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segunda-feira

Cascais e o Terramoto de 1755




por João Aníbal Henriques

O cataclismo que se abateu sobre Lisboa no dia 1 de Novembro de 1755 deixou um rasto de destruição na Vila e no Concelho de Cascais. O terramoto e o posterior maremoto, foram acompanhados de incêndios e muitos dos principais edifícios que existiam foram completamente destruídos.

A face urbana da Vila de Cascais, com a monumentalidade própria de uma pequena vilória piscatória, sofreu enormes alterações e, mercê dos muitos interesses instalados nesta terra, terá sido porventura o terramoto o embrião da primeira operação de especulação que Cascais conheceu…

De facto, as Memórias Paroquiais, bem como as respostas dos reitores das igrejas às questões levantadas pelas autoridades depois do terramoto, apresentam-nos informações muito úteis para conhecer e compreender o que então aconteceu em Cascais. A menção à antiga torre-relógio, que desapareceu nessa manhã fatídica, e a organização espacial dentro das muralhas do velho castelo, estão bem expressas nas palavras do pároco de então: “Está esta vila sem relógio porque este, e sua grande torre feita pelos mouros, que sefes em cinzas. O palácio dos marqueses de Cascaes uq era de hua excelente perspectiva, e de exquisitas pinturas, com hua bella ermida, desconhecesse tudo pelo que foi, e já não hé (…). Nesta freguesia há hu castelo, cujo hoje está todo cheio de moradores e para nada serve mais, porem ahinda selhe conservão alguas amejas, cujo fica para abanda da ribeira, pegado com os palacios dos marqueses de Cascaes”.



Também Frei António do Espírito-Santo, um dos frades carmelitas do Convento de Nossa Senhora da Piedade (actual Centro Cultural de Cascais), dá-nos conta do estado do castelo após o terramoto de 1755: “cahio a torre com o seu mais especioso relógio nas sonoras vozes do seu sino, que fica olhando para norte, e matando 22 pessoas”.

Esta torre, bem identificada em muita da cartografia antiga que se conhece, corresponderia à torre que se situava na parte Nascente do Castelo, com frente para a área do antigo Rossio. Teria planta redonda, em linha com a tradição arquitectónica deste tipo de edifícios, facto ainda visível nas fotografias tiradas no início do Século XX por João da Cruz Viegas, D. António de Castelo-Branco e pelo Visconde de Coruche. De salientar que alguns dos torreões do antigo castelo, marcando os eixos que deram forma ao núcleo urbano inicial da Vila de Cascais, subsistiram até aos anos 60 do século passado, quando foram demolidas no âmbito do surto de construção que assolou Cascais nessa época.
Em termos religiosos, eram vários os edifícios que existiam em Cascais neste final do Século XVIII. Mas a maior parte, mercê das agruras do cataclisma, acabou por ficar muito danificado ou mesmo completamente destruído.



De acordo com o testemunho do Reitor da Igreja Matriz de Cascais, Padre Manoel Marçal da Silvejra, ao responder em 1758 aos inquéritos paroquiais, nada sobrou do terramoto e o que se manteve de pé estava em tais condições que a ele lhe parecia que mais valia destruir para construir novas edificações de raiz do que proceder ao seu restauro: “(…) a villa ficou toda arruinada até ao chão. Não há caza, wur ou não cahisse em terra, ou não ficase abalada, ameaçando ruína. Os templos, a ponte, a cidadela, e os eus quartéis, tudo está demolido, e feito em pó. A major parte da villa haita ahinda em barracas fora, e dentro do destricto, a ponte está com hu só arco em pee, e senaõ passa po rella, sem que se reparasse ahinda nada, somente alguas czas setem levantado, poucas, ao mesmo tempo, que outras, com as tempestades e ventos, se tem acabado de postrar”.

Do reitor da Freguesia da Ressureição, a segunda freguesia de Cascais e situada no espaço extra-muros, recebemos a informação de que foi esta uma das mais afectadas freguesias do país com a catástrofe do terramoto de 1755: “De todas as terras foi esta aq. Experimentou mayor ruina (conforme dizem todos) por causado ditto terramoto, pois todos os edifícios serruinarão, e quazi todos cahiram, e algum q. nan cahio de todo ficou inahabitavel, mas ao prezente is se acham muntos deles reedificados”.

Mas, se é certo que a destruição provocada pelo terramoto foi enorme, certa é também a dose de exagero patente em todos estes documentos, explicável possivelmente com a necessidade de chocar quem os lê-se para sensibilizar o poder nacional para a necessidade de recursos que Cascais sentia para proceder à sua recuperação urbana. De facto, tendo ruído a Igreja da Ressurreição, que se situava sensivelmente onde actualmente se encontra a estação de comboios, muitos outros monumentos civis, militares e religiosos se mantiveram de pé o foram reconvertidos e/ou recuperados e ainda hoje podem ser apreciados na Vila de Cascais.




