quarta-feira

O Forte de São Julião da Barra (Oeiras)




Quando despontam os primeiros raios de sol, nas frias manhãs do início da Primavera, o Forte de São Julião da Barra surge recortado no horizonte. Espécie de cenário fantástico de um qualquer espectáculo de teatro, o edifício alberga algumas das mais terríveis memórias da História de Portugal.

Quando D. Manuel desfrutava as vistas magníficas do Termo de Lisboa, em demorados passeios que se alongavam pelos mais pitorescos recantos dos actuais Concelhos de Cascais e de Oeiras, era comum lembrar-se de determinadas intervenções que, complementando a astúcia política do seu reinado, prolongaram a sua memória e imortalizaram o seu nome.

De acordo com o Memorial Histórico de Oeiras, terá sido este o caso do Forte de São Julião da Barra que, da sua estratégica situação geográfica, controla o tráfego marítimo na barra do Rio Tejo.

O principal motivo que levou D. Manuel a aconselhar o seu filho a iniciar a construção desta fortificação, mais do que o poderio militar que dele poderia retirar, foi o de instituir uma barreira dissuasória em situações de ataque de piratas e corsários. De facto, durante todo o reinado do monarca, foram-se tornando usuais as investidas deste tipo de atacantes à Cidade de Lisboa. Sem qualquer pejo pelas envelhecidas sentinelas da capital, totalmente obsoletas devido ao desenvolvimento técnico dos barcos e das novas armas entretanto desenvolvidas, os meliantes avançavam intrepidamente pelo Tejo, até atingirem os mais cruciais pontos nevrálgicos da actividade mercantil que utilizava o rio como espaço privilegiado de actuação.

Ao longo dos anos, e com excepção de 1831, quando uma armada francesa utilizou a prisão de um cidadão daquele País como pretexto para intervir militarmente e desprestigiar o popular Governo do Rei absolutista D. Miguel, foram muito raras as utilizações militares do Forte de São Julião da Barra.

O seu aspecto imponente, e uma monumentalidade que ainda hoje impõe respeito junto de todos quantos o observam no horizonte, criam uma aura de inexpugnabilidade que dissuade possíveis ataques ao forte.

Mais do que pelo seu cariz militar, São Julião da Barra é conhecido e reconhecido pelo facto de ter sido, ao longo de muitos dos mais críticos períodos da História de Portugal, uma prisão de Estado, onde se encerravam em masmorras terríveis alguns dos mais acérrimos opositores dos regimes políticos vigentes.

De acordo com Carlos Pereira Calixto, autor de uma conhecida obra sobre as fortificações marítimas do Concelho de Oeiras, é precisamente a notoriedade dos prisioneiros encerrados em São Julião da Barra que confere o estatuto de tenebroso a este forte: “ [...] tanto no tempo dos Filipes, como na Restauração, com Pombal no governo, ou nos princípios do Estado Novo, nas masmorras desta fortificação existiram detidos militares políticos, eclesiásticos e civis, como em 1640 D. Fernando Mascarenhas, Conde da Torre, detido pelos espanhóis, ou o Arcebispo de Braga, D. Sebastião de Matos Noronha, envolvido na conspiração contra D. João IV, aí falecido, e sepultado a 26 de Outubro de 1644 na Capela do Santíssimo Sacramento da Igreja da fortaleza”.

A fama de São Julião – a Torre – como era conhecido o forte nos meios mais contestatários da Lisboa do Século XIX, ficou também a dever-se ao carácter sangrento de alguns dos seus mais conhecidos directores. Na sua obra “Portugal Contemporâneo”, na qual pretende descrever com alguma profundidade alguns aspectos relevantes da vida política dessa época, Oliveira Martins menciona amiúde a Torre de São Julião da Barra. Em termos sarcásticos e teatrais, refere que mais do que em qualquer prisão portuguesa, era ali que se desenrolavam os episódios mais fulgurantes da “carnificina” absolutista de então: “[...] o limoeiro era para os presos políticos uma estação provisória. O seu armazém estava na barra do Tejo, em São Julião, confiado à guarda de um cérebro fiel, honrado, e bruto, entusiasticamente cruel: o Teles Jordão”.

Foi de São Julião da Barra que, na manhã de 18 de Outubro de 1817, saiu o General Gomes Freire de Andrade para a forca que o esperava no terreiro circundante. E foi também nesse espaço, aproveitando o cenário terrífico das paredes de pedra, que muitos lisboetas assistiam com pasmo aos pedagogicamente preparados espectáculos executórios com que os governos controlavam a sua insatisfação.

Temido para uns; de má memória para outros; o certo é que o Forte de São Julião da Barra é uma das mais importantes e magníficas peças do património histórico do Concelho de Oeiras.

A Vivenda Miramonte: Um Repositório de Memórias do Monte Estoril





Apesar do seu aspecto rústico e quase inconsistente, a Vivenda Miramonte, situada na Rua do Lido, no Monte Estoril, é hoje um dos principais bastiões da memória urbana daquela localidade. Rodeada dos seus torreões e da cocheira que ainda hoje guarda os vestígios empoeirados dos últimos cavalos que ali pernoitaram, a Vivenda Miramonte foi a casa de José Dias Valente, fundador e Director do Colégio João de Deus, e personagem incontornável na História do Monte Estoril.

Construída já no início do Século XX, mas aproveitando os resquícios de um movimento romântico que o Monte Estoril nunca rejeitou, a Vivenda Miramonte é hoje um dos paradigmáticos exemplos da memória urbana do Concelho de Cascais.

Rodeada de um pequeno castelo, recriando o carácter altaneiro dos torreões que decoravam as vivendas mais eruditas, a Vivenda Miramonte complementa um quadro geral de que fazem parte da Capela, a garagem e o edifício das cocheiras. Do cimo dos seus mirantes, e fazendo jus ao nome da própria casa, o Monte Estoril surge em todo o seu esplendor, tornando invisíveis os muitos problemas que agravam paulatinamente a qualidade de vida naquele lugar.

Utilizando profusamente os valores arquitectónicos entendidos como tipicamente portugueses, dos quais se destacam o telhado de beiral duplo e o painel azulejar com a identificação do imóvel, a Vivenda Miramonte reúne as características próprias da habitação erudita de Cascais e a sublime singeleza das aldeias rurais do termo de Lisboa, produzindo um efeito cenográfico exemplar, que transforma este imóvel numa espécie de duplicação adaptada daquilo que eram os valores tradicionais da portugalidade.

A importância da Vivenda Miramonte, no entanto, não se fica por aqui. Para além dos aspectos relacionados com as suas características físicas, foi ali que habitou durante várias décadas o antigo fundador e Director do Colégio João de Deus.

José Dias Valente, detentor de uma inteligência invejável e de uma capacidade de concretização sem par, foi sempre considerado pelos que o conheciam como uma das principais referências do Monte Estoril.

Pelo Colégio João de Deus, durante vários anos o único estabelecimento de ensino liceal existente na Linha de Cascais, passaram muitas gerações de portugueses que contactaram e conheceram de perto o carácter do seu Director. Conhecido pela rectidão e pelo aprumo que dedicava aos seus afazeres, Dias Valente demonstrou sempre ao longo da sua vida que os valores que o norteavam se sobrepunham a quaisquer outras necessidades.

Como contava amiúde o Dr. Mário Quina, amigo próximo de Dias Valente e médico do Colégio João de Deus, em certa altura, logo no início da sua carreira académica, quando era ainda um mero principiante no curso de letras da Universidade Clássica de Lisboa, foi-lhe marcado um teste escrito logo para a manhã. No decorrer da prova, e perante a estupefacção dos seus colegas, o professor reparou que ele não estava a escrever, questionando-o sobre o que se passava. A resposta, imediata e fulgurante, não se fez esperar: “ainda não estou preparado”. O mestre, como é evidente, não gostou do que ouviu e a crítica foi imediata. Enchendo-se de brios, Dias Valente responde-lhe simplesmente: “Para aprender a sua matéria chegam-me 24 horas”. “Então” – disse-lhe o professor – “venha amanhã a exame”. Como era seu hábito, passou a noite a estudar e, no dia seguinte fez uma excelente prova, cujo mérito foi publicamente reconhecido.

Ao acabar o curso, e por discordar do sistema vigente, pretendeu defender uma tese sob o tema “A Escola Normal Superior Deve Ser Encerrada Por Imoral”. Como é fácil de perceber, a teses nem sequer foi aceite, facto que se traduziu numa espera de mais dois anos pela licenciatura, até que, de facto, a Escola Normal Superior fosse encerrada.

Todos estes factos, aliados à necessidade premente que o Monte Estoril possui de conseguir recuperar as características próprias da sua antiga qualidade, impõem a recuperação das memórias associadas às casas, às ruas e aos recantos da povoação.

Se assim não se fizer, corre-se o risco de desaparecerem as estórias que deram forma à História dos Estoris.

A Capela de Laveiras: Uma História de Vontade




Insignificante do ponto de vista da monumentalidade que caracteriza grande parte dos edifícios de culto religioso da região de Lisboa, a Capela de Nossa Senhora das Dores, situada na povoação oeirense de Laveiras, é hoje um importante marco patrimonial daquele concelho. As vicissitudes muito próprias da sua História, demonstrando que, muitas vezes, a vontade colectiva é mais importante do que os percalços políticos pontuais, transformam-na em mais um repositório de memória que contribui para a consolidação da cidadania daquele que habitam nas suas redondezas.

Situada numa das mais interessantes povoações de cariz saloio do Concelho de Oeiras, a Capela de Nossa Senhora das Dores é um marco inestimável do poder de concretização que deriva da vontade popular.

Sem que se conheça com exactidão a data da construção original, que com toda a certeza deverá ser anterior ao Século XVII, este edifício situa-se na povoação de Laveiras, tendo sofrido ao longo dos anos variadas campanhas de obras que, sem lhe retirarem a simplicidade original, conseguiram mante-la num excelente estado de conservação.

Contrariamente àquilo que aconteceu com a generalidade dos edifícios religiosos portugueses, que atravessaram de forma complicada os tumultos provocados pelas diversas crises políticas que o País sofreu, a Capela de Laveiras possui uma história sui generis, que lhe confere um estatuto patrimonial diferente.

