sexta-feira

Monte Estoril - Uma Estória da História de Cascais






Situada estratégicamente junto ao litoral cascalense, a povoação do Monte Estoril é certamente um dos locais que merece um maior cuidado de observação e análise. A sua importância, mais do que pelo enorme e valioso espólio arquitectónico e cultural que possui, vem-lhe da sua situação actual, misto de um cenário abandonado e destruído, onde a podridão, em conjunto com a actual putrefacta acção do Homem, tem vindo a promover o desenvolvimento de um caótico centro de consumo e distribuição de estupefacientes.

A situação actual do Monte Estoril, agravada por um desconhecimento paulatino relativamente às suas origens, é assim de perfeito desentendimento histórico, sociológico, cultural ou mesmo comercial, uma vez que, neste outrora rico e característico interstício da nossa linha de costa, é possível encontrar uma incompreensível mistura de novas edificações, inseridas numa arquitectura moderna e incaracterística, com velhos e esplenderosos edifícios de finais do século passado, excelentemente bam conservados e mantidos e que, por seu turno, possuem nas vizinhamças semi-destruídos restos do Monte Estoril de outrora, com as suas paredes enventradas e de onde se pode observar as muitas seringas e demais apetrechos que ali são deixados para as noites seguintes de prazer. Os interesses de todos aqueles que por ali habitam ou simplesmente passam, estão assim em confronto permanente, tornando também este espaço, outrora conhecido pela sua vivência comunitária, num sítio sem memória, sem passado, sem presente e sem perspectivas de futuro.

Para abordar de forma congruente o Monte Estoril de hoje, após vários períodos mais ou menos prolongados de incúria e destruição exacerbada, interessa fundamentar as observações que pretendemos em três perspectivas diferentes, afinal de contas as únicas que o tornaram naquilo que hoje representa: o local; a história; e as suas gentes.

Em primeiro lugar, este sítio é o resultado de um processo recíproco de interacção entre o Homem, o meio e a história que, em conjunto, fundaram uma povoação em que o caos aparente se transforma em harmonia, e em que o sentido inerente à sua disposição, embora dixando transparecer o êxito das acçãoes que ali foram levadas a efeito, depressa se transforma em acaso e insucesso, factores onde assenta, com raízes profundas o sucesso de outrora.



O Monte Estoril é, acima de tudo, uma mistura quase incompreensível de um cosmopolitismo lusitano com um aparente portuguesismo estrangeirado, conjugados com uma acção de reciprocidade aparentemente caótica, mas que mais não é do que o cume da montanha do paradoxo. Contradição, paradoxo e acaso são assim as principais formas que orientaram a criação deste outrora considerado “paraíso terrestre”, incompreensível à mente humana da actualidade sempre muito sujeita às pressões quotidianas da vida moderna, mas plena de sentido quando observada pelos eternos românticos do fim do século XIX. O sentido do Monte Estoril, bem presente em todos aqueles que daqui se consideram, muito embora possam ter nascido no ponto mais nórdico da Europa ou no extremo sul da Oceania, está assim patente e escondido; patente para quem o não procurar, perdendo-se no seio das ruelas ladeadas de jardins; e escondido, de todos os olhares atentos que por ali procurem observar algo de mais vigoroso e rico.

Torna-se assim difícil, perante esta pequena introdução, mencionar aquilo que foi, que é e que poderia vir a ser o Monte Estoril, uma vez que não existe um só, mas muitos, de acordo com a perspectiva de quem o observa. Tal como Cascais e as pequenas aldeias saloias que compõem o seu concelho, este pequeno aglomerado populacional vale por aquilo que representa, um símbolo da Portugalidade e uma ideia de algo que consegue existir para além de tudo aquilo que o Homem possa imaginar.

Dizia em tempos que já lá vão o sábio Santo Agostinho (1), que o tempo já não existe. O passado, segundo o próprio, não o podemos observar pois já passou, tendo deixado de existir; o futuro, ainda não veio, pelo que não existe também; e o presente pela fugacidade que o caracteriza, ainda não é presente quando nele pensamos porque ainda não veio, e já é passado quando esse momento passa, não podendo assim existir também. O mesmo se passa com o Monte Estoril, patente na mente de quem o imaginou, mas diferente daqueles que o programaram. O Monte Estoril é assim algo que não existe, existindo eternamente, fruto do pensamento dos Homens, da vontade dos Deuses, e adaptado aquilo que cada um dele espera.

A recuperação do Monte Estoril, mais do que um exercício de reordenamento urbanístico, tal como se fará noutras aldeolas do concelho de Cascais, é sobretudo a requalificação da conjugação daqueles três factores: o local, a sua história, e as suas gentes. A programada substituição da população Monte Estorilense por escritórios e serviços, tal como foi defenido no Plano Director Municipal de Cascais, é retirar deste espaço grande parte da sua marginalidade, mas é também retirar deste espaço priviligiado uma vivência característica e sã, que sempre norteou a actuação das populações que aqui habitaram. Se, pela mesma razão, se efectivarem estas ideias expressas pela edilidade cascalense, mais um passo terá sido dado para acabar com tudo aquilo que historicamente representa Cascais.

Se tal assunto, numa primeira análise, parece não interessar muito para o desenvolvimento harmonioso da Área Metropolitana de Lisboa e do próprio País, imaginemos a actuação análoga de muitas outras cãmaras municipais, sem qualquer espécie de representatividade efectiva, transformando Portugal num espaço turístico sem qualquer espécie de atractivo, e de onde estão ausentes todas as características da Portugalidade.

O Monte estoril de outros tempos oferecia o sol e o mar, conjugando tais factores com a beleza da sua paisagem e com o resplandecente movimento social que apresentava. O Monte Estoril de hoje não pode oferecer o seu sol que, como sabemos, está estragado pelas consequências nocivas de muitas décadas de utilização de aerossóis sobre a camada de ozono; o Monte Estoril de hoje não pode oferecer a praia, pois as águas do seu mar estão poluídas e mal-cheirosas, fruto de muitos anos de caos urbanístico e de uma construção desregrada que continua a aumentar; o Monte Estoril de hoje não pode apresentar a paisagem como atractivo principal, pois o abandono em que se encontra, fruto da especulação imobiliária e da incúria de muitos anos, o transformaram num subúrbio descaracterizado e perigoso da vila de Cascais; e por fim, e se calhar é esta a perincipal doença que apresenta, o Monte Estoril de hoje não pode já apregoar a cordialidade e simpatia que carcterizava os seus habitantes, pois muitos já faleceram e, aqueles que ainda ali habitam, têm de se precaver contra a incerteza de encontros fortuitos e maléficos com personagens altamente marginais que por ali deambulam.

Vamos criar um Monte Estoril novo mas velho ao mesmo tempo! Vamos contribuir para a recriação de Cascais e de Portugal! Vamos ser, ao mesmo tempo, membros e interventores na governação deste concelho, deixando administrar aqueles que verdadeiramente sejam cascalenses e portugueses, venham eles de onde vierem!...



Para o Paraíso Natural do Monte Estoril...

As abordagens que têm sido levadas a efeito sobre o Monte Estoril, sejam elas de cariz turístico, cultural ou mesmo social, possuem até hoje um elemento comum: o facto de assentarem, em exclusivo, sobre a dicotomia entre o património edificado e as pessoas que ali desenvolveram as suas actividades.

De facto, se atendermos ao Monte estoril de hoje, depressa nos aperceberemos de que essa relação recíproca entre as edificações e as pessoas que as utilizaram são a peça-chave para a compreensão daquilo que foi esta pequena povoação, outrora connhecida como a Côte d' Azur Portuguesa. No entanto, e porque de uma perspectiva geral pretendemos tratar, difícil seria deixar de abordar a temática directamente relacionada com o meio envolvente que, como se usa hoje dizer, diz respeito a todos, cabendo a todos um papel único na sua salvaguarda.

O meio ambiente do Monte estoril, pelo menos aquele que hoje encontramos, nada tem a ver com o outro que foi encontrado por José Jorge de Andrade Torresão, o primeiro dos grandes construtores dos chalés de veraneio do Monte. Segundo Branca Gontha Colaço e Maria Archer (2), numa das mais sentidas obras escritas sobre os concelhos de Cascais e Oeiras, e que, à laia de permeioaconselhamos vivamente a leitura e a reflexão sobre os assuntos focados, revelam ter sido o território actualmente ocupado pela povoação em questão, completamente deserto, apenas ornado de vastas manchas verdes de pinheiros que, inclusivamente, acabaram por influenciar a própria toponímia antiga do sítio, que se chamou, durante muitos anos, simplesmente Pinhal da Andreza: «Solidão absoluta. Nem casa nem choupana, Pã vagueava no seu domínio como um verdadeiro deus. Não se ouvia balido de ovelha nem flauta de pastor. O mar inundava, com seu canto majestoso, a solidão magnífica. Os pinheirais gemiam em uníssono as saudades dos temporais».



Estudar o Monte Estoril de hoje, pensando demoradamente sobre a razão de ser dos diversos chalés de diferentes características inexplicavelmente salpicando as antigas matas de pinheirais e ocupando progressivamente as apetecíveis colinas, é sobretudo um esforço de reconstituição daquilo que foi este mesmo território antes de possuir as actuais edificações. Como tal, qualquer estudo que se faça sobre a arquitectura e o urbanismo do Monte Estoril terá de possuir, a suportá-lo, uma abordagem mais alargada que permita perceber, em termos de colocação e divisão do espaço, qual a lógica subjacente ao desenvolvimento que se efectivou durante a última décadado século XIX. Como é óbvio, daqueles que primeiro chegaram a este sítio, encontraram uma disponibilidade total de ocupação do espaço, disponibilidade essa patente devido ao total alheamento dos construtores face ao enquadramento do conjunto edificado, uma vez que o mesmo não existia; alheamento ainda face a possíveis sujeições legais, pois não existiam parâmetros rígidos nem definidosque orientassem os projectos (quando existiam os projectos); e alheamento, afinal de contaspois o facto de o terreno não estar ainda muito utilizado, permitia a escolha precisa do local para criar a nova habitação, bem como a forma através da qual se desenvolveriam os arruamentos e os jardins que a iriam circundar. Actualmente, quando alguém escolhe um terreno para edificar uma habitação, tem obrigatóriamente de ter em conta as casas construídas em redor, tal como os acessos e o seu estado, e a forma como o quintal se poderá articular com a edificação e com a rua, de modo a promover as necessidades da família ocupante e de melhor cumprir os objectivos para que foi criada. Tal facto, ao contrário do que sucedeu no Monte estoril, ajudou a criar na actualidade uma certa monotonia de valores estéticos, facto que podemos observar nos novos bairros recentemente construídos, bem como nas vedações em tapume metálico que abundam em quase todos os quintais cascalenses. A rua assume aqui uma função de mera passagem deixando de marcar significativamente o carácter do local, facto que é acentuado pela cada vez maior necessidade de privacidade, que vai alterar toda a estratégia das relações de vizinhanças e, assim, reestruturar a concretização histórica do povoado.

No Monte Estoril, a ausência de construções foi motivo sobejamente suficiente para afastar dos primeiros edificadores todos e quaisquer receios de falta de privacidade, facto facilmente contemplável através dos muretes de baixa altura que circundavam as habitações. Por outro lado, a própria vivência social da época, fruto do enriquecimento abrasileirado de muitos burgueses lisboetas, criava a necessidade de promover a sociabilidade, facto que condicionou de modo perene as próprias características das ruas que tinham como principal função a de facilitar o acesso às novas edificações, mostrando, ao mesmo tempo, o esplendor de todas aquelas que ficavam na vizinhança.

