A acumulação anormal de pluviosidade, em conjunto com o crescimento das dunas, criou um cenário onírico na Praia do Guincho. O lago que ali nasceu, em Dezembro de 2016, deslumbrante no contraste entre o céu, a serra e o mar, compõe um postal extraordinário que ficará na memória de Cascais e dos Cascalenses.
Blog sobre Portugal, os Portugueses, a sua História, e a realidade política, económica, cultural e social Nacional.
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segunda-feira
sexta-feira
Abreu Nunes - 50 Anos de Saudades em Cascais
Cumprem-se por estes dias 50 anos
desde o falecimento, em Cascais, do Engenheiro Augusto Jayme Telles de Abreu
Nunes. Nascido no Funchal em 30 de Outubro de 1891, o Engenheiro Abreu Nunes é
hoje, por infelicidade dos tempos em que vivemos, figura quase desconhecida dos
Cascalenses. Mas do seu empenho na defesa de Cascais e da sua vida dedicada a
esta Nossa Terra, depende quase tudo o que o município é hoje.
A intervenção cívica de Abreu
Nunes começa logo depois da sua chegada a Cascais. Em 1934, quando Cascais se
preparava para enfrentar os desafios enormes que foram o resultado das
alterações provocadas no Mundo e na Europa pelas guerras mundiais, foi ele quem
esteve à frente do processo de criação da Comissão Administrativa da futura
Comissão de Propaganda de Cascais, organismo embrionário da futura Região de
Turismo do Estoril.
Na senda do trabalho realizado
por Fausto Cardoso de Figueiredo, mentor e principal impulsionador do primeiro
projecto turístico de Portugal – o Estoril -, Abreu Nunes cria em Cascais as
bases que hão-de servir para promover a região a nível internacional. Com uma
visão fora do seu tempo, aliando a capacidade de concretizar à noção exacta da importância
deste recanto no contexto da animosidade crescente que grassava no velho
continente, foi ele quem imaginou o Estoril como espaço privilegiado para
receber em imensos exílios dourados grande parte das principais figuras da
aristocracia mundial, reservando para o município Cascalense a honra de se ter
tornado num dos destinos turísticos de referência no contexto europeu.
À frente da Comissão de
Propaganda de Cascais, foi durante muitos anos responsável pelo programa de
festas na velha vila piscatória, elaborando um vasto conjunto de iniciativas que
desenvolviam a região fomentando a actividade económica e promovendo-a a nível
internacional. E, mais importante do que tudo o resto, organizou estes eventos
sempre com um cariz de intervenção social. De facto, dos bailes de Carnaval aos
concursos de montras e de flores, tudo o que acontecia na região tinha como objectivo
a angariação de fundos que serviam para apoiar as grandes obras de que Cascais
necessitava para apoiar os mais pobres. As escolas, os lares de idosos, o velho
hospital e a Praça de Touros, são somente alguns exemplos de equipamentos de
que Cascais foi dotado com verbas oriundas da animação organizada por Abreu
Nunes na comissão.
Foi também ele quem, em 1934,
esteve à frente da inédita organização do primeiro concurso hípico de Cascais,
no espaço onde mais tarde se haveria de construir o Hipódromo Municipal Manuel
Possolo, recriando assim uma das mais arreigadas tradições desta terra.
Mais tarde, em Janeiro de 1939, o
Engenheiro Abreu Nunes extingue a velha comissão e dá origem à nova Sociedade
Propaganda de Cascais, da qual será o primeiro presidente, entidade que promoverá
a construção da Maternidade de Cascais, do Clube Naval de Cascais, do novo
Hospital da Misericórdia, etc.
Reconhecendo a sua dedicação e a
capacidade de concretização demonstrada através das várias iniciativas que
desenvolveu, o Governo de Portugal convida-o para instituir e presidir à Junta
de Turismo da Costa do Sol. Nesse novo cargo, Abreu Nunes foi um dos pilares da
estratégia de promoção internacional da marca turística ‘Estoril’ que durante
100 anos será uma das mais pujantes e bem conseguidas operações turísticas de
Portugal.
A dinâmica da Junta de Turismo,
que utilizava as mais modernas técnicas de marketing daquela época, é um dos
traços da posição vanguardista de Abreu Nunes no Portugal de então. Os cartazes
de promoção do Estoril, impulsionadores de muito daquilo que virá a ser a
propaganda oficial de Portugal, traduzem bem o projecto que ele defendia para transformar
esta terra numa espécie de Côte d’Azur Portuguesa.
No dia 12 de Outubro de 1966, a
poucos dias de celebrar o seu 75º aniversário, o Engenheiro Abreu Nunes faleceu
na sua casa de Cascais, deixando um legado que mudou literalmente a face da sua
terra.
Cinquenta anos depois, vale a
pena relembrar este Cascalense, na certeza de que a aura de excelência que hoje
acompanha Cascais muito deve à sua capacidade de visão e ao mérito da sua
aposta na promoção fundamentada do seu (nosso) Estoril.
segunda-feira
A Capela de São Sebastião em Cascais
por João Aníbal Henriques
Passaram-se muitos meses desde
que o temporal do Outono de 2015 destruiu o cruzeiro, o alpendre e o adro da
Capela de São Sebastião, em Cascais. Mas, finalmente, foram efectuadas as obras
de recuperação e reposta a dignidade daquela importante peça do património
cascalense.
A Capela de São Sebastião,
construída provavelmente em 1628, atendendo à inscrição existente na base do
seu cruzeiro, possui um interessante conjunto azulejar cujas origens dispersas
não se conhecem com exactidão.
A sua localização, fora da
localidade e já muito perto da Enseada de Santa Marta, terá sido determinante
para a sua formulação arquitectónica simples, em estilo dito “chão” e para as
suas origens eminentemente ruralizantes. Situada originalmente na cerca do
antigo Convento de Nossa Senhora da Piedade (actual Centro Cultural de
Cascais), seria certamente posto avançado de oração e recolhimento daquele
importante núcleo religioso da Vila de Cascais.
