terça-feira

SerCascais no Super Luar do dia 19 de Março





No passado Sábado, dia 19 de Março, o Mundo observou a maior Lua cheia dos últimos dezoito anos. A razão para este facto, observável de forma extraordinária na encosta solar da Serra de Cynthia (ou de Sintra - ou da Lua)prende-se com facto de a Lua estar anormalmente próxima da Terra nesta data. O fenómeno de aproximação da lua à Terra é designado perigeu (oposto ao apogeu , quando está mais afastada), e explica-se por a órbita deste satélite não ser circular, mas elíptica, e não é invulgar, acontecendo todos os anos. O que acontece de extraordinário este ano é que a forma da elipse, a excentricidade da elipse, varia periodicamente, às vezes é mais alongada, outras mais curta. Alguns dos perigeus que ocorrem sucessivamente são mais próximos do que outros. Neste ano em especial, o perigeu coincidiu com a Lua cheia, e isso, associado a fenómenos atmosféricos muito peculiares, acabou por oferecer um espectáculo deslumbrante que em Cascais atingiu a apoteose máxima. O Movimento SerCascais, apostado em divulgar todos os recantos deslumbrantes do Concelho, e em mostrar Cascais aos Cascalenses, reuniu um grupo de oitenta amigos que corajosamente subiram a encosta da Peninha a pé para se deliciarem com o espectáculo. O resultado não podia ter sido melhor: deslumbramento, emoção e... muitas memórias de um Cascais que ainda vale a pena explorar!











quarta-feira

Memória e Espiritualidade da Ordem dos Templários em Sintra e Colares por Vítor Manuel Adrião




A presença da Ordem dos Templários na Idade Média de Sintra e Colares deixou nestas o testemunho da sua passagem em monumentos, documentos, grutas e lendas que permaneceram até à actualidade quase esquecidas, cuja memória o Dr. Vitor Manuel Adrião, renomeado investigador da Tradição Mítica Portuguesa e particularmente de Sintra desde há quase 40 anos, traz a registo nesta conferência pública. Além da História Templária em Sintra e Colares, esta memória terá por pomo a espiritualidade dos Cavaleiros-Monges até hoje envoltos em cerrada neblina de mistério, e dentre outros tópicos abordar-se-ão: os Templários e os Sufis na Serra de Sintra, anacoretas e santões na Serra, grutas misteriosas, o enigma da carta de foral de Sintra, o mapa mítico de Sintra-Colares, Colares e os eremitas moçárabes, o castelo templário de Colares, Milides e Minerva, o Penedo, a Festa do Divino Espírito Santo e a ideia de V Império, D. Fernando II e a Pena, Carvalho Monteiro, a Regaleira e a demanda do Santo Graal, etc. Pela rara oportunidade para conhecer as origens sagradas de Sintra-Colares infundidas na Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão que daqui as difundiu, esta é uma conferência a não perder.

quinta-feira

O Comércio Tradicional e a Dinâmica Urbana de Cascais





Marcado por um percurso histórico semelhante àquele que traduziu o desenvolvimento urbano da localidade, o comércio cascalense foi, durante mais de seis séculos, um dos mais representativos repositórios da capacidade e do empreendimento dos munícipes de Cascais.

Totalmente dependente das oscilações conjunturais, bem como dos ciclos sempre repetidos e das variações estruturais do País, o comércio dito tradicional apresenta um modelo de penetração no espaço que está em permanente dependência das condições de vida das populações.

O que isto quer dizer, em termos da existência prática desta actividade, é que a prosperidade ou o declínio do comércio tradicional, ao contrário do que acontece com outras actividades, depende mais das condições que estrutural e urbanisticamente lhe são oferecidas do que da sua própria vontade e capacidade de existir. Ou seja, o comerciante resulta do meio que o envolve, e as suas características intrínsecas são, assim, o melhor espelho da sociedade do seu tempo.

Por tudo isto, e no que a Cascais diz respeito, parece difícil determinar com rigor e exactidão aquele que foi o devir histórico do comércio local.

Por um lado, no decorrer do período que vai desde 1364 até 1870, ou seja, desde a subida à condição de município autónomo de Sintra, até à chegada da Corte, Cascais é um território que de caracteriza por uma oscilação permanente nas suas estruturas político-sociais e, consequentemente, também nas suas principais actividades.

A Vila Piscatória dessas épocas, marcada sobretudo pela sua relação de proximidade ao mar e a tudo o que a ele diz respeito, era também uma espécie de guarda avançada de Lisboa, aqui se mantendo, sempre com características diferentes em virtude da época ou épocas a que nos reportamos, uma série de aquartelamentos que trazem exigências próprias à povoação e à sua população. Por outro lado, era também o ponto de chegada de uma série de produtores agrícolas e hortícolas que, oriundos do termo rural do Concelho ou até de outros concelhos dos arredores, aqui vinham vender, trocar e exportar para Lisboa grande parte da sua produção.

A um tempo, Cascais é porto de pesca, com indústrias relacionadas com essa indústria e com o pescado comprovadas pelos menos desde a época romana e, simultaneamente, espaço de instalação de contigentes militares. Por outro lado, é também cabeça de um fértil território de génese rural que utiliza os seus areais e as condições ímpares da sua Baía como ponto privilegiado para despacho de produtos para a Capital.

Esta pluralidade de vocações, cada qual com as suas características, exigências e expectativas é assim o principal cenário que nos permite compreender a sua actividade comercial que, mais do que o resultado dos decretos e da legislação Nacional, se pautava pela vontade e, mais ainda, pela necessidade de responder às necessidades da comunidade aqui sedeada.

Por tudo isso, e sobretudo porque a linearidade processual está sempre afastada da actividade comercial, o comércio cascalense entre 1364 e 1870 é o resultado directo da conjugação entre as forças produtivas de Cascais e do seu termo, a pesca e a agricultura, e as necessidades de fornecimento de bens às forças militares ou militarizadas existentes no seu território.

Por outro lado, e embora com carácter incipiente, há a registar ainda uma influência positiva exercida como consequência do seu posicionamento estratégico durante a epopeia marítima portuguesa, pois era aqui que as naus e demais embarcações envolvidas nos processos comerciais de além mar, faziam a aguada depois de saírem de Lisboa e antes de enveredarem pelas difíceis rotas oceânicas. Como é evidente, o fornecimento das últimas parcelas de víveres frescos e de água potável fazia-se em Cascais, e nada mais óbvio do que partir do princípio de que esses produtos resultavam das actividades agrícolas locais.

Assim, e a título de conclusão provisória, é lícito afirmar que durante o período em questão, o comércio de Cascais se caracterizou sobretudo pela sua extrema dependência em relação à política nacional. Os períodos de maior instabilidade, com o aumento dos contingentes militares sediados em Cascais, fazia aumentar as necessidades de fornecimento de víveres e dos demais apoios. Logo, fazia aumentar também as expectativas comerciais locais. Os períodos de maior estabilidade, significando um decréscimo do número de tropas aqui sediadas e, logo, uma diminuição substancial da procura comercial, traduziram-se em menor pujança do comércio local.

Durante os anos de maior actividade de descoberta e de comércio internacional, esse dependência esbateu-se um pouco, mercê da já referida relação existente com a aguada dos navios, e com a assumpção do papel de guarda avançada de Lisboa. Apesar de tudo, implicações de carácter legislativo que impediam carregamentos e descarregamentos fora do Porto de Lisboa, foram surgindo amiúde, o que comprometia o fluxo de mercadorias e a prática comercial nos portos circundantes e, nomeadamente, também no de Cascais.

Embora não existam fontes documentais que comprovem directamente e com exactidão estas asserções, existem vestígios de outra índole que asseguram indirectamente o quadro que acabámos de traçar.