As características das casas, bem como os pormenores que rodeiam a sua arquitectura, assumem assim um papel de verdadeiros documentos no que diz respeito à compreensão daquilo que foi a estrutura mental e social que esteve na origem do Monte Estoril. Os pequenos espanta-fantasmas, de ferro forjado e de formas arrojadas, muitas vezes aliados a janelas de águas-furtadas conjugadas com telhados de duas águas muito inclinados acentuando acentuando o seu carácter nórdico, mais não são do que características para serem admiradas do exterior, tanto mais que representavam a possibilidade de estas grandes famílias burguesas lisboetas usufruírem dos lucros que obtinham com as suas práticas comerciais e, assim, demonstrarem a aristocracia cascalense, que continuava a veranear em Cascais sem qualquer espécie de condições, que o seu poderio económico lhe permitia usufruir de excelentes condições de férias, muito embora não fossem bem recebidos nas praias da moda frequentadas pela Família Real e pela generalidade dos membros da corte.

Cascais mantinha nessa altura, praticamente todas as velhas estruturas que possuía muito antes de ser o local escolhido para o fim da época estival da corte. As casas, deterioradas por muitos anos de uso, e pelo completo desajustamento face às novas necessidades, só muito dificilmente se adaptavam às novas necessidades, sendo por isso bastante complicado, à grande aristocracia portuguesa, poder desenvolver umas férias na praia mantendo o estilo de vida que possuíam na capital. Pelo contrário, no Monte Estoril, a nova burguesia enriquecida, dada a facilidade que possuía na construção dos seus chalés, podia facilmente impor-se pela moda, aproximando-se assim daqueles que até aí tinham conseguido manter a supremacia do relacionamento da alta-sociedade portuguesa. Ramalho Ortigão, numa das suas mais conhecidas obras dedicadas ao acto de veranear, não deixa de acentuar que embora Cascais fosse a mais importante praia da Estremadura, possuindo até o palácio real, não deixava de sofrer com a falta de desenvolvimento urbano que a caracterizava (3): «Como povoação, Cascais é a mais importante das praias da Estremadura. É cabeça de concelho. O número dos seus fogos é de cerca de 1.700 - exactamente o mesmo número que existia há cem anos, o que prova que Cascais, se não tem prosperado, também não tem decaído durante o curso do último século». Tal facto é ainda acentuado pela estagnação que caracterizava os preços pedidos pelas habitações na vila de Cascais: «[...] A renda das casas, que se alugam com mobília e louça durante os meses de temporada de banhos, com quanto não seja absolutamente elevada, é ainda pouco menos do que o preço porque as mesmas casas se venderiam, se alguém as comprasse, há quinze anos» (4).

O contraste entre a velha aristocracia portuguesa, desde sempre acompanhando a corte e possuidora de genes que se ligavam directamente a vários episódios importantes da História de Portugal, estava patente em muitas ocasiões em longo deste verão, sendo de salientaro peso que tal diferença teve na forma como foi edificada a nova estância balnear do Monte estoril, e esta, em época subsequente, na mais jovem Estoril. É ainda Ramalho Ortigão que, nas suas “Praias Portuguesas”, muito ao estilo da literatura Nacional da época, melhor descreve esta disfuncionalidade social, responsável por episódios caricatos, divinamente relatados por Ferreira de Andrade na sua “Vila da Corte” (5) e que, pela sua importância na compreensão da ambiência e do enquadramento paisagístico do Monte Estoril, não hesitamos em transcrever: «As senhoras da burguesia destoam neste meio e não fazem bem em sujeitar-se ao contraste desse confronto, a não ser que não tenhamlevado as suas jóias, que não ponham senão vestidos velhos, que usem o mais simples dos penteados e que sejam despretenciosas e boas, - no qual caso todas as mulheres, qualquer que seja o seu nascimento e a sua categoria, são igualmente elegantes e distintas».

Esta necessidade de mostrar aquilo que possuíam, valorizando assim a posição recentemente assumida em desprimor daquilo que eram as bases sólidas da aristocracia de então, demonstra de sobremaneira as tentativas sucessivas que esta classe social desenvolveu com o intuito de se aproximar da elite social do País. Esses esforços, verificáveis quotidianamente através dos ornamentos e das jóias que procuravam ostentar, jóias essas que, na grande maioria dos casos não eram acessíveis à maior parte dos membros da aristocracia depauperada, causavam assim reacções cada vez maiores de encerramento dentro dos diversos grupos, que se protegiam desta forma das investidas cada vez mais audaciosas que eram promovidas pela burguesia.

Em termos mais simbólicos, era nas casas que se podiam encontrar os maiores vestígios da transformação social verificada em Portugal naquela época, sendo que, de entre todas as povoações deste País, o Monte Estoril é, com toda a certeza, aquela que maiores potencialidades de demonstração possui. as suas edificações, ornamentadas excessiva e excentricamente, promoviam o aparecimento de uma ambiência nova, facto que causou grandes transtornos à elite social vigente. As casas do Monte Estoril, principalmente aquelas que foram construídas com intuitos puramente de veraneio, são assim a face visível de uma terrível luta fratricida, que, que culminou em Cascais na tomada de poder por parte das forças revolucionárias republicanas, fruto de um exacerbado ódio criado no seio de uma dicotomia que separava o Monte de Cascais, e depois do Estoril e das restantes povoações da costa litoral deste concelho. Em relação a esta luta, é ainda Ramalho Ortigão quem na obra citada, melhor descreve a forma como se procurava a todo o custo, furar as apertadas teias da modernidade social, servindo-se de um saber instituído, mas também utilizando os estratagemas que derivavam na recente ascensão financeira do grupo: «Os homens novos que quiserem fazer o que se chama a entrada no mundo, a investtidura social, devem procurar esta praia para abrir a brecha, para penetrar na praça. Aconselhar-lhes-emos nesse caso que não emitem os homens que acompanham essas senhoras e são seus pares. Não, caro leitor inexperiente e amigo! Se quiseres ser recebido nesta sociedade portuguesa - em que se pegam os touros, em que se toca a guitarra, em que se dança o fado - não toques o fado, não pegues os touros, não bebas, não fumes, não deites para trás o chapéu dando-lhe um piparote na aba. Tudo isso fazem os fidalgos, mas tu, burguês, nunca parecerás um fidalgo se o fizeres. Parecerás apenas um moço de cavalariça e nenhuma dessas senhoras consentirá em que lhe apertes a mão. Não tenhas também muito espírito, nem maneiras muito acentuadas, nem opiniões muito expressivas. Sê o mais que possas fácil, complacente, obscuro, nulo. Vai à missa, lê o teu ripanço, está de joelhos na igreja, confessa-te uma ou duas vezes, veste-te como um padre ou como um saloio, dá-te um ligeiro ar idiota, inofensivo, pascácio. Terás um sucesso infalível. As senhoras receber-te-ão com agrado, como um auxiliar que não que não compromete, como um passivo, como um neutro. Apresentar-te-ão, rindo, às suas amigas. Pedir-te-ão os pequenos serviços suaves que se encarregam aos procuradores e aos capelães: que chegues uma cadeira, que vás buscar as luvas, o lenço ou o chapéu de sol que esqueceu, que acompanhes esta, que vás chamar aquela, que deites no correio uma carta para aqueloutra, etc.; terás uma incumbência de responsabilidade nos pic-nics, nos passeios em burro, nas soirées de subscrição; serás o ponto ou o contra-regra, o comparsaou o criado que traz a carta nas representações de salão. Converter-te-ás finalmente num personagem que será lembrado, requerido, utilizado. No ano seguinte àqueleem que por estes meios te ouveres introduzido na sociedade, poderás então tocar guitarra, enrolar nos dedos, em pleno clube, diante das senhoras, um pestilento cigarro de papel, arrojar o chapéu da testa para a nuca com o piparote fadista, e falar o calão - porque terás tomado posse, e principiarás a exercer o teu lugar de janota nacional, encartado e inamovível».

A constante luta travada entre os membros da burguesia endinheirada portuguesa e a velha e empobrecida aristocracia de cepa, tiveram o seu pontomais fulgurante na velhíssima vila de Cascais, que assistiu, em poucos anos, a uma radical transformação urbanística. Para responder à chegada da corte, muitos houveram que resolveram escolher Cascais para estância de veraneio, e esses, quando possuíam as posses necessárias para tal efeito, não hesitavam em construir as casas ao estilomais arrojado de então, servindo-se dessa construção e do seu esplendor para alicerçar a sua posição no espectro social nacional. É esse o caso, por exemplo do Palácio dos Duques de Palmela, construído de caordo com elevados parâmetros de qualidade e subordinado à experiência de arquitecto requintado e muito escolhido, com o intuito de fazer frente a uma ostentação que a coroa e a rainha dificilmente conseguiram suportar no seu mal-acabado palácio real adaptado da velha fortaleza de Cascais.

O Monte Estoril, em momento subsequente vai servir de resposta desta nova classe burguesa ao atrevimento social da aristocracia, utilizando para tal os recursos que possuia em maior quantidade: dinheiro, ideias inovadoras e espaço livre.

Foi sobretudo a conjugação deste capital imediato com a liberdade espacial que caracterizava o velho Pinhal da Andreza, que condicionou o aparecimento de uma povoação baseada em novos parâmetros urbanísticos, onde as dificuldades geográficas naturais, de acordo com o projecto de Carlos Anjos, se tornariam um incentivo essencial para a criação de uma ambiência que não existia em mais nenhuma parte do mundo. A construção do lago, e do aqueduto que traria a água da sua quinta de Vale de Cavalos, serve assim de exemplo para demonstrar quão importante era, para a época em questão, a ostentação da superioridade burguesa nacional, dispondo de verbas de valor e de força empreendedora, conseguindo tornar um desinteressante pedaço de terra, em mais um quase celestial povoado cascalense. O cuidado posto neste empreendimento foi de tal ordem, que o próprio Carlos Anjos previu com todo o cuidado o enquadramento necessário à criação de um ambiente novo, preservando as espécies vegetais de maior valor e misturando-lhes os vestígios de outras espécies exóticas trazidas de diversas partes do mundo O ponto a que chegou esse projecto foi tão profundo que o seu mentor previu ainda a cobertura das ruas com areia, como forma de promover a beleza e limpeza do sítio, bem como as aves que vagueariam por entre as ramagens viçosas e fulgurantes das espécies para aqui transportadas. O constante chilrear de pássaros mais ou menos conhecidos, misturado com o esplendor vegetal, completaria assim o conjunto fornecido pelas diversas edificações que possuiam também elas características que as tornavam únicas em todo o País.

A complementar estes aspectos urbanísticos a Sociedade do Monte Estoril, no mesmo projecto, proibiu a construção de muros de grandes dimensões, complementando tais directivas com a obrigatoriedade da recolha de pedras das praias Monte Estorilenses para a sua construção. As copas das árvores, tocando-se sob o azul do céu, em conjunto com os muros rústicos de pedra natural, promoveriam assim a tal envolvência espacial que a burguesia necessitava para transformar a sua estância de veraneio num local onde a qualidade de vida fosse, de facto, altamente apetecível.

