segunda-feira

O Estranho Caso da Catalunha




por João Aníbal Henriques

Há alguns anos atrás (talvez bastassem dez) os resultados das eleições de ontem na Catalunha deixariam perplexos todos aqueles que para eles olhassem com um mínimo de atenção. Em primeiro lugar porque quem ganhou perdeu e quem perdeu ganhou… e, depois, porque ficou evidente a fragilidade nacional espanhola bem como a solidez estrutural da federação que os Reis Católicos recriaram há mais de 500 anos.

Se é certo que os independentistas catalães ganharam as eleições por terem conseguido eleger um maior número de deputados, é certo também que perderam as eleições por terem tido menos votos. Numa analogia muito pertinentes com o que pode vira passar-se em Portugal no próximo Domingo, os catalães demonstraram que perceberam bem a incoerência do sistema eleitoral que a Europa continua a utilizar que, nada traduzindo da realidade que temos, se distancia progressivamente dos cidadãos e impede a sua real representatividade e, logo, os fundamentos da própria democracia. Os que votaram, fizeram-no completamente divididos e profundamente desvinculados das causas imensamente fracturantes que estavam em causa. Os outros, ou sejam, os pouco mais de 22% de catalães que não quiseram participar neste acto eleitoral, vieram ainda reforçar mais este fenómeno de afastamento político, considerando-se mais grave ainda por se saber que dele dependia uma das mais importantes e impactantes decisões da História da Espanha.

Sendo estranho e muito complexo o cenário que resultou destas eleições, é linearmente o fim da linearidade que tem presidido à definição da realidade política na Europa, ajudando a clarificar e a explicar muitos dos fenómenos fracturantes que ultimamente têm sido apanágio do quotidiano no velho continente. As questões que se prendem com as dúvidas relativamente às dívidas soberanas, os resgates impulsionados pelos organismos internacionais, a tentativa de interferência nas políticas nacionais por parte da Alemanha federal ou mesmo as mais recentes (e intoleráveis) incertezas com a chegada dos refugiados, ganham uma nova perspectiva à luz do grito que ontem proferiram muitos catalães.

Em relação a Portugal, fracturado sem se saber muito bem porquê, dado que todos os candidatos às eleições de Domingo (radicalismos eleitoralistas à parte) concordam no essencial acerca daquilo que seria a sua opção política caso vençam o plebiscito, muito se esclarece em relação à incompreensível sobrevivência política da coligação PSD-CDS e ao também incompreensível desnorte de um PS aparentemente incapaz de lidar com a sua história. E se tudo está em aberto em relação às eleições legislativas que aí vêem, o certo é que aconteça o que acontecer o aparentemente estranho caso da Catalunha nos vem mostrar que um mundo novo e uma Europa diferente da que temos está prestes a nascer.

Porque já nada é o que era dantes. 

Deu Lá Deu e o Eterno Feminino de Monção



por João Aníbal Henriques

Existem poucas terras assim! Monção, vila minhota situada no extremo Norte de Portugal, junto na margem do Rio Minho e a um passo da Galega Salvaterra del Miño, teve sempre uma história conturbada e marcada por constante ataques e contra-ataques oriundos do país vizinho.

Mas, no furor bélica dos muitos episódios que dão corpo à sua existência, são vários os momentos em que a defesa da localidade e, por consequência, a defesa de Portugal, foram empreendidas com muito êxito por mulheres.

Aconteceu no Século XVII, com as intervenções da Condessa de Castelo Melhor e de D. Helena Peres que, em ocasiões diferentes e separadas por um hiato temporal de quinze anos, tomaram em mãos o encargo de defender a sua terra.

Mas a mais célebres das Monçanenses, sepultada actualmente na sua Igreja Matriz e oferecendo o seu nome para topónimo da praça principal daquela vila verdejante, foi Deu-la-Deu Martins, casada com D. Vasco Rodrigues de Abreu, o Alcaide-Mor de Monção.

Reza a lenda que em 1368, durante a guerra entre o monarca Português Dom Fernando I e o rei castelhano Dom Henrique de Trastâmara, foi montado cerco à vila minhota. A capacidade das forças atacantes era brutal e a duração do cerco foi fazendo mossa nas já muito depauperadas reservas nacionais, a tal ponto que se perspectivava uma rápida capitulação por falta de víveres, água e mantimentos.

Num laivo de genialidade a que certamente não é alheio a capacidade estratégica da heroína, a mulher do alcaide decide juntar todos os poucos víveres que restavam e, perante o espanto e certamente a incompreensão dos seus conterrâneos, manda lança-los por terra das muralhas altaneiras que protegem a vila.

Os castelhanos, convencidos da prosperidade que se vivia lá dentro, reforçada pelo facto de verem atirar fora mantimentos que eles consideravam essenciais à sobrevivência da população, resolverem então desistir do cerco e abandonar a cidade que desta forma sobreviveu.



Praça Deu Lá Deu - Monção


Igreja dos Capuchos - Monção



quinta-feira

Aylan Kurdi e a Europa




por João Aníbal Henriques

No dia em que se cumprem 74 anos desde o início dos gaseamentos aos judeus perpetrado pelo III Reich nazi durante a II Guerra Mundial, chegam-nos as imagens (nem o adjectivo chocante é suficiente para as descrever) de homens e crianças mortos que deram à costa na Praia de Bodrum, na Turquia.

No desespero extremo de quem tem como único objectivo na vida o de sobreviver, os refugiados entregam-se ao destino na tentativa vã de chegar à Europa. E fazem-no porque a ideia de uma Europa Unida se gera a partir dos valores (teóricos) da fraternidade, da liberdade, do humanismo, da democracia e do respeito. E são esses valores e esses princípios ilusórios, que muitos ainda tentam utilizar para descrever a Europa que temos, que ditam a tragédia real que sobre eles se vai abatendo.

Porque a Europa que temos não é unida. Porque a Europa em que vivemos não é fraterna. Porque esta Europa não sabe o que é o humanismo. Porque a Europa que subsiste não reconhece o direito universal à democracia nem se respeita…

E não se julgue que é um problema da Europa de hoje e das tentativas populistas de transformar o velho continente das Nações numa amálgama federal de dependências. Não. Este problema afectou profundamente a Europa no início do Século XX, conduzindo ao eclodir da guerra em 1914; reiterou-se a partir do início da década de 30 levando ao início da Segunda Grande Guerra em 1939; e depois, mais ou menos controlados pelo peso dos media e pelas campanhas propagandísticas que contornam a realidade e toldam o entendimento dos povos, deu forma ao desastroso drama dos Balcãs, ao desmantelamento das antigas repúblicas soviéticas e a muitos outros focos de ódio entranhados no País Basco, na Catalunha, na Ucrânia, na Bélgica, na Irlanda do Norte, na Escócia, etc.

A Europa federal de índole franco-alemã que nos querem impor é anti-natural e por natureza anti-valores. É uma Europa virada para o seu umbigo Berlinense, centrada na defesa da riqueza e da materialidade e sulcada pelo rigor dos calendários eleitorais dos seus membros. Tudo o resto são ninharias que não importam aos governantes.