A Igreja de Nossa Senhora da Assunção, por exemplo, uma construção de meados do Século XVII que resistiu à força do terramoto, foi bastante alterada no seu exterior tendo sofrido várias alterações que lhe conferem a imagem que hoje apresenta. Na sacristia e no arco que suporte o coro, ainda são visíveis as sequelas do cataclisma, ao lado com uma pequena inscrição que informa que o templo havia sofrido obras de restauro em 1720 à custa dos irmãos pescadores.

Mais à frente, e para além dos muros antigos do castelo, a Cidadela de Cascais e a Fortaleza de Nossa da Luz resistiram ao terramoto, tendo acontecido o mesmo com o Convento de Nossa Senhora da Piedade que, já no Século XIX, foi comprado em hasta pública pelo Visconde do Gandarinha que o adaptou a residência de veraneio. Quando essas obras foram efectuadas, estavam ainda em estado razoável de conservação a antiga sala do capítulo, a capela, o claustro, a cisterna e mesmo o friso de janelas viradas a Sul que ainda hoje se mantém.




Da mesma maneira, e para além das pequenas capelas de Nossa Senhora de Porto Seguro e de Nossa Senhora da Conceição, sobreviveram ainda as capelas de Nossa Senhora da Vitória, a Igreja da Misericórdia e a Igreja e Nossa Senhora dos Navegantes que foram reconstruídas depois da catástrofe.




Tendo exagerado de forma linear a verdade do que aconteceu, a documentação coeva dá-nos uma primeira imagem do que era Cascais naquela época. E, sabendo nós que o ímpeto de construção que se lhe segue fica a dever-se à generalizada informação de ruína eminente em que pretensamente Cascais se encontrava, fácil se torna perceber que naquela altura, como ainda hoje, foi sobre inverdades e premissas adaptadas às necessidades do momento, que se deu uma nova cara ao Cascais de sempre.

terça-feira

O Teatro Gil Vicente em Cascais




por João Aníbal Henriques

Quando Cascais assistiu, nos idos de 1869, à inauguração do Teatro Gil Vicente, recém-construído a expensas do ilustre Cascalense Manuel Rodrigues Lima, ainda não tinha perfeita consciência da importância desse acto e dessa data da História da própria vila.

É que, nesse ano, Cascais era ainda a pequeníssima aldeia de pescadores situada numa das zonas mais longínquas dos arredores de Lisboa, conhecida mais pelo seu peixe e pela sua importância estratégica de âmbito militar, do que pela arte, ciência, sociedade ou cultura.

Mas foi em 1869, com a inauguração do teatro, que tudo começou a mudar.

Logo nesse mesmo ano, depois de os jornalistas lisboetas noticiarem a inauguração de um “teatro de luxo na vila de Cascais”, os cerca de 500 lugares da sala de espectáculos esgotaram várias vezes. Por ali, como se de uma grande capital cosmopolita se tratasse, passaram os grandes nomes da vida artística europeia dessa época. Desde o grande actor Vale, passando por Mercedes Blasco, Laura Ferreira, Pedro Cabral, Beatriz Rente e Pereira da Silva, muitos foram os nomes famosos que levaram longe a fama da nova casa de espectáculos e da própria vila de Cascais, recriando em torno da povoação uma mística de interesse que nunca mais desapareceu.

Terá sido também a partir da construção do Teatro Gil Vicente, que se criaram em Cascais numerosos grupos, colectividades, associações e academias, que alteram por completo a vivência social e cultural do velho burgo. O teatro de amadores, ainda hoje recordado com nostalgia por ter marcado de forma perene a História de Cascais, desenvolveu-se sempre em torno deste espaço. D. Fernando Atalaia, Rodrigo Berquo, Maria Luís da Costa, Belmira Lima, D. José de Atalaia, Ermelinda Assunção, subiram ao palco lado-a-lado com celebridades estrangeiras como Sandor Vegh, Eisenberg, Hans Munch e Karl Engel. E o fulgor manteve-se inalterado durante praticamente um século. Francisco Carneiro, Luís Costa Constante, João Constante, Helena Pinto, Edmundo Ferreira, Jaime Salgado, Marília Costa, Cármen Mota, João Carriço, Juvenália Tavares, são apenas alguns exemplos dos muitos artistas amadores que durante muitas décadas foram criando, encenando e fazendo subir ao palco algumas das mais divertidas, cómicas, dramáticas e culturalmente emblemáticas peças de teatro do país.


