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quinta-feira

Palmela e a Identidade de Cascais




por João Aníbal Henriques

Num périplo de deslumbramento pelos cantos e recantos de Cascais, não passa despercebido a ninguém o carácter vincado e onírico da principal casa situada na entrada da vila. A Conceição Velha, reminiscência maior da arquitectura de veraneio, faz parte do legado mítico que a Família Palmela deixou a Cascais e inscreve-se no imaginário colectivo de todos os Cascalenses. É obrigatório que se conheça e reconheça o papel desta importante família na consolidação da Identidade de Cascais e no nascimento da vocação turística municipal.

A Casa Pamela, também conhecida como “Conceição Velha, é uma das mais antigas e importantes construções de veraneio da Vila de Cascais. Mandada construir em 1874 pela terceira Duquesa de Palmela, foi projectada com traço do arquitecto inglês Thomas Henry Wyatt, recuperando os valores estéticos do medievalismo romântico e recriando em Portugal o estilo neogótico que a projecta como expoente máximo da denominada arquitectura de cenário.




Enorme na sua estranha relação com as arribas onde se ergue, a Casa Palmela define-se a partir das memórias do velho Baluarte da Conceição que existia no mesmo lugar e que foi adquirido em 1868 pela Família Palmela ao Estado Português pela módica quantia de 2611$000 Reis. O contrato de aquisição assinado nessa data, condicionava os compradores a manter intacta a linha de fuzilaria que acompanhava a Costa de Cascais, obrigando a que o novo edifício pudesse ser utilizado militarmente em caso de guerra.

A sua volumetria assimétrica, construída em planos diversos que davam a ideia de se tratar de uma casa velha à qual se foram fazendo acrescentos novos ao longo dos séculos, sublinha o carácter laico da construção que, pelo menos nos seus primórdios, nem sequer tinha uma capela que era usual neste tipo de espaços. Wyatt, o artista que se intitulava arquitecto-pintor, recriou na Conceição Velha a força extraordinária dos fundadores da casa, aproveitando a pedra local para erigir este autêntico monumento.




D. Maria Luísa Domingas Eugénia Ana Filomena Josefa Antónia Francisca Sales e Borja de Assis de Paula de Souza Holstein, simultaneamente 3ª Duquesa de Palmela, 3ª Condessa do Calhariz, 2ª Marquesa do Faial e Condessa de Sanfré no Piemonte, foi camareira-mór da Rainha Dona Amélia e a mais importante mecenas de toda a História de Cascais. Para além de ter mandado edificar várias casas com o propósito de as oferecer e assim apoiar os principais artistas do seu tempo, como a Casa Monsalvat, com traço de Raúl Lino, que construiu no Monte Estoril para oferecer ao pianista Alexandre Rey Colaço, ou a Villa Dom Pedro, edificada junto à baía para a escritora Maria Amália Vaz de Carvalho, a duquesa ainda fundou e pagou o Hospital Infantil do Rêgo, as Cozinhas Económicas e Lisboa, a Associação Nacional de Tuberculosos e o Instituto de Socorros a Náufragos.

Bisneta de D. Isabel Juliana de Sousa Coutinho, que passou à História como o “Bichinho da Conta”, por ter resistido muito jovem ao poder extraordinário do Marquês de Pombal que a havia obrigado a casar com quem não queria, e de quem a terceira duquesa herdou certamente a coragem e a determinação, D. Maria Luís de Souza Holstein foi simultaneamente um dos principais pilares do edifício diplomático português depois das Guerras Liberais, papel no qual desenvolveu a sensibilidade artística e estética que a tornarão numa das referências da cerâmica no final do Século XIX e que explicam a excelência extraordinária do legado que deixou em Cascais.




Mercê da enorme influência que teve na instalação da Corte em Cascais, e na definição daquilo que há-de vir a ser a base do charme mítico desta Nossa Terra, a Família Palmela é peça fulcral na consolidação da Identidade Municipal e na definição daquilo que é hoje este recanto tão especial. Merece ser conhecido por todos e reconhecido formalmente e de forma oficial este papel único que a Terceira Duquesa de Palmela em particular e a sua família, de forma mais geral, desempenhou na nossa História.

A bem de Cascais!

quarta-feira

Devolver a Ribeira das Vinhas a Cascais




O Vale da Ribeira das Vinhas, acessível a partir das traseiras do edifício do mercado, foi durante milénios um canal privilegiado de mobilidade para os Cascalenses. Era através dele, quando a vila dependia de forma directa do trabalho árduo e suado dos saloios que exploravam as pequenas unidades agrícolas situada no termo municipal, que chegavam a Cascais os legumes, as frutas e o leite que se produziam nas antigas aldeias rurais do Cobre, Murches, Zambujeiro, Malveira-da-Serra ou Janes. Era também através do caminho de pé-posto que acompanhava o serpentear das águas da ribeira, que as lavadeiras transportavam as roupas dos Cascalenses, num ciclo de interdependência que deu corpo à Identidade Municipal.

Ao nível dos costumes e das tradições, assim como nas crenças, nas práticas religiosas e na Fé, os Cascalenses construíram uma memória colectiva que reproduz um sentimento vivo e arreigado de Cascalidade. E grande parte desses usos e costumes, repetidos de forma reiterada ao longo de centenas de anos, concretizaram-se neste espaço extraordinário.

Paulatinamente abandonadas as pequenas explorações agrícolas que aí existiram até meados da década de 80 do Século passado, o Vale da Ribeira das Vinhas foi perdendo a sua importância no seio da comunidade Cascalense. As memórias antigas que integrava, foram-se apagando na medida em que iam morrendo os Cascalenses antigos que davam vida ao lugar, ao ponto de serem hoje muito poucos aqueles que conhecem este recanto encantado de Cascais.



   
Apesar disso, o Vale da Ribeira das Vinhas é ainda um dos locais de maior potencial para a Nossa Terra. Para além de ser uma via de comunicação acessível e confortável entre o centro da vila e os bairros periféricos, como o Bairro dos Pescadores, o Bairro da Caixa de Previdência, o Bairro da Assunção, a Pampilheira, o Cobre, o Zambujeiro, Murches, Alvide, Bairro Irene ou as Fontaínhas, permitindo transformar uma ida ao mercado, à praia ou à estação numa curta e inesquecível caminhada, o património histórico e natural ali existente, bem como a envolvente antropológica do local, poderiam ser facilmente aproveitados em favor do fomento da nossa identidade.




