domingo

As Dunas do Guincho: Um Apelo Sentido de Todos os Cascalenses




Quando a Câmara Municipal de Cascais inaugurou, em Julho de 2011, os passadiços de madeira nas Dunas do Guincho (Praia da Cresmina), ainda sob a presidência de António Capucho, foi grande o júbilo dos Cascalenses.

Apesar de os projectistas se terem “esquecido” de integrar no percurso maravilhoso as três peças do património de Cascais que lhe estão adjacentes (a mãe-de-água da Cresmina, o Aqueduto Romano e o Povoado dos Casais Velhos) e de ter perdido a oportunidade para os recuperar, esta intervenção oferecia ao turismo do Estoril uma nova e extraordinária ferramenta de trabalho que, para além de permitir o acesso a um dos mais bonitos recantos do Concelho de Cascais, deslumbrando todos aqueles que tivessem a sorte de saber da sua existência, também servia como contributo importante para preservar (e recuperar) as dunas da Cresmina.

Mas agora, em 2014, depois de se ter mudado a presidência da C.M.C. e de as eleições terem sido ultrapassadas, a situação em que se encontra este equipamento é muito diferente.

Fruto da incúria e do desleixo, a degradação tomou conta do passadiço e, em alguns troços, para além de ter desaparecido a corda que marcava o percurso e que protegia as dunas consolidadas, existem sinais evidentes de destruição da própria estrutura em madeira.

Agora, são muitos aqueles que voltaram a pisotear e a destruir os habitats naturais e as próprias dunas, em linha com o ar de abandono em que se encontra toda a estrutura, destruindo assim uma parte substancial da riqueza natural de Cascais e das potencialidades turísticas do local.

Mais preocupante ainda, dado tudo isto ter sido feito e pago com verbas públicas, ou seja, dinheiro que pertence a todos os Cascalenses, é percebermos que se a recuperação da estrutura não vier a acontecer num curto espaço de tempo, e não for seguida de um esforço continuado de manutenção, perderemos definitivamente mais este equipamento.


Agora que as eleições autárquicas já passaram, esperemos que as europeias que aí vêm e as legislativas que se lhes seguem, sejam argumentos suficientes para que a Autarquia tome em mãos a resolução do problema... 







Guincho (Praia da Cresmina) Inverno de 2014

quarta-feira

Pobres e Ricos na Escolha da Escola




por João Aníbal Henriques

Sendo uma das áreas prioritárias na definição daquilo que há-de ser o futuro do nosso País, a educação é, sempre, um dos mais polémicos e controversos dossiers para todos os governos e em todos os Países.

Talvez por isso, quarenta anos depois da revolução de 1974, continua por cumprir-se em Portugal o apelo à liberdade que a mudança política de então tanto defendeu. No nosso País, quatro décadas depois, ainda não foi possível reformular o nosso sistema educativo garantindo a todos os Portugueses o direito basilar de poderem escolher a educação que desejam para os seus filhos.

Poder-se-ia dizer que esta situação afecta de igual modo todos os Portugueses e que, por isso, todos estão igualmente desprovidos deste direito. Mas não é verdade.

Alguns Portugueses existem que, por terem meios para o fazer, podem dar-se ao luxo de utilizar esse seu direito, escolhendo a escola que acreditam ser a melhor para os seus filhos e pagando-a do seu bolso. Outros, infelizmente, por não terem meios para pagar uma escola privada, estão impedidos de escolher. Para estes, o Estado arroga-se ao direito de determinar a escola que os seus filhos terão de frequentar, como se soubesse qual é o cenário educativo mais conveniente para os filhos deles ou, pior ainda, como se eles não fossem capazes de escolher.

A situação, verdadeiramente dramática pela diferenciação que faz dos cidadãos, determina uma clivagem inadmissível entre ricos e pobres, recriando um sistema que impede a progressão social e o cumprimento da vontade dos Portugueses.

A Liberdade de Educação, que começa no direito de escolha da escola, mas que se estende ao direito de a escola – as escolas – poderem ser livres e autónomas na determinação da sua forma de funcionar e dos currículos que lhes parece pertinente desenvolver, é um direito básico da democracia. Dele depende a consciência crítica das próximas gerações e a consolidação da nossa própria cidadania.

Mercê dos enormes interesses e constrangimentos ideológicos que vicejam em Portugal, muitos tentam fazer crer que defender a liberdade de educação é defender interesses específicos que nada têm a ver com os interesses dos Portugueses. Mas esse é um exercício vil que põe em causa o futuro do nosso País.

Defender a liberdade de educação é defender os mais pobres e os mais desfavorecidos. É assegurar a todos os Portugueses o acesso a um direito fundamental. É acreditar que todos são capazes de decidir o seu futuro e de recriar os mecanismos necessários para o poderem fazer. É oferecer àqueles a quem a sorte menos favoreceu, os meios necessários para alterarem o seu destino e para, contribuindo para o reforço das potencialidades de Portugal, poderem tomar nas suas mãos as mais importantes decisões relativas ao futuro dos seus.

É, em suma, cumprir a democracia que está atrasada 40 anos, devolvendo a liberdade aos Portugueses.

António Capucho e a Democracia do PSD




por João Aníbal Henriques

Sabendo-se de antemão que iria acontecer, até porque antes de iniciado o julgamento, os juízes já haviam anunciado a sentença que dele viria a resultar, não deixa de chocar a expulsão do Social-Democrata António Capucho do PSD.