De acordo com alguns autores,
serão do antigo convento, que foi construído em 1594 por D. António de Castro,
então Senhor de Cascais e pela sua mulher D. Inês Pimentel, alguns dos painéis
de azulejos que hoje se podem ver na capela e nas zonas envolventes. O mais
importante, hoje colocado de forma cenicamente impactante no jardim construído
no local pelos Condes de Castro Guimarães, é precisamente a “Procissão
Alquímica” em que Nossa Senhora é transportada aos céus numa imensa carruagem
inserida num cortejo do qual fazem parte algumas das mais importantes figuras
da imagética transcendental da Portugalidade Sebástica.
O certo é que quer na figura “Civitates Urbius Terrarum” da autoria de
Georgius Branius, de 1572, quer na planta geral da Vila de Cascais, datada de
1594 e guardada no Arquivo Geral de Simancas, a pequena capela surge
expressamente representada, sendo certo, por esse motivo, que já nessa altura
fazia parte do património religioso da localidade.
Na parede do adro, com datação
provável dos finais do Século XVII, e correspondendo a uma das campanhas de
obras de remodelação que o edifício terá sofrido ao longo da sua história,
existe um painel azulejar polícromo dedicado ao Santíssimo Sacramento e, como
não poderia deixar de ser numa peça de património de índole rural, à Imaculada
Conceição da Virgem Maria. Uma vez mais, como é evidente, cerca de dois séculos
antes de o Papa Pio IX, através da bula Inneffabilis
Deus, ter solenemente definido a Imaculada Conceição como dogma, em linha com
o que acontece com as principais orientações cultuais no Portugal de então e,
especialmente, com as ancestrais tradições religiosas existentes no Concelho de
Cascais.
O orago Sebastianista da capela,
apelando ao supremo poder de Deus perante os homens e à permanente necessidade
destes de tentarem impor a sua vontade, recupera também ele os laivos dessa
paulatina degeneração dos cultos mais antigos das populações locais que, depois
de Cristianizados, acabam por integrar-se de forma definitiva no conjunto de
pressupostos sagrados que dão forma à Fé local.
A recuperação da Capela de São
Sebastião, para além de um importante contributo para a consolidação da vocação
turística municipal, que depende da existência de uma oferta significante que
concretize a Região do Estoril como um destino turístico de excepção no
contexto europeu, significa ainda o assumir da Identidade Cascalense, assente
num imaginário colectivo na qual as memórias físicas se cruzam quase sempre com
os vestígios materiais de gerações ancestrais.
É, por isso, uma boa notícia para
a Nossa Terra!
terça-feira
A Singularidade e o Escadote Social de Cascais
O Concelho de Cascais, pela sua situação estratégica no seio da
Península de Lisboa, e pela notoriedade que granjeou ao longo do último século
e meio de uma história verdadeiramente extraordinária, é um dos espaços mais
atractivos de Portugal, possuindo uma fama que o precede e que é conhecida e
reconhecida por toda a Europa.
O cunho cosmopolita desta terra, assente nos pressupostos atrás
definidos, é de extraordinária importância na definição da vida quotidiana do Concelho.
Com um ímpeto progressista que surge associado à permanente capacidade de
recriar paradigmas renovados a partir dos problemas com os quais se debate,
Cascais esteve sempre um passo à frente do resto do Pais e caracterizou-se
sempre pela inovação e pela modernidade.
Apesar de existirem aspectos positivos e negativos associados a esta
situação, pois o crescimento desmesurado, associado à falta de planeamento e de
rigor e de, em muitos momentos da nossa história, ter sido governada de forma
pouco capaz, acabou por resultar nalgum caos urbano que se espraiou, com
características diferenciadas, um pouco por todo o território municipal, o
certo é que a fama de Cascais sobreviveu sempre e foi capaz de se impor às
várias gerações que até agora habitaram o concelho.
A ideia de qualidade que Cascais deixa transparecer, conjugando o
glamour das suas zonas mais emblemáticas com a fama que carregou até bem longe
as suas potencialidades, transformou-se em ideias e estereótipos de um
determinado tipo de vida que, não sendo linearmente real, serviu sempre de base
para que viver em Cascais fosse considerado algo de verdadeiramente notável. Em
consequência disso, e pelo menos desde que o Rei Dom Luís escolheu Cascais para
estância de veraneio, nos idos de 1870, que esta terra é palco assumido para os
devaneios de índole diversa que dão forma à sociedade portuguesa.
Como se de um escadote real se tratasse, Cascais é o local que procuram
todos aqueles que alcançam a fortuna e o êxito, sendo aqui o melhor espaço para
poderem usufruir das suas conquistas. Da mesa forma, e no plano oposto, Cascais
é também o local escolhido por todos aqueles que anseiam pelo prestígios e pelo
êxito, recriando em seu torno um espaço onírico que serve de cenário para a
concretização dos sonhos que ainda faltam acontecer.
A singularidade de Cascais é, desta forma, dupla e dúbia. Associa-se às
grandes figuras da nossa história que por cá passaram, e também aos grandes
desaires e apaixonantes episódios que aconteceram dentro das fronteiras do Concelho,
tornando-o único e irrepetível por aquilo que é, mas também por aquilo que
muitos acreditam que ele pode vir a ser.
Um dos aspectos em que mais se faz sentir esta espécie de pressão
positiva, que se fundamenta na solidez estrutural que todos ligamos à
qualidade, é o da habitação. As casas, as ruas, os espaços públicos e os
acessos a Cascais, sempre foram aspectos essenciais neste pressuposto de
afirmação que a terra procura promover. Quem alcançou o sucesso, constrói
normalmente em Cascais uma casa à altura do seu sucesso, ao mesmo tempo que
quem procura o êxito opta por uma habitação que transpareça o fim último que
procura atingir. Por tudo isto, durante muitas décadas, o crescimento e a
consolidação da paisagem urbana no Concelho fez-se num processo de paulatina
afirmação da qualidade, assumindo uma componente estética que reforçou de
sobremaneira a já de si grande fama que a terra transportava. Os parâmetros
volumétricos, as cores, as formulações geométricas e os materiais utilizados,
eram geralmente de grande qualidade e inseriam-se nos mais vanguardistas
movimentos da culturalidade das épocas em que se concretizavam.