De acordo com J. de Vilhena Barbosa, que editou no final do Século XIX algumas notas sobre um possível roteiro de Lisboa, no qual incluía Oeiras e o seu Concelho, a Capela de Laveiras é “muito antiga nas suas origens”. Sem precisar datas ou nomes, o autor refere o Século XVII como a marca temporal mais exacta para a sua edificação, sublinhando ainda que a ajuda régia foi fundamental para, em conjunto com o empenho da população, se criar ali um núcleo cultual que servisse toda a envolvência.
Segundo Rodrigues Soares, autor dos textos que integram o livro “Retratos de Oeiras”, a edificação da Capela antecede a criação da própria Irmandade de Nossa Senhora das Dores, que foi formalizada somente em 1812.

Dessa data em diante, e uma vez mais contrariando a História de quase todos os templos existentes naquela época, a Capela de Laveiras, conhece um período de enorme prosperidade, uma vez que a recém criada Irmandade, para além dos assuntos relacionados com o culto e com a manutenção do edifício, desenvolve significativo trabalho educativo na região, criando em seu torno uma escola, e diversas actividades sociais.

É neste clima de laboriosa entrega que a Capela conhece os períodos difíceis do liberalismo e da perspectiva anti clerical do Estado, factores que, no entanto, acabaram por não afectar a fiel comunidade católica de Laveiras.

Mesmo com o incêndio que praticamente a destruiu no ano de 1870, a Capela de Nossa Senhora das Dores de Laveiras foi totalmente reconstruída, tendo inclusivamente sido ampliada na mesma época, e reabriu ao público em 1889, tal como consta de uma inscrição apensa numa das suas paredes exteriores.

Nessa recuperação desempenhou uma vez mais papel de relevo o Estado que, através do então Ministro das Obras Públicas, Emídio Navarro, auxiliou a Irmandade nas obras em curso.

Apesar das suas diminutas dimensões, e de ter perdido a utilização cultual em prol da capela do Convento da Cartuxa, em Caxias, a Capela de Laveiras manteve-se sempre como símbolo fundamental da vivência religiosa oeirense.

No início de um novo Século e de um novo Milénio, quando quase toda memória histórica e social das antigas aldeias dos arredores de Lisboa se está a perder como consequência do desenvolvimento de uma terceirização que transforma os arredores da Capital em meros dormitórios sem marca e sem passado, a Capela de Laveiras, assume-se como marco indiscutível de uma forma de estar na qual o Concelho de Oeiras desempenhou um papel fundamental.

A preservação deste monumento, bem como o necessário reenquadramento urbanístico que ele exige, garante aos habitantes locais a possibilidade de rentabilizarem a sua memória, promovendo uma socialização mais natural e efectiva, que contribua para a qualidade de vida de todos quantos ali têm a honra de viver.

O Palácio do Marquês de Pombal (Oeiras): As Memórias do Espaço





Mais do que o seu estilo, características arquitectónicas ou disposições urbanísticas, os edifícios que compõem o património histórico oeirense assumem-se como repositórios de memória, deixando transparecer os resquícios de todas as vidas que por eles passaram.

Situado no cerne da actual Vila de Oeiras, e funcionando como o grande catalisador do desenvolvimento moderno da localidade, o Palácio do Marquês de Pombal é um dos mais significativos monumentos arquitectónicos da Área Metropolitana de Lisboa.

A sua memória mesclada com a aura fulgurante do primeiro proprietário, Sebastião José de Carvalho e Melo, polémico Primeiro-Ministro do Rei Dom José, dilui-se na biografia mítica do velho governante.

Apesar da elegância do projecto da autoria do Húngaro Carlos Mardel, que consagrou através deste edifício os mais modernos princípios arquitectónicos da Europa das Luzes, o Palácio do Marquês de Pombal é definitivamente marcado pela sua fantástica capacidade de se integrar no espaço envolvente, abarcando os valores urbanísticos da velha Oeiras, e projectando-os através da promoção da paisagem natural envolvente.
A responsabilidade da ideia, apesar de concepção de Mardel, fica a dever-se sobretudo à Condessa Leonor Daun, segunda mulher de Pombal, e principal impulsionadora da construção do grande conjunto edificado.

São as memórias desta mulher, um pouco encobertas pela extraordinária competência política do seu marido, que ainda hoje subsistem no palácio. De facto, quer no edifício principal, quer mesmo nos conjuntos adjacentes, hoje profusamente utilizados pela Câmara Municipal de Oeiras, é possível encontrar os vestígios sublimes do ambiente vienense do Século XVIII que a Condessa procurou recriar neste espaço.

A conjugação da sensibilidade da sua ideóloga, com o saber técnico e artístico do arquitecto, e sobretudo com a grande capacidade concretizadora do seu proprietário, transformam o Palácio do Marquês de Pombal num dos mais ilustrativos exemplos de urbanismo iluminado em Portugal.

A Vila de Oeiras, habituada a viver à sombra do ilustre governante, foi também ela directamente afectada pela sua construção. De facto, não só nos espaços envolventes ao palácio, como principalmente no núcleo histórico da localidade, são inúmeros os exemplos dos benefícios herdados de Pombal que, principalmente após o grande terramoto de 1755, passou a habitar definitivamente na sua casa de Oeiras.

O fulgor desse período, bem visível na atribuição do Foral Novíssimo de 1760 e, depois, na realização da grande exposição agrícola de 1775, consagra-se com a sua utilização pelo próprio monarca. Por sofrer de grandes males que o obrigavam a frequentar diariamente as milagrosas águas termais do Estoril, e sobretudo por não existirem em Cascais habitações com qualidade suficiente para receberem a Corte, foi no Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras, que esteve o Rei Dom José durante um ano, transformando a recém-criada Vila na capital política do País.

A memória do espaço oeirense, sujeita às vicissitudes que acompanharam o percurso final da vida do seu ilustre Senhor, absorve também ela o desânimo, o abandono e a degradação que acompanhou Pombal no seu exílio forçado.

Esquecida por quase todos, e uma vez mais sujeita aos laivos da lembrança do antigo braço direito de Dom José, Oeiras vai perdendo o seu estatuto, e deixando degradar a herança histórica que este lhe havia legado. Até há uns anos, quando a Câmara Municipal decidiu retomar a promoção da ilustre povoação, Oeiras permitiu que grande parte dos seus valores desaparecessem nas mãos ignóbeis de saqueadores desconhecidos. O Palácio do Marquês de Pombal, altaneiro na sua elegância, assistiu impavidamente à destruição progressiva dos seus pertences.

Só recentemente, fazendo jus àquilo que Oeiras conseguiu ser no tempo de Pombal, a edilidade local reiniciou o processo de requalificação do local, centrando no espólio arquitectónico do Século XVIII a marca de um passado que nem mesmo a passagem dos anos consegue apagar.

A memória do Palácio do Marquês de Pombal, atravessando transversalmente as malhas inexoráveis do tempo, impôs a Oeiras o seu caminho. Independentemente de tudo o que de bom ou de mal possa suceder àquela Vila, este conjunto edificado assumir-se-á sempre como o sustento de uma memória que Oeiras nunca irá perder.

Sintra Serra Sagrada: Uma Viagem aos Arquétipos da Portugalidade com Vítor Adrião

Sintra Serra Sagrada: Uma Viagem aos Arquétipos mais Profundos da Portugalidade guiada pelo conhecimento profundo de Vítor Manuel Adrião - Presidente da Comunidade Teúrgica Portuguesa. Nas faldas da montanha sagrada de Sintra, na qual a Lua e o Sol se conjugam para facultar à humanidade o equilíbrio e a harmonia necessários à vida, estão reveladas as pistas que permitem conhecer Portugal. Um passeio da Fundação Cascais, a convite do Presidente da CTP com a participação de Isabel Magalhães, Carlos Olavo e João Aníbal Henriques.

sexta-feira

António Duarte d'Almeida Veiga: Souvenir de Mon Ascencion au Sommet de la Tour Eiffel en 1889



Quando o Português António Duarte d'Almeida Veiga (Escrivão Norário em Benavente - Ribatejo) subiu à Torre Eiffel, em Paris, em 1889...


Cascais Natura: Excelência Ambiental e Pedagógica no Parque das Penhas da Marmeleira (Murches)







A Câmara Municipal de Cascais, através da empresa municipal Cascais Natura, inaugurou o novo parque urbano das Penhas da Marmeleira, em Murches.

A iniciativa, que surge na sequência de um ambicioso projecto de requalificação do Parque Natural de Sintra-Cascais, integra-se num conjunto de obras que começaram com a reflorestação da zona a nascente do Zambujeiro, a criação do Parque da Pedra Amarela, e a recuperação ambiental e paisagística da Quinta do Pisão.

No espaço em questão, com uma beleza paisagística impossível de descrever e até agora atulhado com milhares de toneladas de lixo que ilegalmente era ali depositado, a edilidade criou uma infraestrutura de excepção. Gerando acessibilidades para que os Cascalenses possam aceder àquela zona (que são muito poucos os que até agora a conheciam), a assim reforçar os laços de cidadania essenciais à criação da nossa identidade municipal, o Parque da Marmeleira possui ainda um percurso interpretativo verdadeiramente deslumbrante.

Para as crianças, um parque infantil inovador e de cariz ecológico, enquadrado numa paisagem de forte pendor educativo, é motivo mais do que suficiente para incentivar o usufruto, o interesse e o respeito pela natureza, possuindo um impacto de tal maneira evidente que com toda a certeza será um importante contributo para a gestação da próxima geração de Cascalenses.

Relembro com satisfação, as palavras que a Fundação Cascais publicou em 1999 quando se iniciou o processo de revisão do Plano Regulamentar do Parque Natural de Sintra-Cascais, que sugeriam a transformação dos depósitos de entulho e dos canais verdes ao longo das ribeiras, em percursos interpretativos e em zonas verdes com acessos facilitados à população. Considerávamos, nessa altura, que esse seria o único caminho em direcção à criação de um Cascais socialmente saudável e coeso, no qual Identidade e Cidadania fossem a pedra fulcral na consolidação dos laços comunitários.