A primeira grande questão que se coloca tem a ver com o próprio perfil de António Capucho. Fundador do PSD, onde esteve desde a primeira hora com Sá Carneiro, o ex-autarca de Cascais desempenhou ao longo das últimas quatro décadas cargos de grande destaque na vida política Nacional, dando corpo e cara pelo seu partido e, principalmente, pela ideologia Social-Democrata na qual acredita e que sempre defendeu. Foi Secretário-Geral do partido, deputado, secretário de estado, ministro e líder do grupo parlamentar, antes de ter decidido dedicar-se à sua terra, ganhando a presidência da Câmara Municipal de Cascais por três vezes e de ter sido um destacado membro do Conselho de Estado.

Ou seja, Capucho representou, defendeu e lutou pelo seu partido e pela Social-Democracia uma vida inteira e parece que o PSD sempre valorizou o que ele fez. Agora, sem apelo nem agravo, de forma cega e pela mão de “escravos dos estatutos” resolveu que já não lhes interessava tê-lo com eles. E das duas uma: ou mudou António Capucho – o que efectivamente é notório que não aconteceu – ou mudou o PSD…

Enquanto edil de Cascais, concorde-se ou não com todas as decisões tomadas por ele, António Capucho assumiu uma postura de grande rectidão no cumprimento daquilo que propôs aos munícipes que o elegeram, por três vezes e sempre com maioria absoluta… Foi capaz de se manter irredutível no travão à especulação imobiliária que grassava em Cascais, lutando contra poderes enormes e muito consolidados no Concelho e, depois, com um grau de respeito pelos outros e por quem pensa de forma diferente (coisa a que Cascais já não estava habituado), tratou sempre com consideração os cascalenses que a ele se dirigiram, ouvindo as suas ideias e propostas, aceitando algumas e recusando outras, mas sempre com o cuidado de explicar as suas decisões e de as transmitir com respeito por aqueles que as enviaram.

Esta prática foi, aliás, a mesma que o levou a deixar a Câmara de Cascais, entregando a herança do seu trabalho ao PSD e de, em linha com a decisão tomada pela Concelhia local do partido, apoiar e integrar a candidatura do partido em Sintra…

Mas o partido, esse que ele ajudou a criar e que sempre defendeu, já não se guiava pelos princípios de sempre e pela doutrina deixada por Sá Carneiro. A rectidão e a linearidade da sua prática, conjugada com a honestidade e a verdade que serviram de guia ao seu trabalho autárquico, chocavam de sobremaneira com os interesses instalados, com a prática suja que se havia institucionalizado e com um conjunto de gente que defendia ideias diferentes. Os novos dirigentes nacionais do partido, contrariando a vontade dos seus militantes de Sintra, os interesses de Sintra e dos Sintrenses e (pasme-se) até os interesses eleitorais do próprio PSD, decidiram pura e simplesmente anular a candidatura já anunciada e expulsar do partido aqueles que ousaram manter a rectidão da sua prática social-democrata.

Se, numa primeira perspectiva parece ser um problema interno do PSD, que deveria incomodar unicamente os militantes daquele partido e não a generalidade dos Portugueses, uma análise mais atenta permite verificar que o não é. Pelo contrário. Com a decisão que agora tomou, o PSD assume um paradigma de funcionamento assente em pressupostos que, dadas as responsabilidade que o partido teve, tem e terá ainda nos destinos de Portugal, extravasa de forma preocupante as suas fronteiras internas e implica gravemente no devir quotidiano dos Portugueses em geral.

Utilizando um guião de práticas que parece decalcado do que de pior se fez em Portugal há cem anos atrás, quando as eleições eram uma farsa na qual todos fingiam acreditar, a liberdade era uma utopia para artistas desolados e a democracia uma palavra vã que não servia para nada, o PSD voltou ao caciquismo trauliteiro que se rebola perante as revogações reiteradas das decisões irrevogáveis, sem laivo de vergonha, de princípios ou de confiança.

Este partido novo que agora governa Portugal, como infelizmente os restantes do dito arco do poder, vive encerrado sobre si próprio, sobre os seus líderes que fazem assentar o poder nos exércitos de apaniguados que se vão digladiando pelos lugares e pelas migalhas que o exercício rotativo do poder lhes vai deixando…

António Capucho já não cabe neste PSD, porque morreram as ideologias, os princípios, os valores, a educação e o respeito. Assuma-se que com eles também já morreu a liberdade e a democracia.

E se os Portugueses não forem capazes de lhes retirar o poder, vai morrer também Portugal. 

terça-feira

O Aborto em Portugal [2008/2012]




Sete anos depois de legalizado, começam agora a ser publicados os primeiros relatórios dramáticos e oficiais sobre esta prática inumana que até agora dizimou a vida de mais de 100.000 Portugueses.

De facto, de acordo com os dados publicados na edição de hoje do Diário de Notícias, entre 2008 e 2012 foram efectuados 97.996 abortos legais em Portugal, representando um cenário de paulatino e permanente aumento e mostrando que esta opção é entendida, cada vez mais, como um mero procedimento de contracepção.

A humanidade das crianças que foram mortas é, desta forma, posta em causa, dado os abortos feitos em 2012 por opção da mulher corresponderem a cerca de 97% do total de abortos efectuados nesse ano. Ou seja, somente em 437 casos a prática do aborto se ficou a dever a problemas de saúde ou a malformações do feto, sendo que nos restantes 18.408 casos foi pura e simplesmente uma forma simples de resolver um problema imediato.

Mais graves ainda são os números relativos à banalização desta prática! 20,4 % das mulheres que praticaram aborto já tinham feito outros abortos anteriormente, sendo que 4,3% já tinha feito dois, 1,5 % já tinha feito três abortos, e 1,7 % já era o segundo que fazia no mesmo ano.