Assente no pressuposto de que a intervenção a realizar na Ribeira das Vinhas deve assumir um carácter minimalista, reduzindo ao mínimo o investimento público e rentabilizando os muitos equipamentos potenciais que ali subsistem, a nossa proposta passa pela recuperação do antigo caminho pedonal, integrando-o no património edificado ali existente, nomeadamente as azenhas, os moinhos e as várias estruturas agrícolas, complementado com a criação de uma bolsa de hortas urbanas que deveriam ser entregues à população. Nas componentes lúdica, pedagógica e turística, é essencial a recuperação das Grutas de Alvide e a recriação de vários trajectos pedonais e cicláveis associados à participação das escolas, associações juvenis cascalenses e aos agrupamentos de escuteiros.

Em ano de eleições, quando os poderes autárquicos se mostram naturalmente menos crispados perante as sugestões dos Cascalenses, vale a pena reforçar esta nossa proposta, convidando todas e todos os munícipes de Cascais para que literalmente invadam este espaço extraordinário.

A bem de Cascais!

terça-feira

Monte Estoril - Salvar a Identidade Municipal




por João Aníbal Henriques

O deslumbramento onírico que transparece do Monte Estoril, resultante de mais de 130 anos de genialidade promovida por aqueles que ousaram sonhá-lo e construí-lo, assenta na sua monumentalidade e também numa comunidade socialmente coesa que partilha uma identidade arreigada e irrepetível.

O seu plano de desenvolvimento urbanístico, desenhado à priori num exercício perfeitamente inédito no Portugal de então, espelha de sobremaneira a genialidade dos seus vários promotores. Desde José Jorge de Andrade Torrezão, passando por Carlos Anjos e pelo Conde de Moser e mais tarde pela singularidade humanística de figuras como João de Deus Ramos e José Dias Valente, vários foram aqueles que definiram o Monte Estoril que hoje temos.




O traçado das suas ruas, os planos arquitectónicos das suas casas, as espécies vegetais escolhidas para cada jardim, e até a forma como foram construídos os seus muros e definida a sua linha de paisagem, foram algumas das peças que dotaram a localidade de um charme que perdurou de muitas gerações e cujo eco, apesar de tudo, ainda hoje se sente nos recantos encantados que sobreviveram à paulatina destruição.

Tendo sido, desde há muito tempo, alvo da cobiça desmesurada e do despudor dos decisores político-partidários, o Monte Estoril tem vindo a ser delapidado da sua riqueza com grave prejuízo para a Identidade Municipal. 

Com a aprovação e entrada em vigor do novo Plano Director Municipal, em meados de 2015, seria expectável que ficasse definitivamente traçada uma política de salvaguarda que protegesse o Monte Estoril de futuros ataques à sua identidade. Mas não aconteceu assim.

Contrariando a orientação política comum nos países que entendem a importância do património na definição da identidade de um espaço e na qualidade de vida dos seus moradores, o actual PDM limitou de forma extraordinária a listagem de imóveis com importância patrimonial no Monte Estoril, e definiu um parcelamento territorial em unidades designadas como ‘operativas’, cujo resultado principal é já a apreciação casuística de cada projecto que para ali venha a ser apresentado.

O Monte Estoril fica assim, novamente, a depender da vontade, a perspectiva, da sensibilidade e dos conhecimentos de quem decide, sujeito às vicissitudes que nas últimas décadas o têm vindo a destruir progressivamente.



E são muitos os casos que são premente na definição do que se vai fazer no Monte Estoril nos próximos tempos. A construção do novo edifício onde se situava a Discoteca Bauhaus; as ruínas do antigo Hotel Miramar; o projecto de reconversão do Edifício Cruzeiro e a eventual demolição do picadeiro e da antiga sede do Grupo Desportivo Estoril-Praia; a mítica Vila Montrose; a Villa Baía; as cocheiras da Avenida das Acácias; a estação dos correios; a Villa Guarita; a Vivenda São Francisco; ou a Vivenda Boa-Vista; são apenas alguns exemplos de imóveis fundamentais para o futuro do onte Estoril aos quais tudo pode acontecer ao abrigo do novo PDM.




Às entidades oficiais que são responsáveis pelo futuro desta terra essencial para a vocação turística dos Estoris, exige-se agora uma atenção especial a cada um destes projectos. E aos Monte-Estorilenses, pede-se redobrado cuidado relativamente ao que for acontecendo e o reforço da coragem e da determinação que já tantas vezes mostraram possuir.

Porque ainda vale a pena tentar defender o futuro desta tera que herdámos dos nossos avós e que temos a obrigação de legar aos nossos netos. 

quinta-feira

Cascais a Duas Velocidades

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A inauguração da A5, em 1991, modificou radicalmente os equilíbrios urbanos no Concelho de Cascais. O novo eixo viário, cortando longitudinalmente o território municipal, transformou-se numa barreira artificial que literalmente afastou o litoral do interior e produziu duas realidades distintas que desde há mais de 25 anos afectam a qualidade de vida de muitos Cascalenses.

A diferença entre o Cascais do interior e o do litoral é abissal. Depois da inauguração da auto-estrada, a gestão urbanística do território situado a Norte sofreu as consequências do afastamento físico provocado pela mesma e desenvolveu-se a partir de um modelo vivencial marcado pela proliferação das construções clandestinas e pela paulatina destruição dos antigos núcleos urbanos consolidados.

Aldeias como a Abóboda, Quenene, Polima, Trajouce, Tires ou Talaíde, foram completamente desvirtuadas, perdendo a Identidade arreigada que possuíam e desenvolvendo novos reequilíbrios profundamente marcados pela anomia social e por um cenário de caos que se espraiou na degradação da segurança, da mobilidade, da habitação, da saúde, da educação, do património e das demais áreas que se sabe que são indicadores essenciais para a qualidade de vida das populações.

A vocação turística municipal, que era o pilar sustentador do antigo PUCS (Plano de Urbanização da Costa do Sol), foi substituída em 1997 pelo primeiro PDM (Plano Director Municipal), que assumiu a legalização a todo o custo como principal prioridade municipal. E desta maneira, com fundamento legal e suporte político dos partidos que desde então governaram Cascais, praticamente 1/3 do território concelhio foi absorvido pelo desregramento urbano e fez colapsar os últimos resquícios da cidadania Cascalense.

Esquecido por todos ao longo deste tempo, e vivendo numa espécie de clima brando de auto-gestão, o interior de Cascais passou a viver em ciclos de quatro anos. Esquecido pelo poder político durante a maior parte do tempo, era literalmente invadido pelos diversos partidos em época eleitoral, numa lógica de propaganda que ciclicamente o enchia de novas passadeiras, bancos de jardim, semáforos e novos arruamentos, bem como de festas e foguetes para comemorar o sempre propagado “interesse extraordinário pelo interior de Cascais”.


