segunda-feira

A Ermida de Nossa Senhora da Conceição de Porto Côvo





Construída em 1760 a mando de 'Luís Mendes' e sua esposa 'Izidora P.', a Ermida de Nossa Senhora da Conceição de Porto Côvo situa-se na Quinta do Pisão, na Freguesia de Alcabideche, Concelho de Cascais.

Tendo sido construída com intuito vocativo, uma vez que a mando dos seus fundadores é ainda hoje possível encontrar, numa cartela colocada sobre o lintel da porta, uma inscrição indicando a vontade expressa de manutenção de uma memória que seria perpectuada através das missas que decorreriam todos os domingos e dias santos, o edifício em questão é mais um digno exemplar da obra reconstrutiva do património religioso cascalense após o terramoto de 1755.

Não deixa de ser curiosa a escolha de Nossa Senhora da Conceição para sua padroeira, uma vez que se trata de um edifício sepulcral. O dogma da Imaculada Conceição, fixado por Bula do Papa Pio IX, em 1854, prende-se normalmente com a atribuição a espaços relacionados com o nascimento, incentivando a ideia de pureza e da pré-existência de alguém na mente de Deus. Esta ideia está presente na iconografia religiosa Cristã desde o início da Idade-Média, consubstanciando-se na Virgem Pré-Existente, que foi mãe e esposa de Deus antes da criação de Eva. O capítulo 12 do Apocalipse de São João, por exemplo, descreve-a como um sol raiado de sete estrelas com uma lua aos pés, sendo curiosa a analogia existente entre esta simbólica e a decoração das habitações tradicionais das zonas rurais de Cascais, onde a temática lunar se afirma como fundamental.

O significado do termo 'Ermida', implícito na sua localização num terreno ermo, por certo influenciou largamente a sua estrutura, uma vez que as dificuldades físicas apresentadas pelo terreno, obrigaram à construção de um grande muro de contenção de terras que a protege e rodeia.

Os ritos de fundação de edifícios Cristãos revestiram-se, desde os tempos primitivos, de procedimentos simbólicos em que a Cidade de Jerusalém se assumia como eixo do Mundo, devendo orientar todos os locais de culto. Era normal, no mundo Cristão, orientar a disposição dos jacentes em direcção a Oriente, pretendendo-se assim que o defunto pudesse olhar o sol nascente no momento do Juízo Final. Tal, no entanto, não é o caso da Ermida de Nossa Senhora da Conceição de Porto Côvo, cuja cabeceira se encontra no sentido SE-N, contrariando a disposição mais comum e, desta forma, alicerçando a hipótese de a sua construção resultar de um aproveitamento de um local já sacralizado e, possivelmente, onde se encontraria previamente um outro monumento de culto.

A ermida apresenta uma concepção de espaço que responde à sua funcionalidade. De pequenas dimensões, tem uma simplicidade de formas nos frisos e pilastras que conjugada com outros efeitos decorativos, lhe imprimem algum dinamismo e um efeito cenográfico contido e sóbrio.

Ao entrar sobressai à vista a abóboda de berço da cobertura, ainda em estado suficientemente razoável de conservação para nela se poderem vislumbrar uns restos de frescos polícromos, que contrastam com as cores azul e branco daquilo que resta dos azulejos do altar.

No centro da capela foram sepultados os encomendadores do edifício, cobertos por uma lápide que, apesar do lastimoso estado de destruição em que se encontra, fruto de pilhagens sucessivas que se ficam a dever ao abandono em que a propriedade esteve durante muitos anos, ainda apresentam curiosos signos decorativos, provavelmente de origem iconográfica pré-clássica. São de realçar, pelo impacto que posteriormente assumem em muitos edifícios religiosos da zona rural de Lisboa, aqueles que se baseiam na ideologia egípcia, como a flor-de-lótus e a roseta. No Egipto antigo o lótus faz parte de uma das cosmogonias conhecidas. Nascido das águas primordiais, foi, por sua vez, o berço do Sol. A roseta, por seu turno, é um motivo alegoricamente relacionado com o astro principal, simbolizando a ideia de imortalidade. Na mitologia egípcia Aton é representado por um disco solar, do seio do qual, através dos olhos, saíram os primeiros homens.

Se associarmos tudo o que foi dito, podemos concluir que a Ermida de Nossa Senhora da Conceição de Porto Côvo, com toda a pujança de uma situação geograficamente estranha e de um sistema decorativo propício ao estabelecimento de relações trans-cultuais, se relaciona definitivamente com alguns dos mais antigos e importantes cultos da Ibéria pré-Cristã.

Em termos urbanísticos, e se uma investigação arqueológica fosse levada a efeito, visível se tornaria a possibilidade de a mesma resultar de um processo de adaptação do espaço face a cultos anteriores que ali foram desenvolvidos.

sexta-feira

O Euro, a China e o Futuro de Portugal




Foi hoje tornado público em Portugal, que o “sucesso” da oferta de dívida pública que o estado português colocou esta semana se ficou a dever ao facto de a China ter aceite participar mediante a abertura do capital da GALP aos empresários chineses.

Teoricamente pouco relevante, basicamente porque já todos sabíamos que era intento do actual primeiro-ministro ir ao Oriente buscar algum apoio a este nível, é no entanto um dos mais importantes dados dos últimos tempos se o integrarmos no contexto europeu.

Incapaz de responder aos muitos desafios que vão surgindo no horizonte, a Europa percebeu finalmente que não será fácil recriar-se em torno de uma federação pacificamente aceite pelos países da periferia e, acima de tudo, entendeu que toda a estratégia desenvolvida pelos países ditos mais desenvolvidos de investir nos PIGS de forma a conseguir controlá-los daqui a algum tempo, está definitivamente comprometida.

Ou seja, com a entrada da China no capital da GALP existem três constatações que deveremos reter: a primeira é a de que existem alternativas ao domínio que a Alemanha e a França pretendiam desenvolver sobre nós como contrapartida à “ajuda” que nos dariam para resolver o problema do défice que temos com eles; em segundo lugar, que o Euro que nos impingiram como sendo essencial para desenvolver Portugal só serve para consolidar o poderio federalista desses países, colocando em causa a soberania dos países a que eles chamam “periféricos”; e em terceiro lugar, para desespero da generalidade dos eurocratas, comprova-nos que sem este Euro, numa Europa de estados soberanos e livres de pactos e tratados que Franceses e Alemães nos impuseram, ficam eles próprios incapazes de responder economicamente às economias emergentes.