Para além de um gravíssimo problema de saúde pública, dado tudo isto ser pago com dinheiro do Estado e conferir o direito a regalias que estão próximas daqueles que se conferem ao exercício da própria maternidade, ou seja, obrigando todos os Portugueses (concordem ou não com o aborto) a pagar do seu bolso esta prática, esta realidade pressupõe uma absoluta desumanização da nossa sociedade, que nem sequer confere à criança concebida o direito de ser defendido, dado ser totalmente indefesa no momento em que a sua vida lhe é roubada.

Um cenário inaceitável que deveria obrigar o Estado a repensar uma situação que certamente não traduz a vontade da maioria dos Portugueses.  

O Futuro de Cascais a Preto e Branco




Na mesma altura em que Carcavelos fica a saber que vai perder definitivamente e sua frente de mar, envolvida pela mega-urbanização agora aprovada para o local à qual se junta o pólo universitário e demais infra-estruturas de apoio, Cascais depara-se com um cenário a preto-e-branco que deixa no ar muitas dúvidas e ainda mais incertezas…

São muitos os projectos suspensos, adiados e mal explicados que, com prejuízo evidente para Cascais e para os Cascalenses, e muitas verbas do erário público gastas sem explicação cabal, podem agora conhecer um desfecho definitivo, na linha do que aconteceu em Carcavelos.

Só na Vila de Cascais são vários e preocupantes as situações: o edifício do antigo Hospital; o antigo edifício dos SMAS; o espaço onde se situava a antiga Praça de Touros; o mono que construíram no lote onde estava o Hotel Nau; No Monte Estoril o edifício do Cruzeiro; e no Estoril as Cocheiras Santos Jorge.

Não havendo explicações ou esclarecimentos, são a preto e branco as perspectivas de futuro da nossa terra…

sexta-feira

A ‘Inconseguida’ Liberdade em Portugal





por João Aníbal Henriques


Situado algures entre o adjectivo e o verbo, o termo ‘inconseguido’ entrou definitivamente no léxico dos Portugueses. O fenómeno, em linha com outros que amiúde têm vindo a ocorrer no País, flutuando de forma pachorrenta na ‘incultura’ que resulta dos muitos problemas que Portugal vem sentindo na área da educação, foi rápido a alastrar-se pelos jornais, revistas e redes sociais e, se no início se fazia acompanhar por algum ironia maldosa, rapidamente se foi consolidando junto dos seus utilizadores e ocupando um lugar efectivo na práxis comunicacional corrente.

Mas existe uma grande diferença entre o ‘inconseguido’ e os outros fenómenos de abastardamento da língua portuguesa. Basicamente porque este novo termo tem uma surpreendente utilidade prática que se alastra a várias áreas, a vários fóruns de discussão e a várias situações.

Na educação, por exemplo, a palavra ‘inconseguido’ vem trazer uma nova luz a um velho fenómeno que todos infelizmente conhecemos bem, ajudando a perceber a ambiguidade dos discursos e da prática política de muitos daqueles que têm sido responsáveis pelo sector ao longo das últimas décadas.

De facto, a poucos meses de se cumprirem 30 anos desde a revolução de 25 de Abril, quando a palavra Liberdade de banalizou a um ponto que praticamente deixou de ter significado para os Portugueses, ela ainda não chegou às escolas nem às famílias. Contrariando a letra da Lei, a lógica e a coerência social e as necessidades efectivas que sentem os Portugueses, os pais continuam impedidos de escolher a educação que desejam para os seus filhos.

A liberdade de educação, transversalmente aceite em quase todo o Mundo como pilar essencial da maioria dos sistemas educativos e associada de forma directa ao exercício da cidadania consciente e activa e até da própria democracia, anda não chegou a Portugal. E isto acontece quando em fóruns, seminários, congressos e reuniões dedicadas à educação, aqueles que defendem a liberdade se esforçam por explicar de forma fundamentada do que se trata, como funciona noutros Países e que vantagens tem para os Portugueses e para Portugal.

E o mais estranho é que, quando são capazes de se libertar dos preconceitos ideológicos e políticos que ainda sobrevivem a 3 décadas de democracia, mesmos aqueles que são contra a liberdade de educação e que preferem o reforço do papel do Estado em detrimento da responsabilidade das famílias, acabam por aceitar que faz todo o sentido e que a liberdade é, de facto, um direito essencial dos Portugueses.

Mas como os constrangimentos que dão forma ao seu discurso não lhes permitem defender este princípio basilar da democracia, esforçam-se por encontrar pretextos para se oporem à liberdade… e, empurrando com a barriga a sua luta inglória, lá vão tentando explicar que são contra porque consideram que, sendo um valor inquestionável, é muito difícil de concretizar…

São, por isso, ‘inconseguidos’ os inimigos da liberdade! Não sabem como devolver a liberdade aos Portugueses e, por isso, vão ‘inconseguindo’ sucessivamente atabalhoar os seus discursos, concretizando ‘inconseguidas’ lutas contra os interesses legítimos das famílias Portuguesas e de Portugal.

Se para mais nada servir, eis que o fenómeno 'inconseguido' serve para explicar o absurdo em que vegetamos!

terça-feira

O Plano de Pormenor de Carcavelos




por João Aníbal Henriques

Encontra-se em discussão pública, depois de ter sido aprovado pelo executivo municipal que actualmente se encontra em funções, o Plano de Pormenor do Espaço de Reestruturação Urbanística de Carcavelos Sul, mais conhecido por Plano de Pormenor de Carcavelos ou da Quinta dos Ingleses.