Foi também a inauguração do Teatro Gil Vicente, com toda a animação que a envolveu, que motivou o Rei Dom Luís I e a Corte Portuguesa, a escolherem Cascais como estância de veraneio a partir de 1870, tendo a Família Real assistido, de forma reiterada, a várias peças de teatro e inúmeros eventos culturais nas cadeiras deste novo espaço de entretenimento.



segunda-feira

Navio Tokio Spirit Encalhado em Cascais




Sábado, dia 17 de Outubro de 2015. No meio de um imenso temporal, com ventos fortíssimos e o caos instalado no Concelho de Cascais, o petroleiro “Tokyo Spirit”, das Bahamas e com 274 metros de comprimentos e 78845 toneladas, encalhou junto ao Farol de Santa Marta. Ao longo dos dois dias em que durou o resgate, no qual participaram rebocadores vindos de Setúbal e de Sines, o enorme navio foi arrastado para junto da marina de onde foi retirado no final da tarde de Domingo. 





sábado

A Pastelaria Bijou e a Identidade Municipal de Cascais



Ao longo dos últimos anos foram paulatinamente desaparecendo as referências que durante muitas décadas deram forma à identidade comercial de Cascais... da Casa Tomaz até ao Faraó, quem não se lembra do Café Tavares, da Casa do Mário, da Tabacaria Triunfo, da União Eléctrica Cascaense, do Átomo, da Galera, da Glória, do Cesteiro, do António de Alvide ou da Casa Torrado?


por João Aníbal Henriques


Mercê da evolução dos tempos, da morte dos comerciantes que as conceberam e das crises sucessivas que têm afectado o comércio tradicional, Cascais tem vindo a perder os pilares comunitários que ao longo de muitas gerações sustentaram uma forma de ser e de estar que consolidou a vocação cosmopolita da vila e, acima de tudo, tornou possível o sucesso extraordinário alcançado pela Região de Turismo do Estoril.

Agora as coisas funcionam a um ritmo diferente e os interesses de Cascais têm obrigatoriamente de se adaptar aos tempos em que outros interesses se lhes sobrepõem...

Exemplo disto é o que se prepara para fazer à Pastelaria Bijou, situada no Largo Camões, e que é hoje uma das últimas referências históricas do comércio de Cascais. Reconhecida pela sua longa história mas, sobretudo, pela extraordinária qualidade dos seus produtos e pela simpatia e profissionalismo dos que nela trabalham, a Pastelaria Bijou vai assistir a uma redução administrativa dramática da sua esplanada que, para além de comprometer a sua viabilidade comercial, vai significar necessariamente mais uma machadada na oferta do comércio Cascalense, que cada dia que passa se vai transformando cada vez mais num imenso Martim Moniz.

Sendo incompreensível a cegueira administrativa das entidades oficiais e notória a sua incapacidade para conhecer e reconhecer o que ainda resta da antiga e saudosa Identidade Cascalense, fica a certeza de que a concretizar-se, o desaparecimento da Bijou será mais um passo no sentido da anomia crescente que o poder partidário tem vindo a impor a Cascais.


Pedro Canelas, o proprietário da Pastelaria Bijou, fundador da Fundação Cascais e Cascalense assumido na defesa intransigente dos interesses de Cascais, integrou listas candidatas à autarquia de Cascais num partido diferente daquele que hoje controla a Nossa Terra.

Que tristeza o que está a acontecer em Cascais...

quarta-feira

Fertilidade Romana no Espigão das Ruivas




por João Aníbal Henriques

Situado no extremo ocidental do concelho de Cascais, onde desde a Idade do ferro se praticam os desconhecidos para reconhecidos cultos da fertilidade, encontramos o sitio arqueológico do Espigão das Ruivas, num lugar que a tradição designa como Porto de Touro ou Guincho Velho.

A envolvência deste lugar, bastante isolado do resto do território e, por isso, propício ao desenvolvimento de práticas ritualizadas, aliado ao facto de existir nas suas imediações um importante curso de água denominado Rio de Touro, possuía excelentes condições para o desabrochar de relações íntimas com a divindade, facto comprovado pela existência de um templo neste sítio, e que foi repetidamente reutilizado durante várias épocas, desde a pré-história até à actualidade.

De acordo com os dados arqueológicos fornecidos pelas escavações ali efectuadas pela Associação Cultural de Cascais, dirigidas pelo arqueólogo Guilherme Cardoso, o Espigão das Ruivas terá sido um dos principais pontos estratégicos onde se efectuou o culto da fertilidade, ainda hoje bastante vicejante junto das comunidades humanas que habitam ou utilizam as redondezas.