Se no Monte Estoril foi possível criar uma povoação com estas bases, e que de facto se tornou única no mundo, tal se ficou a dever, em primeira análise ao envolvimento natural que lhe esteve na origem, sendo que a completa liberdade espacial, mesclada com as dificuldades geográficas que existiam em grande quantidade, promoveria neste sítio o nascimento de uma simbologia dinâmica e definitiva, transformando o Monte em algo de único que o devir histórico cascalense não tem conseguido preservar.








NOTAS:


(1) AGOSTINHO, Santo, Confissões de Santo Agostinho, Porto, Livraria Apostulado da Imprensa, Junho de 1984, pp. 303-304.

(2) COLAÇO, Branca de Gonta e ARCHER, Maria, Memórias da Linha de Cascais, Lisboa, [S/N], 1943.

(3) ORTIGÃO, Ramalho, As Praias de Portugal, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1943.

(4) Ob. Cit.

(5) ANDRADE, Ferreira de, Cascais - Vila da Corte, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964.

As Aldeias Rurais e o Futuro de Cascais





Apesar de serem poucos aqueles que as conhecem, as aldeias de génese rural existentes no Concelho de Cascais possuem um potencial turístico e cultural incontornável. A degradação paulatina de que têm sido alvo é completamente descabida num espaço que pretende ver sedimentada a denominada “vocação turística”, e a sua recuperação exige uma intervenção imediata e consequente. A sua atractividade, no contexto de uma urbanidade que tem vindo a perder a identidade cultural, é essencial para que Cascais possa readquirir a qualidade de vida de outros tempos.

Já vão muito longe os tempos em que se consideravam os resquícios da ruralidade portuguesa como exemplos malditos de uma actuação política que se dizia que tinha feito estagnar o País. Hoje, sobretudo nos países mais desenvolvidos, o que ainda resta de uma existência ruralizante e tradicional é aproveitado e rentabilizado turística e culturalmente.

A raiz cultural do nosso País, marcada de forma eminente pelo cunho de um tradicionalismo ligado aos trabalhos do mar e da agricultura, não pode alhear-se dessa realidade.

Contrariamente ao que parece mostrar a intervenção das entidades oficiais ligadas às Autarquias e às instituições governamentais com responsabilidades na área do Ordenamento do Território, da Cultura e do Turismo, o reconhecimento, a recuperação e a promoção dos resquícios da nossa identidade rural são actividades fundamentais para a criação de uma oferta turística que permita a Portugal enfrentar com dignidade os desafios novos que lhe surgirão ao longo dos próximos tempos.

De facto, impedido de produzir em termos agrícolas, incapaz de produzir industrialmente, e marcado em permanência pelo jugo implacável do desemprego, restam poucas saídas para que Portugal possa sustentar-se económica e financeiramente de forma condigna. O sector do turismo, principalmente num Concelho como o de Cascais, transformou-se no fulcro de todo o desenvolvimento, dele dependendo o comércio, os serviços e mesmo a gestão urbana do território.

Aldeias antigas como as da Charneca, Birre, Areia, Torre, Malveira da Serra, Janes, Zambujeiro, Atrozela, Alcabideche, Cabreiro, Murches, Livramento, Adroana, Pau Gordo, Galiza, Murtal, Caparide, Zambujal, Tires, Mato Cheirinhos, Trajouce, Conceição da Abóboda, Polima, Rana ou Rebelva, são apenas alguns exemplos de povoações que possuem ainda bem vivas as memórias de uma ruralidade que alicerçou toda a nossa História municipal. Possuem também, ainda com elevado potencial turístico que se encontra em risco eminente de desaparecer, restos únicos de habitações, fontes, chafarizes, portais, moinhos, fornos de pão e de cal, para além de um enorme manancial de lendas e de histórias locais, que noutros países e concelhos são atractivo turístico essencial e incontornável.

Em Cascais, perdidos nas faldas confusas de um alárvico e permanente apelo às novas construções, os resquícios existentes desta ruralidade perdida estão votados ao abandono e ao esquecimento. Exemplares únicos de casais saloios e rurais, com estruturas construtivas integráveis naquilo que é costume designar como “arquitectura chã”, vão sendo substituídos por prédios de concepção duvidosa e de assumida negação da tradicionalidade local.

Com o desaparecimento destes vestígios, e com a consequente fragilização da nossa Identidade Municipal, fica também posta em causa a vocação turística de Cascais e a possibilidade de voltarmos a ser o destino de excepção de outros tempos.

O turista moderno, culto e bem preparado, já não quer chegar a Cascais para passar cinco ou seis dias estirado ao sol. Hoje, numa lógica de bem-estar social e cultural, o ambiente envolvente, a tradicionalidade, o tipicismo, e a aprendizagem social, são partes importantes na promoção turística dos destinos europeus.

O Concelho de Cascais, apesar de todas as vicissitudes por que tem passado, possui as condições necessárias para encetar os esforços que tornarão possível este desiderato, sempre na certeza de que apostar na tradicionalidade daquilo que resta das nossas aldeias rurais, é garantir o futuro do turismo, do comércio e dos serviços, e o emprego e a estabilidade social dos munícipes cascalenses.

Nas aldeias rurais cascalenses, mais do que num sol e numa praia totalmente envolvidos em betão, reside grande parte do potencial que alicerçará a nossa vocação, oferecendo a todos um futuro socialmente saudável e economicamente sustentado.





segunda-feira

Raquel Henriques Expõe "Duas Faces" em Setúbal





São duas faces de uma mesma obra, misturando estilos, cores e temas que deixam perplexo quem a visitar... A primeira exposição individual de Raquel Henriques, a decorrer no Clube Militar de Oficiais de Setúbal, situado em plena Praça do Bocage,representa o culminar de um período de experiências plásticas, cromáticas e artísticas. A pintora, gerindo gostos e emoções, apresenta uma obra onde se vê e sente todo um percurso de vida rico em experiências, lugares e paisagens. A não perder!





terça-feira

Memórias do Portugal Respeitado (Texto de Luís Soares de Oliveira)




Corria o ano da graça de 1962. A Embaixada de Portugal em Washington recebe pela mala diplomática um cheque de 3 milhões de dólares (em termos actuais algo parecido com € 50 milhões) com instruções para o encaminhar ao State Department para pagamento da primeira tranche do empréstimo feito pelos EUA a Portugal, ao abrigo do Plano Marshall.

O embaixador incumbiu-me – ao tempo era eu primeiro secretário da Embaixada – dessa missão.

Aberto o expediente, estabeleci contacto telefónico com a desk portuguesa, pedi para ser recebido e, solicitado, disse ao que ia. O colega americano ficou algo perturbado e, contra o costume, pediu tempo para responder. Recebeu-me nessa tarde, no final do expediente. Disse-me que certamente havia um mal entendido da parte do governo português. Nada havia ficado estabelecido quanto ao pagamento do empréstimo e não seria aquele o momento adequado para criar precedentes ou estabelecer doutrina na matéria. Aconselhou a devolver o cheque a Lisboa, sugerindo que o mesmo fosse depositado numa conta a abrir para o efeito num Banco português, até que algo fosse decidido sobre o destino a dar a tal dinheiro. De qualquer maneira, o dinheiro ficaria em Portugal. Não estava previsto o seu regresso aos EUA.

Transmiti imediatamente esta posição a Lisboa, pensando que a notícia seria bem recebida, sobretudo num altura em que o Tesouro Português estava a braços com os custos da guerra em África. Pensei mal. A resposta veio imediata e chispava lume. Não posso garantir a esta distância a exactidão dos termos mas era algo do tipo: "Pague já e exija recibo". Voltei à desk e comuniquei a posição de Lisboa.

Lançada estava a confusão no Foggy Bottom: - não havia precedentes, nunca ninguém tinha pago empréstimos do Plano Marshall; muitos consideravam que empréstimo, no caso, era mera descrição; nem o State Department, nem qualquer outro órgão federal, estava autorizado a receber verbas provenientes de amortizações deste tipo. O colega americano ainda balbuciou uma sugestão de alteração da posição de Lisboa mas fiz-lhe ver que não era alternativa a considerar. A decisão do governo português era irrevogável.

Reuniram-se então os cérebros da task force que estabelecia as práticas a seguir em casos sem precedentes e concluíram que o Secretário de Estado - ao tempo Dean Rusk - teria que pedir autorização ao Congresso para receber o pagamento português. E assim foi feito. Quando o pedido chegou ao Congresso atingiu implicitamente as mesas dos correspondentes dos meios de comunicação e fez manchete nos principais jornais. "Portugal, o país mais pequeno da Europa, faz questão de pagar o empréstimo do Plano Marshall"; "Salazar não quer ficar a dever ao tio Sam" e outros títulos do mesmo teor anunciavam aos leitores americanos que na Europa havia um país – Portugal – que respeitava os seus compromissos.

Anos mais tarde conheci o Dr. Aureliano Felismino, Director-Geral perpétuo da Contabilidade Pública durante o salazarismo (e autor de umas famosas circulares conhecidas ao tempo por "Ordenações Felismínicas" as quais produziam mais efeito do que os decretos do governo). Aproveitei para lhe perguntar por que razão fizemos tanta questão de pagar o empréstimo que mais ninguém pagou. Respondeu-me empertigado: - "Um país pequeno só tem uma maneira de se fazer respeitar – é nada dever a quem quer que seja".

Lembrei-me desta gente e destas máximas quando há dias vi na televisão o nosso Presidente da República a ser enxovalhado pública e grosseiramente pelo seu congénere checo a propósito de dívidas acumuladas.

Eu ainda me lembro de tais coisas, mas a grande maioria dos Portugueses de hoje nem esse consolo tem.

Estoril, 18 de Abril de 2010

Luís Soares de Oliveira

quinta-feira

Investigador Português Vítor Adrião Homenageado no Brasil





O investigador Português Vítor Manuel Adrião, Presidente da Comunidade Teúrgica Portuguesa e autor de dezenas de publicações sobre a História de Portugal, foi homenageado pela Editora Madras, no Brasil, e pelas Ordens Unidas Religiosas, Militares e Maçónicas do Templo de São João de Jerusalém, Rodes e Malta. A cerimónia, que foi antecedida por uma conferência proferida pelo historiador Português, foi um importante contributo para a promoção e explicação dos principais alicerces da Identidade Nacional, consolidando assim as próprias bases da existência política do Brasil. Reconhecido em terras de Vera Cruz pelo seu profundo saber sobre a Portugalidade, Vítor Adrião continua assim a cumprir o seu projecto de levar longe a mensagem, os valores e os princípios subjacentes à própria existência de Portugal.



segunda-feira

Abu Zaid Abd-Ar Rhaman Ibne Mucane: O Início de uma Longa História em Alcabideche (Cascais)





Existe em Alcabideche, a escassos metros de conhecido Cascaishopping, um monumento que a muitos passa despercebido.

Composto por uma laje comemorativa com uma citação política e por duas grandes pedras colocadas na vertical, teve em tempos um idílico cenário campestre do qual sobressaíam dois dos mais antigos moinhos de vento penisulares.

O monumento, dedicado ao grande poeta Árabe Ibne Mucane, natural de Alcabideche, marca no tempo um dos mais interessante, pujantes e mal conhecidos períodos da nossa História comum: os Séculos X e XII da nossa era, e a ocupação Árabe da Península Ibérica.