Sendo possivelmente o mais importante e polémico projecto de Cascais no decorrer da próxima década, não só porque vai ocupar o mais privilegiado recanto concelhio e a última das frentes de mar ainda livres, mas também porque vai alterar de forma profunda e radical a entrada Nascente do Concelho através da Marginal, o Plano de Pormenor de Carcavelos carrega consigo o ónus de mais de três décadas de uma história que é, no mínimo, escabrosa, e que os actuais dirigentes autárquicos utilizam como explicação para a aprovação definitiva que agora querem concretizar.

E em parte têm razão. Têm-na porque, de facto, o início deste imbróglio se processa nos idos longínquos e obscuros dos anos 80 (os tais em que o velho Cascais começou a desaparecer engolido pelo betão), e também porque as decisões tomadas recentemente em tribunal acarretam um encargo pesadíssimo para a Autarquia que, a concretizar-se, comprometerá o dia-a-dia de várias das futuras gerações de Cascalenses. Ou seja, é urgente encontrar uma solução e, acima de tudo, é urgente conseguir libertar a Autarquia desta pesada teia de interesses, insinuações e encargos que tanto constrangem o horizonte e os projectos de vida deste Concelho.

Mas, para o cidadão comum, que cumpre as suas obrigações, paga os seus impostos e pauta a sua vida pelos valores da transparência, do rigor e da honestidade, muitas são as explicações que urge obter…

Em primeiro lugar porque o dito imbróglio não é situável no tempo. Ou seja, sabe-se que o seu nascimento oficial aconteceu em 1982, conforme se explica de forma insistente no preâmbulo deste projecto, mas não se diz que ao longo dos últimos 32 anos foram vários os momentos e os actos que contribuíram para o reforço da confusão e que partilham com o seu nascimento a responsabilidade daquilo que agora vai acontecer em Cascais. Os partidos que se diz que estão no arco do poder, ou seja, PSD (que estava na CMC na data da aprovação inicial e agora está também), o CDS (idem) e o PS (que geriu os destinos do Concelho durante muito tempo), todos eles poderiam ter resolvido o problema ao longo destes últimos anos. E não o fizeram. Pelo contrário. Ou seja, a responsabilidade pelo que está a acontecer é transversal a todos partidos que tomaram conta do poder desde 1974 e dos seus dirigentes e esse facto não pode ser escamoteado de forma ligeira para, sacudindo o pó para os olhos dos Cascalenses, os impedir de conhecer a verdade.

Este facto, incontornável verdade que muito condiciona a discussão actual e o futuro desta nossa terra, faz com que todos “tenham culpas no cartório” e, por isso, ninguém pode livremente apreciar de forma eficaz aquilo que se discute e decidir em linha com os interesses efectivos de Cascais e dos Cascalenses. Por outro lado, havendo responsabilidades naquilo que aconteceu, haverá certamente responsáveis. Quem foram esses responsáveis? Serão eles responsabilizados pelo que fizeram? Serão eles punidos pelo que fizeram?...

A Autarquia também não explica que a acção judicial que tanto peso tem neste projecto, está datada de 1999, durante um mandato do PS, e que este partido, nessa altura, propôs uma solução do problema muito semelhante a esta que agora defendem… e que nessa altura, a dita proposta conheceu a oposição praticamente transversal de todos os intervenientes, a saber, da então oposição, da sociedade civil, da comunicação social, etc.

Poder-se-á dizer que a solução agora apresentada é melhor do que a de então. Mas as alterações relativamente a essa versão são tão singelas e insignificantes, que é certamente desculpa vã para justificar o que agora se pretende fazer. O Plano de Pormenor dessa época era mau, da mesma forma que é mau o Plano de Pormenor que agora se discute, e o mal que dele resultaria para Cascais nessa altura, é praticamente o mesmo que resultará da concretização deste que agora temos.

Mas passemos aos factos.

Ao abrigo deste plano, Carcavelos vai perder a sua frente de mar e a mancha verde que existe associada à antiga Quinta dos Ingleses. Ganhará, de acordo com o que conta nos documentos tornados públicos, cerca de 140.821 m2 dedicados a nova habitação, o que equivale a um acréscimo de 939 fogos, aos quais se juntam 40.000 m2 para serviços e cerca de 10.000 m2 para a construção de um hotel. Fora destes cálculos, e de forma incompreensível, ficam ainda os 60 Ha de terrenos que foram subtraídos à Reserva Agrícola Nacional (RAN) e que se destinam à criação de um pólo universitário, e mais uns quantos a Poente, junto ao antigo Hospital Ortopédico.

Importa perceber que esta realidade, a concretizar-se, significará uma mudança irreversível na dita entrada de Cascais que, tal como aconteceu nos piores momentos dos anos 70, 80 e 90, ficará completamente enterrada sob uma enorme mancha de betão em tudo semelhante ao que se fez na Guia, na Parede e noutros locais de má memória neste Concelho já de si tão sacrificado.

Talvez fosse também importante pensar, não só por parte dos dirigentes Autárquicos de Cascais como também por parte dos promotores que pretendem ver aprovado este projecto, que as linhas directoras que agora são propostas significam o reassumir do carácter suburbano de Cascais que, em linha com a destruição de um espaço pleno de potencial, assume novamente que não lhe interessam os parâmetros de excelência que deram forma à vocação turística de Cascais e à Costa do Estoril de outros tempos…

Olhando à volta, para outros promotores, outros planos de pormenor, outros projectos e outras urbanizações, facilmente se percebe que existe um enorme excesso de oferta imobiliária em Cascais, largamente superior à procura que subsiste e que a tendência é para que esta situação se prolongue durante muitos anos. Ou seja, o amontoado de betão que será construído em Carcavelos ao abrigo deste plano está (infelizmente) condenado a transformar-se em mais um malogrado sonho inconcretizado que ficará para sempre associado ao que de pior se faz em termos urbanísticos neste Concelho.