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Com a aprovação do novo PDM em 2015 (Ver AQUI), perdeu-se a grande oportunidade da década para inverter esta situação. Ao invés do que seria de esperar, o novo plano não assume a bipolaridade territorial e, por isso, não projecta uma nova dinâmica que permitiria ir progressivamente invertendo esta dramática situação.

E que fácil seria fazê-lo! Até porque, tal como acontece no litoral, o interior é um espaço  riquíssimo de potencialidades que a generalidade dos Cascalenses desconhece. Do património à paisagem, passando pelo que resta da identidade rural desses espaços antigos e pela pujança empreendedora das suas novas populações, a zona Norte do território Cascalenses possui todas as condições que lhe permitiriam requalificar-se e garantir a todos os cidadãos os mesmos parâmetros de qualidade que algumas zonas mais privilegiadas já têm.

A nível das acessibilidades, seria essencial que existisse um verdadeiro plano municipal de mobilidade. Sem a propaganda política que distorce a realidade, exigir-se-ia que fossem criados verdadeiros corredores cicláveis entre as duas partes, complementando uma rede real de transportes que assumisse a componente de serviço público da sua função, e reaproximasse os munícipes.

Os eixos verdes das ribeiras que transversalmente cruzam o concelho, desde a Ribeira dos Mochos até à Ribeira da Laje, são canais naturais que estão adaptados à situação imposta pela A5 e que, até por isso, poderiam ser rentabilizados de forma integrada num plano municipal que abrangesse as duas realidades de Cascais. No caso da Ribeira das Vinhas, por exemplo, o eixo verde que acompanha o leito é transitável desde o coração da vila até à Barragem do Rio da Mula (Ver AQUI e AQUI), configurando uma verdadeira preciosidade na reformatação social das localidades por onde vai passando.

Ao nível da gestão urbana, seria essencial um recentrar das prioridades de investimento no interior, assumindo uma intervenção de fundo que efectivamente transformasse as legalizações forçadas dos antigos bairros clandestinos em acções verdadeiras de requalificação, aproximando paulatinamente os índices de qualidade urbana de ambas as partes do concelho. Os núcleos patrimoniais mais importantes como FreiriaAlapraiaAlto do Cidreira, ou os Casais Velhos, deveriam ser transformados em fulcro desse investimento, consubstanciando uma política que recuperasse efectivamente a qualidade urbana e que, ao mesmo tempo, promovesse a memória colectiva e a Identidade Municipal.

Como é evidente, uma intervenção nesta linha, que esbatesse a diferenciação negativa que afecta a territorialidade de Cascais, seria um projecto de longa duração. E, por isso, é incompatível com os ciclos eleitorais autárquicos que de quatro em quatro anos subvertem a realidade e impõem interesses terceiros aos interesses legítimos e Cascais e dos Cascalenses.

Mas, num ano em que o céu de Cascais será riscado em permanência pela magia dos foguetes e o ar se vai encher do ribombar dos tambores que acompanharão as muitas festas que se vão fazer, vale a pena apresentar uma vez mais a sugestão, porque dela depende o futuro desta Nossa Terra.

quarta-feira

Armando Vilar – A Força e a Determinação dos Grandes Cascalenses




por João Aníbal Henriques

Cascais sempre foi uma terra especial e diferente. O seu charme resulta da sua inesquecível paisagem e dos extraordinários recantos que tem, mas também do carácter extraordinário das suas gentes. Mas esta diferença, visível nos grandes e nos pequenos acontecimentos que compõem o devir quotidiano da vila e do concelho, assenta na força, na determinação, na coragem e num amor inequívoco por Cascais por parte de alguns munícipes diferentes.

Desde 1364, quando Dom Pedro I a libertou do jugo administrativo de Sintra, que Cascais foi tendo figuras ímpares que, por amor a esta Nossa Terra, se entregaram totalmente à defesa das suas gentes. Alguns eram ricos, outros nem tanto; alguns eram politicamente poderosos, outros eram a antítese disso; alguns possuíam apelidos importantes, outros construíram-nos nestas terras; mas há algo que os define a todos de forma abrangente: a devoção por Cascais e pelos interesses dos Cascalenses.

Neste início de mais um Inverno, quando os dias de Natal já estão tão perto, dedicamos a nossa homenagem especial a um dos maiores Cascalenses de sempre. Armando Penin Gomes Vilar, nascido em Cascais em 1889, foi durante muitas décadas a pedra angular sobre a qual se construiu o Cascais em que vivemos.

Neto de João Gomes Vilar, o proprietário da conhecida Escola do Arco, que se situava na rua que acedia à Praia da Ribeira através de um arco ali existente, Armando Vila fez parte de uma as mais marcantes gerações de Cascalenses. Do seu grupo de colegas que frequentavam a escola do avô, faziam parte João de Avelar Lopes, que mais tarde fundaria o Registo Civil, Guilherme Cardim, fundador da tipografia com o mesmo nome que durante muitas décadas imprimiu quase tudo o que se produzia nesta terra, e Joaquim Nunes Ereira, fundador do Casino Estoril.

Foi aliás este último, que explorava uma casa de jogo situada junto ao mercado velho, quem desafiou Armando Vilar para uma sociedade que haveria de mudar radicalmente a face do velho burgo Cascalense. Depois de lhe ouvir contar os problemas que estava a ter na Câmara Municipal onde trabalhava como amanuense, Nunes Ereira propõe-lhe a criação de uma sociedade com o objectivo de explorarem o jogo nos casinos existentes no Monte Estoril. Juntamente com Guilherme Cardim, Joaquim Ereira e João Aranha, Armando Vilar reorganiza então o jogo no Casino Português, no Casino Internacional do Monte e, mais tarde, depois de arrendarem a Fausto Figueiredo o direito à exploração do jogo no Estoril, no primeiro casino construído no Parque Estoril.

A Sociedade Estoril Plage, ainda hoje existente e primeiro motor da actual Marina de Cascais, do Golfe do Estoril, das Termas do Estoril e de vários dos mais emblemáticos hotéis da região, nascia assim dando corpo ao desenvolvimento da marca internacional ‘Estoril’ e com ela ao nascimento da vocação turística municipal de Cascais.

Tendo sido dinamizador do Casino Estoril, Vilar foi um dos mais activos dirigentes da Junta de Turismo do Estoril, na qual, com Abreu Nunes, deu forma a várias décadas de propaganda que levaram a todo o Mundo o prestígio do Estoril e cujo sucesso marcou definitivamente o assumir de Cascais como principal gerador do turismo Português. Nesse âmbito, foi também fundador e Presidente da Sociedade Propaganda de Cascais, do Clube Naval de Cascais e de muitas outras instituições da sociedade civil.