Resumindo e concluindo: estão a mentir aos Portugueses. A Europa que nos venderam enquanto protectora e sinónimo de transparência, rigor e lealdade no relacionamento entre os estados, é exactamente o contrário disso.

O caminho de Portugal, colocado na cabeça de uma Europa voltada ao Atlântico e estrategicamente posicionado como porta de entrada de todas estas economias novas e verdadeiramente mais transparentes, deve ser em direcção à assumpção da sua soberania Nacional.

Com esse rumo, encontraremos certamente mais oportunidades de crescimento e afirmação do que no contexto de uma Europa federada que vai, efectivamente, espezinhar e destruir os interesses dos Portugueses.

quinta-feira

Leilão Pírrico de Portugal




O Prémio Nobel da Economia, Paul Krugman, dedicou a sua intervenção de hoje no blogue que publica no Jornal The New York Times a Portugal. Fá-lo, obviamente, analisando a emissão pública de dívida que o estado português ontem lançou e que, mercê dos seus resultados, deixou eufóricos os nossos governantes e um pouco mais relaxados os nossos vizinhos espanhóis e as instâncias governativas da Europa.

Segundo ele, não existe razão de festa nos resultados ontem alcançados por Portugal nos mercados. A taxa de juro cobrada, embora um pouco inferior àquela que se conseguiu no final de 2010, está substancialmente acima das reais capacidades que Portugal tem de a pagar. Ou seja, para Krugman, a euforia e o optimismo gerados pela operação de ontem é demonstrativa do caos e da situação do mais completo desespero em que se encontra a Europa.

Para o economista, os países da periferia europeia estão há muito tempo condenados ao falhanço. Isto porque, tal como aconteceu com o General Romano Pirro, depois de ter ganho uma batalha na qual morreu a maioria das suas tropas, só resta esperar por mais uma ou duas destas “vitórias” para que a êxito da guerra fique totalmente comprometido.

Aquilo que o Estado Português ontem alcançou, foi um suspiro de alívio momentâneo na pressão da Europa para que Portugal assuma o descalabro político-económico em que se encontra. Daqui a dez anos, quando esta dívida vencer, cá estaremos nós os cidadãos, para a pagarmos à força acrescida de juros de 6,7 %.

E onde estarão nessa altura aqueles que agora nos endividaram?

terça-feira

As Fundações de Portugal




Até há cerca de 37 anos, era normal e corrente apontar 1143 como o ano da Fundação de Portugal. Marcava-se assim que formalizava o nascimento deste País e, acima de tudo, definia-se um período a partir do qual da nacionalidade se impôs a todos aqueles que habitavam neste rectângulo situado no extremo Ocidental de uma Europa completamente trespassada pelas crises sucessivas e por problemas irresolúveis em termos da gestão dos poderes vigentes.

Em 2011, mercê de um extraordinário trabalho de investigação efectuado pelo Diário de Notícias, ao qual se está a conceder pouca importância mas que é a mais cabal explicação para a situação de caos político-económico em que vivemos, ficámos a saber que existem 640 fundações de capital público em Portugal e que, desde 2008, foram criadas 88 novas fundações a um ritmo de uma a cada doze dias.

Como bem sabemos, a figura jurídica subjacente à criação da uma fundação é o fundo, normalmente legado por um fundador, para perpectuar um trabalho ou projecto numa área específica de interesse.

Ora não é nada disso que acontece com as ditas fundações públicas. Criadas por iniciativa do estado, são fundadas sobre fundos que pertencem ao contribuinte, ou seja, a cada um de nós, subvertendo assim o carácter dessas instituições.

Ao fazer isso, o estado está a enganar os cidadãos. Em primeiro lugar porque utiliza o seu dinheiro para criar essas estruturas num acto para o qual não foi mandatado, sem disso prestar as devidas contas e sem consultar aqueles que deveria representar. Depois, porque ao pagar os seus impostos, o cidadão fá-lo precisamente para se assegurar que existem os meios suficientes para que a estrutura estatal funcione e, dessa forma, possa cumprir o principal objectivo para o qual o estado existe: trabalhar para o cidadão.

Existem duas explicações possíveis para a criação de uma fundação pública a cada doze dias que passam numa época de profunda e grave crise que põe até em causa a Soberania Nacional: ou o estado assume que é incapaz de cumprir as obrigações para as quais os Portugueses o mandataram, e assim cria as fundações para suprir essas deficiências, e nesse caso – por ser incapaz – deveria ser pura e simplesmente despedido; ou, noutra perspectiva, cria as ditas fundações pura e simplesmente para assegurar que existe uma rede de cargos, lugares e posições que distribui ao conjunto de apoiantes do partido que o suporta e, nesse caso, deve ser despedido por estar a servir-se dos bens públicos em proveito próprio.

Em qualquer das situações, e volto a repetir que desde 2008, em plena crise que coloca em causa a Soberania Nacional e a verdadeira fundação de Portugal em 1143, se criaram 88 fundações por iniciativa pública, estão a enganar os Portugueses.

quarta-feira

Duarte d'Almeida - Decepado por Portugal




Numa época de profunda anomia como é aquela que actualmente atravessamos, na qual são poucos aqueles que ousam pensar e agir em acordo com a sua consciência e em nome de princípios e valores que são essenciais à vida, assumem especial importância os exemplos dos que foram capazes de se transcender em nome de Portugal.

O ser capaz de oferecer a própria vida sem esperar recompensa alguma, sempre sentido que vale mais morrer vivendo do que viver morrendo, é uma qualidade rara mas que surgiu pontualmente e em momentos muito importantes ao longo da nossa História.

Pouco conhecido na actualidade, apesar de a sua História de Vida ter sido contada e recontada como exemplo em inúmeros livros ao longo de muitos séculos, Duarte d’Almeida – o Decepado de Toro – foi figura central no Portugal do Século XV. Com a sua coragem, entrega e motivação, ofereceu a Portugal a possibilidade de se manter livre e independente, criando simultaneamente as condições necessárias para que se concretizassem os grandes feitos das descobertas.

Importa conhecer, perceber, compreender e aprender com a História de Duarte d’Almeida num início de século ávido de heróis que sejam capazes de oferecer as suas mãos para salvar este nosso Portugal…

Filho de Pedro Lourenço de Almeida e Alferes-mor de D. Afonso V, ficou conhecido na história pela alcunha do Decepado.

Ganhou notoriedade na batalha de Toro, em 1 de Março de 1476, que colocou frente-a-frente as tropas portuguesas e castelhanas, devido aos seus actos de abnegação, valentia e heroísmo.

