quarta-feira

Projecto Polis na Agualva / Cacém





Por João Aníbal Henriques



Intervenção de João Aníbal Henriques no processo de discussão pública doProjecto Polis para a localidade de Agualva Cacém, entregue ao cuidado da Associação Olho Vivo, de Sintra.

O conceito de cultura, actualmente alargado como consequência da multiplicidade de vectores que contribuem para definir padrões de comportamento e de existência social que se cruzam e interpenetram, é um dos principais argumentos que enformam a defesa do património edificado.

As razões que presidem a esta escolha, e que são obviamente diferentes daquelas que existiram noutros tempos, prendem-se sobretudo com o entendimento de que a qualidade de vida urbana, principalmente em espaços onde a urbanização é um fenómeno recente e, por isso, definidora de planos de sociabilização que se caracterizam pela sua novidade, está hoje intrinsecamente relacionada com a forma como a estrutura urbana se enquadra, definindo parcelarmente as possibilidades de enquadramento cultural.

O que isto quer dizer, sobretudo em zonas limítrofes da Área Metropolitana de Lisboa, que dependem de forma imediata e determinante dos próprios ciclos de vida da Capital, é que o património edificado (aqui entendido como repositório de vivência e de uma praxis social que se define como consequência do devir histórico de um local) é um dos mais importantes factores que determinam os relacionamentos sociais, a identidade local e, consequentemente, os próprios conceitos de cidadania que lhe estão inerentes.

As referências patrimoniais, espécie de âncora utilizada pelos indivíduos para se identificarem com um determinado local, são assim o cadinho no seio do qual emergem os resquícios da sociabilidade que definem as raízes da cidadania e a qualidade de vida dos cidadãos.

De acordo com as diversas opiniões profusamente avalizadas pelo quotidiano dos urbanistas de reconhecimento mérito a nível mundial, da sequência de emolduramentos sociais que caracterizam a evolução de um determinado espaço surgem perspectivas patrimoniais que se vão consolidando em torno de edifícios, de conjuntos e de paisagens. É isso que nos diz, por exemplo, Carlos Antero Ferreira, quando aborda a questão da recriação dum uma Cultura Concelhia, entendida enquanto símbolo e referência cultural da velhíssima Cultura de Vizinhança (1): “O património histórico abrange conceptualmente, e por isso em abstracto, todos os testemunhos e provas que constituem os sedimentos reconhecíveis do legado acumulado das sucessivas idades, épocas e gerações, sedimentos que identificam o percurso da humanidade nas quatro dimensões do espaço-tempo e materializam, pela dominante referência ao passado, um universo que compreende os caracteres comuns com capacidade para conformar o conceito, sendo a extensão do sujeito apenas condicionada, metodologicamente, pelos limites temporais e pelos contornos conceptuais da História”.

A importância da salvaguarda dos valores patrimoniais na consolidação da identidade local é, aliás, estatuto reconhecido politicamente e consagrado na legislação mais recente, que foi ratificada por mutíssimos estados e assinada por Governos espalhados um pouco por todo o Mundo Ocidental. A herança patrimonial de um País, região ou localidade, não se relaciona apenas com edifícios de foro individual ou com monumentos desligados dos seus enquadramentos históricos. De acordo com a legislação em vigor, essa salvaguarda consagra direitos inalienáveis às comunidades, e zela pela preservação dos seus enquadramentos arquitectónicos, históricos, sociais, culturais ou políticos.

Tem sido comum ouvir, principalmente desde o início do funcionamento do regime democrático em Portugal, frases alusivas à importância do reconhecimento e da conservação do nosso património histórico-cultural. De quatro em quatro anos, sempre que se torna necessário apelar à participação dos cidadãos em actos que pretendem definir as suas escolhas, as organizações que se candidatam a eleições fornecem pródigos documentos com promessas de preservação e salvaguarda do património Nacional.

No entanto, e apesar de todo esse alarido que tem envolvido esta problemática, continuam a verificar-se situações que, ao abrigo de reconversões forçadas de malhas urbanas desintegradas pela falta sistemática e permanente de planos efectivos de ordenamento, propõem inconcebíveis destruições de pedaços fundamentais da nossa história e da nossa herança colectiva.


A Importância de Conhecer e de Preservar



Uma das principais razões por que se apela ao conhecimento e à preservação do nosso património histórico e arquitectónico é que, quanto mais não seja, os edifícios e/ou conjuntos de valor patrimonial têm amiúde um impacto visual sobre o transeunte que marca definitivamente as impressões que se obtêm em cada aglomerado urbano.

O usufruto deste património tem, desta maneira, de se adaptar às necessidades da comunidade, devendo para tal ser conhecido e reconhecido por quem o visita, ou junto dele habita ou trabalha. É somente desta forma, essencial se nos ativermos aos fenómenos urbanos que grassaram ao longo dos últimos trinta anos em todos os subúrbios de Lisboa, que o património pode fornecer as pistas necessárias à consolidação de formas alternativas de identidade local, gerando e consolidando uma memória colectiva que seja capaz de absorver os percalços que resultam da anomia instalada na comunidade.

Por outro lado, e sobretudo tendo em linha de conta a relativa volatilidade que actualmente caracteriza dos fenómenos de relacionamento social, consequência negativa da evolução extraordinária que têm conhecido os meios de comunicação social e os produtos que deles derivam como as televisões, as rádios e os demais produtos relacionados com o audiovisual, é essencial perceber que o património se transformou num dos únicos caminhos eficazes de transmissão de identidade, através das mensagens, das sensações e das relações que resultam do seu usufruto. É necessário, desta forma, conhecer, perceber e integrar os ritmos de construção e edificação dos espaços, de modo a tornar possível um incremento da capacidade de compreensão das origens culturais de cada comunidade.