Mas não foi só no jogo que Armando Vilar contribuiu para a construção da Nossa Terra. Depois de ter adquirido a Quinta das Patinhas e uma parte substancial dos terrenos situados no Vale da Ribeira das Vinhas, Armando Vilar recentrou as suas atenções no apoio aos mais desprotegidos e a todos os desfavorecidos pela sorte que abundavam nesta terra.

Conselheiro Municipal durante muitos anos, intervindo directamente na política de requalificação da habitação dos mais humildes cascalenses, foi um dos impulsionadores do movimento que levou à construção dos primeiros bairros sociais de Cascais que, com mote bem diferente do que hoje temos, pretendiam assegurar condições de vida condignas a todos os munícipes através de campanhas de sensibilização e recolha de fundos que envolviam todos os Cascalenses.

Na sua faceta social, foi um dos mais marcantes provedores da Santa Casa da Misericórdia de Cascais, onde durante mais de duas décadas tudo fez para dotar a vila de toda a espécie de equipamentos. Foi a sua entrega à defesa intransigente de Cascais que permitiu a construção da Praça de Touros, do Hospital dos Condes de Castro Guimarães, e de muitas escolas, creches e equipamentos de apoio aos mais desfavorecidos que literalmente mudaram a face do Cascais do seu tempo.

Quando faleceu em 1989, já com cem anos feitos, Armando Vilar era ainda um dos mais activos defensores da Nossa Terra. Garboso no seu porte de grande senhor de Cascais, continuava a intervir amiúde na defesa dos interesses das suas gentes, mantendo a coragem e a força que tinha utilizado quando tinha vinte anos para orientar esta terra.

Armando Penin Gomes Vilar deixou-nos há já 27 anos mas, em cada canto e recanto de Cascais subsistem as memórias extraordinárias de quem ele foi e daquilo que fez. Apesar de ter sido agraciado com várias distinções importantes, como a Comenda da Benemerência, o grau de Oficial da Ordem de Cristo, a Medalha de Dedicação da Cruz Vermelha Portuguesa ou a Comenda de Mérito Civil de Espanha, importa relembrar às gerações vindouras a importância que teve na definição da Memória Colectiva e da Identidade Municipal dos Cascalenses.

No seu inultrapassável “Cascais Menino”, Pedro Falcão referia-se a Armando Vilar dizendo que “era de gente desta que nós precisávamos para orientar e defender a Nossa Terra…

E tinha razão. Cada vez mais à medida em que os anos vão passando.

A bem de Cascais!

sexta-feira

A Capela de Murches na Lenda de Santa Iria




por João Aníbal Henriques

Sendo certa que é ancestral a origem do culto devocional a Santa Iria, também conhecida como Santa Irene, na localidade de Murches, em Cascais, não se conhecem com exactidão os seus primeiros passos. Sabe-se, no entanto, que o culto se estende ao período pré-Cristão, profundamente marcado pelo devir agrícola e pastoril das comunidades antigas que viveram no actual território Cascalense, e paulatinamente adaptado às circunstâncias e à passagem do tempo.

A actual Capela de Murches, com o seu estilo chão e inserida na tipologia própria das construções de génese rural, será provavelmente do Século XVI ou XVII, tendo sofrido alterações menores a partir de meados do século seguinte. Mas, apesar disso, e tal como acontece com todos os pontos axiais da religiosidade municipal de Cascais, terá provavelmente reaproveitado o local sagrado onde foi construída, ocupando o espaço onde teria existido um templo anterior. Ainda é possível ver, no remate da fachada Norte do edifício actual, os vestígios desses reaproveitamentos e, embora sem a monumentalidade que a ruralidade local impede, serão resultado do isolamento em que Murches, desde tempos remotos, sempre sentiu em relação à sede e ao litoral do Concelho.

É, no entanto, a ruralidade agro-pastoril das terras de Murches, que marca de forma indelével a evolução social nesta localidade e a devoção religiosa das suas gentes a Santa Iria. A dependência dos ciclos da natureza, complementada com a pobreza dos solos e uma existência de base pastoril na qual a transumância assume especial importância, determinaram a ligação à Santa de Tomar, que protege o gado, garante os mananciais de água e defende aqueles que dependem dela.




De acordo com a lenda, Santa Iria terá nascido em Tomar, algures em tempo indeterminado, filha de um casal nobre da antiga Nabância. Com um rosto maravilhoso e uma beleza verdadeiramente incandescente, Iria desde cedo foi assediada por toda a espécie de homens da região, a todos tendo resistido estoicamente com a mesma perseverança. Questionada por seus pais acerca de quem iria escolher, a jovem responde que é sua intenção entregar-se totalmente a Deus e fazer votos num mosteiro ali existente, virando definitivamente as costas ao Mundo e às suas gentes. Mesmo duvidando das suas palavras, os pais da menina fizeram-na entrar no mosteiro de monjas beneditinas existe em Sélium, onde se cumpriu a sua suprema vontade.

Mas o Mundo, que Iria quis esquecer durante os dias e noites de mortificação passadas dentro das paredes frias do mosteiro, nunca esqueceu a beleza extraordinária da rapariga e, apesar dos seus votos, foram muitos os que continuaram a tentar conquistá-la, mesmo se para isso tivessem de assaltar o espaço e deturpar o odor de santidade que se sentia lá dentro.

O mais assíduo dos seus apaixonados terá sido um tal Britaldo, galante senhor da região de Tomar, que tudo terá feito para seduzir a jovem monja. Ela, no entanto, nunca cedeu à tentação e, reforçando a sua Fé, foi sempre afastando este e outros admiradores que permanentemente cercavam o mosteiro.
Farto de tanto assédio, e certo de que a paz interna só seria reposta com a saída da rapariga, o Monge Remígio, Director Espiritual de Iria, deu-lhe a beber um medicamento preparado com ervas que tinha como objectivo fazer-lhe inchar a barriga e, dessa maneira, criar o pretexto para a sua expulsão do mosteiro. E assim aconteceu. Iria adoeceu gravemente e, apesar da sua inocência, foi deitada porta fora e sujeita às inclemências do tempo e da natureza e, mais importante ainda, às investidas maldosas de todos aqueles que desejavam desposá-la a ela.




O nobre Britaldo, quando soube da expulsão de Iria e do seu estado de gravidez, não acreditou na sua inocência e, despeitado por ter sido preterido perante outro qualquer pretendente, mandou assassina-la e atirar o seu corpo às águas do Rio Nabão.