O afastamento do sítio face aos principais aglomerados humanos, bem como a proximidade patente face ao Rio de Touro, carregado com a simbologia da força e da virilidade, transformou este local de culto num sítio onde as práticas efectuadas não eram muito compatíveis com a mentalidade oficial das diversas épocas, factor condicionante da transformação de uma prática comum a quase todas as civilizações, ou seja, a adoração dos astros com o intuito de incrementara a fertilidade da mulher, uma zona profundamente vincada por um misticismo crescente, o que contribuiu para a manutenção, difusão e desenvolvimento dessas actividades. A natural curiosidade humana face ao desconhecido, bem como as especulações que também sob uma forma natural se vão desenvolvendo transformou o Espigão das Ruivas num sítio onde os meros rituais de passagem característicos de quase todas as sociedades ditas primitivas, depressa se transformaram em ritos mágico-religiosos carregados de um misticismo que se explica de forma natural pelas contingências geográficas  e magnéticas  que o local possuía, mas também pelo encantamento e pelo sentido apelativo que estava inerente às próprias acções ali desempenhadas.



De facto, quer a denominação de lugar, onde as ruivas representam, segundo a tradição popular, as antigas ninfas que ali aguardavam o sopro divino que lhes permitia o desenvolvimento da carga sexual com que encantavam os homens, quer mesmo o nome que ainda hoje é atribuído ao curso de água ali existente, em que a relação com o Deus Romano da fertilidade e com o símbolo grego e cartaginês da força e da pujança está extraordinariamente bem patente, demonstram bastante bem a forma como a prática reiterada de um exercício que se afasta da vivência quotidiana pode influenciar as mentalidades, a etnografia e mesmo a vida política de uma comunidade. Essa influência, por seu turno, acaba por influir, sempre de forma positiva, no próprio património edificado, tal como se constata pela listagem patrimonial que apresentamos em anexo.

A chegada dos romanos à Península Ibérica, bem como o esforço por eles desenvolvido no sentido de promover a efectivação de um processo de aculturação do qual dependia a real ocupação deste lugar, acabaram por influir decisivamente no desenvolvimento da nova mentalidade peninsular. De facto, por serem conhecedores de novas técnicas de utilização e de rentabilização do solo, herdadas na sua quase totalidade daquelas que o antigo império grego havia repescado das civilizações antigas do médio oriente, os romanos que se instalaram em Cascais acabaram por transformar, de uma forma bastante radical, o modo de vida das populações indígenas, uma vez que estas últimas, na sua quase totalidade, eram compostas profissionalmente de agricultores e pescadores, razão pela qual se tornou bastante fácil o referido processo de aculturação.

Como se sabe, ambas estas actividades se encontravam bastante dependentes dos elementos naturais para o seu sucesso ou insucesso, sendo que, aqui como noutros locais, os habitantes que a elas se dedicam tendem a respeitar de sobremaneira as expressões do ambiente e do meio envolvente, atribuindo-lhes significação simbólica e religiosa. Não será por acaso, quanto mais não seja porque o acaso não existe, que os grupos humanos formados essencialmente por pescadores e lavradores, tal como acontecia em Cascais no período imediatamente anterior à chegada dos Romanos, são mais propícios ao desenvolvimento de rituais místicos e mágicos.



Não será estranho a nenhum Cascalense, segundo esta ordem de ideias, o encontrar de diversas capelas e ermidas dedicadas a figuras simbólicas do cristianismo católico, edificadas sobre vestígios mais ou menos palpáveis de templos ou espaços sagrados anteriores, nomeadamente atribuídos a cultos pagãos ou indígenas pré-históricos. A continuidade ritual de Cascais será assim, como não poderia deixar de ser, o fruto de uma série de influências recebidas dos mais variados pontos do globo, desde as antigas migrações norte-africanas, até às recentes comunidades afro-brasileiras que aqui desenvolvem as suas acções. A dependência da terra e do mar, mesmo na actualidade, favorece as ligações entre o Homem e Deus, uma vez que o processo de funcionamento da natureza, à partida com características absolutamente aleatórias, se torna incompreensível para o comum cidadão, que é obrigado a procurar noutros sítios as explicações para os bons e maus anos de colheitas e para as boas ou más pescarias.