Um nojo. Esta Europa que ainda temos. 

quarta-feira

A Capela de Santo António de Ponte da Barca




por João Aníbal Henriques

Quase parece um contra-senso, num Minho cuja beleza extrema e a opulência da paisagem nos oprimem os sentidos, chamar a atenção para a singela Capela de Santo António, em Ponte da Barca, na qual o principal motivo de interesse é precisamente a forma simples como se integra no espaço envolvente.

Datada de finais do Século XVII e princípios do Século XVIII, a capela de Santo António apresenta uma planta simples, de formulação quadrangular, com um alpendre em colunata neoclássica no adro frontal que lhe confere um traço arreigadamente Português.

No interior, expectavelmente simples, são de salientar as pedras sepulcrais epigrafadas, contemporâneas do período de construção do templo, que se conjugam com a ostentação envolvente do altar em talha dourada, de formulação evidentemente barroca, mas envolvido pelos traços decorativos que pendem para o maneirismo tradicionalmente Português. O trabalho de Mestre Frutuoso de Azevedo, dourador de relevo que aqui deixou uma das suas obras mais significantes, transporta-nos para uma ambiência radicalmente diferente daquela que caracteriza a Vila de Ponte da Barca, num laivo arrematado de ostentação que define com clareza os objectivos práticos que levaram à construção do próprio templo.

Simples sem ser humilde, a Capela de Santo António de Ponte da Barca é indiscutivelmente um dos motivos inultrapassáveis de interesse numa visita ao verdejante Minho Português.

terça-feira

O Castelo de Castro Laboreiro (Parque Nacional da Peneda-Gerês)




por João Aníbal Henriques

Existem lugares que estão prenhes de memórias e de vida. Neles subsistem memórias ancestrais, marcadas nas rochas firmes que as sustentam, em laivos de ritos que se repetem milenarmente e que quase tocam a eternidade. Castro Laboreiro, no Concelho de Melgaço, no Norte de Portugal, é um excelente exemplo de um espaço assim. Nele convivem muitas gerações que se cruzam nos seus quereres, nos seus sonhos e nas suas emoções, repetindo-se num monumento cíclico eterno que surge perenes nas paredes, no chão e nas rochas do lugar.

Com uma história ancestral, provavelmente contemporânea do nascimento da espécie humana na Terra, Castro Laboreiro ganha o seu topónimo do seu velho e vetusto castelo – ou castro – que estrategicamente colocado no topo do morro nos deixa perceber que importância teve este lugar na definição dos limites territoriais do nosso País.




O castelo ou castro, atribuído na literatura mais antiga ao período romano, surge durante o romantismo como sendo de origem árabe, facto que se sustenta na efectiva influência que os norte-africanos tiveram na consolidação do espaço territorial do El-Andaluz. Sabe-se hoje, no entanto, que o castelo é muito mais velho do que isto e que, no deambular transumante da pré-história, seria já um local de extrema importância, pelo menos durante o período de veraneio.

As suas raízes celtas, imbuídas no espírito das muitas tribos que aqui estavam sedeadas e que se digladiavam de forma permanente protegendo-se nos fortes e contra-fortes que as serranias proporcionavam, é uma certeza inultrapassável que ajuda a percebe melhor a forma consentânea que o espaço apresenta quando relacionada com a existência ambígua dos seus primeiros ocupantes.

Hoje, milhares de anos depois desse período áureo de Castro Laboreiro, a população continua a viver de forma cruza entre as   “inverneiras”, ou seja, os espaços de habitação situados nos vales que envolvem o lugar, como Bico, Cailheira, Curveira, Bago de Cima e Bago de Baixo, Ameijoeira, Laceiras, Ramisqueira, João Lavo, Barreiro, Acuceira, Podre, Alagoa, Dorna, Entalada, Pontes, Mareco, Ribeiro de cima e Ribeiro de Baixo e as “brandas” os espaços ocupados durante o período estival e situados na regiões mais altas que envolvem a localidade. As principais “brandas” são Vila, Várzea Travessa, Picotim, Vido, Portelinha, coriscadas, Falagueiras, Queimadelo , Outeiro, Adofreire, Antões, Rodeiro, portela, Formarigo, Teso, Campelo, Curral do Gonçalo, Eiras, Padresouro, Seara, e Portos. O ritual de passagem de trecos e tarecos entre as duas casas pelas famílias castrejas, repete-se ainda hoje numa espécie de ritual cíclico que perpetua a própria Alma Lusitana neste lugar tão especial.



Os dólmenes situados junto à localidade, ainda hoje motivo que redobra o interesse por uma visita, atestam e testemunham a herança simbólica e sagrada de um espaço que provavelmente só assim explica a sua longevidade.

De facto, com uma situação geográfica extrema, Castro Laboreiro viveu durante milénio num isolamento muito profundo, facto que contextualiza a excelente preservação dos seus monumentos mas, também, a manutenção quase se poderia dizer inusitada de uma estrutura de pensamento que se consolida à medida em que os séculos vão passando.  Certo, no entanto, é que as agruras do tempo e do clima e até a própria produtividade da terra são insuficientes para explicar a  teimosia humana em permanecer por aqueles lados, isto se não tivermos em linha de conta a beleza natural que envolve todo o espaço e que é de tal forma impactante que se torna difícil de descrever.

Situada em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês, que seria por si só motivo que chegaria para explicar o interesse de a visitar, a localidade de Castro Laboreiro vale ainda a pena pelos seus excelentes restaurantes e magnífica gastronomia que oferecem aromas e sabor a uma visita ao local.
Mas no alto, alcandorado nas penhas que protegem a fronteira, o castelo sobrevive ainda, assente nas ruínas que sobreviveram a um raio que o destruiu por completo no Século XIV e que Dom Dinis mandou reconstruir.

O caminho íngreme e difícil, num acesso que só é possível fazer-se durante o Verão, transporta-nos até a mais de 1000 metros de altura, deixando antever, aqui e ali, pequenos panos das antigas muralhas. Só quando chegamos lá acima, já bem perto das enormes rochas onde está alicerçada a entrada principal, começamos a perceber o assombroso daquele local. Uma paisagem sem fim, num conjunto de planos infinitos que reforçam a sensação de pequenez e de insignificância que este tipo de locais sempre nos trás.



Classificado como Monumento Nacional desde 1944, o Castelo de Castro Laboreiro foi conquistado por Dom Afonso Henriques em 1141 que lhe terá construído uma torre de menagem isolada que lhe conferiu a configuração tradicional dos castelos românicos.

Depois de consolidada a Nacionalidade e de terminadas as lutas fratricidas que deram corpo à independência de Portugal, Castro Laboreiro nunca perdeu da sua importância estratégica, facto que se percebe através de uma análise linear à forma como se situa a sua muralha relativamente à fronteira galega. No seu interior, abaixo do marco geodésico que ocupa o espaço onde estava outrora a torre medieval, existe ainda o redil onde se juntava o gado das redondezas, protegido pelos muros grossos das investidas sempre terríveis de inimigos e animais selvagens.  

