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quarta-feira

A Vivenda Miramonte: Um Repositório de Memórias do Monte Estoril





Apesar do seu aspecto rústico e quase inconsistente, a Vivenda Miramonte, situada na Rua do Lido, no Monte Estoril, é hoje um dos principais bastiões da memória urbana daquela localidade. Rodeada dos seus torreões e da cocheira que ainda hoje guarda os vestígios empoeirados dos últimos cavalos que ali pernoitaram, a Vivenda Miramonte foi a casa de José Dias Valente, fundador e Director do Colégio João de Deus, e personagem incontornável na História do Monte Estoril.

Construída já no início do Século XX, mas aproveitando os resquícios de um movimento romântico que o Monte Estoril nunca rejeitou, a Vivenda Miramonte é hoje um dos paradigmáticos exemplos da memória urbana do Concelho de Cascais.

Rodeada de um pequeno castelo, recriando o carácter altaneiro dos torreões que decoravam as vivendas mais eruditas, a Vivenda Miramonte complementa um quadro geral de que fazem parte da Capela, a garagem e o edifício das cocheiras. Do cimo dos seus mirantes, e fazendo jus ao nome da própria casa, o Monte Estoril surge em todo o seu esplendor, tornando invisíveis os muitos problemas que agravam paulatinamente a qualidade de vida naquele lugar.

Utilizando profusamente os valores arquitectónicos entendidos como tipicamente portugueses, dos quais se destacam o telhado de beiral duplo e o painel azulejar com a identificação do imóvel, a Vivenda Miramonte reúne as características próprias da habitação erudita de Cascais e a sublime singeleza das aldeias rurais do termo de Lisboa, produzindo um efeito cenográfico exemplar, que transforma este imóvel numa espécie de duplicação adaptada daquilo que eram os valores tradicionais da portugalidade.

A importância da Vivenda Miramonte, no entanto, não se fica por aqui. Para além dos aspectos relacionados com as suas características físicas, foi ali que habitou durante várias décadas o antigo fundador e Director do Colégio João de Deus.

José Dias Valente, detentor de uma inteligência invejável e de uma capacidade de concretização sem par, foi sempre considerado pelos que o conheciam como uma das principais referências do Monte Estoril.

Pelo Colégio João de Deus, durante vários anos o único estabelecimento de ensino liceal existente na Linha de Cascais, passaram muitas gerações de portugueses que contactaram e conheceram de perto o carácter do seu Director. Conhecido pela rectidão e pelo aprumo que dedicava aos seus afazeres, Dias Valente demonstrou sempre ao longo da sua vida que os valores que o norteavam se sobrepunham a quaisquer outras necessidades.

Como contava amiúde o Dr. Mário Quina, amigo próximo de Dias Valente e médico do Colégio João de Deus, em certa altura, logo no início da sua carreira académica, quando era ainda um mero principiante no curso de letras da Universidade Clássica de Lisboa, foi-lhe marcado um teste escrito logo para a manhã. No decorrer da prova, e perante a estupefacção dos seus colegas, o professor reparou que ele não estava a escrever, questionando-o sobre o que se passava. A resposta, imediata e fulgurante, não se fez esperar: “ainda não estou preparado”. O mestre, como é evidente, não gostou do que ouviu e a crítica foi imediata. Enchendo-se de brios, Dias Valente responde-lhe simplesmente: “Para aprender a sua matéria chegam-me 24 horas”. “Então” – disse-lhe o professor – “venha amanhã a exame”. Como era seu hábito, passou a noite a estudar e, no dia seguinte fez uma excelente prova, cujo mérito foi publicamente reconhecido.

Ao acabar o curso, e por discordar do sistema vigente, pretendeu defender uma tese sob o tema “A Escola Normal Superior Deve Ser Encerrada Por Imoral”. Como é fácil de perceber, a teses nem sequer foi aceite, facto que se traduziu numa espera de mais dois anos pela licenciatura, até que, de facto, a Escola Normal Superior fosse encerrada.

Todos estes factos, aliados à necessidade premente que o Monte Estoril possui de conseguir recuperar as características próprias da sua antiga qualidade, impõem a recuperação das memórias associadas às casas, às ruas e aos recantos da povoação.

Se assim não se fizer, corre-se o risco de desaparecerem as estórias que deram forma à História dos Estoris.

quinta-feira

Fausto de Figueiredo: Quando o Estoril Deixou de Ser um Mero Lugar...





