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terça-feira

Padre Raúl Cassis Cardoso (1928-2019)



Figura marcantíssima, interveniente, controversa e sempre presente na História recente de Cascais, faleceu hoje, aos 90 anos de idade, o Padre Raúl Cassis Cardoso.

Nascido no Distrito de Santarém, o Padre Raul foi ordenado Sacerdote em 1952 pelo então Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira e, depois de um périplo pelas Paróquias de Carregueiros, Pedreira, Calhandriz e Alverca do Ribatejo, assumiu a liderança da Paróquia de Cascais em 1970, ainda na juventude dos seus 41 anos. Durante os que 4 décadas em que esteve em Cascais, o Padre Raúl foi responsável pela dinamização generalizada da Paróquia local, tendo sido o motor principal de muitos dos movimentos paroquiais que deram forma ao Cascais que hoje temos.

 Activo e sempre interveniente, nem sempre de trato fácil quando em causa estavam as suas mais profundas convicções, foi líder espiritual de uma comunidade que nele se reviu durante muitos anos e cujo exemplo motivou as vidas de quase todos aqueles que com eles tiveram a sorte de se cruzar. Quando em 2008 deixou a liderança da Paróquia de Cascais, e se retirou para aqueles que seriam os seus últimos anos de vida, o Padre Raúl manteve-se permanentemente bem vivo na memória de milhares de Cascalenses que recordavam com saudade a sua dedicação à Igreja e à comunidade local. 

Ainda há pouco tempo, quando a atribuição de um topónimo com o nome de um dos seus antecessores a um arruamento na Freguesia de Cascais o fez regressar à terra onde trabalhou durante tantos anos, foi com amizade que a comunidade local o recebeu, enchendo com o carinho de um familiar muito próximo os ânimos daqueles que tiveram a oportunidade de com ele conviver.

O Padre Raúl Cassis Cardoso marcou Cascais, a Paróquia que tão bem dirigiu e a vida de centenas de crianças (hoje adultos) que dele receberam as primeiras orientações espirituais. Que descanse em paz como merece. Cascais não o vai esquecer.

segunda-feira

O Forte das Velas na Praia do Abano em Cascais




por João Aníbal Henriques

Só existe um adjectivo com a abrangência suficiente para descrever de forma capaz o popularmente designado Forte do Abano, situado a Norte da Praia do Guincho, em pleno Parque Natural Sintra-Cascais: incrível!

Sendo um momento singelo de raiz militar, semelhante tipologicamente a tantos outros existentes ao longo da nossa linha de costa e construído especificamente para garantir a segurança do território Nacional perante eventuais investidas marítimas dos nossos muitos inimigos, é único na sua relação com o espaço e com o enquadramento cénico que lhe dá forma.





A sua localização, num promontório rochoso entre as Praias do Guincho e do Abano, plena e permanentemente fustigado pela fúria das ondas do mar e pelo vento que chega agreste e forte vindo da Serra de Sintra, confere-lhe um impacto sem par na paisagem. À sua volta, no contraste permanente entre o azul do mar, o branco das nuvens e o verde forte das encostas que dali seguem até à Peninha, a vista alonga-se através de um dos mais inesquecíveis cenários do Concelho de Cascais, potenciando a sua presença e reforçando a sua importância estratégica na definição da vocação turística municipal.

Incrível também porque, até contextualizando o monumento na sua mera função figurativa enquanto esteio promocional do turismo desta região, o estado deplorável de abandono, vandalismo latente e degradação acentuada, representa um autêntico atentado ao património de Cascais, dos Cascalenses e mesmo de Portugal.



É totalmente inconcebível que num país como Portugal e num Concelho como o de Cascais, nos quais a projecção da importância do sector turístico é tão grande, seja possível deixar que desleixadamente este tipo de equipamentos se vá perdendo por incúria, incapacidade e desinteresse das entidades públicas,  perdendo não só todo o valor cultural que a ele está inerente, como também todo o enorme conjunto de potencialidades económicas, empresariais, culturais, patrimoniais, educativas e outras que o mesmo apresenta. É inconcebível e intolerável que o Estado Português, responsável tutelar pela salvaguarda dos valores que os Portugueses lhe deram à guarda, permita que este tipo de peças patrimoniais chegue a este estado de abandono, não efectuando sequer o mínimo esforço para garantir que os mesmos estão fechados e inacessíveis aos vândalos que os vão degradando.



E infelizmente, este não é caso único, nem singular em Cascais e em Portugal! Intolerável e incrível!
O Forte das Velas, sendo peça integrante no esforço efectuado depois da Restauração da Independência Nacional em 1640, faz parte de um complexo de vários fortes que cruzavam fogo sobre as principais enseadas marítimas de Cascais, recriando uma cortina que visava impedir desembarques indesejados nas principais praias do concelho.






Com a volumetria tradicional da sua época, o também designado Forte do Abano foi construído em 1642 por ordem de D. António Luís de Castro, Conde de Cantanhede e Governador da Praça de Cascais, e inicialmente guarnecido por sete peças de artilharia pesada.

Classificado como Imóvel de Interesse Público através do Decreto 129/77, de Setembro de 1977, foi alvo de várias obras de requalificação e adaptação ao longo dos anos, que lhe conferiram o aspecto que hoje apresenta.

Na componente de alojamento, teria inicialmente três corpos cobertos virados a Este, protegidos da força do mar pelo terraço onde se instalava o grosso da artilharia, e terá sido reformado em meados do Século XIX, quando o desenvolvimento de novas técnicas militares possibilitou a libertação de algum do espaço de aquartelamento, perdendo o corpo central que foi substituído por um pequeno terraço a céu aberto e pela nova cisterna de captação de água corrente.




Da estrutura inicial são ainda de salientar as duas chaminés de aquecimento dos corpos de alojamento situados junto à entrada, vandalizadas possivelmente de forma irrecuperável em época recente, bem como a estrutura de transporte e captação das águas para o seu espaço de armazenamento.

Com o enquadramento cénico único propiciado pelo espaço onde se encontra, o Forte das Velas é uma das peças patrimoniais que mais interesse desperta junto dos muitos milhares de veraneantes e passeantes que frequentam a Praia do Guincho, que quase sempre sobem o espaço da encosta para o observar mais de perto.




Sobre a porta da entrada, praticamente ilegível debaixo do Escudo de Armas Português, a placa comemorativa da sua inauguração desperta o gracejo dos que o visitam. Em acentuada degradação e em estado de ruína eminente, é simultaneamente um tesouro precioso e um perigo imenso, com a acessibilidade privilegiada que tem cruzada com a falta de controle de quem por ali transita.