A conservação e a promoção do património histórico e cultural não pode nem deve ser vista unicamente como uma espécie de travão ao lucro fácil e ao progresso das localidades. Pelo contrário. A preservação do património, principalmente se submetida a programas globais de requalificação urbana, assume-se como uma peça essencial na consolidação das estratégias de fomento social e, consequentemente de gestação de formas alternativas de suporte dos equilíbrios urbanos. Acima de tudo, é essencial que a herança patrimonial das localidades se mantenha, sempre que possível, integrada na vida quotidiana das comunidades, fazendo parte do dia-a-dia de todos os que nela vivem, trabalham ou visitam. Só assim, com o acento tónico das intervenções requalificadoras dos espaços urbanos, colocado na necessidade de preservar, requalificar e promover o património construído, se poderá pretender que as futuras gerações que habitarem aquele espaço as respeitem e admirem, perpetuando assim um ciclo que preserve a memória colectiva e a identidade municipal.



O Núcleo Histórico Consolidado da Agualva – Cacém



Tal como existe uma continuidade permanente entre o passado e o presente, vinculada por fenómenos diversos que se baseiam na identidade de um determinado espaço, também deverão existir pontes que incentivem a relação entre o presente e o futuro.

É esse o objectivo, aliás, das diversas associações, agremiações e instituições que têm como mote a preservação do património.

No caso específico da Agualva – Cacém (e possivelmente em todo o espaço suburbano que envolve a linha de Sintra), este princípio e estes valores assumem-se como principal suporte de um fenómeno de consolidação social que permita inverter o rumo anímico que tem sido gerado pelo caos urbano que ali se instalou.

Fundamentalmente rurais na sua origem, pacatamente sujeitas aos ritmos das colheitas e das necessidades alimentícias da cidade de Lisboa, as povoações ditas saloias do actual Concelho de Sintra possuem características únicas e fundamentais, que lhes asseguram uma identidade dificilmente repetível noutras partes do País ou mesmo da Área Metropolitana de Lisboa.

Eivadas de profundo sentido ecuménico na sua essência urbana, pois resultam sobretudo de um processo de consolidação de heranças díspares que vêm das reminiscência pré e proto históricas coadjuvadas pelos resquícios de existências romanas, muçulmanas e, mais recentemente cristãs e proto-cristãs, as localidades que se enquadram nesta tipologia apresentam características patrimoniais que, apesar de pouco valorizadas, são essenciais para a compreensão daquilo que foi, daquilo que é, e daquilo que poderá ser a existência neste espaço.

Academicamente apelidada de chã, a tipologia arquitectónica que surge com maior relevo nas cercanias do antigo termo de Lisboa, é essencialmente um repositório mesclado das necessidades e dos fundamentos religiosos e culturais das comunidades que neles habitaram. Simples, robusta e fiável, adaptada à dureza do dia-a-dia e fundamentalmente vocacionada para o sustento daquela que foi sempre a principal célula da sociabilidade –a Família -, a arquitectura tradicional da actual Linha de Sintra foi sendo desprezada à medida em que surgiam novas necessidades sociais e, sobretudo, novas técnicas de construção.

Apesar de recente, pois remonta ao final da primeira metade do Século XX, a transformação e a descaracterização dos espaços tradicionalmente saloios dos arredores de Sintra e Lisboa, foi rápida e fulgurante. O buldozer, apoiado na necessidade efectiva de criação de fogos que albergassem os milhares de portugueses que abandonavam as suas terras de origem para procurarem em Lisboa uma actividade que os livrasse do jugo pesado da lavoura, rapidamente demoliu grande parte das zonas mais interessantes e importantes destas antigas povoações de génese rural.

O comboio, por seu turno, facilitou os acessos e transformou as periferias em espaços privilegiados para a instalação dessas novas comunidades que, para além de preços muito baixos (pois não possuía rendimentos que lhe permitissem a busca da qualidade) necessitavam com avidez de locais onde pudessem habitar.

Foi este binómio perigoso, em que a procura insistente se baseava nos baixos preços e na pouca qualidade, que transformou os antigos espaços de génese rural em imóveis rentáveis e de fácil acesso por especuladores e investidores locais. Surgem, desta forma também ela curiosa, os primeiros projectos de urbanização dos antigos subúrbios de Lisboa, ainda possuidores de uma identidade própria que se esbatia, de forma paulatina, ao ritmo em que crescia a construção. Os relacionamentos sociais emergentes são, assim marcados por três fenómenos distintos: o da chegada de novos habitantes que nenhuma relação possuem com o espaço e as comunidades envolventes, não os compreendendo nem valorizando; o do desaparecimento progressivo das comunidades naturais daqueles espaços que, seduzidos pelo numerário fugaz que lhes apresentavam, iam recuando os seus espaços de habitação; e o do nascimento de novas comunidades multiculturais, sem relacionamento interno ou raízes comuns, marcada pela falta de valores identitários, pela lacuna ao nível dos princípios de vida, e por um afastamento físico efectivo dos espaços de habitação, pois trabalha normalmente em Lisboa, gastando muito pouco tempo no local.

Os antigos espaços sociais vão-se progressivamente transformando em zonas vazias, de conteúdo, de pessoas e de valor, e vão sendo substituídos por antros degradados que, para além de mal vistos e pouco entendidos pela vizinhança, assumem um carácter negativo de que nunca mais se vão livrar. Progressivamente, à medida em que vão crescendo os novos dormitórios sociais, a destruição dos exemplares mais dignos desta arquitectura tradicional vão desaparecendo, sempre com a conivência da vizinhança, que assim vê desaparecer mais um antro de “podridão” que envolve a sua casa.

Os terrenos vazios, esses sujeitam-se novamente às leis do mercado, e se estão livres, e se existe uma procura de habitações que não para de crescer, então são rapidamente ocupados com novas construções baseadas no binómio de baixo-preço e pouca-qualidade que referimos atrás.