Apaixonado por Cascais e pelo Monte Estoril, onde passou a residir em Maio de 1910, Fausto Cardoso de Figueiredo é uma figura incontornável na história do urbanismo português.

Nascido em Celorico da Beira, Distrito da Guarda, em 17 de Setembro de 1880, Fausto de Figueiredo era Licenciado em Farmácia e foi, desde muito jovem, um dos mais promissores da Companhia Portuguesa dos Caminhos de Ferro.

Radicado no Estoril desde os seus trinta anos, quando casou com Clotilde Ferreira do Amaral, mostrou apetência para os negócios desde a mais tenra idade, assumindo-se muito sensível aos inúmeros problemas económicos e financeiros que afectaram Portugal e o seu tecido empresarial no período final do regime monárquico e no decorrer da 1ª república.

Clarividente e empreendedor, foi capaz de contrariar as vicissitudes conjunturais de um País que se encontrava à beira da falência, totalmente dependente de capitais externos e da iniciativa estrangeira, e de imaginar, projectar e construir aquele que é, segundo Maria da Graça Gonzalez Briz, é um dos únicos conjuntos urbanísticos globais de Portugal.

Iniciando o processo de construção do então denominado ‘Parque do Estoril’ pela aquisição dos terrenos inseridos na antiga Quinta do Viana, onde existia somente um conjunto de construções precárias que davam apoio às actividades do recinto termal, e os restos degradados do Convento Franciscano de Santo António, Fausto de Figueiredo depressa percebeu que a única forma de enfrentar a concorrência oferecida pela Vila de Cascais, marcada por vários anos de presença da Corte; pelo aristocrático Monte Estoril, possuidor de uma fama de qualidade que ultrapassava as fronteiras Nacionais; e por São João do Estoril, povoado de raiz burguesa, institucionalizado a partir da exploração dos Banhos da Poça e da iniciativa de algumas das mais importantes figuras da finança portuguesa; era fazer do Estoril um espaço com uma identidade própria que promovesse uma forma renovada de cidadania.
Os esboços iniciais do Arquitecto Francês Martinet, que se orientavam precisamente pelo carácter global de toda a urbanização, pressupunham a recriação na velha Quinta do Viana de um espaço homogéneo bem definido, no qual as diversas actividades, como a habitação, o comércio e o lazer, se interpenetravam, numa dinâmica consolidada a partir das características arquitectónicas e urbanísticas dos edifícios e dos espaços.

Os equilíbrios gerados por esta formulação urbana, promoveriam, no entender do urbanizador, uma qualidade de vida sem igual, na qual se tornaria fácil a recriação de uma identidade que cunhasse o Estoril com a marca de qualidade pela qual todos ansiavam.

Este tipo de experiências de urbanização global com planeamento prévio, necessariamente contrárias àquilo que eram (e continuam a ser) os hábitos de construção em Portugal, já haviam sido tentadas com sucesso noutras partes da Europa. Em Portugal, exemplos como o da baixa pombalina de Lisboa ou o da criação do Monte Estoril, este último inacabado devido às dificuldades económicas da ‘Companhia Mont’Estoril’, mostravam que era possível e consequente a concretização destes projectos, bastando, para tal, que existissem os capitais necessários e o apoio político formal das instituições oficiais.

E foi precisamente isso que aconteceu. Como resultado da capacidade pessoal e do empenhamento de Fausto de Figueiredo e do seu sócio Augusto Carreira de Sousa, a ‘Sociedade Estoril-Plage’ conseguiu cativar o interesse dos grandes capitalistas lisboetas, que escolheram o Estoril para construir as suas novas habitações. Por outro lado, e mercê da influência cénica marcada pela construção daqueles que haveriam de transformar-se nos principais elementos aglutinadores da nova localidade, como o edifício das termas, os hotéis Inglaterra, Paris e Palácio, e o grande casino internacional, as novas edificações enquadram-se quase todas no estereótipo criado em torno dos valores da tradicional “Casa Portuguesa” e das inúmeras variações de cariz modernista que caracterizaram a época.
Em termos políticos assumiu papel de especial relevo, na década de 30, o surgimento do Estado Novo. Fundamentado numa propaganda que dependia de uma recriação quase artificial de uma nova forma de ser e de estar em Portugal, não só como incentivo à promoção turística no estrangeiro, como também à consolidação dos novos valores Nacionais, o Governo utilizou profusamente o Estoril como cenário privilegiado para os seus eventos.