Por fim, importa ainda ponderar o impacto que, noutras áreas, um projecto deste tipo vai ter. O trânsito e as acessibilidades; o saneamento e os esgotos; a segurança; a saúde; para já não falar no impacto ambiental dramático que ele significa; são apenas alguns exemplos de consequências que a aprovação deste plano trará para Cascais.

Dizem os responsáveis actuais que entre nada fazer e tentar resolver o problema, mais vale optar pelo mal menor e retirar da Autarquia o peso das muitas responsabilidades que lhe foram imputando ao longo dos anos. Têm razão. Mas o certo é que ponderando o que temos, a potencialidade do espaço, os interesses legítimos dos proprietários e dos promotores, os interesses mais legítimos ainda de Cascais e dos Cascalenses e as muitas alternativas que poderiam existir para o local, facilmente se percebe que, a bem de todos e de Cascais, seria possível encontrar uma solução mais adequada e que tivesse em conta as circunstâncias especiais que actualmente vivemos.

Concluíndo, importa sublinhar que esta é uma má solução para Cascais e que existem alternativas se para tal existir interesse. Importa explicar que a ser aprovado tal e tal como foi apresentado, o actual plano configurará uma alteração definitiva e irreversível daquele espaço, comprometendo de forma total a possibilidade de no futuro se poderem encontrar outras soluções mais convenientes. 





Luar Gelado INOX em Sintra




Era gelado o mote para esta caminhada nocturna na Serra de Sintra… encontro às 5h00 de uma madrugada fria e numa noite com um dos maiores temporais do ano; subir a serra a pé iluminados pelo luar de Janeiro; e assistir ao nascer do Sol no Santuário de Nossa Senhora da Peninha…

Mas o desafio foi superado. Mais de 50 intrépidos caminhantes aceitaram corajosamente o convite e vieram partilhar connosco esta aventura gelada! As memórias, associadas a um dos recantos mágicos da Serra da Lua e ao horizonte marcado pelas luzes de Cascais e do Estoril, tornaram-se deslumbrantes quando entrámos na singela ermida medieval…

Porque a vida se faz de memórias, e estas serão certamente INOXIDÁVEIS, aqui fica o nosso agradecimento a todos os que estiveram connosco e as imagens que guardámos dessa noite essencial. Para os que não ousaram vir, bem… para esses fica a certeza de que vão roer-se de inveja!

Facebook INOX com o álbum de fotos
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segunda-feira

O Marégrafo de Cascais




No final do Século XIX, depois de Dom Luís ter escolhido Cascais para o seu período de veraneio, a Vila transformou-se num imenso cadinho de novidades que alteraram de forma profunda o seu dia-a-dia e a dinâmica da povoação.

Para além da luz eléctrica e do telefone, bem como de várias benfeitorias introduzidas na Vila pelo Visconde da Luz, em 1882 Cascais assistiu à inauguração do seu Marégrafo. O instrumento, que servia para recolher dados sobre as correntes e sobe as marés, foi determinante na definição do sistema de altimetrias Nacional, tendo contribuído de forma decisiva para a criação de uma estrutura de análise e estudo do mar.

Mudado para o local onde actualmente se encontra em 1895, depois de se ter verificado que a localização inicial não permitia uma leitura correcta dos dados, o Marégrafo passou a fazer parte da linha de paisagem de Cascais e da sua baía, assumindo-se como fulcro de ligação dos Cascalenses ao mar.

Do seu varandim, ao qual se acedia através de uma escadaria situada no final do Passeio Maria Pia, muitos eram aqueles que aproveitavam as suas vistas abertas para descansar ao som cadenciado da ondulação.

Depois da inauguração da Marina de Cascais e, mais tarde, da remodelação do Clube Naval de Cascais, o Marégrafo foi completamente engolido pelo betão, tendo-se perdido no seio de um espaço fechado ao público e tendo deixado de usufruir da antiga ligação aberta aos mares de Cascais.

Falta de senso, de consciência patrimonial e de capacidade de entender a importância simbólica que este tipo de equipamentos e monumento tem no imaginário colectivo e na identidade municipal, determinaram que o Marégrafo seja hoje uma mera peça sem préstimo e sem dignidade que, afastado do usufruto dos Cascalenses, perdeu a importância que durante mais de um século teve na vida desta terra.


Mudam-se os tempos, mudam-se os governantes e o regime… e vão-se esvaziando os vínculos antigos de Cascais.

quinta-feira

Convite INOX: Passeio Pedestre Nocturno "Luar Gelado" em Cascais




Recuando dois mil anos no tempo e calcorreando um dos caminhos mais marcantes da tradição iniciática de Sintra e Cascais o INOX tem o prazer de convidar para o passeio pedestre nocturno “LUAR GELADO” que vai decorrer na madrugada do próximo dia 19 de Janeiro (noite de Sábado 18 para Domingo 19), com encontro às 05h00 da manhã na Malveira-da-Serra (ver mapa de localização abaixo).




É uma aventura para famílias, com um percurso fácil, pensado para pais, filhos, avós, amigos e vizinhos e todos os demais que queiram participar e que nos levará até ao Santuário Mariano de Nossa Senhora da Peninha, seguindo os trilhos antigos de Cynthia – a Lua -, até ao deslumbrante nascer do Sol, com Lisboa, Estoril e Cascais aos nossos pés.