Resta pouco tempo de vida ao Forte das Velas. Até porque para além do vandalismo a que está sujeito quotidianamente, os próprios elementos se encarregam de o ir destruindo.

Com o seu desaparecimento e paulatina degradação perde Cascais, perdem os Cascalenses e todos os Portugueses. Incrível que seja assim!


terça-feira

Villa Romana de Freiria em Cascais


Devolvida aos Cascalenses 2000 anos depois…




por João Aníbal Henriques

2000 anos depois de Titvs Cvriativs Rvfinvs ter chegado à Lusitânia oriundo de Roma e ter solicitado autorização aos Deuses Manes para se instalar no território que hoje pertence ao Município de Cascais, os vestígios que restam da sua enorme villa agro-senhorial foram finalmente devolvidos a Cascais e aos Cascalenses!

A Villa Romana de Freiria, localizada junto a Polima, na Freguesia de São Domingos de Rana, tem uma ocupação humana que se perde nas brumas do tempo. Utilizada provavelmente desde a Pré-História, mercê da sua localização privilegiada junto ao estuário do Rio Tejo e do carácter muito fértil das suas terras agrícolas, Freiria apresenta vestígios únicos que atestam os principais momentos da evolução civilizacional do Homem, e um conjunto de estruturas do período romano que são peças únicas da arqueologia mundial.




Entre os dois conjuntos termais, com águas quentes e frias, o espaço habitacional e de lazer profusamente decorado com mosaicos e irrigado com um complexo sistema de distribuição de águas avançadíssimo para o seu tempo, e as estruturas agrícolas de grandes dimensões e de uma qualidade construtiva sem par, a Villa Romana de Freiria possui um potencial cultural extraordinário que se cruza com o valor turístico que a vocação de Cascais não permite renegar.

Descoberta por Virgílio Correia no início do Século XX, a Villa Romana de Freiria foi escavada em dezenas de campanhas que se prolongaram ao longo de todo o século, num esforço hercúleo que permitiu recolher milhares de artefactos únicos e atestar de forma comprovada a imensa importância do local.



Desde meados do século passado, quando a expansão urbanística da região de Grande Lisboa determinou o alastramento absurdo da mancha habitacional e reformatou a matriz urbanística das periferias a partir do caos imposto pelas construções clandestinas, que Freiria foi sendo envolvida por centenas de construções desregradas que, para além de comprometerem a integridade do espaço, acabaram por influir de forma dramática na sua conservação e na possibilidade do seu usufruto por parte da população local.

Praticamente desconhecidas dos Cascalenses, as ruínas romanas foram sobrevivendo aos ataques sucessivos das últimas décadas através do enorme esforço da equipa de arqueólogos que foi acompanhando e estudando o local e que, através de estratagemas quase impensáveis, foram conseguindo esconder, tapar e guardar alguns dos mais importantes detalhes do espaço, salvando assim a sua integridade até à actualidade.




O poder político (ou melhor dizendo) os poderes políticos que sucessivamente foram tomando conta dos destinos de Cascais, demonstraram sempre uma incapacidade latente ao nível decisório, tendo sido todos eles incapazes de contribuir o que quer que seja para a salvaguarda e para o aproveitamento do potencial deste local.

No início dos anos 90 do século passado, quando a Freguesia de São Domingos de Rana cresceu de forma desmesurada e desregrada, a Villa Romana de Freiria foi literalmente engolida pela clandestinidade envolvente, havendo mesmo casas, oficinas e outro tipo de construções que utilizaram materiais das próprias ruínas para as suas próprias edificações. E quando foi apresentada a primeira proposta de um Plano de Pormenor que visava salvar o local, a inoperância política de quem mandava impediu a sua cabal concretização e manteve o cenário de abandono e de incúria até praticamente à actualidade.




As memórias de Titvus Cvriativs Rvfinus, o romano de cepa que chegou a Freiria no Século I d.C. pareciam estar destinadas a uma mera prateleira numa qualquer sala de museu, à medida em que o abandono do espaço incitava à presença dos caçadores de tesouros, dos curiosos e dos detectores de metais, iam esboroando aos poucos aquele que era um dos principais patrimónios de Cascais.

Mas nesta semana, num acto digno de louvor, a Câmara Municipal de Cascais terminou e inaugurou uma intervenção extraordinária no local.




Para além de vedar de forma total o espaço da villa romana, e de recriar um conjunto de passadiços em madeira que permitem percorrer todo o perímetro do monumento sem comprometer a estrutura arqueológica, a intervenção agora concretizada contempla a colocação de sinalética com a identificação dos principais motivos de interesse para quem o visita e, acima de tudo, informação clara e eficiente acerca do que se está a ver e a interpretar.

Com esta intervenção agora inaugurada, Freiria é finalmente devolvida aos Cascalenses, a Cascais e a Portugal, que agora passa a poder usufruir, a conhecer e a reconhecer uma peça ímpar na História deste local.

Desta maneira, mercê do circuito interpretativo, da salvaguarda da integridade do espaço, e do conforto para a visitação, a Villa Romana de Freiria transforma-se no cadinho que desde sempre deveria ter sido de potenciação cultural do local. E, ao invés do que muitos diziam quando há cerca de 20 anos se instalou a polémica acerca do estado de abandono do monumento, passou a ser também um dos principais motores qualificadores de todo o espaço envolvente, fomentando a identidade local e as potencialides turístico-culturais de Cascais e da Freguesia de São Domingos de Rana.




Com a inauguração do pólo universitário de Carcavelos, e a selagem recente do aterro de Trajouce, cria-se nesta zona um eixo de crescimento sustentado e de qualidade que não pode deixar ninguém indiferente. Todo o Vale da Ribeira da Lage, desde o Bairro do Pomar das Velhas até ao novo pólo universitário de Carcavelos, passa agora a ter condições para se destacar da paisagem inóspita da invasão clandestina que caracterizou o Cascais de outros tempos, traduzindo-se em elementos geradores de qualidade de vida para todos os Cascalenses.

Estão de parabéns as equipas de arqueólogos que desde há muitas décadas dedicaram o seu tempo a lutar pela preservação de Freiria. Estão de parabéns as equipas técnicas que idealizaram e concretizaram este importante programa de salvaguarda. E estão de parabéns, os decisores políticos que foram capazes de passar das palavras aos actos e de (finalmente) devolver a Cascais um dos valores maiores da sua culturalidade.