A segunda metade do Século XX, marcada pelo crescente acesso à cultura e à instrução, não foi capaz de inverter este fenómeno degradante do tecido patrimonial. Os planos de urbanização anteriormente aprovados, e as necessidades económicas cada vez mais depauperantes de uma comunidade completamente alheada de si própria, foram determinantes na geração a um ritmo quase alucinante de novas urbanizações e de novos bairros suburbanos.

Os resquícios das existências anteriores, até aí ainda bem visíveis e presentes no quotidiano dos moradores, foram sendo “engolidos” por ondas maciças de betão, que deixaram para trás somente os pequenos exemplares que ficaram envolvidos nas teias jurídicas das heranças e dos passamentos, aliados a exemplares mais faustosos das antigas explorações agrícolas de maiores dimensões e qualidade que, pelas suas características monumentais, acabaram por se impor na paisagem e no imaginário das comunidades.

E é este o cenário actual das zonas de Agualva – Cacém, nas quais o projecto Polis se prepara agora para intervir.

Espaços fortemente marcados pela descaracterização e pelo abandono social, nos quais subsistem alguns exemplares de edifícios que, pelas suas características, pelo papel que desempenharam no devir histórico daqueles espaços, e pela sua importância na consolidação das memórias locais, acabaram por ir ficando e conseguindo impor-se à voracidade do sistema de rejuvenescimento urbano que os envolveu. Espaços igualmente facetados pela evidente necessidade de uma intervenção que seja simultaneamente requalificadora e reguladora sem que, no entanto, os desvirtue daquilo que são as características que lhes garantem a sua identidade.



O Projecto Polis para Agualva – Cacém



Com o seu perfil traçado pelo percurso histórico atrás referido, e praticamente indissociado daquilo que foi o processo de crescimento urbano de outras zonas importantes do antigo termo saloio de Lisboa, o núcleo histórico da Agualva – Cacém é actualmente um local pouco aprazível onde grassa a degradação e a falta de identidade.

Esta situação, vincadamente contrastante com a edificação envolvente, que se “caracteriza basicamente pelo seu carácter incaracterístico”, agravada pela enorme pressão que resulta dos condicionamentos de tráfego e pela falta de equipamentos e de infra-estruturas que permitam rentabilizar as suas potencialidades, faz deste pequeno aglomerado um espaço que praticamente EXIGE uma intervenção de base.

Os princípios que deverão reger uma intervenção requalificante no centro histórico da Agualva – Cacém, bem definidos no programa doutrinário que enforma as estruturas Polis que têm sido desenvolvidas um pouco por todo o País, deverão basear-se na necessidade de conseguir intervir no núcleo urbano consolidado sem, no entanto, desvirtuar de forma completa e definitiva a memória do próprio local.

O desconhecimento patrimonial subjacente à proposta de intervenção constante do Plano de Pormenor que o Polis utiliza como base da sua “requalificação” do núcleo histórico da Agualva – Cacém, natural se tivermos em conta o estado de profundo desmazelo em que se encontra aquela zona, contraria em definitivo toda a dinâmica de recuperação indentitária que deverá reger as intervenções em locais patrimonialmente sensíveis.

Ao que parece (porque foram muito poucos os dados e fundamentos que acompanharam o processo de discussão pública daquele Plano de Pormenor), os técnicos responsáveis por este processo optaram por equacionar na sua proposta somente variáveis de índole económica e social. Só assim, nesta perspectiva imediatista e urgente, se pode perceber a defesa de um processo de requalificação urbana que passa pela recriação de um espaço totalmente novo no seio de um povoado totalmente incaracterístico e anómico como acontece com a Agualva, agravado com uma intransigente demolição daquele que é, de forma notória e legalmente reconhecida pelo Plano Director Municipal de Sintra, o único conjunto edificado característico, identificado e consolidado daquela zona.

Muito embora sem elevado interesse patrimonial de carácter particular, porque não existem (salvo raras excepções também elas reconhecidas pelo PDM sintrense) imóveis singulares que traduzam singularidades irrepetíveis de cunho histórico e/ou arquitectónico, o conjunto edificado da Agualva, se analisado numa perspectiva global, apresenta uma homogeneidade que resulta do devir histórico e social da comunidade, assumindo-se como base de um processo de desenvolvimento cultural que se afigura de extraordinário interesse na recriação de uma identidade local consolidada.
De facto, em toda a região em que se insere o núcleo urbano consolidado da Agualva, não existem outros espaços que em si próprios possuam as características necessárias para servir de base a um processo de reordenamento sócio-cultural da comunidade.

Aquele conjunto, com as vicissitudes próprias de um espaço que se manteve sujeito às premissas de uma evolução histórica que esteve longe de ser linear, é hoje um vestígio irrepetível da memória do local, assumindo o papel de maior relevo na identidade social, cultural, política e arquitectónica da Agualva. A memória da Agualva, já de si trucidada pelo amontoado de urbanizações caoticamente dispostas em seu torno, depende hoje em exclusivo da manutenção daquele conjunto de imóveis, bem como das premissas que eles assumem na definição da estrutura social do espaço.
Legitimar a demolição de uma parte significativa do núcleo urbano da Agualva com base unicamente em variáveis que têm a haver com questões económico-financeiras e com necessidades de gestão de tráfego, é condenar definitivamente todo aquele espaço a uma existência de subúrbio descaracterizado, com fortes motivações anómicas e com graves lacunas ao nível da sua identidade comunitária.