Mas quem foi Abu Zaid Abd-Ar Rhaman Ibne Mucane?

Segundo as fontes, e tomando em linha de conta o que actualmente se conhece da História desta região, Ibne Mucane terá sido, o primeiro autor a cantar os moinhos de vento da Europa.

Como do conhecimento geral, quer pela tecnologia empregue, quer quer pelos recursos que eram necessários para a sua construção, quer ainda pela extrema importância que têm em termos do incentivo à produção, os moinhos de vento traduzem de sobremaneira o estado de desenvolvimento de uma regão.

A importância de Ibne Mucane está assim intimamente ligada à introdução de uma série de inovações técnicas e de novos conhecimentos na estrutura produtiva de génese rural do extremo ocidental da Península Ibérica, que a partir da chegada dos ocupantes Árabes veio influenciar de sobremaneira a vida futura de toda a Europa medieval.

Em termos práticos e imediatistas, os versos de Ibne Mucane têm, no entanto, um outro significado. Se por um lado são eles os primeiros a cantar a introdução dos moinhos de vento em solo Europeu, com todo o desenvolvimento que lhe está implícito, por outro, traduzem também a realidade político-social que se fazia sentir na zona mais rural do actual Concelho de Cascais.

A falta gritante de água e uma importante componente cerealífera na produção agrícola do concelho estão bem patentes nas palavras de Ibne Mucane:


Ó tu que vives em Alcabideche
Oxalá nunca te faltem
Nem grãos para semear,
Nem cebolas, nem abóboras.
Se és um homem de decisão
precisas de um moinho
que funcione com as nuvens
sem necessidade de regatos.


Para além desta referência directa à falta de água, que deve ter sido uma das mais prementes preocupações constante a todos os agricultores de Alcabideche, Ibne Mucane refere ainda outros problema com que se debatiam os habitantes desta zona interior do actual Município de Cascais:

A minha terra é boa... mas o mal
é que se o ano é bom, nunca dá mais do que
vinte carregos, vinte e tal de cereais.
E quanto mais promete e mais cuidados
eu lhe dispenso em sonhos mais me iludo
porque então, javalis dos despovoados
surgem famintos, e devastam tudo!


Assim, muito embora a terra não fosse de facto de muito má qualidade, os javalis que existiam nas redondezas contribuíam para a destruição das colheitas e para o consequente empobrecimento da população.

Ibne Mucane, embora possua, com o intuito de preservar a sua memória, um monumento na terra que o viu crescer, para além de uma escola com o seu nome, não é de facto um poeta conhecido, nem para os naturais de Cascais nem para todos aqueles que se interessam pelo estudo de um passado histórico que urge preservar e que nos fornece pistas essenciais para a definição da nossa memória colectiva.

Os seu versos, para além de traduzirem toda uma realidade que se encontra subjacente a um período mal conhecido em termos historiográficos, conseguem ainda trazer dados novos para a compreenão da importância real que teve a civilização Árabe no crescimento e no desenvolvimento da Europa Medieval.

Quando se fala em Árabes, pensa-se naturalmente nos topónimos iniciados com AL, esquecendo-se tantas vezes a tecnologia, os usos e costumes, e a maneira inovadora de pensar, que contribuiu decisivamente para a criação de duas maneiras distintas de encarar a existência.

Ibne Mucane, acima de tudo, merece ser lembrado como um natural de Alcabideche, que deixou atrás de si, as condições necessárias para a compreensão do período em que viveu, e cumpre a Cascais e aos seus actuais ocupantes, a tarefa de não deixar cair no esquecimento toda a essência do seu contributo.


sexta-feira

João Aníbal Veiga Henriques [1942-2010]





Conheci-o no dia 14 de Junho de 1971.

Ele não assistiu ao parto porque não teve coragem para isso, mas imagino-o lá fora, no corredor, a fumar várias dezenas de cigarros ao longo daquelas três horas, roído de nervos, mas com a confiança que a sua fé especial e colossal lhe assegurava.

Percebi de imediato que era alguém especial quando me pegou ao colo. É certo que o fez sem a segurança e a firmeza de outros colos pelos quais já tinha passado. Mas afinal eu era o primeiro filho e possivelmente o primeiro recém-nascido que lhe era colocado nos braços. Pegou-me com um Amor de tal forma intenso e incondicional que transcendia largamente a sua enorme estatura e tudo aquilo que conheci na vida daí em diante.

A primeira grande memória que tenho dele, ganha depois de horas a fio a tentar aprender a andar de bicicleta numa ruela sem saída que existia em frente de nossa casa, é a da sua mão a amparar-me o pescoço. Correu quilómetros atrás de quilómetros gritando insistentemente para eu não desistir. E conseguiu. No final do dia, quando ele já estava estafado, lá aprendi a equilibrar-me. Percebi então a sua insistência e a magia que surge associada aos pequenos momentos que dão forma à vida. Aprendi não só a andar de bicicleta mas também a gozar cada momento, cada instante, cada milímetro de paisagem e cada laivo de sabor que a vida nos oferece.

Tinha pouco mais de dois anos nessa altura, mas daí em diante fez-se luz na minha mente, e eu senti no mais profundo pedacinho da minha Alma a sorte que tinha em poder crescer com ele. Nesse mesmo dia, com a desfaçatez que só as crianças podem ter mas também com a certeza absoluta que acerca disso carrego até hoje, chamei-o à sala e expliquei-lhe que não podia continuar a chamar-lhe a mesma coisa que todas as outras crianças chamavam aos seus pais. Comuniquei-lhe, sem lhe dar sequer a possibilidade de contrapor o que quer que fosse, que a partir desse dia lhe chamaria ‘Zito’. Porque queria que ele tivesse um nome só dele e sobretudo queria que esse mesmo nome estivesse à altura da figura extraordinária que eu pressentia.

O Zito acompanhou-me desde então para desespero de alguns familiares e perante as críticas de quase todos. Como era possível que deixassem a criança chamar-lhe isso? Mas ele ouvia sempre o seu novo nome com um sorriso nos lábios, e entendia, possivelmente daquela forma profunda e sentida que o nosso exíguo cérebro não consegue abarcar, o amor radical que eu lhe associava. O Zito levou-me à escola no primeiro dia; o Zito levou-me a passear numa velha traineira de pesca pelas águas revoltas do Cabo Raso; o Zito levou-me a trepar os montes e as escarpas da Serra de Sintra, sempre a ouvir as histórias e as lendas que ele pesquisava para me transmitir; o Zito ensinou-me a rastejas nas grutas e nos subterrâneos mais enigmáticos; foi ele quem me ensinou a distinguir as rochas e os cristais, e a perceber como crescem as árvores e as plantas; foi ele que me mostrou as marés e me ensinou até onde nos pode levar o oceano; o Zito levou-me a quase todos os sítios especiais que conheci até hoje.

Anos mais tarde, depois de um acidente grave que me obrigou a dormir ininterruptamente durante mais de uma semana, foi a mão dele a primeira coisa que senti quando despertei. Diziam-lhe que as possibilidades eram poucas; que ele devia ir descansar; que não valia a pena. Mas ele sabia que valia e esteve ali, dia e noite durante todo aquele tempo. E foi o calor da sua mão, e novamente aquela entrega extraordinária com que ele vivia a relação com todos aqueles que o rodeavam, que me trouxeram de volta à vida.

Extasiei-me anos a fio com a sua habilidade. Com cada um dos traços de todos os esboços que fazia antes de se abalançar na pintura de mais um quadro ou na escultura de uma nova peça. Guardei-os a todos como as mais preciosas obras de arte que este Mundo jamais conheceu. E inchei de orgulho quando, em 1980, foi o seu ‘Camões’ que encabeçou as cerimónias de inauguração do largo com o mesmo nome no coração da nossa terra.

Faz agora precisamente dez anos, em Março de 2000, fizemos juntos a nossa última peregrinação a pé até Fátima. Já adulto, procurou gastar cada segundo para perceber até que ponto tinha germinado a sua semente. Falámos do Universo estonteantemente grande e da infinitude sublime da matéria. Perdemo-nos algures naquela linha ténue de fronteira onde a realidade se confunde com a imaginação, e na qual florescem os sonhos que condicionam o devir da vida. Explicou-me com muito cuidado qual é a importância que a matéria tem no nosso crescimento, e a diferença que existe entre aquilo que somos, o que criamos e a essência sagrada que verdadeiramente nos impulsiona na vida. Partilhámos silêncios profundos e longos, e ladainhas que nos ajudaram a transpor as dificuldades sentidas num caminho difícil.

A partir daí já só conseguimos viajar de carro. Mas continuámos a percorrer Portugal de lés-a-lés. Estivemos na Estrela ainda há pouco tempo, e atravessámos juntos toda a vastidão da planície do Alentejo. Com ele penei os quase 50ºC do Fundão e os contrastes frescos da Gardunha. Deliciámo-nos com os petiscos únicos da vetusta Braga e com as sopas únicas do muito nosso Ribatejo. Subimos e descemos os montes e vales da Beira, e partilhámos do deleite das gentes de Cabrum e Água d’Alte, ao mesmo tempo que explorávamos os segredos para sempre perdidos da Cardiga e do tesouro de alma que os Templários morreram a defender.

Para a Primavera que agora vai chegar planeáramos uma última peregrinação… íamos finalmente a Santiago de Compostela depois de anos a fio de mapas, roteiros, pesquisas e muito estudo sobre o assunto. Disse-me há algumas semanas atrás, com semblante profundamente triste, que achava que já não conseguiria ir a pé comigo desta vez. Talvez já só conseguisse acompanhar-me no carro de apoio.

Já não teve tempo. Partiu de forma rápida no final do último mês de Janeiro. Enquanto eu estiver vivo, ele estará vivo também. Em cada decisão, em cada pensamento, em cada conversa, em cada página escrita, em cada projecto, em cada ideia. Porque as coisas que sei fazer são obra dele.

Era o meu pai. Tinha 67 anos.

segunda-feira

José Carlos Santanita Eleito Escanção do Ano





O escanção José Carlos Santanita foi galardoado com o título de "Escanção do Ano" pela Revista de Vinhos e recebeu o respectivo prémio concedido pelo Comendador Rui Nabeiro.

A cerimónia de entrega deste importante galardão, que marca de forma perene o reconhecimento da entrega de José Santanita àquele que é um dos mais importantes sectores empresariais Portugueses, aconteceu na Praça de Touros do Campo Pequeno, durante um jantar que reuniu cerca de 900 pessoas.

José Carlos Santanita está desde tenra idade no mundo da hotelaria e da restauração. Começou chefe de sala em várias unidades hoteleiras e restaurantes de grande qualidade no Alentejo e, mais tarde, tornou-se no primeiro escanção da Herdade do Esporão (Reguengos de Monsaraz), local onde também deu formação à equipa de Enoturismo.

José Santanita é bem conhecido pelo seu dom da palavra e pela enorme capacidade em transmitir conhecimento. Consegue entusiasmar plateias com o seu discurso e com os seus ensinamentos, que têm sempre como objectivo último permitir que cada um retire o máximo de prazer de um copo de vinho...

Actualmente e com o apoio de Sílvia Cardoso, José Santanita dá forma a um projecto aromático e saboroso na Adega das Mouras, em Arraiolos. A Wine Academy Portugal, empresa que tem a Educação Vínica como instrumento principal, dedica-se à promoção Nacional e internacional dos melhores vinhos Portugueses.