A luta foi enorme; as quatro grandes divisões castelhanas, vendo os seus em perigo, acudiram a auxiliá-los, ao mesmo tempo que o arcebispo de Toledo, o conde de Monsanto, o duque de Guimarães e o conde de Vila Real avançavam em socorro dos portugueses.

Subjugados pela superioridade do número, os portugueses caíram em desordem, abandonando o pavilhão real. Imediatamente, inúmeras lanças e espadas o cobrem, e todos à porfia pretendem apoderar-se de semelhante troféu. Duarte de Almeida, num supremo esforço, envolto num turbilhão de lanças, empunha de novo a bandeira, e defende-a com heróica bravura. Uma cutilada corta-lhe a mão direita; indiferente à dor, empunha com a esquerda o estandarte confiado à sua Honra e lealdade; decepam-lhe também a mão esquerda; Duarte de Almeida, desesperado, toma o estandarte nos dentes, e rasgado, despedaçado, os olhos em fogo, resiste ainda, resiste sempre. Então os castelhanos o rodearam, e caiem às lançadas sobre o heróico alferes mor, que afinal, cai moribundo. Os castelhanos apoderaram-se então da bandeira, mas Gonçalo Pires conseguiu arrancá-la. Este acto de heroicidade foi admirado até pelos próprios inimigos.

Duarte de Almeida foi conduzido semimorto para o acampamento castelhano, onde recebeu o primeiro curativo, sendo depois mandado para um Hospital de Castela. No fim de muitos meses, voltou à, pátria, e foi viver para o castelo de Vilarigas, que herdara de seu pai. Havia casado com D. Maria de Azevedo, filha do senhor da Lousã, Rodrigo Afonso Valente e de D. Leonor de Azevedo. Diz-se que Duarte de Almeida morreu na miséria e quase esquecido, apesar da sua valentia e bravura com que se houve na batalha de Toro, que lhe custou ficar inutilizado pela falta das suas mãos. Camilo Castelo Branco, porém, nas Noites de insónia, diz que o Decepado não acabara tão pobre como se dizia, porque além do castelo de Vilarigas, seu pai possuía outro na quinta da Cavalaria, e em quanto ele esteve na guerra, sua mulher havia herdado boa fortuna duma sua tia, chamada D. Inês Gomes de Avelar. D. Afonso V, um ano antes da batalha, estando em Samora, lhe fizera mercê, pelos seus grandes serviços, para ele e seus filhos, de um reguengo no concelho de Lafões
”.

Adaptado do livro “Midões e o Seu Velho Município” da autoria de António Duarte d’Almeida Veiga (Benavente, 1905) e do “Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico”, Volume I, pág. 245.

terça-feira

Fulanização e Responsabilidade do Estado Português




As notícias que ontem abriram os principais noticiários, davam conta dos resultados já alcançados pelo governo português no programa de corte das prestações e apoios sociais.

Do abono de família ao rendimento mínimo garantido, foram cerca de 2,5 milhões de Euros que o estado poupou em três meses através do cancelamento de subsídios que deixaram de ser entregues às famílias. Esta medida de austeridade, considerada de forma quase unânime pelos analistas e comentadores como essencial no estado de caos em que se encontram as contas públicas, vem assim contribuir para a redução do défice e, acima de tudo, complementar o aumento de impostos que todos os Portugueses suportarão para ajudar o País a cumprir os objectivos da moeda única.

Mas apesar de ninguém a ter ainda levantado, existe uma questão premente que se coloca quando ouvimos uma notícia destas: será que foram cortados os apoios que tinham sido mal atribuídos ou pura e simplesmente se retiraram esses apoios àqueles que deles efectivamente necessitavam?

A premência da questão é maior ainda se pensarmos que durante anos a fio, por incúria, incompetência ou desinteresse do estado, houve negligência na forma como se atribuíram e foram pagos esses subsídios. É preciso lembrar que o peso da administração pública no orçamento geral do estado Português é um dos mais elevados da Europa, e que isso se deve sobretudo ao facto de todos nós pagarmos a um conjunto excepcionalmente grande de funcionários para que eles cumpram com rigor e cuidado todas essas tarefas essenciais. Ou seja, os Portugueses pagam o funcionamento de um estado ignóbil, desastrado, trapalhão e incompetente, e voltam a pagar ainda os resultados desastrosos da incapacidade que esse mesmo estado tem de zelar pelos interesses deles.

Num País onde a responsabilidade e os deveres não existem, e no qual tudo são direitos, seria importante perceber se houve gente que enganou o estado e recebeu subsídios indevidamente, e nesse caso deverão ser duramente penalizados por isso, ou se foi o estado que se enganou ao atribuir esses mesmos subsídios (com o nosso dinheiro).

Se a opção correcta for a segunda, é fundamental que se fulanize a responsabilidade; se perceba quem prevaricou; se conheçam os nomes dos incompetentes; e se faça essa gente pagar efectivamente pelo sofrimento que infligiu a todos os Portugueses.

Cascais Natura Recupera Dunas do Guincho




Decorre a bom ritmo a intervenção levada a cabo pela agência municipal Cascais Natura nas dunas do Guincho. O projecto, que está a ser realizada em conjunto com o Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade, e é financiado pelo Programa QREN, visa consolidar um corredor dunar possuidor de características únicas e que é essencial para a contenção das areias que estavam a avançar a ritmo acelerado em direcção à zona da Quinta da Marinha.

Os méritos da intervenção, no entanto, ultrapassam largamente os efeitos práticos e imediatos que se farão sentir ao nível da conservação da natureza. De facto, por incluir o projecto de criação de um corredor de acesso à zona Norte da praia do Guincho e de um centro de observação da natureza, a recuperação agora levada a efeito pela Cascais Natura permitirá devolver aos Cascalenses uma das mais interessantes e significativas zonas do Parque Natural Sintra-Cascais.

Criado e gerido durante muitos anos à revelia dos interesses de Cascais e da sua população, que se encontra ainda impossibilitada de entrar, visitar, conhecer e utilizar grande parte do espaço contido naquela área natural, o Parque Natural Sintra-Cascais nunca passou de um mero decreto administrativo que não impediu que ali dentro se cometessem diversos atentados contra os valores ambientais da Serra de Sintra. Exemplos gritantes disso têm sido as deposições ilegais de entulho, as construções clandestinas e a utilização da área do parque para actividades desportivas que destroem zonas sensíveis daquela área.

Com a intervenção agora concretizada no Guincho, abrem-se as portas de um espaço único inserido no Parque Natural Sintra-Cascais aos portugueses e principalmente à população de Cascais, que assim passará a poder compreender e valorizar o autêntico tesouro que esta zona do Concelho ainda encerra.