Ganhou Cascais. Ganharam os Cascalenses e ganhou Portugal.

quarta-feira

Joaquim António Pereira Baraona (1930-2018)


por João Aníbal Henriques

O Comendador Joaquim Baraona nasceu em 1930, em Ourique, e era orgulhosamente um alentejano dos quatro costados. Quando chegou a Cascais, onde veio criar a Conservatória do Registo Predial, assumiu de Alma-e-Coração esta terra de adopção onde deixou uma marca perene e extraordinária que o triste dia de hoje não vai conseguir abalar.

Em Cascais, quase tudo transborda com os ecos do trabalho, do empenho e da paixão do Comendador Baraona. A antiga maternidade onde nasceram milhares de Cascalenses; o hospital; as conservatórias; os bairros sociais; as academias e as colectividades; o jornais, as revistas e a imprensa local; os movimentos cívicos e de cidadania; as grandes causas que acenderam os ânimos e mudaram a face da Nossa Terra… Por todos os lados, em todos os cantos e recantos de Cascais existe obra do Comendador Baraona.

E para além desta, da qual ele passava sempre ao lado, como se não fosse coisa sua mas que todos sabiam e nela reconheciam a sua intervenção, um vastíssimo legado de entrega à comunidade, ao próximo, a Cascais e a Portugal que ele nunca permitiu que se soubesse que tinha sido ele. Generoso como só ele sabia ser, foram milhares aqueles a quem ele literalmente salvou nos piores momentos, exigindo somente discrição nesses actos, para que ninguém soubesse a grandiosidade indescritível que ele sabia ter.

Não existem palavras no léxico Português onde caiba a obra e o legado do Comendador Joaquim Baraona. Porque ela, sendo reconhecidamente enorme na parte pública, era incomensuravelmente maior na componente que poucos tiveram a sorte de conhecer…

Joaquim Baraona, foi erudito, académico, escritor, diplomata, político, empresário, benfeitor e tantas outras coisas onde expressou a profundidade da sua excelência. Foi condecorado pela Presidência da República como reconhecimento público pela sua obra e, depois da revolução, perseguido de forma injusta pelos mesmos motivos.

Soube, porque era figura maior do que os pequenos personagens com quem se cruzou na vida toda, virar a página e abraçar Portugal como causa sua, continuando, praticamente até ao último dia, a trabalhar a favor de toda a gente.

O dia de hoje é marcante para Cascais e para Portugal. Já nada voltará a ser com era. O desaparecimento físico do Comendador Joaquim Baraona representa o fim definitivo de uma era e, para desgraça dos que cá ficam com a sua boa memória, a certeza absoluta de que é insubstituível para sempre.

Que descanse em paz. Porque o merece.

A bem de Cascais.

terça-feira

Artur de Azevedo Rua - A capacidade de concretizar o impossível em Cascais


por João Aníbal Henriques

Pontualmente, geralmente quando menos se espera, surgem Cascalenses que transcendem a natural passagem do tempo. Por determinação férrea e uma exemplar entrega à comunidade, concretizam os impossíveis, mudando vidas e oferecendo ao Mundo e a esta Nossa Terra caminhos novos e alternativos que perduram ao longo de muitas gerações. Foi o que fez o Dr. Artur de Azevedo Rua, médico saudoso que revolucionou a cirurgia ortopédica, e que foi um dos principais responsáveis pela saúde na Nossa Terra.

Nascido em Lisboa em 1901, Artur de Azevedo Rua chegou a Cascais em 1927 para prestar serviço no então designado Sanatório António José de Almeida. Médico de formação e cirurgião por devoção, especializou-se nessa área na equipa do Dr. Francisco Gentil, tendo feito parte da equipa pioneira que dá forma aos Hospitais Civis de Lisboa.

Atento às necessidades mais prementes da comunidade onde veio viver, Azevedo Rua encontra na Parede o microclima especial que faz daquele recanto um dos mais conceituados espaços para o tratamento de problemas ósseos e de pele. A partir do sanatório onde desenvolve a sua prática médica, aprofunda de forma extraordinária o conhecimento científico acerca da tuberculose óssea, importante enfermidade que nessa época flagelava a população Portuguesa, tendo mais tarde construído uma clínica na Parede para onde confluíam grande parte daqueles que não encontravam noutro lado uma resposta cabal para os seus padecimentos.




E, como quase sempre acontece com todos os grandes Cascalenses, assume como causa sua este combate, não temendo lutar contra o que quer que seja para que se torne possível recriar em Cascais o espaço ideal para o tratamento desta doença. Literalmente contra tudo e contra todos, pois nessa altura para além dos constrangimentos próprios de um Portugal atrasado em termos científicos, o Concelho de Cascais vivia num letárgico imobilismo que convinha à maioria desses tempos, o Dr. Azevedo Rua empreende uma autêntica revolução na saúde local.

Com um grupo de amigos movidos pela entrega às causas sociais, ajuda a criar a Associação de Beneficência e Socorros Amadeu Duarte e, no âmbito dessa actividade, inaugura na Parede o pequeno Hospital Amadeu Duarte onde era possível encontrar o conhecimento de ponta na área da tuberculose óssea que Artur de Azevedo Rua havia adquirido em formações variadas concretizadas com os melhores especialistas existentes no estrangeiro.



Reconhecido o seu esforço e sendo visíveis os resultados da sua excelência médica, será a partir de 1947 convidado para Director do Hospital Dr. José de Almeida onde reformula as práticas cirúrgicas, introduz um moderno serviço de Raio X e o transforma numa das mais conceituadas e modernas unidades cirúrgicas para o tratamento da tuberculose óssea existentes na Europa.

Com base no prestígio alcançado, funda A SPOT – Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia, cuja primeira reunião decorre no Hotel Atlântico no Monte Estoril, em 1947.

A entrega abnegada de Artur de Azevedo Rua à medicina, numa permanente e tenaz luta contra o desinteresse generalizado dos seus pares e a gritante falta de meios técnicos e humanos que afectavam o Cascais de então, fizeram toda a diferença na vida de muitos milhares de doentes que nele procuraram o alívio para as suas dores. Ele mudou literalmente as vidas dos seus pacientes, deixando atrás de si um legado de saber e de conhecimento que fez perdurar os frutos da sua excelência.

Com a sua morte, em 1986, chegou ao fim um dos mais importantes capítulos da história da medicina em Portugal, mas a sua herança, bem visível ainda hoje nos hospitais de Cascais e na Vila da Parede, perdura no tempo.




Esquecido pelas entidades ditas competentes e avesso a homenagens que considerava pouco pertinentes, Azevedo Rua recebeu da Presidência da República Portuguesa a Grã-Cruz da Ordem da Benemerência e de Oficial da Ordem Militar de Cristo.