Pelo contrário, preservar o núcleo urbano consolidado da Agualva, integrado num esforço de requalificação e de reordenamento da estrutura e da malha urbana envolvente, poderá significar o retomar da tradição histórica daquele espaço, com foro de grande qualidade na consolidação de uma nova estruturação social que suporte uma identificação social renovada, congruente e consequente. A opção a tomar, neste caso em que as possibilidades se afiguram antagónicas, é entre a manutenção das velhas estruturas de génese saloia da Agualva, com evidentes implicações na moderna cidade que as envolve, mas com benefícios que resultarão, a breve e a longo prazo, na criação de uma nova comunidade urbanisticamente saudável e equilibrada; e a demolição pura e simples de todos os imóveis que se prevêem no Plano de Pormenor, com benefícios a curtíssimo prazo no dia-a-dia dos que por ali passam, mas condenando ao desaparecimento definitivo as relações de cidadania e de comunitarismo que ainda subsistem naquela zona, e assumindo definitivamente o suburbanismo da cidade e seu carácter de dormitório.

Irrepetíveis; eivados de histórica; impregnados de importância social; indissociáveis da memória da Agualva; os imóveis que fazem parte do conjunto edificado da Agualva – Cacém são uma peça importante da existência saloia dos arredores de Lisboa, e parte importante do próprio Património Nacional.



Estas considerações, que têm como principal objectivo reponderar as propostas constantes no projecto Polis da Agualva – Cacém, baseiam-se no seguinte enquadramento legal: Conselho da Europa – Convenção Cultural Europeia [Paris] 1954; Convenção Europeia para a Protecção do Património Arquitectónico [Granada] 1985; O Apelo de Granada – Conclusões do Encontro Sobre património Rural [Granada], 1976. Unesco - Convenção para a protecção do Património Cultural e Natural [Paris] 1972. Cartas – Carta de Atenas [1931]; Carta de Veneza [1964]; Carta Internacional para a Salvaguarda das Cidades Históricas [1987]; e Carta Internacional do Património Arqueológico [1990]. Diplomas Legais – DL nº 20/85, de 7/3; DL nº 28/468, de 15/2; Lei nº 2/032, de 11/06/1949; DL nº 38/382, de 7/8; DL nº 38:888, de 29/05/1949; DL nº 181/70, de 28/04; DL nº 116-B/76, de 9/2; DL nº 1/78, de 7/1; Portª. Nº 269/78, de 12/5; Lei nº 13/85, de 6/5; DL nº 349/87, de 5/11; DL nº 205/88, de 16/8; DL nº 442-B/88, de 30/11; DL nº 254/91, de 18/7; DL nº 106-H/92, de 1/6; DL nº 106-F/88, de 1/6; DL nº 289/93, de 21/8.

Revitalizar Cascais




Por João Aníbal Henriques

Uma das mais conhecidas leis da física diz que quando maior é a subida, maior é o tombo. No caso do comércio de Cascais pode inverter-se totalmente esta afirmação. Quando se desce tudo aquilo que se podia descer, não resta mais nada do que iniciar o processo de subir. Requalificar o comércio de Cascais, oferecendo-lhes as condições necessárias ao seu êxito, é viabilizar também uma total revitalização de toda a Vila. Como é evidente, estamos todos interessados no mesmo!...

Já passaram cerca de três anos após ter sido assinada, e internacionalmente ratificada, a Declaração de Málaga. Este documento, espécie de síntese das dezanove principais medidas que deverão orientar os processo de reconversão urbanística dos centros históricos, resultou de um importante congresso sobre comércio tradicional, apadrinhado pelo Governo Espanhol, e fornecido como uma espécie de receita para minorar grande parte dos males que actualmente afectam os aglomerados urbanos tradicionais nos países ocidentais da Europa.

Baseada em diversas experiências levadas a efeito em Espanha, Reino Unido, França, Alemanha, Suíça, Itália e Irlanda, a Declaração de Málaga é ainda muito mal conhecida junto das instituições que nos governam. A sua primeira grande virtude, quando nos debruçamos sobre a sua aplicabilidade relativamente ao caso português e, muito em particular, sobre o caso de Cascais, é que fornece pistas fundamentais para perceber o fenómeno de desagregação que tem vindo a afectar os núcleos comerciais tradicionais no nosso País.

Partindo da ideia de que os centros urbanos se compõem de diversos intervenientes, nos quais o comércio possui um papel primordial, os urbanistas que elaboraram a declaração afirmam taxativamente que a única forma de perspectivar uma revitalização efectiva do comércio tradicional, colocando-o em posição de concorrer em iguais circunstâncias com as grandes superfícies comerciais de segunda geração, é abordar o fenómeno urbano na sua totalidade.

Não basta, como tem sido costume fazer em Portugal, que os programas de incentivo ao comércio remodelem as esplanadas, os toldos, os anúncios e recriem uma ambiência de qualidade. Se não existirem condições de segurança, de limpeza, de conforto, de estacionamento, etc., dificilmente se conseguirá revitalizar estes espaços.

Da mesma forma, o único caminho que permite a revitalização do comércio tradicional, requalificando assim os espaços urbanos, é dotando-o do conjunto de condições que lhe permita oferecer à clientela uma oferta alternativa à dos centros comerciais. A proximidade relativamente aos clientes, aliada à humanização do espaço envolvente, é uma mais valia irrepetível nas grandes superfícies, e que, se for bem gerida, pode ser o elemento que inverte por completo a situação caótica que actualmente vivemos.

Para isto ser possível, a cidade deve ser vista como um todo, abarcando comerciantes, empresários, serviços, moradores, etc., e compreendendo que sem um destes componentes todos o sistema fica desequilibrado e irremediavelmente comprometido.

A animação de que hoje tanto se fala é, por exemplo, uma forma totalmente errada de perspectivar o problema. Sem se integrar de forma activa naquilo que são as vivências sociais, económicas e culturais da cidades, espelhando a sensibilidade, a vontade e as aspirações de todos quantos ali trabalham e residem, as acções de animação servem quando muito para propagandear a cidade, mas não lhe trarão a clientela que se afigura essencial para a revitalização comercial.

