terça-feira

O Beco do Chão Salgado e o Processo dos Távoras em Belém





No meio das mais macabras estórias que dão forma à História de Portugal, o processo que culminou com a execução da Família Távora, em Lisboa no tempo do Rei Dom José, é certamente um dos mais rocambolescos e enigmáticos, tendo deixado vestígios que sobrevivem passados mais de duzentos e cinquenta anos.


por João Aníbal Henriques


Estando situado numa das zonas mais movimentadas de Belém, a poucos metros do Mosteiro dos Jerónimos e dos afamados Pastéis de Belém, o Beco do Chão Salgado é desconhecido e passa despercebido da maioria dos muitos visitantes que por ali deambulam.

O pequeno beco, apinhado de casario que foi enchendo o antigo terreiro no qual havia sido proibido construir, está marcado por um obelisco em pedra que perpetua um dos mais significantes momentos da nossa história.




Depois do terramoto de 1755, que destruiu a Baixa de Lisboa e o palácio real que se situava no antigo Terreiro do Paço, o Rei Dom José e a Corte ficaram provisoriamente instalados na Ajuda, num conjunto de barracas montadas para o efeito e para onde foram transportados todos os luxos e mordomais da Casa Real.

Numa das suas incursões à cidade, dizem as más línguas que para visitar umas amigas, o rei terá sido alvo de um atentado em 1758, quando regressava à Ajuda, desencadeando um processo judicial complexo e pouco transparente que alterou por completo a História Moderna de Portugal e do qual ainda hoje não se conhecem nem os contornos, nem a substância e muito menos a realidade efectiva do que aconteceu.

O Marquês de Pombal, aproveitando a oportunidade para resolver o problema político que mais o apoquentava na época, ou seja, as permanentes tentativas por parte da velha nobreza para condicionar o poder e para impedir o absolutismo real, conseguiu que a acusação incidisse sobre a Família Távora que foi condenada, sem provas, pelo atentado à vida do rei.




Logo depois do atentado foram presos dois homens que, em declarações prestadas à polícia sob tortura, acusam os Távoras de lhes terem pago para perpetrar o crime, com o objectivo de colocar o Duque de Aveiro no trono.

Embora negando a autoria do atentado, toda a Família Távora foi condenada à morte, inclusivamente mulheres e crianças, num espectáculo público de execução a que assistiram milhares de Lisboetas. Por intercessão da rainha e da princesa herdeira, muito marcadas pelo carácter macabro do caso, as crianças acabaram por ser poupadas, sendo que não foram capazes de salvar a Marquesa de Távora que foi executada juntamente com os homens da sua família.

Depois de terem as mãos e pés partidos para deleite do rei, que assistiu a todo o macabro espectáculo, e de terem sido massacrados perante o resto da corte e da demais nobreza do reino que assistiu perplexa a um acontecimento encenado para deixar bem claro quem mandava em Portugal, todos os membros da família foram decapitados e queimados, sendo as suas cinzas deitadas ao Rio Tejo.




Depois de os seus bens terem sido confiscados e as famílias apagadas dos registos da nobreza Portuguesa, o Palácio do Duque de Aveiro, em Belém, foi demolido, tendo todo espaço sido coberto de sal e decretada a impossibilidade de se voltar a construir por ali o que quer que seja. No local foi construído um obelisco com vários círculos concêntricos simbolizando cada um dos elementos da família que foram executados, com a seguinte inscrição: "Aqui foram arrasadas e salgadas as casas de José Mascarenhas, exautorado das honras de Duque de Aveiro e outras condemnado por sentença proferida na Suprema Junta de Inconfidência em 12 de Janeiro de 1759, justiçado como um dos chefes do bárbaro e execrando desacato que na noite de 3 de Setembro de 1758 se havia cometido contra a Real e Sagrada pessoa de Dom José I. Neste terreno infame se não poderá edificar em tempo algum".




Simbolizando a devastação total e o apagar completo da memória daquelas gentes, o Beco do Chão Salgado foi, até à morte do rei Dom José e a chegada ao trono da Rainha Don Maria I, que nunca apoiou nem teve simpatia pelo Marquês de Pombal, um dos mais impactantes símbolos do poder político em Portugal.