A sua memória confunde-se com a Memória Colectiva de Cascais e da Parede, sendo certo que o seu exemplo é pilar estrutural inabalável da Identidade Cascalense. É essencial recuperar a sua história extraordinária porque dela depende a defesa da excelência desta Nossa Terra. 

A bem de Cascais!

segunda-feira

Dom Diogo de Menezes – Heróis & Traidores em Cascais




Entre 1580 e 1640, Portugal atravessou um dos mais negros períodos da sua História e Cascais desempenhou um papel essencial neste triste episódio. A traição do então Senhor de Cascais, que num acto hediondo vendeu a Nossa Terra à Coroa Espanhola, contrastou com a coragem heróica com a qual D. Diogo de Menezes defendeu Portugal. Pagou muito caro pela sua lealdade e foi indignamente executado na Cidadela de Cascais em 1580, deixando atrás de si uma lenda de glória que o tempo não vai conseguir destruir…

por João Aníbal Henriques

A perda da independência nacional, em 1580, foi um dos episódios mais negros da História de Portugal. Fruto da imberbe actuação do Rei Dom Sebastião no Norte de África, e dos muitos interesses que desde sempre corporizaram o poder político Português, o país mergulhou na sua maior crise de sempre, entregando o trono de Portugal ao usurpador Espanhol.

Apesar do então Senhor de Cascais ser traiçoeiramente partidário das pretensões de Filipe II de Espanha, o povo de Cascais não hesitou em apoiar a causa de Dom António, Prior do Crato, participando activamente na sua aclamação como Rei de Portugal. Até à implantação da república, em 1910, manteve-se na toponímia Cascalense uma homenagem sublime ao monarca Português, consubstanciada numa “Rua D. António I”, representando simbolicamente o leal apoio de Cascais à Causa Nacional.




Nessa altura crítica, quando o Rei Dom António escolhia os seus mais fiéis e bravos apoiantes para defender Portugal do avanço das tropas Espanholas, D. Diogo de Menezes, que tinha sido Governador de Ormuz e Vice-Rei da Índia, foi nomeado General e colocado como Comandante da Fortaleza de Cascais.

Soldado experiente e bem preparado, D. Diogo de Menezes organizou as suas parcas forças de forma a assegura a inexpugnabilidade da fortificação Cascalense perante o ataque Espanhol. E, quando no dia 27 de Julho, o Duque d’Alba desembarca em Sesimbra, Cascais estava a postos para defender Portugal.

Mas o Senhor de Cascais, acompanhado da sua cáfila de meia-dúzia de traidores, empenha-se em entregar aos invasores informações detalhadas sobre a defesa da terra, permitindo ao Duque d’Alba desembarcar inesperadamente na Lage do Ramil, junto ao Farol da Guia. E, não satisfeito com a sua traição, organiza a corja que o acompanha de forma a conseguir abrir as portas da fortaleza, onde D. Diogo de Menezes defendia activamente a Causa Portuguesa.

Derrotado pela diferença abissal de forças entre o seu pequeno contingente Cascalense e a enormidade do exército Espanhol, Diogo de Menezes é capturado depois de uma batalha renhida e terrível e invoca as leis da honra e da cavalaria para, em conformidade com a sua alta posição hierárquica dentro das tropas do Rei Dom António, o deixarem regressar a Lisboa para ajudar o monarca. Mas o invasor Espanhol, num acto que subverte a própria honra militar, manda executar o herói Português na própria parada da fortaleza…




Conta o historiador espanhol António de Herrera  y Tordesillas que “eram quatro da tarde e estava a praça apinhada de piques e arcabuzes alemães, e no meio dela via-se o cadafalso, onde o sangue nobre ia sujar os brasões de um dos maiores de Espanha, fazendo-o expiar as nódoas estampadas pela venialidade de haver esquecido quem era e o que devia aos seus antepassados e ao reino de Espanha”…

E na mesma linha, sublinhando a dignidade heróica de D. Diogo de Menezes na defesa corajosa da liberdade de Portugal, Ferreira de Andrade não hesita em indicar a traição do Senhor de Cascais como um dos actos mais ignóbeis da nossa História, em linha com a falta de dignidade e de honra que caracterizou a decisão brutal do Duque d’Alba: “Assim morreu nesta vila de Cascais um dos mais nobres e honrados fidalgos de então, pelo crime horrendo de ser Português. Uma mancha de sangue marcaria para sempre, como um estigma de ignomínia, os gloriosos feitos do grande general de Filipe II”.

D. Diogo de Menezes, heróico defensor da Portugalidade, morreu em Cascais a lutar ao lado dos Cascalenses pela defesa da independência de Portugal.  A sua memória, parte maior da Memória de Cidadania desta Nossa Terra, é pilar estrutural da Identidade Municipal.

Promover a memória dos seus feitos e a coragem que demonstrou ter na defesa de Portugal, é assim obrigação de Cascais, onde o seu sangue jorrou perante o desespero dos Cascalenses de então. Porque dos ecos da sua grandeza se retiram lições fundamentais para preparar o futuro das próximas gerações…

quinta-feira

A Igreja de Nossa Senhora dos Remédios em Carcavelos




por João Aníbal Henriques

O orago de Nossa Senhora dos Remédios remete-nos para as memórias mais ancestrais da humanidade De facto, a Senhora que cura e cuida dos seus filhos, reminiscência simbólica das práticas de sociabilização que acompanham o nascimento do conceito de família, tem o seu apogeu nos primórdios do período Neolítico, quando os primeiros assentamentos humanos abandonam nomadismo e adoptam estilos de vida marcados pela sedentarização.

A Senhora dos Remédios, que o lendário Português associa directamente aos perigos e perseguições sofridas pelos primeiros Cristãos durante o descalabro que acompanhou a queda do Império Romano, é assim simultaneamente a histórica Mãe de Jesus e a figura épica da Senhora da Conceição, eixo primordial da Fé e da espiritualidade antiga naquele que é hoje o território de Portugal. A ligação estreita entre ambos os oragos, num displicente apelo à figura que centra em si a capacidade de apoiar o ser humano nesta sua aventura terrena, conjuga-se nas práticas Cristãs como repositório dos valores absolutos da bondade inequívoca e da entrega total à vontade de Deus, consubstanciado de forma completa no papel desempenhado por Nossa Senhora enquanto cadinho alquímico da transformação da divindade pura em carne e em sangue.