Em termos urbanísticos, por exemplo, é visível a enorme dependência que existe entre o crescimento de Cascais e as necessidades de fornecimento à Capital e aos contigentes militares aqui estacionados. Os períodos de mais conturbação são precisamente aqueles em que se regista um maior fulgor construtivo; e, em contrapartida, os de maior pacificação, são aqueles que se traduzem em Cascais por uma estagnação construtiva acrescida (1).

Com significante incidência na taxa populacional de Cascais, que oscilou sempre ao sabor das vicissitudes políticas Nacionais, o comércio local caracterizou-se quase sempre pela sua génese eminentemente rural. As principais actividades comerciais que existiam em Cascais eram, durante este longo período, aquelas que se prendiam com o acesso aos bens essenciais, ou sejam, a compra e venda de produtos alimentares e, de forma complementar, os serviços associados a uma existência urbana. Os alfaiates, tanoeiros, barbeiros e sapateiros, partilhavam a clientela com serviços relacionados com a construção e a reabilitação de construções. De pedreiros a ladrilhadores, passando por calceteiros, carpinteiros e demais profissões relacionadas com este sector, Cascais possuiu sempre uma panóplia de oferta comercial e de serviços que lhe permitiu manter-se como um local bem provido de tudo aquilo que era essencial à vida quotidiana dos seus habitantes.

No entanto, e apesar de tudo, a sua extrema dependência em relação a flutuações conjunturais externas, aliada à grande proximidade relativamente a Realeza Sintrã, e à Capitalidade de Lisboa, que se afiguravam como atractivos fundamentais ao estabelecimento de eventuais novos promotores comerciais, fez com que Cascais se mantivesse sempre como uma pequena Vila Piscatória, sem grande relevo na zona envolvente.

Quando em 1364, o Rei D. Pedro I concedeu Foral a Cascais, libertando assim esta Vila do jugo administrativo de Sintra, verifica-se que existe um especial cuidado na defesa dos interesses dos produtores locais. Para além dos pescadores, que tiveram uma palavra importante na determinação das prerrogativas de que iria gozar o novo Concelho, também os produtores agrícolas e hortícolas beneficiaram de importantes isenções fiscais e de benefícios que promoveram a produção interna.

Por outro lado, é também digna de uma nota especial, a atenção particular que o Foral atribuído a Cascais dispensa às restantes produções que, nessa época longínqua, podem ser consideradas como a génese da actividade comercial. Desde as louças até ao gado, passando pelos escravos, pela cal, pela pedra, pela cera, pelo mel, pelos metais e pelos tecidos, o Foral Cascalense atribui incentivos que, embora semelhantes àqueles que são oferecidos a outros municípios que recebem a sua carta na mesma época, denotam um cuidado especial na promoção das actividades que enquadram a actividade comercial.

Pode por isso dizer-se, sem sombra de dúvida, que o embrião do comércio cascalense pode encontrar-se nos primórdios da sua municipalidade, usufruindo dos benefícios e das regalias constantes na sua Carta de Foral. Apesar de a produção e a compra e venda de produtos se ter mantido sem grandes transformações até ao último quartel do Século XIX, o que é natural se pensarmos que o comércio depende sempre das condições urbanas, sociais e comunitárias do espaço em que se insere, não deixou de ter sempre uma sólida posição no contexto económico e financeiro da Vila de Cascais.

Mas todo este quadro mudou drasticamente a partir de 1870.

Com a chegada da Corte durante o período final do estio, vieram para Cascais uma série de famílias de renome Nacional que transformaram a Vila numa das mais apelativas estâncias de veraneio de Portugal.

A instalação deste novo contigente populacional, inicialmente de carácter muito precário, mas progressivamente cada vez mais evidente, alterou radicalmente os equilíbrios comerciais de Cascais, trazendo novas exigências de qualidade e de diversidade, mas também um mercado muito mais amplo que tornou mais apelativo o estabelecimento na Vila (2).

É neste período áureo, aliás, que Cascais se assume como povoação de vanguarda no contexto Nacional, pois foram aqui inauguradas uma série de novidades que, mais do que popularizar esta Vila como destino de excepção, vão trazer para o burgo um cunho de modernidade e progresso que a transformam num espaço privilegiado para o empreendedorismo comercial.

Esta transformação, visível também ela no conjunto edificado da Vila de Cascais, que numa primeira fase somente se adaptou de uma forma parcial para receber os novos habitantes durante dois ou três meses por ano, e só posteriormente assistiu ao surgimento de novos edifícios e espaços que traduziam o investimento em habitações condignas por parte das mais importantes famílias do Reino, teve implicações drásticas em todo o edifício económico e financeiro do Concelho.

Por um lado, dentro da Vila de Cascais, surgiu um enorme conjunto de estabelecimentos comerciais e de prestadores de serviços que procurava dar resposta ao aumento da procura que resultou do crescimento significativo da população. Por outro, na generalidade dos espaços rurais do território concelhio, assistiu-se ao florescimento da actividade agrícola e hortícola pois, ao contrário do que acontecia até aí, a criação de um mercado pujante situado no centro da própria Vila, acabou por facilitar o escoamento dos produtos e o consequente aumento do lucro (3).

Apesar de não existirem dados efectivos que permitam aferir numericamente este aumento de actividade comercial, uma vez que muitos dos empreendimentos surgidos aparecem também de forma algo volátil como extensões de firmas e de sociedades constituídas em Lisboa que vão dando os primeiros passos de um processo longo de estabelecimento no Concelho de Cascais (4), o aumento do investimento no nosso Concelho foi fulgurante e contribuiu para uma alteração profunda nos costumes, nos hábitos e na estruturação social da Vila e do seu termo.

No conjunto das actividades comerciais que mais cresceram na Vila de Cascais no período que se situa entre 1870 e 1910, merece uma referência especial o ramo relacionado com a construção e as obras.

De facto, num espaço urbano em evidente crescimento, no qual assumia primordial importância a capacidade de oferecer condições de alojamento que estivessem de acordo com a relevância social dos novos habitantes cascalenses, os estabelecimentos que forneciam material ligado a essa indústria conheceram tempos de grande pujança e crescimento.

É de notar que, no período subsequente, ou seja, no período mais conturbado que caracterizou o início da primeira república e que representou um momento de declínio para Cascais, são precisamente os comerciantes relacionados com este ramo que melhores condições possuem para ultrapassar a crise e para se manter em funcionamento a nível local. Nessa época, na qual instituições variadas procuraram criar condições e incentivos que permitissem ao comércio local prosperar, são precisamente estes comerciantes quem prepara as melhores montras e quem dá mostras de maior longevidade (5). São também eles que demonstram possuir um espírito mais empreendedor e inovador e, consequentemente, uma maior capacidade de investimento nos seus negócios em Cascais, conforme se pode deduzir dos dados existentes (6).

Depois de implantação da república, com o consequente afastamento da Corte da Vila de Cascais, alteram-se novamente as condições de prosperidade e desenvolvimento que vigoravam desde 1870.

A precariedade política que caracterizou o País, extensível ao conjunto de decisões controversas e, tantas vezes contraditórias, que os principais responsáveis pelo Concelho de Cascais iam tomando (7), transformou o comércio e a generalidade das actividades a ele inerentes em profissão de elevado risco, o que implicou uma regressão do investimento que se fez nesta Vila e Concelho (8).

Esta situação foi, no entanto, muito transitória, uma vez que devido à intervenção directa de uma série de personalidades que assumem os destinos de Cascais, se assiste ao início de um novo período de investimento e desenvolvimento logo a partir de 1921. É a partir deste ano que, num esgar de reconhecido empenho pelo desenvolvimento do País, Cascais assiste à assumpção do turismo como a grande vocação municipal.

Com a criação das Comissões de Iniciativa e Turismo, que procuravam encontrar junto da sociedade civil as condições económico-financeiras que permitissem ultrapassar os insolúveis problemas orçamentais do Estado, Cascais passou a usufruir das condições necessárias ao início de um novo período de próspero desenvolvimento.