Muitos séculos depois, durante o reinado de Dom Dinis, terá sido a Rainha Santa Isabel, a alquimista, quem encontrou os restos mortais da pobre mártir nabantina. O corpo da menina, tendo sido transportado pela corrente até ao Rio Zêzere, e dali até ao grosso causal do Rio Tejo, foi encontrado pela Rainha Santa durante uma das suas estadias no Ribatejo.  E, para sua surpresa e gáudio de todos, o corpo de Santa Iria estava totalmente incorrupto, preservado pelas areias do rio e pela vontade de Deus. O local onde o corpo foi encontrado passou a chamar-se Santa Iria e a grande cidade que existia nas redondezas tomou o nome de Santarém (corruptela de Santa Iria – ou Santa Irene).




Profundamente ligada aos cultos pagãos da água e da fertilidade a ela associada, Santa Iria transforma-se na figura angular sobre a qual se procede à cristianização de grande parte das mais importantes zonas do actual território Português. Nabanus, a divindade pagã que dá nome à Nabância onde a santa nasceu, relaciona-se precisamente com o poder regenerador das águas e com a sua ligação espiritual à purificação da humanidade, factor que rapidamente se estende, por intervenção directa da Rainha Alquimista de Portugal, a outras zonas do País. Em Fátima, por exemplo, o local onde Nossa Senhora apareceu em 1917 chama-se Cova da Iria e, em Cascais, é nas margens da Ribeira da Marmeleira, principal veio de água que desce da Serra da Lua – Cynthia - para saciar Cascais, que a dita capela com dedicatória à santa acaba por ser erguida.

Santa Iria de Murches, a divindade antiquíssima cuja intercessão garante água e fertilidade aos Cascalenses, é assim motivação maior para uma visita a um dos recantos mais encantados do Concelho de Cascais, num preito de homenagem a uma Identidade cujas origens se perdem nas brumas do tempo.

segunda-feira

A Casa Sommer em Cascais




por João Aníbal Henriques


Parte integrante do imaginário urbano da Vila de Cascais, a Casa Sommer, no espaço da antiga Parada, é uma das peças mais importantes e significativas do património cascalense. Em estado avançado de degradação há demasiados anos, foi adquirida pela Autarquia e adaptada para instalar o Arquivo Histórico Municipal. Na sua futura função de guardiã das memórias municipais, mas também enquanto elemento singular na definição da Identidade Cascalense, a Casa Sommer é um excelente exemplo do que pode e deve fazer-se nesta Nossa Terra.


Romântica pelo seu enquadramento urbanístico nos terrenos fronteiros à antiga Parada de Cascais e neoclássica pela formulação arquitectónica que compõe a sua fachada e estrutura decorativa, a Casa Sommer, em Cascais, é um dos monumentos mais significantes na definição do que foi a Vila no período em que foi edificada.

Mandada construir por Henrique de Sommer, algures entre o final do Século XIX e o início do Século XX, o imóvel acompanha em termos estéticos a evolução dos modelos construtivos que caracterizaram a Vila de Cascais durante essa época. Apesar do seu cunho cenográfico, a casa repõe uma linha arquitectónica mais séria e funcional que vai esbatendo progressivamente os cunhos oníricos do romantismo de alguns anos atrás.

O apelo aos valores do classicismo, bem visíveis, por exemplo, no pórtico de entrada da moradia, traduz as alterações que estavam a acontecer no paradigma social do Cascais de então. Depois da instalação do Rei Dom Luís e da Corte, em 1870, que trouxe para Cascais aqueles que virão a ser os alicerces de uma nova sociedade em Portugal, as casas e os espaços públicos passam a desempenhar um papel importante enquanto elementos de afirmação e reconhecimento social. Com a chegada do novo século, associado à indefinição política que virá a servir de mote para a posterior implantação da república, cria-se um espaço alternativo no qual se encaixam os valores renovados de uma elite empreendedora para quem o sangue mais não é do que elemento que ajuda a reforçar o seu reconhecimento funcional.

O sucesso empresarial de Henrique Sommer, profundamente ligado à indústria do ferro e dos cimentos, enquadra-se já numa nova dinâmica de modernização do País, alheia aos valores antiquados que haviam servido de mola propulsora ao nascimento do Cascais Real. A casa que mandou construir num dos mais nobres locais da vila, cenograficamente impactante, é por isso um misto de testemunho e de prova, sustentando aquele que virá a ser o devir histórico que alterará profundamente a vida de Cascais, abrindo caminho para o despertar dos primeiros movimentos nacionalistas e para o nascimento da posterior vocação turística municipal.

A afirmação, num contexto em que a componente familiar assume primordial importância, surge associada de forma muito próxima aos critérios de construção utilizados na época, facto que explica a singularidade deste edifício no contexto patrimonial da vila de Cascais.




Numa época em que Cascais assiste impávido à destruição paulatina dos seus principais valores patrimoniais, com a desagregação dos núcleos urbanos identitariamente fundamentais, como é o caso do Monte Estoril e dos principais núcleos rurais que ainda subsistem no território municipal, a recuperação da Casa Sommer é uma excelente notícia que, contrariando a prática em curso, defende a memória local e promove a identidade municipal.

Resta esperar que este bom exemplo se transforme no cadinho que dará forma às muitas intervenções que num futuro próximo vão acontecer na Nossa Terra. 

quarta-feira

A Lenda da Boca do Inferno




por João Aníbal Henriques

A dicotomia entre o mal e o bem, num jogo em que as memórias efectivas se misturam amiúde com as entoações próprias dos sonhos, assume especial importância na Boca do Inferno, em Cascais, um recanto encantado no qual se conjuga uma paisagem extraordinária com uma inesquecível história.

Diz a lenda que naquelas paragens, num castelo cujas memórias pétreas nunca chegaram a olhos humanos, vivia um gigante maligno que padecia do maior dos males que afectam a humanidade: o amor. Profundamente apaixonado por uma donzela maravilhosa que não o correspondia, resolveu tomar medidas drásticas e consumar o seu amor de forma subliminar. Montado no seu cavalo, atacou o palácio onde a donzela vivia com o seu pai e raptou-a levando-a para o seu castelo de Cascais.




A donzela, apaixonada por seu turno por um ilustre cavaleiro que há muito a cortejava, não cedeu às intenções do gigante. E este, para apaziguar o seu ímpeto, fechou-a no alto da maior torre do seu castelo, prendendo-a até que ela se convencesse da necessidade de claudicar ao amor que ele lhe queria dar.

Mas o noivo apaixonado, tomado da força que só o amor consegue despoletar, insinuou-se no castelo e conseguiu libertou a sua amada, fugindo dali numa cavalgada desenfreada no seu magnífico cavalo branco que quase parecia voar.



