda-feira

Piódão - Um Segredo Bem Guardado de Portugal



por João Aníbal Henriques

Apesar de não ser muito antiga, a aldeia de Piódão, no Concelho de Arganil, é um dos mais preciosos e extraordinários segredos que esconde Portugal, dando forma a um encantamento que não se alheia da cor escura do xisto, misturado com a brancura da cal e com o azul das portas…

Dedicada a Nossa Senhora da Conceição, padroeira da pequena Igreja Matriz muito branca, construída no Século XVII em estilo neobarroco que contrasta de forma evidente com a cor escura do resto do povoado, a aldeia assume a sua dependência relativamente aos constrangimentos da natureza que a moldaram.

O isolamento extremo em que se encontra, que ainda hoje marca de forma brutal o dia-a-dia de quem ali vive, condicionou de forma evidente a sua História, já que o povoado actual, de origem bastante recente, resultou do abandono, provavelmente devido ao muito calor que se fazia sentir no local original, da antiquíssima aldeia de “Casall de Piódam” onde tudo começou.

Dizem os locais que esse calor que fazia aumentar o número de colónias de formigas o que punha em causa a produção de mel, facto que surge associado à inacessibilidade da aldeia original e que determinou o abandono do povoado inicial e a reinstalação da comunidade no ponto onde hoje a encontramos.

Ligada também à instalação de uma Abadia da Ordem de São Bernardo, Piódão foi local sempre escolhido para refúgio e introspecção, tal como o denota o facto de ter sido ali que se esconderam os assassinos de D. Inês de Castro, que deram origem às mais importantes famílias do local.

Depois do caminho difícil que ali nos leva, é impossível conter uma expressão de admiração quando nos deparamos  com a beleza extraordinária deste recanto encantado de Portugal!














quinta-feira

Religiosidade e Sacralidade em Cascais




A vida religiosa de Cascais, profundamente marcada pela dicotomia existente entre um litoral vincado pela actividade piscatória e um interior onde a agricultura se afigura como a principal actividade dos munícipes, caracteriza-se por uma incomparável riqueza em termos patrimoniais e, sobretudo, em termos dos usos e costumes centenários que se mantêm vivos nos arquétipos culturais da população.

A ligação sempre perene que Cascais estabelece com o passado, determinante em algumas das suas mais importantes áreas de intervenção, permite às diferentes gerações que ocuparam este espaço a partilha de rituais e de cultos, os quais se vão misturando, num processo serôdio e complicado, até renasceram numa forma nova, que obriga à criação de estruturas próprias para os abrigar.

Da pré-história até à actualidade, muitos são os vestígios desta ritualidade cascalense, visível não só através dos monumentos e edifícios Cristãos, como também na expressão artística e cultural daqueles que aqui habitam. Em grande parte dos casos, mesmo nas expressões mais recentes dessa religiosidade, é fácil sentir no que hoje se constrói, a marca omnipresente do que já ali havia existido, facto que garante a Cascais uma posição única no vasto emaranhado de cultos e crenças saloias e piscatórias que caracterizam desde sempre a ecuménica e recentemente cosmopolita Península de Lisboa.

Iniciando-se na Vila de Cascais, onde podemos encontrar alguns dos mais representativos exemplares da arquitectura religiosa do Concelho, o presente roteiro sugere uma passagem demorada pelas formulações mais humildes da construção religiosa de bases rurais. A Capela de São Brás, na Areia, construído num espaço muito próximo da Capela de São José, na Quinta da Bicuda, define a sua orientação em função do passado, recriando uma ponte de ligação cultualística que o presente se encarregou de fomentar.

A viagem continua, mantendo em permanência o rumo rural do Concelho, através das antigas aldeias de Murches, Malveira-da-Serra, Manique e Alcoitão, onde o visitante encontra alguns dos exemplares mais interessantes nos quais a arquitectura de base chã se vai misturando com expressões mais eruditas e conservadoras.

A religiosidade de cariz particular, com o culto privado a marcar presença nas vetustas quintas dos grandes produtores de outrora, é caracterizada pela sua permanente abertura à sociedade. De facto, e ao contrário do que é normal acontecer noutras regiões do País, as capelas privadas de Cascais foram sempre espaços de partilha, nos quais a condição social ou a profissão se esbatia em prol de uma mistura na qual a Igreja desempenhava papel fundamental e preponderante.