Dois séculos e meio depois, são poucos os Portugueses que conhecem a história e muito menos aqueles que já visitaram este sítio tão especial. A memória do Chão Salgado, naquele recanto escuro de Belém, é a prova-viva de que, ao contrário do que se costuma dizer, os brandos costumes dos Portugueses nem sempre são para levar à letra…








Outros Carnavais em Cascais




O Carnaval foi sempre uma das festas tradicionais de Cascais. Desde tempos imemoráveis, mas principalmente depois do desenvolvimento que resultou da chegada da corte para o final do estio, em 1870, o Domingo e a Terça-feira de Carnaval eram sinónimo de festa, brincadeiras e de um clima generalizado de boa disposição que envolviam as ruas e as pessoas que moravam em Cascais. Nesses outros Carnavais, eram as instituições de Cascais e os Cascalenses que as dirigiam, quem organizava os desfiles, os bailes e as demais tropelias que davam forma ao carnaval na nossa terra. Desde 1939, quando foi criada pela mão de Nunes do Santos, Florindo de Oliveira e, mas tarde, por Armando Vilar e Joaquim Aguiar, que a Sociedade Propaganda de Cascais começou a liderar a organização das festas, dando corpo a um conjunto de iniciativas nas quais participavam, de forma directa e indirecta, quase todos os Cascalenses. 






segunda-feira

O Palácio do Intendente





por João Aníbal Henriques

Altivo no meio da desagregada ruína que o caracteriza actualmente, o Palácio do Intendente, situado na localidade de Manique do Intendente, é ainda hoje uma surpresa para todos aqueles que por ali passam pontualmente. Com um estilo neoclássico muito firmado, fazendo lembrar a altivez pétrea de Mafra e as linhas sóbrias do Teatro São Carlos, em Lisboa, o Palácio do Intendente  representa o sonho nunca concretizado do antigo Intendente-Geral da Polícia Diogo Pina Manique.

Situado na Freguesia de Manique do Intendente e assumindo uma posição central na praça principal da localidade, o Palácio de Manique do Intendente começou a ser construído em finais do Século XVIII depois de a rainha D. Maria I, como forma de agradecimento pelos importantes serviços prestados pelo seu Intendente-Geral da Polícia, ter concedido as terras da antiga povoação de Alcoentrinho a Diogo de Pina Manique que lhes alterou a designação para a actual Manique do Intendente.

Não se conhecendo o nome do arquitecto responsável pelo projecto, julga-se que, mercê da proximidade do traço relativo ao projecto do Teatro São Carlos em Lisboa, também mandado construir por Pina Manique com quem mantinha uma relação de bastante proximidade, o mesmo poderá da autoria de José da Costa e Silva.

Portentoso, o edifício apresenta características incomuns para a realidade arquitectónica portuguesa da sua época, não só pela grandiosidade do mesmo, certamente devida ao facto de o Intendente-Geral pretender construir uma nova cidade de raiz a partir da centralidade marcante daquela construção, como também pela sua planta dividida pelo corpo central assente numa grande igreja que se impõe ao conjunto. De facto, quase contrariando a orientação pragmática associada à magnificência que Pina Manique desejava impor através desta construção, o edifício não tem uma entrada mo monumental, dividindo-se a mesma em quatro acessos laterais, e perde o seu peso cénico a partir da presença muito forte do corpo da igreja.

Estando actualmente num estado avançado de degradação, que contrasta de forma evidente com o valor simbólico e patrimonial do edifício, o Palácio do Intendente nunca chegou a ser concluído, uma vez que, em 1805, quando Diogo de Pinha Manique foi morto com dois tirões quando regressava a cavalo de Alcoentre, foi completamente abandonado ainda por acabar. Para juntar a este problema, o edifício foi ainda bastante abalado por um ciclone que destruiu a cobertura do claustro já em 1941.