A revitalização do núcleo urbano de Cascais, dando ensejo à inversão da actual tendência comercial, deverá passar pelo apoio a uma gestão integrada do espaço, criando serviços de administração urbana e utilizando técnicas comuns às grandes superfícies comerciais, de forma a tornar possível a criação de uma estratégia de promoção e de marketing. Desta acção deverão fazer parte, entre outros, os componentes seguintes: manutenção das condições de segurança; criação de condições de higiene; animação das áreas pedonais; criação e gestão de estacionamentos; organização de eventos públicos, festas, publicidade, etc.;

Com uma plena consciência destes princípios, e depois de ter chegado ao fundo do poço, ficam criadas as condições para que Cascais volte a ser um espaço urbanisticamente saudável, no qual a componente residencial se sinta confortável, e o comércio possa readquirir o fulgor de outros tempos.

Assim haja vontade de fazer!...

quinta-feira

A Moagem de Carcavelos




Já em pleno Século XXI !!!

por João Aníbal Henriques


Infelizmente a História repete-se em Cascais. Apesar de recentemente a Câmara Municipal de Cascais ter adquirido à Fundação Cascais o Levantamento Exaustivo do Património, e de o Presidente, José Luís Judas, ter publicamente assumido que o conjunto de imóveis inventariados seria protegido através do P.D.M., o edifício da antiga Moagem de Carcavelos foi demolido. Sem apelo nem agravo...


O impensável aconteceu novamente em Cascais. O antigo edifício da Moagem de Carcavelos, exemplar único no património edificado do Concelho de Cascais, foi demolido pela edilidade que é, simultaneamente, a proprietária do mesmo.

Apesar das sugestões apresentadas pela Fundação Cascais no “Levantamento Exaustivo do Património” que a Câmara Municipal de Cascais recentemente adquiriu, e do parecer contrário da Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial, a edilidade deu o dito por não dito e demoliu totalmente o velho imóvel.

Ciente da importância deste edifício e do impacto sociocultural que o mesmo possuía na Freguesia de Carcavelos, a edilidade colocou junto ao edifício previamente condenado placas propagandísticas onde se podia ler o bonito título “Remodelação da Moagem de Carcavelos”. Mas não foi assim. A dita remodelação nunca chegará a concretizar-se, pois a velha moagem já não existe.

O velho edifício tinha sido construído no início do Século XX pelo construtor Civil Domingos Ribeiro, para a Sociedade de Moagem de Carcavelos, Ldª. Alvo de diversas ampliações e transformações ao longo dos anos, a Moagem de Carcavelos foi-se adaptando às inovações técnicas que iam surgindo.

Em 1955/1956, com projecto técnico da firma suíça “Buhler Frères”, foi-lhe adaptado um novo conjunto técnico que ainda estava no interior das velhas instalações. No já mencionado parecer da Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial, emitido a pedido da autarquia cascalense em 23 de Abril de 2001, sublinha-se que este equipamento, único do género no nosso País, permitia à Câmara de Cascais ter “uma oportunidade única de reproduzir toda a evolução tecnológica da moagem – o chamado “ciclo do pão”, desde o processos artesanais e semi-industriais até aos industriais”.

Com um desenho marcadamente modernista, e uma monumentalidade rara no nosso Concelho, a Moagem de Carcavelos poderia ter sido transformada num importante núcleo museológico que contribuiria de forma evidente para a valorização patrimonial de Cascais, ajudando assim a consolidar a tão propalada vocação turística do Município.

A demolição da Moagem de Carcavelos, levada a cabo a coberto do mês de Agosto e sob cauteloso encobrimento do já referido painel publicitário, vem defraudar os cascalenses, retirando-lhes a possibilidade de usufruir daquilo que lhes foi deixado como herança pelo devir histórico.

À semelhança do que aconteceu com o Chalé da Condessa d’Edla, com a Casa da Quinta das Loureiras, com a Casa do Conde da Azarujinha, com o edifício da Pensão Royal, com a Casa de Santana, com a Quinta dos Cactos, com dezenas de moinhos e azenhas, e com centenas de casais saloio e rurais espalhados por todo o território concelhio, a demolição da Moagem de Carcavelos é mais um contributo para a destruição da memória colectiva e da identidade municipal.

O processo de revisão do Plano Director Municipal, que teoricamente se encontra em curso, e a inclusão neste documento de princípios legais que salvaguardem o património cascalense da depredação causada pela má vontade e pela incúria dos nossos governantes, é a única solução possível para evitar a repetição deste tipo de situações nos já poucos edifícios históricos que ainda subsistem no Concelho de Cascais.

O Povoado Romano dos Cascais Velhos (Povoação da Areia / Concelho de Cascais)




Conhecidas das entidades competentes desde o início do século, e classificada desde 1984, pelo Decreto-Lei nº 29/84, de 25 de Julho, a estação arqueológica dos Casais Velhos situa-se no Concelho e Freguesia de Cascais, povoação da Areia, no seguimento da Rua de São Rafael.

Muito embora já fossem conhecidos desde há muito tempo, e por isso denominados de Casais Velhos, os restos arqueológicos daquele povoado só muito recentemente despertaram o interesse dos especialistas. Parcialmente escavados em 1995 por Afonso do Paço e Fausto de Figueiredo, ilustres defensores do desenvolvimento programado do Concelho de Cascais, as ruínas em questão foram alvo de trabalhos arqueológicos em 1968, 1970 e 1971, desta vez sob a tutela de dois dos maiores vultos da historiografia nacional: D. António de Castelo Branco e Octávio da Veiga Ferreira. Nas intervenções mais recentes, e que visavam o aproveitamento cultural dos vestígios, fizeram-se essencialmente campanhas de limpeza e de consolidação dos materiais postos a descoberto em 1945.