É simultaneamente uma mais valia ambiental e um importante contributo para a promoção da Identidade e da Cidadania da nossa terra.



segunda-feira

O Mito do Euro e a Federação da Europa




Notícias recentemente divulgadas pelas maiores agências noticiosas europeias, dão conta de que a moeda única europeia – o Euro – tem vinte por cento de possibilidades de sobreviver aos dez próximos anos. Isto, como é evidente, se mantiver a sua actual dinâmica organizativa e se assentar a sua existência numa Europa composta por uma união de Estados-Nação livres e politicamente independentes.

Tal como existe, o Euro tem servido basicamente para nivelar a Europa. Fê-lo utilizando a bitola de quem o idealizou e pagou, ou seja, a Alemanha e a França, que pretendiam assim alargar o espectro da sua soberania junto dos países mais carenciados e menos desenvolvidos. Nesse esforço, ambos os países investiram biliões de Euros, emprestando quantias inimagináveis aos restantes, fazendo depender a entrada na união monetária de duras e inflexíveis medidas de controle orçamental a que os restantes países estavam pouco habituados ou que nem sequer tinham capacidade administrativa para poder aplicar. Criaram-se assim dois grupos nesta Europa surpreendente: os que pagam e mandam e os que recebem os fundos comunitários e que têm de cumprir rigorosamente as ordens dos restantes. Neste segundo grupo, de uma forma de tal maneira assumida que deu origem ao designativo PIGS, com o qual a imprensa dos que mandam se refere aos restantes, estão a Espanha, a Irlanda, a Grécia e… Portugal.

Chegados a este momento, e com o actual modelo do Euro esgotado, restam duas saídas para a Europa da moeda única. Pode manter-se tudo tal como está, e a união monetária sucumbirá inexoravelmente nos próximos tempos com o descalabro social e político que se adivinha. Neste caso a Alemanha e a França deverão assumir o prejuízo inerente à perda de todo o investimento que fizeram e esquecer a ideia de que um dia os PIGS lhes pagarão com juros todo o dinheiro até aqui injectado. Ou então, como alternativa, pode proceder-se a uma revisão profunda da existência da União Europeia, introduzindo alterações que garantam a estabilidade e a manutenção do Euro. Nesta segunda opção, que passa pela efectiva federação da Europa, os estados perdem totalmente a sua autonomia, e subordinam-se política, económica e socialmente à vontade, à dinâmica, à iniciativa e às decisões tomadas pelos importantes.

As notícias que atrás mencionamos são a prova viva de que é esse o caminho já escolhido pela Alemanha e pela França para o futuro do velho continente, e que a Europa das Nações, muitas delas, como Portugal, com quase 900 anos de História, vai ser pura e simplesmente aniquilada.

Os políticos que nos meteram nesta embrulhada, e que continuam hoje (quase todos) à frente dos destinos desta ainda Nação, vêm com bons olhos esta irracionalidade, pois as metas económicas e financeiras são para eles o único caminho possível em direcção à prosperidade.

Mas enganam-se fatalmente. A Europa a que Alemães e Franceses chamam PIGS, é um continente assente em comunidades arreigadas à sua História, a cultural fortes e a usos e costumes que não são compatíveis com uma federação.

Ao levarem Portugal por este caminho, mentindo aos Portugueses a quem se diz que é o único possível dadas as circunstâncias a que chegámos, estão a condenar o nosso País a um processo longo, conturbado e cruel de caos sócio-cultural em que, como já aconteceu noutros momentos da nossa História (e acontece ainda hoje em comunidades autonómicas incluídas à força no estado espanhol), Portugueses lutarão contra Portugueses num esforço que culminará indubitavelmente na definição de uma nova soberania.

Actualmente existem ainda soluções alternativas para Portugal. O eixo com África, com a América do Sul e com a Ásia, complementado com a situação geo-estrategicamente única do País, fornecem-nos as ferramentas necessárias para tirar esta Nação da cauda da Europa e a recolocar na linha da frente. Assim haja vontade, discernimento e capacidade para o fazer.

Agora, em relação ao Euro, por favor não nos federem!

sábado

Quando Portugal Aceitou a Invasão de Timor




Documentos recentemente divulgados pela chancelaria dos Estados Unidos comprovam que a invasão de Timor pela Indonésia esteve muito longe de ter sido o ataque unilateral e terrorista que se relata nas nossas aulas de História. Antes pelo contrário. Foi previamente do conhecimento dos EUA, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e mais tarde de Portugal, que criaram as condições políticas para que acontecesse.

De facto, com Sukarno à frente dos seus destinos, a Indonésia era desde finais dos anos 60 uma potência em franco crescimento. Os Estados Unidos da América, o Reino Unido, a Nova Zelândia e a Austrália, por motivos variados, construíam nessa altura relações bilaterais privilegiadas com a potência emergente, negociando directamente com a Indonésia questões relacionadas com as suas pretensões territoriais e utilizando como moeda de troca os interesses vários que todas tinham no petróleo existente na região.

Em reunião secreta ocorrida em Washington em 1963, as quatro potências concluíram que teriam de aceitar Timor-Leste como parte da Indonésia, pois esta seria a única forma de apaziguarem os ânimos do gigante asiático e, desta forma, assegurarem o seu próprio acesso ao petróleo. Nessa reunião, da qual não resultou nenhum contacto ou informação a Portugal, todos combinaram que não se oporiam a uma eventual invasão perpetrada por Sukarno, e que preferiam deixar cair os tratados e a amizade com Portugal do que perder as boas graças do novo poder indonésio.

Com a revolução de 1974, e a atabalhoada descolonização que Portugal levou a efeito, ficaram criadas as condições para o avanço da Indonésia e para o massacre de mais de vinte anos que dizimou uma parte substancial da população Timorense.

Mas nem assim a Indonésia avançou com os seus intentos.

Antes de passar à acção, que se concretizou somente em Dezembro de 1975, Sukarno avisou os Estados Unidos da sua pretensão, pedindo aos Norte-Americanos que não boicotassem a intervenção. A resposta de Washington, na qual teve parte activa o avisado Kissinger, não se fez esperar, e inclui um detalhe que faz toda a diferença na compreensão daquilo que foram as consequências cruéis e irresponsáveis do caos gerado pelo 25 de Abril. De acordo com a documentação Americana, a administração de Gerald Ford terá contactado o VI Governo Provisório de Portugal, liderado por Pinheiro de Azevedo, dando-lhe conta da eminência do ataque Indonésio a Timor-Leste. Portugal, em resposta, diz taxativamente que não vai opor-se à invasão, dando assim, de forma assumida, o seu apoio à pretensão de Sukarno e deixando nas suas mãos as vidas de milhares de Timorenses.