Vai ser uma madrugada fria. Gelada! Vai mesmo... Vai ser difícil estar às 5 da manhã no ponto-de-encontro! Vai certamente… mas temos a certeza de que daqui a alguns anos, quando a actual geração já não andar por cá, os nossos filhos vão lembrar-se desta noite tão especial, e serão eles que, aos filhos e netos deles, contarão esta aventura que connosco partilharam… Cumpre-se assim a profecia de que se põe fim ao tempo e nos tornamos imortais!

Indicações práticas:

1.     Ir bem agasalhado e bem calçado! Vai estar FRIO!

2.     Levar água para beber;

3.     Levar uma lanterna e uma máquina fotográfica;

4.     Podem convidar os vossos filhos, pais, amigos, colegas e vizinhos… serão bem-vindos todos     aqueles com quem queiram partilhar uma memória que sobreviverá aos anos!

O ponto de encontro é na Malveira-da-Serra (coordenadas do Google Maps: 38.758936, -9.445714) na Estrada da Serra (junto ao acesso para o Caminho dos Fetos – ver mapa em anexo) no final da Rua Francisca Correia Nunes. Devem estar lá mesmo às 05h00 da manhã (sim, é mesmo às 5 da madrugada) porque sairemos impreterivelmente a essa hora para podermos assistir ao nascer do Sol num recanto MUITO especial.

Para confirmarem a vossa presença e a dos vossos convidados, só é preciso que mande um email com a indicação do número de pessoas que querem participar até ao dia 16 de para inox@inoxportugal.com.

Mesmo que chovam cães, gatos e canivetes (mesmo que chovam todos ao mesmo tempo) nós vamos! Porque vale a pena!


Cumprimentos INOXIDÁVEIS! Porque as memórias partilhadas nunca enferrujam! 



quarta-feira

O Castelo de Montemor-o-Novo e a Vergonha de Portugal...




por João Aníbal Henriques

Ligado, de forma perene, às memórias de Vasco da Gama e à preparação da viagem marítima para a Índia, o Castelo de Montemor-o-Novo é um dos mais emblemáticos e maiores castelos de Portugal.

Situado no alto e um morro sobranceiro à planície alentejana, o castelo tem uma História antiga que provavelmente se perde nas brumas antigas da pré-História. Ali terá existido um castro que foi mais tarde romanizado, transformando-se então no centro de uma das mais importantes malhas viárias do império. Nele convergiam as Estradas de Évora e Mérida e, por outro lado, as que levavam a Olissippo e ao estuário do Rio Tejo, chamando-se nessa época Castrum Malianum. É esse facto, aliás, que explica o reforço do amuralhamento primitivo da cidade, reforçando a importância estratégica da sua localização.




O carácter de Montemor-o-Novo reforçou-se ainda nos inícios da Idade Média quando o território foi conquistado pelos Muçulmanos. É neste período que  a cidade conhece a presença de Almansor que, mais tarde, acabaria por ficar definitivamente marcado na toponímia do local, dando nome ao ribeiro que ainda hoje corre no local.




Em termos de desenvolvimento urbano, a importância de Montemor-o-Novo é bem patente no rápido e fulgurante aumento da população que, extravasando as muralhas do seu castelo, rapidamente de estende pelas colinas que o envolvem. Desde meados do Século XIX, com a pacificação do território e a progressiva degradação das condições de salubridade dentro das muralhas, foi a povoação medieval quase completamente abandonada em prol da afirmação da nova cidade extra-muros.

No seu regresso à Portugalidade, Montemor-o-Novo  foi reconquistado definitivamente pelo Rei Dom Sancho , em 1201, depois de Dom Afonso Henriques a ter reconquistado uma primeira vez em 1160. Trinta anos depois, em 1190, a cidade foi novamente tomada pelos Árabes que aí se mantiveram até à sua expulsão definitiva.

Para assegurar o seu repovoamento e defesa, o rei conquistador concedeu-lhe o primeiro Foral em 1203, documento esse que foi reconfirmado pelo Rei Dom Manuel I já no Século XVI (1503).




Palco de cortes por diversas vezes, foi em Montemor-o-Novo que o Rei Dom Manuel I tomou a decisão de enviar Vasco da Gama na sua viagem marítima até à Índia, sendo, por isso, aí que reside aquela que será porventura uma das decisões mais importantes para o devir histórico da própria humanidade. Como se diria mais tarde “de Montemor-o-Novo se mudou o Mundo e as suas gentes”…

Foi também em Montemor-o-Novo que nasceu São João de Deus (1495-1550), fundador da Ordem dos Hospitalários que ainda hoje se encontra espalhada por todo o Mundo.




Em termos de património, foi a cidade alvo de diversas campanhas de recuperação e actualização que, para além de alterarem de forma profunda a sua paisagem, acabaram por determinar o galopante estado de degradação que o terramoto de 1755 acabaria por acentuar.

Apesar disso, a Praça de Montemor-o-Novo resistiu ao ataque de Junot, durante as Invasões Francesas, tendo sido quartel-general das hostes liberais durante a Guerra Civil que opôs Portugueses contra Portugueses em pleno Século XIX.

Classificado como Monumento Nacional desde 1951, e apesar da sua extraordinária importância na percepção de Portugal e da sua História, o Castelo de Montemor-o-Novo continua num estado de degradação que é, de todo, incompatível com as potencialidades que apresenta.




Continuamente apresentado como palco de grandes campanhas de estudo e de intervenções arqueológicas, quase sempre acompanhadas de projectos para recuperação e musealização do espaço, o certo é que as muralhas continuam a apresentar um estado de ruína e de abandono que representam uma autêntica vergonha Nacional.