A fama e o prestígio do Estoril, marcados pela qualidade do seu projecto urbano, pela dinâmica social e cultural que se enquadrava nos espaços existentes, e pela fulgurante propaganda estatal, depressa se institucionalizaram, facilitando assim o processo de venda de lotes e de edificação de novas construções.

O Parque do Estoril, centrado na grande praça que resulta da construção das arcadas – edifícios de utilização mista de comércio e habitação -, no seu vasto e amplo jardim, no imponente casino, e na praia, possui todas as condições que garantem aos novos habitantes a possibilidade de se integrarem socialmente. Os eventos estorilenses, dos quais se destacam a grande Feira de Amostras da Indústria, em 1929; o II Circuito de Portugal em Automóvel, em 1933; os entrudos e as lendárias passagens de ano; vão-se complementar com a electrificação da linha de caminho-de-ferro, com a criação dos Bombeiros dos Estoris, com a inauguração da Estrada Marginal, com a recuperação da Igreja de Santo António, com a inauguração do Hotel Palácio e do Casino Estoril, etc.

A excelência do espaço, aliada a uma formulação urbanística de grande qualidade, a um enquadramento arquitectónico baseado em linhas mestras comuns, e a uma promoção sem igual no panorama Nacional, transformam o Estoril naquilo que ainda hoje consegue ser: um local equilibrado, agradável, e socialmente saudável, onde a habitação, o comércio, os serviços e o lazer coexistem pacificamente, com evidentes benefícios recíprocos e uma qualidade de vida incomparavelmente maior do que aquela que caracteriza outras zonas do Concelho de Cascais.

Como é evidente, esta situação acaba por ter consequências efectivas no quotidiano de todos quantos vivem, trabalham ou passeiam no Estoril. A qualidade da envolvência, e o grande cuidado dispensado ao espaço urbano, dignifica as zonas públicas, valorizando o património privado e transformando-se numa mais valia para o local. Os hábitos, os usos, os costumes, e o dia-a-dia do estorilenses vão-se adaptando às suas condições de vida, facto que, por sua vez, influi na educação, no civismo e na cultura dos habitantes.

A qualidade do Estoril, alicerçada no projecto urbano de Martinet e na cenografia da localidade, é hoje resultante de uma panóplia que agrega também o apoio político do Estado e da Autarquia; a vontade e a educação dos seus habitantes; a capacidade e o espírito empreendedor dos seus comerciantes e empresários; a visão dos promotores que ali existem; e o civismo daqueles que visitam o local.
Tudo isto, como é evidente, é resultado do planeamento global prévio levado a cabo por Fausto de Figueiredo, da sua capacidade de ultrapassar as vicissitudes do sistema e do enquadramento geral que ele conseguiu imprimir a todos aqueles que ali construíram as suas habitações.

Cem anos depois, e ainda mantendo bem vivo o seu espírito original, apesar de algumas desvirtuações pontuais que resultaram de incapacidades políticas conjunturais, o Estoril assume-se como exemplo de sucesso que demonstra que é possível recriar espaços de enorme qualidade nos quais o comércio, a habitação e os serviços se equilibram promovendo uma vivência socialmente saudável, com excelentes parâmetros de segurança e de bem estar.

O impulso dado por Fausto Cardoso de Figueiredo ao turismo, baseado não só na criação de raiz daquela que vai ser a primeira grande urbanização totalmente pré-planeada em Portugal, como também nas inúmeras intervenções pontuais que desenvolveu enquanto político, fazem dele uma personalidade incontornável na história deste sector.

Faleceu na sua residência, no Estoril, no dia 05 de Abril de 1950.

segunda-feira

O Palácio dos Condes da Guarda


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por João Aníbal Henriques
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Apesar de ser uma das mais antigas edificações da Vila de Cascais, e uma das poucas construções que sobreviveram ao terramoto de 1755, os actuais Paços do Concelho, só muito recentemente adquiriram o aspecto que hoje tão bem conhecemos.

Quando o Almirante Cotton, representante do Exército Inglês, pernoitou no Palácio dos Condes da Guarda, dificilmente imaginaria as muitas transformações e adaptações que aquele espaço sofreria ao longo dos Séculos seguintes.