Afinal, parece que o denominado Ocidente teve muito pouca (ou nenhuma) consideração e/ou respeito pelos direitos humanos. O controle dos recursos petrolíferos e as pretensões políticas da Indonésia, EUA, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia, foram os únicos motivos ponderados em todo este enredo. O respeito pela vida dos Timorenses, que esteve em causa durante décadas, foi efectivamente um pormenor de segunda importância no processo.

Portugal, sem pudor, aceitou tacitamente tudo isto.

Quando em Agosto de 1999 oitenta por cento dos Timorenses optou pela independência num referendo promovido pelas Nações Unidas, esse mesmo Ocidente utilizou o argumento da defesa dos direitos humanos para suportar o seu apoio à pretensão e para consolidar o processo de independência relativamente à Indonésia. Mentiram descarada e cinicamente ao Mundo, aos Indonésios e aos Timorenses.

Portugal, sem pudor, participou mais uma vez na farsa, mostrando bem quais foram os princípios, os interesses e a motivação que estiveram na base da governação do País durante os anos negros a que muitos dos manuais escolares do nosso País ainda continuam a chamar "o nascimento da democracia"...

terça-feira

Aborto - Amanhã Vão Morrer Legalmente Mais 53 Portugueses





Quando em 2007 um referendo não vinculativo legalizou o aborto, muito mudou na face de um País marcado por uma longa tradição em defesa dos valores da vida e da família. Durante a campanha, quer por parte dos que defendiam a legalização, quer por parte dos que eram contra o aborto, esgrimiram-se argumentos e discutiram-se definições que esconderam essa dura realidade aos Portugueses.

O aborto não é, como muitos disseram nessa altura, uma mera interrupção voluntária da gravidez. O aborto é, há que assumir esse facto, um assassinato puro e simples. É a decisão de um conjunto de pessoas de pôr termo à vida de outra. É a imposição da força de uns quantos à fragilidade de outros. É a imputação a alguns da possibilidade de nascer e de fazerem a diferença num Mundo cada vez mais ávido de gente capaz. Os que são mortos através do aborto, não têm qualquer espécie de possibilidade de se defenderem nem de argumentarem o que quer que seja em favor da sua vida.

A legalização do aborto representa, desta forma, o aval do estado ao homicídio e, mais preocupante ainda, a comparticipação do estado neste acto odioso. Cada vez que é praticado um aborto num hospital público em Portugal, todos nós, através do erário público, estamos a pagar para erradicar uma vida.

Durante algum tempo, quando muitos se preocupavam em lançar explicações que apaziguassem as consciências, falou-se nas virtudes do aborto a vários níveis. A nível económico, pois evitava que se gastasse dinheiro no apoio social à vida nascente; a nível político, pois se dizia que Portugal estava atrasado relativamente ao Mundo dito civilizado; a nível da saúde, pois o aborto era uma solução extrema que só seria usada em casos considerados graves e prementes, etc. etc. etc.

Hoje sabemos que nada disto é verdade.

Só em 2009, mataram-se legalmente 19572 seres humanos em hospitais públicos em Portugal. Ou seja, uma média de 53 pessoas mortas por dia numa média que implica os pais pela sua decisão, os familiares deles pelo apoio, as equipas médicas pela prática cirúrgica, e cada um de nós porque pagamos a operação.

Mas existem ainda dados piores e mais preocupantes. De acordo com o relatório agora tornado público, só em 2009 quase um terço das mulheres que abortaram por sua vontade fizeram-nos mais de uma vez num ano… ou seja, a decisão do aborto não foi tomada de ânimo pesado, nem tão pouco se ficou a dever a um qualquer percalço ou inadvertência a que elas tenham sido alheias. Foi uma decisão consciente, tomada cada vez mais de espírito leve, como forma de resolução de um “problema”… Não ouso dizer que o aborto se tornou num método contraceptivo pago por todos nós, pura e simplesmente porque a concepção já ocorreu e a vida humana já existe quando ele foi praticado. De resto é igual.

É muito triste sabermos que amanhã, depois de acordarmos e iniciarmos o nosso dia, mais 53 pessoas vão ser assassinadas legalmente em Portugal sem que nada possamos fazer. É mais triste ainda verificar que esse acto, que põe termo àquele que é o mais precioso dos bens do Homem – a vida – é feito em total desrespeito pelos interesses e pelos direitos daquele ser que nem sequer pode gritar para se defender.

É triste fazer-se isto em Portugal.

Um Deserto de Ideias em Portugal...





A menos de um mês das eleições presidenciais, Portugal parece não ter ainda percebido a importância da decisão que será tomada por todos em Janeiro. De facto, e contrariando aquilo que tem sido comum desde que Eanes chegou a Belém em meados dos anos 70, desta vez o Presidente da República terá uma palavra a dizer relativamente ao futuro de Portugal.

O alheamento dos Portugueses não é, no entanto, culpa sua. Se tomarmos atenção à campanha, se é que se pode considerar como campanha as investidas destrambelhadas de quase todos os candidatos e o mutismo permanente do actual presidente, rapidamente concluiremos algo que é tradutor daquilo em que transformaram o nosso Portugal: um completo, inquietante, promíscuo e preocupante silêncio.

Da esquerda à dita direita; de Cavaco Silva a Francisco Lopes; do poeta alegre ao fundador da AMI; não vem uma única ideia, projecto ou solução que permita aos Portugueses imaginarem o futuro com optimismo. Quem os ouve, e quem dedica atenção às suas intervenções, rapidamente constatará que não existe nada nos seus discursos e intervenções que entendamos ser um passo em frente na resolução dos nossos problemas.

Desta maneira, quem poderá culpabilizar os Portugueses por não se entusiasmarem com este momento tão importante? Quem poderá culpá-los pelo desastre político que vamos enfrentar no próximo ano? Quem poderá julgar o seu alheamento relativamente aos destinos de Portugal? Ninguém. Absolutamente ninguém.

Os políticos activos que temos já demonstraram que estão completa e absolutamente divorciados dos Portugueses. A abstenção crescente que acompanha os actos eleitorais em Portugal é o mais evidente sinal dessa situação inquietante. Porque se Portugal não assume os seus destinos; se a população não intervém nas decisões do dia-a-dia; se a comunidade Nacional não se motiva para participar na vida política; então estamos condenados a que, mais ano menos ano, apareça alguém com força suficiente e uma vontade férrea para deitar a mão a Portugal. Se olharmos para a História veremos que foi sempre assim ao longo dos séculos, num ciclo que se repete de geração para geração.