Este galardão, que se afigura de extraordinária importância por reconhecer o esforço, a dedicação e a qualidade que José Carlos Santanita empresta ao seu trabalho, é também um marco no reconhecimento da enologia e da gastronomia como instrumentos de suporte à requalificação do Turismo de Portugal, na senda da criação de uma oferta que conjugue os aromas, os sabores e as cores que dão forma à eno-gastronomia com tudo o mais que o nosso País tem para oferecer.

Os nossos sinceros parabéns ao José Carlos Santanita!

quinta-feira

A Quinta da Machada e o Plano de Pormenor da Cava do Viriato (Viseu)



Imagens da Quinta da Machada, na Cava do Viriato, em Viseu, captadas entre 1993 e 1997. Especial relevo para os imóveis designados como 'Casa Henrique Felgar' (Século XVIII) e 'Casa do Lago' (Século XVI), ambos integrados no perímetro de protecção daquele imóvel classificado e eles próprios registados no Inventário Nacional de Património efectuado pelo DGEMN (Direcção Geral de Edifício e Monumentos Nacionais). A 'Casa Henrique Felgar' está registada com o número PT021823280052 e a 'Casa do Lago' com o número PT021823280051 (ver informações detalhadas em www.monumentos.pt). Apesar do seu evidente interesse, e da sua participação em factos essenciais para a História de Viseu e de Portugal, ambos os imóveis estão em risco devido à falta de conhecimento e atenção que caracterizou a preparação do 'Plano de Pormenor da Cava do Viriato', assinado pelo Arqtº. Gonçalo Byrne para a Sociedade Polis Viseu. Ficam as memórias de um País que desperdiça a sua Identidade, despreza a Cidadania e cujo património está em risco de desaparecer...


sexta-feira

Vítor Adrião: A Ressureição de Portugal




Como resultado da segunda edição do "Curso Livre de Introdução à Portugalidade", que decorreu na ALA - Academia de Letras e Artes com o apoio da TOW - Travel Our Way, foi apresentado publicamente o livro "A Ressureição de Portugal" da autoria do investigador Vítor Manuel Adrião.

A cerimónia, em que participou o edil de Cascais António Capucho, foi presidida por António de Sousa Lara que sublinhou o interesse da obra no contexto de um Portugal abatido por uma onda de pessimismo que nada tem a haver com o carácter expressivo da História Pátria.

Na sua intervenção, o autor Vítor Adrião explicou o contexto em que decorreu esta segunda edição do curso, sublinhando que a presente obra é um testemunho da perenidade de uma Nação possuidora de um forte cunho sagrado e que, por isso, está condenada a ser pujante.

Contrariando todos aqueles que se tem dedicado a criticar, esfoliar e denegrir Portugal, esta "Ressureição de Portugal" é um testemunho franco, sapiente, sentido e sagrado da Alma deste País.

Mais uma obra-prima de Vítor Manuel Adrião, comprovando uma vez mais que, apesar das críticas e das polémicas em que o tentam envolver, é com toda a certeza um dos maiores vultos da Portugalidade no tempo actual.

quinta-feira

Os Banhos da Poça em São João do Estoril




Pouco tempo depois da realeza e da alta aristocracia se instalarem nas zonas nobres de Cascais e do Monte Estoril, a burguesia procurou um local para os seus tempos de veraneio. Entre a Poça e a Cadaveira, junto a um grupo de modestas habitações, nasceu com pompa e circunstância a povoação de São João do Estoril O edifício dos Banhos da Poça, ainda hoje existente, é o ex-libris principal daquele que foi o primeiro passo para a construção da Costa do Sol.

Quando Luís Filipe da Matta e Carlos Tavares, em 1890, constituíram uma sociedade para explorar os recursos hídricos da zona da Poça, onde era possível encontrar águas com propriedades medicinais notáveis, que curavam as doenças de pele e o reumatismo, mal imaginavam o contributo que estavam a dar para a constituição daquilo que hoje é commumente designada como a Vocação Turística do Concelho de Cascais.

De facto, e apesar desta iniciativa ter surgido como uma espécie de resposta burguesa à aristocrática Companhia Monte Estoril, que algum tempo antes dera início à urbanização do antigo Pinhal da Andreza (hoje a localidade do Monte Estoril), o núcleo habitacional que envolvia os Banhos da Poça já existia há algum tempo. No entanto, pela condição social e política dos seus habitantes, e também pelo carácter pouco ostentatório das suas casas, era considerado espaço de importância inferior no contexto da vivência social portuguesa do final do Século XIX.

Muito embora as águas da Poça fossem conhecidas desde há muito, existindo notícia do seu aproveitamento formal desde meados do Século XVIII, quando ali se construiu um modesto balneário, somente com Luís Filipe da Matta e o seu sócio se procedeu ao seu correcto aproveitamento. No início da última década do Século, edificou-se no local do antigo balneário um moderno edifício torreado e com ameias, ao jeito do carácter romântico que caracterizava a arquitectura de então. Interiormente, possuía grande qualidade terapêutica e condições logísticas que o colocavam entre os melhores do Mundo inteiro. Os quartos de banho com tinas de mármore, onde os doentes desenvolviam a terapêutica prescrita pelo Dr. Carlos Tavares – discípulo do famoso médico Sousa Martins – levavam longe a fama da qualidade daquele espaço, que possuía ainda um majestoso salão com 200 m2, um amplo estrado com um piano e uma mesa de bilhar e dois terraços com magnífica vista sobre a Baía de Cascais. De acordo com notícias da época, são milhares os visitantes que anualmente procuram a localidade de São João do Estoril.

Foi precisamente com a criação dos Banhos da Poça, empreendimento digno de uma nota especial pelo cuidado que os seus promotores colocaram na sua idealização, na sua concepção e na sua promoção, chegando a editar opúsculos de grande qualidade onde se publicitavam as virtudes das águas que utilizavam, que a povoação envolvente começou a crescer.

No dia 22 de Junho de 1890, como relatam Branca Colaço e Maria Archer nas suas “Memórias da Linha de Cascais”, o Presidente da Câmara Municipal de Cascais – Jaime Artur da Costa Pinto – inaugura formalmente a povoação. Para celebrar o acontecimento, realizou-se no Chalet Brito uma grandiosa festa, que reuniu a grande maioria dos habitantes da recém criada São João do Estoril. De acordo com Raquel Henriques da Silva, que teve acesso a fotografias do evento, o acto decorreu com carácter solene, tendo mesmo pavilhão real para acolher o Rei Dom Carlos e a sua esposa a Rainha Dona Amélia.

Pouco tempo depois, a viúva de António Marques Leal dá início à construção “por sua conta”, da estrada de ligação do apeadeiro de São João à zona da Cadaveira, dando ensejo à criação daquele que depressa se tornará o mais importante núcleo construído da moderna localidade.

Para a já mencionada investigadora Raquel Henriques da Silva, São João fica a dever o seu crescimento à abnegada intervenção de um grupo de endinheirados beneméritos que ali se instalou. A suas expensas, e procurando ultrapassar as dificuldades logísticas e financeiras do município cascalense, homens como Luís Gonzaga Reis Torgal, Manuel José Martins Contreiras, Watts Garland e Alfredo Júlio Brito, foram urbanizando e embelezando a localidade, a eles se ficando a dever grande parte dos modernos arruamentos de São João, bem como a colocação do mobiliário urbano que transformou a face da povoação.

Sem controle oficial das entidades competentes, e crescendo ao ritmo dos gostos pessoais dos seus ilustres proprietários, São João do Estoril vai conhecer assim uma enorme diversidade de estilos e uma originalidade construtiva que dificilmente encontra paralelo no território português, transformando aquele espaço num centro urbano interessante e completo.

Apesar de os Banhos da Poça terem sido abandonados pouco tempo depois, passando mais tarde à posse da Santa Casa da Misericórdia de Cascais, a quem continuam a pertencer, foram eles que despertaram a atenção dos munícipes daquela época, transformando-se numa espécie de cadinho que contribuiu para o florescimento do turismo português.

Muito embora sejam hoje pouco conhecidos dos cascalenses, e quase totalmente desconhecidos dos muitos turistas que permanentemente nos visitam, os Banhos da Poça são indubitavelmente uma das mais valiosas peças do património arquitectónico cascalense.

quarta-feira

O Veraneio em Cascais




Um clima e uma paisagem caracterizados por uma qualidade incomparável, aos quais se vem aliar um posicionamento estratégico sem igual no contexto Nacional, marcado pela proximidade face a Lisboa, e pela existência de excelentes condições de utilização dos seus vastos areais, fazem do actual Concelho de Cascais um espaço desde sempre atractivo para a ocupação humana.

A partir de finais do século XIX, sobretudo como consequência da intervenção urbana extremamente activa do Visconde da Luz, todas estas condicionantes evoluem recriando um espaço verdadeiramente apto a receber os novos visitantes. A construção da Estrada Marginal, que estabelece uma rápida e eficaz ligação a Oeiras e a construção do Caminho de Ferro até Pedrouços, criam novas acessibilidades que aproximam ainda mais Cascais da Capital.

A aristocracia de Lisboa, habituada a um ambiente seleccionado e a uma qualidade de vida a que se alia sempre o período de veraneio numa das longínquas praias da zona de Belém à Cruz Quebrada, passa a encontrar nesse locais , em consequências das transformações referidas, um número cada vez maior de lisboetas.

Cascais, e algum tempo depois os estoris, tornam-se assim o destino privilegiado da elite social dessa época. Suficientemente próximas de Lisboa para se tornarem acessíveis nos curtos espaços de tempo livre, e suficientemente distantes para garantirem a paz que o bulício da capital já não permitia, a Costa do Estoril assume-se definitivamente como a mais cosmopolita das terras de Portugal, para ali afluindo todos aqueles que valorizavam as suas características naturais e sociais.

Em 1870, quando o próprio Monarca D. Luís I, se instala na Cidadela de Cascais, é traçado em definitivo o destino turístico da localidade, facto que se consubstancia na introdução de uma série de inovações que fazem deste lugar um dos mais prósperos da época. A par da iluminação pública eléctrica , da rede de telefones, da electrificação do comboio, Cascais assiste à construção de um parque patrimonial sem igual.

As novas habitações, ostentando de uma forma marcante as origens sociais dos seus proprietários, vão tornar-se símbolos de uma nova sociedade, na qual a modernidade, o desenvolvimento e o progresso se assumem como elementos fundamentais. As características tipológicas das habitações desta época, inseridas num movimento de renovação da arquitectura europeia que altera radicalmente a paisagem das localidades portuguesas, recriam um ambiente em que a ostentação é demonstrativa de um novo estatuto.

Conhecer o Cascais de veraneio, no seio de uma amálgama de estilos que suportam uma sociedade muito própria, é reconhecer em cada um deste imóveis os traços marcantes de uma da memória daqueles que os projectaram e construíram o Portugal em que hoje vivemos.

O Veraneio Idílico em Paço d'Arcos




Depois de setecentos anos de História, Portugal percebeu que muito embora pareça separar, o destino do mar é reunir as pessoas. Com uma costa extraordinária pela extensão e pela beleza, somente a partir do Século XIX é que os portugueses se decidiram a aproveitar as potencialidades do seu Oceano. Paço d’Arcos, com a sua praia ilustre e as suas casas bonitas, foi das primeiras localidades portuguesas a transformar-se num moderno centro de veraneio.