Em suma, Castro Laboreiro e o seu velho castelo são uma das pérolas inesquecíveis de Portugal. Valem a distância necessária para lá chegar e justificam por si só o passar por lá uns dias de férias.








quarta-feira

Alcácer do Sal e a Igreja de Santa Maria do Castelo



João Aníbal Henriques

O exercício cénico que resulta do horizonte verde que se espalha para lá do rio é realidade recente, do Século XIX, quando o arroz substituiu o sal enquanto gerador da riqueza de quantos habitavam naquele espaço. Mas, algures por entre as pedras antigas alcandoradas no topo da colina do castelo, sente-se no ar uma paz desconcertante que contrasta de forma ávida com a guerra que permanente assolou a cidade de Alcácer do sal.

Situada no Distrito de Setúbal, a História de Alcácer faz-se de um conjunto muito rocambolesco de rocambolescos episódios que se sucederam de forma sucessiva na construção daquele espaço. Habitada desde a pré-história, quando o local onde hoje se situa a Pousada Dom Afonso II era já um espaço amuralhado para defender o precioso sal, a cidade foi descendo a colina até à beira-rio, à medida que se apaziguavam os ânimos e se estabeleciam os poderes definitivos que lhe conferiram a formulação espacial que hoje nos apresenta.

Salacia Imperatoria Urbs, dando corpo e fazendo jus à riqueza de sempre de Alcácer do Sal, foi sempre ponto de referência neste troço final do Rio Sado, impondo-se à realidade nativa pré-existente e abrindo caminho para a magnificência imperial que os Árabes souberam aproveitar.




Embora não esteja ainda provado, pois as campanhas arqueológicas ainda seguem inconclusivas, parece que o local onde se situa a actual Igreja Matriz, teria sido anteriormente a Mesquita Maior do tempo dos Árabes. O certo, porque subsistem hoje vários elementos dessa época integrados na arquitectura cristã e tardo-românica que a caracteriza, é que há cerca de dois mil anos,  a Igreja de Santa Maria do Castelo seria um templo romano. E, mais importante ainda, as colunas que estão visíveis na estrutura actual comprovam que o edifício romano subsistia quando se procedeu à reforma da Igreja, nos idos do Século XIII, que lhe conferiu o aspecto actual.

Reconquistada em definitivo para a cristandade em época já tardia e quando reinava Afonso II, depois de um processo muito complicado de conquistas e reconquistas que se prolongou praticamente desde a fundação da Nacionalidade, a cidade foi-se aglomerando inicialmente dentro do perímetro amuralhado, principalmente no espaço situado junto à igreja, e só posteriormente se alastrou ao declive que nos leva até ao Sado.

A Igreja Matriz, espécie de sentinela altiva guardando as memórias dos tempos e das eras que por ali deixaram marcas, foi classificada como Imóvel de Interesse Público em 1951 e partilha a sua localização privilegiada com o antigo paço real onde actualmente funciona a pousada (e onde se diz que será criado um espaço museológico para expor os muitos materiais de grande interesse e importância que foram sendo recolhidos na região).







quinta-feira

A Capela de Nossa Senhora da Conceição em Arcos de Valdevez




por João Aníbal Henriques

Existem locais que transcendem o tempo com a sua capacidade de atravessar incólumes as eras pelas quais a humanidade vai passando. É o que acontece num dos recantos menos conhecidos mas mais emblemáticos de Arcos de Valdevez na antiquíssima capela de Nossa Senhora da Conceição.

O vetusto monumento, erigido provavelmente ainda no Século XIV quando Dom Fernando, o Formoso, ainda respirava saúde e a Rainha Leonor Teles, a Aleivosa, se entretinha com o estrangeiro João Fernandes  Andeiro, é um dos mais interessantes exemplares da arquitectura românica do Norte de Portugal.

Essencialmente com cunho funerário, remetendo para os ancestrais arquétipos da Senhora da Conceição, a que concebe, a capela apresenta uma formulação espacial sóbria ao gosto da sua época, apesar das alterações impostas na transição para o período gótico, como o arco da frontaria principal e, mais recentemente, pelo altar de orientação “quase” barroca e já de finais do Século XVIII.

Na sua intemporalidade solidamente arreigada ao poder das grossas cantarias que a sustentam, a Capela de Nossa Senhora da Conceição de Arcos de Valdevez remete-nos para um imaginário profundamente ligado ao período de consolidação da nacionalidade, no qual a memória antiga associada à Identidade de Portugal se mostra no seu total esplendor, oferecendo um espectáculo emocionante no qual os princípios de uma religiosidade católica muito profundamente sentida se misturam com os laivos distantes de uma espiritualidade ainda bárbara mas significante.




A Senhora da Conceição, venerada aqui através de um monumento que deixa antever a orientação sagrada da própria localidade, assume simultaneamente a sua fácies Cristã e pagã, num esforço de gerar consensos que estabeleçam pontes entre o passado e o futuro daqueles que por ali lutam quotidianamente por uma sobrevivência sã. A morte e a vida, partilhando aqui uma espécie de universo místico que contrasta de forma evidente com a vida quotidiana que se vive lá fora, dão o mote para o choque dual entre os contrastes formados pela luz e pela sombra, pelo calor e pelo frio e pela magia e misticismo que se impõe à religiosidade canónica da comunidade envolvente.

São emoções únicas que valem a pena conhecer em Arcos de Valdevez.




quarta-feira

O Forte do Pessegueiro em Porto Côvo




por João Aníbal Henriques

O Forte do Pessegueiro, situado junto à praia homónima no Lugar de Porto Côvo, Concelho de Sines, resultou da adaptação de uma antiga fortificação marítima construída pelo Arquitecto Italiano Filipe Terzio em 1588 a mando do então Governo Espanhol.

Cruzando fogo com a Ilha do Pessegueiro, faixa de terra de sabor romântico situado em frente ao lugar de Porto Côvo e onde existiam duas batarias de defesa de costa, o forte também é designado por Forte de Nossa Senhora do Queimado, por Forte da Ilha de Dentro ou por Forte de Santo António do Pessegueiro. Desta maneira, um pouco ao sabor dos rocambolescos episódios que deram forma à história de Portugal naquele final do Século XVI, a fortificação servia de garante contra desembarques indesejados nas enseadas amenas que existem no local e impedia o aproveitamento dos extensos areais por eventuais tropas invasoras que pretendessem retomar a defesa de Portugal.

Em 1590, já com nova plataforma construída a partir de desenhos de Alexandre Massai, o forte foi adaptado com a colocação de quatro peças de artilharia que reforçavam o seu poder de fogo e a sua capacidade de actuação em possíveis cenários de invasão.

De resto, depois da restauração da independência, em 1640, o forte esteve sujeito a um período de abandono do qual só recuperou já em 1690 quando o engenheiro militar João Rodrigues Mouro projectou uma nova construção de raiz no mesmo local mas que fez desaparecer por completo os vestígios das construções anteriores.