Nomes como os de Fausto Cardoso de Figueiredo ou José Florindo de Oliveira, para além de muitos outros que desempenharam papéis de relevo em todo o Século XX cascalense, foram aproveitando as condições deixadas no Cascais da Corte e, rentabilizando-as, recriaram a vocação turística municipal.

Ao longo de quase todo o Século XX, por iniciativa da Comissão de Propaganda de Cascais, realizaram-se inúmeros concursos e festivais que procuravam promover o comércio local e, simultaneamente, dotá-lo de condições de competitividade.

É nesta época que se assiste ao sucesso dos concursos de montras, exposições de lenços, festivais de flores, saraus de propaganda, etc. Desse período de florescimento e progresso resultaram evidentes benefícios para o comércio cascalense.
O aumento da procura, e o acentuado crescimento da população, assumiram-se como óptimas condições para o restabelecimento das condições de vida e, consequentemente, para a efectivação dos investimentos necessários à tão desejada prosperidade.

Cascais foi-se tornando, de uma forma paulatina, num local de excepção, onde se passaram a encontrar os artigos de excepção que chegavam a Portugal. Uma povoação onde, a partir da Segunda Guerra Mundial, passaram a residir as principais famílias da aristocracia europeia, que aqui se reuniram às grandes figuras Nacionais, e na qual se conjugavam condições climáticas e paisagísticas ímpares, transformando-se num dos principais mercados comerciais de Portugal.

É deste período de ouro, que se prolongou desde a década de 20 até quase ao final do Século, que resulta o fascínio, o ‘glamour’, o prestígio e a tradição comercial de Cascais.

Durante todos estes anos, nos quais Cascais se assumiu como uma das mais emblemáticas Vilas Portuguesas, o comércio local consolidou-se, cresceu e prosperou, beneficiando das condições ímpares que lhe oferecia o Concelho e da conjuntura favorável que envolveu a povoação.

Nesta época, para além de uma crescente autonomia em relação a Lisboa, pois em Cascais existia quase tudo o que era necessário ao dia-a-dia daqueles que cá habitavam, a instalação das melhores marcas e produtos a nível mundial foi transformando a Vila num espaço também privilegiado comercialmente.

Não era raro, nesta época de fascínio cascalense, encontrar famílias lisboetas e de outras partes do País que vinham “às compras a Cascais”. Aqui encontravam as marcas, os produtos e a qualidade comercial que não existia nos seus locais de residência.

Depois, com a crescente urbanização; com a massificação; com a proliferação das grandes superfícies incaracterísticas; com a falta de condições ambientais; com problemas graves de identidade social; e com uma progressiva descaracterização paisagística, Cascais foi perdendo a qualidade desses tempos.

Hoje, mercê do nome e da fama que granjeou durante esses anos de fulgor, Cascais ainda pode retornar à senda do sucesso (9).








(1)Henriques, João Aníbal, História Rural Cascalense, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 1997;
(2)AMORIM, Diogo Pacheco de, e HENRIQUES, João Aníbal, Urbanismo & Comércio, Cascais, Fundação Cascais, 2002;
(3)Ver nota (1);
(4)Ver dados aprofundado em ANDRADE, Ferreira de, “Monografia de Cascais”, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964;
(5)HENRIQUES, João Aníbal, Propaganda – Sete Décadas de Promoção de Cascais, Cascais, Câmara Municipal de Cascais e Sociedade Propaganda de Cascais, no prelo.
(6)HENRIQUES, João Miguel, Cascais – Do Final da Monarquia ao Alvorecer da República (1908-1914), Cascais, Edições Colibri e C.M.C., 2001;
(7)HENRIQUES, João Aníbal, O Estoril e a Paróquia de Santo António, Cascais, Fundação Cascais, 1999;
(8)ANDRADE, Ferreira de, Cascais Vila da Corte, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964.
(9)Ver nota (2).

quarta-feira

Os Ferreiras do Vale de Alcântara




O Presidente da ALA - Academia de Letras e Artes, Professor Doutor António de Sousa Lara, em parceria com Vasco Quintanilha Fernandes, publicou mais um importante trabalho de investigação genealógica que desvenda o devir da família Ferreira e, através dela, o dealbar da revolução industrial na região de Lisboa. Intitulado "Os Ferreiras do Vale de Alcântara e as Suas Alianças", o livro ajuda a perceber a importância do Vale do Tejo como cenário de afirmação de uma burguesia empreendedora e moderna que, dando forma à criação de laços de sangue com as famílias tradicionais do Portugal de então, deu origem à estrutura social que marcou a história recente do nosso País.

segunda-feira

A Capela do Livramento




Situada estrategicamente no centro da povoação do Livramento, muito próximo das entradas principais de algumas das maiores e mais produtivas quintas do concelho de Cascais, a Capela do Livramento é uma construção do final do século XVIII, como acontece, mercê da grande destruição provocada pelo terramoto de 1755, com a quase totalidade dos edifícios de culto do território de Cascais.

Muito embora não seja possível determinar com exactidão a data da primitiva edificação, pode dizer-se com alguma certeza que ela seria, certamente, muito antiga. A manutenção das estruturas simbólicas e religiosas das populações proto-cascalense, bem como a continuidade verificada em quase todas as áreas durante os períodos mais conturbados de transformação política, permite supor um certo carácter sagrado a quase todos os terrenos hoje ocupados por templos de culto católico.

Esta situação, que à partida parece pressupor a existência de rituais comuns a todas estas diferentes religiões, fica a dever-se, no entanto, às características de adaptabilidade que acompanham a vida da cristandade desde os seus primeiros anos de existência. De facto, quando se fala em culto católico, fala-se também numa congregação geral de muitas expressões religiosas anteriores que, com o objectivo de homogeneizar a vivência espiritual das populações, preparando-as para uma melhor aceitação das novas ideologias, promoveu o encontro de culturas e formas de ser.

A Capela do Livramento, exemplo muito positivo da forma como o património pode espelhar os resquícios meio apagados do devir histórico, representa actualmente um ponto de união para as populações envolventes, demonstrando também, e até à exaustão, a importância que possui a existência de um núcleo histórico bem consolidado na manutenção e desenvolvimento das relações de vizinhança. Estas por sua vez, tendem a facilitar a dignificação da instituição familiar que, por seu turno, promove o arreigado apego ao meio e à terra, factor condicionante da melhoria da qualidade de vida das populações.

As linhas simples da fachada deste edifício, bem como a forma exemplar como se encontra preservado, tornam-no num pólo aglomerador da população envolvente, que ali se encontra, aos fins de tarde e durante o fim-de-semana, para trocar impressões sobre os problemas do quotidiano. As diferentes gerações, ao contrário do que acontece na grande maioria das povoações cascalenses, possui um meio físico importante onde se pode reunir e trocar experiências.

Do ponto de vista plástico e arquitectónico, são de salientar, no adro da Capela do Livramento, um cruzeiro datado de 1757, bem como um conjunto bem preservado de um poço com bomba manual, peça importante na memória colectiva do Livramento, e que foi utilizado até quase à actualidade como elemento distribuidor de água para todo aquele espaço.

A planta rectangular do interior, a capela-mor abóbada e a passagem em arco de volta perfeita entre a capela e a capela-mor, permitem definir com rigor as datas da construção do templo. O chão de pedra e a balaustrada de madeira do coro, criam um ambiente de requintada simplicidade, coadjuvado, como é óbvio, pela ambiência criada pelas pequenas janelas colocadas em longo de todo o corpo principal.

As imagens da Virgem com o Menino, bem como as figuras imponentes de São Sebastião e de São José, completam um espólio artístico que, embora pobre, dignifica, pela forma como está preservado, a memória colectiva do Livramento, e o património cultural do concelho de Cascais.

Quando Servir Portugal era um Dever e Não uma Obrigação...

sexta-feira

segunda-feira

A Ermida de Nossa Senhora da Conceição de Porto Côvo





Construída em 1760 a mando de 'Luís Mendes' e sua esposa 'Izidora P.', a Ermida de Nossa Senhora da Conceição de Porto Côvo situa-se na Quinta do Pisão, na Freguesia de Alcabideche, Concelho de Cascais.