Classificado como Imóvel de Interesse Público através do Decreto nº 45/93, o Palácio do Intendente é hoje uma referência incontornável no panorama patrimonial Português e, apesar do seu estada avançado de ruína, expressa de forma inolvidável um dos mais consequentes e pragmáticos momentos da História de Portugal.








sexta-feira

Casa Henrique Felgar na Quinta da Machada (Cava do Viriato / Viseu)




Propriedade de Henrique Simões Felgar (1893-1986) é um conjunto de dois edifícios, sendo o principal de dois andares, o piso térreo destinado a arrumos e divisões secundários, e o superior à habitação. Apesar de aparentar uma edificação do final de Oitocentos, terá tido uma fundação anterior, como o indica a organização interna do espaço, com corredor interior, acedendo às dependências laterais, comunicantes entre si. Acesso por escadaria com balaustrada, formando um alpendre superiormente. Fenestrações rectilíneas com molduras de cantaria. Mantém-se algumas janelas de guilhotina. Construção anexa rectangular, de dois pisos, o térreo para arrumos e guarda de animais, executado em pedra, e o superior de habitação, com "taipal à galega" e cobertura de placas de xisto. Fez parte do Plano de Pormenor da Cava do Viriato, da autoria do Arquitecto Gonçalo Byrne, no âmbito do Projecto Viseu Polis, no âmbito e apesar de fazer parte da Base de Dados de Património Nacional (Ver AQUI), foi proposta a sua demolição. Veja AQUI a Família Felgar na Quinta da Machada em 1960. 








Casa do Lago na Quinta da Machada de Henrique Felgar (Cava do Viriato / Viseu)




Fazia parte da estrutura inicial da Quinta da Machada e foi adquirida no início do Século XX por Henrique Simões Felgar (1893-1986). Casa oitocentista, representativa do esquema tradicional beirão, com planta rectangular de dois pisos, sendo o térreo para arrumos e recolha de animais e o superior a habitação propriamente dita. Telhado de quatro águas. Escadaria granítica central de acesso ao piso superior, formando alpendre com colunas de fuste liso e arcaria em ferro forjada, típica da arquitectura do ferro. Piso inferior de cantaria e o superior de fasquiado rebocado. Manutenção de algumas janelas de guilhotina. Apesar de fazer parte da Base de Dados do Património Nacional (Ver AQUI), foi proposta a sua demolição no âmbito do Plano de Pormenor da Cava do Viriato, a autoria do Arquitecto Gonçalo Byrne, no âmbito do Projecto Viseu Polis.








Quinta da Machada da Família Felgar (Cava do Viriato / Viseu)




Propriedade adquirida no início do Século XX por Henrique Simões Felgar (1893/1986), conjugando duas propriedades distintas: a Machada de Cima e a Machada de Baixo, representadas cada qual pelos seus solares beirões: a Casa do Lago e a Casa Henrique Felgar, ambas registadas na Base de Dados do Património Nacional (Ver AQUI). Para além destes imóveis, a Quinta da Machada possui ainda um conjunto patrimonial construído pelo seu proprietário, onde residiram durante todo o Século XX grande parte dos colaboradores da sua antiga Fábrica de Tecidos da Ribeira de Viseu, bem como alguns amigos da família. O prédio de rendimento situado junto à Estrada Velha de Abraveses, junta-se aos currais e a mais algumas habitações dispersas pelo espaço da quinta. Toda a propriedade é acompanhada a Nascente pela Cava do Viriato, classificada como Monumento Nacional.





quarta-feira

Vítor Escudero Distinguido com o Orbe Hispânico




O Chanceler da ALA, Dr. Vítor Escudero, foi distinguido com o galardão “Orbe Hispânico” que reconhece uma vida dedicada ao conhecimento e à cultura e e que é instituído pela Asociación Ibero-Americana de Heráldica y Genealogía Madrid) e pela Consulta Heráldica Ibero-Americana (Sevilha).

Esta honrosa e rara distinção, que vem reforçar o reconhecimento da qualidade científica e do rigor académico do investigador Português, é atribuída pela primeira vez nos últimos 20 anos, facto que reforça o prestígio associado a um prémio tão difícil de alcançar.

Vítor Manuel Escudero de Campos, nascido em Lisboa em 1958, é Membro da Academia Nacional de Belas Artes, da Academia de Letras e Artes (Portugal), da Academia Internacional de Heráldica, da Academia Melitense, da Academia Belgo – Espanhola da História (Espanha), Membro do Núcleo Lusófono da História, da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, e Conselheiro da Administração e Director de Marketing do Grupo Sousa Pedro.