É, pois, o sofrimento geral que acompanha a vida humana neste recanto inóspito do fim-do-mundo romano, marcado pela angústia que resulta da dúvida sistemática em relação ao que o futuro nos reserva e à incerteza em relação à vontade de Deus, quem determina a devoção ancestral que liga a Senhora dos Remédios a Carcavelos, num pleito de harmonia profunda entre as vicissitudes próprias da antiga comunidade rural que subsistia neste local e os ventos mais recentes de um impulso regenerador e progressista que os tempos recentes vieram trazer. Remedia Nossa Senhora aqueles que são ais desafortunados…

A faceta saloia de Carcavelos, dependente em permanência da terra e das instáveis vontades da natureza, recria uma forma muito própria de viver a espiritualidade. Aqui, mais do que em qualquer outro local da periferia de Lisboa, sente-se no ar a dúvida permanente entre o valor da matéria e o bem geral da comunidade… Será isso, possivelmente, o que explica a decoração singela da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, na qual a nave única se enche da policromia própria dos painéis azulejares do Século XVI, prescindindo da opulência vistosa dos dourados barrocos que algum tempo depois hão-de transformar-se na principal marca dos templos e das igrejas de Portugal.




Mas, se no Século XVI, foi a génese saloia e rural da actual Freguesia de Carcavelos, quem determinou a estrutura do templo, obviamente enquadrado naquilo que eram as práticas arquitectónicas comuns na sua época, a partir daí foram muitos os problemas que vieram a afectar a igreja, condicionando a sua formulação e até a própria implantação no espaço, naquele que é o coração da localidade.

De facto, pouco tempo depois da sua construção, a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios foi bastante danificada pelo terramoto de 1755. E se, noutros lugares, a recupeação foi possível e decorreu de forma célere, em Carcavelos o processo foi moroso e difícil, em linha com a pobreza que nessa altura caracteriza aquele espaço. Ao longo do Século XVIII e, mais tarde, durante todo o Século XIX, a situação financeira da Igreja e da Paróquia de Carcavelos foi-se agravando, ao ponto de, por ocasião da implantação da república, a igreja ter sido encerrada por falta de recursos. E daí por diante, mercê da laicização progressiva da sociedade e das influências republicanas sentidas nesta zona Nascente do Concelho de Cascais, a situação foi-se agravando ainda mais, ao ponto de a igreja ter sido mesmo transformada numa escola depois de ter sido desmantelado e vendido todo o seu recheio.

Mas a devoção a Nossa Senhora dos Remédios, a senhora que ajuda quem dela mais precisa, acabou por ser determinante na história da própria localidade. Logo depois da implantação da república, é o administrador do Concelho de Cascais quem toa a iniciativa de defender o património da igreja, proibindo a retirada e a venda dos seus painéis de azulejo. E é também ele quem, ao proteger os bens daquele importante templo, recria as condições essenciais para que mais tarde se recupere a paróquia e o culto seja devolvido a Carcavelos.




Em termos iconográficos, como consequência da história associada à Ordem Hospitalar da Santíssima Trindade, que foi a principal responsável pelo orago de Nossa Senhora dos Remédios, a imagem devocional da igreja apresenta uma Nossa Senhora com o menino no braço esquerdo e uma bolsa de dinheiro na mão direita. Cumpria-se, assim, a ajuda da Virgem aos seus devotos, numa entrega de bens que suprem as necessidades mais prementes daqueles que a Ela apelam. E a Senhora dos Remédios, remedei-a assim os mais necessitados, num desapego perante a materialidade que é essencial no percurso espiritual daqueles que seguem o seu exemplo.

Será certamente este valor potencial que determina a amplitude devocional em Carcavelos. Dentro da igreja, venerados pelos paroquianos, existe uma outra imagem de Nossa Senhora, esta feita do Carmo, que complementa em termos simbólicos a força que emana no órgão principal. Nossa Senhora do Carmo, possivelmente denotando a relação com o Convento do Carmo existente desde o Século XVI em Cascais, apresenta-se com o escapulário próprio da ordem e representa a total entrega à vontade de Deus.





A visita à Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, em Carcavelos, é pois o sinónimo desta entrega absoluta à divindade. A singeleza da sua formulação estética, marcante do estilo chão que sempre caracterizou a via em Carcavelos, impõe-lhe uma beleza sem par. Vale a pena, desta maneira, passar os antigos portões de Carcavelos e visitar esta igreja tão especial. 

terça-feira

Maravilhas de Cascais - O Trilho Saloio da Ribeira das Vinhas




por João Aníbal Henriques

Está de parabéns a Câmara Municipal de Cascais pela excelente intervenção realizada no primeiro troço da Ribeira das Vinhas, entre as traseiras do Mercado Municipal e a Quinta do Casal Ventoso. A recuperação minimalista da antiga serventia saloia, praticamente sem interferências ao nível dos equilíbrios ecológicos do espaço, recupera a ancestral ligação entre Cascais e a suas origens rurais, promovendo a memória colectiva e a identidade municipal.

Respondendo a um desejo demasiado antigo expresso pelos Cascalenses no sentido de se proceder à recuperação da antiga serventia saloia da Ribeira das Vinhas, em Cascais, a edilidade requalificou recentemente o primeiro troço do velho trilho, entre a vila e o acesso à Pampilheira.

A intervenção, minimalista tal como advogavam os que defendiam o projecto (Ver AQUI), permite o usufruto de uma das mais impactantes paisagens de Cascais, descobrindo um recanto essencial para se conhecer e perceber a História Rural Cascalense (Ver AQUI).

Antigo trilho que ligava a vila às aldeias saloias do Cobre, Pampilheira, Murches, Birre e Zambujeiro, a Ribeira das Vinhas foi utilizada desde tempos imemoriais como espaço de troca entre as comunidades que subsistiam da agricultura e que se situavam na zona mais interior do Concelho, e as comunidades piscatórias e cosmopolitas do litoral.  Era através deste caminho de pé-posto, normalmente atravessado pelos grandes rebanhos de ovelhas que noutros tempos marcavam o panorama económico de Cascais, que a vila se abastecia dos bens mais essenciais, como o leite, o pão, a farinha, o queijo e as hortaliças. E era também através dele que, em burricadas que ainda perduram na memória dos mais velhos, as lavadeiras transportavam a roupa que lavavam nas suas aldeias.




Para além da imensa riqueza ecológica, bem visível através das muitas espécies de animais que sobrevivem naquele espaço, a Ribeira das Vinhas apresenta ainda um conjunto importantíssimo de património histórico, ao qual se juntam os complexos de grutas e uma paisagem de extraordinária beleza.

A intervenção agora concretizada pela Autarquia é, assim, um importante contributo para o fomento da cidadania em Cascais, com possibilidade de rapidamente se transformar num instrumento pedagógico e educativo para as escolas onde estudam as novas gerações de Cascalenses.