Muito embora seja anterior a 1698, conforme se comprova pela inscrição existente no seu interior, a Igreja do Senhor Jesus dos Navegantes, em Paço d’Arcos, foi totalmente reedificada em 1877. Apesar do seu ar austero, e de um carácter eminentemente piscatório, foi o primeiro sinal visível da enorme e perene ligação que a localidade manteria em permanência com o mar.

Nos dias de temporal, quando as correntes e as ondas do mar se uniam para impedir o trabalho dos marinheiros, era na Igreja do Senhor Jesus dos Navegantes que todos se reuniam, rezando em uníssono pela melhoria das condições. Paço d’Arcos, nessa altura um mero lugar quase incógnito do Termo de Oeiras, estava marcado pelos arcos bem desenhados do seu palácio, rendendo-se inteiramente ao que de bom e de mau lhe traziam as ondas do Oceano.

A partir do Século XIX, quando as grandes cidades se vão transformando em espaços pesados com os resquícios das primeiras actividades industriais, o mar, o sol e a praia ganham outro valor, depressa se assumindo como a fuga possível às muitas epidemias e doenças que começavam a aparecer.

De acordo com Ana Gaspar, o alastramento da ideia de praia está directamente relacionada com os avanços na higiene pública, uma vez que a postura médica a define como método de profilaxia e tratamento de inúmeras doenças. A tuberculose, principal enfermidade desse tempo, mata cada vez mais doentes, transformando-se numa enorme praga que constrange a vida quotidiana e transforma mentalidades.

É precisamente nesta época e clima que Paço d’Arcos floresce, juntando ao seu velho palácio e à ancestral igreja, toda uma panóplia de novas construções que vão transformando por completo a face da vila. A inauguração do Caminho de Ferro entre Pedrouços e Cascais, em 1889, veio democratizar o acesso à água e ao mar, facto que ajudou a alterar ainda mais os hábitos requintados da velha aristocracia lisboeta.

Habituados a utilizar as praias semi-desertas dos subúrbios mais próximos da Capital, como Belém, Pedrouços ou Algés, os aristocratas lisboetas viram-se invadidos por inúmeros veraneantes de condições social diferente da sua que, com a modernização dos transportes, viam facilitado o acesso àqueles locais. Para todos os que não possuíam condições económicas para alugar casa junto à praia, os novos transportes representavam a possibilidade de passar alguns dias a banhos.

Procurando fugir do contacto pernicioso dos novos turistas, a aristocracia vai-se afastando de Lisboa, assumindo-se Paço d’Arcos como local privilegiado de veraneio. Pouco desenvolvida em termos estruturais, e por isso detentor da possibilidade de edificação de inúmeras habitações construídas de acordo com os mais modernistas valores da época, a localidade estava ainda bastante próxima da capital para permitir contactos rápidos em caso de necessidade, e suficientemente distante para resguardar o contacto social indesejado.

É nesta época distante que surgem em paço d’Arcos inúmeros chalets ao gosto suíço, bem como uma actividade comercial invejável, que satisfazia todos os desejos dos veraneantes. A publicidade, agora entendida como principal factor incentivador do usufruto destes espaços, é pródiga em anúncios que garantiam higiene, segurança e limpeza.

Unindo o útil ao agradável, as ilustradas senhoras de Lisboa encontravam em Paço d’Arcos as melhores profilaxias para os seus males, e uma sociedade ilustre e requintada que durante a noite se perdia por entre as inúmeras festas e espectáculos que por ali se realizavam. Ramalho Ortigão, nas suas “Praia de Portugal”, afirma ser Paço d’Arcos a praia aristocrática dos subúrbios de Lisboa: “... as caleches, os criados, as librés dos senhores ministros, as saute-en-barque de flanela e os chapéus canotier dos jovens senhores adidos de embaixada espargem nos passeios um aspecto de côrte, que os olhos admitidos aos grandes esplendores agradecem, bem como um perfume de moda que aceitam reconhecidos os narizes haut-placés”.

Para este clima festivo e aristocrático contribuía também a permanência em veraneio de El-Rei Dom Fernando e da sua esposa Condessa d’Edla, normalmente instalados no Palácio Bessone, junto ao rio. Esplendoroso, fino e delicado, são apenas alguns dos adjectivos utilizadas por Branca Gontha Colaço e Maria Archer quando descrevem o grandioso baile de despedida do ilustre Soberano numa das suas estadias em Paço d’Arcos.

Muito embora tenha perdido, em prol de Cascais e dos estoris, o esplendor de outros tempos, Paço d’Arcos continua a ser “a antiga praia das supremas elegâncias”.

O Paço dos Arcos: Mais de Meio Milénio de História





Com mais de quinhentos anos de uma História repleta de percalços, o Palácio dos Arcos, na Vila a que deu nome, é hoje um dos mais importantes bastiões do património oeirense. Embora muito alterado, devido a vicissitudes variadas que o afectaram, mantêm incólume a solenidade que lhe foi conferida pelos anos.

Embora muito afectado na sua volumetria original, uma vez que a construção do burgo de Paço de Arcos, da via férrea e da Estrada Marginal, lhe amputaram importantes parcelas de terreno, o Palácio dos Arcos mantêm viva a memória da vasta quinta que originalmente o envolvia.

De acordo com Rogério de Oliveira Gonçalves, a Quinta de Paço de Arcos terá sido uma das mais frondosas e magnificentes da zona ribeirinha de Lisboa, nela tendo caçado ou veraneado vasto número de governantes e figuras ilustres da aristocracia lisboeta.

Pertencendo no Século XV a D. Antão Martins Homem, 2º Capitão da Vila da Praia, nesta quinta esteve por diversas vezes em caçadas o Rei Dom Afonso V, antes da construção do actual palácio. Em 1490, no entanto, o edifício já estaria concluído, tal como se comprova documentalmente.

O carácter aristocrático desta propriedade é inquestionável. A família Homem, sua original proprietária, é a mesma que a dos Pereiras que, de acordo com Rogério Gonçalves, é antiquíssima, “procedendo dos reis Godos que floresceram com sucessão continuada, do ano 700 em diante”. D. Antão Martins Homem é, aliás, filho primogénito de D. Álvaro Martins Homem que, após ter misteriosamente desaparecido o primeiro Capitão madeirense, assume aquele importante cargo, sendo um dos principais responsáveis pela colonização do Arquipélago madeirense. No documento de doação, transcrito pelo já mencionado autor, D. Álvaro é integrado na “classe dos mais nobres e poderosos da Casa dos Infantes”.

Terá sido precisamente este carácter aristocrático que lhe assegurou um papel de destaque na vida política portuguesa. Entre 1490 e 1910, o Palácio dos Arcos foi reiteradamente visitado por diversos monarcas. Desde D. Manuel I, o Venturoso, que a tradição popular garante que foi dali que avistou o embarque das naus que seguiram para a Índia; passando pela sua filha D. Maria; por um dos Filipes; pela mulher de D. João V, D. Maria Ana da Áustria; e mais recentemente por D. Fernando II, o ideólogo da Sintra romântica; por D. Luís I e sua mulher D. Maria Pia de Sabóia; até D. Manuel II, que ali pernoitou em Setembro de 1910, pouco antes da implantação da república, para assistir a experiências militares; o Palácio dos Arcos foi sendo palco de inúmeros acontecimentos importantes na História de Portugal.

De acordo com os muitos estudos que se realizaram sobre o palácio, o seu aspecto actual não deverá ser muito diferente daquilo que tinha na época da sua construção. Apesar das muitas reconstruções que sofreu, e da terrível destruição promovida pelo terramoto de 1755, o Palácio dos Arcos mantém a solenidade que lhe é conferida por mais de meio milénio de História.

Sendo dignos de menção especial o tecto riquíssimo da sala principal, e o altar barroco feito de mármore italiano dedicado a Nossa Senhora do Rosário que os seus proprietários trouxeram do Convento das Marianas de Lisboa, extinto no Século XIX, o Palácio dos Arcos possui ainda uma original arcaria de suporte da varanda da fachada principal. De acordo com alguns estudiosos, este interessante pormenor, que aliás lhe confere o nome, é ainda originário do Século XV, surgindo amiúde nas representações que se conhecem do edifício.

Apesar do peso institucional que sempre possuiu, provavelmente por se situar suficientemente próxima de Lisboa para permitir um fácil acesso, e suficientemente afastada para garantir a privacidade que os soberanos tanto desejavam, a Quinta dos Arcos e o seu Palácio são mal conhecidos da generalidade dos oeirenses.
Só recentemente, após esforços empreendidos pelo edil local, o Palácio dos Arcos passou a ser propriedade da Câmara Municipal, preparando-se agora para assumir papel de destaque na vida cultural de Oeiras e do seu Concelho.

A Fortaleza de Nossa Senhora da Luz (Cascais)





Primeiro pedaço de terra a ser observado quando se chega de Lisboa por mar, e último quando se parte para viagens de descoberta, a Fortaleza de Cascais é assumidamente uma das mais importantes peças da guarda avançada da capital. Muito embora violada na sua memória histórica desde a construção da marina, que lhe retira por completo o sentido de existência, é hoje um espaço onde se mantêm viva uma parte importante da História de Cascais.

Perdida no seio de sucessivas intervenções, que construíram e reconstruíram as estruturas defensivas da Vila de Cascais, a Fortaleza de Nossa Senhora da Luz é apenas uma parte da totalidade dos edifícios existentes dentro do recinto hoje commumente designado como Cidadela.

Composta pela Fortaleza de Nossa Senhora da Luz; pelos restos da antiga torre que a precedeu; pela cidadela propriamente dita, construída no Século XVII por D. João IV; e pelo Palácio Real do final do Século XIX; o conjunto monumental formado por estes equipamentos é hoje um dos mais importantes bastiões do património edificado cascalense.

Apesar de os mais antigos livros sobre o desenvolvimento histórico da Vila e do Concelho de Cascais apontarem o reinado de Dom Manuel I, como marco cronológico para o início da construção da Fortaleza de Nossa Senhora da Luz, possivelmente devido ao registo feito nesse sentido nas Memórias Paroquiais de 1758 pelo Pde. Marçal da Silveira, Pároco de Cascais, parece certo que as obras terão decorrido em período diferente, como aliás o atestam os trabalhos arqueológicos que ali se desenvolveram coordenados pela historiadora Margarida Magalhães Ramalho.

De facto, e tendo em conta as características estruturais do edifício, com os seus baluartes defensivos, tudo aponta para que a sua construção seja posterior àquela data. De acordo com aquela historiadora, somente no Século XVI é que se começaram a utilizar as novas técnicas construtivas visíveis na fortaleza de Cascais: “É por demais sabido que a invenção e a primeira utilização do traçado abaluartado é de responsabilidade italiana, estando esta Escola, na primeira metade do Século XVI, a dar os seus primeiros passos”.

Tendo sofrido diversas modificações, que alteraram significativamente o seu aspecto exterior, o edifício conseguiu, no entanto, manter sempre vivas as memórias dos tempos anteriores. Profundamente intervencionada no decorrer do período filipino, e posteriormente no reinado de D. João IV, que edificou todo o recinto amuralhado exterior, a Fortaleza de Nossa Senhora da Luz surge já representada iconograficamente na figura de Bráunio, de 1572, a mais antiga imagem conhecida da Vila de Cascais.