Com este projecto, e de forma verdadeiramente excelente, a Câmara Municipal de Cascais e principalmente a agência Cascais Natura, não só cumpriram esse desiderato como o fizeram de uma forma que dignifica Cascais e valoriza aquele que é, por exclusão de partes, um dos últimos redutos de qualidade que o Concelho ainda pode explorar.

Dadas as suas características; qualidade de construção; enquadramento; beleza paisagística; riqueza ambiental; diversidade biológica; etc. quase me atreveria a sugerir que a visita passasse a ser de inclusão obrigatória nos planos de estudo das escolas do Concelho...

Parabéns aos promotores da iniciativa!

terça-feira

O Colégio João de Deus e o Bairro Escolar do Monte Estoril





A principal inovação do Monte Estoril, apesar de mal conhecida da generalidade dos cascalenses, foi no entanto de ordem pedagógica, tendo sido instalados na povoação, entre 1928 e 1974, dois dos mais importantes estabelecimentos de ensino do nosso País.

O primeiro, constituído por sociedade entre João de Deus Ramos, João Lopes Soares, Virgílio Vicente da Silva e Mário Pamplona Ramos, designava-se Bairro Escolar, tendo sido inaugurado em 30 de Agosto de 1928.

Funcionando no local onde hoje se encontra a Urbanização do Lago, em torno do espaço onde Carlos Anjos tinha tentado criar artificialmente um vasto lago com água trazida da sua Quinta de Vale de Cavalos, o Bairro Escolar obedecia a parâmetros pedagógicos inovadores, criados sobretudo pelo génio inventivo de João de Deus Ramos.

Baseado numa disciplina escolar diferente da usual, na qual a rigidez caserneira, empregada pela rotina para obrigar as crianças ao silêncio, à compostura e ao estudo, era substituída pela arte de estudar, na qual o ambiente de simpatia e fraternalismo promoviam no aluno a vontade de aprender, o Bairro Escolar nasceu praticamente depois de vinte anos de projectos e de tentativas de concretização do seu fundador.

Numa memória descritiva publicada pouco tempo depois de abandonar aquela que o próprio considerava a sua grande obra, João de Deus Ramos explica o sucesso do Bairro Escolar pela grande qualidade pedagógica do seu corpo docente, mas também pela filosofia e pelo código de princípios que regia a instituição: “Há mais de vinte anos que eu imaginara um colégio bem diverso de quantos tive ocasião de conhecer. Nem o convento sombrio, misterioso, onde faz medo entrar. Nem o palácio acolhedor, mas impróprio na sua solenidade de interiores luxuosos, geralmente danificados pelo tempo. Nem as camaratas desconfortáveis que lembram pela alvura e pela extensão enfermarias de hospital. Nem os longos corredores, tristes e soturnos. Nem os srs. Prefeitos que amedrontam a delicadeza impressionável das crianças. Nem o fanatismo religioso que alucina e amortece o espírito. Nem a irreligiosidade vazia que prende o homem à terra, vencido pela convicção do inexplicável. Nem ainda aquela neutralidade acomodativa e hipócrita, em matéria religiosa, que por ser neutralidade não é coisa nenhuma”.

Se, numa primeira fase, o vigor e a capacidade concretizativa de João de Deus Ramos garantiram ao Bairro Escolar um sucesso incomparável, sobretudo se nos ativermos ao facto de que o aparelho educativo português daquela época era completamente incapaz de responder com coerência às necessidades novas de uma sociedade tecnológica e cientificamente mais evoluída, numa segunda fase, a pujança do estabelecimento de ensino e os primeiros vestígios de lucros, acabaram por comprometer completamente o projecto original.

De facto, entre 1928 e 1934, enquanto João Soares se encontra ausente e se mantêm em João de Deus Ramos a incumbência de implantar o colégio, a sociedade foi paulatinamente prosperando, assistindo-se a um aumento gradual do número de alunos e a uma fama que ultrapassou rapidamente as fronteiras mais difusas da Costa do Estoril. Ao ponto de, ao regressar ao Estoril e à lides educativas, o próprio João Soares ter enviado ao seu sócio João de Deus Ramos, em 4 de Março de 1934, uma extensa missiva em que expressava o seu apreço pelo trabalho realizado durante o período em que esteve ausente: “Ninguém como eu – absolutamente ninguém – fará maior justiça aos seus [referindo-se a João de Deus Ramos] enormes e constantes sacrifícios durante mais de três anos consecutivos, procurando sempre elevar e consolidar a boa fama do «Bairro» e fazer face aos seus pesados encargos, numa luta esgotante e quase heróica. Outro – que não tivesse a sua formidável resistência moral, ou não possuísse a sua exuberante imaginação – fatalmente teria sucumbido! E só eu sei quanto tenho sofrido por o ver sozinho aí e não poder auxiliá-lo eficazmente...”

No princípio de Agosto de 1935, numa reunião da Assembleia Geral em que se apresentaram os primeiros resultados positivos no exercício da sociedade, é o próprio João Soares que, indignado com a sua situação, se afasta do Bairro Escolar, impondo a venda das suas quotas a um comerciante problemático do Estoril, Negrão Buizel, que foi responsável por uma série de querelas que acabaram por destruir todo o projecto.

As alegações de João Soares, poucos minutos depois de se inteirar pela primeira vez da gestão do seu sócio e amigo de há longos anos, prendem-se sobretudo com a indefinição latente da sua posição no seio do colégio. De facto, devido a problemas políticos complicados, muitos dos quais relacionados com a sua prisão, João Soares pouco ou nada contribuiu para a consolidação do Bairro Escolar, acusando agora João de Deus Ramos de possuir um “feitio absorvente, autoritário e ditatorial”, e declarando que “sendo adversário de todos os ditadores, não podia mais tempo suportar aquela ditadura, o que o levava ao convencimento de pôr à disposição da Sociedade a sua quota, sem condições”.

Esperando dos restantes sócios, Luís Cardoso e Jaime Reis, um apoio incondicional às suas pretensões, agora que as vicissitudes políticas pareciam estar ultrapassadas, João Soares ouviu desagradado as apreciações positivas e as palavras de incentivo e apreço que foram dirigidas a João de Deus Ramos pelos seus colegas. É o próprio visado, João de Deus Ramos, quem, pouco tempo depois da reunião, frisa ter-se admirado com a forma pouco simpática com que Soares assistiu à Assembleia: “Mas eu vi: não foi sem contracção das suas linhas fisionómicas que João Soares ouviu em silêncio estes louvores. Provavelmente preferia que tal não fosse verdade...”

E se até esse momento a amizade entre os dois pedagogos havia prevalecido, baseada num respeito mútuo e numa confiança que o tempo mostrou não ser imerecida, a ruptura tornou-se incontornável a partir desta reunião. João Soares, apostado na criação de um estabelecimento de ensino completamente controlado por si, desejava avidamente afastar-se da figura simpática, extrovertida, e fraterna de João de Deus Ramos. Este último, desejando manter vivo aquele que havia sido o grande projecto pedagógico da sua vida, recusa o afastamento, aceitando, um pouco contrafeito, a venda das quotas de Soares a um desconhecido comerciante.

A entrada de Américo Buizel no Bairro Escolar, numa avidez de lucro imediato e de controle absoluto de toda a sociedade, relativizando os interesses pedagógicos e as necessidades educativas do seu corpo discente, acabou por levar ao afastamento do fundador e de grande parte dos seus mais ilustres professores.

São aliás estes professores quem, assumindo um apoio incondicional a João de Deus Ramos, visível através das muitas actas dos Conselhos Escolares, e de inúmeras cartas e missivas que enviam aos sócios e ao próprio Director Pedagógico, criam no Monte Estoril aquele que virá a ser o grande pilar da educação cascalense até ao 25 de Abril de 1974.

Em 3 de Janeiro de 1936, numa carta assinada pessoalmente pelos professores do Bairro Escolar, nomeadamente Mário Pamplona Ramos, Augusto Mimoso, Henrique Perestrelo de Alarcão, Álvaro Themudo, Armando Lucena, Aníbal Henriques, Rubi Marques e José Guerreiro Cristovão, explica-se aos pais dos alunos do Bairro Escolar o que se passou naquele estabelecimento, informando-se ainda de que será brevemente criado um novo colégio, mantendo a orientação pedagógica utilizada por João de Deus Ramos no antigo: “O que o Bairro Escolar vale, com a antiga organização e métodos, mereceu o aplauso e a preferência de V.Exª., confiando-lhe o educando que tem a seu cargo. Entenderam os professores que não se devia interromper tão magnífica iniciativa e, por isso, solicitaram o apoio do Sr. Dr. João de Deus Ramos e resolveram abrir novo colégio ainda na primeira quinzena do mês de Janeiro. Deferida esta solicitação, achamo-nos em condições de cumprir o nosso objectivo; poderemos, assim, obedecendo ao mesmo pensamento, continuar a preparação moral, espiritual e física dos alunos, muitos dos quais são já nossos discípulos de há anos”.

E logo a seguir, em 5 de Janeiro do mesmo ano, os antigos professores do Bairro Escolar informavam as famílias dos alunos: “Temos a honra de comunicar a V.Exª. que no dia 12 se fará a abertura solene do novo colégio que os antigos professores do Bairro Escolar resolveram fundar por motivos que V.Exª. conhece. Porque se propõem continuar a magnífica obra pedagógica, realizada pelo seu Director, o novo estabelecimento de ensino terá a denominação de Colégio de João de Deus. A sua sede é na Vila Pomares, no Monte Estoril”.

Construída na última década do Século XIX, pela Marquesa de Pomares, a sede do novo Colégio de João de Deus é vincadamente marcada pelo carácter cosmopolita da sua construção.

A Marquesa de Pomares, uma das cortesãs que acompanharam neste seu quase exílio, a Rainha Dona Maria Pia, após a morte do seu marido, o Rei Dom Luís I, edificou no Monte Estoril um sólido palacete que encarnou a generalidade dos valores arquitectónicos e monumentais desta localidade. Realçando a sua identidade através de um arco de entrada de características monumentais, ao qual se junta o apelo romântico aos torreões ameados, tão em voga num local que recriava um ambiente medieval a partir da sua estrutura urbana, a Vila Pomares depressa se tornou num dos mais emblemáticos símbolos do Estoril, por ali tendo passado, no decorrer da sua vigência aristocrática ou no seu posterior percurso escolar, grande parte dos vultos da vida política, empresarial e social portuguesa da primeira metade do Século XX.