Dentro do recinto, e para além da recuperada Igreja de Santiago, faz dó visitar as ruínas do Paço Real, da Igreja de São João Baptista ou da Igreja de Santa Maria do Bispo… Uma verdadeira tristeza… 











terça-feira

Posto Marítimo de Desinfecção do Porto de Lisboa




por João Aníbal Henriques 

Corria o ano de 1906, mais propriamente o dia 5 do mês de Março, quando Lisboa assistiu, com toda a pompa e circunstância, à inauguração do Posto Marítimo de Desinfecção, pelo Rei Dom Carlos e pelo Presidente do Conselho e Ministro do Reino Hintze Ribeiro.




O novo posto, situado em plena Rocha do Conde d’Óbidos, no final do aterro que ligou o litoral da cidade entre Santos e o Cais d Sodré, a obra pretendia defender “a saúde pública, as relações internacionais e os interesses gerais do País”.

A partir desta altura, os navios que pretendiam entrar no Porto de Lisboa deixam de ter de ficar fundeados ao largo durante o período de quarentena, passando a usufruir de serviços médicos integrados que valorizaram o porto e a própria cidade, cumprindo assim o objectivo do Rei Dom Carlos de transformar Lisboa num dos mais conceituados e atractivos destinos marítimos da Europa.

Outros tempos…





sexta-feira

O Fim da Agenda Cultural de Cascais




Desejada pelos Cascalenses desde há muitas décadas, e concretizada somente em 2003 sob a presidência de António Capucho com o entusiasmo de António Carvalho, Cascais teve, durante uma década, uma excelente Agenda Cultural.

Com periodicidade bimestral, a Agenda Cultural de Cascais incluía toda a programação cultural do Concelho e pequenos apontamentos historiográficos sobre peças importantes – e por vezes mal conhecidas – do Património Cascalense. Era um instrumento indispensável para todos aqueles que tinham vontade de usufruir da muita e excelente programação cultural de Cascais e, para muitos, chegava mesmo a ser uma espécie de objecto de culto que comerciantes e munícipes coleccionavam, pelo valor intrínseco de memória que a mesma continha.

Quando saía, era normal vê-la nas mãos dos que circulavam pelas colectividades, academias, associações e demais instituições do concelho, bem como dos munícipes seniores que se habituaram a encontrar ali toda a informação acerca do que de melhor se fazia em Cascais.

Este mês, alegando uma pretensa “sustentabilidade económica dos projectos” , o recém-eleito executivo municipal decidiu extinguir a versão em papel da Agenda Cultural e, contrariando a vontade expressa pelos Cascalenses há muitos anos, passar a produzi-la exclusivamente numa versão online.

Perde-se tudo. Perdem-se as memórias, a ligação e a informação dos Cascalenses em relação às memórias de Cascais. Perdem os produtores culturais do Concelho que, a partir de agora, deixam de te um instrumento de promoção do seu trabalho. Perde a identidade de Cascais que, na lógica do poder político municipal, não vale o custo de impressão da Agenda Cultural.

A Agenda Cultural não incluía propaganda política e não servia outros interesses que não os da cultura da Nossa Terra.

Mais uma vez perde Cascais. Infelizmente…

Portugal e a História da Europa


A Europa é um continente em permanente ebulição. As transformações e a mudança, marcando o devir da História, alteram permanentemente a forma e os equilíbrios dos Estados, fazendo nascer e morrer Nações. É interessante ver este vídeo e perceber que num timeline longo como é aquele que traduz os dois últimos milénios, existe uma só Nação que permanece firme nas suas fronteiras e sobrevive, contra tudo o que seria expectável, aos desafios que as mudanças dos outros parecem querer obrigá-la a fazer. Chama-se Portugal e nasceu oficialmente assim em 1143. 

A Educação de Todos Portugueses




No meio da insana discussão que permanentemente envolve a educação em Portugal, redobram de força os ataques cerrados aos que defendem o direito à escolha da escola, aproveitando a desinformação que dá cobertura aos interesses díspares que motivam as intervenções e, nalguns casos muito graves, aos preconceitos ideológicos, políticos e partidários que vivem alimentados por este clima de instabilidade e rebuliço permanente que criticam publicamente mas que é essencial para poderem sobreviver.

Dizem os inimigos da liberdade de escolha que os que a defendem o fazem em defesa os interesses das escolas privadas, argumentando que não sendo boa, a gestão estatal da escola é aquela que melhor defende a igualdade no acesso à educação.

Estão errados, como facilmente se percebe.

Em primeiro lugar porque como se sabe, as boas escolas (públicas e privadas) estão cheias e têm muitas vezes listas de espera com muitos novos alunos a desejarem inscrever-se. E estão cheias porque a qualidade do que oferecem (públicas e privadas) é essencial na definição percurso de vida dos seus alunos e, percebendo isso, os pais naturalmente optam por elas na hora de inscrever os seus filhos. A questão essencial é, por isso, a qualidade da escola e não a propriedade da mesma…

As boas escolas (públicas ou privadas) não precisam de nenhuma ajuda para angariar novos alunos. 

Depois, e em consequência deste pressuposto, porque a maioria dos pais que têm posses que lhes permitem escolher a melhor escola para os seus filhos, já o fazem neste momento. Podem inscrevê-los em qualquer escola privada pagando o valor das mensalidades. E fazem-no, precisamente, quando percebem que o valor que estão a pagar terá benefícios acrescidos na formação dos seus filhos e, por isso, também no sucesso da sua vida daí para a frente.