Em 1755, quando o terramoto destruiu grande parte dos edifícios da localidade, a Fortaleza de Nossa Senhora da Luz, e a Cidadela de Cascais conseguiram sobreviver ao cataclismo, mantendo de pé as mais importantes partes da sua estrutura exterior. As intervenções arqueológicas levadas a cabo no interior da fortaleza permitiram perceber que, apesar de a sua fisionomia ter sido alterada pela introdução de novas soluções arquitectónicas, nomeadamente as janelas que acabaram por se incluir nas paredes outrora cegas da torre medieval, o acidente de 1755 não foi suficiente para derrubar as grossas paredes dos edifícios existentes.

As inovações introduzidas, permitindo uma adaptação daquele espaço às novas exigências militares do Século XVIII, mantiveram a função dissuasória do edifício. Após a intervenção de 1645, durante o reinado de D. João IV, a capacidade do contingente da fortificação passou para cerca de 3000 homens, governados pelo Conde de Cantanhede, D. António Luiz de Menezes, o que comprova a importância estratégica que desde sempre caracterizou a Vila de Cascais.

Com a construção da moderna marina que, apesar da contestação promovida pela generalidade dos cascalenses, acabou por envolver todo o recinto amuralhado, a Cidadela de Cascais e a Fortaleza da Luz perderam os seus horizontes atlânticos, transformando-se numa memória oca dos destinos marítimos de outros tempos.
Defraudada, delapidada, e envelhecida, com o seu velho palácio Real, e com os constrangimentos paisagísticos que os políticos de hoje lhe impuseram, a Fortaleza de Cascais merece ser devolvida, de forma definitiva e irreversível aos cascalenses.

O Forte de São Julião da Barra (Oeiras)




Quando despontam os primeiros raios de sol, nas frias manhãs do início da Primavera, o Forte de São Julião da Barra surge recortado no horizonte. Espécie de cenário fantástico de um qualquer espectáculo de teatro, o edifício alberga algumas das mais terríveis memórias da História de Portugal.

Quando D. Manuel desfrutava as vistas magníficas do Termo de Lisboa, em demorados passeios que se alongavam pelos mais pitorescos recantos dos actuais Concelhos de Cascais e de Oeiras, era comum lembrar-se de determinadas intervenções que, complementando a astúcia política do seu reinado, prolongaram a sua memória e imortalizaram o seu nome.

De acordo com o Memorial Histórico de Oeiras, terá sido este o caso do Forte de São Julião da Barra que, da sua estratégica situação geográfica, controla o tráfego marítimo na barra do Rio Tejo.

O principal motivo que levou D. Manuel a aconselhar o seu filho a iniciar a construção desta fortificação, mais do que o poderio militar que dele poderia retirar, foi o de instituir uma barreira dissuasória em situações de ataque de piratas e corsários. De facto, durante todo o reinado do monarca, foram-se tornando usuais as investidas deste tipo de atacantes à Cidade de Lisboa. Sem qualquer pejo pelas envelhecidas sentinelas da capital, totalmente obsoletas devido ao desenvolvimento técnico dos barcos e das novas armas entretanto desenvolvidas, os meliantes avançavam intrepidamente pelo Tejo, até atingirem os mais cruciais pontos nevrálgicos da actividade mercantil que utilizava o rio como espaço privilegiado de actuação.

Ao longo dos anos, e com excepção de 1831, quando uma armada francesa utilizou a prisão de um cidadão daquele País como pretexto para intervir militarmente e desprestigiar o popular Governo do Rei absolutista D. Miguel, foram muito raras as utilizações militares do Forte de São Julião da Barra.

O seu aspecto imponente, e uma monumentalidade que ainda hoje impõe respeito junto de todos quantos o observam no horizonte, criam uma aura de inexpugnabilidade que dissuade possíveis ataques ao forte.

Mais do que pelo seu cariz militar, São Julião da Barra é conhecido e reconhecido pelo facto de ter sido, ao longo de muitos dos mais críticos períodos da História de Portugal, uma prisão de Estado, onde se encerravam em masmorras terríveis alguns dos mais acérrimos opositores dos regimes políticos vigentes.

De acordo com Carlos Pereira Calixto, autor de uma conhecida obra sobre as fortificações marítimas do Concelho de Oeiras, é precisamente a notoriedade dos prisioneiros encerrados em São Julião da Barra que confere o estatuto de tenebroso a este forte: “ [...] tanto no tempo dos Filipes, como na Restauração, com Pombal no governo, ou nos princípios do Estado Novo, nas masmorras desta fortificação existiram detidos militares políticos, eclesiásticos e civis, como em 1640 D. Fernando Mascarenhas, Conde da Torre, detido pelos espanhóis, ou o Arcebispo de Braga, D. Sebastião de Matos Noronha, envolvido na conspiração contra D. João IV, aí falecido, e sepultado a 26 de Outubro de 1644 na Capela do Santíssimo Sacramento da Igreja da fortaleza”.

A fama de São Julião – a Torre – como era conhecido o forte nos meios mais contestatários da Lisboa do Século XIX, ficou também a dever-se ao carácter sangrento de alguns dos seus mais conhecidos directores. Na sua obra “Portugal Contemporâneo”, na qual pretende descrever com alguma profundidade alguns aspectos relevantes da vida política dessa época, Oliveira Martins menciona amiúde a Torre de São Julião da Barra. Em termos sarcásticos e teatrais, refere que mais do que em qualquer prisão portuguesa, era ali que se desenrolavam os episódios mais fulgurantes da “carnificina” absolutista de então: “[...] o limoeiro era para os presos políticos uma estação provisória. O seu armazém estava na barra do Tejo, em São Julião, confiado à guarda de um cérebro fiel, honrado, e bruto, entusiasticamente cruel: o Teles Jordão”.

Foi de São Julião da Barra que, na manhã de 18 de Outubro de 1817, saiu o General Gomes Freire de Andrade para a forca que o esperava no terreiro circundante. E foi também nesse espaço, aproveitando o cenário terrífico das paredes de pedra, que muitos lisboetas assistiam com pasmo aos pedagogicamente preparados espectáculos executórios com que os governos controlavam a sua insatisfação.

Temido para uns; de má memória para outros; o certo é que o Forte de São Julião da Barra é uma das mais importantes e magníficas peças do património histórico do Concelho de Oeiras.

A Vivenda Miramonte: Um Repositório de Memórias do Monte Estoril





Apesar do seu aspecto rústico e quase inconsistente, a Vivenda Miramonte, situada na Rua do Lido, no Monte Estoril, é hoje um dos principais bastiões da memória urbana daquela localidade. Rodeada dos seus torreões e da cocheira que ainda hoje guarda os vestígios empoeirados dos últimos cavalos que ali pernoitaram, a Vivenda Miramonte foi a casa de José Dias Valente, fundador e Director do Colégio João de Deus, e personagem incontornável na História do Monte Estoril.

Construída já no início do Século XX, mas aproveitando os resquícios de um movimento romântico que o Monte Estoril nunca rejeitou, a Vivenda Miramonte é hoje um dos paradigmáticos exemplos da memória urbana do Concelho de Cascais.

Rodeada de um pequeno castelo, recriando o carácter altaneiro dos torreões que decoravam as vivendas mais eruditas, a Vivenda Miramonte complementa um quadro geral de que fazem parte da Capela, a garagem e o edifício das cocheiras. Do cimo dos seus mirantes, e fazendo jus ao nome da própria casa, o Monte Estoril surge em todo o seu esplendor, tornando invisíveis os muitos problemas que agravam paulatinamente a qualidade de vida naquele lugar.

Utilizando profusamente os valores arquitectónicos entendidos como tipicamente portugueses, dos quais se destacam o telhado de beiral duplo e o painel azulejar com a identificação do imóvel, a Vivenda Miramonte reúne as características próprias da habitação erudita de Cascais e a sublime singeleza das aldeias rurais do termo de Lisboa, produzindo um efeito cenográfico exemplar, que transforma este imóvel numa espécie de duplicação adaptada daquilo que eram os valores tradicionais da portugalidade.

A importância da Vivenda Miramonte, no entanto, não se fica por aqui. Para além dos aspectos relacionados com as suas características físicas, foi ali que habitou durante várias décadas o antigo fundador e Director do Colégio João de Deus.

José Dias Valente, detentor de uma inteligência invejável e de uma capacidade de concretização sem par, foi sempre considerado pelos que o conheciam como uma das principais referências do Monte Estoril.

Pelo Colégio João de Deus, durante vários anos o único estabelecimento de ensino liceal existente na Linha de Cascais, passaram muitas gerações de portugueses que contactaram e conheceram de perto o carácter do seu Director. Conhecido pela rectidão e pelo aprumo que dedicava aos seus afazeres, Dias Valente demonstrou sempre ao longo da sua vida que os valores que o norteavam se sobrepunham a quaisquer outras necessidades.

Como contava amiúde o Dr. Mário Quina, amigo próximo de Dias Valente e médico do Colégio João de Deus, em certa altura, logo no início da sua carreira académica, quando era ainda um mero principiante no curso de letras da Universidade Clássica de Lisboa, foi-lhe marcado um teste escrito logo para a manhã. No decorrer da prova, e perante a estupefacção dos seus colegas, o professor reparou que ele não estava a escrever, questionando-o sobre o que se passava. A resposta, imediata e fulgurante, não se fez esperar: “ainda não estou preparado”. O mestre, como é evidente, não gostou do que ouviu e a crítica foi imediata. Enchendo-se de brios, Dias Valente responde-lhe simplesmente: “Para aprender a sua matéria chegam-me 24 horas”. “Então” – disse-lhe o professor – “venha amanhã a exame”. Como era seu hábito, passou a noite a estudar e, no dia seguinte fez uma excelente prova, cujo mérito foi publicamente reconhecido.

Ao acabar o curso, e por discordar do sistema vigente, pretendeu defender uma tese sob o tema “A Escola Normal Superior Deve Ser Encerrada Por Imoral”. Como é fácil de perceber, a teses nem sequer foi aceite, facto que se traduziu numa espera de mais dois anos pela licenciatura, até que, de facto, a Escola Normal Superior fosse encerrada.

Todos estes factos, aliados à necessidade premente que o Monte Estoril possui de conseguir recuperar as características próprias da sua antiga qualidade, impõem a recuperação das memórias associadas às casas, às ruas e aos recantos da povoação.

Se assim não se fizer, corre-se o risco de desaparecerem as estórias que deram forma à História dos Estoris.

A Capela de Laveiras: Uma História de Vontade




Insignificante do ponto de vista da monumentalidade que caracteriza grande parte dos edifícios de culto religioso da região de Lisboa, a Capela de Nossa Senhora das Dores, situada na povoação oeirense de Laveiras, é hoje um importante marco patrimonial daquele concelho. As vicissitudes muito próprias da sua História, demonstrando que, muitas vezes, a vontade colectiva é mais importante do que os percalços políticos pontuais, transformam-na em mais um repositório de memória que contribui para a consolidação da cidadania daquele que habitam nas suas redondezas.

Situada numa das mais interessantes povoações de cariz saloio do Concelho de Oeiras, a Capela de Nossa Senhora das Dores é um marco inestimável do poder de concretização que deriva da vontade popular.