No ano de 2005 o investigador Português já havia sido agraciado por Sua Majestade o Rei de Espanha que lhe concedeu a "Cruz de Oficial de la Orden de Mérito Civil", tendo ainda os seus méritos e trabalhos reconhecidos em 2007, principalmente na defesa, divulgação e engrandecimento das relações culturais ibéricas, através da atribuição do Prémio Nacional de Estudos Hispânicos

sábado

A Pastelaria Bijou e a Identidade Municipal de Cascais



Ao longo dos últimos anos foram paulatinamente desaparecendo as referências que durante muitas décadas deram forma à identidade comercial de Cascais... da Casa Tomaz até ao Faraó, quem não se lembra do Café Tavares, da Casa do Mário, da Tabacaria Triunfo, da União Eléctrica Cascaense, do Átomo, da Galera, da Glória, do Cesteiro, do António de Alvide ou da Casa Torrado?


por João Aníbal Henriques


Mercê da evolução dos tempos, da morte dos comerciantes que as conceberam e das crises sucessivas que têm afectado o comércio tradicional, Cascais tem vindo a perder os pilares comunitários que ao longo de muitas gerações sustentaram uma forma de ser e de estar que consolidou a vocação cosmopolita da vila e, acima de tudo, tornou possível o sucesso extraordinário alcançado pela Região de Turismo do Estoril.

Agora as coisas funcionam a um ritmo diferente e os interesses de Cascais têm obrigatoriamente de se adaptar aos tempos em que outros interesses se lhes sobrepõem...

Exemplo disto é o que se prepara para fazer à Pastelaria Bijou, situada no Largo Camões, e que é hoje uma das últimas referências históricas do comércio de Cascais. Reconhecida pela sua longa história mas, sobretudo, pela extraordinária qualidade dos seus produtos e pela simpatia e profissionalismo dos que nela trabalham, a Pastelaria Bijou vai assistir a uma redução administrativa dramática da sua esplanada que, para além de comprometer a sua viabilidade comercial, vai significar necessariamente mais uma machadada na oferta do comércio Cascalense, que cada dia que passa se vai transformando cada vez mais num imenso Martim Moniz.

Sendo incompreensível a cegueira administrativa das entidades oficiais e notória a sua incapacidade para conhecer e reconhecer o que ainda resta da antiga e saudosa Identidade Cascalense, fica a certeza de que a concretizar-se, o desaparecimento da Bijou será mais um passo no sentido da anomia crescente que o poder partidário tem vindo a impor a Cascais.


Pedro Canelas, o proprietário da Pastelaria Bijou, fundador da Fundação Cascais e Cascalense assumido na defesa intransigente dos interesses de Cascais, integrou listas candidatas à autarquia de Cascais num partido diferente daquele que hoje controla a Nossa Terra.

Que tristeza o que está a acontecer em Cascais...

segunda-feira

A Saga da Linha da CP em Cascais




Em 1999, no âmbito da preparação das propostas da Fundação Cascais no processo de revisão do Plano Director Municipal, estivemos com Filipe Soares Franco e Pedro Cardoso, numa reunião com responsáveis pela CP para conhecermos a real situação em que se encontrava a linha de comboios de Cascais.

Nessa altura (já lá vão 16 anos) conhecemos a realidade dramática com a qual nos debatíamos: Uma linha tecnicamente em fim de vida, com problemas variados e muito graves e, sobretudo, com a necessidade de uma intervenção estrutural urgente que permitisse a alteração da bitola da linha para que nela pudessem circular comboios mais modernos.

A substituição do material circulante era já nessa altura impossível por não existirem comboios novos à venda no mercado e por estar a acabar o stock de peças. E a manutenção do que existia, depois de muitas décadas de trabalho, começava a ser tarefa cada vez mais complicada, por serem muitos e graves os problemas que iam surgindo quotidianamente.

Alertadas as entidades oficiais, desde o governo de então até à autarquia, passando pelos partidos políticos da oposição e pelos muitos autarcas que nos diversos órgãos municipais representavam e diziam defender os interesses dos Cascalenses, ninguém se importou realmente com o que estávamos a dizer.