Antes de terminar, o visitante deverá observar com atenção os importantíssimos exemplares de artes sacra contidos em alguns destes espaços, os quais se combinam com interessantes e milenares lendas populares, nas quais o imaginário cultual de outrora se mistura com a expressão tradicionalista do catolicismo actual.

A Conquista do Alentejo





“Conquista el Alentejo” é o mote da nova campanha promocional que a Agência Regional de Promoção Turística do Alentejo lançou para este Verão.

Dirigida exclusivamente ao mercado Espanhol, grande gerador de visitantes àquela região Portuguesa, a campanha agora em curso espalhou material promocional, outdoors e muitos outros suportes comunicacionais em várias regiões Espanholas, sublinhando a “disponibilidade” de Portugal para “ser conquistado”. A somar à tal pretensa “disponibilidade”, o Turismo do Alentejo oferece ainda uma série de regalias e benefícios a todos os Espanhóis que aceitem o repto e venham “conquistar o Alentejo”… E como se não chegasse o desregrado apelo, os materiais promocionais criados sobre imagens desta extraordinária região Portuguesa foram montadas em estúdio mostrando bandeiras do País vizinho a marcar a nossa paisagem.

Não existem adjectivos nem palavras adequados para descrever esta iniciativa. Utilizando palavras do Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho, a campanha em curso representa um autêntico “murro no estômago” para os interesses do Alentejo e de Portugal, sendo uma afronta aos Alentejanos de hoje e a todos aqueles que, durante quase nove séculos, deram a sua vida e o seu sangue para salvarem a soberania Nacional e para manter o Alentejo dentro das fronteiras de Portugal.

Dir-se-á que os benefícios económicos da iniciativa são muitos e grandes. Duvido bastante e no final do Verão, quando compararmos os números de visitas que chegaram ao Alentejo em 2011 com os dos anos transactos, depressa perceberemos que o impacto foi nulo. Mas mesmo que fossem substanciais as mudanças e que existisse um incrível aumento no número de visitantes espanhóis ao Alentejo, existem valores, princípios e símbolos que não podem ser postos em causa. Chega a ser embaraçante olhar para estes cartazes.

Pensar de outra forma é trair Portugal. Pensar de outra forma é desrespeitar profundamente o significado profundo de uma Nação quase milenar. Promover esta campanha é um acto que lesa os interesses de Portugal, anulando o valor, o carácter único e irrepetível e as potencialidades extraordinárias que caracterizam o turismo Alentejano.


quarta-feira

A Estação Arqueológica do Castro da Cola




Recuam ao Século XVI as primeiras referências literárias ao Castro da Cola, importante estação arqueológica situada a escassos doze quilómetros de Ourique, no Alentejo. André de Resende, conhecido humanista eborense dessa época, esteve naquele local no ano da graça de 1573, sendo que dois séculos depois terá sido seguido nesse acto por Frei Manuel do Cenáculo, que ali efectuou um primeiro estudo topográfico.

Segundo Joaquim Figueira Mestre, o Castro da Cola ocupou desde sempre o imaginário das gentes da região: “ (…) existindo lendas de tesouros e mouras encantadas na sua tradição oral. O Castro da Cola chegou assim até nós mitificado e envolto numa auréola de mistério”.

Em termos concretos, o Castro de Nossa Senhora da Cola teve uma ocupação que vai desde o período Neolítico até ao reinado do Rei Dom Afonso III sem que, no entanto, tenham deixado de existir certos hiatos de tempos nessa ocupação.

Durante a época muçulmana, o Castro da Cola mais não era do que um pequeno povoado fortificado, possuindo na sua base as componentes de uma economia agro-pastoril, baseada não só nos interesses e nas disponibilidades dos povos de então, mas também nas potencialidades naturais da região.

O período do seu apogeu, ao que parece, deu-se no dealbar na Nacionalidade, assistindo-se nesse período à construção de diversas edificações no interior do povoado. Segundo Abel Viana, são dessa época os grosseiros pavimentos de “pequenas e mesquinhas habitações”, de que precedem a maior parte dos vestígios ali encontrados.

