segunda-feira

Vitória de Lisboa



por: João Aníbal Henriques

Ao contrário do que muitos esperavam, foram um êxito estrondoso as eleições intercalares para a Câmara Municipal de Lisboa.


A indiferença perante o acontecimento mediático e o circo que se montou, aliado à falta de critérios, projectos, ideias sustentadas e visão real sobre o planeamento e a gestão futuros da cidade, foram a principal marca daquele que será, porventura, um dos mais importantes acontecimentos da Lisboa contemporânea.


O índice de abstenção, semelhante em termos de tendência àquele que se tem vindo a verificar paulatinamente de eleição em eleição, bateu quase todos os recordes, e os que foram votar, mostrando discernimento e capacidade de entender os muitos cenários que se poderiam colocar, escolheram faze-lo de forma minuciosa e cuidada, dando a cada um dos 12 candidatos aquilo que mereciam receber.


Vamos analisar um por um:


António Costa – O Vencedor


Desde logo cantou bem alto a sua vitória… e o que é que ele ganhou? Ganhou uma câmara sem maioria, através de um plebiscito em que o apoiaram nas urnas 57.907 cidadãos de Lisboa. É fácil de perceber que correspondem a pouco mais de 10% da população e que, pela primeira vez em 33 anos, vamos ter um Presidente da Câmara eleito por 10% dos eleitores. Mas isso retira-lhe legitimidade? É óbvio que não… apesar de ter diminuído a cotação em relação ao derrotado de 2005 (Manuel maria carrilho teve 75.022 votos), António Costa foi o mais votado de todos os pobres candidatos que os lisboetas resolverem pura e simplesmente desprezar. E qual é a sua representatividade efectiva? É fácil de perceber que ronda os tais 10% de pessoas que nele votarem, e não está muito longe daquela que caracteriza o Governo e muitos dos demais órgãos de soberania…



Carmona Rodrigues – O Herói…


Contra o partido que o elegeu em 2005; contra os restantes partidos que nele encontraram o “bode espiatório” para todos os males de Lisboa que eles próprios haviam criado; contra a comunicação social e os muitos lobbies e grupos de interesse que entendiam um bom resultado seu como uma possível machadada no seu poder e capacidade de imporem soluções para a Cidade, Carmona Rodrigues conseguiu a proeza de conquistar o segundo lugar, à frente do partido que minou o seu trabalho, e com imenso apoio popular. Sem querer entrar no campo das suposições, que nos levariam a um cenário de eleições participadas e com baixa taxa de abstenção que certamente aumentariam de forma exponencial o seu resultado e (provavelmente) lhe dariam a vitória, há que sublinhar que foi, de facto, um vencedor, mostrando a Portugal e aos portugueses que vale a pena manter a isenção, a independência e o rigor que só a sua seriedade de português lhe podem garantir.



Fernando Negrão – Qual?...


Fernando Negrão e o PSD merecem poucos comentário após o descalabro que motivaram na Câmara de Lisboa. Em relação ao partido pouco há a dizer… criou a situação ao colocar os interesses da sua estrutura à frente dos interesses da Cidade, e os lisboetas penalizaram-no por isso. Talvez a única preocupação que subsiste seja a de imaginarmos o cenário que espera este partido nas legislativas de 2009… é que, apesar do seu carácter inócuo, dentro desta ditadura partidarizada em que vivemos, é a única solução que resta como alternativa a um PS escandalosamente anti-Portugal! Quanto a Negrão, a situação é ainda mais terrível. Candidatou-se a Setúbal. Perdeu quando se percebeu que nada tinha a dar à cidade e… fugiu dali, provando que tinham razão todos aqueles que criticaram a sua candidatura contra natura. Depois foi uma recambolesca passagem pelo Governo, abordando temas, assuntos e áreas que não eram as suas e que, mesmo com o seu ar simpático e competente, comprometeram ainda mais a já enfraquecida credibilidade que trazia das margens do Sado. E por fim, quando tal deveria ser a última coisa a fazer, resolveu vir para Lisboa… Lisboa? Mas porquê? Então mas o Homem não tinha garantido ainda há 2 anos que o seu coração estava em Setúbal? Não se consegue perceber…


Telmo Correia – O Outro…


Um dos inesperados protagonistas da noite foi Telmo Correia e o CDS-PP… Pugnando com rigor, disciplina, serenidade, seriedade e empenho por um projecto novo para Lisboa (digo isto acreditando verdadeiramente que se Telmo Correia fosse eleito presidente com maioria absoluta Lisboa tornar-se-ia uma das cidade de referência no contexto europeu), não percebeu uma das mais importantes e evidentes premissas da democracia em Portugal: a Direita, com os seus valores e princípios, não gera votos em quantidade suficiente para ganhar eleições. Por isso, a reboque das gananciosas pretensões ao poder do seu popular presidente de partido, acabou por deixar de lado aquele que seria (ou deveria ser) um dos principais objectivos de todo o empenhamento que colocou na candidatura: unir a direita portuguesa a partir de Lisboa. E é fácil entender que, juntando os seus votos com os de Manuel Monteiro (ainda se podiam juntar os de outros candidatos menos ortodoxos que também acreditam, pugnam e zelam por Portugal e pelos portugueses), Telmo Correia não só seria eleito, como possivelmente conseguiria, com esse facto, fomentar uma dinâmica nova que servisse de ensejo para consolidar uma Direita responsável, consciente, e… assumidamente alheada da partidarite viciosa à qual acorrentaram Portugal.


Os restantes…


O que dizer sobre todos os outros? Possivelmente nada. Da pseudo-independente Helena Roseta (ex-PSD e ex-PS); ao comunista Rúben de Carvalho; ao inconsequente José Sá Fernandes; ao indefectível Garcia Pereira; ao cantor da Câmara Pereira; ou ao iludido Manuel Monteiro; vai um caminho curto e insidioso. Todos eles participaram no sistema e contribuíram, com o seu trabalho, para credibilizar um acto que contraria os interesses reais de Lisboa, dos lisboetas, de Portugal e dos portugueses. Os números falam por si, e se cada um deles for ver com atenção quantas foram as pessoas que se deram ao trabalho de votar em si, verão que tudo o que fizeram não merece sequer uma palavra…


Conclusão:


Apesar de tudo, de todos, de Portugal, da nossa comunidade, dos atropelos à democracia que todos dizem defender, as eleições para a Câmara de Lisboa realizaram-se. Gastou-se uma verba substancial do erário público; comprometeram-se investimentos que eram essenciais para o desenvolvimento do País; e descredibilizou-se ainda mais uma classe política ávida de poder mas vazia de projectos.


A partir de agora, com a vitória que conseguiram nestas eleições, os 62,61% de lisboetas que decidiram (e bem) não ir votar, deram todas as informações de que necessitávamos para modificar finalmente este nosso Portugal. Esperemos que, percebendo a mensagem e ao contrário do que se passou em 1974, o povo não tenha de vir à rua para devolver Portugal aos portugueses…

quarta-feira

Independentes em Lisboa




por: João Aníbal Henriques



Helena Roseta, candidata à Presidência da Câmara Municipal de Lisboa e invocando o estatuto de ‘Independente’, veio hoje afirmar, e ainda por cima de forma convicta e assumida, que os “partidos precisam de levar uma lição”.


Na situação política em que Portugal está, com um regime dito democrático onde quem manda são os partidos, e no qual a representatividade civil está reduzida a uma expressão insignificante e quase exclusivamente restringida a três ou quatro figuras despartidarizadas que, num volte face quase macabro, se independentizam em prol de uma causa (leia-se cargo), é difícil perceber que ninguém se revolta ao ouvir uma coisas destas.


E por vários motivos…


Em primeiro lugar porque a senhora em questão ocupou até agora cargos públicos de grande relevo e destaque, nos quais a independência nunca foi preocupação dominante; em segundo lugar porque a mesma senhora ocupou esses cargos à sombra de vários partidos, assumindo convictamente os ideais de cada um deles e, depois, contrariando esses mesmos ideais em defesa dos contrários que então passou a abraçar; e por último, porque ao longo da sua vida política, a senhora já foi presidente de uma das Câmaras Municipais mais importantes deste País, tendo deixado atrás de si a má memória de quem não foi capaz de gerir o Concelho em questão (Cascais) criando os instrumentos mínimos de regulamentação do território que (pelo menos) prevenissem o caos urbanístico que estava nessa altura a nascer, e que praticamente destruiu Cascais ao longo dos 20 anos seguintes.


Se, conforme parece ficar subentendido das suas palavras, é a partidarite que condiciona negativamente o desempenho político dos nossos autarcas, então teríamos qualquer coisa que explicava de razoável a sua passagem por Cascais em representação do PSD, e mais tarde pela Assembleia da República em representação do PS. E para nós, que desde há muito culpamos a falta de representatividade dos partidos que temos pelo clima de incúria permanente em que Portugal vem vivendo desde há mais três décadas, tal seria motivo de apoio incondicional e aplauso imediato.


Mas a senhora em questão foi militante socialista, desempenhando cargos de grande relevo, notoriedade e importância nessa condição, até há algumas semanas atrás! Não foi há décadas, anos ou meses que ela percebeu isso e se desfiliou. Foi há semanas! Foi somente quando precisou de se desfiliar para ser A candidata à edilidade lisboeta.


Será que tudo mudou desde a apresentação da sua candidatura à Câmara de Lisboa? Será que abriu finalmente os olhos depois de décadas partidarizadas em vários cargos públicos? O que será que aconteceu?!...


De facto, e sabendo de antemão que depois do próximo Domingo tudo vai ficar na mesma no Município de Lisboa, e que serão os mesmos partidos, da mesma forma, a negociarem entre si os mesmos apoios necessários à manutenção do seu poder, é pouco preocupante que os militantes A, B ou C deste ou daquele partido contradigam toda a sua vida abraçando a causa da independência. Aliás, é tudo de tal maneira irrelevante que quase não se percebe como ganha tanta notoriedade um acto tão inócuo e inconsequente para Portugal e para a Cidade de Lisboa.