A importância do sítio, integrada numa perspectiva global de exploração económica da Península de Lisboa na época de ocupação romana, deve-se sobretudo à existência de alguns tanques ou cubas na zona setentrional do povoado. Segundo os especialistas, e de acordo com os dados e informações recolhidos no campo e, actualmente, em exposição na sala de arqueologia do Museu dos Condes de Castro Guimarães, serviriam para o armazenamento dos restos pisados do MVREX, crustáceo existente em grande quantidade na costa nacional, e de se fabricava a púrpura. Após o tratamento das conchas, e após um período bastante longo de repouso nos referidos tanques, que possuem tampas herméticas que os fechavam, a púrpura era transportada para Olissipo, de onde era retransportada para Roma. Em conjunto com os tanques de salga de peixe encontrados recentemente junto do centro histórico da vila, e com as grandes quantidades de cereais produzidos nas terras férteis de TITVS CVRIATIVS RVFINVS, em Freiria, serviriam de base à subsistência económica das populações romanas do actual Concelho de Cascais.




Para além destas cubas, possui o povoado dos Casais Velhos um aqueduto que trazia água de uma nascente próxima para um tanque situado sensivelmente a meio das ruínas, de onde, por sua vez, se alimentava o complexo termal situado alguns metros abaixo, com pequenas banheiras semicirculares e a zona de banhos quentes.

Além destes vestígios de construção e de outros restos ainda indeterminados que afloram dentro do circuito amuralhado, são ainda de salientar, segundo Guilherme Cardoso, os restos das muralhas e as necrópoles de inumação. Nestes locais foram encontradas moedas datáveis de entre os anos 205 e 405 da nora era (do tempos dos imperadores Teodósio, Constâncio II, Constante, Constantino e Arcádio), o que sugere uma ocupação mais intensa do local exactamente nos finais do Império Romano do Ocidente. Digna de nota, é ainda uma moeda encontrada numa sepultura, que mantém ainda o seu invólucro de tecido de linho, peça raríssima e do maior interesse histórico.




Os inúmeros exemplares cerâmicos recolhidos, bem como os restos de canalizações, estradas e sepulturas espalhadas nos terrenos anexos, demonstram a exiguidade dos trabalhos efectuados neste local, e que não passaram de meras intervenções pontuais de recolha de informação. A classificação do povoado como imóvel de interesse público, bem como a recente especulação imobiliária que se vem acentuando em Cascais, obriga as entidades competentes ao desenvolvimento urgente de esforços de estudo sistemático do local, de modo a que se torne possível conhecer, observar e compreender a verdadeira importância deste sítio.

Classificado há onze anos, e devidamente comprovada a sua importância desde 1945, os Casais Velhos não passam hoje de uma amálgama de velhos muros derrubados pelas intempéries e pela marcha incessante do progresso. O facto de nunca ter sido estudado na íntegra, aliado às características intrínsecas dos próprios terrenos em que se situa, não permitiu ainda que se conheçam as verdadeiras fronteiras do sítio. A inactividade das entidades, no entanto, permitiu que se urbanizasse toda aquela zona, inviabilizando já uma futura descoberta das verdadeiras fronteiras do povoado. Exemplo típico deste situação, é a de algumas moradias construídas nas imediações, e que utilizam os materiais romanos para a sua própria construção, ou mesmo como elementos decorativos das suas paredes, defraudando o património nacional e as potencialidades de aproveitamento turístico e cultural do local.


terça-feira

Força Portugal


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Por João Aníbal Henriques


Tem-se tornado cada vez mais usual ouvir dizer que Portugal está em crise. A explicação para este facto centra-se nas dificuldades estruturais do País, obviamente agravadas com os problemas conjunturais que a Europa agora atravessa.
Ao contrário do que seria de esperar, e invertendo as expectativas políticas da generalidade dos analistas, o Governo mantêm-se com alguma firmeza nas sondagens, dificultando o trabalho a uma oposição que não tem conseguido rentabilizar o descontentamento popular.

Esta situação de amorfismo político, fundamentada no conformismo que desde há alguns anos tem servido para caracterizar os portugueses, é diametralmente oposta à que se vive noutros países da Europa. Locais semelhantes em termos da sua situação real, e muitos com capacidade para oferecer condições de vida muito melhores aos seus cidadãos, debatem-se com o fim de um ciclo político e com a eventual conturbação da mudança. A onda socialista de há dez anos, na qual a denominada nova via assumia papel preponderante, deu lugar à desilusão perante o incumprimento de promessas eleitorais e o falhanço dos novos ideais.

A Itália, País de vanguarda na salvaguarda dos direitos dos seus cidadãos, já deu mostras desta significativa alteração política, e a Força Itália de Sílvio Berlusconi, criada recentemente, assumindo os seis ideais antagónicos face ao socialismo e sujeita ao fracasso da coligação que a levou ao poder em 1994, voltou a mostrar a capacidade de se assumir como alternativa ao falhanço governativo da esquerda.

As reacções perante esta vitória, e sobretudo perante a viragem política que ela representa não se fizeram esperar, e a “família” socialista, unida e em uníssono, veio pôr em causa a escolha democrática dos italianos.

Em Portugal, e salvo raras e honrosas excepções, a esquerda repetiu os chavões que lhe foram ditados pelos seus líderes europeus. A palavra de ordem – preocupação – passou a ocupar as parangonas dos jornais, servindo de base a uma crítica quase geral a um governo que ainda não tomou posse, ainda não governou, e ainda nem sequer se formou. Porquê? Porque é de direita!

A coligação vencedora nas eleições italianas, composta por partidos de centro-direita, é criticada por ter merecido o apoio e a confiança dos cidadãos italianos. Os partidos de esquerda, que se arrogam permanentemente o direito de utilizar impunemente a palavra democracia, consideraram que esta vitória é um perigo para a Europa. Mas que perigo é este? Muito fácil: é meramente o perigo de esta direita poder mostrar aos europeus que o modelo socialista é utópico, populista, eleitoralista e contraproducente.