Depois… não se queixem!

A Vivenda Beira Rio e as Memórias Antigas da Vila de Cascais




Junto ao Jardim Visconde da Luz, mesmo no centro de Cascais, encontramos ainda hoje um imóvel de características únicas que passa despercebido à generalidade dos Cascalenses.

Chama-se Vivenda “Beira-Rio” e, como o seu nome indica, foi construída nas margens da antiga Ribeira das Vinhas, que atravessava a Vila de Cascais. A casa, de traça marcada pelos resquícios da moda do veraneio que alterou profundamente o devir urbano da antiga terra de pescadores, é um chalet do início do Século XX e, apesar das alterações que sofreu no início da década de 90 do século passado, mantém ainda quase intocada a sua formulação estética baseada em pressupostos que deram forma ao Monte Estoril e ao Estoril.

Quanto à Ribeira das Vinhas, que ainda hoje atravessa o mesmo local, foi encanada para permitir a construção da Avenida Marginal e apesar das muitas contrariedades pelas quais passou durante os últimos anos de liberdade à face da vila, deixou saudades profundas numa série de ilustres Cascalenses.

O mais importante será talvez Dom Simão Aranha, mais conhecido por Pedro Falcão. Quando publicou o seu “Cascais Menino”, já nos inícios de 80, dedicou à ribeira um capítulo muito especial. Chamou-lhe sonho e apelidou-o de utopia, mas teve a coragem de sonhar com uma ribeira de novo livre, a correr a céu aberto através de Cascais e adaptada à travessia de pequenos barcos à vela e das chatas dos pescadores… Achava ele que, navegável até à actual Rotunda Francisco Sá Carneiro, voltaria a ser um dos atractivos principais de um Cascais sentido e sensível que ele nunca se cansou de defender e propagar.

A Vivenda Beira-Rio, pela sua formulação tipológica, pelo enquadramento num período dourado da História da Vila de Cascais, e sobretudo pelo testemunho que deixa de uma vila muito diferente, em que a ribeira estabelecia a ligação do povo ao mar e, simultaneamente, marcava a diferença entre as povoações situadas em ambas as suas margens, deveria ser alvo de um cuidado especial por parte de quem é responsável pela gestão patrimonial da nossa terra.

O mínimo seria, até em memória de tantos que dela gostaram muito, classificá-la como imóvel de interesse público, contribuindo assim para a preservação da memória colectiva e da Identidade do Concelho de Cascais.



segunda-feira

"Memórias de Mim" Comemoram 80 Anos de Vida do Professor Antero Simões





Foi publicado recentemente o livro "Memórias de Mim", da autoria do professor, desportista, investigador e poeta Antero Simões. O documento, que comemora o 80º aniversário natalício do autor, assume-se como um extraordinário contributo para conhecer o homem e a sua obra, mas também para perceber, entender e contextualizar aquilo que foi a História de Portugal ao longo das últimas décadas. Mais do que uma auto-biografia, "Memórias de Mim" leva-nos numa inesquecível viagem através de uma vida sentida e sensível, da qual emergem figuras ímpares que Antero Simões não nos deixa esquecer. De especial importância, num momento em que tantos se esforçam para uma promoção imerecida, está o carácter intimista desta obra, coadjuvada pela compilação de homenagens que comporta a figuras que foram essenciais para o crescimento de Antero Simões mas que, na dimensão das suas próprias existências, foram também essenciais para a recriação da identidade portuguesa. Antero Simões, que se distinguiu no ténis e na poesia, áreas em que granjeou fama e grande notoriedade, foi sempre essencialmente um professor de excelência, com uma carreira longa e marcada por uma entrega que transformou por completo muitas das vidas que se cruzaram com a dele. Para além de outros locais, o Professor Antero Simões esteve também no Colégio João de Deus, no Monte Estoril, onde partilhou com colegas e alunos as vicissitudes de uma experiência pedagógico-educativa inovadora que muito poucos ainda conseguiram entender, e que neste livro surge contextualizada na primeira pessoa. Uma obra a não perder!




sexta-feira

O Mito da Incivilidade em Cascais






Numa recente viagem a Londres observei algo que por lá é normal, mas que visto com atenção nos oferece pistas importantes sobre a forma como se vai degradando a nossa Portugalidade. Os passeios da cidade, contrariamente ao que acontece em Portugal e principalmente em Cascais, não possuem pilaretes de protecção contra o estacionamento abusivo. E, ao longo dos muitos passeios pedestres que por ali dei, não encontrei um único carro estacionado fora do seu lugar.

Em Cascais passa-se exactamente o contrário. Em torno dos milhares de pilaretes de protecção instalados pela autarquia; em cima de passadeiras; nas entradas das casas; nos acessos aos serviços públicos; em volta dos monumentos históricos; em espaços reservados aos bombeiros e às ambulâncias; e nos passeios mais inesperados (mesmo quando por vezes existe estacionamento disponível a três ou quatro metros de distância), os carros amontoam-se, obrigando os peões a constantes incursões para o alcatrão da estrada para contornarem esses obstáculos.

Especialmente gravoso é o passeio situado em frente ao Tribunal de Cascais, junto à Papelaria Xandré, no Largo da Misericórdia, na Rua Tenente Valadim, no Largo do Prior ou mesmo nas ruelas apertadas do casco velho da vila…

Este fenómeno, transversal à sociedade portuguesa mas demasiadamente visível em Cascais, mostra bem como têm sido destruídos os valores principais que sempre orientaram a nossa sociedade, e como o sistema educativo que nos obrigam a ter está a apagar por completo todos os resquícios de cidadania e de civilidade que herdámos ao longo de 900 anos de História.

Já nem se pede que os cidadãos alarves que vivem desta maneira consigam pensar no seu semelhante e percebam que a sua forma de vida trás implicações graves à mobilidade dos demais. Isso seria pedir muito a uma sociedade assente nos muitos direitos consagrados numa lei que nada prevê em termos das consequentes responsabilidades de quem deles usufrui. Pede-se somente que pensem em si próprios, e que percebam que amanhã, por acidente, por doença ou por uma outra situação qualquer, serão eles quem terá mobilidade reduzida e precisará de circular em Cascais utilizando cadeira de rodas ou muletas.