O que é verdadeira e clamorosamente preocupante, porque mostra que vivemos hoje numa sociedade anestesiada por um sistema viciado onde quase nada é aquilo que parece, é perceber que, depois de estas palavras terem sido proferidas por quem foram, da forma como foram, na ocasião em que foram, e no local onde foram, não se vislumbram reacções de maior por parte dos portugueses.


E a razão para essa preocupação é simples de perceber: já não existe Sociedade Civil em Portugal! Parece que morreram finalmente, depois de trinta e três anos de sofrimento, os últimos resquícios do verdadeiro Portugal.


Agora, de forma comprovada, podem todos os partidos (legalizados) respirar de alívio, porque já não há ninguém que os impeça de dizer e fazer o que lhes interessa…


sexta-feira

Montemor-o-Novo: Maravilha de Portugal





Por: João Aníbal Henriques




Amanhã, numa cerimónia tida como de grandes repercussões para o nosso País, Portugal vai receber a gala que marca a escolha das novas sete maravilhas do Mundo.


A pompa e a circunstância que rodeiam o evento, com locais, monumentos e sítios candidatos ao novo estatuto em ânsia completa, contrasta com uma generalizada e descontraída postura distante que os portugueses têm demonstrado relativamente a ele.


E a razão que explica esse fenómeno tem a haver com um facto simples e de fácil percepção: Portugal, sozinho e por si próprio tem um conjunto de maravilhas que ultrapassam largamente as sete que vão ser escolhidas oficialmente no dia de amanhã.


Complementando essa certeza (que é arreigadamente aceite por todos os portugueses que conhecem minimamente Portugal), está outro facto completamente devastador… as maravilhas de Portugal, espalhadas de Norte a Sul, do Minho ao Algarve, e do Litoral ao Interior, estão na sua grande maioria fechadas, sem acesso público ou, em contrapartida num completo estado de abandono e ruína.


A título de exemplo, e somente porque é, sem qualquer sombra de dúvidas, um local maravilhoso, deslumbrante, desconhecido e… abandonado, vamos ver o que se passa com o Castelo de Montemor-o-Novo.


Neste caso específico, e reunindo tudo aquilo que lhe permitiria transformar-se num atractivo pólo gerador de riqueza turística para Portugal, o Castelo de Montemor-o-Novo está aberto ao público mas num estado de abandono e ruína avançada. Sem explicação aparente (ou pelo menos aceitável) para o facto, verifica-se que à incúria, se junta uma completa falta de informação sobre o espaço. Quem o visita casualmente, por estar em passeio normalmente em direcção à pujante cidade de Évora, debate-se com duas sensações distintas: numa primeira fase o deslumbre completo pela maravilha com que se depara; e numa segunda fase com uma dificuldade extraordinária em perceber, compreender e saber qualquer coisa mais sobre o espaço em questão.


Conclusão: quem lá chega fica deslumbrado, mas sai daí a poucos minutos completamente desiludido… e aquilo que poderia ser um espaço de memória e de memórias, torna-se rapidamente num local de má memória e de esquecimento!


Recentemente, depois de muitos anos de vil abandono, algo foi feito no espaço do castelo. Complementando escavações arqueológicas morosas (e imagina-se que complexas), foi efectuada uma importante obra de recuperação da Capela de São Tiago, que se transformou assim na única zona recuperada dentro do recinto acastelado.


Pensar-se-ia que essa recuperação poderia inverter o clima geral de degradação do espaço envolvente… mas não. Ao invés de cativar à visita, de servir de pólo explicativo e interpretativo do castelo e da Cidade de Montemor-o-Novo, de mostrar a região e de aliciar os visitantes ocasionais que por ali passam para que entendam, compreendam e promovam aquela autêntica maravilha, cobra-se à entrada uma taxa de acesso que inibe a visita ao seu interior.


Pergunta-se: será legítimo cobrar um bilhete de entrada num Monumento Nacional? A resposta é clara e evidente: Claro que sim! Ela é necessária para manter o espaço, para zelar pela sua segurança e até para cobrir custos com a investigação que permita enriquecer ainda mais aquilo que se sabe sobre ele.


Mas neste caso específico, com uma envolvência de ruína completa e de abandono total; com a paragem ocasional de viajantes que não planeiam entrar; com o carácter Nacional de mais de 90% dos visitantes; com o facto de muitos deles serem famílias portuguesas e não existir um bilhete de família o que transforma uma visita de 5 minutos num custo exagerado para 4 ou 5 pessoas; com a potencialidade que o próprio espaço tem para fornecer sentido a tudo o que está à volta…


Fazia muito sentido que não se pagasse a entrada.


Sob pena de, mesmo no meio das mais extraordinárias maravilhas que existem em Portugal, continuarmos a perder a oportunidade de deslumbrar os portugueses e de lhes mostrar que a maior maravilha que temos é, efectivamente… Portugal!

terça-feira

ISAF - Cascais e o Mundial de Vela 2007...




por: João Aníbal Henriques

Começa hoje em Cascais o Campeonato do Mundo de Vela, numa iniciativa de grande visibilidade e notoriedade que colocará a Costa do Estoril nos principais órgãos de comunicação social do Mundo durante pelo menos 15 dias.


Trazendo a Cascais algumas centenas dos principais velejadores do Mundo e, simultaneamente, alguns dos mais conceituados jornalistas internacionais, o Mundial de Vela é também mote para a visita de numerosas comitivas oficiais, comités olímpicos, representantes de diversos estados, etc., facto que transforma este evento num acontecimento único na região.


Com o seu carácter de excepção, pela qualidade dos participantes e pela repercussão que terá na assumpção de Cascais como destino principal desta modalidade, o Mundial de Vela de 2007 é também uma oportunidade dourada para mostrar a Costa do Estoril, Lisboa e o próprio País, aproveitando o facto de estarem cá os denominados “opinion makers” da actualidade.


A ideia (errada) que ainda subsiste lá fora, de que Portugal é um País que em termos turísticos se resume ao Algarve, com as suas praias, água morna e desordenamento urbanístico, pode ser agora invertida, mostrando o que temos, e deslumbrando os que cá estão com o nosso património, História, monumentos, paisagem, clima, gastronomia, vinhos, campos de golfe, etc. etc. etc.


No entanto, e apesar desta reconhecida importância que o evento poderia ter para Portugal, Cascais e a Costa do Estoril, parece que muito pouco está a ser feito nesse sentido. A hotelaria local está com uma de ocupação que ronda os 50%; o comércio local queixa-se de uma crise acentuada devido aos constrangimentos ao nível do tráfego e do estacionamento que afastam de Cascais os visitantes usuais sem trazer como contrapartida novos públicos; e os restaurantes só com dificuldade vão conseguindo convencer os clientes locais a um esforço acrescido para continuarem a utilizar os seus serviços.


Em termos de promoção, e sem explicação aparente, nada se fez para deslumbrar os novos visitantes. Chegam à região; instalam-se no hotel; saem de manhã para assistir às regatas; e todo o tempo livre é gasto em Lisboa e Sintra… É ali que fazem compras; visitam museus; jantam; e se divertem à noite, voltando a Cascais unicamente para repetir a rotina do dormir e assistir às provas.


Estando no primeiro dia de provas, e com mais doze daqui para a frente, esperemos que seja ainda possível inverter a situação, criando as condições necessárias para que todo o esforço e investimento que Cascais está a fazer neste evento, tenha por parte das entidades responsáveis pela organização do mesmo, o reconhecimento que merece…


segunda-feira

Portugal, a Europa e... África!



por: João Aníbal Henriques


Num brilhante artigo de opinião no Diário de Notícias de hoje, o jornalista Sena Santos, provavelmente imbuído do espírito europeu que resulta do início da Presidência Portuguesa da União Europeia, apresenta a Portugal o nunca concretizado (mas sempre presente) projecto de criação dos Estados Unidos de África.

Citando o Presidente da Líbia, Sena Santos refere ainda que a divisão no continente africano se fica a dever à intervenção da Europa e dos Estados Unidos que, dependendo em grande escala dos recursos daquele continente, geram uma série de estratégias político-económicas que procuram manter em clima de grande instabilidade os muitos países ali existentes.

Se olharmos para a História recente do Mundo, há um facto que corrobora as opiniões tantas vezes insensatas do presidente líbio… a Conferência de Berlim, de génese europeísta, traçou com régua e esquadro (para não dizer com esquadro e compasso) o novo mapa das “nações” africanas, impondo um desenho de fronteiras que nada tem a haver com as reais Nacionalidades milenares (com bases políticas, económicas, religiosas e sobretudo culturais) pré-existentes. Misturaram-se etnias, credos, cores, interesses, princípios e doutrinas em nome de pseudo-nações que nunca o foram, e gerou-se um clima de instabilidade permanente, morte constante e fome assolapada, que resulta do facto de esses países não possuírem este substrato Nacional.

E quem ganhou com isso? A resposta é óbvia e de todos conhecida… os Estados Unidos da América e a Europa dita industrializada. Ambas as partes, apoiando e desapoiando grupos, grupelhos, pseudo-partidos políticos e formas de viver culturalmente impossíveis de concretizar naquele continente, fomentaram a guerra permanente em nome de uma democracia que serve de desculpa e pano de fundo para tudo aquilo que por ali se queria fazer.

Mas em primeiro dia de presidência portuguesa, chegamos finalmente a Portugal!

Portugal, situado num extremo do velho continente, e com as costas voltadas à Europa, assume milenarmente a sua vocação atlântica. E essa, como desde cedo o perceberam os nossos avoengos predecessores, só poderia resultar numa aproximação àqueles que connosco partilham sentimentos, crenças, interesses e emoções.

África, ali mesmo à frente do nosso nariz, partilha connosco quase tudo. Que o digam os milhares de africanos que connosco vivem desde há gerações, e os muitos portugueses que durante Séculos viveram, nasceram, cresceram e morreram em África, e de onde não teriam retornado se não fossem as revoluções que nos impuseram…

E um pouco mais à frente, já no continente americano, o Brasil… com quem desde sempre partilhámos tudo, e com o qual metade dos portugueses se identificam claramente. Agostinho da Silva, na sua faceta de erudito da portugalidade, dizia amiúde que o Brasil é África com coração de Portugal.