Tendo sido construída com intuito vocativo, uma vez que a mando dos seus fundadores é ainda hoje possível encontrar, numa cartela colocada sobre o lintel da porta, uma inscrição indicando a vontade expressa de manutenção de uma memória que seria perpectuada através das missas que decorreriam todos os domingos e dias santos, o edifício em questão é mais um digno exemplar da obra reconstrutiva do património religioso cascalense após o terramoto de 1755.

Não deixa de ser curiosa a escolha de Nossa Senhora da Conceição para sua padroeira, uma vez que se trata de um edifício sepulcral. O dogma da Imaculada Conceição, fixado por Bula do Papa Pio IX, em 1854, prende-se normalmente com a atribuição a espaços relacionados com o nascimento, incentivando a ideia de pureza e da pré-existência de alguém na mente de Deus. Esta ideia está presente na iconografia religiosa Cristã desde o início da Idade-Média, consubstanciando-se na Virgem Pré-Existente, que foi mãe e esposa de Deus antes da criação de Eva. O capítulo 12 do Apocalipse de São João, por exemplo, descreve-a como um sol raiado de sete estrelas com uma lua aos pés, sendo curiosa a analogia existente entre esta simbólica e a decoração das habitações tradicionais das zonas rurais de Cascais, onde a temática lunar se afirma como fundamental.

O significado do termo 'Ermida', implícito na sua localização num terreno ermo, por certo influenciou largamente a sua estrutura, uma vez que as dificuldades físicas apresentadas pelo terreno, obrigaram à construção de um grande muro de contenção de terras que a protege e rodeia.

Os ritos de fundação de edifícios Cristãos revestiram-se, desde os tempos primitivos, de procedimentos simbólicos em que a Cidade de Jerusalém se assumia como eixo do Mundo, devendo orientar todos os locais de culto. Era normal, no mundo Cristão, orientar a disposição dos jacentes em direcção a Oriente, pretendendo-se assim que o defunto pudesse olhar o sol nascente no momento do Juízo Final. Tal, no entanto, não é o caso da Ermida de Nossa Senhora da Conceição de Porto Côvo, cuja cabeceira se encontra no sentido SE-N, contrariando a disposição mais comum e, desta forma, alicerçando a hipótese de a sua construção resultar de um aproveitamento de um local já sacralizado e, possivelmente, onde se encontraria previamente um outro monumento de culto.

A ermida apresenta uma concepção de espaço que responde à sua funcionalidade. De pequenas dimensões, tem uma simplicidade de formas nos frisos e pilastras que conjugada com outros efeitos decorativos, lhe imprimem algum dinamismo e um efeito cenográfico contido e sóbrio.

Ao entrar sobressai à vista a abóboda de berço da cobertura, ainda em estado suficientemente razoável de conservação para nela se poderem vislumbrar uns restos de frescos polícromos, que contrastam com as cores azul e branco daquilo que resta dos azulejos do altar.

No centro da capela foram sepultados os encomendadores do edifício, cobertos por uma lápide que, apesar do lastimoso estado de destruição em que se encontra, fruto de pilhagens sucessivas que se ficam a dever ao abandono em que a propriedade esteve durante muitos anos, ainda apresentam curiosos signos decorativos, provavelmente de origem iconográfica pré-clássica. São de realçar, pelo impacto que posteriormente assumem em muitos edifícios religiosos da zona rural de Lisboa, aqueles que se baseiam na ideologia egípcia, como a flor-de-lótus e a roseta. No Egipto antigo o lótus faz parte de uma das cosmogonias conhecidas. Nascido das águas primordiais, foi, por sua vez, o berço do Sol. A roseta, por seu turno, é um motivo alegoricamente relacionado com o astro principal, simbolizando a ideia de imortalidade. Na mitologia egípcia Aton é representado por um disco solar, do seio do qual, através dos olhos, saíram os primeiros homens.

Se associarmos tudo o que foi dito, podemos concluir que a Ermida de Nossa Senhora da Conceição de Porto Côvo, com toda a pujança de uma situação geograficamente estranha e de um sistema decorativo propício ao estabelecimento de relações trans-cultuais, se relaciona definitivamente com alguns dos mais antigos e importantes cultos da Ibéria pré-Cristã.

Em termos urbanísticos, e se uma investigação arqueológica fosse levada a efeito, visível se tornaria a possibilidade de a mesma resultar de um processo de adaptação do espaço face a cultos anteriores que ali foram desenvolvidos.

sexta-feira

O Euro, a China e o Futuro de Portugal




Foi hoje tornado público em Portugal, que o “sucesso” da oferta de dívida pública que o estado português colocou esta semana se ficou a dever ao facto de a China ter aceite participar mediante a abertura do capital da GALP aos empresários chineses.

Teoricamente pouco relevante, basicamente porque já todos sabíamos que era intento do actual primeiro-ministro ir ao Oriente buscar algum apoio a este nível, é no entanto um dos mais importantes dados dos últimos tempos se o integrarmos no contexto europeu.

Incapaz de responder aos muitos desafios que vão surgindo no horizonte, a Europa percebeu finalmente que não será fácil recriar-se em torno de uma federação pacificamente aceite pelos países da periferia e, acima de tudo, entendeu que toda a estratégia desenvolvida pelos países ditos mais desenvolvidos de investir nos PIGS de forma a conseguir controlá-los daqui a algum tempo, está definitivamente comprometida.

Ou seja, com a entrada da China no capital da GALP existem três constatações que deveremos reter: a primeira é a de que existem alternativas ao domínio que a Alemanha e a França pretendiam desenvolver sobre nós como contrapartida à “ajuda” que nos dariam para resolver o problema do défice que temos com eles; em segundo lugar, que o Euro que nos impingiram como sendo essencial para desenvolver Portugal só serve para consolidar o poderio federalista desses países, colocando em causa a soberania dos países a que eles chamam “periféricos”; e em terceiro lugar, para desespero da generalidade dos eurocratas, comprova-nos que sem este Euro, numa Europa de estados soberanos e livres de pactos e tratados que Franceses e Alemães nos impuseram, ficam eles próprios incapazes de responder economicamente às economias emergentes.

Resumindo e concluindo: estão a mentir aos Portugueses. A Europa que nos venderam enquanto protectora e sinónimo de transparência, rigor e lealdade no relacionamento entre os estados, é exactamente o contrário disso.

O caminho de Portugal, colocado na cabeça de uma Europa voltada ao Atlântico e estrategicamente posicionado como porta de entrada de todas estas economias novas e verdadeiramente mais transparentes, deve ser em direcção à assumpção da sua soberania Nacional.

Com esse rumo, encontraremos certamente mais oportunidades de crescimento e afirmação do que no contexto de uma Europa federada que vai, efectivamente, espezinhar e destruir os interesses dos Portugueses.

quinta-feira

Leilão Pírrico de Portugal




O Prémio Nobel da Economia, Paul Krugman, dedicou a sua intervenção de hoje no blogue que publica no Jornal The New York Times a Portugal. Fá-lo, obviamente, analisando a emissão pública de dívida que o estado português ontem lançou e que, mercê dos seus resultados, deixou eufóricos os nossos governantes e um pouco mais relaxados os nossos vizinhos espanhóis e as instâncias governativas da Europa.

Segundo ele, não existe razão de festa nos resultados ontem alcançados por Portugal nos mercados. A taxa de juro cobrada, embora um pouco inferior àquela que se conseguiu no final de 2010, está substancialmente acima das reais capacidades que Portugal tem de a pagar. Ou seja, para Krugman, a euforia e o optimismo gerados pela operação de ontem é demonstrativa do caos e da situação do mais completo desespero em que se encontra a Europa.