Sugestões para complementar e melhorar a intervenção agora concretizada:




PROLONGAMENTO DA INTERVENÇÃO

Sendo excelente, a recuperação agora concluída cinge-se aos primeiros metros da antiga serventia saloia. É essencial que a mesma se prolongue acompanhando o leito da ribeira, numa segunda fase até Alvide e à Quinta das Patinhas e, depois de se ligar ao Parque das Penhas da Marmeleira, atravessando o Vale do Zambujeiro e a Quinta do Pisão em direcção à Barragem do Rio da Mula.




RECUPERAÇÃO URGENTE DA ENTRADA

O troço existente entre as traseiras do mercado (que agora foi designado como Rua Padre Moysés da Silva) e o início do caminho, está num estado deplorável de abandono. Sem controlo de tráfego e coberto de viaturas por ali estacionam sem regras nem cuidado, é um imenso lamaçal quando chove e um mar de pó durante o tempo seco, impedindo o acesso e o usufruto do espaço recuperado.




MOBILIDADE COMUNITÁRIA


Permitindo uma ligação muito simples e rápida do centro de Cascais aos principais bairros da periferia, é urgente que a intervenção seja complementada com as ligações aos trilhos de Alvide, do Bairro de São José e do Outeiro da Vela. Para além de muitos simples de concretizar, porque os trilhos já existem há muitos séculos, devolverão às comunidades locais um meio acrescido de mobilidade e de acesso ao centro.  

quinta-feira

Palmela e a Identidade de Cascais




por João Aníbal Henriques

Num périplo de deslumbramento pelos cantos e recantos de Cascais, não passa despercebido a ninguém o carácter vincado e onírico da principal casa situada na entrada da vila. A Conceição Velha, reminiscência maior da arquitectura de veraneio, faz parte do legado mítico que a Família Palmela deixou a Cascais e inscreve-se no imaginário colectivo de todos os Cascalenses. É obrigatório que se conheça e reconheça o papel desta importante família na consolidação da Identidade de Cascais e no nascimento da vocação turística municipal.

A Casa Pamela, também conhecida como “Conceição Velha, é uma das mais antigas e importantes construções de veraneio da Vila de Cascais. Mandada construir em 1874 pela terceira Duquesa de Palmela, foi projectada com traço do arquitecto inglês Thomas Henry Wyatt, recuperando os valores estéticos do medievalismo romântico e recriando em Portugal o estilo neogótico que a projecta como expoente máximo da denominada arquitectura de cenário.




Enorme na sua estranha relação com as arribas onde se ergue, a Casa Palmela define-se a partir das memórias do velho Baluarte da Conceição que existia no mesmo lugar e que foi adquirido em 1868 pela Família Palmela ao Estado Português pela módica quantia de 2611$000 Reis. O contrato de aquisição assinado nessa data, condicionava os compradores a manter intacta a linha de fuzilaria que acompanhava a Costa de Cascais, obrigando a que o novo edifício pudesse ser utilizado militarmente em caso de guerra.

A sua volumetria assimétrica, construída em planos diversos que davam a ideia de se tratar de uma casa velha à qual se foram fazendo acrescentos novos ao longo dos séculos, sublinha o carácter laico da construção que, pelo menos nos seus primórdios, nem sequer tinha uma capela que era usual neste tipo de espaços. Wyatt, o artista que se intitulava arquitecto-pintor, recriou na Conceição Velha a força extraordinária dos fundadores da casa, aproveitando a pedra local para erigir este autêntico monumento.




D. Maria Luísa Domingas Eugénia Ana Filomena Josefa Antónia Francisca Sales e Borja de Assis de Paula de Souza Holstein, simultaneamente 3ª Duquesa de Palmela, 3ª Condessa do Calhariz, 2ª Marquesa do Faial e Condessa de Sanfré no Piemonte, foi camareira-mór da Rainha Dona Amélia e a mais importante mecenas de toda a História de Cascais. Para além de ter mandado edificar várias casas com o propósito de as oferecer e assim apoiar os principais artistas do seu tempo, como a Casa Monsalvat, com traço de Raúl Lino, que construiu no Monte Estoril para oferecer ao pianista Alexandre Rey Colaço, ou a Villa Dom Pedro, edificada junto à baía para a escritora Maria Amália Vaz de Carvalho, a duquesa ainda fundou e pagou o Hospital Infantil do Rêgo, as Cozinhas Económicas e Lisboa, a Associação Nacional de Tuberculosos e o Instituto de Socorros a Náufragos.

Bisneta de D. Isabel Juliana de Sousa Coutinho, que passou à História como o “Bichinho da Conta”, por ter resistido muito jovem ao poder extraordinário do Marquês de Pombal que a havia obrigado a casar com quem não queria, e de quem a terceira duquesa herdou certamente a coragem e a determinação, D. Maria Luís de Souza Holstein foi simultaneamente um dos principais pilares do edifício diplomático português depois das Guerras Liberais, papel no qual desenvolveu a sensibilidade artística e estética que a tornarão numa das referências da cerâmica no final do Século XIX e que explicam a excelência extraordinária do legado que deixou em Cascais.




Mercê da enorme influência que teve na instalação da Corte em Cascais, e na definição daquilo que há-de vir a ser a base do charme mítico desta Nossa Terra, a Família Palmela é peça fulcral na consolidação da Identidade Municipal e na definição daquilo que é hoje este recanto tão especial. Merece ser conhecido por todos e reconhecido formalmente e de forma oficial este papel único que a Terceira Duquesa de Palmela em particular e a sua família, de forma mais geral, desempenhou na nossa História.

A bem de Cascais!

quarta-feira

Devolver a Ribeira das Vinhas a Cascais




O Vale da Ribeira das Vinhas, acessível a partir das traseiras do edifício do mercado, foi durante milénios um canal privilegiado de mobilidade para os Cascalenses. Era através dele, quando a vila dependia de forma directa do trabalho árduo e suado dos saloios que exploravam as pequenas unidades agrícolas situada no termo municipal, que chegavam a Cascais os legumes, as frutas e o leite que se produziam nas antigas aldeias rurais do Cobre, Murches, Zambujeiro, Malveira-da-Serra ou Janes. Era também através do caminho de pé-posto que acompanhava o serpentear das águas da ribeira, que as lavadeiras transportavam as roupas dos Cascalenses, num ciclo de interdependência que deu corpo à Identidade Municipal.

Ao nível dos costumes e das tradições, assim como nas crenças, nas práticas religiosas e na Fé, os Cascalenses construíram uma memória colectiva que reproduz um sentimento vivo e arreigado de Cascalidade. E grande parte desses usos e costumes, repetidos de forma reiterada ao longo de centenas de anos, concretizaram-se neste espaço extraordinário.