O gigante, quando deu conta da fuga da donzela ficou furioso. Com artes mágicas que só ele conhecia e os ímpetos malignos que a fúria imensa havia despertado, lançou uma praga sobre os fugitivos e sobre eles fez crescer uma enorme tempestade.

Apanhados pela intempérie nuns rochedos junto ao mar, o casal de apaixonados tudo fez para conseguir fugir da influência do seu maléfico perseguidor. Mas, provocando um sismo que partiu as arribas e fendeu o chão, o gigante fez abrir sob os seus pés um enorme buraco onde ambos caíram com o seu cavalo e onde desapareceram para sempre sem eixar rasto.

Estava aberta a porta para o inferno e esta jamais se voltaria a fechar…


Nossa Senhora da Guia em Cascais



por João Aníbal Henriques

As inconsistências do mar, profundamente enraizadas nos arquétipos primordiais da vida dos Cascalenses, marcaram de forma muito evidente o devir histórico da comunidade. Os desafios enormes que o mar carrega, seja para pescadores ou seja para as suas famílias, congregam em si a necessidade de recriar formas alternativas de o entender, de o perceber e de o controlar.

Os mitos marítimos, quase sempre presos de forma onírica aos principais pesadelos que flagelaram o dia-a-dia de Cascais, são parte integrante da Identidade Municipal, neles se compondo os alicerces da sua vivência simbólica e sagrada.




Nossa Senhora da Guia, situada num promontório localizado à saída de Cascais em direcção ao Guincho, foi sempre um dos pilares da expressão de Fé dos Cascalenses. Venerada desde tempos ancestrais, numa dinâmica de culto que dava destaque principal à peregrinação anual que para ali trazia milhares de forasteiros oriundos das mais diversas partes do País, a imagem da Senhora a Guia resulta necessariamente da existência prévia do farol e do registo traiçoeiro que o mar impõe naquele recanto natural.

De facto, as mais antigas notas históricas referentes a este lugar mencionam a existência de um farol nos rochedos situados à entrada de Cascais. É crível, desta maneira, que pelo menos desde o início da epopeia marítima Portuguesa, tivesse existido neste sítio um farol que garantisse segurança àqueles que navegavam por aquelas perigosas águas. Assim, a designação da Senhora da Guia, ou seja, da imagem que foi encontrada no local onde se estava o farol com o mesmo nome, terá resultado da apropriação geográfica da figura e não, como as Memórias Paroquiais do Século VIII deixa subentendido, ao contrário.

De qualquer maneira, são várias as lendas acerca do surgimento desta ermida e do culto à Senhora da Guia que proliferam no imaginário de Cascais. As mais antigas, relacionam-se com as figuras de Nossa Senhora que foram encontradas nas águas de Cascais. Quase sempre interpretadas como sendo da Senhora da Graça, foram veneradas pelo seu carácter miraculoso, atestado por diversos acontecimentos que se foram sucedendo no burgo piscatório de Cascais.




Frei Agostinho de Santa Maria, na sua obra “Santuário Mariano”, publicada em 1770, refere expressamente a origem ancestral do culto a Nossa Senhora da Guia neste local. No entanto, associa-o de forma directa à relação existente entre uma nascente de água que terá existido no local onde hoje se encontra a ermida, estabelecendo assim uma relação entre os mais antigos cultos de fertilidade que proliferaram durante a Pré-História do actual território Cascalense e a devoção mariana posteriormente estabelecida no mesmo local. Num exercício de sapiência que subjaz dos seus conhecimentos no âmbito da geometria sagrada, vai mesmo ao ponto de interpretar os sinais das pedras que existiam no espaço da fonte, para com base neles estabelecer de forma criteriosa a natureza primordial do ritual Cascalense: “Ao pé da rocha que fica na Praia de Cascais está uma fonte; e é constante tradição entre as pessoas daquela vila que nela apareceu a Senhora da Guia. E ainda querem comprovar esta tradição com uma pedra da mesma fonte, na qual se vê uma pegada, que dizem ser de Nossa Senhora, que por tal ainda hoje é venerada e lhe chamam a pegada de Nossa Senhora. E juntamente se vê também na mesma pedra uma coroa esculpida; se foi pela natureza, para que também esta manifesta que ela é a Rainha do Céu e da Terra, ou feita artificialmente se não sabe dizer nada. Esta é a tradição”.




Embora de âmbito cronológico mais tardia, uma segunda lenda marca de forma assaz curiosa a relação entre Nossa Senhora da Guia e Cascais. Como refere Ferreira de Andrade na monografia que publicou aquando da comemoração do sexto centenário da elevação de Cascais à condição de vila independente de Sintra, o principal factor motivador do incremento do culto devocional à Virgem da Guia, depois de nele se ter integrado a romagem anual promovida pelos comerciantes de Lisboa a partir do Século XVII, foi uma história acontecida com o antigo cirurgião-mor do Regimento de Cascais, José Gomes de Cenas, que em criança terá sido raptado da casa de seus pais na Vila de Cascais. Não se sabendo o que lhe aconteceu, o seu desaparecimento causou pânico e estupefacção na vila, tendo levantado todo o povo na busca do menino. Passados alguns dias, quando a esperança de o encontrar vivo já não existia, alguém terá ouvido gritos que vinham das profundezas da arriba na zona da Guia, ali tendo encontrado, depois de lá chegarem vindos por mar, o menino são e salvo que desesperadamente tentava sair. Questionado sobre o que tinha acontecido e como tinha ido possível sobreviver sem comida nem água durante tanto tempo, o menino terá respondido que foi transportado para aquele buraco por umas bruxas de Cascais que para ali o levaram voando. E quando à alimentação, disse simplesmente que diariamente uma senhora muito bonita lhe levava sopinhas de cravos para ele comer. Retirado do buraco e levado para a pequena ermida da Senhora a Guia, então já ali existente, a criança terá olhado para a imagem de Nossa Senhora e terá dito aos pais que tinha sido aquela a senhora que o tinha ajudado a sobreviver!




A partir desse momento, e até ao desastre provocado pelo terramoto de 1755, a Senhora da Guia viu crescer de forma desmesurada a devoção, facto que se traduziu numa romagem anual, na mesma época das comemorações do Espírito-Santo Cascalense, que levava à Guia milhares de peregrinos que chegavam de Lisboa e de Sintra.