A esperança de vida da linha era, nessa altura, superior a um mandato eleitoral e, por isso, seria problema que teria de se resolvido por quem viesse governar Cascais mais para a frente…

Esta semana, quase duas décadas depois desse nosso alerta, a CP veio anunciar uma redução dramática de 51 comboios diários na linha de Cascais. Com reduções de horários, que ficam a dever-se à falta de material e não à falta de utentes, esta redução configura um importante revés para a vida dos milhares de passageiros que diariamente utilizam a Linha de Cascais, e também para as acessibilidades turísticas à Costa do Estoril.

Há 16 anos atrás, quando tornámos público este problema e o incluímos no conjunto de propostas que entendíamos que deveriam constar na revisão do PDM, ninguém quis saber e os actuais autarcas de Cascais, que nessa altura já eram autarcas, assobiaram para o lado e fingiram que não era nada com eles.


Agora, perante as evidências, todos gritam de forma unânime! Agora, tentando rentabilizar a seu favor o desencanto e o descontentamento dos utentes, já todos se preocupam com o que está a acontecer. Porque é este o Cascais que temos. 

sexta-feira

Je Suis Hypocrite




por João Aníbal Henriques

Sendo inquestionável que a liberdade é um valor civilizacional e que qualquer ataque que contra ela seja perpetrado põe em causa o humanismo em que ainda vivemos, o vil ataque contra o semanário francês “Charlie Hebdo” desencadeou um conjunto absolutamente inusitado de reacções dando forma a um exercício de hipocrisia transversal que é inaceitável num mundo verdadeiramente democrático como aquele que defendemos.

Na manifestação solidária de Paris, como também noutras que se espalharam pelo mundo fora, líderes de vários países viraram costas às discordâncias e gritaram em uníssono que todos eram Charlie. De todos os continentes, com crenças diversificadas e religiões por vezes antagónicas, houve unanimidade na condenação ao terrorismo e ao que aconteceu na redacção do jornal francês.

Mas esqueceram-se hipocritamente de várias coisas essenciais. Esqueceram-se que a liberdade enquanto valor absoluto não pode sobrepor-se a outros valores que, como ela, são essenciais na corporização do mundo que queremos. Liberdade sem responsabilidade e sem respeito transforma-se desde logo numa arma terrível que uns tantos, à sua sombra, não deixarão de utilizar contra aqueles que pensam de maneira diferente. Liberdade sem conhecer, perceber e assumir as diferenças entre os homens, entre as suas crenças, entre os seus usos e costumes e entre o conjunto de valores que enformam a sua identidade, é um exercício totalitário que assenta no controle da vontade alheira. Liberdade sem transparência e honestidade, é um mero lençol que vai cobrindo os males que se fazem e impedindo a comunidade de os conhecer.

E no Sábado, na enorme manifestação e que encheu televisões e jornais no mundo inteiro, os líderes vieram de todo o lado e deram os braços para se solidarizarem com as vítimas do semanário francês. Mas esqueceram-se que, virando as costas aos pilares primordiais que sustentam a própria liberdade, estão com este seu acto hipócrita a distorcer a realidade e a impedir o mundo de progredir livremente.

Nestes últimos tempos têm sido infelizmente muitos e inaceitáveis os actos de violência contra a humanidade que têm vindo a acontecer. Por todo o Médio Oriente, na Palestina, em Israel, na Turquia, na Ucrânia, na Síria, no Paquistão, no Egipto e em muitos outros locais, houve terroristas que mataram gente a coberto da pretensa defesa da liberdade ou de um culto qualquer.

E que eco tiveram ou têm todas estas desgraças que estão acontecer? E que impacto vão ter na definição das políticas por esse mundo fora e de que forma vão ajudar a transformar a humanidade tal como a conhecemos? Nenhum. Praticamente!