Paulatinamente abandonadas as pequenas explorações agrícolas que aí existiram até meados da década de 80 do Século passado, o Vale da Ribeira das Vinhas foi perdendo a sua importância no seio da comunidade Cascalense. As memórias antigas que integrava, foram-se apagando na medida em que iam morrendo os Cascalenses antigos que davam vida ao lugar, ao ponto de serem hoje muito poucos aqueles que conhecem este recanto encantado de Cascais.



   
Apesar disso, o Vale da Ribeira das Vinhas é ainda um dos locais de maior potencial para a Nossa Terra. Para além de ser uma via de comunicação acessível e confortável entre o centro da vila e os bairros periféricos, como o Bairro dos Pescadores, o Bairro da Caixa de Previdência, o Bairro da Assunção, a Pampilheira, o Cobre, o Zambujeiro, Murches, Alvide, Bairro Irene ou as Fontaínhas, permitindo transformar uma ida ao mercado, à praia ou à estação numa curta e inesquecível caminhada, o património histórico e natural ali existente, bem como a envolvente antropológica do local, poderiam ser facilmente aproveitados em favor do fomento da nossa identidade.




Assente no pressuposto de que a intervenção a realizar na Ribeira das Vinhas deve assumir um carácter minimalista, reduzindo ao mínimo o investimento público e rentabilizando os muitos equipamentos potenciais que ali subsistem, a nossa proposta passa pela recuperação do antigo caminho pedonal, integrando-o no património edificado ali existente, nomeadamente as azenhas, os moinhos e as várias estruturas agrícolas, complementado com a criação de uma bolsa de hortas urbanas que deveriam ser entregues à população. Nas componentes lúdica, pedagógica e turística, é essencial a recuperação das Grutas de Alvide e a recriação de vários trajectos pedonais e cicláveis associados à participação das escolas, associações juvenis cascalenses e aos agrupamentos de escuteiros.

Em ano de eleições, quando os poderes autárquicos se mostram naturalmente menos crispados perante as sugestões dos Cascalenses, vale a pena reforçar esta nossa proposta, convidando todas e todos os munícipes de Cascais para que literalmente invadam este espaço extraordinário.

A bem de Cascais!

terça-feira

Carlos Antero Ferreira (1932-2017) - A Genialidade dos Afectos na Portugalidade



Com 84 anos e idade, faleceu esta semana uma figura ímpar da Portugalidade. Carlos Antero Ferreira, Arquitecto, Professor e Poeta, era Académico Honorário da Academia de Letras e Artes e desempenhava ilustremente funções como Presidente da Assembleia Geral desta instituição.

Na sua dimensão material, o Ser Humano vive constrangido pelo binómio espácio-temporal que determina a sua existência. O nascimento, a vida e a morte, num desígnio inexorável que traga todos da mesma maneira, caracterizam a existência do comum cidadão, cuja vida se esgota num determinado lugar e num determinado tempo.

Mas existem alguns que, pela genialidade da sua existência, conseguem transcender o espaço e o tempo, alcançado uma imortalidade que os perpetua na sociedade de forma transversal e que estende a sua influência ao longo das eras.

Foi o caso do Professor Arquitecto Carlos Antero Ferreira.

Num exercício permanente de genialidade, carregava consigo uma erudição sem limites. Mas, ao contrário do que acontece com outros, cuja soberba naturalmente se impõe pela grandiosidade do seu pensamento, impunha a sua existência num plano humanista que o colocava naturalmente ao nível da comunidade onde sempre foi tão importante. Sendo o primeiro pela dimensão e excelência do seu trabalho, partilhava naturalmente com os seus amigos e colegas a sublimidade de um artista que só a imensa maturidade do seu génio pode explicar, augurando uma sensibilidade única que transpirava no contacto pessoal, nos livros que escreveu, nas conferências que proferiu e nos imensos desafios profissionais que dele fizeram uma das grandes personalidades da cultura nacional.

Carlos Antero Ferreira, que foi Presidente do Centro Cultural de Belém, Presidente do Instituto Português do Património Cultural, Presidente da Academia Nacional das Belas Artes, Professor Catedrático e fundador da Faculdade de Arquitectura de Lisboa, Director da Sociedade de Geografia de Lisboa, Fundador da National Geographic Society e Senador da Universidade Técnica de Lisboa, de entre muitos outros cargos e funções de um currículo riquíssimo que demonstra o seu pragmatismo e capacidade de fazer, foi sobretudo um dos principais obreiros da Portugalidade, deixando um imenso vazio que dificilmente poderá voltar a encher-se.

Ávido de saber e de novos conhecimentos até ao final da sua vida, num exercício pleno do seu carácter de sábio maior que tão bem desempenhou, Antero Ferreira alcançou a sublimidade do seu génio através da poesia e das artes, nas quais se elevou a patamares de excelência inigualáveis, só possíveis pela humildade natural da sua sabedoria e pela permanente vontade de aprender com tudo e com todos.

Eterno na grandeza da sua obra e do seu génio, o Professor Antero Ferreira deixa atrás de si uma saudade que ilustra bem o pesar que a sua morte física representa para Portugal e para os Portugueses. 



segunda-feira

A Casa Sommer em Cascais




por João Aníbal Henriques


Parte integrante do imaginário urbano da Vila de Cascais, a Casa Sommer, no espaço da antiga Parada, é uma das peças mais importantes e significativas do património cascalense. Em estado avançado de degradação há demasiados anos, foi adquirida pela Autarquia e adaptada para instalar o Arquivo Histórico Municipal. Na sua futura função de guardiã das memórias municipais, mas também enquanto elemento singular na definição da Identidade Cascalense, a Casa Sommer é um excelente exemplo do que pode e deve fazer-se nesta Nossa Terra.


Romântica pelo seu enquadramento urbanístico nos terrenos fronteiros à antiga Parada de Cascais e neoclássica pela formulação arquitectónica que compõe a sua fachada e estrutura decorativa, a Casa Sommer, em Cascais, é um dos monumentos mais significantes na definição do que foi a Vila no período em que foi edificada.

Mandada construir por Henrique de Sommer, algures entre o final do Século XIX e o início do Século XX, o imóvel acompanha em termos estéticos a evolução dos modelos construtivos que caracterizaram a Vila de Cascais durante essa época. Apesar do seu cunho cenográfico, a casa repõe uma linha arquitectónica mais séria e funcional que vai esbatendo progressivamente os cunhos oníricos do romantismo de alguns anos atrás.