A destruição e abandono do local, mais do que às vicissitudes do tempo, ficou a dever-se sobretudo às diversas violações impostas ao monumento ao longo da sua longuíssima História e principalmente durante os primeiros anos do Século XX. Segundo consta em relatos dessa altura, existia na Aldeia de Palheiros um grupo de caçadores de tesouros que escavaram o castro, destruindo para sempre uma grande parte das informações que ele teria para nos oferecer.

Numa época em que a Europa nos surge ávida de singularidades que tornem atractivos os seus territórios, e em que Portugal tanto necessita de conhecer e reconhecer as suas inúmeras mais valias, resta-nos esperar que as entidades responsáveis assumam a importância deste lugar, salvaguardando aquela que é uma das mais importantes peças da herança cultural do Alentejo.

A bem de Portugal!




segunda-feira

Almodôvar - Uma História da História de Portugal




Situado estrategicamente a escassas dezenas de quilómetros da cidade de Beja, capital do Distrito, e abrangendo a vasta planície alentejana e as ondulantes serras algarvias, o Concelho de Almodôvar desde cedo despertou a atenção do Homem.

A fertilidade dos seus terrenos e a amenidade do seu clima, são factores fundamentais para o desenvolvimento de uma agricultura rica em produtos essenciais: os cereais, as cortiças, os pastos e a criação de gado.

Data do período Neolítico a ocupação humana em Almodôvar. Vestígios dessa época podemos encontrá-los na Aldeia dos Fernandes junto da estrada para Lisboa, e em diversas antas e monumentos megalíticos situados em todas as suas freguesias. Os exemplares mais deslumbrantes e importantes são as Antas do Meio e as dos Mouriscos.

Do período comummente designado por Idade do Ferro são vastos os testemunhos, deixando bem sublinhada e documentada a própria História dos povos que habitaram este extremo Sul da Península Ibérica.

O Monte do Guerreiro, o Monte dos Mestres, as Mesas do Castelinho, o Corte Freixo, o Tavilhão, o Monte Beirão, o Monte Novo da Misericórdia, o Monte da Azinheira, o Corte Figueira, a Atafona, o Corte Zorrinho, o Castelo dos Mestres e outros, são alguns desses vestígios que, por si só, dão mote para uma visita prolongada ao Concelho de Almodôvar.

Do período Romano também existem vários vestígios no seu território. No Castelinho, no Monte do Castelejo, na Senhora da Graça dos Padrões e na Horta dos Mouros, podemos encontrar ainda muitos sinais da sua passagem por esta região, percebendo bem como se processou o processo paulatino de conquista e ocupação do território que hoje faz parte de Portugal.

O período Árabe, entre 711 e o Século XII foi, no entanto, aquele que marcou decisivamente a vida desta povoação. A sua influência persiste ainda hoje, não só na típica arquitectura das casas, como também no próprio artesanato, de que as típicas mantas alentejanas são a sua mais genuína expressão.

Já durante o período da Nacionalidade, Almodôvar recebeu o seu primeiro Foral das mãos de Dom Diniz, em 1285, tendo o mesmo sido confirmado e ampliado por Dom Manuel I em 1512.

Almodôvar foi Padroado Real e, mais tarde, por doação de Dom Diniz, pertenceu ao Mestrado de Santiago.

Representando um breve e confortável desvio na viagem de férias ao Algarve, a visita a Almodôvar representa uma incursão num dos mais emblemáticos municípios de Portugal. A sua riqueza urbana, histórica, gastronómica, enológica e cultural, e principalmente o facto de se manter praticamente desconhecida do visitante comum, faz deste espaço um local deslumbrante que transforma radicalmente a forma por vezes sombria como alguns caracterizam Portugal!




quinta-feira

O Povoado Romano dos Cascais Velhos (Povoação da Areia / Concelho de Cascais)




Conhecidas das entidades competentes desde o início do século, e classificada desde 1984, pelo Decreto-Lei nº 29/84, de 25 de Julho, a estação arqueológica dos Casais Velhos situa-se no Concelho e Freguesia de Cascais, povoação da Areia, no seguimento da Rua de São Rafael.