No que aos espaços públicos diz respeito, o movimento
foi idêntico, assistindo-se à criação de infra-estruturas e equipamentos de grande
qualidade, em linha com o que se passava com a habitação privada. A qualidade
de vida que resultou deste processo, evidente para toos aqueles que aqui viviam
e mesmo para os que somente a visitavam, redobraram a fama de excelência que lá
fora já caracterizava o concelho, exigindo que governantes e governados se
pautassem por níveis de excelência pouco usuais no Portugal de então. Dos
colégios e das escolas que recebiam as novas gerações, aos restaurantes,
jardins, hotéis e campos de golfe, Cascais foi-se apetrechando de tudo aquilo
que caracterizava uma grande capital, ao mesmo tempo que era capaz de preservar
a pequenez das terras de sonho e das estâncias turísticas que desde o século
XIX consolidaram o seu prestígio um pouco por toda a Europa.
quarta-feira
A Singeleza Franciscana e a Ideia do Estoril
por João Aníbal Henriques
Seguindo os princípios que nortearam a vida de São
Francisco de Assis, que em 1209 fundou a Ordem Mendicante, a Regra definitiva
dos Franciscanos foi aprovada pelo Papa Honório III, em 1223.
No Estoril, foi no ano de 1527 que se procedeu à
instalação de um Convento Franciscano de características sui-generis, pela sua proximidade ao mar e pelo Santo de Devoção –
Santo António do Estoril.
O espaço em questão, mesclado de um intenso sabor a
mar, pouco conhecido da generalidade dos espaços da Ordem, é também
condicionado por uma forte presença da Serra de Sintra, marcando assim o desenvolvimento
de um enorme potencial de aprofundamento religioso que os frades que ali se
instalavam vão aproveitar de uma forma bastante profícua.
Pertença do Dr. Luís da Maia, clérigo do hábito de
São Pedro, o terreno onde veio a instalar-se o convento, possuía já uma pequena
capela dedicada a São Roque, mandada construir alguns anos antes, em data não
determinada, por Leonor Fernandes, moradora no Casal do Estoril. O momento em
que o ilustre prelado oferece o terreno à Ordem, que o recebe pela mãos de Rodrigo
de Sant’Iago, é precisamente aquele que marca o início do processo de
construção do idílio conventual, para o qual se utilizaram, trazidas do
derruído Convento de Enxombregas, as pedras que vieram a consolidar as suas
paredes. A direcção das obras assumidas por Rodrigo de Sant’Iago foi de tal
modo perene, que depressa se concluiu a construção do novo templo que, composto
por uma única nave, possuía no entanto três altares, onde se prestava culto à
imagem de Nossa Senhora da Boa Nova, a São Domingos e a São Francisco. Segundo
a ‘Crónica Seráfica da Santa Província
dos Algarves’, na qual se descrevem os edifícios da Ordem de São Francisco,
existiria ainda uma imagem de Santo António ao lado da epístola, no altar-mor,
que possivelmente seria datável de um momento anterior à construção do
edifício.
Ao que parece, o grande êxito que veio a enformar a
existência do convento, e que lhe granjeou uma fama que trouxe a estas paragens
uma série de importantes vultos da vida Nacional, ficou a dever-se à imagem da
Santa Padroeira, a Senhora da Boa Nova, com os seus três palmos de altos, e com
feições consideradas «gráceis e perfeitinhas». Joana Manuel, a quem havia sido
instituído o Morgado do Estoril, Manuel Jorge, síndico do convento, Álvaro
Martins, marinheiro de água doce e o Marquês de Castelo Rodrigo, apoiante
incondicional da submissão filipina, são apenas alguns dos mais evidentes apoiantes
da Causa Franciscana Estorilense, contribuindo com importâncias que, em
conjunto com a exploração agrícola que os frades foram desenvolvendo nos
terrenos que desciam até à praia, garantiam a possibilidade de se irem
promovendo as obras de remodelação e de manutenção que permitiram ao convento
subsistir e até desenvolver-se à medida em que se ia avançando para a segunda
metade do século XVIII, quando o terramoto de 1755 veio pôr em causa a sua
existência.
Os frades do Estoril, dedicados a uma vida de
interiorização na qual o trabalho árduo das muito pouco férteis terras
conventuais era, desenvolveram uma postura religiosa que em muito se afastou
daquela outra que caracterizou a Ordem Carmelita instalada no Convento de Nossa
Senhora da Piedade, em Cascais. Para estes últimos, a interacção com a
comunidade, numa dinâmica de ensino e de aprendizagem, em que tecnicamente a
sua mais-valia se ia transportando para as actividades profissionais dos
cascalenses, principalmente na pesca mas também na horticultura, as portas do
convento deviam estar abertas, recebendo no seu seio todos aqueles que dele
necessitassem para resolver os problemas do quotidiano. Os frades estorilenses,
possivelmente também como consequência da esterilidade do seu meio, onde as
comunidades humanas não se haviam instalado de uma forma sistemática, mantendo
um povoamento em pequenos casais e onde as únicas excepções são marcadas pelas
aldeias de Alapraia e, mais a nascente, Caparide, tornaram o seu espaço no
espaço eminentemente dedicado à interiorização, mantendo relações muito pouco
próximas com a comunidade e alicerçando a sua dinâmica de trabalho no princípio
da auto-subsistência que, aliás, era também consequência dos princípios
fundamentais que norteavam a sua Regra.