Peça essencial na defesa costeira de Portugal, o forte integra ainda uma pequena ermida dedicada a Nossa Senhora da Queimada, tendo desempenhado papel de extraordinário relevo ao contribuir para o reforço da independência nacional ao longo das muitas tentativas de recuperação do poder por parte dos invasores espanhóis.

São de realçar, para além dos baluartes triangulares que lhe emprestam o ar austero que ainda ostenta, o enorme fosso que o envolvia, obrigando à construção de uma ponte que transforma a frontaria e a porta de entrada numa espécie de castelo medieval. Vale a pena a visita pela extraordinária integração na paisagem e pelo impacto visual conferido pela maravilhosa Ilha do Pessegueiro.







A Igreja de Nossa Senhora da Soledade de Porto Côvo




por João Aníbal Henriques

Num Alentejo muito singular, no qual as planícies quase eternas se adornam com as arribas frenéticas de mar e de sal, encontramos o sítio de Porto Côvo, marcado pela brancura quase inebriante das suas casas e pelos tons fortes do azul-cobalto que dá corpo às barras que decoram as suas fachadas singelas.

E é de singularidade que tratamos quando entramos no Largo Marquês de Pombal, coração deste recanto único de Portugal, desenhado no Século XVIII à imagem e à semelhança da Baixa Pombalina na tão longínqua capital. Situado no coração do lugar de Porto Côvo, o largo mistura a arquitectura típica do Alentejo com os laivos de opulência de uma Lisboa de cujos ecos aqui chegam somente as inconsistências próprios da distância… Grandeza simples e uma pequenez grandiosa, recriam um cenário quase mágico a que não fica indiferente, pela sua forma, pela localização e pelas características do seu culto, a Igreja de Nossa Senhora da Soledade (ou de Porto Côvo), pontuando com a monumentalidade das grandes cidades o lugarejo de praia em que o povoado se transformou.

Na frontaria estão os sinais indiscutíveis da sua nascença alentejana. Os traços simples que aqui se misturam com laivos tradicionalistas do estilo neoclássico, surgem em contraponto com a grandiosidade do retábulo de talha dourada que lhe confere um toque barroco que não deixa indiferente quem a visita. 

A imagem de Nossa Senhora da Soledade, também ela singela na voluptuosidade das suas vestes roxas, é assim o corolário de um templo projectado no Século XVIII por Joaquim Guilherme d'Oliveira, que justifica a visita e que compõe as magníficas paisagens marítimas do lugar.





quinta-feira

O Direito de Abortar




A encerrar o ano parlamentar, a maioria PSD/CDS-PP aprovou finalmente um conjunto de pequenas alterações à Lei do Aborto. Resultantes de uma petição apresentada na Assembleia da República por um conjunto de várias dezenas de milhares de cidadãos e intitulada “Pelo Direito a Nascer”, as mudanças superficiais agora aprovadas representam, ainda assim, um acto de coragem por parte do governo e um contributo importante e efectivo para exista justiça na sociedade portuguesa.

Fortemente contestadas por toda a oposição, que de forma radical não concebe que se possa sequer discutir livremente uma questão tão importante para o País e que tanto divide os Portugueses (note-se que o não ao aborto ganhou um dos dois referendos que se fizeram), o conjunto de medidas agora aprovadas acentuam a responsabilidade de quem pratica o aborto e procuram responder ao flagelo que representa a utilização desta prática como uma espécie de método anti-concepcional.

De facto, sem terem sequer discutido o direito a abortar, que continuará ainda a ser uma triste realidade que põe em causa o singelo e primordial direito de nascer, os deputados introduziram a obrigatoriedade de pagamento de taxas moderadores no aborto, acto de inquestionável justiça se pensarmos que um cidadão que precise de uma cirurgia da qual depende a sua própria vida, já tem de a pagar neste momento. Depois, aprovaram a obrigatoriedade de uma consulta de aconselhamento psicológico prévio a todas as mulheres que pretendem abortar, a que se seguirá, também de forma obrigatória, uma consulta de planeamento familiar depois do aborto. Estas acções, protegendo a mulher, permitem perceber as implicações daquele procedimento, evitando assim a sua banalização que todos infelizmente conhecemos. 

Olhando de forma nua e crua para o que está a acontecer, importa sublinhar que o aborto, que para não chocar a sociedade muitos teimam em continuar a chamar “interrupção voluntária da gravidez”, é tão só o acto de interromper uma vida humana ainda dentro do útero da mulher. E importa também, porque é aí que reside a nossa responsabilidade enquanto cidadãos que pugnam pela justiça e pelo direito, perceber que o dito direito a abortar que alguns defendem, implica que outros, completamente indefesos, não tenham sequer o direito a nascer.

As medidas agora aprovadas no parlamento, que nada contribuem para resolver a injustiça repugnante de não permitir a alguns que possam sequer nascer, é ainda assim um pequeno contributo para a defesa da vida e do direito a viver. 

terça-feira

O Fim da União na Europa




Não terá sido certamente por mal, até porque resulta das contingências e das naturais consequências de uma União Europeia artificial e naturalmente contrária aos interesse das várias nações que ainda a compõem, que o Presidente Francês, François Hollande, terá dado ontem a machada final na ideia de Europa que se vinha construído e impondo desde o final da II Guerra Mundial.

Num discurso chocante, que contraria todas as discussões e tratados que deram forma à União Europeia que ainda temos, assente numa putativa afirmação da soberania dos vários países que dela fazem parte e que os cépticos do europeísmo sempre disseram que era uma utopia impossível de alcançar, Hollande veio a público defender a criação de um governo europeu a seis. Na sua perspectiva, os seis países fundadores da então CEE, França, Alemanha, Itália, Bélgica, Luxemburgo e Holanda deverão passar a tutelar os governos de cada um dos restantes países membros, que passam a ser seus dependentes, acabando de vez com a pouca soberania que ainda lhes resta.

Nesta opção de uma Europa a várias velocidades e tamanhos, assume-se que os fortes controlam os fracos e que os vestígios de uma pseudo-solidariedade e respeito institucional que profusamente se utilizaram para nos vender esta realidade, serão definitivamente arrumados na gaveta. A Europa das nações, que se sustentava na soberania dos países que a compunham e na sua complementaridade institucional para reforçar a competitividade de todos, já nem sequer chega a ser uma utopia, pois a federalização da Europa, com esta espécie de governo central, institucionaliza a menoridade de alguns em detrimento da soberania dos restantes.

A União Europeia morreu definitivamente com este discurso, pois ele surge como a confirmação definitiva de que os argumentos desde há décadas utilizados pelos cépticos estavam correctos.

Mas agora, com a maior parte dos países desprovidos dos meios de produção que lhes permitiriam sobreviver e crescer economicamente e que trocaram por auto-estradas, frotas de automóveis e fundos pseudo-estruturais de vária índole que foram enchendo os bolsos de vários governos pseudo-democráticos, são poucas as opções que restam aos que não desejam submeter-se à vontade dos seis grandes. Muito pouco há a fazer, a não ser que as vicissitudes que resultam da crise Grega sejam tão grandes que façam implodir o trono onde ainda se resfastelam os seis que mandam.