Fica o desafio: pegue numa cadeira de rodas; coloque-se no lugar de um cidadão que se debata com este problema; e tente ir ao Tribunal de Cascais, à esquadra da PSP, à Santa Casa da Misericórdia, à Câmara Municipal, à estação ou a qualquer outro local da vila. É impossível faze-lo.

Não existindo educação, a resolução do problema exige a aplicação da força. Multas, coimas, reboques, bloqueadores, mão firme e penas pesadas para quem não tem a capacidade de respeitar os demais.

Se nas cidades civilizadas isso é possível, porque razão não conseguimos fazer isso em Cascais?








quarta-feira

Academia de Letras e Artes Discutiu o Futuro do Turismo do Estoril




Numa iniciativa da ALA - Academia de Letras e Artes, decorreu ontem a segunda edição das "Tertúlias do Monte", desta vez subordinada ao tema "O Futuro do Turismo do Estoril". A iniciativa, que contou com Pedro Rocha dos Santos (Director do Centro de Congressos do Estoril) como moderador, teve como painel interventivo quatro grandes figuras do turismo na região: António Aguiar (Director Hoteleiro), Bernardo Rodo (Especialista em Marketing), Linda Pereira (Professional Congress Organizer) e Pedro Garcia (Hoteleiro e Administrador da Estoril Plage - sociedade que gere o Hotel Palácio, o Golfe do Estoril, as Termas do Estoril e a Marina de Cascais). Para além da definição das grandes linhas orientadoras do futuro da Costa do Estoril, esta sessão permitiu perceber que estão reunidas todas as condições para transformar o Estoril numa das mais prestigiadas estâncias turísticas da Europa. Existindo um conjunto de excelentes infra-estruturas, designadamente ao nível da hotelaria, da restauração e dos equipamentos, falta agora gerar um quadro político que defina estrategicamente aquilo que será o futuro da região, de forma a garantir que existe a confiança necessária para que operadores, promotores e investidores se sintam confortáveis em colaborar neste desiderato. De facto, com mais esta iniciativa da Academia de Letras e Artes, ficou bem sublinhado o enorme potencial ainda por explorar que Cascais e a Costa do Estoril terão de ser capazes de potencializar num futuro muito próximo. A bem de Cascais e dos Cascalenses...




sexta-feira

Dário Vidal Expõe em Macedo de Cavaleiros




Reciclar foi o mote e o tema da mais recente exposição de Dário Vidal. Numa altura em que a sustentabilidade se tornou fulcro da vida humana, e em que a esperança relativamente ao futuro radica na capacidade de o Homem reconfigurar a sua relação com o planeta, Dário Vidal levou ao Centro Cultural de Macedo de Cavaleiros um conjunto espantoso de novas propostas. Segundo o artista “(…) temos de reconhecer que há objectos, para alguns tornados desnecessários, que ainda podem ter uma nova vida, recriados em assemblage, com formas específicas, associados a certos estilos de arte”. Com a opinião partilhada por Beraldino Pinto, Presidente da Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros, a mostra levou ao interior do País o que de melhor Portugal produz ao nível da arte contemporânea. Para além de membro da Academia de Letras e Artes, o currículo de Dário Vidal regista a realização de diversas exposições tanto individuais como colectivas, e o Prémio de Pintura da Fundação Marquês de Pombal. A sua obra está presente em diversas instituições, das quais se destacam o Museu Nacional do Paço dos Duques, em Guimarães, o Museu da Água e a Colecção Berardo em Lisboa.



quarta-feira

A Estação Arqueológica do Castro da Cola




Recuam ao Século XVI as primeiras referências literárias ao Castro da Cola, importante estação arqueológica situada a escassos doze quilómetros de Ourique, no Alentejo. André de Resende, conhecido humanista eborense dessa época, esteve naquele local no ano da graça de 1573, sendo que dois séculos depois terá sido seguido nesse acto por Frei Manuel do Cenáculo, que ali efectuou um primeiro estudo topográfico.

Segundo Joaquim Figueira Mestre, o Castro da Cola ocupou desde sempre o imaginário das gentes da região: “ (…) existindo lendas de tesouros e mouras encantadas na sua tradição oral. O Castro da Cola chegou assim até nós mitificado e envolto numa auréola de mistério”.

Em termos concretos, o Castro de Nossa Senhora da Cola teve uma ocupação que vai desde o período Neolítico até ao reinado do Rei Dom Afonso III sem que, no entanto, tenham deixado de existir certos hiatos de tempos nessa ocupação.

Durante a época muçulmana, o Castro da Cola mais não era do que um pequeno povoado fortificado, possuindo na sua base as componentes de uma economia agro-pastoril, baseada não só nos interesses e nas disponibilidades dos povos de então, mas também nas potencialidades naturais da região.

O período do seu apogeu, ao que parece, deu-se no dealbar na Nacionalidade, assistindo-se nesse período à construção de diversas edificações no interior do povoado. Segundo Abel Viana, são dessa época os grosseiros pavimentos de “pequenas e mesquinhas habitações”, de que precedem a maior parte dos vestígios ali encontrados.

A destruição e abandono do local, mais do que às vicissitudes do tempo, ficou a dever-se sobretudo às diversas violações impostas ao monumento ao longo da sua longuíssima História e principalmente durante os primeiros anos do Século XX. Segundo consta em relatos dessa altura, existia na Aldeia de Palheiros um grupo de caçadores de tesouros que escavaram o castro, destruindo para sempre uma grande parte das informações que ele teria para nos oferecer.

Numa época em que a Europa nos surge ávida de singularidades que tornem atractivos os seus territórios, e em que Portugal tanto necessita de conhecer e reconhecer as suas inúmeras mais valias, resta-nos esperar que as entidades responsáveis assumam a importância deste lugar, salvaguardando aquela que é uma das mais importantes peças da herança cultural do Alentejo.

A bem de Portugal!




segunda-feira

Almodôvar - Uma História da História de Portugal




Situado estrategicamente a escassas dezenas de quilómetros da cidade de Beja, capital do Distrito, e abrangendo a vasta planície alentejana e as ondulantes serras algarvias, o Concelho de Almodôvar desde cedo despertou a atenção do Homem.

A fertilidade dos seus terrenos e a amenidade do seu clima, são factores fundamentais para o desenvolvimento de uma agricultura rica em produtos essenciais: os cereais, as cortiças, os pastos e a criação de gado.

Data do período Neolítico a ocupação humana em Almodôvar. Vestígios dessa época podemos encontrá-los na Aldeia dos Fernandes junto da estrada para Lisboa, e em diversas antas e monumentos megalíticos situados em todas as suas freguesias. Os exemplares mais deslumbrantes e importantes são as Antas do Meio e as dos Mouriscos.