Destacando-se dos demais, mais pelo seu esplendor
espiritual do que propriamente pela sua maneira de funcionar em termos
comunitários, Frei António de Palmela e Frei Cristóvão da Trindade, ali
desenvolveram o seu percurso iniciático em direcção a Deus, mortificando a
carne com a pobreza extrema e fortificando o espírito em orações e jejuns
sistemáticos. A fama destes monges, de quem todos ouviam falar mais que poucos
conheciam pessoalmente, acabou por garantir-lhes a recepção de muitos bens, que
os habitantes das redondezas lhes ofertavam, com o objectivo de contribuírem
para a vida de santidade que ali promoviam. As ofertas, no entanto, eram
permanentemente redistribuídas pelos mais humildes, mantendo-se os monges de
Santo António na mais pura e humilde das existências, gozando apenas da
extraordinária vista que se alcançava das janelas do convento. Rocha Martins, o
reputado jornalista que já mencionámos, descreve de uma forma paradigmática a
envolvência do convento, a qual permite perceber quais foram as grandes
transformações que o denominado progresso acabou por trazer a este lugar: «Um
prado verdejava na vizinhança; a aragem suave coava-se pelo pinhal mas, por
vezes, a ventania vergava o frondoso arvoredo; cresciam, na encosta virada ao
mar, plantas selváticas e as águas brotavam, com a fama de milagrosas,
sobretudo na parte mais baixa da serra de Santo António, a qual tinha ao sul o fortim
de São Roque e a oeste o Casal do Estoril». Da mesma opinião, explicando ao
mesmo tempo que a situação que caracterizava o convento em muito contribuiu
para a forma como era procurado pelos mais fervorosos e dignos monges de todos
os tempos em que durou a sua existência, era Frei Jerónimo de Belém que o
visitou no início do século XVIII: «que o agradável da sua visita convidou em
outros tempos a muitos religiosos para frequentarem nele a Escola do Céu,
livres dos cuidados do Mundo que tanto embaraçavam os progressos da virtude e
atrasam os espíritos mais fervorosos».
terça-feira
Tendências Demográficas no Cascais Medieval
por João Aníbal Henriques
O primeiro numeramento de Cascais
data de 19 de Setembro de 1527. Sendo já posterior à época medieval, da qual
não existem registos efectivos acerca do que se passava neste concelho, vamos
tomar como base desta análise a curva demográfica de Cascais durante este
período da baixa Idade Média e a partir daí comparar teoricamente as tendências
das principais cidades Portuguesas e Europeias, assumindo, desta forma, alguma
linearidade nos comportamentos demográficos da velha vila de pescadores.
Assim, à excepção de Toulouse, a
tendência mais evidente da demografia urbana europeia é a de um aumento
sustentado do contingente populacional. Assim acontece com as principais
cidades da Europa de então, tendência que se confirma em Portugal com os dados
que temos relativos à cidades de Lisboa ou de Lagos. Da mesma forma,
encontra-se uma tendência generalizada para um período de recessão nos finais
do Século XIII e inícios dos Século XIV que, com um carácter fulgurante em
cidades como Florença, em Itália, atingiu de forma medíocre as restantes
cidades europeias com dados conhecidos. Segundo Carlo Cipolla, a crise que
afectou a Europa nessa época não passou de uma rectificação natural da
demografia urbana, respondendo de forma directa ao excesso populacional
acumulado em determinadas regiões, ainda sem o suporte essencial em termos de
salubridade e saúde pública e pouco preparadas para sustentar esse crescimento.
Por esse motivo, muitas foram as
cidades e/ou pequenos aglomerados populacionais que viram bastante reduzido o
seu contingente populacional durante este período, provocando um surto de
mortandade que acompanhou o recrudescimento de diversas epidemias e doenças.
Zonas pouco apetrechadas em
termos urbanísticos, como era o caso da Vila de Cascais durante esse período,
sofreram assim as consequências nocivas da sua impreparação, facto que conduz a
um intervalo de tempo que se caracteriza por uma imensa razia em termos do
número de habitantes, obviamente com repercussões directas a várias níveis da organização
social dessas terras. Será possivelmente esta a explicação que nos permite
perceber o reduzidíssimo número de Cascalenses que existiam nessa época e que
Oliveira Marques aponta num dos seus artigos sobre Cascais: ”É provável que em
meados de trezentos, para mais com as consequências da peste negra, o número de
habitantes da jovem vila não fosse além dos duzentos ou trezentos, se é que os
atingia sequer. E no termos correspondentemente”.
Na carta régia de 1385 de Dom
João I, o despovoamento de Cascais torna-se evidente, sentindo o monarca que
chegou à altura de incentivar o mesmo. É também nesta mesma carta que o rei
levanta o problema do Castelo de Cascais, sublinhando a sua importância na
estratégia de defesa de Lisboa. Sê-lo-á em termos meramente militares e
políticos ou também em termos económicos e estratégicos?...
No que concerne à densidade
populacional nas freguesias cascalenses, é notório e muito evidente a enorme
discrepância existente entre aos espaços rurais e urbanos. Esta dualidade surge
bem expressa nos números que traduzem, por exemplo, a realidade na Freguesia de
Cascais, que sobressai com 10,5 habitantes por km2, em contraste com os cerca
de 4,3 habitantes por km2 em espaços como Carcavelos e São Domingos de Rana. Na
primeira temos uma realidade marcantemente urbanizada, recriando-se em torno do
conjunto habitacional coeso que enche o seu espaço amuralhado, e nas segundas
surge a realidade de âmbito rural, com as explorações agrícolas e o minifúndio
a imporem a sua realidade.
Embora pouco importante para a
determinação daquilo que foi Cascais durante este período, é certo que este
quadro nos permite supor um povoamento da vila de Cascais muito anterior àquele
que supostamente surge na documentação oficial, precedendo-a e alterando os
dados efectivas recolhidos em época posterior. Fazendo o exercício de completar
os dados inexistentes de Cascais com aqueles que caracterizam as restantes
cidades de Portugal e as principais tendências nos espaços urbanos europeus, parece
lícito supor que a continuidade da linha demográfica na vila se encaixa no fluxo
corrente que caracteriza a Europa anteriormente.