Em todo o caso, a união morreu às mãos de François Hollande. E ele teve, pelo menos, a coragem de dar a machadada final. 

Os Bolsos da Dívida Grega




Adiando com a barriga aquele que é o mais grave problema estrutural da União Europeia e garantindo que no permeio todos ficam bem na fotografia e aptos a enfrentar mais uma ronda de eleições internas, o Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira, ou seja, o Banco Central Europeu, o FMI e a própria União Europeia, anunciaram com pompa e circunstância um empréstimo extraordinário de emergência à Grécia de mais de sete mil milhões de Euros.

E depois, como se de nada soubessem, os mesmos FMI e Banco Central Europeu, em momento diferentes para fazer render o espectáculo e os dividendos propagandísticos da sua acção, anunciaram que a Grécia havia liquidado as suas dívidas e os respectivos juros e que, por isso, estavam disponíveis para analisar um novo resgate àquele país helénico.

Esqueceram-se de explicar aos incautos Europeus, que o pagamento das ditas dívidas foi feito com o tal empréstimo de emergência concedido na véspera… ou seja, o dinheiro entrou no bolso esquerdo da Grécia e, horas depois, saiu pelo direito!

Atente-se: ao BCE a Grécia pagou 3,5 mil milhões de euros de empréstimos anteriores, aos quais acresceram mais 700 milhões em juros! E ao FMI, pagou mais 2 mil milhões de euros, aos quais juntou mais uns tantos milhões pagos ao Banco Central da Grécia.

Na prática, o que aconteceu foi que a Grécia recebeu mais um novo empréstimo virtual e fictício das instâncias internacionais, pelo qual pagou muito mais caro do que por qualquer dos anteriores (note-se que até a carne e o papel higiénico passaram a ser taxados com a taxa máxima do IVA) que imediatamente devolveu aos credores. Na perspectiva inversa, os credores entregaram à Grécia 7 mil milhões de euros que voltaram a receber logo de seguida, acrescidos de juros e de novas condições duríssimas a que uma vez mais fica sujeito o povo grego…

Os bolsos da Grécia e dos Gregos, esses continuam vazios. Mas algures depois da leva de eleições que aí vem, há-de chegar a data para um novo pagamento que o País não vai conseguir fazer, porque tem a economia condicionada externamente pelos seus credores e fica total e completamente impossibilitado de crescer. E nessa altura, para terror de todos nós, vamos voltar a ver este mesmo filme.

Que tristeza de Europa esta!


sexta-feira

"Era uma Vez em Angola" de Guilherme Valadão




Era uma Vez em Angola” é o título do primeiro romance de Guilherme Valadão. Publicado recentemente pela Bertrand, esta surpreendente incursão no mundo da ficção transporta-nos ao longo de muitos quilómetros num percurso difícil entre as cidades de Lobito e de Luanda, na Angola dos anos 40.

Com uma linguagem simples e muito acessível, Guilherme Valadão deixa transparecer a profundidade de uma história em que se sentem os laivos de memória de uma vida – da sua vida – num exercício complexo que conjuga a serenidade de quem muito fez e de quem muito faz, com a ingenuidade própria do rapazinho que dá a cara por este enredo original.

Nas páginas de “Era uma Vez em Angola”, que de uma forma quase magnética nos prendem ao destino de um João Botelho ainda muito novo mas já reflectindo os arquétipos mais profundos de um saber ancestral que se vive sem ser necessário aprender, encontramos a emoção própria do desnorte de uma criança que deambula por uma África que nos enche a boca com o pó cru que se levanta com o vento, com as paisagens inesquecíveis que só quem lá esteve sabe descrever e com os sons, sabores e aromas antiquíssimos que acompanham o devir da humanidade que desde sempre ali foi capaz de viver. Quase é possível ouvir, ao virar de cada página, os batuques das comunidades por onde João Botelho passou ou sentir no ar o estrugido do peixe cozinhado tradicionalmente… E a acompanhar a viagem, os laivos omnipresentes dos valores da família, da amizade, do amor e da honestidade profunda, suporte da narrativa onde vamos descobrindo o seu autor e redescobrindo novos ensejos que ajudam a perceber o que é viver.

As memórias que Guilherme Valadão mascara por detrás de uma história comovente, descobrem-se progressivamente à medida que a história vai trazendo à superfície os sinais incontornáveis de um conjunto de sonhos pessoais que ele não tem a capacidade de esconder. Está lá e sente-se a riquíssima experiência de vida do autor, as sólidas e estruturantes vivências da sua família e um laivo de esperança que, mesmo no desânimo, ele deixa transparecer.

Também lá está, naquilo que o autor dá a entender que é uma ponte entre os tempos e as eras, uma mensagem de futuro, transversal à herança que Valadão quer deixar aos seus netos e que neste livro partilha através de uma interessante estratégia que conjuga o passado e o futuro através de um presente que deve ser permanentemente aproveitado e sofregamente entendido como o mais importante de todos os alicerces.

Em suma, “Era uma vez em Angola” transborda de uma África vivida de forma inebriante e seduz pela ligação permanente ao autor e às memórias únicas que se vão descobrindo ao longo do enredo. É uma leitura que envolve quem nunca teve a sorte de ter vivido África e, certamente, que não deixará indiferente quem lá esteve.

O livro pode ser adquirido na Bertrand Editora AQUI ou na Wook AQUI

Figos de Cascais ou Figos de Rabadilha




Reza a lenda que durante o período de ocupação filipina, o edil de Cascais apoiava a causa dos usurpadores espanhóis e que traía Portugal…

Ora vivia nesta altura na velha vila piscatória um judeu velhaco que ocupava os seus dias à procura de estratagemas para afrontar o poder e para se impor aos grandes senhores que oprimiam o seu povo. Atencioso, rico e influente, o dito Judeu começou a enviar diariamente ao edil de Cascais uma bandeja de ouro com os melhores figos da sua quinta.

Do alto da sua sobranceria, o senhor de Cascais tomou o acto como um gesto de simpatia muito usual naquela época para ganhar os favores daqueles que governavam o concelho. E deleitava-se com os figos oferecidos pelo judeu, não se coibindo de lhes gabar o extraordinário e único odor que tanto apreciava e que o deixava tão satisfeito.

Mas um dia, quando o judeu foi preso pela inquisição, foi instado a contar publicamente os seus segredos. E eis que, para gáudio dos Cascalenses que defendiam a sua pátria contra os interesses estrangeiros, explicou o estranho e inesperado odor que tanto agradava ao senhor de Cascais…é que, antes de os enviar ao edil, o judeu passava-os pelo rabo e era ali que eles ganhavam o aroma que conquistara o palato do senhor cascalense!