Assim, as contribuições dadas pelos invasores itálicos para o conhecimento daquelas que eram as melhores formas de controlar a natureza depressa lhes granjeou um respeito e uma fidelidade que veio a permitir a sua vasta interferência nos rituais mágicos e religiosos praticados neste espaço. Só que, nesta como noutras áreas directamente relacionadas com a presença romana no actual território Cascalense, também os invasores superaram o bloqueio ideológico promovido anteriormente. Os recém-chegados ocupantes, como povo desenvolvido à custa de intrincados processos de aculturação promovidos em todo o território imperial, incentivados pela riqueza crescente que a aculturação e a necessidade de homogeneidade promovia, depressa perceberam que a manutenção física do território conquistado, para ser duradoura e para produzir os tão almejados frutos económicos pretendidos, passava mais depressa pelo encetamento de relações amigáveis com os indígenas, do que pela manutenção de uma posição de força militar que, como já outros casos o haviam demonstrado, possui um tempo de vigência muito curto, para além de se tornar bastante dispendioso.

A única solução compatível, no caso peninsular, onde as populações autóctones possuíam um grau de desenvolvimento difícil de definir, uma vez que as suas estruturas de hierarquização social, bem como as principais características de vivência em grupo, se encontravam providas de bases bastante sólidas, o que, para alguns investigadores poderá ser sinónimo de um grau bastante grande de desenvolvimento, foi a de promover o contacto amigável entre os dois grupos, de onde resultou a miscelânea cultural encontrada em Cascais pelo Prof. José da Encarnação. Para outros investigadores, a consequente procura crescente de ritos e rituais paranormais, bem como a existência de uma complicada base ideológica e religiosa, traduz-se na prática pela pouca aptidão comunal pelas matérias relacionadas com o conhecimento científico.




Só que, em nosso entender, esses investigadores esquecem as características que normalmente revestem essa proclamada cientificidade, de onde se destacam, pela observação do devir histórico das ciências, o carácter precário e provisório de todas as descobertas efectuadas em quase todas as áreas do saber. Por esse motivo, e porque o saber mágico-ritual das populações indígenas Cascalenses, no momento imediatamente anterior à chegada dos romanos, era de facto bastante complexo, para além de espelhar grandemente a necessidade de compreensão da natureza e dos seus fenómenos, será lícito pensar que o desenvolvimento comunitário inerente a este facto deverá ser tido em conta, sendo essa, afinal, a única chancela que veio a condicionar o esforço romano de proclamar e desenvolver uma política de respeito face às crenças e à cultura peninsular. É por este motivo, mais do que por qualquer outro, que a miscenização entre romanos e indígenas vai marcar definitivamente a vivência daquele que é actualmente o território concelhio de Cascais, facto que teve o seu seguimento lógico, em momentos seguintes, pela continuidade de utilização desta política de mistura que esteve patente não só durante o período visigótico, com também durante o Árabe e mesmo durante os anos de ouro dos Descobrimentos.

A comprovar esta hipótese e na sequência do trabalho epigráfico do Prof. José da Encarnação, já mencionado anteriormente, está a existência de diversas lápides romanas encontradas em Cascais onde é possível vislumbrar a mistura em questão. Na sua obra «Roteiro Epigráfico Romano de Cascais», embora com algumas naturais reticências, o autor segue precisamente esse cainho: «por conseguinte, parece ter confluído na identificação deste divindade influências orientais. Não será de rejeitar a hipótese de uma relacionação - através do radical ar - com a água corrente, na sequência do raciocínio, apresentado em 1975, a reflectir a importância da Ribeira de Manique para os agricultores de antanho. Ma essa divindade tem um cunho étnico, digamos assim, atendendo ao primeiro sobrenome: protegerá de modo especial os Aranti; já o segundo encomiástico, terá uma função diferente, a de infundir confiança - porque Áraco vencerá todos os obstáculos... [...] É a dedicante uma indígena romanizada: usa o gentilício decerto mais frequente no termo de Olísipo - Iulius - e, por isso, não hesita em o mencionar simplesmente em sigla.»



É óbvio, quando se menciona a vivência psíquica e sagrada de uma comunidade que viveu tão afastada do presente, que o carácter dos conhecimentos que agora se adquirem e se difundem podem ser simplesmente pistas que servirão de bases a novas hipóteses, razão pela qual, e fundamentando a já referida precariedade do conhecimento científico actual, o ilustre autor acaba por concluir mais à frente: «Uma interpretação sedutora, confesso; assaz desprovida de fundamentos válidos, não o nego; mas é nesse campo ainda movediço que, infelizmente, ainda nos movimentamos quando tentamos desvendar o mundo ainda tão hermético da teonímia indígena peninsular».



segunda-feira

Etnografia Simbólica de Cascais




por João Aníbal Henriques

Ao longo da sua extensa História, foram inúmeros os factores directamente condicionantes do desenvolvimento político, económico, social e religioso de Cascais. As suas numerosas linhas de água, serpenteando entre inúmeros montes e elevações de ténue e acentuada inclinação, entrecortadas de maciços calcários repletos de grutas e reentrâncias, propiciaram e condicionaram o aparecimento de estruturas simbólicas que, por seu turno, contribuíram para o aparecimento de estruturas simbólicas que, por seu turno, contribuíram para o desenvolvimento de formas individualizáveis de comportamento.