Prova ainda mais contundente deste
pressuposto é a que nos oferece o Professor Oliveira Marques no estudo atrás
mencionado e que nos diz que: “O número de besteiros do conto, de cerca de
1422, atribuía ao Concelho de Cascais 20 besteiros, cifra igual na comarca da
Estremadura, à de Sintra e à do Soure e próxima à de Alenquer e à de Óbidos”.
Este mesmo número está confirmado no número de besteiro existentes no Algarve,
em linha com o que se passa em espaços pujantes demograficamente como Castro
Marim, Albufeira e Aljezur.
segunda-feira
Cascais e o Terramoto de 1755
O cataclismo que se abateu sobre
Lisboa no dia 1 de Novembro de 1755 deixou um rasto de destruição na Vila e no
Concelho de Cascais. O terramoto e o posterior maremoto, foram acompanhados de
incêndios e muitos dos principais edifícios que existiam foram completamente
destruídos.
A face urbana da Vila de Cascais,
com a monumentalidade própria de uma pequena vilória piscatória, sofreu enormes
alterações e, mercê dos muitos interesses instalados nesta terra, terá sido porventura
o terramoto o embrião da primeira operação de especulação que Cascais conheceu…
De facto, as Memórias Paroquiais,
bem como as respostas dos reitores das igrejas às questões levantadas pelas
autoridades depois do terramoto, apresentam-nos informações muito úteis para
conhecer e compreender o que então aconteceu em Cascais. A menção à antiga
torre-relógio, que desapareceu nessa manhã fatídica, e a organização espacial
dentro das muralhas do velho castelo, estão bem expressas nas palavras do
pároco de então: “Está esta vila sem relógio porque este, e sua grande torre
feita pelos mouros, que sefes em cinzas. O palácio dos marqueses de Cascaes uq
era de hua excelente perspectiva, e de exquisitas pinturas, com hua bella
ermida, desconhecesse tudo pelo que foi, e já não hé (…). Nesta freguesia há hu
castelo, cujo hoje está todo cheio de moradores e para nada serve mais, porem
ahinda selhe conservão alguas amejas, cujo fica para abanda da ribeira, pegado
com os palacios dos marqueses de Cascaes”.
Também Frei António do
Espírito-Santo, um dos frades carmelitas do Convento de Nossa Senhora da
Piedade (actual Centro Cultural de Cascais), dá-nos conta do estado do castelo
após o terramoto de 1755: “cahio a torre com o seu mais especioso relógio nas
sonoras vozes do seu sino, que fica olhando para norte, e matando 22 pessoas”.
Esta torre, bem identificada em
muita da cartografia antiga que se conhece, corresponderia à torre que se
situava na parte Nascente do Castelo, com frente para a área do antigo Rossio.
Teria planta redonda, em linha com a tradição arquitectónica deste tipo de
edifícios, facto ainda visível nas fotografias tiradas no início do Século XX
por João da Cruz Viegas, D. António de Castelo-Branco e pelo Visconde de
Coruche. De salientar que alguns dos torreões do antigo castelo, marcando os
eixos que deram forma ao núcleo urbano inicial da Vila de Cascais, subsistiram
até aos anos 60 do século passado, quando foram demolidas no âmbito do surto de
construção que assolou Cascais nessa época.
Em termos religiosos, eram vários
os edifícios que existiam em Cascais neste final do Século XVIII. Mas a maior
parte, mercê das agruras do cataclisma, acabou por ficar muito danificado ou
mesmo completamente destruído.
De acordo com o testemunho do
Reitor da Igreja Matriz de Cascais, Padre Manoel Marçal da Silvejra, ao
responder em 1758 aos inquéritos paroquiais, nada sobrou do terramoto e o que
se manteve de pé estava em tais condições que a ele lhe parecia que mais valia
destruir para construir novas edificações de raiz do que proceder ao seu
restauro: “(…) a villa ficou toda arruinada até ao chão. Não há caza, wur ou
não cahisse em terra, ou não ficase abalada, ameaçando ruína. Os templos, a
ponte, a cidadela, e os eus quartéis, tudo está demolido, e feito em pó. A
major parte da villa haita ahinda em barracas fora, e dentro do destricto, a
ponte está com hu só arco em pee, e senaõ passa po rella, sem que se reparasse ahinda
nada, somente alguas czas setem levantado, poucas, ao mesmo tempo, que outras,
com as tempestades e ventos, se tem acabado de postrar”.
Do reitor da Freguesia da
Ressureição, a segunda freguesia de Cascais e situada no espaço extra-muros,
recebemos a informação de que foi esta uma das mais afectadas freguesias do
país com a catástrofe do terramoto de 1755: “De todas as terras foi esta aq. Experimentou
mayor ruina (conforme dizem todos) por causado ditto terramoto, pois todos os edifícios
serruinarão, e quazi todos cahiram, e algum q. nan cahio de todo ficou
inahabitavel, mas ao prezente is se acham muntos deles reedificados”.
Mas, se é certo que a destruição provocada
pelo terramoto foi enorme, certa é também a dose de exagero patente em todos
estes documentos, explicável possivelmente com a necessidade de chocar quem os
lê-se para sensibilizar o poder nacional para a necessidade de recursos que
Cascais sentia para proceder à sua recuperação urbana. De facto, tendo ruído a
Igreja da Ressurreição, que se situava sensivelmente onde actualmente se
encontra a estação de comboios, muitos outros monumentos civis, militares e
religiosos se mantiveram de pé o foram reconvertidos e/ou recuperados e ainda
hoje podem ser apreciados na Vila de Cascais.
A Igreja de Nossa Senhora da
Assunção, por exemplo, uma construção de meados do Século XVII que resistiu à
força do terramoto, foi bastante alterada no seu exterior tendo sofrido várias
alterações que lhe conferem a imagem que hoje apresenta. Na sacristia e no arco
que suporte o coro, ainda são visíveis as sequelas do cataclisma, ao lado com
uma pequena inscrição que informa que o templo havia sofrido obras de restauro
em 1720 à custa dos irmãos pescadores.