E agora, quando José Sócrates (o engenheiro) vem dizer que existe um largo consenso sobre europeísmo em Portugal, parece impossível que ninguém lhe explique duas coisas essenciais:

1. Portugal é muito mais africano do que Europeu;

2. Nuns Estados Unidos de África, riquíssimos em termos culturais, em termos de recursos, em termos de meios humanos, em termos de matérias-primas, etc. Portugal, enquanto enclave africano na Europa, poderia fazer toda a diferença, a bem de si próprio, dos portugueses e de milhões e milhões de africanos que, dessa forma, teriam podido evitar guerras, fomes, doenças e o controle externo que desde há mais de trinta anos os tem vindo a afectar.

No início da presidência portuguesa da Europa só apetece gritar bem alto: Viva África!

sexta-feira

O Tratado de Lisboa


por João Aníbal Henriques


A pouco mais de dois dias de assumir (pela terceira vez) a Presidência da Comunidade Europeia, num acto de mais simbolismo do que de importância prática, o Governo de Sócrates indicou claramente ao Parlamento quais são as suas prioridades fundamentais para este importante período.

Contrariamente ao que seria de esperar, sobretudo se tivermos em conta o estado caótico em que se encontra o nosso Estado; a situação quase miserável em que estão a ser deixadas as famílias portuguesas, com um aumento brutal da carga fiscal, acompanhada pelo agravamento das taxas de juros e de uma inquietante possibilidade de a curto prazo perder regalias essenciais nas áreas da saúde, educação e segurança social; e a cada vez mais delirante perseguição que começaram a sofrer todos aqueles que têm o vil descaramento de discordar publicamente com o Governo, o Primeiro-Ministro ou um qualquer responsável político português; nenhuma das prioridades do PS para esta presidência tem qualquer coisa a haver com Portugal e os portugueses. Pelo contrário.

A única preocupação reside numa necessidade efectiva do Governo e do nosso actual Primeiro-Ministro: inscrever o seu nome na História da Europa. E para isso, no quadro de um possível futuro tratado europeu que terá consequência efectivas e permanentes no futuro do País e no dia-a-dia dos portugueses, opta-se por concentrar todos os esforços na assinatura do documento. E para quê? O Primeiro-Ministro respondeu de forma irredutível no Parlamento… para que se chame “Tratado de Lisboa”.

Como é evidente, porque o dito tratado ainda nem sequer foi redigido, não sabemos se será bom ou mau para Portugal. Agora que estamos na Europa, condenamos estamos também a fazer o melhor possível para acompanhar o que essa Europa faz (apesar de já estar provado que pouco ou nada temos a haver com ela). Mas o tratado em questão, independentemente da nossa opinião sobre ele, terá influência directa no nosso futuro Nacional e, quanto mais não fosse por isso, deveria ser sujeito à análise, consulta e decisão dos portugueses.

Para mim, que não me revejo na figura, nas escolhas, no posicionamento, nem na prática deste Governo e que, por isso, não me sinto representado por ele, é assustador pensar que quem não consegue responder cabalmente aos interesses de Portugal em questões práticas internas (o aeroporto, o TGV, a privatização dos hospitais, a degradação do ensino, etc. são apenas alguns exemplos), venha a ser o responsável por uma decisão que vai condicionar o meu futuro e o dos meus filhos.

Como português, e em nome de Portugal, não posso aceitar de ânimo leve que, em troca do nome de Sócrates e de Lisboa neste tratado, se tomem decisões nas quais os portugueses não são tidos em conta.

quarta-feira

Cascais...




por: João Aníbal Henriques


Cascais é um lugar especial…

Desde o princípio dos tempos, quando os primeiros homens chegaram à Europa, que o espaço hoje ocupado pela Vila e Concelho de Cascais assumiram um papel decisivo na fixação das comunidades humanas.

Este facto, comprovado pelas evidência arqueológicas, tem a haver não só com as condições naturais únicas que o lugar possui, e que vão de um micro-clima privilegiado, a uma paisagem extraordinária, e um conjunto de férteis campos onde não falta nem água, nem alimentos, nem animais, mas também com uma espécie de magia inebriante que surge como consequência do bem-estar que o Homem sente quando aqui se instala.

O fenómeno de atractividade de Cascais sobre as pessoas, que hoje todos conhecem e reconhecem, é assim transversal no tempo e no espaço, pois o Concelho foi paulatinamente assistindo à consolidação da sua comunidade humana. Por outro lado, e num fenómeno também hoje bem visível, a origem daqueles que escolhem Cascais para se instalar, é o mais diversa possível.

Cascais, no seu cosmopolitismo, é um dos Concelhos portugueses com melhores condições para atrair visitantes e se transformar num dos mais importantes pólos turísticos da Europa.

Tem tudo aquilo que é necessário para atrair os visitantes; tem um carisma difícil de definir; e tem sobretudo um enquadramento de paz e de segurança que, nos dias que correm, é condição essencial na escolha do destino de férias de qualquer família que preze a sua integridade e a dos seus.

Por isso, reunidas que estão as condições para que tal aconteça, só falta uma coisa: mostrar lá fora que Cascais é o espaço que todos (apesar de muitos deles ainda não o saberem) querem conhecer.


terça-feira

Pensar sobre... Cascais e os Estoris




por: João Aníbal Henriques


Depois de uma ausência prolongada, resultante de um período de grande e permanente intervenção cívica através de várias instituições, voltei recentemente a Cascais.

O cenário é novo, e a limpeza do espaço urbano marca agora o quotidiano da Vila, quase pronta para começar a receber os participantes no Campeonato do Mundo de Vela que vai decorrer nas águas maravilhosas da nossa baía.

Caminhando descontraidamente por Cascais, primeiro através das ruelas do burgo medieval, e depois pela Avenida Rei Humberto II, marina e Passeio Maria Pia, vão surgindo ao longe, recortados no horizonte de uma noite típica de Verão, os sinais prontos de que algo está mudar…

A beleza da paisagem, recortada aqui e ali pelo perfil romântico de alguns edifícios centenários que conseguiram escapar à fúria destrutiva do período negro de Cascais (1993-2001), só é ultrapassada pela pacatez e o sossego da envolvente.

E é ali que a surpresa surge pela primeira vez… Onde estão as pessoas de Cascais? Onde estão os visitantes? Onde estão os participantes no Mundial de Vela que começa nos próximos dias? Onde estão os turistas que enchem os hotéis que actualmente já exigem taxas de ocupação muito próximas dos 100%?

Porque razão, em muitos quilómetros percorridos em Cascais (sublinho a cálida noite de verão…) só consegui ver alguns polícias, espalhados aqui e ali nos pontos onde se vê que vão decorrer iniciativas relacionadas com o grande evento, e muitos seguranças privados que, sem muita preparação, tacto ou discernimento, exortam os poucos transeuntes a afastarem-se dos gradeamentos metálicos que ocupam as zonas mais bonitas do nosso espaço público?

A resposta é atroz.

Cascais está a receber centenas (para não dizer milhares) de novos visitantes que chegam paulatinamente todos os dias e que, para grande desespero dos naturais (diga-se comerciantes, restauração, etc.) acordam de manhã, fazem o que têm a fazer com as suas embarcações e com os preparativos para as provas, e depois seguem de imediato para jantar em Lisboa, passear na capital, fazer compras no Chiado, ou divertir-se nas Docas…
Entram numa das localidades mais bonitas de Portugal e, certamente, uma das mais maravilhosas do Mundo; demoram-se por aqui por vezes várias semanas; conhecem Lisboa, Sintra, Colares e a Praia das Maças; e... voltam a sair de Cascais sem que ninguém lhes tenha conseguido mostrar o espaço deslumbrante que tiveram a sorte de poder visitar.
E por isso, ao contrário do que acontecia há 15 ou 20 anos atrás, quando uma noite de Junho era sinónimo de ruas cheias, restaurantes repletos, bares e discotecas cheias de animação, e os bancos espalhados pela Vila plenos de conversas, confidências e sorrisos, Cascais está vazio, deserto, silencioso, mudo e triste. Apesar da limpeza, da segurança, dos novos equipamentos e de toda a extraordinária panóplia de atractivos que tem.
É atroz.


O Mito da Democracia em Portugal




Na sua mensagem a Lisboa, o Presidente da Edilidade, Professor Carmona Rodrigues, explicou em poucas palavras qual é a principal doença que afecta o sistema político português:


"Todos falam na necessidade da renovação da classe política. O certo é que o sistema político-partidário deste país não está preparado para que independentes abracem a vida política e tentam de todas as formas expelir os corpos estranhos."


Com esta declaração, curta e expressiva, Carmona Rodrigues conseguiu mostrar e demonstrar que existe uma razão (e que ela é conhecida e reconhecida pelos intervenientes na vida política Nacional) para o enorme desfasamento actualmente existente entre eleitores e eleitos, visível num crescente descrédito das instituições e numa preocupante falta de representatividade que mina a essência da Nacionalidade.


De facto, a dita sociedade civil (a mesma que entidades, partidos e instituições dizem promover) está refém da total partidarização de quase todos os sectores da vida portuguesa, não sendo possível fazer muito mais do que aquilo que interessa e convém aos partidos que detêm o poder.


As suas palavras ganham nesta altura uma importância especial, uma vez que para além de as participações nos plebiscitos ditos democráticos serem cada vez menores, mostrando que as pessoas sabem que não vale mesmo a pena estarem a perder tempo escolhendo um dos que foram escolhidos pelos partidos, estas palavras foram ditas por alguém que esteve de facto dentro do sistema, sentindo na própria pele as consequências nefastas desta situação opressiva.


Quando a grande maioria dos que pugnam (de facto) pela sociedade civil em Portugal começam a baixar os braços, compreendendo que a democracria que se diz existir só é aceite depois de avalizada por quem controla o sistema, é como que uma lufada de ar fresco assistir ao aparatado noticioso e à cobertura dada pela imprensa à expulsão de um destes corpos estranhos que, com pancadinhas nas costas dos que partidariamente o diziam defender, vem mostrar que (como sempre) democracia não é para todos, é somente para aqueles que de cartão de filiação em punho, são capazes de obedecer!...

segunda-feira

O Palácio dos Condes da Guarda


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por João Aníbal Henriques
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Apesar de ser uma das mais antigas edificações da Vila de Cascais, e uma das poucas construções que sobreviveram ao terramoto de 1755, os actuais Paços do Concelho, só muito recentemente adquiriram o aspecto que hoje tão bem conhecemos.