Esta forma de estar na vida, que é tipicamente cascalense, é diferenciável daquela que se fez sentir em crise em Sintra, onde o clima, o ambiente, os recursos hidrícos e os acidentes geográficos, são substancialmente diferentes dos que existem em Cascais. É de todos conhecida, com toda a certeza, a diferença que existe, no seio da Serra de Sintra, entre a vertente soalheira cascalense, e a encosta sombria e húmida de sintra, factor que, quanto mais não seja, influencia a forma de construção das edificaçõesque naqueles sítios são levantadas. Por outro lado, no que ao concelho de Oeiras diz respeito, as principais diferenças que o afastam do de Cascais, dizem respeito à composição do solo.

No concelho vizinho, tal como também na zona mais oriental do município cascalense, a riqueza do solo propiciou o desenvolvimento de uma vivência rural significativa, traduzível, como poderão constatar pela listagem patrimonial que apresentamos em anexo, na faceta saloia que caracteriza quase todas as construções edificadas nesse espaço até meados deste século. No entanto, e para além das influências que se processam a nível prático, e de onde se salientam as já referidas referências às construções particulares, existem muitas outras formas  de condicionamento à vivência das populações.

A prova disto, como não poderia deixar de ser, está patente nos diversos vestígios etnográficos que ainda subsistem no seio das comunidades que habitam nestes três concelhos. Hábitos antigos, passados de geração em geração e que, de forma mais ou menos exacerbada, acabam por influir no modo de vida da população, seja em termos práticos nas actividades profissionais do quotidiano, quer mesmo em termos simbólicos, nas vivências religiosas e místicas da população. Não será por mero acaso, por exemplo, que a figura de Nossa Senhora dos Navegantes é muito venerada em Cascais, facto que só se compreende pela proximidade das excelentes águas da baía, bem como da arte da pesca que hoje ainda, infelizmente de uma forma muito efémera, continua a funcionar como atractivo turístico para o centro da vila. 

Da mesma forma, as diversas lendas que existem em torno de locais onde foram edificadas capelas e ermidas, muitas vezes praticamente inacessíveis ao comum cidadão, e bastante importantes em épocas de romarias e procissões, só podem ser explicadas se tivemos em conta a organização interna do simbólico das populações e que, como verificámos ao longo dos muitos meses em que durou este trabalho, se pode relacionar directamente com as próprias características físicas do território municipal.

De facto, se nos ativermos aos números concretos daquilo que é hoje a realidade patrimonial do concelho de Cascais ou, pelo menos, àquilo que normalmente é considerado como objecto de valor patrimonial, depressa perceberemos que cerca de noventa por cento desses artefactos se inserem em tabelas tipológicas relacionadas com o simbólico. 





As conhecidas sandálias de calcário encontradas nas grutas artificiais de Alapraia, os artefactos votivos desenterrados do Espigão das Ruivas, as muitas capelas e ermidas, até à maior parte das habitações burguesas de finais do século XIX construídas no Monte Estoril e em quase toda a faixa costeira, são apenas alguns exemplos de facetas patrimoniais relacionadas com esta questão, salientando-se aqui, como resultado da observação directa dos objectos ou edificações em questão, o facto de que o passar dos tempos, com a consequente mudança das mentalidades, não foi factor suficientemente condicionante para influenciar grandemente nem tão pouco transformado de forma significativa a forma de pensar dos cascalenses.

De facto, desde a época pré-histórica até à actualidade, muito embora se tenham modificado os cultos, é possível vislumbrar um factor que serviu de fim condutor e que sempre condicionou a vivência simbólica destas comunidades, não só em termos de ocupação de espaços sagrados, como consequência deste facto, encontrar vestígios nos rituais habituais de modos de agir que possuem as suas raízes envoltas nos mantos cerrados das brumas do tempo. A explicação para este facto, sempre dependente da perspectiva com que se encara o fenómeno e que, de alguma forma pode ser condicionada pela interpretação pessoal da realidade, encontrar-se-á provavelmente no próprio carácter físico da humanidade. 

Desde tempos remotos, quando mesmo os aspectos mais básicos da tecnologia se encontravam fora do alcance da mente humana, que o Homem tem necessidade de explicar as causas dos acontecimentos que ocorrem quotidianamente. No entanto, e como a maior parte deles o transcendem ou ultrapassam a sua capacidade de explicação, a consequência antropológica é a procura no Além do elemento-chave para o deslinde do mistério, factor observável em Cascais como em todos os pontos do globo onde a influência física do Homem se fez sentir. 