Mais à frente, e para além dos
muros antigos do castelo, a Cidadela de Cascais e a Fortaleza de Nossa da Luz
resistiram ao terramoto, tendo acontecido o mesmo com o Convento de Nossa
Senhora da Piedade que, já no Século XIX, foi comprado em hasta pública pelo
Visconde do Gandarinha que o adaptou a residência de veraneio. Quando essas
obras foram efectuadas, estavam ainda em estado razoável de conservação a
antiga sala do capítulo, a capela, o claustro, a cisterna e mesmo o friso de
janelas viradas a Sul que ainda hoje se mantém.
Da mesma maneira, e para além das
pequenas capelas de Nossa Senhora de Porto Seguro e de Nossa Senhora da
Conceição, sobreviveram ainda as capelas de Nossa Senhora da Vitória, a Igreja da Misericórdia e a Igreja
e Nossa Senhora dos Navegantes que foram reconstruídas depois da catástrofe.
Tendo exagerado de forma linear a
verdade do que aconteceu, a documentação coeva dá-nos uma primeira imagem do
que era Cascais naquela época. E, sabendo nós que o ímpeto de construção que se
lhe segue fica a dever-se à generalizada informação de ruína eminente em que
pretensamente Cascais se encontrava, fácil se torna perceber que naquela
altura, como ainda hoje, foi sobre inverdades e premissas adaptadas às
necessidades do momento, que se deu uma nova cara ao Cascais de sempre.
quarta-feira
História do Urbanismo de Cascais na Idade Moderna
As tendências urbanísticas de um
local, mais do que um reflexo do gosto de então, espelham sobretudo o pulsar
interno da ida de uma nação ou de um povoado.
A dispersão das casas, o maior ou
menor estreitamento das suas vias, a altura e o aspecto das suas edificações, a
monumentalidade das suas igrejas e templos, são acima de tudo características ditadas
por uma série de situações que derivam directamente do devir das populações.
Assim, para compreender o Cascais
da actualidade, importa conhecer melhor a história do seu desenvolvimento
urbano, dele retirando as pistas que nos permitirão conhecer e perceber o
substrato político, económico e social que deu corpo àquilo que hoje temos e
somos.
Com este objectivo bem definido,
vamos então traçar as verdadeiras tendências urbanas desta região, utilizando a
documentação histórica coeva e integrando-a, sempre que possível naquela que
exista para os concelhos limítrofes.
A demografia, na sua vertente
mais pura, assim como os censos populacionais, as inquirições religiosas e os
demais instrumentos de trabalho desta área científica, reforçarão as hipóteses
e as pistas que daremos acerca do pulsar político de Cascais ao longo dos
tempos.
O Concelho de Cascais, rico,
ontem como hoje em potencialidades e belezas naturais, desde cedo despertou a
atenção e o interesse da espécie humana. A amenidade do seu clima, a riqueza
das suas águas, a fertilidade das suas terras e a posição estrategicamente privilegiada
em que se encontra, foram factores decisivos na definição da história
municipal.
Deixando de lado as questões
directamente relacionadas com os primeiros anos da ocupação do território (que poderá rever AQUI), procuraremos acima de tudo dar uma panorâmica daquilo que foi
Cascais e o seu termo no período imediatamente posterior à libertação jurídica
face a Sintra.
Assim, no período que medeia o
ano de 1364, data em que Dom Pedro I concede o foral a Cascais, e o ano de
1370, data em que Cascais fica efectivamente livre do jugo de Sintra pela mão
do Rei Dom Fernando I, todo o termo do Concelho sofre enormes transformações.
Se, por um lado, assistimos à
criação de toda a plêiade de cargos administrativos inerente à nova posição
política concelhia, por outro, terão de ser criadas as condições urbanísticas
necessárias à manutenção e alojamento das pessoas que resultam deste acréscimo populacional.
O termo de Cascais, por seu turno, e mercê das enormes dificuldades que
resultavam do esforço de manter e defender a independência, teve também de
contribuir para esse esforço de afirmação política, assistindo-se na mesma
época ao aproveitamento de uma série de potencialidades que existiam em todo o
território municipal.
São, desta forma, desta época, a
maior parte das edificações e casas antigas de Cascais, principalmente aquelas
que vieram ocupar os espaços situados no núcleo intra-muralhas e na margem
direita da Ribeira as Vinhas, e que complementaram os extensos espaços ocupados
pelas habitações dos pescadores espalhadas ao longo da linha do mar. Estas,
como é evidente, seriam muito mais precárias, construídas de madeira e em forma
de abarracamentos. O Paço dos Senhores de Cascais, de influência marcadamente
italiana, surge somente em finais do Século XVI, pese embora se situasse dentro
do perímetro das muralhas antigas da vila, sensivelmente onde hoje se encontra
a Casa do Conde Monte Real, na Avenida Dom Carlos. O Convento de Nossa Senhora
da Piedade, já fora desse mesmo recinto, é seu contemporâneo, complementando
assim os domínios de Gomes Lourenço de Avelar a quem Dom Fernando entregara, em
1370, as terras de Cascais: “seu caualleyro e […] guarda moor e leal vassalo”.
No dia 7 de Junho de 1373, cerca
de três anos depois da primeira doação, o mesmo monarca desfaz o documento
original, penalizando Gomes Lourenço de Avelar por este se ter recusado a
entregar um dos seus filhos como refém no âmbito da assinatura do Tratado de
Santarém. Neste último documento, a vila de Cascais é entregue a Henrique
Manuel de Vilhena, figura pouco quista entre as gentes do concelho. É aqui que
pela primeira vez surge uma menção ao Reguengo de Oeiras que, a partir desta
mesma altura, passa a integrar o termo de Cascais.
Em 3 de Julho de 1384, sabemos
que Henrique Manuel de Vilhena já havia sido desapossado do senhorio, porque
andava então “em deserujço destes regnos e senhor com elrey de Castella”
(Chancelaria de Dom João I).