No dia 12 de Janeiro de 1936, quando o Colégio de João de Deus se instala na Vila Pomares, tendo como principais orientadores o Dr. José Dias Valente, que assumiu as funções de Director, e os antigos professores do Bairro Escolar, Dr. Álvaro Themudo, Dr. Aníbal Henriques, Dr. Freitas e Silva e Capitão Álvaro Perestrelo, o Monte Estoril adquiriu finalmente o seu estatuto de diferença, consolidando as inovações diversas que possuía no seu seio, a um vanguardismo pedagógico que se manteve durante quase quarenta anos.

A Associação dos Antigos Alunos do Colégio de João de Deus, ainda hoje activa, quando se passaram já mais de vinte e cinco anos após o encerramento do colégio, personifica o carácter inovador das relações educativas desenvolvidas pelo estabelecimento, nas quais a proximidade entre mestres e discípulos se afigurava como fundamental.

Nos aniversários da fundação, de forma imperceptível, foram sempre os alunos que organizaram e desenvolveram as comemorações oficiais. Grandiosas, magnificentes e sentidas, as festas nos muitos aniversários do Colégio de João de Deus tiveram sempre uma coisa em comum: a presença permanente e activa de centenas de ex-alunos que, mesmo depois de terminarem a sua formação, e muitos deles depois de encetarem percursos profissionais e políticos de grande destaque, compareceram sempre à chamada daquele que consideravam o “seu” colégio.

Júlio dos Santos, um dos ex-alunos que incentivou a comemoração do segundo aniversário através da edição de um jornal onde figuravam as opiniões de quase todos, escrevia em 12 de Janeiro de 1938 que o Colégio de João de Deus era para ele uma alegria que não podia deixar de exteriorizar: “Eu, que tenho acompanhado desde sempre o seu engrandecimento regozijo-me de todo o coração com tão faustoso acontecimento, e estou convencido que todos os meus colegas pensam e sentem o mesmo, porque o nosso colégio há-de progredir, progredir sempre, e ainda porque todos unidos, como leais amigos e dedicados ao nosso Director e Professores, respiramos aqui um ambiente familiar que nos cativa e nos conforta, e recebemos ensinamentos e carinhos que jamais olvidaremos por entre os espinhos da vida...”

E a cordial familiaridade continua vinte e cinco anos depois. No dia 12 de Janeiro de 1961, por ocasião das Bodas de Prata do Colégio, são novamente os antigos alunos quem explica a razão de ser de tão próxima relação: “Como não podia deixar de ser, neste dia reuniram-se aqui todos os antigos alunos em franca confraternização. Todos vieram para ver o que há tanto tempo haviam deixado, todos vieram para se sentar nas mesmas carteiras que usaram e que actualmente são as dos seus filhos, todos vieram para ouvir os seus antigos professores, todos vieram para deixar numa aula ou num pátio, no ombro de um antigo mestre ou na face dum antigo colega, uma lágrima amiga, essencialmente franca e significativa”.

segunda-feira

Roteiros Turísticos do Património Mundial




O Turismo de Portugal, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o IGESPAR, apresentou recentemente os cinco volumes dos “Roteiros Turísticos do Património Mundial”.

A iniciativa, que se centra na necessidade de promover conveniente a zona centro de Portugal, local onde a riqueza patrimonial se traduz na existência de três monumentos classificados pela UNESCO como Património Mundial – Alcobaça, Batalha e Tomar -, aborda algumas das mais interessantes, emblemáticas e atractivas temáticas de Portugal. O Tesouro dos Templários, com uma visão abrangente e esclarecedora sobre o importante papel que a Ordem do Templo teve na formação da Nacionalidade; os Caminhos da Fé, num périplo que nos leva através das crenças mais arreigadas da Portugalidade; os Quatro Elementos, com uma passagem muito interessante sobre as riquezas naturais desta região; e a Demanda do Graal, remetendo os leitores para os mais profundos arquétipos que deram forma à cultura Portuguesa actual; são os quatro motes que exploram de forma muito alternativa os três importantes monumentos Mundiais.

A qualidade do produto final, bem como de todos os conteúdos agora trazidos a público, vem colmatar uma necessidade efectiva que Portugal sente desde há muito tempo. Utilizando como atractivo o turismo cultural, sinónimo de exigência na sua formulação prática, o Turismo de Portugal está a rentabilizar o que de melhor existe no País, ao mesmo tempo que cria as condições necessárias para que os operadores turísticos possam promover lá fora aquilo que de único e excepcional o nosso País possui.

Com a edição destes Roteiros Turísticos do Património Mundial, deixam de existir desculpas para a falta de uma promoção que, de uma vez por todas, coloque Portugal como destino de excepção numa Europa cada vez mais marcada pela linearidade e pela pouca competitividade parente destinos turísticos exóticos que vão surgindo pelo Mundo.

Mais informação poderão ser obtidas através do website www.descubraportugal.pt.

sexta-feira

José Dias Valente: Quando Educar Ainda era Uma Vocação





Nascido em Lisboa, no dia 11 de Fevereiro de 1902, o Dr. José Dias Valente foi, sem sombra de dúvidas, uma das mais importantes personalidades da História da Pedagogia Portuguesa do Século XX.

Licenciado em letras pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e proprietário, fundador e principal impulsionador do Colégio de João de Deus, no Monte Estoril, o Dr. José Dias Valente teve um percurso académico e profissional marcado pelas vicissitudes próprias de alguém que se encontrava muito para além das capacidades próprias do seu tempo.

Em 1985, quando decorria mais uma cerimónia de comemoração do aniversário da fundação do colégio, o médico de sempre, o Dr. Mário Quina, que já havia transitado de iguais funções no antigo Bairro Escolar, menciona com emoção os primórdios da constituição daquela importante instituição monte estorilense: “É claro que me lembro com muita saudade dos professores fundadores, do Dr. Aníbal Henriques, do Dr. Freitas e Silva, do Dr. Álvaro Themudo e de outros, mas, se me permite, eu daria uma vez mais prioridade à pessoa do próprio Dr. Dias Valente. Ele era o pivot à volta do qual tudo girava. E à sua forte personalidade, a que já me referi amiúde, que se deve a magnitude da obra que realizou”.

Detentor de uma inteligência invejável, por todos considerado intelectualmente superior e moralmente sobredotado, o Dr. José Dias Valente demonstrou permanentemente ao longo da sua vida que os valores que o enformavam se sobrepunham a todas e quaisquer outras necessidades.

Em certa altura, logo no início da sua carreira académica, quando era ainda um mero principiante no curso de letras da Universidade Clássica de Lisboa, foi-lhe marcado um teste escrito logo para a manhã. No decorrer da prova, e perante a estupefacção dos seus colegas, o professor reparou que ele não estava a escrever, questionando-o sobre o que se passava. A resposta, imediata e fulgurante, não se fez esperar: “ainda não estou preparado”. O mestre, como é evidente, não gostou do que ouviu e a crítica foi imediata. Enchendo-se de brios, Dias Valente responde-lhe simplesmente: “Para aprender a sua matéria chegam-me 24 horas”. “Então” – disse-lhe o professor – “venha amanhã a exame”. Como era seu hábito, passou a noite a estudar e, no dia seguinte fez uma excelente prova, cujo mérito foi publicamente reconhecido.

Ao acabar o curso, e por discordar do sistema vigente, pretendeu defender uma tese sob o tema “A Escola Normal Superior Deve Ser Encerrada Por Imoral”. Como é fácil de perceber, a tese nem sequer foi aceite, facto que se traduziu numa espera de mais dois anos pela licenciatura, até que, de facto, a Escola Normal Superior fosse encerrada.

No Colégio de João de Deus, no Monte Estoril, o Dr. José Dias Valente desempenhou um papel fundamental. Para além de ter sido proprietário daquele estabelecimento de ensino, foi também seu director e principal doutrinador pedagógico.

Ciente da importância desses cargos, e das enormes responsabilidades a eles inerentes, o Dr. José Dias Valente acompanhou de perto todos os actos, decisões e problemas do seu colégio.

Lembrado por muitos como figura severa e exigente, é também considerado pelos mesmos um educador afável, sensível e inteligente, que conhecia os meandros da aprendizagem e da educação, e que sabia como enquadrá-los num modelo pedagógico que, de forma coerente, permitisse ensinar, educar e desenvolver os indivíduos, ao mesmo tempo que lhes facultava as ferramentas necessárias à consolidação das suas capacidades e interesses.

O Dr. José Dias Valente, professor e educador, foi sobretudo um pedagogo que defendia ideias e princípios considerados revolucionários no seu tempo. As teorias da não-directividade, desenvolvidas nos finais da década de 60 do Século XX um pouco por toda a Europa, foram para esta grande figura da pedagogia monte estorilense factos e princípios que orientaram toda a prática educativa do Colégio de João de Deus.

Considerando o indivíduo como um ser autónomo, dotado de vontade, interesse e capacidades próprias, o Dr. José Dias Valente entendia que o acto de ensinar devia ser acompanhado pela acção formativa. Ou seja, defendia que a abertura latente no processo de educação, abrangendo a escola, a família e a própria comunidade onde o indivíduo estava inserido, se caracterizava sobretudo pelo seu cunho pessoal, dependendo de cada sujeito, de cada educando e de cada educador. Para ele, cada estudante, cada aluno, cada professor e cada funcionário do seu Colégio representavam um pequeno mundo. Era necessário compreender individualmente cada um deles, integrando-o nas características gerais do grupo que procurava formar, para poder desenvolver de forma coerente o modelo pedagógico e educativo que defendia.

Foi, por tudo isso, um espírito crítico relativamente às correntes ao seu tempo, mal compreendido e, sobretudo, subaproveitado. A sua obra, no entanto, perdura no tempo e no espaço, tendo afectado positivamente milhares de jovens que passaram pelo Colégio de João de Deus, e por consequência as suas famílias através de várias gerações.