E não tiveram porque em Paris se reuniram os líderes que confundiram religião com terrorismo. Porque em Paris todos deram os braços esquecendo e fazendo esquecer o que nos seus países continua a acontecer. Porque em  Paris todos se abstiveram (ou foram incapazes) de falar sobre o respeito, a responsabilidade e sobre o conjunto de princípios basilares do humanismo que eles próprios são incapazes de ter. Hipocrisia simplesmente…

Valeu-nos uma vez mais o Papa Francisco, líder dos Cristãos Católicos e que cada dia que passa se vai transformando progressivamente no fulcro que o mundo precisa de ter. Sem encenações, sem moralismos fajutas, sem medo de ferir susceptibilidades daqueles que dão os braços por valores que nem eles próprios têm coragem de verdadeiramente defender, foi livre ao explicar o que se passou no semanário “Charlie Hebdo”.

Não é de religião nem de liberdade de imprensa que se trata. Não se trata de Cristãos, Muçulmanos ou Judeus. Trata-se de bandidos que em Paris, como no Médio Oriente e nos espaços que atrás referimos, cometem crimes contra toda a humanidade de uma só vez.

Para que o mundo possa ser verdadeiramente livre, e todos possam viver acreditando naquilo que quiserem, é preciso acabar com hipocrisias como esta.

Cinismo Verde em Portugal




por João Aníbal Henriques

O ano de 2015 inicia-se em Portugal com uma tresloucada apetência pelas preocupações ambientais… num acto de desvario que resulta do cruzamento sempre complexo entre as necessidades eleitorais e as que resultam da crónica falta de dinheiro, o estado e as autarquias de diversas sensibilidades políticas e partidárias convergem numa pseudo-defesa intransigente dos interesses ambientais de Portugal, utilizando essa máxima descabida para esconder as reais motivações que estão por detrás da decisões que vão tomando para defender os seus interesses particulares.

A primeira destas medidas foi a da chamada “política dos sacos”. Concretizada pela coligação governativa formada pelo PSD e pelo CDS, pretende cobrar-se um imposto que adjectivam como “verde” sobre cada saco de plástico utilizado em Portugal. Dizem eles (e têm razão) que o plástico utilizado nos ditos sacos é imensamente poluente e que, com este imposto, Portugal conseguirá reduzir drasticamente o impacto negativo que tem nesta área.

Mas dizem também, sem nenhuma vergonha, que a política dos sacos resulta em primeira instância da necessidade de colmatar o défice orçamental imposto pelo chumbo das propostas orçamentais pelo Tribunal Constitucional. Em suma, se não houvesse este conjunto de constrangimentos orçamentais, o governo pouco se importaria com o impacto dos sacos no ambiente e jamais lhe passaria pela cabeça a criação deste imposto cinicamente “verde”!

Em linha com este exercício hipócrita, e novamente ao sabor do eleitoralismo que dará forma a 2015, a câmara socialista de Lisboa veio mostrar-se preocupada com o ambiente no centro da cidade (no resto da cidade não importa nada a poluição…) e impôs restrições à circulação automóvel em algumas zonas da cidade.

E tem razão para se mostrar preocupada. A poluição provocada pelo trânsito automóvel é enorme e precisamos urgentemente de criar medidas que libertem as nossas cidades deste flagelo.

Mas, no caso específico de Lisboa, a hipocrisia dá forma a mais esta medida hipocritamente “verde”. Ao estabelecer uma idades para definir os carros que podem, ou não, circular na cidade, a edilidade assumiu que os critérios para essa circulação não são o grau de poluição provocado pelos veículos, mas sim uma cínica balança entre os votos dos quais necessitam os partidos que estão no poder, e o politicamente correcto que desde sempre se associa ao ambiente.

Senão vejamos: um Opel Corsa B, adquirido novo em 1997, com uma cilindrada de 1200 cm3, emite 156 g/km de CO2 e está proibido de circular em grande parte da cidade de Lisboa. Mas, por exemplo, um BMW 550D, adquirido novo em 2014 e com um índice de emissões na ordem dos 166 g/km de CO2, mais elevado do que a do velhinho Opel Corsa, pode circular livremente! 