De facto, no início do Século XIX, quando a Convenção de Sintra – por mero acaso assinada em Cascais – decorria no local onde hoje funciona a Estalagem Solar Dom Carlos, a Vila ainda não perspectivava o fulgor que a caracterizaria após 1870, quando Dom Luís adapta a Cidadela a palácio de veraneio.

Edifício de planta rectangular, assente em sólida silharia calcária, o Palácio dos Condes da Guarda integra as dimensões e as orientações que genericamente caracterizam o estilo commumente designado como Arquitectura Portuguesa. O seu telhado de quatro águas é, aliás, semelhante a todos os outros que defendiam as restantes habitações da zona ribeirinha da Vila das intempéries invernosas e do calor do estio. O único aspecto que diferencia este prédio dos circunvizinhos, é o vasto conjunto azulejar que o envolve, utilizando as cores amarelo, vermelho e roxo, considerados por Ferreira de Andrade, como os melhores desta arte bem portuguesa.

São Sebastião, Santo António, São Miguel, São Mateus, São marcos, São Jerónimo, São Lucas e São João, são as figuras representadas na fachada, e que integram um conjunto de azulejos mais vasto que se prolonga pelo interior. Na escadaria principal, um alabardeiro vestido de roxo e o painel com as armas da vila, fecham o conjunto, contribuindo com o as suas cores para preencher e decorar o modesto enquadramento arquitectónico do conjunto.

Em Abril de 1918 é anunciada a venda em hasta pública do conjunto de azulejos do Palácio dos Condes da Guarda, e Gustavo de Matos Sequeira, numa das suas obras sobre o terramoto de Lisboa mencionada por Ferreira de Andrade, refere que eles constituem a nota mais pitoresca de toda a povoação.

Para salvar o edifício e os preciosos azulejos, a edilidade adquire-o nessa data, transformando-o na actual Câmara Municipal.

É desta época já bastante recente que datam as modernas e radicais alterações que modificaram por completo o aspecto geral do edifício. À ala sul foi acrescentado um novo trecho que completou a remodelação integral que sofreu toda a Avenida Dom Carlos, e que culminou com a criação da actual esplanada junto ao mar.

No final do Século XIX, quando Cascais se transformou na praia da corte, o edifício foi adaptado a habitação de veraneio, utilizada durante várias décadas pelos Condes da Guarda. O seu ar aristocrático desde cedo contrastou com a modéstia das pobres casas utilizadas pelas mais altas figuras da corte, que se sujeitavam às mais humildes condições somente pelo prazer de acompanharem os monarcas nas semanas finais do verão.

Tendo conseguido sobreviver às terríveis consequências do terramoto, e às variadas vicissitudes políticas dos tempos, nomeadamente a utilização no período das invasões francesas, a posterior adaptação a casa de veraneio e finalmente à investida republicana, o Palácio dos Condes da Guarda resguarda aquelas que são, por excelência, as mais importantes memórias urbanas de Cascais. Mal conhecido da generalidade dos cascalenses, e permanentemente absorvido pela inadmissível utilização como parque de estacionamento da Câmara Municipal, que não tem percebido o real valor cénico, patrimonial, histórico, artístico e cultural do edifício, o Palácio dos Condes da Guarda merecia um papel de maior...

quarta-feira

A Vocação Marítima de Cascais





da utopia à realidade...

A Vocação Marítima de Cascais

Nascida à beira das águas tépidas da sua baía, e impregnada com o cheiro acre da maresia, a Vila de Cascais viveu sempre de e para o mar. As suas gentes, os seus monumentos, e toda a sua estrutura urbana, são repositórios integrais de uma relação ancestral com a baía, que as recentes intervenções parecem não conseguir compreender.

por JOÃO ANÍBAL HENRIQUES (joao_henriques@yahoo.com)

Guarda avançada de Lisboa, e garante da segurança na Barra do Tejo, Cascais nasceu e cresceu em estreita ligação com o mar. Desde que em 1363 o poder político concedeu a autonomia administrativa aos seus homens do mar, a vila assumiu essa vocação, recriando-se em torno do marulhar incessante das ondas da sua baía.

O seu património construído, e mesmo a estrutura urbana que presidiu ao seu crescimento, foi permanentemente marcada por esse cunho especial, deixando antever um conjunto de monumentos que, mais do que à arte e ao engenho da arquitectura, ficam a dever a sua importância ao papel preponderante que desempenharam na História Marítima de Portugal.