Para o economista, os países da periferia europeia estão há muito tempo condenados ao falhanço. Isto porque, tal como aconteceu com o General Romano Pirro, depois de ter ganho uma batalha na qual morreu a maioria das suas tropas, só resta esperar por mais uma ou duas destas “vitórias” para que a êxito da guerra fique totalmente comprometido.

Aquilo que o Estado Português ontem alcançou, foi um suspiro de alívio momentâneo na pressão da Europa para que Portugal assuma o descalabro político-económico em que se encontra. Daqui a dez anos, quando esta dívida vencer, cá estaremos nós os cidadãos, para a pagarmos à força acrescida de juros de 6,7 %.

E onde estarão nessa altura aqueles que agora nos endividaram?

terça-feira

As Fundações de Portugal




Até há cerca de 37 anos, era normal e corrente apontar 1143 como o ano da Fundação de Portugal. Marcava-se assim que formalizava o nascimento deste País e, acima de tudo, definia-se um período a partir do qual da nacionalidade se impôs a todos aqueles que habitavam neste rectângulo situado no extremo Ocidental de uma Europa completamente trespassada pelas crises sucessivas e por problemas irresolúveis em termos da gestão dos poderes vigentes.

Em 2011, mercê de um extraordinário trabalho de investigação efectuado pelo Diário de Notícias, ao qual se está a conceder pouca importância mas que é a mais cabal explicação para a situação de caos político-económico em que vivemos, ficámos a saber que existem 640 fundações de capital público em Portugal e que, desde 2008, foram criadas 88 novas fundações a um ritmo de uma a cada doze dias.

Como bem sabemos, a figura jurídica subjacente à criação da uma fundação é o fundo, normalmente legado por um fundador, para perpectuar um trabalho ou projecto numa área específica de interesse.

Ora não é nada disso que acontece com as ditas fundações públicas. Criadas por iniciativa do estado, são fundadas sobre fundos que pertencem ao contribuinte, ou seja, a cada um de nós, subvertendo assim o carácter dessas instituições.

Ao fazer isso, o estado está a enganar os cidadãos. Em primeiro lugar porque utiliza o seu dinheiro para criar essas estruturas num acto para o qual não foi mandatado, sem disso prestar as devidas contas e sem consultar aqueles que deveria representar. Depois, porque ao pagar os seus impostos, o cidadão fá-lo precisamente para se assegurar que existem os meios suficientes para que a estrutura estatal funcione e, dessa forma, possa cumprir o principal objectivo para o qual o estado existe: trabalhar para o cidadão.

Existem duas explicações possíveis para a criação de uma fundação pública a cada doze dias que passam numa época de profunda e grave crise que põe até em causa a Soberania Nacional: ou o estado assume que é incapaz de cumprir as obrigações para as quais os Portugueses o mandataram, e assim cria as fundações para suprir essas deficiências, e nesse caso – por ser incapaz – deveria ser pura e simplesmente despedido; ou, noutra perspectiva, cria as ditas fundações pura e simplesmente para assegurar que existe uma rede de cargos, lugares e posições que distribui ao conjunto de apoiantes do partido que o suporta e, nesse caso, deve ser despedido por estar a servir-se dos bens públicos em proveito próprio.

Em qualquer das situações, e volto a repetir que desde 2008, em plena crise que coloca em causa a Soberania Nacional e a verdadeira fundação de Portugal em 1143, se criaram 88 fundações por iniciativa pública, estão a enganar os Portugueses.

quarta-feira

Duarte d'Almeida - Decepado por Portugal




Numa época de profunda anomia como é aquela que actualmente atravessamos, na qual são poucos aqueles que ousam pensar e agir em acordo com a sua consciência e em nome de princípios e valores que são essenciais à vida, assumem especial importância os exemplos dos que foram capazes de se transcender em nome de Portugal.

O ser capaz de oferecer a própria vida sem esperar recompensa alguma, sempre sentido que vale mais morrer vivendo do que viver morrendo, é uma qualidade rara mas que surgiu pontualmente e em momentos muito importantes ao longo da nossa História.

Pouco conhecido na actualidade, apesar de a sua História de Vida ter sido contada e recontada como exemplo em inúmeros livros ao longo de muitos séculos, Duarte d’Almeida – o Decepado de Toro – foi figura central no Portugal do Século XV. Com a sua coragem, entrega e motivação, ofereceu a Portugal a possibilidade de se manter livre e independente, criando simultaneamente as condições necessárias para que se concretizassem os grandes feitos das descobertas.

Importa conhecer, perceber, compreender e aprender com a História de Duarte d’Almeida num início de século ávido de heróis que sejam capazes de oferecer as suas mãos para salvar este nosso Portugal…

Filho de Pedro Lourenço de Almeida e Alferes-mor de D. Afonso V, ficou conhecido na história pela alcunha do Decepado.

Ganhou notoriedade na batalha de Toro, em 1 de Março de 1476, que colocou frente-a-frente as tropas portuguesas e castelhanas, devido aos seus actos de abnegação, valentia e heroísmo.

A luta foi enorme; as quatro grandes divisões castelhanas, vendo os seus em perigo, acudiram a auxiliá-los, ao mesmo tempo que o arcebispo de Toledo, o conde de Monsanto, o duque de Guimarães e o conde de Vila Real avançavam em socorro dos portugueses.

Subjugados pela superioridade do número, os portugueses caíram em desordem, abandonando o pavilhão real. Imediatamente, inúmeras lanças e espadas o cobrem, e todos à porfia pretendem apoderar-se de semelhante troféu. Duarte de Almeida, num supremo esforço, envolto num turbilhão de lanças, empunha de novo a bandeira, e defende-a com heróica bravura. Uma cutilada corta-lhe a mão direita; indiferente à dor, empunha com a esquerda o estandarte confiado à sua Honra e lealdade; decepam-lhe também a mão esquerda; Duarte de Almeida, desesperado, toma o estandarte nos dentes, e rasgado, despedaçado, os olhos em fogo, resiste ainda, resiste sempre. Então os castelhanos o rodearam, e caiem às lançadas sobre o heróico alferes mor, que afinal, cai moribundo. Os castelhanos apoderaram-se então da bandeira, mas Gonçalo Pires conseguiu arrancá-la. Este acto de heroicidade foi admirado até pelos próprios inimigos.

Duarte de Almeida foi conduzido semimorto para o acampamento castelhano, onde recebeu o primeiro curativo, sendo depois mandado para um Hospital de Castela. No fim de muitos meses, voltou à, pátria, e foi viver para o castelo de Vilarigas, que herdara de seu pai. Havia casado com D. Maria de Azevedo, filha do senhor da Lousã, Rodrigo Afonso Valente e de D. Leonor de Azevedo. Diz-se que Duarte de Almeida morreu na miséria e quase esquecido, apesar da sua valentia e bravura com que se houve na batalha de Toro, que lhe custou ficar inutilizado pela falta das suas mãos. Camilo Castelo Branco, porém, nas Noites de insónia, diz que o Decepado não acabara tão pobre como se dizia, porque além do castelo de Vilarigas, seu pai possuía outro na quinta da Cavalaria, e em quanto ele esteve na guerra, sua mulher havia herdado boa fortuna duma sua tia, chamada D. Inês Gomes de Avelar. D. Afonso V, um ano antes da batalha, estando em Samora, lhe fizera mercê, pelos seus grandes serviços, para ele e seus filhos, de um reguengo no concelho de Lafões
”.

Adaptado do livro “Midões e o Seu Velho Município” da autoria de António Duarte d’Almeida Veiga (Benavente, 1905) e do “Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico”, Volume I, pág. 245.

terça-feira

Fulanização e Responsabilidade do Estado Português




As notícias que ontem abriram os principais noticiários, davam conta dos resultados já alcançados pelo governo português no programa de corte das prestações e apoios sociais.