Homenageado recentemente através da toponímia do Monte Estoril, que perpectuou o seu nome num arruamento situado junto ao Jardim dos Passarinhos e muito próximo do seu Colégio de João de Deus, o Dr. José Dias Valente faleceu na sua residência, junto ao Largo Ostende, no dia 12 de Março de 1977.

quinta-feira

Fausto de Figueiredo: Quando o Estoril Deixou de Ser um Mero Lugar...





Apaixonado por Cascais e pelo Monte Estoril, onde passou a residir em Maio de 1910, Fausto Cardoso de Figueiredo é uma figura incontornável na história do urbanismo português.

Nascido em Celorico da Beira, Distrito da Guarda, em 17 de Setembro de 1880, Fausto de Figueiredo era Licenciado em Farmácia e foi, desde muito jovem, um dos mais promissores da Companhia Portuguesa dos Caminhos de Ferro.

Radicado no Estoril desde os seus trinta anos, quando casou com Clotilde Ferreira do Amaral, mostrou apetência para os negócios desde a mais tenra idade, assumindo-se muito sensível aos inúmeros problemas económicos e financeiros que afectaram Portugal e o seu tecido empresarial no período final do regime monárquico e no decorrer da 1ª república.

Clarividente e empreendedor, foi capaz de contrariar as vicissitudes conjunturais de um País que se encontrava à beira da falência, totalmente dependente de capitais externos e da iniciativa estrangeira, e de imaginar, projectar e construir aquele que é, segundo Maria da Graça Gonzalez Briz, é um dos únicos conjuntos urbanísticos globais de Portugal.

Iniciando o processo de construção do então denominado ‘Parque do Estoril’ pela aquisição dos terrenos inseridos na antiga Quinta do Viana, onde existia somente um conjunto de construções precárias que davam apoio às actividades do recinto termal, e os restos degradados do Convento Franciscano de Santo António, Fausto de Figueiredo depressa percebeu que a única forma de enfrentar a concorrência oferecida pela Vila de Cascais, marcada por vários anos de presença da Corte; pelo aristocrático Monte Estoril, possuidor de uma fama de qualidade que ultrapassava as fronteiras Nacionais; e por São João do Estoril, povoado de raiz burguesa, institucionalizado a partir da exploração dos Banhos da Poça e da iniciativa de algumas das mais importantes figuras da finança portuguesa; era fazer do Estoril um espaço com uma identidade própria que promovesse uma forma renovada de cidadania.
Os esboços iniciais do Arquitecto Francês Martinet, que se orientavam precisamente pelo carácter global de toda a urbanização, pressupunham a recriação na velha Quinta do Viana de um espaço homogéneo bem definido, no qual as diversas actividades, como a habitação, o comércio e o lazer, se interpenetravam, numa dinâmica consolidada a partir das características arquitectónicas e urbanísticas dos edifícios e dos espaços.

Os equilíbrios gerados por esta formulação urbana, promoveriam, no entender do urbanizador, uma qualidade de vida sem igual, na qual se tornaria fácil a recriação de uma identidade que cunhasse o Estoril com a marca de qualidade pela qual todos ansiavam.

Este tipo de experiências de urbanização global com planeamento prévio, necessariamente contrárias àquilo que eram (e continuam a ser) os hábitos de construção em Portugal, já haviam sido tentadas com sucesso noutras partes da Europa. Em Portugal, exemplos como o da baixa pombalina de Lisboa ou o da criação do Monte Estoril, este último inacabado devido às dificuldades económicas da ‘Companhia Mont’Estoril’, mostravam que era possível e consequente a concretização destes projectos, bastando, para tal, que existissem os capitais necessários e o apoio político formal das instituições oficiais.

E foi precisamente isso que aconteceu. Como resultado da capacidade pessoal e do empenhamento de Fausto de Figueiredo e do seu sócio Augusto Carreira de Sousa, a ‘Sociedade Estoril-Plage’ conseguiu cativar o interesse dos grandes capitalistas lisboetas, que escolheram o Estoril para construir as suas novas habitações. Por outro lado, e mercê da influência cénica marcada pela construção daqueles que haveriam de transformar-se nos principais elementos aglutinadores da nova localidade, como o edifício das termas, os hotéis Inglaterra, Paris e Palácio, e o grande casino internacional, as novas edificações enquadram-se quase todas no estereótipo criado em torno dos valores da tradicional “Casa Portuguesa” e das inúmeras variações de cariz modernista que caracterizaram a época.
Em termos políticos assumiu papel de especial relevo, na década de 30, o surgimento do Estado Novo. Fundamentado numa propaganda que dependia de uma recriação quase artificial de uma nova forma de ser e de estar em Portugal, não só como incentivo à promoção turística no estrangeiro, como também à consolidação dos novos valores Nacionais, o Governo utilizou profusamente o Estoril como cenário privilegiado para os seus eventos.

A fama e o prestígio do Estoril, marcados pela qualidade do seu projecto urbano, pela dinâmica social e cultural que se enquadrava nos espaços existentes, e pela fulgurante propaganda estatal, depressa se institucionalizaram, facilitando assim o processo de venda de lotes e de edificação de novas construções.

O Parque do Estoril, centrado na grande praça que resulta da construção das arcadas – edifícios de utilização mista de comércio e habitação -, no seu vasto e amplo jardim, no imponente casino, e na praia, possui todas as condições que garantem aos novos habitantes a possibilidade de se integrarem socialmente. Os eventos estorilenses, dos quais se destacam a grande Feira de Amostras da Indústria, em 1929; o II Circuito de Portugal em Automóvel, em 1933; os entrudos e as lendárias passagens de ano; vão-se complementar com a electrificação da linha de caminho-de-ferro, com a criação dos Bombeiros dos Estoris, com a inauguração da Estrada Marginal, com a recuperação da Igreja de Santo António, com a inauguração do Hotel Palácio e do Casino Estoril, etc.

A excelência do espaço, aliada a uma formulação urbanística de grande qualidade, a um enquadramento arquitectónico baseado em linhas mestras comuns, e a uma promoção sem igual no panorama Nacional, transformam o Estoril naquilo que ainda hoje consegue ser: um local equilibrado, agradável, e socialmente saudável, onde a habitação, o comércio, os serviços e o lazer coexistem pacificamente, com evidentes benefícios recíprocos e uma qualidade de vida incomparavelmente maior do que aquela que caracteriza outras zonas do Concelho de Cascais.

Como é evidente, esta situação acaba por ter consequências efectivas no quotidiano de todos quantos vivem, trabalham ou passeiam no Estoril. A qualidade da envolvência, e o grande cuidado dispensado ao espaço urbano, dignifica as zonas públicas, valorizando o património privado e transformando-se numa mais valia para o local. Os hábitos, os usos, os costumes, e o dia-a-dia do estorilenses vão-se adaptando às suas condições de vida, facto que, por sua vez, influi na educação, no civismo e na cultura dos habitantes.

A qualidade do Estoril, alicerçada no projecto urbano de Martinet e na cenografia da localidade, é hoje resultante de uma panóplia que agrega também o apoio político do Estado e da Autarquia; a vontade e a educação dos seus habitantes; a capacidade e o espírito empreendedor dos seus comerciantes e empresários; a visão dos promotores que ali existem; e o civismo daqueles que visitam o local.
Tudo isto, como é evidente, é resultado do planeamento global prévio levado a cabo por Fausto de Figueiredo, da sua capacidade de ultrapassar as vicissitudes do sistema e do enquadramento geral que ele conseguiu imprimir a todos aqueles que ali construíram as suas habitações.

Cem anos depois, e ainda mantendo bem vivo o seu espírito original, apesar de algumas desvirtuações pontuais que resultaram de incapacidades políticas conjunturais, o Estoril assume-se como exemplo de sucesso que demonstra que é possível recriar espaços de enorme qualidade nos quais o comércio, a habitação e os serviços se equilibram promovendo uma vivência socialmente saudável, com excelentes parâmetros de segurança e de bem estar.

O impulso dado por Fausto Cardoso de Figueiredo ao turismo, baseado não só na criação de raiz daquela que vai ser a primeira grande urbanização totalmente pré-planeada em Portugal, como também nas inúmeras intervenções pontuais que desenvolveu enquanto político, fazem dele uma personalidade incontornável na história deste sector.

Faleceu na sua residência, no Estoril, no dia 05 de Abril de 1950.

quarta-feira

Pedro Silva: Uma Nova Cara para a Velha Vila de Cascais





Doze anos depois de ali ter entrado pela última vez, ainda nos tempos da saudosa Presidente Eglantina Ventinhas, estive novamente na sede da Junta de Freguesia de Cascais para efectuar uma visita muito especial.

O convite, formulado de forma inesperada pelo Presidente Pedro Silva, era extensível a um passeio por tudo aquilo que foram os últimos oito anos daquele importante órgão autárquico.

Recordo-me bem, até porque participei directamente em alguns desses projectos, do carácter dinâmico e inovador do mandato autárquico da antiga professora e de ter pensado, na última vez que ali estive com ela, como deveria ser difícil conseguir inovar e até manter e consolidar, um projecto como aquele que, em laivos de grande motivação e muito empenhamento, havia alterado por completo a face de Cascais.

Agora, depois de um novo périplo pela freguesia acompanhado pelo actual presidente, é visível o esforço feito para manter, melhorar e incrementar ainda mais os projectos mais emblemáticos da Presidente Eglantina. Este facto, pouco comum em democracia, merece especial atenção porque, para além disso, Pedro Silva conseguiu desenvolver novas ideias, novos projectos e uma dinâmica muito própria ao seu trabalho.

Dos espaços verdes ao ambiente, com passagem eficaz pelo apoio social, pelo acompanhamento geriátrico, pela infância e pela toponímia que reforça os laços com a população local, muitas foram as áreas onde Pedro Silva conseguiu cumprir de forma extraorrinária os principais objectivos do seu mandato.

Doze anos depois, Cascais conseguiu atingir uma dupla vitória: consolidar o que de bom tinha sido feito, com um projecto fantástico que lhe trouxe nova alma e um espírito actualizado.