Assim nasceu, com força de uma lição que perdura ao longo dos séculos, a lenda dos “Figos de Cascais”, popularmente conhecida como a lenda dos “Figos de Rabadilha”.

quinta-feira

Uma Tragédia Grega numa Europa Trágica?




Possivelmente decidir-se-á hoje o impasse relacionado com a resolução do problema estrutural da Grécia e da sua dívida europeia. O desenlace, depois do imbróglio demasiado longo que se foi arrastando ao longo dos últimos cinco anos, terá pouco de apoteótico… aconteça o que acontecer, mesmo que a Grécia decida aceitar as novas condições impostas pela Europa para preservar a sua continuidade na zona Euro ou que a Europa se mantenha firma nas suas exigências e expulse a Grécia do seu seio, o mal está feito e a única certeza que existe é que mais do que uma tragédia grega, o resultado vai ser uma terrível tragédia Europeia.

Em primeiro lugar porque ficou bem patente que não existe nenhuma unidade europeia. A Europa não foi, não é e nunca será uma nação, nem tão pouco terá sequer o sustento mínimo para dar corpo a uma federação homogénea de estados independentes. Porque as diferenças são mais do que muitas (em vários registos e a vários níveis) e porque os fortes não aceitam a igualdade dos mais fracos, nem tão poucos estes últimos aceitam a supremacia dos primeiros.

Depois porque, conforme anunciou hoje o primeiro-ministro grego, aconteça o que acontecer a Grécia e a Rússia vão encontrar-se numa cimeira bilateral formal na próxima Sexta-feira, demonstrando ao mundo e aos restantes parceiros europeus, que existem caminhos e soluções alternativas que poderão ser mais facilmente aceites pelos próprios Gregos.

Por fim, porque se não for a Rússia será a China ou qualquer potência emergente, disponível para apoiar e, dessa maneira, condicionar, os equilíbrios estruturais sempre periclitantes no velho continente.

Em suma, a utopia fantástica de uma Europa una e coesa em clima de fraterna solidariedade e em sã convivência, unida numa estrutura federal em que todos os estados detêm direitos iguais, caiu definitivamente por terra. Tal como tinha acontecido em 1918 e em 1945, existem fortes e fracos, dependentes e independentes, generais e soldados-rasos nesta Europa sem rumo.

Hoje, numa Europa dividida pela realidade que se impôs, com um parlamento Europeu onde cerca de 11% dos deputados são contrários à existência da união e advogam a sua dissolução imediata, a tragédia grega é muito mais do que a decisão do que vai acontecer com o País onde a democracia nasceu.

Hoje, a Europa trágica da demagogia partidarizante de índole partidocrático e de sustento federalista morreu. E isso, sendo uma tragédia, está longe de ser o acontecimento trágico, final e determinante que nos querem vender os europeístas convictos que nos conduziram para este pântano. 

Henrique Simões Felgar e as Memórias Perenes da Cidade de Viseu





Se fosse vivo, cumpriria na próxima semana o seu 122º aniversário. Henrique Simões Felgar, filho de Joaquim Simões Felgar e de Maria da Glória Tavares, nasceu no lugar de Paço, na antiga Freguesia de Santo André no Concelho de Vila Nova de Poiares, no dia 16 de Junho de 1893. De origem humilde, começou cedo a sua vida de trabalho, recolhendo lixo e ferro-velho que depois vendia às principais fábrica do local. Habituado a calcorrear a pé as serranias envolventes, sempre em busca do material para venda, Henrique Felgar conhecia cada canto e recanto das antigas beiras, onde era também reconhecido e conhecido por quase toda a gente. Audaz e empreendedor, não levou muito tempo até conseguir inverter a linha do seu destino, adquirindo novos recursos comerciais e desenvolvendo novas estratégias para garantir a prosperidade pela qual ansiava. Casado desde muito novo com Maria Ermelinda Queirós (1901-1984), também ela natural de Poiares, desenvolveu grande parte da sua vida adulta na Cidade de Viseu, onde se instalou com a sua família e onde montou a sua fábrica de lanifícios. Vivendo primeiramente numa casa arrendada na zona da Ribeira, junto ao espaço onde funcionava a fábrica, adquiriu posteriormente um conjunto de duas magníficas propriedades situadas junto à Cava do Viriato, na Estrada Velha de Abraveses, onde instalou uma espécie de grande aldeia comunitária na qual viviam várias dezenas de pessoas. A Quinta da Machada, composta por uma parcela anteriormente designada como “Machada de Cima”, na qual presidia uma casa beirão antiquíssima com a designação “Casa do Lago” e por uma outra, localizada a Poente e virada para o Terreiro de Viriato e para o chão da feira, designada como “Machada de Baixo”, era um espaço de vivências muito profundas no qual nasceram e cresceram muitos daqueles que deram forma à nova geração de viseenses. Optando por habitar a enorme casa situada no extremo da quinta, que dividiu em duas unidades independentes de forma reforçar o seu rendimento, Henrique Felgar construiu ainda vários outros edifícios que foi alugando a funcionários e amigos, que partilhavam o espaço da Quinta da Machada e também uma “belga” de terra onde cada família cultivava a sua pequena horta doméstica. Na casa principal da quinta, onde residia a Família Felgar, teria estado alojado o Francês Marechal Massena em vésperas da sua derrota no Bussaco no início do Século XIX. Reza a lenda, que Henrique Felgar conhecia e que contava amiúde nas suas tertúlias de fim-de-tarde na sua mítica adega “Cova Funda”, que o tesouro formado pelos saques perpetrados pelos franceses durante o tempo em que foram evoluindo pelo território Português e que nunca chegou a aparecer depois da pesada derrota que o exército napoleónico conheceu logo depois de sair da Quinta da Machada, estará escondido algures num dos muitos espaços subterrâneos que existem sob a velha casa. Num desses espaço, aliás, instalou Henrique Felgar uma fábrica e armazém de caixões e demais artigos funerários que, alimentando as muitas lendas que envolviam a já de si extravagante casa, davam um tom ainda mais lúgubre e aterrorizante aos dias em que os seus netos e bisnetos por lá passavam. Nesta casa teve e/ou criou Henrique Felgar 17 filhos: Maria da Glória, Emanuel, Maria Ermelinda, Maria Emília, Maria Isabel, Maria de Lurdes, Maria da Conceição, Henrique, António, João, Maria Edite, José, Maria Teresa, Joaquim, Moisés e Elias. Vinte e nove anos depois da sua morte, no quarto do meio da velhinha casa da Quinta da Machada, Henrique Felgar deixa atrás de si um rasto profundo de muitas memórias que se perpetuam (e o perpetuam) no tempo. O seu carácter muito próprio, assente numa espontaneidade onde não cabiam o cinismo e o fingimento, angariaram-lhe uma vastíssima plêiade de amigos e também uma prole não despiciente de inimigos dos quais ele falava sempre lançando as suas melhores gargalhadas. Foi um homem único, que viveu intensamente uma vida desconcertante e irrepetível, num contexto histórico-sociológico que acompanha a afirmação da excelência da própria cidade de Viseu. Devem-lhe muito os filhos, os netos e os bisnetos, que carregam consigo o peso da responsabilidade de terem herdado o apelido dele. Mas deve-lhe ainda mais a cidade de Viseu, que nele teve um dos mais fiéis repositórios das memórias, dos valores e dos princípios que hoje se reconhecem como parte da identidade colectiva da capital da Beira Alta.