O Património Cascalense, dividido entre uma interioridade de génese rural e a litoralidade ocêanica, encontra-se profundamente marcado pela preponderância desempenhada no município pelas actividades, ofícios e obrigações relacionadas com o mar. Em termos de técnicas de construção, ou mesmo da sua disposição e distribuição no espaço, as principais e mais interessantes peças da sua monumentalidade encontram-se junto à baía, garantindo a segurança das suas terras, ou explorando as maravilhosas paisagens que resultam da cadência entre as arribas e os areais.

Por tudo isto, o mar e as intervenções a ele associadas tiveram sempre uma especial importância no devir histórico local, gerando expectativas, ideias e sonhos que raramente se concretizaram.
Quando na década de 40 do Século XX se construiu a Estrada Marginal, obrigando a entubar a antiga Ribeira das Vinhas e a demolir as inúmeras e ancestrais pontes que ligavam as suas duas margens, a face de Cascais foi completamente alterada.

Com o desaparecimento da ribeira, e a consequente resolução de muitos dos graves problemas de salubridade urbana que resultavam da estagnação das águas, e da sua utilização como depósito de lixo e canal de esgoto, a vila perdeu uma das suas principais ligações à água.
No entanto, e apesar de serem poucos aqueles que actualmente ainda reconhecem na agitada Marginal o leito daquele antigo troço de água, ela permaneceu como elemento essencial na simbólica espacial desta vila cosmopolita.

Ao longo dos anos, e com o intuito de restaurar esse laço primordial, têm sido muitos aqueles que idealizam utopicamente o reatamento dessa relação.

Pedro Falcão, cascalense de coração, erudito, académico, e profundo admirador das potencialidades das águas de Cascais, esboçou um quadro polémico que serviu de base a muitos projectos de reconversão da vila. Reabrindo a Ribeira das Vinhas no troço que vai da sua foz até ao actual Edifício São José, e tornando possível a navegação no interior de Cascais, ele sonhou com uma vila onde o cheiro a maresia se impregnava em todos os edifícios, trazendo as traineiras e o peixe até à população. Teimava ele, com o seu génio reconhecido por todos, que a ligação de Cascais ao mar havia sido desvirtuada, e que só assim se poderia reconstruir o vínculo que subsistiu durante séculos.

A pesada intervenção urbana que implicava este projecto, assumida por Pedro Falcão como única forma de reaproximar Cascais do seu mar, procurava rebater o afastamento progressivo que se vinha instalando desde há muito tempo.

No início do Século XX, numa iniciativa da Comissão de Iniciativa e Turismo do Concelho de Cascais, já havia sido esboçado um projecto com idêntico objectivo.

Assinado por Manuel José Ávila Madruga, Raul Ressano Garcia, Carlos Bonvalot, António Maria Cardoso e José Roberto Raposo Pessoa, o projecto de reaproveitamento turístico do espaço envolvente da Cidadela de Cascais pretendia criar uma estrada panorâmica que envolvesse aquela importante peça patrimonial, criando ainda um cais de acostagem e um enorme complexo de jardins. Dizia-se então, em jeito de defesa de tão arrojada ideia, que Cascais precisava de se reconciliar com a sua baía, rentabilizando turisticamente as suas paisagens marítimas e os monumentos a elas associados.

Apesar da beleza, da harmonia, da justeza, e até do romantismo associado a estes projectos, Cascais nunca conseguiu reconstruir o seu estreito relacionamento com o mar. As pontes da antiga ribeira continuam sujeitas ao peso brutal ao alcatrão, e a principesca vista panorâmica do projecto envolvente à Cidadela ficou definitivamente condenada com a construção da actual marina.

De costas voltadas para Cascais, e perdida no meio de sonhos inglórios de uma pujança que nunca conheceu, a marina jaz quase morta, por ter sido construída contra as expectativas dos cascalenses. Com a sua construção, Cascais ganhou um equipamento marítimo que sempre desejou, mas viu desaparecer a idílica enseada de Santa Marta, que servia de postal ilustrado da vila, e de moldura ao Palacete O’Neill e à Casa de Santa Maria; e viu também a sua Cidadela, monumento ímpar consagrado ao oceano, colocada a seco, desvirtuando o seu relacionamento ancestral com a água.

A esperança, agora, depende do projecto de reconversão que a C.M.C. pretende implementar naquela zona. Talvez Cascais readquira finalmente a vocação marítima de outros tempos, reconduzindo os cascalenses aos sonhos utópicos com cheiro a cândida maresia que sempre a caracterizaram.