Quando o Almirante Cotton, representante do Exército Inglês, pernoitou no Palácio dos Condes da Guarda, dificilmente imaginaria as muitas transformações e adaptações que aquele espaço sofreria ao longo dos Séculos seguintes.

De facto, no início do Século XIX, quando a Convenção de Sintra – por mero acaso assinada em Cascais – decorria no local onde hoje funciona a Estalagem Solar Dom Carlos, a Vila ainda não perspectivava o fulgor que a caracterizaria após 1870, quando Dom Luís adapta a Cidadela a palácio de veraneio.

Edifício de planta rectangular, assente em sólida silharia calcária, o Palácio dos Condes da Guarda integra as dimensões e as orientações que genericamente caracterizam o estilo commumente designado como Arquitectura Portuguesa. O seu telhado de quatro águas é, aliás, semelhante a todos os outros que defendiam as restantes habitações da zona ribeirinha da Vila das intempéries invernosas e do calor do estio. O único aspecto que diferencia este prédio dos circunvizinhos, é o vasto conjunto azulejar que o envolve, utilizando as cores amarelo, vermelho e roxo, considerados por Ferreira de Andrade, como os melhores desta arte bem portuguesa.

São Sebastião, Santo António, São Miguel, São Mateus, São marcos, São Jerónimo, São Lucas e São João, são as figuras representadas na fachada, e que integram um conjunto de azulejos mais vasto que se prolonga pelo interior. Na escadaria principal, um alabardeiro vestido de roxo e o painel com as armas da vila, fecham o conjunto, contribuindo com o as suas cores para preencher e decorar o modesto enquadramento arquitectónico do conjunto.

Em Abril de 1918 é anunciada a venda em hasta pública do conjunto de azulejos do Palácio dos Condes da Guarda, e Gustavo de Matos Sequeira, numa das suas obras sobre o terramoto de Lisboa mencionada por Ferreira de Andrade, refere que eles constituem a nota mais pitoresca de toda a povoação.

Para salvar o edifício e os preciosos azulejos, a edilidade adquire-o nessa data, transformando-o na actual Câmara Municipal.

É desta época já bastante recente que datam as modernas e radicais alterações que modificaram por completo o aspecto geral do edifício. À ala sul foi acrescentado um novo trecho que completou a remodelação integral que sofreu toda a Avenida Dom Carlos, e que culminou com a criação da actual esplanada junto ao mar.

No final do Século XIX, quando Cascais se transformou na praia da corte, o edifício foi adaptado a habitação de veraneio, utilizada durante várias décadas pelos Condes da Guarda. O seu ar aristocrático desde cedo contrastou com a modéstia das pobres casas utilizadas pelas mais altas figuras da corte, que se sujeitavam às mais humildes condições somente pelo prazer de acompanharem os monarcas nas semanas finais do verão.

Tendo conseguido sobreviver às terríveis consequências do terramoto, e às variadas vicissitudes políticas dos tempos, nomeadamente a utilização no período das invasões francesas, a posterior adaptação a casa de veraneio e finalmente à investida republicana, o Palácio dos Condes da Guarda resguarda aquelas que são, por excelência, as mais importantes memórias urbanas de Cascais. Mal conhecido da generalidade dos cascalenses, e permanentemente absorvido pela inadmissível utilização como parque de estacionamento da Câmara Municipal, que não tem percebido o real valor cénico, patrimonial, histórico, artístico e cultural do edifício, o Palácio dos Condes da Guarda merecia um papel de maior...

terça-feira

Cruzada Contra o Aborto









Uma cruzada contra o aborto marcou o primeiro dia do Congresso Internacional para a Nova Evangelização, a decorrer em Lisboa até ao próximo domingo – nem em situações limite, como a gravidez resultante de violação, o aborto é tolerável.



Isso mesmo defendeu Walter Osswald, professor catedrático de Medicina e antigo director do Instituto de Farmacologia e Terapêutica, a quem coube dar início ao ciclo de conferências deste congresso.

“A violação é um crime horroroso e é natural que a mulher não queira conservar o fruto desse crime. Mas não podemos fazer pagar uma vítima inocente pelo crime. A mãe deve manter a gravidez até ao fim e, depois, entregar o bebé para adopção.”

A má formação do feto também não justifica, segundo o professor catedrático, a interrupção da gravidez. “Um filho deficiente acarreta dificuldades. É fundamental, nestes casos, que a mãe disponha de ajuda espiritual e material.” A ouvi-lo estavam centenas de congressistas, que encheram a Igreja dos Jerónimos, local de realização das conferências.

Relembrando o mandamento ‘Não matarás’, Walter Osswald foi duro para quem desafia as palavras de Deus. “Dizem os defensores do aborto que a mulher tem o direito a dispor do seu próprio corpo. Mas o facto de uma mulher albergar em si um feto não implica que possa dispor da vida de outro.”

O especialista sublinhou, ainda, que “a questão da vida, a sua defesa e promoção diz respeito a todos, a começar pelos cristãos”, e classificou de “absolutamente ridícula” a posição dos que consideram que “até às 10 ou 12 semanas um feto não é pessoa humana”.MOBILIZAÇÃO PRECISA-SE

Recorrendo às palavras de João Paulo II – “é necessária uma mobilização geral para uma nova cultura de vida” –, Walter Osswald terminou a sua intervenção deixando um alerta. “Ninguém controla a sua vida. No entanto, o ser humano tem a responsabilidade de zelar pela sua conservação.”O ciclo de conferências prossegue esta manhã, também na Igreja dos Jerónimos. O orador convidado será Ulrich Kny, director da associação ‘Ajuda a Igreja que Sofre’ para o Brasil. A sua palestra incidirá sobre o tema ‘A vida como relação responsável’.
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in Correio da Manhã, 08.XI.2005

quarta-feira

Um Olhar Sobre a Habitação no Concelho de Cascais...



por: João Aníbal Henriques

O panorama habitacional português, definitivamente marcado pela sua conotação mediterrânea, pode ser analisado através de diversos tipos de perspectivas.
Segundo alguns autores, sempre integrando o desenvolvimento urbano dos espaços do sul da Europa num modelo mais amplo onde o desenvolvimento tardio dos equilíbrios capitalistas se traduziu, de uma forma premente, no parque habitacional, a urbanização do actual território português, na sua faceta litoral, é marcado pela discrepância que existe entre as cidades modernas, ou seja, aquelas que resultam dos planos regularizadores que surgem a partir do início do século XX, e aquelas que, por serem anteriores, são vincadamente marcadas pela necessidade efectiva de se utilizarem as estratégias conhecidas, as técnicas comuns, e as capacidades de cada um para levar a cabo a construção do lar.
Se, numa perspectiva mais lata, o modelo regularizado permitiu a vastas zonas de Portugal terem-se tornado em eminentes locais possuidores de uma importância turística sem igual, como aconteceu, por exemplo, com a zona ribeirinha do Porto, com uma área muito vasta do litoral centro português, e sobretudo com a denominada Costa do Sol, numa perspectiva restrita, em que o valor da individualidade permite expressar verdadeiramente o cerne mental das populações, é nos espaços urbanos caóticos pré-regularização, e naqueles que, embora posteriores, não usufruíram dos projectos que lhes permitiriam seguir orientações e definições políticas coerentes, que encontramos hoje verdadeiramente a essência de um sentir individual que permite interpretar as casas como verdadeiras obras de arte.
Segundo Leala Leontidou (1), foi precisamente a inexistência de um Estado dotado de poder efectivo, devido sobretudo a uma falta de representatividade marcada pelo processo que o criou e que o dotou da força que lhe permitiu governar, que assegurou a existência, na faixa mediterrânea e principalmente em tornos dos mais antigos aglomerados populacionais, de vastos espaços em que a construção habitacional, cunhada pela relativa facilidade com que se empreendia a edificação de uma casa, traduz verdadeiramente a essência daqueles que tomaram a iniciativa de produzir e de intervir nestes novos espaços. As cidades e os espaços urbanizados que surgem a partir da segunda metade do século XIX, dignos representantes de uma estruturação cultural em que é possível notar as influências oriundas de sectores políticos, económicos e sociais, espécie de grandes mercados de produtos e de mão-de-obra barata, servem assim os interesses de uma capitalismo nascente, no qual reside a substância daquilo que mais tarde se designará como suburbano.
A grande influência europeia nas estruturas económicas dos países do sul, principalmente por parte da Inglaterra e de França, que trouxeram a Portugal muito daquilo que na época se considerava amiúde como sendo o cerne de tudo o que se considerava progresso, faz-se sentir sobretudo ao nível das acessibilidades e das regalias que delas resultam. O que isto quer dizer, em termos muito simples, é que a iluminação eléctrica, o macadame nas estradas, os telefones e telégrafos e, principalmente, as linhas férreas, dotaram o campo e as populações rurais, de incentivos e de meios que lhes permitiram atingir as cidades. Neste movimento, muito rápido e incisivo, reside precisamente a grande diferença entre a urbanização dita mediterrânea do final do século passado, e a sua homóloga europeia, uma vez que enquanto que a primeira ocorre sobretudo num período pré-industrial, pois a eclosão do progresso é marcado unicamente pela industrialização dos grandes estados europeus, a segunda ocorre somente após terem sido criadas nas cidades as géneses de uma vivência industrial que, como é evidente, afecta verdadeiramente o parque urbano desses espaços.
Nos países em processo de industrialização, em que as estruturas fabris foram acompanhando o desenvolvimento dos postos de trabalho, a migração entre os espaço rurais e os espaços urbanos, faz-se sem grande implicações efectivas na estruturação urbana de cariz natural das cidades. Aqui, ao contrário do que sucede noutros locais, a cidade vai-se adaptando à necessidade de receber os seus novos habitantes, sendo que as construções dos novos espaços, independentemente daqueles que os ao ocupar, são pensadas, criadas e construídas a partir das dinâmicas internas das próprias empresas. Nesta situação, mais do que a liberdade construtivas que encontramos a sul, desenvolve-se uma homogeneidade institucionalizadora, que influi largamente nos equilíbrios políticos e sociais que enformam a existência das próprias empresas. As cidades, complemento directo do espaço de trabalho, deverão urbanizar aqueles que para ali vêm habitar, possuindo assim uma série de características que poderíamos considerar como pedagógicas, uma vez que procuram ensinar e educar os trabalhadores a uma forma de vida a que não estão minimamente habituados.
Nos países mediterrâneos, onde a industrialização é sempre sentida como um factor externo, em que a inovação e a verdadeira produtividade depende quase em exclusivo dos capitais europeus, a nova cidade cria-se livremente pela mão daqueles que a procuram de uma forma cada vez mais incessante. Nestes espaço, em que a empresa não influi, o trabalhador, que muitas vezes não vem trabalhar na indústria que é ainda incipiente, o novo habitante tem grande facilidade em edificar a sua própria habitação, nela introduzindo elementos de ordem diversa, que passa pelas tecnologias utilizadas na sua construção e também pela decoração utilizada, formando assim um espaço que se molda a sai próprio. Nestes casos, ao contrário do que acontece no modelo europeu, os processos de educação funcionam de forma ambígua, uma vez que a orientação, muito pessoal e dinâmica, se debate permanentemente com a heterogeneidade que caracteriza cada um dos seus elementos.
Este processo de urbanização pré-industrial, ao contrário do que acontece no modelo inverso, surge com uma tendência muito grande para inverter as lógicas da cidade, ou seja, invertendo as tendência de escolha e aquilo que naturalmente deveria ser o devir histórico do espaço.