quarta-feira

A China – Quando a Natureza e a Verdade se Renegam a Cada Esquina…





por João Aníbal Henriques

A China é o maior e o mais populoso País do Mundo. Com os seus perto de um bilião e meio de habitantes, ocupando uma imensidão de mais de nove milhões de quilómetros quadrados, a República Popular da China conjuga uma história milenar, patente em cada canto e recanto e sensível em milhares de pequenos laivos da vivência cultural do seu povo, com uma espécie de história nova, de pouco de setenta anos, que acompanha algo a que por lá se chama “revolução cultural” e que ditou os destinos do controle do Partido Comunista Chinês desde o fim da guerra civil que aconteceu em meados do Século XX.

Quando se chega à China tudo é inesperado e a sensação que perdura, mais do que os sons marcantes e os cheiros que preenchem todos os detalhes da sua paisagem marcante, é uma sensação de choque cultural que se traduz num impacto muito grande.

Com um regime político muito marcado pelo totalitarismo político do Partido Comunista, bem visível nos símbolos, nas cores e na profusa presença de militares nas ruas das cidades, a China empreendeu um esforço hérculeo ao longo das últimas décadas para literalmente apagar das memórias dos seus habitantes os ensinamentos antigos que haviam dado corpo à identidade  nacional. Quem hoje visita a China, e salvo as raríssimas excepções de monumentos ancestrais que não foi possível demolir pelo impacto que tiveram e continuam a ter um pouco por todo o Mundo, como a Cidade Proibida, a Grande Muralha da China, etc. vê um país marcadamente ocidentalizado, com avenidas largas repletos de milhões de carros em engarrafamentos constantes, enormes arranha-céus ao jeito do que se faz na Alemanha e na América e centenas de gigantescos centros comerciais, copiados dos que existem no Ocidente mas agigantados ao gosto chinês, nos quais se encontram as marcas e as lojas mais importantes da Europa actual.




É por isso um banho de água fria, para quem lá chega à espera de encontrar os vestígios da cultura milenar chinesa, da sua forma de vestir e de estar, bem como os retorcidos telhados dos pagodes ancestrais. Tudo isso desapareceu mercê da revolução dita cultural que o regime empreendeu, e foi paulatinamente substituído por uma espécie de grande cenário Ocidental onde se tenta copiar de forma espampanante o que se faz por cá.

Mas tenta-se somente. Porque por detrás das fachadas de vidro, dos carros alemães e das lojas mais requintadas de Paris, sobressaem ainda os gestos antigos que os Chineses teimam em perder… os arrotos sonoros em plena rua, a preparação de comida à porta de casa, as cuspidelas para o chão e o lixo que esvoaça por todo o lado, contrastam de sobremaneira com aquilo que imaginamos para um lugar assim. E depois a desordem ordenada e controlada que existe por todo o lado. Num País onde não é possível navegar livremente na internet, as ruas estão cheias de prostitutas e chulos que perseguem os poucos turistas ocidentais que por ali andam, oferecendo o seu produto e tentando levar os mais incautos para aventuras estranhas e muitos caras das quais poucos têm a coragem de voltar a falar mais tarde.



E o engano é palavra de ordem que não deixa ninguém indiferente. À sombra da sua incapacidade de falar outra qualquer língua para além do Chinês e da natural dificuldade de comunicação que daí advém, qualquer ocidental que entre num táxi, que tente comprar o que quer que seja e que não esteja habituado aos usos e costumes daquela gente, será enganado com toda a certeza.

Apesar de tudo isso, da falta que fazem as memórias antigas de um País antiquíssimo e que tanta importância teve na nossa forma de estar e de ser, o impacto de uma visita à China traduz-se numa experiência de vida, provavelmente mais impactante do que qualquer outra viagem que alguém possa tentar fazer.

Vale a pena? Vale certamente!

Pequim vs Beijing




Existem elementos incontornáveis numa visita a Pequim. Para além da sua imponência e antiguidade, são marcos fulgurantes na imaginação de qualquer um e definem com rigor aquilo que um turista Ocidental pensa antes de chegar a um destino tão impactante. A Cidade Proibida, a Praça de Tian’anmen, a Grande Muralha ou o Templo do Céus, são parte da paisagem e da aura de mistério que acompanha esta enorme metrópole asiática.

Tendo anteriormente designações diferentes, como Zhongdu, Dadu ou Cambuluc, Pequim (ou Beijing na ortografia local) é a actual capital da China. Com uma imensa população de quase 24 milhões de habitantes, é a segunda cidade chinesa depois de Shanghai e aquela que conjuga maior simbolismo no contexto da ditadura comunista que actualmente se está ali a viver.





Fundada originalmente no Século XIII, quando Genghis Khan unificou um conjunto de pequenos povoados ali existentes, Pequim (ou Capital do Norte) foi crescendo ao sabor das muitas vicissitudes que deram forma à sua História. Ali residiram as principais figuras da História da China e ali se centralizam as estruturas de poder ao longo dos últimos séculos.

A Praça da Paz Celestial ou Praça de Tian’amnen




A Praça da Paz Celestial, como optou por chamar-lhe o regime comunista que controla o País, também conhecida por Praça de Tian’amnen, é a maior do Mundo e foi inaugurada em 1651 às portas da Cidade Proibida. Por ali se representaram as encenações das grandes paradas e dos espectáculos com maior impacto políticos da Ásia e nela se desencadearam acontecimentos políticos que mudaram para sempre a percepção do Mundo em relação a este país tão marcante. Foi ali, em 1989, que centenas de estudantes foram massacrados pelo regime depois de tentaram mostrar a sua insatisfação pelo que estava a acontecer.

Hoje, rodeada de enormes medidas de segurança muito visíveis (e também de outras que ninguém vê mas que se sentem), alberga o monumento de memória ao antigo líder comunista Mao Tsé-Tung (1893-1976) e a tumba onde se encontra exposto o seu corpo embalsamado e está permanentemente cheia com centenas de milhares de visitantes maioritariamente chineses que, com um permanente sorriso nos lábios, por ali deambulam horas e horas a fio para poderem ver de perto o corpo daquele a quem, por medo ou respeito, continuam a chamar o “Grande Timoneiro”. E quase faz impressão olhar para aquele mar de gente, ali às portas da antiquíssima Cidade Proibida, gesticulando de satisfação em filas intermináveis que rodeiam o monumento várias vezes e onde passam horas após horas só para comprar o bilhete.