Nesta época o território do termo
de Cascais seria já muito semelhante àquele que conhecemos actualmente,
exceptuando-se a integração do Reguengo de Oeiras ou de parte dele, conforme
veremos adiante, e o acrescento posterior de alguns territórios que ainda
pertenciam a Sintra e que o Rei, por considera-los seus, resolveu integrar no termo
cascalense. Na carta de foral de 8 de Abril de 1370, Dom Fernando I integra no
termo de Cascais territórios bem definidos: “Por seu termo como se começa pollo
porto de Touro (fooz do Touro) e desy per cima da debaruas de Rey e dhy acima
da malueirra e pella pena da era e desy como se vay dhi endiante atta o açude
daacenha do tarãbulho e desy como se vay per cima de janas torta os fornõs da
cal acima daaçenha do caminho todo agoas vertentes e desy pella strada dirrejta
ao rio do trotulho com villa noua e desy como se vay pela strada do camjnho de
lixboa atta as portas de manique e dhy adiante pello veeiro acima como se vay
topar na strada de sintra que vay topa na ponte do rio ao mar vaao todalas
quetaães e herdades que ora o dicto gomez Lourenço há em rio de mouro aaller e
aaquê daagoa do dicto rio de mouro e outrossy a aldeã dalgafamy”. (Chancelaria
de Dom Fernando).
O aspecto urbano de Cascais e do
seu termo seria assim uma constante de contradições incluindo no seu seio o
povoamento rural das zonas interiores, as zonas que haviam sofrido maiores
influências islâmicas situadas nas faldas da Serra de Sintra, bem como as zonas
mais urbanas situadas no centro da vila, consolidando assim um quadro
marcadamente ecléctico e de abertura cultural que dará corpo àquilo que tem
sido Cascais ao longo dos anos.
De salientar ainda, neste quadro
daquilo que é a face urbanística de Cascais nos inícios da Idade Moderna, o
povoamento disperso em pequenos casais espalhados aleatoriamente ao longo dos
mitos e pequenos riachos que lhe sulcavam a terra. Este aspecto, como se verá
no desenvolvimento económico concelhio (ver HENRIQUES, João Aníbal, História
Rural Cascalense, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 1997), prenderá a
atenção de Jorge Fernandez, enviado do Rei que, em 19 de Setembro de 1527
elabora o primeiro censo populacional conhecido para esta vila.
segunda-feira
Navio Tokio Spirit Encalhado em Cascais
Sábado, dia 17 de Outubro de
2015. No meio de um imenso temporal, com ventos fortíssimos e o caos instalado
no Concelho de Cascais, o petroleiro “Tokyo Spirit”, das Bahamas e com 274
metros de comprimentos e 78845 toneladas, encalhou junto ao Farol de Santa
Marta. Ao longo dos dois dias em que durou o resgate, no qual participaram
rebocadores vindos de Setúbal e de Sines, o enorme navio foi arrastado para
junto da marina de onde foi retirado no final da tarde de Domingo.
sexta-feira
Figos de Cascais ou Figos de Rabadilha
Reza a lenda que durante o
período de ocupação filipina, o edil de Cascais apoiava a causa dos
usurpadores espanhóis e que traía Portugal…
Ora vivia nesta altura na velha
vila piscatória um judeu velhaco que ocupava os seus dias à procura de
estratagemas para afrontar o poder e para se impor aos grandes senhores que oprimiam
o seu povo. Atencioso, rico e influente, o
dito Judeu começou a enviar diariamente ao edil de Cascais uma bandeja de ouro
com os melhores figos da sua quinta.
Do alto da sua sobranceria, o senhor
de Cascais tomou o acto como um gesto de simpatia muito usual naquela época
para ganhar os favores daqueles que governavam o concelho. E deleitava-se com
os figos oferecidos pelo judeu, não se coibindo de lhes gabar o extraordinário
e único odor que tanto apreciava e que o deixava tão satisfeito.
Mas um dia, quando o judeu foi
preso pela inquisição, foi instado a contar publicamente os seus segredos. E
eis que, para gáudio dos Cascalenses que defendiam a sua pátria contra os
interesses estrangeiros, explicou o estranho e inesperado odor que tanto
agradava ao senhor de Cascais…é que, antes de os enviar ao edil, o judeu
passava-os pelo rabo e era ali que eles ganhavam o aroma que conquistara o
palato do senhor cascalense!
Assim nasceu, com força de uma lição que perdura ao longo
dos séculos, a lenda dos “Figos de Cascais”, popularmente conhecida como a lenda dos “Figos de Rabadilha”.
segunda-feira
A Vocação Turística de Cascais no PDM
Assumir a vocação de Cascais neste processo de revisão do Plano Director Municipal, esforço hercúleo se nos ativermos ao avançado estado de degradação em que se encontra o Concelho e ao facto de esta ser, provavelmente, a última oportunidade para o fazer em termos de recuperação das características principais que deram forma ao sector turístico no território municipal, é assim o desafio que deveria colocar-se aos autores desta proposta. Só assim, com o caminho definido e assumido, é possível aos agentes da nossa cidadania programarem os seus projectos e ideias, consolidando-os a partir das metas que se traçam sobre as orientações que o documento deveria incluir.
A justificação destas escolhas, mais do que em pretensas ideologias ou em princípios, passa pelos factos concretos e pela situação real em que vive o Concelho. A apresentação desses dados, de forma clara e insusceptível de crítica, fundamenta assim a possibilidade de se tornarem incontroversas, por representarem a realidade e assim representarem também Cascais e os cascalenses, as escolhas que se fazem, promovendo o trilhar de um caminho que, quer queiramos quer não, é o caminho mais profícuo para a geração de equilíbrios espontâneos neste Concelho. Muitos movimentos progressistas, que defendem que as antigas localidades devem evoluir abandonando a sua génese urbana e social e assumindo uma urbanidade assente em valores renovados que renegam as suas origens, teimam em apelar aos poderes políticos para que se repensem os fundamentos da orientação teórica subjacente ao PDM. Fazem-no por acreditarem que o futuro e o passado são incompatíveis, numa linha que critica a solidez estrutural de uma comunidade em detrimento de uma permanente movimentação que, segundo eles, é sinónimo de progresso e desenvolvimento.