O primeiro problema que se levanta, fundamentalmente imiscuído de todas as problemáticas que envolveram estes espaço no período imediatamente subsequente ao desenvolvimento das doutrinas liberalizantes que se institucionalizaram após a Revolução Francesa, é o da propriedade. Esta, também marcando a diferença face à industrializada Inglaterra e à muito rica França, era aqui fraccionada até atingir unidades de tal forma pequenas que se tornava impossível dividi-las mais. Foi este parcelamento, principalmente das grandes quintas e herdades que envolviam o espaço urbano propriamente dito, que possibilitou o êxodo rural, uma vez que os terrenos, pela sua situação periférica e sobretudo pela desvalorização resultante da delapidação das unidades, que obviamente trazia implicações, por exemplo, ao nível da possibilidade de aceder à água e aos acessos condignos, que tornou acessível a cidade aos que habitavam no campo. Estes, como é evidente, adquirindo ou arrendando os terrenos diminutos que lhes eram acessíveis, formaram os primeiros subúrbios, onde a heterogeneidade, vincada cada vez mais pelas diferenças culturais de cada um, se vai progressivamente esbatendo até de atingir uma certa semelhança nos processos utilizados para construir e para fundamentar os novos espaços.
Nos espaço pré-industriais, onde a segurança social e os apoios estatais eram ainda utopias que ninguém pensava ser possível atingir, a subsistência em minifúndios, a partir de uma auto-suficiência que as técnicas agrícolas e hortícolas continuavam a assegurar, vai transformar a cidade verdadeira num cada vez mais assumido mercado, onde o habitante do subúrbio encontra espaço para vender a sua parca produção, adquirindo os bens que o impeliram a procurar a fuga ao campo. Estes habitantes não possuem laços de relação com a cidade, uma vez que não encontravam aí qualquer espécie de empregos ou de segurança. As suas relações, após terem sido eclipsados os laços que o uniam às tradições milenares de âmbito campestre, são assim vincados a partir de uma reconstrução cultural que se faz fora da cidade, junto ao espaço habitacional, onde, para além do espaço e da acessibilidade, o novo citadino vai encontrar toda a liberdade que lhe permite recriar, com arte e com fundamentos culturais que misturam o campo com toda a apetecível novidade que traduz a essência da urbe, um novo espaço ou, para utilizar uma terminologia que esteja compatível com a situação actual nestas zonas, uma nova cidade.

Segundo Leontidou, a principal característica desta urbanização mediterrânea é o facto de ser informal, ou seja, de se processar com diversos ritmos muito próprio e sem qualquer espécie de homogeneidade, criando vastas empatias e equilíbrios que, sendo muito próprios e pessoais, não permitem estudar com o aprofundamento suficiente, a globalidade destes aglomerados habitacionais.
O carácter informal, mais do que resultante das tendências culturais, políticas ou legais dos espaço onde se inserem, traduz realidades económicos e educacionais. Os novos habitantes, que utilizam as suas casas como forma de efectivarem um poder que a cidade não conseguiu fornecer-lhes, são cada vez mais constrangidos a educarem-se mutuamente, criando paradigmas sociais que lhes permitam usufruir da cidadania que perderam quando abandonaram o campo, e que a grande cidade lhes não conseguiu conferir. A casa, com o espaço envolvente, geralmente transformado numa horta ou num pequeno quintal, é assim um instrumento de sociabilização, no qual reside, na maior parte dos casos, o elo de ligação entre este habitante e os seus vizinhos. A forma, a cor, a decoração, as espécies vegetais que cultiva ou planta, ou mesmo a vedação e as técnicas utilizadas para construir o espaço, são na grande maioria dos casos, instrumentos de afirmação, que permitem ao indivíduo recriar a sua personalidade e criar. É precisamente aqui, no sentido artístico que envolve o processo de criação, que reside a análise que procuraremos promover às habitações do concelho de Cascais.

Na península de Lisboa, principalmente na zona situada a poente da capital, a urbanização dos novos espaços, com especial incidência naqueles que surgem desde o final do século XVIII, segue um modelos de concretização muito próximo daquele que nos transmite a urbanista mencionada. Os grandes aglomerados históricos, recebendo no seu seio uma população descaracterizada que ali procura encontrar os benefícios de um progresso que só faz sentido nas cidades, são assim adaptados às novas existências, adquirindo um conteúdo formal que os aproxima dos modelos paradigmáticos das grandes cidades europeias. Em termos decorativos, com um amplo vínculo de âmbito educacional, as principais bases que norteiam o processo construtivo prendem-se assim com esta necessidade de recriar laços de cidadania que se perderam no momento da chegada ao novo espaço. Por outro lado, sempre com um cunho muito particular na efectiva vinculação que os novos habitantes vão sentindo face ao espaço em questão, é importante assegurar que se vão construindo novos equilíbrios sociais que, para serem verdadeiramente representativos dos valores que procuram transmitir àqueles que por ali se vão instalando, têm de fazer uso de uma vastidão de princípios, de ideais, de valores culturais, políticos, económicos e mesmo religiosos que, nalguns casos, e numa perspectiva imediatista, se afiguram como verdadeiramente desadequados e incompatíveis. É precisamente da reunião desta diversidade de saber, que numa perspectiva antropológica faz crescer uma riqueza cultural que poderíamos até considerar sumptuária, que nasce a essência decorativa da urbanidade cascalense, a qual envolve, de uma forma permanente e em permanência, todos os actos e todas as decisões dos que para ali vão habitar.
Em termos políticos, ou seja, em termos daquilo que eram as decisões tomadas em relação ao nascimento e à consolidação destes espaços, há pouco a dizer, uma vez que o Estado, centralizado e forte, dava muito pouca liberdade aos órgãos locais para decidirem e para organizarem o seu espaço. A consciência dos construtores, bem como de todos aqueles que para ali, através do arrendamento, vinham viver, era unicamente a sensibilidade do ser capaz de possuir uma habitação que estivesse de acordo com as perspectivas de vida de todos eles. A precariedade do emprego, conjugada com as crises cíclicas que afectavam amiúde a vivência dos países industrializados, que afectavam indirecta mas com muito mais fulgor ainda a existência daqueles que delas dependiam, obrigava estes novos habitantes a encontrar espaços que, a preços módicos e ajudando a evitar o pagamento incomportável de rendas, lhes permitissem usufruir das regalias da sua nova vida. Enquanto que nos países mais desenvolvidos, o próprio aluguer urbano servia de forma perene de controle das massas operárias por parte dos empresários, que construíam as casas que eram pagas como parte integrante do salário semanal ou mensal daqueles que delas usufruíam, nos países pré-industrializados, como era o caso de Portugal, o arrendamento derivava sempre da capacidade empreendedora dos que iam conseguindo possuir as suas casas e os seus terrenos.
Em espaços como o Monte Estoril, por exemplo, encontramos exemplos significativos da forma como esta existência urbana, marcada pelo binómio que se caracteriza em permanência pelo contraste entre a existência burguesa e a aristocracia tradicional, acaba por influir na criação de uma nova identidade local, na qual o próprio carácter cénico da paisagem, do vestuário e da decoração das diversas casas, garante a manutenção das prerrogativas que mantêm no seu lugar cada uma das partes que compõem a nova totalidade social.
No local actualmente designado como ‘As Cocheiras do Monte Estoril’, encontramos um exemplo paradigmático dessa situação. Com uma colocação geográfica extraordinariamente boa, situada muito próximo da zona mais nobre daquela que foi na época a mais nobre das nobres localidades da Costa do Sol, o pequeno complexo das cocheiras possui características cénicas que permitem entendê-lo como uma espécie de tradução da sua singularidade face à totalidade do espaço envolvente. Muito próxima dos outros, de que depende para sobreviver, a comunidade de assalariados que habita nas cocheiras possui um espaço próprio que, em termos do seu enquadramento estrutural, se alicerça em princípios estéticos que lhe garantem não se confundir com as partes restantes da paisagem urbana. Construídas de raiz para albergar os empregados da Companhia do Monte Estoril, principalmente os operários que trabalharam na construção da linha férrea que ligava o Monte Estoril a Pedrouços, as cocheiras possuem no seu andar térreo uma série de espaços para guardar animais. Com todo o terreno vago que envolve o Monte Estoril, no qual facilmente se poderiam construir as instalações necessárias à colocação dos animais, a Companhia opta por colocá-los em conjunto com os seus operários, demonstrando assim que a centralidade do espaço construído para esse efeito, contrariamente àquilo que seria de esperar, não é definidora de uma qualidade e de uma excelência na sua existência, mas sim de uma certa discriminação, essencial para que se possa alicerçar a educabilidade que deveria enformar a criação da nova sociedade estorilense.
Em termos estéticos, a decoração utilizada para a concretização destas ideias, misto de beleza que deveria envolver uma zona nobre por excelência, e de uma certa particularidade que garantisse a satisfação da diferença, alicerça-se na utilização de uma cor diferente daquela que era utilizada para a generalidade das restantes habitações daquele novo espaço. Assim, enquanto que o ideal estético da denominada ‘Casa Portuguesa’, com a sua luminosidade alva nas paredes, envolvida nos pormenores rocambolescos de uma exuberância que dota aquele espaço de características que o vão transformando numa zona única em todo o panorama turístico português, assenta na pintura em tinta branca, fazendo recriar os laços existentes entre a nova vivência e aquilo que se pretendia consubstanciar como a existência tradicional do País, as cocheiras adoptam uma luminosidade opaca, baseada nos tons amarelados, ao qual se apensam alguns elementos decorativos em madeira. A utilização da cor, marcando a distinção do espaço servil face ao espaço nobre da localidade, e a decoração em madeira, marcando uma aproximação aos ideais estéticos de índole romântica que garantiam a dependência de ambos os espaços, é assim fundamento de uma formalização objectiva do património edificado enquanto elemento gerador de educação na nova comunidade.
Em contrapartida, em espaços onde o vínculo se faz pela negativa, ou seja, em espaços em que o poder instituído não intervém directamente, a decoração patenteada pelas casas faz nascer uma individualidade que está, de uma forma eminente, enquadrada na vivência artística.