O apelo aos valores do classicismo, bem visíveis, por exemplo, no pórtico de entrada da moradia, traduz as alterações que estavam a acontecer no paradigma social do Cascais de então. Depois da instalação do Rei Dom Luís e da Corte, em 1870, que trouxe para Cascais aqueles que virão a ser os alicerces de uma nova sociedade em Portugal, as casas e os espaços públicos passam a desempenhar um papel importante enquanto elementos de afirmação e reconhecimento social. Com a chegada do novo século, associado à indefinição política que virá a servir de mote para a posterior implantação da república, cria-se um espaço alternativo no qual se encaixam os valores renovados de uma elite empreendedora para quem o sangue mais não é do que elemento que ajuda a reforçar o seu reconhecimento funcional.

O sucesso empresarial de Henrique Sommer, profundamente ligado à indústria do ferro e dos cimentos, enquadra-se já numa nova dinâmica de modernização do País, alheia aos valores antiquados que haviam servido de mola propulsora ao nascimento do Cascais Real. A casa que mandou construir num dos mais nobres locais da vila, cenograficamente impactante, é por isso um misto de testemunho e de prova, sustentando aquele que virá a ser o devir histórico que alterará profundamente a vida de Cascais, abrindo caminho para o despertar dos primeiros movimentos nacionalistas e para o nascimento da posterior vocação turística municipal.

A afirmação, num contexto em que a componente familiar assume primordial importância, surge associada de forma muito próxima aos critérios de construção utilizados na época, facto que explica a singularidade deste edifício no contexto patrimonial da vila de Cascais.




Numa época em que Cascais assiste impávido à destruição paulatina dos seus principais valores patrimoniais, com a desagregação dos núcleos urbanos identitariamente fundamentais, como é o caso do Monte Estoril e dos principais núcleos rurais que ainda subsistem no território municipal, a recuperação da Casa Sommer é uma excelente notícia que, contrariando a prática em curso, defende a memória local e promove a identidade municipal.

Resta esperar que este bom exemplo se transforme no cadinho que dará forma às muitas intervenções que num futuro próximo vão acontecer na Nossa Terra. 

sexta-feira

A Areia e a Capela de São Brás em Cascais




por João Aníbal Henriques

Quando em 1997, em pleno processo de preparação do Levantamento Exaustivo do Património Cascalense, publiquei um trabalho sobre a história da ruralidade da Freguesia de Cascais (*), a povoação da Areia era ainda palco privilegiado das ancestrais tradições rurais que deram forma ao município de Cascais.

No Largo de São Brás, expressão máxima do sentido comunitário da localidade, congregavam-se os elementos principais de uma existência na qual a ligação aos trabalhos da terra e uma dependência extrema relativamente às agruras da natureza, se revezavam amiúde, representando o principal sustentáculo de um ideário comunitário comum que conduziu à arreigada identidade que a localidade ainda possui.



A Capela de São Brás, o chafariz e o lavadouro comunitário, partilham por ali o coração simbólico da Areia, dando forma a uma existência na qual a singeleza do quotidiano funciona como elemento motivador de uma forma de ser e de estar que fomenta o tecido social do local.




A Areia, de cujas origens pouco se conhece, apresenta um topónimo que deriva da proximidade à Praia do Guincho e a estrutura pobre dos seus solos. Mas, é também essa aparente fragilidade natural que, conjugando-se em processos dinâmicos de sobrevivência, vem determinar uma série de práticas que são vincadamente locais e extraordinariamente únicas no contexto da existência rural de Cascais e de Portugal.

Do período romano, o povoado dos Casais Velhos, com a milenar fábrica de púrpura e a ligação directa à cabeça do Império, representa a expressão máxima da sua monumentalidade, traduzida em algo que, apesar do abandono a que tem sido devotado ao longo dos últimos anos, é irrepetível e assume laivos de primeira linha no inventário do património Cascalense.

Mas a Capela de São Brás, situada em plano coração da Areia, é também ela eixo essencial na estruturação moderna da localidade, representando um papel catalisador no desenvolvimento da estrutura social que há-de definir o devir quotidiano naquele espaço.

Sem origem cronológica conhecida, a Capela de São Brás que hoje conhecemos será certamente o resultado de um processo de paulatino desenvolvimento. A sacralidade do local, provavelmente marcado por um antigo templo e/ou ermida que por lá tenha existido, foi necessariamente o ponto de partida de uma expressão cultual que gera em seu torno os elementos necessários à fixação humana. Em 1527, quando se realizou o primeiro recenseamento à população, a Areia tinha somente nove vizinhos, o que corresponde a pouco mais de duas dezenas de pessoas, que entre si partilhavam os parcos recursos que resultavam do trabalho da terra.




A pobreza material da população, cessada que estava a exploração riquíssima da produtiva fábrica de púrpura, está bem expressa na formulação urbanística da localidade e, sobretudo, no carácter chão da arquitectura desta sua capela. De traços simples e simbolicamente próxima dos valores muito regulares que sempre caracterizaram a existência local, a Capela de São Brás conjuga em si os principais elementos que nos ajudam a perceber e a conhecer a povoação.

A devoção a São Brás, o santo arménio que começa a sua vida adulta como médico e que abandona tudo o que tem e o seu dia-a-dia na cidade depois de ouvir o chamamento de Deus, é também ela ilustrativa do carácter longínquo que a Areia representou durante muitos anos, em linha com a opção do Santo por uma vida de eremita, devotado à interioridade e à oração, em comunhão profunda com a solidão da natureza. A singeleza da história, a mesma que caracteriza a Capela de São Brás e mesmo o devir quotidiano na localidade da Areia, dão nota desse desligar sentido das correntes que nos prendem permanentemente à clausura da materialidade, representando um ímpeto de libertação que é resultado da proximidade a Deus.

A Areia, na sua ligação a São Brás, representa assim a profundidade da entrega devocional de Cascais à causa do despojamento material, numa sentida e assumida opção pela simplicidade extrema.

As duas devoções que estão nos altares secundários deste templo, entregues a Nossa Senhora de Fátima e ao Sagrado Coração de Jesus, são também elas expressivas deste caminho, denotando uma continuidade na prática devocional que terá obrigatoriamente de assentar numa vivência comunitária solidamente assente num conjunto e valores simbólicos desenvolvidos ao longo de muitos anos.

Visitar a Areia e a Capela de São Brás, num exercício de libertação perante a opressão sensível do charme de Cascais e dos Estoris, é assim uma oportunidade para entender a perenidade desta escapatória axial na formulação mais profunda da comunidade e do património Cascalenses.



(*) HENRIQUES, João Aníbal, História Rural Cascalense, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 1997.