Do abono de família ao rendimento mínimo garantido, foram cerca de 2,5 milhões de Euros que o estado poupou em três meses através do cancelamento de subsídios que deixaram de ser entregues às famílias. Esta medida de austeridade, considerada de forma quase unânime pelos analistas e comentadores como essencial no estado de caos em que se encontram as contas públicas, vem assim contribuir para a redução do défice e, acima de tudo, complementar o aumento de impostos que todos os Portugueses suportarão para ajudar o País a cumprir os objectivos da moeda única.

Mas apesar de ninguém a ter ainda levantado, existe uma questão premente que se coloca quando ouvimos uma notícia destas: será que foram cortados os apoios que tinham sido mal atribuídos ou pura e simplesmente se retiraram esses apoios àqueles que deles efectivamente necessitavam?

A premência da questão é maior ainda se pensarmos que durante anos a fio, por incúria, incompetência ou desinteresse do estado, houve negligência na forma como se atribuíram e foram pagos esses subsídios. É preciso lembrar que o peso da administração pública no orçamento geral do estado Português é um dos mais elevados da Europa, e que isso se deve sobretudo ao facto de todos nós pagarmos a um conjunto excepcionalmente grande de funcionários para que eles cumpram com rigor e cuidado todas essas tarefas essenciais. Ou seja, os Portugueses pagam o funcionamento de um estado ignóbil, desastrado, trapalhão e incompetente, e voltam a pagar ainda os resultados desastrosos da incapacidade que esse mesmo estado tem de zelar pelos interesses deles.

Num País onde a responsabilidade e os deveres não existem, e no qual tudo são direitos, seria importante perceber se houve gente que enganou o estado e recebeu subsídios indevidamente, e nesse caso deverão ser duramente penalizados por isso, ou se foi o estado que se enganou ao atribuir esses mesmos subsídios (com o nosso dinheiro).

Se a opção correcta for a segunda, é fundamental que se fulanize a responsabilidade; se perceba quem prevaricou; se conheçam os nomes dos incompetentes; e se faça essa gente pagar efectivamente pelo sofrimento que infligiu a todos os Portugueses.

Cascais Natura Recupera Dunas do Guincho




Decorre a bom ritmo a intervenção levada a cabo pela agência municipal Cascais Natura nas dunas do Guincho. O projecto, que está a ser realizada em conjunto com o Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade, e é financiado pelo Programa QREN, visa consolidar um corredor dunar possuidor de características únicas e que é essencial para a contenção das areias que estavam a avançar a ritmo acelerado em direcção à zona da Quinta da Marinha.

Os méritos da intervenção, no entanto, ultrapassam largamente os efeitos práticos e imediatos que se farão sentir ao nível da conservação da natureza. De facto, por incluir o projecto de criação de um corredor de acesso à zona Norte da praia do Guincho e de um centro de observação da natureza, a recuperação agora levada a efeito pela Cascais Natura permitirá devolver aos Cascalenses uma das mais interessantes e significativas zonas do Parque Natural Sintra-Cascais.

Criado e gerido durante muitos anos à revelia dos interesses de Cascais e da sua população, que se encontra ainda impossibilitada de entrar, visitar, conhecer e utilizar grande parte do espaço contido naquela área natural, o Parque Natural Sintra-Cascais nunca passou de um mero decreto administrativo que não impediu que ali dentro se cometessem diversos atentados contra os valores ambientais da Serra de Sintra. Exemplos gritantes disso têm sido as deposições ilegais de entulho, as construções clandestinas e a utilização da área do parque para actividades desportivas que destroem zonas sensíveis daquela área.

Com a intervenção agora concretizada no Guincho, abrem-se as portas de um espaço único inserido no Parque Natural Sintra-Cascais aos portugueses e principalmente à população de Cascais, que assim passará a poder compreender e valorizar o autêntico tesouro que esta zona do Concelho ainda encerra.

É simultaneamente uma mais valia ambiental e um importante contributo para a promoção da Identidade e da Cidadania da nossa terra.



segunda-feira

O Mito do Euro e a Federação da Europa




Notícias recentemente divulgadas pelas maiores agências noticiosas europeias, dão conta de que a moeda única europeia – o Euro – tem vinte por cento de possibilidades de sobreviver aos dez próximos anos. Isto, como é evidente, se mantiver a sua actual dinâmica organizativa e se assentar a sua existência numa Europa composta por uma união de Estados-Nação livres e politicamente independentes.

Tal como existe, o Euro tem servido basicamente para nivelar a Europa. Fê-lo utilizando a bitola de quem o idealizou e pagou, ou seja, a Alemanha e a França, que pretendiam assim alargar o espectro da sua soberania junto dos países mais carenciados e menos desenvolvidos. Nesse esforço, ambos os países investiram biliões de Euros, emprestando quantias inimagináveis aos restantes, fazendo depender a entrada na união monetária de duras e inflexíveis medidas de controle orçamental a que os restantes países estavam pouco habituados ou que nem sequer tinham capacidade administrativa para poder aplicar. Criaram-se assim dois grupos nesta Europa surpreendente: os que pagam e mandam e os que recebem os fundos comunitários e que têm de cumprir rigorosamente as ordens dos restantes. Neste segundo grupo, de uma forma de tal maneira assumida que deu origem ao designativo PIGS, com o qual a imprensa dos que mandam se refere aos restantes, estão a Espanha, a Irlanda, a Grécia e… Portugal.

Chegados a este momento, e com o actual modelo do Euro esgotado, restam duas saídas para a Europa da moeda única. Pode manter-se tudo tal como está, e a união monetária sucumbirá inexoravelmente nos próximos tempos com o descalabro social e político que se adivinha. Neste caso a Alemanha e a França deverão assumir o prejuízo inerente à perda de todo o investimento que fizeram e esquecer a ideia de que um dia os PIGS lhes pagarão com juros todo o dinheiro até aqui injectado. Ou então, como alternativa, pode proceder-se a uma revisão profunda da existência da União Europeia, introduzindo alterações que garantam a estabilidade e a manutenção do Euro. Nesta segunda opção, que passa pela efectiva federação da Europa, os estados perdem totalmente a sua autonomia, e subordinam-se política, económica e socialmente à vontade, à dinâmica, à iniciativa e às decisões tomadas pelos importantes.

As notícias que atrás mencionamos são a prova viva de que é esse o caminho já escolhido pela Alemanha e pela França para o futuro do velho continente, e que a Europa das Nações, muitas delas, como Portugal, com quase 900 anos de História, vai ser pura e simplesmente aniquilada.

Os políticos que nos meteram nesta embrulhada, e que continuam hoje (quase todos) à frente dos destinos desta ainda Nação, vêm com bons olhos esta irracionalidade, pois as metas económicas e financeiras são para eles o único caminho possível em direcção à prosperidade.

Mas enganam-se fatalmente. A Europa a que Alemães e Franceses chamam PIGS, é um continente assente em comunidades arreigadas à sua História, a cultural fortes e a usos e costumes que não são compatíveis com uma federação.

Ao levarem Portugal por este caminho, mentindo aos Portugueses a quem se diz que é o único possível dadas as circunstâncias a que chegámos, estão a condenar o nosso País a um processo longo, conturbado e cruel de caos sócio-cultural em que, como já aconteceu noutros momentos da nossa História (e acontece ainda hoje em comunidades autonómicas incluídas à força no estado espanhol), Portugueses lutarão contra Portugueses num esforço que culminará indubitavelmente na definição de uma nova soberania.

Actualmente existem ainda soluções alternativas para Portugal. O eixo com África, com a América do Sul e com a Ásia, complementado com a situação geo-estrategicamente única do País, fornecem-nos as ferramentas necessárias para tirar esta Nação da cauda da Europa e a recolocar na linha da frente. Assim haja vontade, discernimento e capacidade para o fazer.