A romagem, organizada pela Irmandade de Nossa Senhora da Guia, criada por iniciativa dos vereadores da Câmara Municipal de Lisboa que, em 1522 assinaram o compromisso da irmandade, integrava plenamente o simbolismo associado aos milagres que o agiológio mariano consagrava. Serão certamente dessa época, construídos para dar resposta à demanda que o lugar gerava junto de gente vinda de muito longe e de diversas partes de Portugal, os cómodos da hospedaria que envolvia a ermida. Existentes já em 1758, quando as Memórias Paroquiais a referem expressamente, a Hospedaria de Nossa Senhora da Guia ainda hoje pode ser vista adossada a Nascente do templo
.
As cantarias manuelinas das suas portas, bem como sepultura de António Ribeiro da Fonseca, com data de 1577, que existe no seu interior, denotam origem mais antiga, deixando antever as várias campanhas de obras, de remodelações e de reconstruções de que foi alvo ao longo dos séculos.




Em 1810, quando finalmente terminaram as obras de recuperação da ermida e do farol depois dos estragos causados pelo terramoto, foi colocada sobre a porta principal um painel com as armas reais e a data em questão, que complementa, em termos decorativos, os magníficos painéis de azulejos existentes no seu interior. A “Adoração dos Pastores” e a “Adoração dos Reis Magos”, de origem indeterminada mas certamente muito anterior àquela que consta na dita pedra armoriada, compõe o espólio interno da ermida, numa expressão rebuscada que contrastava com a singeleza do local.

Perdida a devoção a partir do início do Século XX, quando a secularização da vida nacional determinada em termos políticos a partir da implantação da república a isso obrigou, a Ermida de Nossa Senhora a Guia foi perdendo importância na definição das tradições Cascalenses.

Apesar de tudo, é local inultrapassável numa visita a Cascais, até porque ali se sente ainda o perfume agregador da Fé mariana na definição identitária municipal.

terça-feira

São José da Parede na Dinâmica Urbanística de Cascais




por João Aníbal Henriques

A gestão dos critérios urbanísticos numa determinada localidade, mais do que o resultado de uma prática projectada de antemão, é usualmente a consequência mais visível do devir político e comunitário dos seus habitantes.

Quando a comunidade é activa e pragmática no estabelecimento das prioridades que hão-de definir o seu espaço, temos como resultado um menor peso do poder político central e, como consequência, uma maior liberdade de critérios de construção e decoração. Quando a isso juntamos um afastamento geográfico relativamente ao poder decisor, aumenta ainda mais a autonomia comunitária e alarga-se o espectro de soluções que hão-de espelhar-se no cenário urbano que se cria em seu torno.

Um dos exemplos mais paradigmáticos desta situação, é o da Vila da Parede, no Concelho de Cascais, ou seja, uma localidade nascida no útero de periferia suburbana de Lisboa, marcada desde sempre pela negligência ao nível das instituições municipais e Nacionais, e profundamente constrangida pela necessidade de se auto-definir ao nível do seu carácter comunitário.

Nascida de forma enquadrável nos modelos evolutivos mediterrâneos, a Parede até no seu topónimo deixa antever uma necessidade de afirmação que resulta do processo histórico da sua concretização.




Muito embora só exista, em termos institucionais desde o início do século XX, a localidade da Parede, cabeça da antiga Freguesia, resulta teoricamente da evolução de uma existência que havia sido marcada pela aldeia de Cai-Água (hoje São Pedro do Estoril) e essa, por seu turno, marcada também pela existência de diversas comunidades pré-históricas que utilizaram o seu espaço. Em termos práticos, no entanto, e tal como o comprova o levantamento patrimonial Cascalense (ver HENRIQUES, João Aníbal, Levantamento Exaustivo do Património Cascalense, Cascais, Fundação Cascais, 2000), não existem praticamente laços de união entre as duas realidades, uma vez que, a moderna Parede, de cariz republicano e revolucionário, e assumidamente a mais proletária de todas as localidades do concelho de Cascais, é uma realidade que resulta da chegada dos novos habitantes pré-industriais que para ali vão trazer um sentimento de suburbanidade que a antiga aldeia rural não conhecia. Os paredenses, hoje entendidos como parte integrante, a todos os níveis da vivência cascalense, foram, durante várias décadas, o resultado da existência de uma comunidade proletária em que o estabelecimento urbano se alicerçou nos princípios, nas orientações e nas motivações que anteriormente mencionámos.

Em termos físicos, com base na divisão dos terrenos que faziam parte das grandes quintas que o Comandante Nunes da mata ali adquiriu para mandar edificar, a preços módicos e acessíveis, uma nova povoação que correspondesse às necessidades efectivas da classe trabalhadora que não suportava habitar na cidade de Lisboa, onde os preços das acessibilidades eram pagos com valores que eles não podiam aguentar, a Parede do século XX conhece a auto-construção como forma eminente de se urbanizar. As velhas azenhas e moinhos, colocados estrategicamente para receberem sem encargos de maior os produtos agrícolas do interior do território, e para poderem enviar apara Lisboa as farinhas após terem sido manufacturadas, deixaram de fazer sentido num espaço onde todos eram iguais e onde todos sabiam fazer o mesmo. Os operários que se instalaram na Parede, oriundos de muitas partes do país, e observando o mesmo ritual quotidiano de utilização do comboio para chegar à capital, tornaram obsoleta a economia tradicional deste espaço, facto que obrigou a que se destruísse quase todo o parque habitacional antigo e tradicional, que hoje praticamente é impossível observar no interior da localidade da Parede, e o substituísse pelas novas casas de cariz operário e burguês, que seguiram quase à risca, as orientações apontadas por Leontidou.




Estas novas edificações, longe de seguirem os modelos desde sempre utilizados pela tradicionalidade local, impuseram-se através da diferença, fazendo apelo a formulações estéticas e decorativas que permitiam a utilização de muitas das bases culturais que traziam das suas terras de origem, e que eram sistematicamente adaptados à nova vivência de conjunto que aqui procuravam estabelecer. Vivendas como a do ‘Gato’, bastante próxima do centro da urbanidade paredense, são exemplos paradigmáticos da forma como a utilização decorativa de novas formulações, acaba por influir na capacidade de efectivarem, através do cunho artístico pessoal dos seus criadores, uma afirmação pessoal e comunitária da qual depende o próprio nascimento da povoação.

De facto, se nos ativermos às necessidades culturais da população, depressa compreenderemos a importância que assume a possibilidade de, através da decoração das suas casas, ganharem uma forma de afirmação que está em consonância com tudo aquilo que é o espírito que enforma o nascimento da institucionalidade e do poder da própria povoação. As casas, espelho muito fiel do sentir cultural de cada um dos seus habitantes, são, no seu conjunto um misto da harmonia que resulta da afirmação pessoal dos diferentes tipos de comunidade que ali habitam, com a heterogeneidade que marca a diferença que entre eles, de uma forma permanente e quase imutável, se vai efectivando.