Sem que se conheça com exactidão a data da construção original, que com toda a certeza deverá ser anterior ao Século XVII, este edifício situa-se na povoação de Laveiras, tendo sofrido ao longo dos anos variadas campanhas de obras que, sem lhe retirarem a simplicidade original, conseguiram mante-la num excelente estado de conservação.

Contrariamente àquilo que aconteceu com a generalidade dos edifícios religiosos portugueses, que atravessaram de forma complicada os tumultos provocados pelas diversas crises políticas que o País sofreu, a Capela de Laveiras possui uma história sui generis, que lhe confere um estatuto patrimonial diferente.

De acordo com J. de Vilhena Barbosa, que editou no final do Século XIX algumas notas sobre um possível roteiro de Lisboa, no qual incluía Oeiras e o seu Concelho, a Capela de Laveiras é “muito antiga nas suas origens”. Sem precisar datas ou nomes, o autor refere o Século XVII como a marca temporal mais exacta para a sua edificação, sublinhando ainda que a ajuda régia foi fundamental para, em conjunto com o empenho da população, se criar ali um núcleo cultual que servisse toda a envolvência.
Segundo Rodrigues Soares, autor dos textos que integram o livro “Retratos de Oeiras”, a edificação da Capela antecede a criação da própria Irmandade de Nossa Senhora das Dores, que foi formalizada somente em 1812.

Dessa data em diante, e uma vez mais contrariando a História de quase todos os templos existentes naquela época, a Capela de Laveiras, conhece um período de enorme prosperidade, uma vez que a recém criada Irmandade, para além dos assuntos relacionados com o culto e com a manutenção do edifício, desenvolve significativo trabalho educativo na região, criando em seu torno uma escola, e diversas actividades sociais.

É neste clima de laboriosa entrega que a Capela conhece os períodos difíceis do liberalismo e da perspectiva anti clerical do Estado, factores que, no entanto, acabaram por não afectar a fiel comunidade católica de Laveiras.

Mesmo com o incêndio que praticamente a destruiu no ano de 1870, a Capela de Nossa Senhora das Dores de Laveiras foi totalmente reconstruída, tendo inclusivamente sido ampliada na mesma época, e reabriu ao público em 1889, tal como consta de uma inscrição apensa numa das suas paredes exteriores.

Nessa recuperação desempenhou uma vez mais papel de relevo o Estado que, através do então Ministro das Obras Públicas, Emídio Navarro, auxiliou a Irmandade nas obras em curso.

Apesar das suas diminutas dimensões, e de ter perdido a utilização cultual em prol da capela do Convento da Cartuxa, em Caxias, a Capela de Laveiras manteve-se sempre como símbolo fundamental da vivência religiosa oeirense.

No início de um novo Século e de um novo Milénio, quando quase toda memória histórica e social das antigas aldeias dos arredores de Lisboa se está a perder como consequência do desenvolvimento de uma terceirização que transforma os arredores da Capital em meros dormitórios sem marca e sem passado, a Capela de Laveiras, assume-se como marco indiscutível de uma forma de estar na qual o Concelho de Oeiras desempenhou um papel fundamental.

A preservação deste monumento, bem como o necessário reenquadramento urbanístico que ele exige, garante aos habitantes locais a possibilidade de rentabilizarem a sua memória, promovendo uma socialização mais natural e efectiva, que contribua para a qualidade de vida de todos quantos ali têm a honra de viver.

O Palácio do Marquês de Pombal (Oeiras): As Memórias do Espaço





Mais do que o seu estilo, características arquitectónicas ou disposições urbanísticas, os edifícios que compõem o património histórico oeirense assumem-se como repositórios de memória, deixando transparecer os resquícios de todas as vidas que por eles passaram.

Situado no cerne da actual Vila de Oeiras, e funcionando como o grande catalisador do desenvolvimento moderno da localidade, o Palácio do Marquês de Pombal é um dos mais significativos monumentos arquitectónicos da Área Metropolitana de Lisboa.

A sua memória mesclada com a aura fulgurante do primeiro proprietário, Sebastião José de Carvalho e Melo, polémico Primeiro-Ministro do Rei Dom José, dilui-se na biografia mítica do velho governante.

Apesar da elegância do projecto da autoria do Húngaro Carlos Mardel, que consagrou através deste edifício os mais modernos princípios arquitectónicos da Europa das Luzes, o Palácio do Marquês de Pombal é definitivamente marcado pela sua fantástica capacidade de se integrar no espaço envolvente, abarcando os valores urbanísticos da velha Oeiras, e projectando-os através da promoção da paisagem natural envolvente.
A responsabilidade da ideia, apesar de concepção de Mardel, fica a dever-se sobretudo à Condessa Leonor Daun, segunda mulher de Pombal, e principal impulsionadora da construção do grande conjunto edificado.

São as memórias desta mulher, um pouco encobertas pela extraordinária competência política do seu marido, que ainda hoje subsistem no palácio. De facto, quer no edifício principal, quer mesmo nos conjuntos adjacentes, hoje profusamente utilizados pela Câmara Municipal de Oeiras, é possível encontrar os vestígios sublimes do ambiente vienense do Século XVIII que a Condessa procurou recriar neste espaço.

A conjugação da sensibilidade da sua ideóloga, com o saber técnico e artístico do arquitecto, e sobretudo com a grande capacidade concretizadora do seu proprietário, transformam o Palácio do Marquês de Pombal num dos mais ilustrativos exemplos de urbanismo iluminado em Portugal.

A Vila de Oeiras, habituada a viver à sombra do ilustre governante, foi também ela directamente afectada pela sua construção. De facto, não só nos espaços envolventes ao palácio, como principalmente no núcleo histórico da localidade, são inúmeros os exemplos dos benefícios herdados de Pombal que, principalmente após o grande terramoto de 1755, passou a habitar definitivamente na sua casa de Oeiras.

O fulgor desse período, bem visível na atribuição do Foral Novíssimo de 1760 e, depois, na realização da grande exposição agrícola de 1775, consagra-se com a sua utilização pelo próprio monarca. Por sofrer de grandes males que o obrigavam a frequentar diariamente as milagrosas águas termais do Estoril, e sobretudo por não existirem em Cascais habitações com qualidade suficiente para receberem a Corte, foi no Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras, que esteve o Rei Dom José durante um ano, transformando a recém-criada Vila na capital política do País.

A memória do espaço oeirense, sujeita às vicissitudes que acompanharam o percurso final da vida do seu ilustre Senhor, absorve também ela o desânimo, o abandono e a degradação que acompanhou Pombal no seu exílio forçado.

Esquecida por quase todos, e uma vez mais sujeita aos laivos da lembrança do antigo braço direito de Dom José, Oeiras vai perdendo o seu estatuto, e deixando degradar a herança histórica que este lhe havia legado. Até há uns anos, quando a Câmara Municipal decidiu retomar a promoção da ilustre povoação, Oeiras permitiu que grande parte dos seus valores desaparecessem nas mãos ignóbeis de saqueadores desconhecidos. O Palácio do Marquês de Pombal, altaneiro na sua elegância, assistiu impavidamente à destruição progressiva dos seus pertences.

Só recentemente, fazendo jus àquilo que Oeiras conseguiu ser no tempo de Pombal, a edilidade local reiniciou o processo de requalificação do local, centrando no espólio arquitectónico do Século XVIII a marca de um passado que nem mesmo a passagem dos anos consegue apagar.

A memória do Palácio do Marquês de Pombal, atravessando transversalmente as malhas inexoráveis do tempo, impôs a Oeiras o seu caminho. Independentemente de tudo o que de bom ou de mal possa suceder àquela Vila, este conjunto edificado assumir-se-á sempre como o sustento de uma memória que Oeiras nunca irá perder.

Sintra Serra Sagrada: Uma Viagem aos Arquétipos da Portugalidade com Vítor Adrião

Sintra Serra Sagrada: Uma Viagem aos Arquétipos mais Profundos da Portugalidade guiada pelo conhecimento profundo de Vítor Manuel Adrião - Presidente da Comunidade Teúrgica Portuguesa. Nas faldas da montanha sagrada de Sintra, na qual a Lua e o Sol se conjugam para facultar à humanidade o equilíbrio e a harmonia necessários à vida, estão reveladas as pistas que permitem conhecer Portugal. Um passeio da Fundação Cascais, a convite do Presidente da CTP com a participação de Isabel Magalhães, Carlos Olavo e João Aníbal Henriques.

sexta-feira

António Duarte d'Almeida Veiga: Souvenir de Mon Ascencion au Sommet de la Tour Eiffel en 1889



Quando o Português António Duarte d'Almeida Veiga (Escrivão Norário em Benavente - Ribatejo) subiu à Torre Eiffel, em Paris, em 1889...


Cascais Natura: Excelência Ambiental e Pedagógica no Parque das Penhas da Marmeleira (Murches)







A Câmara Municipal de Cascais, através da empresa municipal Cascais Natura, inaugurou o novo parque urbano das Penhas da Marmeleira, em Murches.

A iniciativa, que surge na sequência de um ambicioso projecto de requalificação do Parque Natural de Sintra-Cascais, integra-se num conjunto de obras que começaram com a reflorestação da zona a nascente do Zambujeiro, a criação do Parque da Pedra Amarela, e a recuperação ambiental e paisagística da Quinta do Pisão.

No espaço em questão, com uma beleza paisagística impossível de descrever e até agora atulhado com milhares de toneladas de lixo que ilegalmente era ali depositado, a edilidade criou uma infraestrutura de excepção. Gerando acessibilidades para que os Cascalenses possam aceder àquela zona (que são muito poucos os que até agora a conheciam), a assim reforçar os laços de cidadania essenciais à criação da nossa identidade municipal, o Parque da Marmeleira possui ainda um percurso interpretativo verdadeiramente deslumbrante.

Para as crianças, um parque infantil inovador e de cariz ecológico, enquadrado numa paisagem de forte pendor educativo, é motivo mais do que suficiente para incentivar o usufruto, o interesse e o respeito pela natureza, possuindo um impacto de tal maneira evidente que com toda a certeza será um importante contributo para a gestação da próxima geração de Cascalenses.

Relembro com satisfação, as palavras que a Fundação Cascais publicou em 1999 quando se iniciou o processo de revisão do Plano Regulamentar do Parque Natural de Sintra-Cascais, que sugeriam a transformação dos depósitos de entulho e dos canais verdes ao longo das ribeiras, em percursos interpretativos e em zonas verdes com acessos facilitados à população. Considerávamos, nessa altura, que esse seria o único caminho em direcção à criação de um Cascais socialmente saudável e coeso, no qual Identidade e Cidadania fossem a pedra fulcral na consolidação dos laços comunitários.

Com este projecto, e de forma verdadeiramente excelente, a Câmara Municipal de Cascais e principalmente a agência Cascais Natura, não só cumpriram esse desiderato como o fizeram de uma forma que dignifica Cascais e valoriza aquele que é, por exclusão de partes, um dos últimos redutos de qualidade que o Concelho ainda pode explorar.

Dadas as suas características; qualidade de construção; enquadramento; beleza paisagística; riqueza ambiental; diversidade biológica; etc. quase me atreveria a sugerir que a visita passasse a ser de inclusão obrigatória nos planos de estudo das escolas do Concelho...

Parabéns aos promotores da iniciativa!