Agora, em relação ao Euro, por favor não nos federem!

sábado

Quando Portugal Aceitou a Invasão de Timor




Documentos recentemente divulgados pela chancelaria dos Estados Unidos comprovam que a invasão de Timor pela Indonésia esteve muito longe de ter sido o ataque unilateral e terrorista que se relata nas nossas aulas de História. Antes pelo contrário. Foi previamente do conhecimento dos EUA, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e mais tarde de Portugal, que criaram as condições políticas para que acontecesse.

De facto, com Sukarno à frente dos seus destinos, a Indonésia era desde finais dos anos 60 uma potência em franco crescimento. Os Estados Unidos da América, o Reino Unido, a Nova Zelândia e a Austrália, por motivos variados, construíam nessa altura relações bilaterais privilegiadas com a potência emergente, negociando directamente com a Indonésia questões relacionadas com as suas pretensões territoriais e utilizando como moeda de troca os interesses vários que todas tinham no petróleo existente na região.

Em reunião secreta ocorrida em Washington em 1963, as quatro potências concluíram que teriam de aceitar Timor-Leste como parte da Indonésia, pois esta seria a única forma de apaziguarem os ânimos do gigante asiático e, desta forma, assegurarem o seu próprio acesso ao petróleo. Nessa reunião, da qual não resultou nenhum contacto ou informação a Portugal, todos combinaram que não se oporiam a uma eventual invasão perpetrada por Sukarno, e que preferiam deixar cair os tratados e a amizade com Portugal do que perder as boas graças do novo poder indonésio.

Com a revolução de 1974, e a atabalhoada descolonização que Portugal levou a efeito, ficaram criadas as condições para o avanço da Indonésia e para o massacre de mais de vinte anos que dizimou uma parte substancial da população Timorense.

Mas nem assim a Indonésia avançou com os seus intentos.

Antes de passar à acção, que se concretizou somente em Dezembro de 1975, Sukarno avisou os Estados Unidos da sua pretensão, pedindo aos Norte-Americanos que não boicotassem a intervenção. A resposta de Washington, na qual teve parte activa o avisado Kissinger, não se fez esperar, e inclui um detalhe que faz toda a diferença na compreensão daquilo que foram as consequências cruéis e irresponsáveis do caos gerado pelo 25 de Abril. De acordo com a documentação Americana, a administração de Gerald Ford terá contactado o VI Governo Provisório de Portugal, liderado por Pinheiro de Azevedo, dando-lhe conta da eminência do ataque Indonésio a Timor-Leste. Portugal, em resposta, diz taxativamente que não vai opor-se à invasão, dando assim, de forma assumida, o seu apoio à pretensão de Sukarno e deixando nas suas mãos as vidas de milhares de Timorenses.

Afinal, parece que o denominado Ocidente teve muito pouca (ou nenhuma) consideração e/ou respeito pelos direitos humanos. O controle dos recursos petrolíferos e as pretensões políticas da Indonésia, EUA, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia, foram os únicos motivos ponderados em todo este enredo. O respeito pela vida dos Timorenses, que esteve em causa durante décadas, foi efectivamente um pormenor de segunda importância no processo.

Portugal, sem pudor, aceitou tacitamente tudo isto.

Quando em Agosto de 1999 oitenta por cento dos Timorenses optou pela independência num referendo promovido pelas Nações Unidas, esse mesmo Ocidente utilizou o argumento da defesa dos direitos humanos para suportar o seu apoio à pretensão e para consolidar o processo de independência relativamente à Indonésia. Mentiram descarada e cinicamente ao Mundo, aos Indonésios e aos Timorenses.

Portugal, sem pudor, participou mais uma vez na farsa, mostrando bem quais foram os princípios, os interesses e a motivação que estiveram na base da governação do País durante os anos negros a que muitos dos manuais escolares do nosso País ainda continuam a chamar "o nascimento da democracia"...

terça-feira

Aborto - Amanhã Vão Morrer Legalmente Mais 53 Portugueses





Quando em 2007 um referendo não vinculativo legalizou o aborto, muito mudou na face de um País marcado por uma longa tradição em defesa dos valores da vida e da família. Durante a campanha, quer por parte dos que defendiam a legalização, quer por parte dos que eram contra o aborto, esgrimiram-se argumentos e discutiram-se definições que esconderam essa dura realidade aos Portugueses.

O aborto não é, como muitos disseram nessa altura, uma mera interrupção voluntária da gravidez. O aborto é, há que assumir esse facto, um assassinato puro e simples. É a decisão de um conjunto de pessoas de pôr termo à vida de outra. É a imposição da força de uns quantos à fragilidade de outros. É a imputação a alguns da possibilidade de nascer e de fazerem a diferença num Mundo cada vez mais ávido de gente capaz. Os que são mortos através do aborto, não têm qualquer espécie de possibilidade de se defenderem nem de argumentarem o que quer que seja em favor da sua vida.

A legalização do aborto representa, desta forma, o aval do estado ao homicídio e, mais preocupante ainda, a comparticipação do estado neste acto odioso. Cada vez que é praticado um aborto num hospital público em Portugal, todos nós, através do erário público, estamos a pagar para erradicar uma vida.

Durante algum tempo, quando muitos se preocupavam em lançar explicações que apaziguassem as consciências, falou-se nas virtudes do aborto a vários níveis. A nível económico, pois evitava que se gastasse dinheiro no apoio social à vida nascente; a nível político, pois se dizia que Portugal estava atrasado relativamente ao Mundo dito civilizado; a nível da saúde, pois o aborto era uma solução extrema que só seria usada em casos considerados graves e prementes, etc. etc. etc.

Hoje sabemos que nada disto é verdade.

Só em 2009, mataram-se legalmente 19572 seres humanos em hospitais públicos em Portugal. Ou seja, uma média de 53 pessoas mortas por dia numa média que implica os pais pela sua decisão, os familiares deles pelo apoio, as equipas médicas pela prática cirúrgica, e cada um de nós porque pagamos a operação.

Mas existem ainda dados piores e mais preocupantes. De acordo com o relatório agora tornado público, só em 2009 quase um terço das mulheres que abortaram por sua vontade fizeram-nos mais de uma vez num ano… ou seja, a decisão do aborto não foi tomada de ânimo pesado, nem tão pouco se ficou a dever a um qualquer percalço ou inadvertência a que elas tenham sido alheias. Foi uma decisão consciente, tomada cada vez mais de espírito leve, como forma de resolução de um “problema”… Não ouso dizer que o aborto se tornou num método contraceptivo pago por todos nós, pura e simplesmente porque a concepção já ocorreu e a vida humana já existe quando ele foi praticado. De resto é igual.

É muito triste sabermos que amanhã, depois de acordarmos e iniciarmos o nosso dia, mais 53 pessoas vão ser assassinadas legalmente em Portugal sem que nada possamos fazer. É mais triste ainda verificar que esse acto, que põe termo àquele que é o mais precioso dos bens do Homem – a vida – é feito em total desrespeito pelos interesses e pelos direitos daquele ser que nem sequer pode gritar para se defender.

É triste fazer-se isto em Portugal.

Um Deserto de Ideias em Portugal...





A menos de um mês das eleições presidenciais, Portugal parece não ter ainda percebido a importância da decisão que será tomada por todos em Janeiro. De facto, e contrariando aquilo que tem sido comum desde que Eanes chegou a Belém em meados dos anos 70, desta vez o Presidente da República terá uma palavra a dizer relativamente ao futuro de Portugal.

O alheamento dos Portugueses não é, no entanto, culpa sua. Se tomarmos atenção à campanha, se é que se pode considerar como campanha as investidas destrambelhadas de quase todos os candidatos e o mutismo permanente do actual presidente, rapidamente concluiremos algo que é tradutor daquilo em que transformaram o nosso Portugal: um completo, inquietante, promíscuo e preocupante silêncio.

Da esquerda à dita direita; de Cavaco Silva a Francisco Lopes; do poeta alegre ao fundador da AMI; não vem uma única ideia, projecto ou solução que permita aos Portugueses imaginarem o futuro com optimismo. Quem os ouve, e quem dedica atenção às suas intervenções, rapidamente constatará que não existe nada nos seus discursos e intervenções que entendamos ser um passo em frente na resolução dos nossos problemas.