É com expectativa que, depois de tudo isto, esperamos para ver o que o futuro nos reserva!






domingo

Joaquim Baraona Homenageado na Toponímia de Cascais




Num acto de profunda justiça e de grande significado para o Concelho, a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia de Cascais homenagearam o Comendador Joaquim Baraona através da atribuição do seu nome a uma das mais emblemáticas artérias da Vila. Antigo Provedor da Santa Casa da Misericórdia, instituição à frente da qual imaginou, planeou e concretizou um programa inovador e muito ambicioso nas áreas do apoio social e da saúde, Joaquim Baraona foi ainda figura de enorme importância nas áreas do empreendedorismo, turismo, diplomacia, associativismo, cultura e política, dinamizando inúmeras instituições em Portugal e no estrangeiro. Na actualidade, e mantendo o dinamismo e a vitalidade de sempre, o Comendador Baraona continua a ser uma das mais activas e empenhadas personalidades em várias instituições, academias, associações e colectividades de Cascais, à frente das quais muito tem contribuído para fomentar o bom-nome do Concelho e do País e para consolidar a qualidade de vida de todos aqueles que por aqui habitam ou trabalham. Com a atribuição deste topónimo, que será testemunho perene da importância que Joaquim Baraona teve e tem para Cascais, fica resposta a justiça que a revolução de 1974, por motivos que estão muito longe da nobreza das ideias daqueles que sonharam com a alteração do regime, havia posto em causa.




Portugal, a Europa, a CEE e… o Rei!





Na continuidade daquilo que se tem tornado num hábito cada vez mais consolidado desde há cerca de 25 anos, Portugal passou uma vez mais por uma campanha eleitoral e, consequentemente, por um dia de votos ao qual fugiram mais de 60% dos Portugueses.

Com a Europa como mote, e sobretudo com matérias no âmbito da política Europeia das quais depende directamente o País nesta época de crise internacional muito grave em discussão, foi imensamente triste o cenário pelo qual passámos.

Da esquerda à direita, todos os partidos que participaram neste acto foram unânimes na completa omissão em termos de ideias, propostas e programas de intervenção na Europa. Vistas de fora, mal se notou que de eleições europeias se tratavam…

No rescaldo dos resultados, e também de forma unânime, todos os partidos reiteraram aquilo que foi a prática comum ao longo dos últimos 6 meses… a política interna… as vicissitudes no número de deputados… a extrapolação em relação àquilo que seria se estivéssemos em legislativas… etc. etc. etc. Sobre a Europa; sobre tudo aquilo de que Portugal depende relativamente a essas longínquas instâncias de Estrasburgo; sobre quais serão as posições que tomarão, as políticas que defenderão e as propostas que ali vão apresentar; nem uma só palavra… nem uma discordância… nem uma discussão.

Durante a campanha, nas acções de campanha e nas arruaças que todos os candidatos promoveram, foi também de tristeza o clima que todos vimos. O povo, ou seja, os Portugueses que os partidos agora criticam por não terem ido votar, não sabia quem eram os candidatos (nem sequer os cabeças de lista), quantos iriam eleger, o que eles pretendem fazer, o que defendem, etc. Mas mais grave ainda, este mesmo povo, obviamente por culpa dos partidos que controlam esta nossa espécie de democracia, ainda se refere à Comunidade Europeia como CEE, sigla que, diga-se de passagem, também não sabe o que significa…

Ou seja, foi uma vez mais um acto completamente inócuo e profundamente descontextualizado que, contrariamente ao que todos disseram, pouca ou nada espelha aquilo que sentem, aquilo pelo qual anseiam, e sobretudo aquilo que defendem os Portugueses.

A única informação importante e fidedigna, que deveria deixar apreensivas as instituições ditas competentes e em pânico estes partidos que temos, é a dos 62,5 % dos Portugueses que não se dignaram dirigir-se às urnas. Porque não valia a pena…

Lembro-me bem, até há sensivelmente 10 anos atrás, quando ainda estavam vivas as pessoas que nasceram na viragem do Século, que quase todas, de forma unânime, se referiam ao assassinato do Rei Dom Carlos como o momento político mais marcante das suas vidas. Um Rei que nunca ouviram falar; um Rei que defendia coisas que nada lhes diziam; um Rei que viveu envolto nas tramas e nas discórdias de um regime político que os partidos políticos de então se encarregaram de estragar; um Rei que foi morto quando elas tinham 5, 6 ou 7 anos de idade; um Rei cujo assassinato já tinha acontecido há mais de 80 anos.

Mas essa figura, distante, desconhecida e polémica representava-os. Personificava Portugal, e era o garante e a salvaguarda (mesmo que simbolicamente) dos seus valores, princípios, sonhos e anseios. Marcava-os, por isso, tudo aquilo pelo qual passava.

Hoje, quando a generalidade dos Portugueses nem sequer sabe quantos deputados europeus elegemos, e não faz a mais pequena ideia de que a comunidade já não é meramente económica mas também política, teoricamente representando-os perante o Mundo globalizado; quando a comunicação social nos invade as casas com os rostos, as palavras vãs, e as pretensões dos partidos Portugueses; quando a informação está ao alcance de uma pesquisa no Google e nos é bombardeada para dentro da sala; resta meditar…

Quem é que, verdadeiramente, nos representa? O que vai ser de Portugal?

sexta-feira

Dinamização Comercial e Cultural de Cascais "Com.Arte"...














Num iniciativa inédita e completamente avassaladora em termos dos seus resultados, a Com.Cascais, pela mão do gestor urbano João Pedro Amaral, lançou esta semana o projecto Com.Arte.

Transformando a baixa comercial de Cascais e do Estoril numa vastíssima exposição de arte, a Com.Cascais juntou os mais conceituados artistas Nacionais aos comerciantes locais que, em conjunto, decoraram as montras das principais lojas dos dois núcleos comerciais Cascalenses.

A nova “Galeria” de arte de Cascais, cumpre assim dois objectivos essenciais para o ressurgimento da Vila: levar aos Cascalenses o melhor da produção artística Nacional, colocando a arte e a cultura de forma atraente e acessível a todos; e trazer a Cascais toda uma panóplia de novos visitantes que, com o mote de verem as obras expostas, irão contribuir para a tão desejada revitalização do comércio tradicional.

O interesse da iniciativa, visível desde o momento em que as montras começaram a ser preparadas, tem vindo a alastrar à medida em que vai crescendo a divulgação deste evento, granjeando para Cascais uma visibilidade e uma notoriedade que lhe permite cumprir a sua natural e ancestral vocação cosmopolita.

De entre os muitos artistas que participam neste extraordinário evento salientam-se, pela qualidade da obra apresentada, Victor Belém, Paulo Teixeira Pinto, Paul Mathieu, Guilherme Parente, Freitas Cruz, Isa Ribeiro, Dário Vidal, Pedro Pinto Coelho ou Miguel Bual.

De parabéns está a Com.Cascais que, de uma forma imensamente impactante, recriou cumplicidades estéticas extraodrinárias nas lojas de Cascais.

terça-feira

Medicamentos, Genéricos, Farmácias e... Novamente Portugal





Seguindo em linha com as mais actuais recomendações políticas da generalidade dos Países da Europa, o actual Governo Português anunciou, em período de campanha eleitoral, que iria alterar a Lei de forma a que os médicos passassem a receitar indicando o princípio activo da droga que identificavam como benéfica para os seus pacientes, em detrimento do nome comercial e do laboratório produtor de determinado medicamento.

Essa medida permitiria, por um lado, que fosse o doente a escolher a marca do medicamento que iria adquirir e, por outro, garantir-lhe-ia a possibilidade de optar por aquele que apresentasse o melhor preço de venda ao público (porque a questão da qualidade não se punha).

E a razão que presidia a tudo isto não poderia ser mais linear: a indústria farmacêutica, sujeita a regras muito apertadas em termos de produção dos medicamentos, é obrigada desde há muito a fabricar os seus produtos de acordo com orientações precisas o que, como é evidente, resulta inexoravelmente no facto de todos os medicamentos (independentemente da marca ou do laboratório produtor) terem de ser exactamente iguais entre si e com a mesma qualidade.

Ou seja, medicamentos exactamente iguais, com marcas diferentes e produzidos por laboratórios distintos… mais ainda: medicamentos exactamente iguais (essa garantia é dada pelo próprio Estado através do Infarmed) vendidos a preços muito diferentes entre si…

E o doente, primeiro, último e único interessado naquele negócio, não tem a mínima possibilidade de escolher o que mais lhe convém porque, de acordo com a legislação actual, é ao médico prescritor que cabe a escolha!

Com o aparecimento dos genéricos a situação agrava-se ainda mais. Para além das disparidades de preços entre os laboratórios, surgem agora outros laboratórios (também certificados com a garantia do Infarmed) que produzem os mesmos medicamentos a preços avassaladoramente mais baixos do que aqueles que caracterizam os medicamentos tradicionais. Ou seja, para além da concorrência entre laboratórios, o doente passaria a poder optar por adquirir um medicamente exactamente igual mas genérico, sempre com a garantia de que ele tem a mesma qualidade daquele que lhe foi receitado, pagando um preço mais adequado pelo mesmo.

Mas recentemente, com o processo eleitoral na Associação Nacional de Farmácias e o anúncio do seu presidente de que as farmácias iriam, por seu mote próprio, passar a cumprir esta promessa do Governo, dando assim a possibilidade ao comum cidadão de escolher aquilo que quer, levantaram-se todos contra a decisão…

E é aqui que reside mais um enxovalho à dignidade de Portugal. Senão vejamos:

1. Aos médicos o que importa a marca do medicamento que os seus doentes vão tomar se (importa sempre sublinhar que isto acontece com a garantia do próprio Infarmed) o princípio activo que eles adquirirão na farmácia é exactamente igual àquele que eles prescreveram?... Parece óbvio que nada… a última palavra em relação a esse princípio activo, única matéria em que existe influência no processo curativo do doente, continua a ser deles, sendo deles também, como é evidente, a responsabilidade em relação a essa escolha; Não se consegue perceber a sua insatisfação perante tão importante anúncio…

2. Ao Estado, que imediatamente reagiu dando o dito pelo não dito, e obrigando as farmácias a cumprirem à risca a escolha da marca efectuada pelos médicos, menos ainda, porque medicamentos mais caros pressupõem comparticipações mais caras e estas, por seu turno, um acréscimo desse peso no erário público (sublinhe-se no dinheiro de todos nós…);

Na prática, e devido a uma razão que (pelo menos ao cidadão) não foi explicada, o Estado veio obrigar as farmácias a continuar a vender ao doente não aquilo que lhe convém, mas sim aquilo que o médico lhe prescrever…

Como temos a certeza de que as instituições que temos são sérias, honestas e de bem, zelando pela nossa saúde e pela salvaguarda dos orçamentos familiares e do erário público (não esquecer que medicamentos mais caros são sinónimo de maior comparticipação por parte do Estado), só podemos concluir que, afinal, existem diferenças qualitativas entre medicamentos genéricos e de marca!...