Neste espaço, incentivado pelas características do território, onde o estado do mar condicionava a actividade piscatória, e onde os bons e maus anos agrícolas acabavam por influenciar a produtividade da terra, essas características são naturalmente incentivadas, uma vez que a explicação da fertilidade, ou mesmo a natural procura do melhor, condicionam o aparecimento de formas de pensar que se vão interiorizando e transformando em mitos; esses mitos, por seu turno, vão ter de ser enquadrados dentro das actividades normais do grupo, e para tal, com a ajuda das estruturas e instituição próprias da organização social humana criam-se ritos e rituais, que propagavam e consolidavam a primitiva interpretação pessoal do facto em questão; como consequência do desenvolvimento destas formas de agir, e uma vez que a sedentarização de um grupo humano implica, logo à partida, a necessidade de incentivo da ligação entre o indivíduo e a terra, aparecem então as implicações directas no património, seja em termos de construções de carácter puramente sagrado, como são, por exemplo, as necrópoles e os templos, até aos mais básicos vestígios das habitações pessoais, onde se espelham muitos dos aspectos ligados a esta vivência religiosa.





quinta-feira

O Património da Democracia em Cascais





por João Aníbal Henriques

Para além de serem testemunhos importantes das gerações que outrora habitaram em Cascais, as mais importantes peças do património histórico de Cascais também falam directamente para o futuro e contribuem para a consolidação da nossa identidade municipal.  

O sentido de cidadania, essencial para a consolidação da democracia e para o reforço da nossa consciência cívica, depende em primeira instância das memórias partilhadas pelas várias gerações de Cascalenses.

No ano em que se processa a revisão do Plano Director Municipal, instrumento essencial na gestão urbana do Concelho de Cascais, assumir o património histórico como peça-chave na reconfiguração da fácies municipal, é assinalar com especial cuidado a necessidade que temos de retomar a vocação turística municipal e de o fazer consolidando uma oferta de qualidade que passa pelo reforço da diferença que os Estoris apresentam.

É necessário, desta forma, compreender os ritmos de construção e de edificação do espaço, de modo a tornar-se mais compreensível o reconhecimento das origens da nossa própria cultura. De nada serve, em nosso entender, promover sistemáticas sessões de fogo-de-artifício e em festas populares, gastando milhares euros do erário público em sessões que visam entreter a comunidade, se nessa mesma comunidade não existir um laço de união que ela partilhe e sinta, desejando-se e defendendo-se mutuamente daquilo que lhe é adverso e mantendo sempre o respeito pelo próximo como mantém o respeito por si mesmo.

A conservação do património histórico e cultural não deve ser visto única e exclusivamente, como um processo negativo de atraso no desenvolvimento e no progresso. A responsabilidade da actual geração de Cascalenses, no que a este assunto diz respeito, ultrapassa largamente o antiquarismo que está patente em algumas das nossas associações de defesa do património. Precisamos de garantir que o património cascalense é colocado ao serviço da comunidade, fazendo o ponto de ligação imprescindível entre a modernidade e a História, e criando elos essenciais entre as diversas gerações de cascalenses que aqui viveram, vivem e vão viver.


Para que tal seja possível, é necessário que exista conhecimento e carinho pelo que nos rodeia, de forma a que a manutenção da boa forma física dos imóveis, o seu estudo sistemático e, consequentemente, o seu usufruto cultural, lúdico, pedagógico e turístico se torne numa actividade que a todos diz respeito.

Acima de tudo, é essencial que a nossa herança patrimonial se mantenha, sempre que possível, integrada na vida quotidiana, fazendo parte da comunidade que nela ou junto a ela habita ou trabalha.

Se um determinado monumento ou sítio desperta na comunidade sentimentos de homogeneidade ou de nostalgia, como são os casos dos centros históricos da Abóboda, de Alcabideche, do Monte Estoril, ou mesmo de Caparide ou da azenha que dali retirou o seu nome, o nosso dever é apoiar a sua requalificação e promover assim um reordenamento urbano onde o progresso e o desenvolvimento possam estar interligados ao passado.



É essencial também, que todas as transformações que efectuarmos nestes núcleos urbanos, ao abrigo da necessidade de defesa do património cascalense, se caracterizem por um levado grau de qualidade, que nos garanta que as futuras gerações de munícipes as respeitam e admiram, perpetuando assim um ciclo que preserve a memória da nossa Nação.