Desta maneira, quem poderá culpabilizar os Portugueses por não se entusiasmarem com este momento tão importante? Quem poderá culpá-los pelo desastre político que vamos enfrentar no próximo ano? Quem poderá julgar o seu alheamento relativamente aos destinos de Portugal? Ninguém. Absolutamente ninguém.

Os políticos activos que temos já demonstraram que estão completa e absolutamente divorciados dos Portugueses. A abstenção crescente que acompanha os actos eleitorais em Portugal é o mais evidente sinal dessa situação inquietante. Porque se Portugal não assume os seus destinos; se a população não intervém nas decisões do dia-a-dia; se a comunidade Nacional não se motiva para participar na vida política; então estamos condenados a que, mais ano menos ano, apareça alguém com força suficiente e uma vontade férrea para deitar a mão a Portugal. Se olharmos para a História veremos que foi sempre assim ao longo dos séculos, num ciclo que se repete de geração para geração.

Depois… não se queixem!

A Vivenda Beira Rio e as Memórias Antigas da Vila de Cascais




Junto ao Jardim Visconde da Luz, mesmo no centro de Cascais, encontramos ainda hoje um imóvel de características únicas que passa despercebido à generalidade dos Cascalenses.

Chama-se Vivenda “Beira-Rio” e, como o seu nome indica, foi construída nas margens da antiga Ribeira das Vinhas, que atravessava a Vila de Cascais. A casa, de traça marcada pelos resquícios da moda do veraneio que alterou profundamente o devir urbano da antiga terra de pescadores, é um chalet do início do Século XX e, apesar das alterações que sofreu no início da década de 90 do século passado, mantém ainda quase intocada a sua formulação estética baseada em pressupostos que deram forma ao Monte Estoril e ao Estoril.

Quanto à Ribeira das Vinhas, que ainda hoje atravessa o mesmo local, foi encanada para permitir a construção da Avenida Marginal e apesar das muitas contrariedades pelas quais passou durante os últimos anos de liberdade à face da vila, deixou saudades profundas numa série de ilustres Cascalenses.

O mais importante será talvez Dom Simão Aranha, mais conhecido por Pedro Falcão. Quando publicou o seu “Cascais Menino”, já nos inícios de 80, dedicou à ribeira um capítulo muito especial. Chamou-lhe sonho e apelidou-o de utopia, mas teve a coragem de sonhar com uma ribeira de novo livre, a correr a céu aberto através de Cascais e adaptada à travessia de pequenos barcos à vela e das chatas dos pescadores… Achava ele que, navegável até à actual Rotunda Francisco Sá Carneiro, voltaria a ser um dos atractivos principais de um Cascais sentido e sensível que ele nunca se cansou de defender e propagar.

A Vivenda Beira-Rio, pela sua formulação tipológica, pelo enquadramento num período dourado da História da Vila de Cascais, e sobretudo pelo testemunho que deixa de uma vila muito diferente, em que a ribeira estabelecia a ligação do povo ao mar e, simultaneamente, marcava a diferença entre as povoações situadas em ambas as suas margens, deveria ser alvo de um cuidado especial por parte de quem é responsável pela gestão patrimonial da nossa terra.

O mínimo seria, até em memória de tantos que dela gostaram muito, classificá-la como imóvel de interesse público, contribuindo assim para a preservação da memória colectiva e da Identidade do Concelho de Cascais.



segunda-feira

"Memórias de Mim" Comemoram 80 Anos de Vida do Professor Antero Simões





Foi publicado recentemente o livro "Memórias de Mim", da autoria do professor, desportista, investigador e poeta Antero Simões. O documento, que comemora o 80º aniversário natalício do autor, assume-se como um extraordinário contributo para conhecer o homem e a sua obra, mas também para perceber, entender e contextualizar aquilo que foi a História de Portugal ao longo das últimas décadas. Mais do que uma auto-biografia, "Memórias de Mim" leva-nos numa inesquecível viagem através de uma vida sentida e sensível, da qual emergem figuras ímpares que Antero Simões não nos deixa esquecer. De especial importância, num momento em que tantos se esforçam para uma promoção imerecida, está o carácter intimista desta obra, coadjuvada pela compilação de homenagens que comporta a figuras que foram essenciais para o crescimento de Antero Simões mas que, na dimensão das suas próprias existências, foram também essenciais para a recriação da identidade portuguesa. Antero Simões, que se distinguiu no ténis e na poesia, áreas em que granjeou fama e grande notoriedade, foi sempre essencialmente um professor de excelência, com uma carreira longa e marcada por uma entrega que transformou por completo muitas das vidas que se cruzaram com a dele. Para além de outros locais, o Professor Antero Simões esteve também no Colégio João de Deus, no Monte Estoril, onde partilhou com colegas e alunos as vicissitudes de uma experiência pedagógico-educativa inovadora que muito poucos ainda conseguiram entender, e que neste livro surge contextualizada na primeira pessoa. Uma obra a não perder!




sexta-feira

O Mito da Incivilidade em Cascais






Numa recente viagem a Londres observei algo que por lá é normal, mas que visto com atenção nos oferece pistas importantes sobre a forma como se vai degradando a nossa Portugalidade. Os passeios da cidade, contrariamente ao que acontece em Portugal e principalmente em Cascais, não possuem pilaretes de protecção contra o estacionamento abusivo. E, ao longo dos muitos passeios pedestres que por ali dei, não encontrei um único carro estacionado fora do seu lugar.

Em Cascais passa-se exactamente o contrário. Em torno dos milhares de pilaretes de protecção instalados pela autarquia; em cima de passadeiras; nas entradas das casas; nos acessos aos serviços públicos; em volta dos monumentos históricos; em espaços reservados aos bombeiros e às ambulâncias; e nos passeios mais inesperados (mesmo quando por vezes existe estacionamento disponível a três ou quatro metros de distância), os carros amontoam-se, obrigando os peões a constantes incursões para o alcatrão da estrada para contornarem esses obstáculos.

Especialmente gravoso é o passeio situado em frente ao Tribunal de Cascais, junto à Papelaria Xandré, no Largo da Misericórdia, na Rua Tenente Valadim, no Largo do Prior ou mesmo nas ruelas apertadas do casco velho da vila…

Este fenómeno, transversal à sociedade portuguesa mas demasiadamente visível em Cascais, mostra bem como têm sido destruídos os valores principais que sempre orientaram a nossa sociedade, e como o sistema educativo que nos obrigam a ter está a apagar por completo todos os resquícios de cidadania e de civilidade que herdámos ao longo de 900 anos de História.

Já nem se pede que os cidadãos alarves que vivem desta maneira consigam pensar no seu semelhante e percebam que a sua forma de vida trás implicações graves à mobilidade dos demais. Isso seria pedir muito a uma sociedade assente nos muitos direitos consagrados numa lei que nada prevê em termos das consequentes responsabilidades de quem deles usufrui. Pede-se somente que pensem em si próprios, e que percebam que amanhã, por acidente, por doença ou por uma outra situação qualquer, serão eles quem terá mobilidade reduzida e precisará de circular em Cascais utilizando cadeira de rodas ou muletas.

Fica o desafio: pegue numa cadeira de rodas; coloque-se no lugar de um cidadão que se debata com este problema; e tente ir ao Tribunal de Cascais, à esquadra da PSP, à Santa Casa da Misericórdia, à Câmara Municipal, à estação ou a qualquer outro local da vila. É impossível faze-lo.

Não existindo educação, a resolução do problema exige a aplicação da força. Multas, coimas, reboques, bloqueadores, mão firme e penas pesadas para quem não tem a capacidade de respeitar os demais.

Se nas cidades civilizadas isso é possível, porque razão não conseguimos fazer isso em Cascais?