Mao Tsé-Tung e a Revolução Cultural Chinesa




E se a cidade tem uma história ancestral, marcante principalmente no Século XV quando a Cidade Proibida foi construída, o certo é que a sua importância foi reforçada no dia 1 de Outubro de 1949 quando Mao Tsé-Tung (1893-1976) ali proclama o nascimento da actual República Popular da China. Tendo sido conquistada pelo poder Nipónico em 1937, que manteve o controle sobre a cidade até à sua derrota na II Guerra Mundial em 1945, Pequim foi libertada pelo exército liderado por Mao e posteriormente reconquistada pelo poder comunista após a Guerra Civil que impôs o actual regime político.

E foi precisamente o auto-designado Grande Líder que, com a ajuda de uma das suas mulheres, empreende entre 1966 e 1969 aquilo a que optou designar por Revolução Cultural que literalmente deu forma à China actual e que tanta influência tem ainda hoje na formulação plástica e social o povo Chinês.

Tendo reformulado praticamente todos os aspectos da via quotidiana no seu País, o regime comunista optou por uma solução final que pusesse cobro a toda e qualquer possibilidade de protesto ou de sublevação. Para além de destruir grande parte do património histórico e cultural do País, que associava à possibilidade de descentrar as atenções do povo das inovações e do progresso que o regime comunista pretendia impor, a revolução cultural foi palco de grandes perseguições a oposicionistas, artistas e a todos os que ousassem pensar de maneira diferente. A autêntica lavagem cerebral levada a cabo por Mao Tsé-Tung, apagando os vestígios da milenar história chinesa e reforçando os laços com o movimento comunista, estendeu-se a escolas, empresas e às suas, que se encheram de simbologia do regime e apagaram por completo tudo aquilo que dissesse respeito a outros tempos.



Ainda hoje, na fachada principal da entrada da Cidade Proibida, se ostenta a fotografia do líder revolucionário, literalmente vigiando o seu povo e reverenciado como se de uma divindade se tratasse… 

A Cidade Proibida




E o maior choque para quem visita a China pela primeira vez será possivelmente a Cidade Proibida. Conjunto monumental de templos e palácios utilizados pelos vários imperadores chineses desde 1420, quando foi construído, a Cidade Proibida é possivelmente o monumento chinês que transversalmente acompanha o imaginário de todos aqueles que já pensaram estar neste lugar tão diferente.

Palco de filmes e de dramas imperiais, vedada ao acesso do cidadão comum, a Cidade Proibida é um autêntico e maravilhoso palco onde se recriavam os espectáculos que sustentavam a magnificência do poder político Chinês.




Actualmente, depois da revolução cultural de Mao Tsé-Tung, franquearam-se os portões antigamente sempre fechados e o povo literalmente tomou conta do espaço. Perdendo grande parte da sua mística e o antigo silêncio que dava corpo à apreciação do lugar e que é contado e recontado por todos os viajantes antigos que tiveram a sorte de lá entrar, a Cidade Proibidade está sempre literalmente a abarrotar de milhares e milhares de visitantes, maioritariamente chineses, que entram aos gritos, preenchem cada recanto e vão (literalmente) arrancando bocados dos adornos existentes no local.

Sem qualquer outra espécie de orientação para além de umas ténues informações muitos genéricas acerca dos nomes ancestrais daquelas vastas praças e terraços, os visitantes seguem ao ritmo da curiosidade, espreitando aqui e além as muitas salas que enchem o lugar e ouvindo aqui e ali algumas palavras ditas por algum guia mais descuidado. Não existe informação escrita, placas indicativas ou sequer livros à venda com notas sobre o lugar (o único sítio onde encontrámos um livro em inglês sobre a história da Cidade Proibida foi na área de embarque do Aeroporto), tudo acontecendo ao sabor do nada que tudo enche! Perde-se a simbologia, o significado profundo e a magnificência milenar de uma história que importava recordar.




















Shanghai ou Xangai e Pudong


Situada junto à foz do Rio Yangtze, importante empório comercial durante muitos séculos, a Cidade de Shanghai é actualmente a maior cidade da China e possivelmente uma das maiores metrópoles do Mundo.



Considerada como “Cidade Mercado” em 1074, foi sempre ponto central na distribuição das riquezas produzidas no vastíssimo território Chinês e um porto da maior importância. De tal forma assim foi que, em 1842, quando a revolução industrial simplesmente começava na Europa, Shanghai se tornou no ponto-angular do comércio asiático, facto que ficou consubstanciado no Tratado de Nangum.

Profundamente ocidentalizada, com a sua estrutura urbana marcada por alguns dos maiores arranha-céus do mundo, Shanghai consubstancia o seu impacto na linha costeira do Rio Huangpo e no magnífico cenário do Pudong e a Torre Pérola Oriental, visto a partir do Bund.

A torre, construída entre 1991 e 1995, foi desenhada por Jia Huan Cheng e, com os seus 468 metros de altura, é actualmente uma das mais altas torres de televisão do Mundo, tendo-se assumido como ex-libris da cidade. O seu traço, baseado num poemos da Dinastia Tang, procura recriar a linha de paisagem com os traços de um alaúde…

Do outro lado, causando estranheza por ter sobrevivido ao surto implacavelmente destruir da revolução comunista, sobrevive um antigo palacete colonial actualmente utilizado como Embaixada da Rússia na China.










Guangzhou e o Cantão



De todas as cidades Chinesas, Guangzhou é possivelmente aquela que melhor traduz o estado em que se encontra China actual. Empório comercial antiquíssimo, fundada no Século II a.C. e com mais de dois milénios de História, Guangzhou ou Cantão, como é conhecida no Ocidente, é a capital da província de Guangdong, um dos mais prósperos territórios do País.

E se o Cantão é bem conhecido dos Portugueses, existindo centenas de relatos e descrições de viagens feitas à cidade ao longo de muitos séculos, até porque um tratado de 1511 atribui a Portugal o monopólio do comércio em Guangzhou, já pouco resta da magnificência de outrora.

Os antigos bairros, as casas típicas, os templos e as ruelas estreitas, foram progressivamente substituídos por enormes arranha-céus com dezenas e nalguns casos centenas de andares de altura, muitas vezes pintados de dourado e verdadeiramente resplandescentes, num processo de descaracterização total que cumpre os objectivos ditados pela dita revolução cultural comunista. Sendo actualmente a terceira metrópole da China continental, com mais de 13 milhões de habitantes, Guangzhou é uma espécie de enorme centro comercial, cruzando vários centros comerciais entre si e que se estende por cima e por baixo da terra.

Da sua história mais rocambolesca, subsiste o velho abrigo anti-bombardeamentos, resquício da pressão japonesa durante a II Grande Guerra, mas que se encontra literalmente perdido debaixo de uns quantos arranha-céus e de uma amálgama de centenas e centenas de lojas aglomeradas em vários centros comerciais subterrâneos.

O que sobrevive da antiquíssima cultura Chinesa? Pouco mais de nada. Os maus hábitos arreigados por práticas de sucessivas gerações, a sujidade que permanentemente vai enchendo as ruas das suas cidades, alguns hábitos alimentares também eles associados a práticas de pouca higiene e… nada mais. 

Uma pena.