Do período comummente designado por Idade do Ferro são vastos os testemunhos, deixando bem sublinhada e documentada a própria História dos povos que habitaram este extremo Sul da Península Ibérica.

O Monte do Guerreiro, o Monte dos Mestres, as Mesas do Castelinho, o Corte Freixo, o Tavilhão, o Monte Beirão, o Monte Novo da Misericórdia, o Monte da Azinheira, o Corte Figueira, a Atafona, o Corte Zorrinho, o Castelo dos Mestres e outros, são alguns desses vestígios que, por si só, dão mote para uma visita prolongada ao Concelho de Almodôvar.

Do período Romano também existem vários vestígios no seu território. No Castelinho, no Monte do Castelejo, na Senhora da Graça dos Padrões e na Horta dos Mouros, podemos encontrar ainda muitos sinais da sua passagem por esta região, percebendo bem como se processou o processo paulatino de conquista e ocupação do território que hoje faz parte de Portugal.

O período Árabe, entre 711 e o Século XII foi, no entanto, aquele que marcou decisivamente a vida desta povoação. A sua influência persiste ainda hoje, não só na típica arquitectura das casas, como também no próprio artesanato, de que as típicas mantas alentejanas são a sua mais genuína expressão.

Já durante o período da Nacionalidade, Almodôvar recebeu o seu primeiro Foral das mãos de Dom Diniz, em 1285, tendo o mesmo sido confirmado e ampliado por Dom Manuel I em 1512.

Almodôvar foi Padroado Real e, mais tarde, por doação de Dom Diniz, pertenceu ao Mestrado de Santiago.

Representando um breve e confortável desvio na viagem de férias ao Algarve, a visita a Almodôvar representa uma incursão num dos mais emblemáticos municípios de Portugal. A sua riqueza urbana, histórica, gastronómica, enológica e cultural, e principalmente o facto de se manter praticamente desconhecida do visitante comum, faz deste espaço um local deslumbrante que transforma radicalmente a forma por vezes sombria como alguns caracterizam Portugal!




sábado

Ourique - Mais uma Pérola que Portugal tem de Descobrir





Com uma vasta História, rica em complicados episódios que marcaram decisivamente o próprio devir histórico Nacional, Ourique e o seu Concelho possuem diversos vestígios imensos motivos de interesse.

Para além do seu castelo, bastante alterado e desvirtuado na sua formulação espacial mas ainda marcante por aquilo que representa no contexto da nossa Nacionalidade, Ourique possui ainda várias Igrejas, capelas e ermidas que constituem, no seio de um infindável potencial turístico, um valioso património cultural.

Os primeiros passos da existência de Ourique foram certamente dados durante o dealbar da independência de Portugal. Sabe-se, através as fontes escritas, que a História de Ourique se revela de grande importância em pleno Século XII, ainda durante o processo de reconquista do território da Península Ibérica aos Mouros.

Foi na planície do campo de Ourique, pese embora a controvérsia, que D. Afonso Henriques enfrentou as tropas mouras chefiadas por Esmar, no já longínquo ano de 1139. As interpretações variam e as lendas são díspares em relação ao que realmente sucedeu, mas os dados de cariz toponímico e geo-estratégico apontam cada vez mais para a veracidade desta crença.

Também quanto à origem do nome da povoação persistem duas versões: ORIK, dos Árabes, com a significação de infortúnio e/ou desgraça , a assinalar a derrota sofrida perante o reconquistador Cristão; ou a derivação de OURIQUE, do ouro que se diz ter existido em abundância nos seus solos.

O crescimento da Vila e o incremento da sua importância estratégica na defesa e na manutenção da independência Nacional, terão estado na base dos diversos forais que Ourique recebeu ao longo do Século XIII, reconhecendo os direitos e os deveres da comunidade aqui existente e autorizando a sua participação na vida administrativa do Reino. Em 1288, durante o reinado de Dom Diniz, foi concedida a Ourique a carta de feira anual, traduzindo também o seu destacado papel na vida económica, social e política do Portugal medieval. Nesta época, a concessão deste tipo de documento, com as suas consequentes prerrogativas, assentava na existência de meios de produção de riqueza de dimensões consideráveis e de uma relevância grande no contexto do equilíbrio económico do Reino de Portugal. Era nessas feiras, aliás, que se desenvolviam as diversas actividades relacionadas com a administração do País, sendo também aí que se criaram as primeiras actividades culturais que deram forma à Identidade Nacional.

A importância de Ourique vai crescendo de forma permanente ao longo dos Séculos, facto comprovado com a atribuição de novo foral, já no Século XVI, quando Dom Manuel I, com vista à actualização administrativa do Reino, procede à reforma dos forais.

A Comarca de Ourique, que já existia em 1646, conservou-se na Vila até 1865, altura em que foi transferida para Almodôvar, e de onde só voltou em 1874. Relatos dos jornais da época apontam para a realização de um grande cortejo fúnebre organizado pela populações e pelas entidades locais, que terá acompanhado a transferência e marcado o desagrado de todos perante tal situação.

Em épocas mais recentes, a História de Ourique tem acompanhado a linha que serve de orientação à generalidade dos mais pequenos municípios do Alentejo. Um peso extraordinário atribuído à agricultura, acompanhado pelo declínio da sua capacidade de produzir riqueza quando a indústria se começa a impor às lides da terra. No ano de 1900, a população de Ourique era de 9143 pessoas que, como já acontecia cerca de sete séculos antes, se dedicava maioritariamente à agricultura e ao gado. Cinquenta anos depois, em 1950, atinge-se o pico do crescimento da povoação, com um conjunto populacional de 16685 pessoas. De então para qual, e num processo paulatino, Ourique tem vindo a perder os seus habitantes, sendo que em 2001 o número total de residentes se cifrava nos 6703.

Situada estrategicamente junto à Estrada que leva Lisboa ao Algarve, e marcada por uma História excepcional que se associa a um património riquíssimo, Ourique é mais uma das preciosidades de Portugal que teima em manter-se desconhecida e desaproveitada no seu imenso potencial.

Um Portugal coeso, consciente e sólido, assente numa Identidade bem vincada e num edifício sócio-ecomómico que suporte a consciência crítica dos seus cidadãos e a cidadania activa que todos desejamos, tem obrigatoriamente de ser capaz de se conhecer e, com isso, reconhecer cada um destes espaços onde tudo está ainda por fazer e rentabilizar.