Assim, num País como Portugal, onde a força da mudança só agora se começa a fazer sentir, são às dezenas os pseudo-democratas que, à laia de um moralismo esquerdizante, vêm dizer aos portugueses que o voto e as escolhas populares só são verdadeiramente democráticas se forem feitos exercidos à esquerda... Se o povo eleger governos socialistas ou comunistas, que hoje facilmente se percebe serem exactamente a mesma coisa, então a democracia exerceu-se; se, pelo contrário, a vontade popular foi no sentido inverso, então eles vêm dizer ao povo que estão preocupados e que o futuro é negro.

O facto de a Constituição portuguesa prever a possibilidade de existirem partidos e associações de extrema esquerda, proibindo peremptoriamente as organizações ditas de extrema direita é preocupante. O facto de esta esquerda não assumir a necessidade de proibir toda e qualquer actividade extremista, que coloque em causa as liberdades, as garantias e os direitos dos cidadãos é preocupante. O facto de a nossa esquerda socializante ser xenófoba, preconceituosa e antidemocrática, é factor agravado de preocupação.

Sejamos realistas, sérios e democratas. Só pode haver democracia quando existe respeito pela vontade popular, independentemente das escolhas que esta promova.
Sejamos conscientes: a esquerda portuguesa está a chegar ao fim, e os novos rumos de uma democracia cristã, humanista, apelando à família, e aos princípios fundamentais da nossa nacionalidade, contribuirão de forma decisiva para uma nova qualidade de vida para todos neste País.

Força Portugal!

Património Cascalense: O Fim do Princípio




Por João Aníbal Henriques

Um clima ameno e uma relativa proximidade da capital, foram dois dos elementos decisivos no desenvolvimento urbano que Cascais conheceu ao longo dos últimos anos. Desde 1870, altura em que Dom Luís I passou a utilizar a Vila como local de veraneio, até à actualidade, muitas foram as vicissitudes que Cascais teve de enfrentar conseguindo, no entanto, ultrapassar de forma harmoniosa a quase totalidade das dificuldades.

Consequência directa de um devir histórico profundamente marcado pelo sucesso, o património histórico, arquitectónico e arqueológico do concelho de Cascais ainda é actualmente um dos mais ricos do País, reflectindo gostos e necessidades que se espraiam desde o período paleolítico até às mais recentes formulações arquitectónicas de origem pós-moderna.

A arquitectura tradicional, com o seu cariz vincadamente popular, traduz a essência das tipologias chãs, fornecendo às formulações eruditas os princípios que orientarão a sua posterior integração, e a manutenção de uma harmonia que só o presente tem conseguido destruir.

A falta de interesse, de meios, de capacidade e, muitas vezes de sensibilidade para com o património edificado, aliado a uma legislação desadequada face à realidade, tem contribuído para que se assista a uma paulatina degradação do património arquitectónico cascalense nas suas diversas vertentes arquitectónica, arqueológica e rural.

O número de imóveis abandonados e sujeitos às pressões do tempo e das vontades, para além de ter aumentado, tem também conhecido uma progressão qualitativa, pois actualmente, para além das tradicionais habitações de características aldeãs que, pela sua singeleza poucos se preocuparam em defender, também as construções eruditas têm conhecido igual destino. Palácios, chalés e habitações de personagens ilustres da História de Portugal, com uma espacialidade própria e características muitas vezes irrepetidas em todo o Mundo, são também eles alvo deste processo degradativo, o qual culmina inexoravelmente na destruição e na sua substituição por imóveis recentes, descaracterizados e inoperantes.

O Chalé da Condessa d’Edla, na Parede, recentemente desaparecido do panorama patrimonial cascalense, é apenas um das várias dezenas de exemplos que, pelo seu estado actual, prognosticam a perda irrecuperável de uma parte significativa da memória e das raízes de Cascais.

Para mencionar somente imóveis com expressão concreta na memória popular, por serem tradutores de realidades que marcaram a essência da existência consciente do Concelho de Cascais, urge observar, analisar, estudar, verificar, catalogar, proteger e divulgar os casos da Casa da Torre, no Estoril; da Casa das Janelas, no Estoril; da Casa de Sant’Anna, no Estoril; da Casa de Luís Beltrão, no Estoril; do Casal de Nossa Senhora da Conceição, no Estoril; da Vivenda Marysol, no Estoril; da Vivenda Monte Branco, no Estoril; da Villa Pomares, no Monte Estoril; do Hotel Miramar, no Monte Estoril; do Chalé Brito, em São João do Estoril; da Casa de Tertuliano Lacerda Marques, em São João do Estoril; da Casa de São João Baptista, em São João do Estoril; dos Casais Velhos, na Areia, ou da Casa Pinto Basto, em Cascais.

A substituição dos antigos edifícios da orla costeira, onde a História convive amiúde com o presente, e dos velhos casais agrícolas do interior, para além de resultar numa solução estética que afasta definitivamente todas as pretensões à assumpção por Cascais de um lugar de destaque no turismo de qualidade a nível europeu, contribui decisivamente para a diminuição da qualidade de vida daqueles que aqui habitam.

A cidadania e a consciência cívica, mais do que na escola, aprende-se no espaço concreto e na realidade. As casas, as coisas e as gentes, conjugando-se de forma natural numa existência comum, formam a base da vida das comunidades. A descaracterização de Cascais, sinónimo de insegurança, de perda de valores e de criminalidade, resulta também da incapacidade de conhecer e reconhecer e gerir o nosso valor patrimonial.