Não há outra explicação plausível ou possível. Não é possível aceitar que esta decisão seja tomada por outros critérios que não sejam estes e, assim sendo, é esta a única razão que pode levar o Estado a impedir-nos de escolher.

Por isso, da próxima vez que for à farmácia, das duas uma: ou me garantem que os medicamentos são todos rigorosamente produzidos e com a mesma qualidade, e me deixam comprar aquele que eu quiser; ou me impedem de fazer essa escolha e estão a assumir que existem diferenças qualitativas entre os produtos.

Agora o silêncio final que se abateu sobre o assunto é, sem sombra de dúvida, mais um péssimo enxovalho que faz a Portugal e aos Portugueses.

quarta-feira

Distinção Internacional para o Investigador Português Vítor Escudero





Contradizendo a tendência corrente de desânimo generalizado que assola Portugal, a Federação Espanhola de Genealogia, Heráldica e Ciências Histórias agraciou o investigador Português Vítor Escudero, Conselheiro da Administração e Director de Marketing do Grupo Sousa Pedro, acaba de ser distinguido com um dos mais prestigiados troféus internacionais da área das Ciências Auxiliares da História.



O investigador e académico, membro da Academia Nacional de Belas Artes, da Academia de Letras e Artes (Portugal), da Academia Melitense, da Academia Belgo – Espanhola da História (Espanha) e Membro do Núcleo Lusófono da História, da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, de Lisboa, viu desta forma reconhecidos os seus méritos e trabalhos, na defesa, divulgação e engrandecimento das relações culturais ibéricas, através da atribuição do cobiçado PRÉMIO NACIONAL DE ESTUDOS HISPÂNICOS (Edição de 2007).



Vítor Escudero, receberá o importante galardão, em Madrid, no próximo dia 25 de Abril, durante a cerimónia de encerramento do II Seminário Ibérico de Heráldica. Este troféu com a forma de um tabardo estilizado, símbolo da própria Federação Espanhola de Genealogia, Heráldica e Ciências Históricas, premeia “a extensa e ampla trajectória de patrocínio e difusão dos estudos e projectos culturais hispânicos ”!

terça-feira

Tomar: Para Cumprir Portugal...






por: João Aníbal Henriques

Muitas vezes a realidade subverte-se… as paredes de pedra, sólidas na sua concretização, deixam antever as fraquezas e as inconsistências das muitas estórias que as envolvem… a patine do tempo, negra pelas agruras que lhe impõe o devir e as pessoas, transforma-se numa moldura que tolhe o próprio olhar…

Em Tomar é isto que acontece… um espaço mítico e místico que absorve as centelhas de luz num impasse que urge desvendar… cantos e recantos por onde passaram olhares… nichos e pormenores com os quais necessariamente temos de contar…

As salas, corredores e deambulatórios, prenhes de memórias que a Humanidade impõe, são como livros abertos para quem os quiser decifrar.

Mas cada olhar; cada perspectiva; cada vislumbre de Tomar é único… porque únicos foram também os episódios que por aqui se sucederam… são sinónimo de abordagens, quimeras de sonhos não cumpridos e… caminhos novos que cabe aos nossos pés trilhar…

Emoções à flor da pele. Emoções que nos toldam os sentidos e que nos transformam a fronte. Emoções difíceis de compreender, e quase impossíveis de interpretar.

Tomar… a cidade onde o Nabão enfatiza estados de Alma… onde cada curva agoniza perante as promessas que nascem do cruzamento do horizonte amplo e das necessidades do Homem. Tomar… o espaço onde as naus se plantam perante o olhar impávido dos monstrengos que nada temem enfrentar… Tomar… o enclave de saber (de saberes) conjugando sabedorias ancestrais… Tomar… cadinho onde os mistérios se desvendam, gerando pistas, possibilidades e esperanças que o Homem está condenado a enfrentar…

O Mundo não seria o que é hoje sem esta sala em Tomar…

O espaço, as coisas e os outros, emaranhados numa teia de interesses, vão-se formando, aqui, muito devagar…

Falamos de memórias… daquilo que ao longe vamos sentindo como diferente… falamos de respeito pelo alternativo, pelo outro, e de uma profunda vontade de abraçar… a cultura, a abordagem ao Universo… a capacidade de pensar.

Tomar é um cadinho… um recipiente bem cheio de tudo o que existe no ar… conjuga saberes, perspectivas, realidades e emoções em sonhos… sonhos comuns onde a força impera… sonhos com a capacidade de se concretizar…

Como se ao longe se ouvissem as ondas do mar…


E cumpriu-se Portugal… num Mundo enorme, diferente, assustador…

Enfrentando o mar e o desconhecido com a força que nasceu da sua História…

A cruz enrolou-se a o Templo abriu as portas a Cristo… cumprindo a profecia… contrariando a vontade geral.

E Portugal fez-se em Tomar… nas paredes avoengas de um castelo antigo… nas vicissitudes várias que a política lhe impôs.

Mestre Gualdim escolheu o local…marcou com o seu ferro o espaço telúrico onde tudo deveria fazer-se… e sonhou… com um Mundo novo onde se cruzassem saberes… e sabores… como se tudo fosse um vasto Portugal…

Estávamos em Março… no dia 1… no primeiro dia do resto de toda a História de uma Nação… num Século XII marcado pelas guerras, pelo sangue, pelas agruras do destino… num tempo em que o dia-a-dia dependia de uma côdea de pão… numa época em que tudo isso dependia de uma paz impossível de conquistar…

Por detrás, memórias antigas dos que já cá estiveram… pedras marcadas pelas mãos de outrem… Romanos? Muçulmanos? Ninguém sabe bem, embora se sinta no ar o embaraço dessa união…

O espaços são o que são independentemente das pessoas, ou melhor, daquilo que deles as pessoas fazem… são eternos, imortais, como os deuses… e tingem de perenidade o carácter efémero dos que agora cá estão…

Somos mais uns… unicamente algo mais para juntar ao que já foi… uma pitada de nada comparada com o que há-de vir… a sombra diáfana de um convencimento vil que é, afinal, a própria essência do viver…

Muitos chegam, mexem, transformam, alteram, marcam com a sua força procurando sofregamente o eterno… que não existe em nós… nem neles…

Tocam-se à força nos espaços sagrados (que o são) de um espaço onde o mito se conjuga com o rito e onde a repetição é sinónimo de saber… são séculos e séculos do mesmo… de capacidades e de discernimentos… de milénios de suspiros que deixam marcas no tempo….

São pré-existências que nos provam quem é importante… o que é importante! Que nos dizem quem somos, de onde vimos, para onde vamos e… tudo aquilo que queremos saber.

Na charola… naquele espaço circular onde todo o Universo parece caber… onde ressoam os cascos velhos dos que já cá não estão… mas onde ainda sentimos as lamúrias dos que teimam em lutar para viver…

É Jerusalém em peso que faz dobrar a coluna e levantar o chapéu… é a repetição nano-temporal que nos transporta para a modernidade da ciência… é perceber, sem o saber, que as pedras têm memórias… e que os Homens (sobretudo) as conseguem ler…

O Santo Sepulcro é um espaço de sofrimento. É claro!... é um espaço de dúvida, de dúvida permanente, persistente e muito real… é o espaço onde a salvação se confunde com a Morte, e onde esta abre caminho ao céu…

E Tomar é, em suma, tudo isto.

Tomar são os sonhos de romanos e de celtiberos… os anseios dos árabes… as doutrinas de fé Templária e Cristo… sempre Cristo… com a força de todo o seu Ser.

Tomar é a cruz em movimento… o arfar do vento no velame dos navios.

Tomar é a própria doutrina do Homem, a Tradição das Idades, o espaço que, existindo, permitiu o acontecer… e aconteceu! Aconteceu aqui! Aconteceu agora, ou melhor… há muito tempo! Vai acontecer ainda! Quer queiramos quer não!

Tomar é a essência alquímica de Portugal. O templo interior onde se nasce por missão… o espaço onde por castigo temos de viver.

Tomar é a opção… o livre arbítrio… o reinado do Espírito sobre a forma, e desta sobre a matéria.

O Mundo que hoje temos nasceu aqui… em torno desta mesa, neste mesmo espaço onde nos sentamos… em torno de caras como as nossas… necessidades como as que temos… sonhos como os que alimentamos e com os quais nos entorpecemos.

Queremos mais. Porque Portugal está vivo. Porque a força não se destrói.

Queremos Camões nestas paredes! Camões nas águas de um Nabão que sonha com o mar, desde Tomar o antevendo. Queremos Pessoa, com todos os seus! Cabiam aqui… todos… neste refeitório!

Portugal está por fazer. É um País único! Rico! Extraordinário e insubstituível! É um País onde os sonhos se fazem de História… de História que se acotovela nos sonhos dos que cá estão… de estórias que são vida e que dão vida a quem por ela anseia…

Vamos cumprir Portugal. Vamos sentir um País que é nosso. Vamos suspirar em todo o património que temos… transbordante de História, de estórias de… vida.

Vamos cumprir Portugal. Vamos mostrá-lo. Não aceitemos calar quem somos e o que temos.

Vamos cumprir Portugal. Vamos viver.

domingo

Heróis por Portugal





por: João Aníbal Henriques

Contrariando uma época insólita que Portugal está atravessar, na qual a tónica Nacional (ao contrário do que sempre aconteceu na História Nacional) é colocada no Ter e não, como sempre foi, no Ser, partiram esta semana para a China os atletas que vão representar o País nos Jogos Paraolímpicos.

A comitiva Portuguesa, ao contrário do que aconteceu com muitos dos participaram na comitiva dos Jogos Olímpicos, parte cheia de pretensões e com aspiração elevada em termos de resultados.