Um dos exemplos mais paradigmáticos desta situação, tal como se pode observar pela tabela que apresentamos em anexo, é o da Parede, ou seja, uma localidade nascida deste útero de periferia, marcada desde sempre pela negligência ao nível das instituições municipais e Nacionais, e profundamente constrangida pela necessidade de se auto-definir ao nível do seu carácter comunitário. Nascida de uma situação semelhante àquela que apontámos genericamente como enquadrável nos modelos evolutivos mediterrâneos, a Parede até no seu topónimo deixa antever uma necessidade de afirmação que resulta do processo histórico da sua concretização. Muito embora só existe, em termos institucionais desde o início do século XX, a localidade da parede, hoje sede de Freguesia resulta teoricamente da evolução de uma existência que havia sido marcada pela antiga aldeia de Cai-Água e essa, por seu turno, marcada também pela existência de diversas comunidades pré-históricas que utilizaram o seu espaço. Em termos práticos, no entanto, e tal como o comprova o levantamento patrimonial que apresentamos agora publicamente, não existem praticamente laços de união entre as duas realidades, uma vez que, a moderna Parede, de cariz republicano e revolucionário, e assumidamente a mais proletária de todas as localidades do concelho de Cascais, é uma realidade que resulta da chegada dos novos habitantes pré-industriais que para ali vão trazer um sentimento de suburbanidade que a antiga aldeia rural não conhecia. Os paredenses, hoje entendidos como parte integrante, a todos os níveis da vivência cascalense, foram, durante várias décadas, o resultado da existência de uma comunidade proletária em que o estabelecimento urbano se alicerçou nos princípios, nas orientações e nas motivações que anteriormente mencionámos.
Em termos físicos, com base na divisão dos terrenos que faziam parte das grandes quintas que o Comandante Nunes da mata ali adquiriu para mandar edificar, a preços módicos e acessíveis, uma nova povoação que correspondesse às necessidades efectivas da classe trabalhadora que não suportava habitar na cidade de Lisboa, onde os preços das acessibilidades eram pagos com valores que eles não podiam aguentar, a Parede do século XX conhece a auto-construção como forma eminente de se urbanizar. As velhas azenhas e moinhos, colocados estrategicamente para receberem sem encargos de maior os produtos agrícolas do interior do território, e para poderem enviar apara Lisboa as farinhas após terem sido manufacturadas, deixaram de fazer sentido num espaço onde todos eram iguais e onde todos sabiam fazer o mesmo. Os operários que se instalaram na Parede, oriundos de muitas partes do país, e observando o mesmo ritual quotidiano de utilização do comboio para chegar à capital, tornaram obsoleta a economia tradicional deste espaço, facto que obrigou a que se destruísse quase todo o parque habitacional antigo e tradicional, que hoje praticamente é impossível observar no interior da localidade da Parede, e o substituísse pelas novas casas de cariz operário e burguês, que seguiram quase à risca, as orientações apontadas por Leontidou.
Estas novas edificações, longe de seguirem os modelos desde sempre utilizados pela tradicionalidade local, impuseram-se através da diferença, fazendo apelo a formulações estéticas e decorativas que permitiam a utilização de muitas das bases culturais que traziam das suas terras de origem, e que eram sistematicamente adaptados à nova vivência de conjunto que aqui procuravam estabelecer. Vivendas como a do ‘Gato’, bastante próxima do centro da urbanidade paredense, são exemplos paradigmáticos da forma como a utilização decorativa de novas formulações, acaba por influir na capacidade de efectivarem, através do cunho artístico pessoal dos seus criadores, uma afirmação pessoal e comunitária da qual depende o próprio nascimento da povoação.
De facto, se nos ativermos às necessidades culturais da população, depressa compreenderemos a importância que assume a possibilidade de, através da decoração das suas casas, ganharem uma forma de afirmação que está em consonância com tudo aquilo que é o espírito que enforma o nascimento da institucionalidade e do poder da própria povoação. As casas, espelho muito fiel do sentir cultural de cada um dos seus habitantes, são, no seu conjunto um misto da harmonia que resulta da afirmação pessoal dos diferentes tipos de comunidade que ali habitam, com a heterogeneidade que marca a diferença que entre eles, de uma forma permanente e quase imutável, se vai efectivando.
A nível da estrutura urbana, ou seja, da forma como se dispõem os edifícios no seio da complexidade real que resulta da necessidade de se conseguir, na teia emaranhada de edifícios que compõem as diversas ruas marcadas pela construção não-planificada, discernir linhas orientadoras que promovam o entendimento sobre as bases culturais que a enformam, é possível perceber que existe uma competição básica, de âmbito individual, dela resultando a grande maioria das orientações que agregam as casas, a sua decoração, e os próprios quarteirões onde se inserem. Desta forma, ao nível da visibilidade e do ordenamento do território, no seio de todas as incongruências que caracterizam a falta de plano e de previsão urbana, é possível encontrar linhas mestras, em que a colocação espacial de cada edifício, mais do que propriamente a sua localização paisagística ou as acessibilidades, é definidora dos fundamentos que regem as relações sociais. Esta situação, assaz curiosa se entendermos que no seio destas povoações a visibilidade da casa, muitas vezes construída num interstício sem quaisquer condições, é mais significante do que a própria qualidade da sua construção ou as vistas que dela se fruem, permite-nos ainda perceber qual é, verdadeiramente, a importância que a imagem e, logo, a própria decoração, exercem sobre aqueles que a constróem.
Como o comprovam os diversos casos que mencionamos em anexo, cada uma das casas construídas arbitrariamente pelos proprietários dos terrenos, sem terem de se reger por quaisquer regras fixas ou planos directores que enformassem as suas características, é um repositório de âmbito psicológico de tudo aquilo que são as personalidades dos que as constróem. Assume sempre maior importância neste contexto aquilo que a casa parece ser, através dos elementos decorativos que coloca na sua fachada, do que propriamente aquilo que ela verdadeiramente é. Os espaços em questão, muitos deles tão afastados socialmente entre si que é difícil entender a relação existente, apresentam características únicas ao nível da singularidade.
Mesmo nos casos em que existe alguma partilha, como acontece, por exemplo, nos bairros ditos ‘alentejanos’ da zona norte de São Domingos de Rana, ela é baseada na necessidade de afirmação pessoal. Nestes casos, embora utilizando um plano comum para a construção das casas, uma vez que um conjunto muito vasto de famílias adquiria de comum acordo um terreno onde, com custos muito mais reduzidos, construía as dezenas de casas de famílias que tinham obrigatoriamente de ser exteriormente semelhantes, cada casa é um caso, adoptando formulações estéticas que permitem asseverar que a decoração que lhes está apensa, é definidora de uma singularidade a que todos aspiram. As fachadas brancas, incólumes na alvura da sua construção, após terem recebido no seu seio a família que transforma aquele edifício num lar, imediatamente lhe desvirtua a imagem, de modo a singularizar a habitação, dotando-a assim de uma identidade que permita identificar quem lá habita.
Em termos sociológicos é comum fazer assimilar esta busca da identidade a uma espécie de necessidade natural de ostentação das condições de vida melhoradas que se foram conseguindo adquirir. Neste caso específico, mediante a observação sistemática do património edificado cascalense, tal parece não fazer sentido, uma vez que, por exemplo no caso do Bairro dos Sete Castelos, situado muito perto da Quinta da Torre da Aguilha, encontramos cerca de três dezenas de habitações, estruturalmente semelhantes mas que, à primeira vista, parecem estar situadas a níveis de existência completamente diversos. Estas casas, pertencentes a um mesmo grupo de operários que trabalhou nas obras de grande vulto que ocorreram em meados do século na cidade de Lisboa, para além de terem sido construídas no mesmo período, utilizando os mesmos materiais e as mesmas técnicas, apresentam características que hoje, pese embora o facto de a generalidade dos seus habitantes possuir uma base económica e cultural semelhante, se torna difícil perceber a sua identidade comum. Como é evidente, e facilmente entendível através de uma observação sistemática daquilo que se passa neste espaço, não foi a necessidade de ostentação que levou à modificação decorativa das casas. Essa observação, feita de um modo constante ao longo dos anos, foi suportada pelo próprio evoluir das estruturas mentais da comunidade que, de uma forma equilibrada entre os interesses individuais de cada um e as necessidades colectivas do grupo, foi conseguindo levar a bom termo a inclusão de elementos que definiram e orientaram a edificação face às restantes.
O valor da casa, mais do que dependente daquilo que ela é, ou mesmo daquilo que ela representa, deriva assim daquilo em que ela se transforma com os elementos que decorativamente lhe auguram a possibilidade de ela se afirmar face às restantes, fazendo com que o seu proprietário se afirma também. Nalgumas situações paradigmáticas, como acontece por exemplo, também na Parede, com a denominada ‘Casa das Pedras’, pertença do eminente biólogo Azevedo Gomes, o carácter decorativo do edifício não tem tão pouco nada a haver com as suas características interiores. As pedras que compõem a fachada, decorando-a, mais não são do que um símbolo da magnificência do edifício face aos restantes, uma vez que lá dentro, num espaço onde seria propícia a excentricidade que o exterior patenteia, nem sequer se faz sentir o mínimo sinal da rudeza da sua face externa. Neste caso específico, em que a decoração se assume como um elemento fundamental na estrutura arquitectónica da edificação, esta é pura e simplesmente direccionada para os outros, uma vez que aqueles que nela habitam, e que se responsabilizam pela escolha dos elementos que compõem a fachada, escolheram também para o seu conforto pessoal e para a interioridade do seu lar, qualquer coisa diferente, pois ali já não chegam os olhares do mundo.