Estes pais, os que têm dinheiro e meios para pagar o ensino, já usufruem de um direito que a Constituição confere a todos os Portugueses: escolher a escola que os filhos frequentam. Mas só eles o podem fazer. Todos os outros, menos favorecidos economicamente, são obrigados a frequentar a escola que o Estado lhes impõe, mesmo que ela não preste, sabendo de antemão que a impossibilidade de usufruírem deste direito constitucionalmente consagrado terá consequências negativas no futuro dos seus filhos.

A Liberdade de Educação é, por isso, um instrumento que defende essencialmente os mais fracos e os que agora estão impedidos de escolher. É a Liberdade de Educação que lhes assegurará - pela primeira vez - o direito de escolher.

Para um pai que quer o melhor para os seus filhos, é assunto de segunda importância saber quem é o proprietário da escola. O que queremos é, antes de mais, salvaguardar a qualidade da sua formação e garantir que os eles frequentam a escola que melhor responde ao seu perfil, às suas características, às suas necessidades e às potencialidades que tenham.

O que temos actualmente é um sistema que confere a uns o direito de escolher e a outros impede de o fazer. E procede assim não com base em nenhum critério aceitável, mas somente com base nos meios que cada um pode despender.

Defender a liberdade de escolha da escola é defender uma educação de qualidade para todos os Portugueses, que permita rentabilizar o potencial dos nossos alunos independentemente dos meios que agora possam ter.

Fortes e fracos, ricos e pobres, todos têm de poder escolher.

quinta-feira

A Educação do Meu Nariz




No meio das meias palavras, das meias afirmações e das meias ideias que dão forma aos muitos fóruns de debate sobre a educação em Portugal, os alunos raramente estão presentes. 

São muitos os argumentos contra e a favor de todas as posições possíveis e imaginárias e, ao sabor dos muitos interesses que dão forma ao sector, produzem um argumentário estéril que arregimenta exércitos de seguidores perfeitamente convictos de que estão do lado certo da barricada…

Infelizmente, no que se lê diariamente em todos os jornais, é raro encontrar quem verdadeiramente se preocupe com o que é essencial em educação: os alunos, as famílias, a qualidade efectiva do ensino e, sobretudo, as repercussões transversais que a educação tem em praticamente todos os sectores da vida (e do futuro prospectivo) de Portugal.

A esquerda, sem perceber que já não estamos nas sessões constitucionais de 1976, preocupa-se com a propriedade da escola. Não se importa com a qualidade da escola, com o facto de as escolas não serem todas iguais, com a desigualdade promovida pelas dificuldades de acesso à escola, com a significação da escola, com a pertinência dos seus currículos, com a ineficácia do seu modelo de gestão, ou sequer com o facto de o Estado – enquanto proprietário das ditas escolas – ser simultaneamente fornecedor e fiscal do mesmo serviço, numa amálgama de incompatibilidades que acabam quase sempre por descentrar o foco do aluno que deveria ser a única coisa assumida como bitola nas discussões.

A direita, por seu turno, preocupa-se com o contrário. Questiona invariavelmente a capacidade do Estado enquanto parte do sistema e defende, muitas vezes sem o cuidado de avaliação necessário para perceber que em ambos os modelos subsistem diferenças que tornam inócuas as comparações, que a propriedade das escolas deve ser maioritariamente privada.

Para quase todos, a questão é sempre a mesma: propriedade. Quem é o “dono” da escola? Quem “manda” na escola? E raramente a questão se coloca ao nível da qualidade do ensino.

Mas já todos percebemos que esta é a discussão que não interessa. É a discussão que acende plenários, motiva sindicatos e angaria apoiantes para os partidos, mas que surge manchada pelos preconceitos ideológicos que dão forma ao pensamento desta gente e, também, pelos interesses específicos perante os quais partidos, sindicatos e demais organizações respondem… É, em suma, uma discussão que se restringe ao mais básico, ao mais imediatista e que pouco mais abarca do que a ponta do nariz de cada um dos intervenientes.

Portugal precisa, de facto, de uma reforma efectiva no seu sistema educativo. Precisa disso urgentemente. Mas precisa, sobretudo, porque sabemos que se agrava diariamente a apatia e o desinteresse dos alunos perante a escola, que é uma entidade com a qual eles não se identificam e de onde nada esperam receber, com consequências terríveis ao nível da qualidade da sua formação e dos resultados alcançados em termos da sua qualificação e das suas competências.

E a receita para resolver este imbróglio é sempre a mesma: diminui-se a exigência, para melhorar artificialmente os resultados, dando assim continuidade à discussão que interessa a todos eles. Lá vêm os rankings, as listas e as comparações. Como se Portugal, a Suécia, os Estados Unidos, a Nova Zelândia, a China e as Filipinas fossem realidades idênticas e pudessem ser comparadas linearmente…

Para que Portugal possa libertar-se destes constrangimentos ideológicos e/ou partidários e, dessa maneira, concretizar uma reforma eficiente do seu sistema educativo, colocando os alunos à frente da lista de interesses e recolocando o enfoque nos resultados efectivos, é essencial que a escola seja devolvida àqueles que dela dependem.

E assim chegamos à questão da liberdade. A liberdade que os professores precisam de ter para criar escolas. Para criar escolas que sejam aquelas que respondem de forma efectiva aos interesses das suas gentes. Mas a liberdade que se estende aos pais, que deverão ser livres para escolher a escola mais adequada ao perfil dos seus filhos, às necessidades da sua comunidade, às expectativas que cada um deveria poder ter…

Porque da escola depende o futuro deste País, é essencial ver mais além do que o nariz de cada um. Ser capaz de perspectivar num espectro mais vasto as implicações que a educação tem no futuro do País, em termos gerais, e no futuro de cada criança, em particular.

 Para sermos verdadeiramente livres, num Portugal diferente.

João Aníbal Henriques