Tal como existe continuidade entre o passado e o presente, também deverá existir uma enorme proximidade entre a actualidade e o futuro. É nosso dever tomar conta da nossa herança cultural não só para nosso próprio benefício, mas também para o usufruto das gerações futuras, fornecendo-lhes assim um legado vivo e em constante mutação, que lhes permita intervir e decidir o seu próprio futuro.

Outra das nossas obrigações, nesta perspectiva, é a de criar exemplos dignos em termos arquitectónicos, de modo a vermos representados no futuro aquilo que de melhor pensamos na actualidade. É o caso, por exemplo, de grande parte dos monumentos comemorativos do Concelho de Cascais que, na sua grande maioria, permitirão às futuras gerações, compreender as nossas perspectivas, os nossos anseios e as nossas necessidades, preservando assim os laços de união que com elas devemos criar.

No ano em que se comemora o 40º Aniversário do 25 de Abril de 1974 vão já muito longe os tempos em que em Cascais existia uma Comissão do Património Histórico e Cultural... 





sexta-feira

O Estoril não foi à BTL




Pela primeira vez desde há 26 anos, o Estoril não foi à BTL – Feira Internacional de Turismo de Lisboa. No ano do centenário do seu nascimento [1914-2014], e numa altura em que se assumia como terceiro destino turístico em Portugal, logo depois de Lisboa e do Algarve, é com grande preocupação, estranheza e perplexidade que registamos esta ausência, principalmente se tivermos em conta o reconhecimento internacional inquestionável que a marca turística ‘Estoril’ conquistou ao longo dos últimos anos. Substituído por uma pequena banca sempre vazia e completamente perdida dentro do stand do Turismo de Lisboa com a recém-criada marca ‘C’ de Cascais (e sabe-se lá do que mais), é com muita tristeza que somos obrigados a explicar a todos os operadores internacionais que nos questionam sobre o porquê deste desaparecimento estranhíssimo do Estoril, que foram motivações políticas e estratégias partidárias que determinaram esta morte anunciada. Eles não percebem. Nós também não. 



quinta-feira

Ainda a Ribeira das Vinhas...




Situado a dois passos do centro de Cascais, com início nas traseiras do mercado, o Vale da Ribeira das Vinhas é um dos espaços com mais potencial de Cascais. Envolvida pelo bucolismo das antigas quintas (muitas delas, infelizmente, abandonadas) a ribeira deixa antever aquilo que foi a ruralidade Cascalense, oferecendo um dos mais bonitos e inesquecíveis retratos de um Cascais de outros tempos. Facilmente pedonizável, recriando um percurso muito acessível e totalmente verde entre o centro da Vila e a Serra de Sintra, é uma pena o estado de completo abandono e de incúria latente em que este espaço se encontra, contrastando de forma abissal com as suas potencialidades naturais e a mais valia turística em que facilmente se poderia transformar. Provavelmente por falta de vontade, os responsáveis autárquicos de Cascais escudam-se no facto de muitos daqueles terrenos serem propriedade particular para explicar a falta de recuperação deste espaço. Mas não é verdadeira esta desculpa. Ao longo da ribeira, acompanhando todo o seu percurso, existe um caminho de pé-posto que é público e que seria facilmente reconvertido num dos mais impactantes percursos pedestres de Cascais. Assim haja vontade!





















terça-feira

O Ilusório Acesso para Deficientes ao Parque da Ribeira dos Mochos




Inaugurada com pompa e circunstância vários anos depois da inauguração do próprio parque, a nova entrada adaptada para deficientes do Parque Urbano da Ribeira dos Mochos, no final da Avenida Infante Dom Henrique, foi apontada como um importante investimento para oferecer acesso a pessoas com mobilidade condicionada àquele espaço extraordinário de Cascais.

A estrutura de madeira, imponente e complexa, compõe-se de uma sucessão de rampas paralelas que, num percurso de vários metros, ajudam a reduzir o desnível de forma a permitir que as cadeiras de rodas possam entrar facilmente no Parque da Ribeira dos Mochos.

Mas infelizmente não passa de uma mera ilusão de óptica que engana quem dela pretende usufruir.  Depois do percurso sinuoso através da estrutura em madeira, o Cascalenses que entrar no parque em cadeira de rodas passa a ter 2 opções para a sua visita: ou segue em direcção ao parque infantil, e aí encontra dois lanços de escadarias íngremes que não pode descer; ou segue em direcção ao passeio central, onde são três os lanços de escadas…

Ou seja, depois de descer o percurso difícil até ao final do passadiço, a única opção viável é… desistir de visitar o parque e voltar a fazer o mesmo percurso para trás, em direcção a saída!

Como de boas intenções está o inferno cheio, é absolutamente incrível esta situação, sobretudo quando pensamos no colorido da inauguração e nas verbas públicas que foram gastas para o efeito...