Novas Gentes e uma Nova Democracia


por João Aníbal Henriques
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Os actos eleitorais recentes deixaram provado que chegámos ao fim de um ciclo político.

De facto, e tendo em conta até os níveis de participação eleitoral que vão acontecendo um pouco por toda a Europa (veja-se a grande vitória eleitoral da abstenção nas eleições autárquicas de 9 de Outubro), o socialismo dito democrático nascido no pós-guerra e baseado em pressupostos ideológicos que geraram as correntes neo-liberais do regime partidarizado que ainda hoje subjuga a política do velho continente, já não representa nada nem ninguém.

As novas gerações, politicamente motivadas para uma intervenção que generaliza a ideologia, espera da política e dos políticos soluções práticas para o seu dia-a-dia e, sobretudo, soluções que em termos doutrinários sejam suficientemente latas para que possam abarcar todo o espectro cultural, social e multinacional que hoje caracteriza a Europa. As velhas ideologias, geradas por modos de vida que já hoje não existem, estão mortas, e só não foram ainda enterradas porque ainda estão vivos (e a esses ainda lhes convém manter o controle) alguns (poucos felizmente) daqueles que nos transportaram politicamente desde meados do Século XX até à actualidade.

Hoje, quando os ritmos da multiculturalidade marcam o quotidiano das comunidades, e quando as marcas fronteiriças ganharam um novo significado, a sociedade exige a criação de uma nova representatividade política que, como dizem os “especialistas” deve ser também representatividade económica, social e, sobretudo, cultural.

Estamos, por isso, no momento em que é essencial repensar a democracia e ponderar todos os factores que nos foram dizendo que ela garante… Liberdade? Fraternidade? Igualdade? Quando deles se tornaram efectivos no âmbito do regime partidarizado em que vivemos já há tanto tempo? Seremos verdadeiramente livres? Seremos mesmo fraternos? Seremos iguais? Julgo que as respostas são óbvias…

Enquanto foi possível acreditar que aquilo a que chamaram democracia, e que mais não é do que uma ditadura partidarizada, poderia caminhar em direcção ao cumprimento dessas garantias fundamentais, os cidadãos procuravam simbolicamente a representação com determinada facção ou partido, e participavam eleitoralmente na escolha dos políticos.

Agora, que já se percebeu que tudo é utopia, desde os partidos até às ideologias, passando pelas figuras dos políticos e, sobretudo, pela ilusão eleitoral, a verdade despiu-se de toda a sua diáfana envolvência e surge crua e dura aos olhos de todos: a maioria dos cidadãos, independentemente da sua origem étnica, cultural, linguística, profissional ou económica, já percebeu que nunca encontrará no actual regime uma resposta perene às suas necessidades de representação.

É fundamental uma Nova Democracia.

É essencial que essa Nova Democracia possua os fundamentos que lhe garantam a abertura suficiente para alargar o espectro da sua representatividade. É obrigatório que a Nova Democracia seja simultaneamente aberta à criação de sinergias entre diferentes princípios ideológicos para salvaguardar a possibilidade de representar todos aqueles que possuam virtualidades políticas e, simultaneamente, suficientemente estanque para garantir que não sofre as incursões (ou pelo menos consegue identificá-las e combate-las) por parte dos grupos de índole diversa que ainda vão controlando a nossa sociedade.

A Nova Democracia tem, OBRIGATORIAMENTE, de ser uma Democracia Apartidarizada!...

Não admito que a maioria decida o meu dia a dia!


por: João Aníbal Henriques
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Há alguns anos atrás o insuspeito vocalista da banda "Delfins", numa ode de vocação esquerdizante contra toda a participação de Portugal em terras africanas, dizia que "não admitia que a maioria decidisse o seu dia-a-dia"...

E de facto, não faz sentido que sejam Sócrates, Sampaio ou outros quaisquer (lembre-se quantos portugueses efectivamente votaram nesta gente) a decidir por mim e a imporem-me soluções e formas de vida encapuçados pela tal pseudo legitimidade democrática. Só pode existir democracia verdadeira quando os portugueses (sem excepção e englobando maiorias e minorias) estejam politicamente representados.

Logo, só pode existir democracia quando acabarem com estes partidos!
Mas, mais grave ainda, a situação torna-se inqualificável quando falamos do aborto. Onde está a voz dos bebés que são chacinados legamente com o aval partidário da AR?

Onde está a possibilidade de se defenderem?

Onde está a possibilidade de se tornarem cidadãos de pleno direito, com opinião, formação e actividade que possa contribuir para o devir futuro da Nação?

Mas que raio de coisa é esta em que, discutindo motivos processuais (o que é que importa a mim, à generalidade dos portugueses e a esses bebés assassinados se estamos ou não noutra legislatura?), os partidos políticos se arrogam no direito de decidir sobre a vida dos outros?

É execrável ver tudo isto tratado assim. Porque se não admitimos que a maioria governe o nosso dia-a-dia, muito menos devíamos admitir que a VIDA ou a morte fossem decididas por votação!

quinta-feira

Na Senda da Democracia


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por João Aníbal Henriques (joao_henriques@yahoo.com)
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Muito embora se possam permanentemente discutir os seus princípios e fundamentos, restam poucas dúvidas relativamente ao facto de o regime democrático em que teoricamente vivemos ser aquele que melhor garante a representatividade aos cidadãos. O rol de direitos e de deveres que enformam a cidadania, oferecendo liberdade e cerceando-a sempre que ela interfere com a liberdade alheia, cria uma teia de valores e de princípios que fundamenta a coexistência e a identidade das Nações.
O grande problema com que actualmente nos debatemos em Portugal é que, contrariamente ao que vêm dizendo a generalidade dos nossos políticos, o sistema governativo que possuímos, nos mais variados níveis, está muito longe de ser um regime verdadeiramente democrático.
Os 850 anos de História do nosso País, ao longo dos quais se sucederam governantes e regimes das mais variadas origens e orientações, são exemplo brilhante da forma como foi possível experimentar sucessivamente diferentes opções políticas, adaptando-as à realidade Nacional sem nunca desvirtuar a identidade dos portugueses. De facto, desde os primórdios da Nacionalidade até ao início do Século XX, regimes feudais, absolutistas, liberais, constitucionais e democráticos foram-se sucedendo sem que Portugal nunca tivesse chegado a ser verdadeiramente feudal, absolutista, liberal, constitucional ou democrático.
Os governantes portugueses, mais preocupados com os resultados efectivos da sua actuação, do que com as teorias políticas em voga, recriavam com base na sua experiência pessoal e nas vicissitudes do momento, formas alternativas de governação.
O advento da democracia, sub-sistema político de carácter eminentemente europeu, decalcado dos fundamentos que regiam a gestão pública na cidade clássica de Atenas, veio alterar radicalmente este pressuposto.
Os princípios doutrinários teoricamente fundamentados em experiências alheias foram instituídos em Portugal sem qualquer espécie de cuidado ou adaptação. Aos portugueses, que em 1974-75 ainda possuíam características próprias e uma identidade Nacional bem constituída, foram oferecidos direitos e garantias que nada tinham a haver com a realidade e com as necessidades locais.
Se, numa primeira fase, ao longo dos primeiros anos, a novidade determinou empenho e motivação, assistindo-se à formação de intermináveis filas de espera junto das mesas de voto, a passagem do tempo veio mostrar as falhas graves do sistema.
Hoje, quando teoricamente a entrada na Europa veio contribuir para o alicerçamento da nossa cidadania, possibilitando-nos o acesso a realidades que até há pouco tempo quase desconhecíamos, já quase ninguém vota em Portugal. Os eleitos, nas mais diversas eleições, são escolhidos por um número progressivamente menor de portugueses. Dos que se dão ao trabalho de ir às urnas – geralmente menos de 50% da totalidade da população -, somente uma pequena parte coloca o seu voto no vencedor do escrutínio.
As ilações a retirar deste fenómeno são imediatas: um sistema inadaptado à realidade Nacional; uma população que não se sente representada nem motivada perante as escolhas políticas que lhes apresentam; e uma enorme falta de preparação de eleitores e de eleitos para, com toda a consciência exercerem o seu direito de voto. A tão propalada e desejada democracia não existe em Portugal, e continuará a não existir enquanto os partidos políticos não concederem aos portugueses a possibilidade de expressarem directamente a sua opinião.
Se a nível das autarquias a situação é escabrosa, a nível Nacional o cenário não é melhor. Votações fundamentais na Assembleia da República em que os deputados (a quem nós pagamos o ordenado todos os meses) nem sequer se dão ao luxo de participar, deitando por terra a escassa legitimidade democrática que ainda possuíam e ferindo de morte a base do sistema democrático, contribuem ainda mais para o descrédito dos políticos e dos partidos que representam.
Os portugueses, verdadeiramente democratas na sua essência exigem mais e melhor: representatividade, liberdade de escolha, e capacidade de opção. Para que tal seja possível, e para que Portugal possa viver em democracia plena e efectiva, é essencial que se invertam os equilíbrios e que se coloquem os partidos onde deveriam ter estado sempre: ao serviço da população.

Direitos Humanos e... Portugal!