A expectativa, mais do que nos rankings mundiais, nos quais, assim mesmo, os atletas Portugueses estão genericamente bem (e muito bem) classificados, centra-se quase em exclusivo no esforço extremo, na dedicação absoluta e no brio que todos (atletas, treinadores e acompanhantes) levam consigo. O motivo para tal, uma vez mais dando lições de desportivismo aos que já chegaram, é simples de perceber: deram tudo o que podiam e estão convictos de que farão o seu melhor quando começarem a competir. E isso, no que ao desporto Nacional concerne, é por si só uma vitória expressiva e extraordinária para o País.

Tal como nos Jogos Olímpicos, nos Paraolímpicos só participam os melhores. Estar colocado a esse nível, e ter a oportunidade de ali competir, é por si só sinónimo de uma qualidade que dignifica o atleta e Portugal. Os resultados, que ainda para mais estes atletas estão habituados a alcançar, são de somenos importância face ao orgulho que Portugal sente em ter esta gente a assumir a responsabilidade e o desafio de representar a Nação.

As histórias de vida; os percalços do dia-a-dia; as vicissitudes do destino; e as dificuldades que acompanham a preparação e a competição, foram inexoravelmente maiores para estes atletas do que para a maioria de nós. E eles, contrariando o destino e as curvas inóspitas da vida, ultrapassaram-se a si próprios e conquistaram batalhas que para a generalidade dos Portugueses parecem impossíveis de alcançar.

Por outro lado, na sua vida profissional, é notório o sucesso que caracteriza a vida de quase todos. De médicos a arquitectos, passando por profissões física e intelectualmente exigentes e desgastantes, os atletas paraolímpicos Portugueses formam uma equipa de qualidade incontornável, na qual a dedicação e o esforço (no caso deles duplicado pelos problemas que enfrentam) são marca perene que consolida ainda mais as conquistas que lograram alcançar.

O terem ido a Pequim e o estarem lá; tudo aquilo que isso significa em termos de investimento pessoal de cada um deles; e a postura honrada, confiante e plena de brio com que lá estão; são motivos de sobra para o grande orgulho que Portugal sente.

Apesar de desconsiderados face aos primeiros, nos quais deviam estar integrados, os Jogos Paraolímpicos são necessariamente o supra-sumo do desporto Mundial! Porque como nos outros, estão lá os melhores, os mais esforçados, e aqueles que, com o seu trabalho e espírito superaram a condição Humana à qual todos estamos sujeitos e os obstáculos que a vida lhe trouxe.

Ao fazerem isso, assumem condição de heróis, como acontecia com os cidadãos da Grécia antiga que triunfavam nas Olimpíadas…

Merecem, por tudo isso, o apoio, o tributo e a gratidão de Portugal.


sábado

Cascais em Mudança...






por: João Aníbal Henriques

Em Cascais já nada é como dantes…

A frase, repetida de forma permanente e insistente em todos os becos e vielas da Vila, quase sempre associada à negatividade de um dia-a-dia emaranhado na crise e nas dificuldades que afectam transversalmente quase todos os sectores de actividade, tem sido apanágio permanente de Cascais ao longo dos últimos anos, deixando no ar a forma natural e automática como o devir social consegue avaliar a actuação dos organismos responsáveis pela gestão do município.

No entanto, e contrariando uma tendência que se iniciou com o princípio da década de 90 do Século XX, a frase voltou agora a Cascais com uma nova pujança e um sentido diferente…

É verdade! Em 2008, nos mesmos becos, vielas e lojinhas de bairro; por parte de comerciantes, empresários, e profissionais liberais; nos balcões dos cafés e até nos corredores inóspitos das grandes superfícies; voltou a ouvir-se de forma insistente e permanente a célebre frase: já nada é como dantes…

Mas neste ano especial, e com um Verão nem sequer muito quente; com um clima geral de crise e insatisfação de âmbito Nacional e internacional; e com um sentimento de insegurança e de impunidade que grassa de forma dramática em Portugal; em Cascais parece que tudo voltou a mudar. Há animação nas ruas; há restaurantes cheios; há exposições, debates, colóquios e cursos livres cheios de participantes; há passeios pedestres e autocarros, bicicletas, e trotinetes a encher a ciclovia; há concertos de Verão, e fogo de artifício no ar.

Em Junho, no Dia 13, a Procissão de Santo António voltou a encher as ruas da Vila, e em Agosto, no dia 29, foi Nossa Senhora dos Navegantes que, como há três Séculos atrás, encheu de devoção as traineiras e demais embarcações cascalenses, que se apinharam de gente que, com os andores, foi ao mar.

E por todo o lado sente-se Cascais a acordar da letargia perigosa e da crise profunda que estava a atravessar.

É claro que o fulgor da construção inusitada continua a fazer-se sentir. Durante muito anos, enquanto os projectos anteriormente aprovados não se esgotarem, continuaremos a ver aparecer os mamarrachos que enriqueceram uns e destruíram a fácies de um espaço sem igual. Também é verdade que a descaracterização ainda impera, num Concelho dicotomicamente marcado por um litoral profundamente cosmopolita e activo, e por um interior terceiro mundista onde quase tudo é de génese ilegal. Sendo também verdade que o novo hospital aguarda desde 1974 a cerimónia de inauguração.

Mas do outro lado da moeda, as bibliotecas nascem, pela primeira vez, no interior do Concelho e as escolas, juntas de freguesia e centros de saúde vão sendo alvo de acções de requalificação como nunca existiram em Cascais.

É uma mudança geracional, e serão necessárias mais duas décadas para que se concretize totalmente. Mas o lançamento das sementes está a ser feito, e Cascais vai-se alterando.

Mesmo quem não é de Cascais e se habituou a visitar a Vila ao longo dos últimos anos para participar nas acções que persistentemente continuaram a concretizar-se, percebeu neste ano a diferença. É qualquer coisa no ar que se transmite ao sorriso dos locais, um misto de alegria e satisfação que deixa antever o conforto de aqui morar. É um glamour inexplicável que os turistas sentem e que os faz apreciar o tempo que aqui vão estar. É qualquer coisa que já não se sentia há mais de 18 anos, e que agora obriga a repetir a frase…

Em Cascais, uma vez mais, nada é como dantes!

segunda-feira

Sporting, Benfica e Porto: O Futebol e o Estado Português





por: João Aníbal Henriques

Por ser considerado um jogo “de risco elevado” a Polícia de Segurança Pública destacou cerda de 590 agentes para acompanharem o jogo de futebol entre o Benfica e o Futebol Clube do Porto.

A festa, como lhe chamam os apreciadores, poderia ser estragada pela intempestivos ataques de fúria dos adeptos que, para além de colocarem em risco a sua própria segurança, ainda ameaçavam a segurança dos transeuntes, dos restantes espectadores e de todos os locais que faziam parte do percurso que as claques utilizariam até chegar ao estádio.

Esta situação, comum nos dias que correm, coloca-nos dois problemas graves que põem em causa o próprio equilíbrio social Português: em primeiro lugar, e dado tratar-se de uma competição desportiva, anulam de imediato tudo aquilo que de positivo o desporto e a competição deveriam promover. A convivência, o fair-play, a animação e a descontracção, dão lugar a autênticas batalhas campais e a sinais de selvajaria que são intoleráveis num Estado de Direito. São, por isso, intoleráveis. Em segundo lugar, e num momento em que (infelizmente) Portugal tem vindo a atravessar um período negro devido à onda de criminalidade que tem vindo a grassar, obviamente relacionada com a inexistência de meios policiais suficientes para darem conta do recado, parece absurdo que 590 agentes tenham sido destacados para darem conta da falta de civismo num jogo de futebol. E isso é, obviamente, intolerável.

Sem nada contra o futebol, que poderá ser, de forma óbvia e evidente, um entretenimento saudável para quem o apreciar, parece-nos totalmente inconcebível que o Estado permita a existência de claques organizadas em torno de valores não desportivos, e que, pela sua prática, obrigam à utilização de contigentes polícias desta envergadura para as controlar. Intolerável e inaceitável é ainda o facto de, para além de se auto-mutilarem e de, dessa maneira, destruírem a substância positiva que o futebol deveria promover, procederem da mesma forma perante o espaço público que atravessam para chegar aos estádios, o mobiliário urbano que pertence a todos os Portugueses, e os incautos concidadãos que tenham a infelicidade de com eles se cruzarem ao longo do trajecto.

Quem procede dessa forma, seja de que clube for; seja qual for a sua região de origem; Nacionalidade; tom de pele ou língua utilizada; deve ser preso. Pura e simplesmente. É para isso que, todos os meses e com aumentos exponenciais ao longo dos últimos anos, todos nós, cidadãos cumpridores, pagamos ao Estado. Para zelar pela ordem pública e pela segurança dos cidadãos.

Mas isso não se faz através da utilização de 590 agentes para acompanharem um jogo. Sobretudo se esses agentes são necessários para garantir o cumprimento das suas missões noutros espaços, áreas, regiões e actividades.

E para compreender esta lógicas e as prioridades policiais do passado fim-de-semana, só existem duas possibilidades: ou temos 590 agentes a mais nas forças de segurança Portuguesas (que não nos parece) e então vale mais despedi-los e com o dinheiro que se poupa investir noutras formas de garantir segurança; ou foram retirados a áreas onde fazem falta, e isso, mais do que qualquer outra coisa, é profundamente injusto para todos os cidadãos pagantes que ficaram impedidos de usufruir desse serviço.

Para concluir, o futebol é (tem de ser) uma festa. O futebol tem de ser fruído em segurança total e absoluta, e deverá acontecer dentro dos parâmetros da Lei.

Se assim não for, a única solução é proibi-lo. Interditar as claques que o não saibam ser; interditar os estádios que não possuam meios que permitam garantir esse princípio; extinguir os clubes que não sejam capazes de controlar as claques que conspurcam o seu nome e destroem a imagem de Portugal.

É que, conforme se vê nas notícias que permanentemente preenchem a comunicação social Nacional, o futebol é o único sector de actividade onde não falta dinheiro. E não faltando dinheiro, falta com toda a certeza vontade e coragem para pôr na ordem aquilo que em seu torno se passa.