Muito embora já fossem conhecidos desde há muito tempo, e por isso denominados de Casais Velhos, os restos arqueológicos daquele povoado só muito recentemente despertaram o interesse dos especialistas. Parcialmente escavados em 1995 por Afonso do Paço e Fausto de Figueiredo, ilustres defensores do desenvolvimento programado do Concelho de Cascais, as ruínas em questão foram alvo de trabalhos arqueológicos em 1968, 1970 e 1971, desta vez sob a tutela de dois dos maiores vultos da historiografia nacional: D. António de Castelo Branco e Octávio da Veiga Ferreira. Nas intervenções mais recentes, e que visavam o aproveitamento cultural dos vestígios, fizeram-se essencialmente campanhas de limpeza e de consolidação dos materiais postos a descoberto em 1945.




A importância do sítio, integrada numa perspectiva global de exploração económica da Península de Lisboa na época de ocupação romana, deve-se sobretudo à existência de alguns tanques ou cubas na zona setentrional do povoado. Segundo os especialistas, e de acordo com os dados e informações recolhidos no campo e, actualmente, em exposição na sala de arqueologia do Museu dos Condes de Castro Guimarães, serviriam para o armazenamento dos restos pisados do MVREX, crustáceo existente em grande quantidade na costa nacional, e de se fabricava a púrpura. Após o tratamento das conchas, e após um período bastante longo de repouso nos referidos tanques, que possuem tampas herméticas que os fechavam, a púrpura era transportada para Olissipo, de onde era retransportada para Roma. Em conjunto com os tanques de salga de peixe encontrados recentemente junto do centro histórico da vila, e com as grandes quantidades de cereais produzidos nas terras férteis de TITVS CVRIATIVS RVFINVS, em Freiria, serviriam de base à subsistência económica das populações romanas do actual Concelho de Cascais.




Para além destas cubas, possui o povoado dos Casais Velhos um aqueduto que trazia água de uma nascente próxima para um tanque situado sensivelmente a meio das ruínas, de onde, por sua vez, se alimentava o complexo termal situado alguns metros abaixo, com pequenas banheiras semicirculares e a zona de banhos quentes.

Além destes vestígios de construção e de outros restos ainda indeterminados que afloram dentro do circuito amuralhado, são ainda de salientar, segundo Guilherme Cardoso, os restos das muralhas e as necrópoles de inumação. Nestes locais foram encontradas moedas datáveis de entre os anos 205 e 405 da nora era (do tempos dos imperadores Teodósio, Constâncio II, Constante, Constantino e Arcádio), o que sugere uma ocupação mais intensa do local exactamente nos finais do Império Romano do Ocidente. Digna de nota, é ainda uma moeda encontrada numa sepultura, que mantém ainda o seu invólucro de tecido de linho, peça raríssima e do maior interesse histórico.




Os inúmeros exemplares cerâmicos recolhidos, bem como os restos de canalizações, estradas e sepulturas espalhadas nos terrenos anexos, demonstram a exiguidade dos trabalhos efectuados neste local, e que não passaram de meras intervenções pontuais de recolha de informação. A classificação do povoado como imóvel de interesse público, bem como a recente especulação imobiliária que se vem acentuando em Cascais, obriga as entidades competentes ao desenvolvimento urgente de esforços de estudo sistemático do local, de modo a que se torne possível conhecer, observar e compreender a verdadeira importância deste sítio.

Classificado há onze anos, e devidamente comprovada a sua importância desde 1945, os Casais Velhos não passam hoje de uma amálgama de velhos muros derrubados pelas intempéries e pela marcha incessante do progresso. O facto de nunca ter sido estudado na íntegra, aliado às características intrínsecas dos próprios terrenos em que se situa, não permitiu ainda que se conheçam as verdadeiras fronteiras do sítio. A inactividade das entidades, no entanto, permitiu que se urbanizasse toda aquela zona, inviabilizando já uma futura descoberta das verdadeiras fronteiras do povoado. Exemplo típico deste situação, é a de algumas moradias construídas nas imediações, e que utilizam os materiais romanos para a sua própria construção, ou mesmo como elementos decorativos das suas paredes, defraudando o património nacional e as potencialidades de aproveitamento turístico e cultural do local.