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Portugal recebeu no final do passado ano um dos mais prestigiados visitantes dos últimos tempos. A convite da organização da Porto 2001, esteve no nosso País um dos últimos galardoados com o Prémio Nobel da Paz: Sua Santidade o Dalai-Lama. Sujeito às pressões do regime comunista e totalitário chinês, que ocupou pela força o território do Tibete, o Governo Português não teve coragem para receber oficialmente tão ilustre convidado. Com esta atitude envergonhou Portugal e os portugueses, sublinhando que se rege por dois pesos e por duas medidas e que os tão propalados valores da liberdade, da justiça, e da equidade social não são os seus.
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por João Aníbal Henriques (joao_henriques@yahoo.com)



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Foi sem pompa e sem circunstância que Sua Santidade o Dalai-Lama visitou Portugal. Conhecido pela sua capacidade de bem receber, e pela permanente busca de valores fundamentais como a paz e a justiça, o povo português viu-se obrigado a uma inexplicável sujeição aos ditames emanados pelo Governo Autoritário Chinês, renegando os princípios que sempre regeram a sua conduta.
Desde 1949, quando o Congresso Americano anunciou publicamente que a República Popular da China tinha “alargado o seu poder pela força” ao território do Tibete, que o Dalai-Lama, líder espiritual dos tibetanos, se encontra exilado na Índia.
Acompanhado por cerca de 85000 compatriotas, que livremente escolheram a defesa dos seus valores e do seu líder, em detrimento das muitas regalias proporcionadas pelo regime comunista chinês, o Dalai-Lama instalou-se em Dharamsala, iniciando um processo pacífico mas permanente de busca de uma solução política para livrar o seu povo do jugo do invasor.
Desde essa altura até hoje, estima-se que mais de 1.200.000 tibetanos que se mantiveram no seu território, tenham morrido às mãos dos ditadores. Os que restam, entrincheirados sob a tutela policial do regime, assistiram de forma impávida à destruição de mais de 6000 mosteiros e centros culturais tibetanos.
Interessada em recriar uma hegemonia total no seu vasto território, a China optou por destruir pela força as raízes milenares do Tibete, não se poupando à tortura, à humilhação e à repressão para impor o seu modelo de vida. O governo chinês não admite o direito de expressão; o direito à autodeterminação; ou sequer o direito à existência do Tibete. As demais nações do Mundo, mercê da inexistência de riquezas naquele espaço, têm fechado os olhos à situação, facto que contrasta com intervenções de força assumidas pela comunidade internacional em situações semelhantes mas onde os interesses são outros.
Mas se os E.U.A., a França, a Inglaterra, a Alemanha, a Espanha e os demais países ditos civilizados e ocidentais mesmo assim têm desculpa, por poderem alegar um desconhecimento da situação que todos sabemos ser falso, Portugal não a tem.
Ainda há pouco tempo, quando Timor Leste vivia situação semelhante perante a ocupação indonésia, o mesmo estado português que agora fingiu não saber da presença do Dalai-Lama, para não importunar o amigalhaço comunista chinês, envidou todos os esforços para que essa comunidade internacional reconhecesse o direito à autodeterminação do povo maubere. E como se tal bastasse, usou e abusou do sucesso dessa causa para propagandear os seus feitos.
Mas há mais culpados da vergonha de Portugal. O Presidente da República, que não se cansou de sublinhar, sempre que precisou do eleitoralismo dos votos populares, as suas origens políticas como militante “antifascista” ou como defensor dos valores da liberdade, como tinha curiosidade em conhecer o Dalai-Lama, fingiu que o encontrou por acaso num Museu de Lisboa.
O Partido Comunista, também ele fundamentando a sua existência num permanente, mas ao que parece oco, apelo à liberdade, nem sequer teve coragem de assumir uma posição efectiva perante a visita do Nobel da Paz. Os camaradas chineses não deixaram...
Foi ultrajante para Portugal, para os portugueses e para a nossa História Pátria o que aconteceu. Foi inexplicável que, sem argumentos e sem explicações, algumas das mais eminentes instituições e personalidades da nossa praça política, tenham sido incapazes de negar ao regime ditatorial chinês a sua pretensão.
Ao Dalai-Lama, que há mais de quarenta anos assiste às privações, às torturas, às violações, e às transferências forçadas do seu povo, mantendo, mesmo assim, um discurso de paz e de apelo à resolução pacífica e fraterna de todos os problemas, deve ter parecido estranha a situação.
Para os portugueses, habituados a lutar pelos seus ideais e a zelar pela liberdade de todos os Seres Humanos, foi vergonhoso e ultrajante, e ao mesmo tempo fonte de preocupações acrescidas porque finalmente percebeu que, contrariamente ao que têm vindo a dizer-lhe, a Soberania Portuguesa já não está em Portugal.

quarta-feira

A Vocação Marítima de Cascais





da utopia à realidade...

A Vocação Marítima de Cascais

Nascida à beira das águas tépidas da sua baía, e impregnada com o cheiro acre da maresia, a Vila de Cascais viveu sempre de e para o mar. As suas gentes, os seus monumentos, e toda a sua estrutura urbana, são repositórios integrais de uma relação ancestral com a baía, que as recentes intervenções parecem não conseguir compreender.

por JOÃO ANÍBAL HENRIQUES (joao_henriques@yahoo.com)

Guarda avançada de Lisboa, e garante da segurança na Barra do Tejo, Cascais nasceu e cresceu em estreita ligação com o mar. Desde que em 1363 o poder político concedeu a autonomia administrativa aos seus homens do mar, a vila assumiu essa vocação, recriando-se em torno do marulhar incessante das ondas da sua baía.

O seu património construído, e mesmo a estrutura urbana que presidiu ao seu crescimento, foi permanentemente marcada por esse cunho especial, deixando antever um conjunto de monumentos que, mais do que à arte e ao engenho da arquitectura, ficam a dever a sua importância ao papel preponderante que desempenharam na História Marítima de Portugal.

O Património Cascalense, dividido entre uma interioridade de génese rural e a litoralidade ocêanica, encontra-se profundamente marcado pela preponderância desempenhada no município pelas actividades, ofícios e obrigações relacionadas com o mar. Em termos de técnicas de construção, ou mesmo da sua disposição e distribuição no espaço, as principais e mais interessantes peças da sua monumentalidade encontram-se junto à baía, garantindo a segurança das suas terras, ou explorando as maravilhosas paisagens que resultam da cadência entre as arribas e os areais.

Por tudo isto, o mar e as intervenções a ele associadas tiveram sempre uma especial importância no devir histórico local, gerando expectativas, ideias e sonhos que raramente se concretizaram.
Quando na década de 40 do Século XX se construiu a Estrada Marginal, obrigando a entubar a antiga Ribeira das Vinhas e a demolir as inúmeras e ancestrais pontes que ligavam as suas duas margens, a face de Cascais foi completamente alterada.

Com o desaparecimento da ribeira, e a consequente resolução de muitos dos graves problemas de salubridade urbana que resultavam da estagnação das águas, e da sua utilização como depósito de lixo e canal de esgoto, a vila perdeu uma das suas principais ligações à água.
No entanto, e apesar de serem poucos aqueles que actualmente ainda reconhecem na agitada Marginal o leito daquele antigo troço de água, ela permaneceu como elemento essencial na simbólica espacial desta vila cosmopolita.

Ao longo dos anos, e com o intuito de restaurar esse laço primordial, têm sido muitos aqueles que idealizam utopicamente o reatamento dessa relação.

Pedro Falcão, cascalense de coração, erudito, académico, e profundo admirador das potencialidades das águas de Cascais, esboçou um quadro polémico que serviu de base a muitos projectos de reconversão da vila. Reabrindo a Ribeira das Vinhas no troço que vai da sua foz até ao actual Edifício São José, e tornando possível a navegação no interior de Cascais, ele sonhou com uma vila onde o cheiro a maresia se impregnava em todos os edifícios, trazendo as traineiras e o peixe até à população. Teimava ele, com o seu génio reconhecido por todos, que a ligação de Cascais ao mar havia sido desvirtuada, e que só assim se poderia reconstruir o vínculo que subsistiu durante séculos.

A pesada intervenção urbana que implicava este projecto, assumida por Pedro Falcão como única forma de reaproximar Cascais do seu mar, procurava rebater o afastamento progressivo que se vinha instalando desde há muito tempo.

No início do Século XX, numa iniciativa da Comissão de Iniciativa e Turismo do Concelho de Cascais, já havia sido esboçado um projecto com idêntico objectivo.

Assinado por Manuel José Ávila Madruga, Raul Ressano Garcia, Carlos Bonvalot, António Maria Cardoso e José Roberto Raposo Pessoa, o projecto de reaproveitamento turístico do espaço envolvente da Cidadela de Cascais pretendia criar uma estrada panorâmica que envolvesse aquela importante peça patrimonial, criando ainda um cais de acostagem e um enorme complexo de jardins. Dizia-se então, em jeito de defesa de tão arrojada ideia, que Cascais precisava de se reconciliar com a sua baía, rentabilizando turisticamente as suas paisagens marítimas e os monumentos a elas associados.

Apesar da beleza, da harmonia, da justeza, e até do romantismo associado a estes projectos, Cascais nunca conseguiu reconstruir o seu estreito relacionamento com o mar. As pontes da antiga ribeira continuam sujeitas ao peso brutal ao alcatrão, e a principesca vista panorâmica do projecto envolvente à Cidadela ficou definitivamente condenada com a construção da actual marina.

De costas voltadas para Cascais, e perdida no meio de sonhos inglórios de uma pujança que nunca conheceu, a marina jaz quase morta, por ter sido construída contra as expectativas dos cascalenses. Com a sua construção, Cascais ganhou um equipamento marítimo que sempre desejou, mas viu desaparecer a idílica enseada de Santa Marta, que servia de postal ilustrado da vila, e de moldura ao Palacete O’Neill e à Casa de Santa Maria; e viu também a sua Cidadela, monumento ímpar consagrado ao oceano, colocada a seco, desvirtuando o seu relacionamento ancestral com a água.

A esperança, agora, depende do projecto de reconversão que a C.M.C. pretende implementar naquela zona. Talvez Cascais readquira finalmente a vocação marítima de outros tempos, reconduzindo os cascalenses aos sonhos utópicos com cheiro a cândida maresia que sempre a caracterizaram.