Ora em Cascais passa-se exactamente o mesmo. Quatro décadas de ambiguidade, contornando regulamentos e planos que pouca ou nenhuma influência real tinham na definição do desenvolvimento municipal, promoveram um clima de profunda desonestidade intelectual que foi responsável por episódios diversos ao nível do urbanismo concelhio que nada dignificam Cascais nem o brio que os Cascalenses sentem pela sua terra.
Mas o grande problema é que, fruto deste marasmo que sempre interessa a alguns, se está a dar razão aos progressistas atrás mencionados. De facto, num clima de transversal anomia que vivemos, faz mais sentido abdicar do antigo e assumir unicamente os caminhos novos que surgem sem vícios e sem vicissitudes. Casos paradigmáticos como o da Amadora, no qual a assunção do seu carácter metropolitano facilitou os serviços, a gestão urbana mas destruiu por completo a identidade do local, mostram que as comunidades locais, mais do que qualquer outra realidade, deverão ser preservadas a todo o custo, uma vez que se assumem como o garante dos equilíbrios sociais internos, promovendo a qualidade de vida, a sociabilidade e a correcta gestão dos recursos.
Assumir este princípio pressupõe assegurar à comunidade valores e determinações que lhe garantam a possibilidade de sobrevivência. Isto passa, como é evidente, pela manutenção da identidade do grupo; pelo reforço das suas prerrogativas; e pela rentabilização das suas necessidades efectivas que deverão ser respondidas de forma a garantir que rentabilizam o próprio processo, sustentando uma modificabilidade que envolve todos os cidadãos. A vocação cosmopolita de Cascais, génese primordial da sua componente turística e de perto de 140 anos de uma História extraordinária associada ao nome e à marca ‘Estoril’, ao contrário daquilo que muitos defendem, foi sempre geradora de processos evolutivos que garantiram modificação e mudança. Esta, no entanto, processou-se sempre com respeito especial pelas preexistências, solidificando assim uma base que, mesmo nos momentos mais problemáticos da vida do Concelho, permitiram sempre a restauração dos equilíbrios e a recriação dos seus valores comunais.
O Plano Director Municipal que agora se revê, em respeito linear por aquilo que desde sempre tem sido o devir histórico no Concelho, deve ser um plano de futuro, reestruturando o presente de forma a condicionar um ritmo de progresso concertado e equilibrado que seja sinónimo de mais e melhor qualidade de vida para os Cascalenses. Mas para que tal aconteça, tem obrigatória e necessariamente de respeitar o passado e de ser capaz de o conhecer, de o entender e de o contextualizar, porque dele depende a continuidade da identidade municipal que é o sustento primordial da vocação municipal.
Como é evidente, do equilíbrio entre estes dois tempos, o que já terminou e aquele que ainda está para vir, depende a capacidade de Cascais usufruir plenamente de um presente audaz, devolvendo a Cascais a capacidade de permanente inovação que fez desta terra um espaço pioneiro em muitos campos ao longo da sua comprida história.
O estabelecimento de normas concretas e orientações definidas, se garantirem a tradução sistemática da vontade e sentir dos cascalenses, promoverá a reconversão integral da sua paisagem e da sua identidade, garantindo uma qualidade de vida que promove a cidadania.
quarta-feira
Quando Estoril era um Destino Turístico de Excelência
Noutros tempos as prioridades eram diferentes. Cascais criou e desenvolveu a marca 'Estoril' queservia de base à sua promoção internacional. O Estoril logo se tornou numa referência mundial em termos de turismo de qualidade e, quando o poder político actual decidiu extingui-lo, era o terceiro destino turístico mais pujante de Portugal... São opções que põem em causa os interesses de Cascais e dos Cascalenses.
segunda-feira
Pedro Rocha dos Santos toma posse como Académico da ALA
O
antigo Director do Centro de Congressos do Estoril, Pedro Rocha dos Santos, foi
empossado como académico da ALA – Academia de Letras e Artes, vendo assim
novamente reconhecido o seu mérito cultural e artístico ao serviço de Cascais e
da marca turística “Costa do Estoril”. Engenheiro de formação, Rocha dos Santos
descende do primeiro presidente da extinta Junta de Turismo da Costa do Estoril
– Engº. Abreu Nunes - e recebeu ao serviço dos Estoris uma série de prémios e
galardões internacionais que o seu mérito na defesa dos interesses turísticos
nacionais. Numa altura em que o poder político aposta na extinção da antiga
marca turística, numa estratégia de destruição completa das raízes e da identidade
de Cascais, é na coragem e na determinação de Pedro Rocha dos Santos que reside
a possibilidade de se reverter esta situação, contornando os interesses
político-partidários que se impõem e devolvendo aos Cascalenses a possibilidade
de defenderem a sua terra. Ao convidá-lo para integrar o seu corpo de académicos,
do qual fazem parte grandes as maiores e mais independentes figuras das artes e
das letras em Portugal, a ALA contribui para a consolidação da cidadania Cascalenses
e para a reafirmação do valor e do interesse que o Estoril teve e ainda tem
enquanto factor qualificador de Cascais enquanto destino turístico de
excelência a nível internacional. Na mesma cerimónia solene também tomaram posse
como Académicos Correspondentes
Nacionais na Classe de Letras o Engº. António Adriano Pais da Rosa, o
Dr. Alfredo Côrte-Real Souto Neves, o Dr. Luís Moura Serra e o Dr. Mário Júlio Gonçalves Cordeiro. Na Classe de Artes, tomaram posse a Drª. Maria Isabel Pinelo Augusto, o Sr.
Cipriano Haroldo Fonseca Oquiniame e o Dr. Francisco Xavier Valeriano de
Sá.
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