A nível da estrutura urbana, ou seja, da forma como se dispõem os edifícios no seio da complexidade real que resulta da necessidade de se conseguir, na teia emaranhada de edifícios que compõem as diversas ruas marcadas pela construção não-planificada, discernir linhas orientadoras que promovam o entendimento sobre as bases culturais que a enformam, é possível perceber que existe uma competição básica, de âmbito individual, dela resultando a grande maioria das orientações que agregam as casas, a sua decoração, e os próprios quarteirões onde se inserem.




Desta forma, ao nível da visibilidade e do ordenamento do território, no seio de todas as incongruências que caracterizam a falta de plano e de previsão urbana, é possível encontrar linhas mestras, em que a colocação espacial de cada edifício, mais do que propriamente a sua localização paisagística ou as acessibilidades, é definidora dos fundamentos que regem as relações sociais. Esta situação, assaz curiosa se entendermos que no seio destas povoações a visibilidade da casa, muitas vezes construída num interstício sem quaisquer condições, é mais significante do que a própria qualidade da sua construção ou as vistas que dela se fruem, permite-nos ainda perceber qual é, verdadeiramente, a importância que a imagem e, logo, a própria decoração, exercem sobre aqueles que a constroem.

Na Parede, cada canto e recanto reflecte esta vivência profundamente sentido daqueles que construíram a povoação. Com uma aparência erudita nas suas zonas nobres e a singeleza decorativa mais simples nas zonas marcadas pelo desfavorecimento sócio-cultural, a vila define parâmetros de urbanidade que dão corpo à sua existência.




Para compreender o que é hoje a Parede em termos patrimoniais, importa perceber quais são as principais linhas definidoras da sua evolução histórica, nelas congregando tudo aquilo que contribuiu para a gestão dos equilíbrios sociais que tornaram possível a sua sobrevivência histórica. Por isso, é essencial a capacidade de ver para além da monumentalidade que o património por vezes exige, para se encontrar, quantas vezes perdido algures num laivo de excelência perdida no contra-forte de um qualquer muro de suporte, a informação que é necessária para entender a organização social a comunidade.

A Vila da Parede, suficientemente longe do exercício do poder para sonhar com a verdadeira expressão da liberdade, mas também demasiadamente importante para poder subtrair-se à evolução histórica de Cascais e da Região de Lisboa, é exemplo paradigmática da excelência urbanística, representando um papel fundamental na definição da Identidade Municipal de Cascais.

segunda-feira

O Lago da Praia do Guincho em Cascais




A acumulação anormal de pluviosidade, em conjunto com o crescimento das dunas, criou um cenário onírico na Praia do Guincho. O lago que ali nasceu, em Dezembro de 2016, deslumbrante no contraste entre o céu, a serra e o mar, compõe um postal extraordinário que ficará na memória de Cascais e dos Cascalenses.







sexta-feira

O Círio de Nossa Senhora do Cabo na Paróquia de Cascais




por João Aníbal Henriques

Depois de um interregno de mais de 50 anos desde a sua última visita a Cascais, a Veneranda Imagem Peregrina de Nossa Senhora do Cabo regressou à Nossa Terra, no ano de 2002-2003 retomando assim o milenar Círio Saloio do Cabo Espichel.

A iniciativa do então Prior de Cascais, Padre Raul Cassis Cardoso, foi essencial para a recriação daquela que é uma das mais antigas tradições Cascalenses. Numa parceria com a Sociedade Propaganda de Cascais, que nessa altura assumiu a responsabilidade de recuperar a memória ancestral daquele importante acto devocional, foi possível reconstituir os rituais que a passagem do tempo havia feito esquecer e recriar toda uma existência religiosa que há muito tempo não existia nesta Freguesia.




Para o êxito desta iniciativa, que consolidou de forma efectiva a Identidade Cascalense, foi essencial o trabalho conjunto e o apoio da então Câmara Municipal de Cascais, presidida pelo Dr. António Capucho, da Junta de Freguesia de Cascais, Presidida por Pedro Silva, e da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Cascais. Mas, acima de tudo, foi de primordial importância a forma extraordinariamente empenhada e motivada que caracterizou a participação dos cascalenses e das diversas instituições da sociedade civil de então nas muitas cerimónias que fizeram parte deste Círio.




O Círio de Nossa Senhora do Cabo Espichel, expressão ancestral de uma devoção profundamente ligada à terra e à sobrevivência das comunidades dela dependentes, recupera a antiga lenda do aparecimento de Nossa Senhora a um saloio de Alcabideche precisamente no ponto de ligação entre Cascais e Sintra. O investigador Vítor Adrião, no seu livro “Sintra Serra Sagrada”, aponta expressamente a sobreposição simbólica do Cabo Espichel, promontório sagrado da Portugalidade, à imagem ideal do Monte Carmelo, eixo de Fé da comunidade religiosa carmelita que em Cascais veio ocupar e dinamizar o antigo Convento de Nossa Senhora da Piedade e que, dessa forma, congregou as mais sublimes expressões da sabedoria sagrada na comunidade Cascalense. Diz Adrião que “os dogmas teologais terão servido, tão só, de capa protectora, ante o vulgo profano, ao entendimento iluminado da Sabedoria Divina oculta dentro das paredes pias deste Colégio de Filosofia, esta que é, sabe-se, o umbral dialéctico da Teosofia”.


O Círio Sagrado de Nossa Senhora do Cabo, profundamente sentido pela comunidade cascalense, insere-se assim numa dinâmica de Fé da qual depende a existência efectiva dos mais ancestrais arquétipos de pensamento de Cascais. É essa ligação, quantas vezes menosprezada ao longo da História mais recente desta terra, que determina e possibilita a criação e desenvolvimento dos laços essenciais de cidadania comunitária na Nossa Terra.




A memória colectiva de Cascais, em 2002-2003 como em todas as outras vezes em que a Imagem de Nossa Senhora do Cabo por aqui passou, ficou profundamente marcada por este acontecimento que só se repetirá, no âmbito da concretização da praxis determinada pelo ancestral círio saloio, em 2032. Nessa altura, recuperando as memórias calorosas que marcaram o início do Século XXI e o despontar do novo milénio, Cascais renovará os votos de Fé e devoção que marcaram sempre a sua História, reforçando os vínculos de cidadania que esta última visita de Nossa Senhora do Cabo foi capaz de fazer renascer.

A bem de Cascais!

Fotografias da autoria de Sara Liberdade