O processo de gestão do nosso património, com a conivência da Lei e das instituições responsáveis, passa pela entrega dos imóveis às inclemências do tempo, que se encarrega de grande parte do trabalho. Uma janela estrategicamente aberta, para além de facilitar os elementos naturais, deixando a chuva e o vento libertos para intervir no interior da casa, ajuda também à entrada do “cigarro libertador” que, lançado “casualmente” para o seu interior, vai atear o incêndio que “comprova” o estado de “ruína” em que a casa “se encontrava”.

Para além de tudo isto, não passará despercebido a ninguém as actividades menos lícitas que se desenvolvem nestes edifícios devolutos. Droga, prostituição, violações, etc., são alguns dos problemas que derivam desta situação, não se conseguindo perceber qual a razão que impede as entidades competentes de, pelo menos, mandar fechar convenientemente estes locais, zelando pela segurança e pela memória de Cascais...




ALJUBARRETE EUROPEU





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Por João Aníbal Henriques

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Apesar de parecer impossível, a verdade é que aconteceu. O Governo português, aproveitando o período de férias estivais da generalidade dos líderes da denominada oposição, retirou aos “Lusíadas” a importância que ainda tinham na programação escolar do nosso sistema educativo.
Nesta época de crescente federalismo, quando a generalidade dos países da Europa, e sublinhe-se que Portugal é de todos o mais antigo, luta de forma incessante contra a anomia e a desagregação da identidade Nacional, o Governo português faz exactamente o contrário, lutando enfaticamente para esbater aquilo que ainda serve de característica marcante da portugalidade.

A grande questão que se coloca, e que surgiu de imediato em dezenas de órgãos de comunicação social, foi a de tentar perceber a razão deste aparente desvario, pois no estado de grande instabilidade em que se encontra o Governo, nada fazia prever que fossem tomadas decisões com esta importância e com esta tremenda carga impopular. Prestável, e com o costumeiro sorriso político nos lábios, o Ministro da Educação acedeu de imediato às explicações, sublinhando que a decisão se havia alterado desde a véspera e que, para melhorar a compreensão e a aquisição dos valores contidos nos “Lusíadas”, se iria até alargar o número de anos e de aulas que a eles se dedicarão no próximo ano lectivo.

Excelente, pensarão todos! Mas não... Se nos ativermos à realidade mais crua, fácil se torna perceber que este alargamento da amplitude dos “Lusíadas” se fica a dever única e exclusivamente à pressão da imprensa e da sociedade portuguesa. Se a altura fosse outra e a falta de notícias não fosse tão grande, não teria passado despercebida dos jornalistas esta decisão? E se assim fosse, não seria irreversível o acto de apagar aquela que é uma das mais importantes obras da cultura lusíada do currículo escolar português?

O certo é que, com inversão da decisão ou sem ela, e apesar de os “Lusíadas” se manterem nos programas oficiais, todo o processo indicia aquilo que se pretende fazer: destruir por completo os resquícios que ainda sobrevivem da Identidade Nacional, por forma a permitir a sua diluição no todo federal desta Europa artificial que, sobrepondo-se aos Estados-Nação que a compõem, vai homogeneizar as diferenças e recriar um novo tipo de identidade que nada tem a haver com os nossos quase oitocentos e sessenta anos de História Nacional.

Embora tudo tenha ficado adiado relativamente aos “Lusíadas”, pelas contingências conjunturais atrás descritas, o plano é mais vasto e está bem preparado. Os que se derem ao trabalho de perder algum tempo analisando os currículos escolares portugueses depressa perceberão que, com excepção da abrilada de 74, que parece servir de base à legitimação de tudo o que acontece, quase todos os aspectos importantes da cultura lusíada estão a desaparecer das escolas Nacionais.

A História de Portugal, até há bem pouco tempo considerada fundamental para a consolidação da nossa cidadania, tem vindo a ser relegada para um plano inferior, mercê de pretensa dificuldade e desinteresse das criancinhas. Os heróis, os feitos, as conquistas, as descobertas e as histórias que compõem a nossa História, vão sendo apagadas paulatinamente do imaginário colectivo da próxima geração de portugueses.

Se até há pouco tempo, Camões, Gil Vicente, D. Afonso Henriques, D. Dinis, e D. Manuel, de entre muitos outros, eram personagens familiares aos nossos estudantes, estão hoje completamente olvidados da memória dos nossos filhos, tal como o comprovam as muitas sondagens publicadas recentemente na imprensa portuguesa.

Grande feitos, dignos de memória e que em qualquer outra parte do Mundo fariam parte do conjunto de motivos de orgulho de um povo, vão-se desvanecendo por entre o cheiro cada vez mais pestilento das vermelhuscas flores da moda.

Cumpriu-se recentemente o 616º aniversário da Batalha de Aljubarrota. Esta data, fundamental a todos os níveis para perceber a transição entre o Portugal medieval e aquele que deu novos mundos ao Mundo, passou totalmente esquecida a nível oficial, apesar de ser um dos mais eminentes acontecimentos que contribuíram para a formação da Europa actual. A bravura do Condestável, figura ímpar na História Nacional, aliada à desenvoltura de técnicas novas que dotam a Ala dos Namorados e os seus Comandantes Mem Rodrigues e Rui Mendes de Vasconcelos, de uma supremacia militar incontestável perante um exército castelhano quatro vezes superior ao seu, perderam-se definitivamente nas brumas de um tempo que daqui para a frente terá cada vez mais dificuldade em retornar.

Com estes governantes; com esta apatia; com este desconhecimento; com este desinteresse; com este plano forjado; não tardará muito até que a memória de Aljubarrota e dos seus mentores, teoricamente eternizada através da pedra esculpida do Mosteiro da Batalha, se torne num imenso aljubarrete que os portugueses utilizarão quando cabisbaixos se apresentarem de forma submissa perante os estrangeiros que daqui a pouco tempo nos governarão.