segunda-feira

"Colonização Moderna, Descolonização e Dependência" de António de Sousa Lara




Acaba de ser lançado no ISCSP onde o autor é Professor Catedrático e Presidente do Conselho Científico o livro “Colonização Moderna, Descolonização e Dependência” da autoria de António de Sousa Lara. Trata da Teoria da Colonização no âmbito das Relações Internacionais de cujo departamento o autor é também o Coordenador, bem como das colonizações modernas comparadas terminando com uma parte relativa à nova temática do imperialismo e dependência no período pós-descolonização. Depois deste lançamento, o autor prepara o lançamento de outro livro, bem como o quarto volume dos estudos colectivos que coordena e no qual participa como co-autor relativos à Subversão, caos e guerra.


domingo

O Herdeiro de Antioquia de Paulo Costa Gonçalves




Cruzar a História com as histórias, recriando um enredo complexo e interessante, é um desafio nada fácil de concretizar mas que dá forma ao livro “O Herdeiro de Antioquia”, da autoria de Paulo Costa Gonçalves, lançado recentemente pela Chiado Editora.

Conjugando uma trama que perpassa quase mil anos de História, a partir da invasão da Cidade de Antioquia no ano de 1098 até à Lisboa cosmopolita de 2013, Paulo Costa Gonçalves atravessa de forma arrepiante as paixões e os sentimentos de uma família marcada por uma lendária maldição. 

Num ritmo frenético que prende quem a lê, a história enreda-se em pistas e contra-pistas, dando forma a laivos de inesperada surpresa que surgem a cada momento da acção, conjugando-se num clímax imprevisível que garante emoções fortes até à última página. Os protagonistas, centrados num humanismo que explica a força e a determinação com que lidam com os muitos percalços que os envolvem, oferecem-nos uma perspectiva diferente de uma Lisboa moderna e em que muito se passa para além daquilo que nos é dado ver. 

 Licenciado em Sociologia e Planeamento pelo ISCTE-IUL, Paulo Costa Gonçalves considera-se, para já, uma espécie de escritor que, na sua singularidade, tenta ser um contador de histórias vertiginosas e sagazes e que tenham a capacidade de surpreender os leitores. 


segunda-feira

O Milagre Alquímico de Estremoz




Existem cidades que são mais do que uma mera cidade. Estremoz, assente na brancura imaculada do seu mármore de qualidade conhecida e reconhecida internacionalmente, é um desses espaços especiais. Conjuga uma história milenar com um vastíssimo rol de histórias e lendas que, oferecendo-lhe a grandiosidade das grandes capitais, a envolvem num laivo de glamour que envolve quem tem a sorte de nela se perder.

por João Aníbal Henriques

Estremoz é uma cidade especial. Dividida em duas partes que se conjugam operando como dois pólos de atracção junto daqueles que a visitam, a cidade comporta um intrincado e emaranhado conjunto de ruelas antigas que dão forma ao seu espaço medieval, compartimentado dentro das muralhas do seu ancestral castelo, e o amplo espaço moderno, que se espraia ao longo da planície, com as suas praças bem delineadas e os monumentos que valorizam cada esquina.




Quem entra em Estremoz pela primeira vez, fica imediatamente marcado pelo impacto que resulta da sua torre medieval. Do alto da colina onde assenta o núcleo mais antigo do burgo, a torre é possivelmente o mais antigo monumento da cidade, uma vez que o palácio real, bem como todo o quarteirão envolvente, foi completamente destruído por uma misteriosa explosão acontecida durante uma noite de Inverno no Século XVII.  À sua volta, com aquele tom intimista que a cidade ainda tem, tudo o resto são reconstruções mais recentes, sendo que a grande maioria foi construída durante o reinado de Dom João V e com o apoio da Casa Real.

Apesar de aparentemente não fazer qualquer sentido, pois sendo cidade pequena quando comparada com as capitais de Évora, Portalegre e Beja que a envolvem, a monumentalidade e a grandeza de Estremoz prende-se com o carácter simbólico que subjaz da sua história muito especial.

O primeiro personagem grande da História de Estremoz, depois de uma longa ocupação humana que se pressupõe ter começado ainda na Pré-História mas que teve momentos de grande fulgor durante o período Romano e, mais tarde, sob domínio Muçulmano, é Geraldo o Sem Pavor, herói mítico do Alentejo que, sob ordens de Dom Afonso Henriques, terá reconquistado para a Cristandade grande parte das cidades do Sul de Portugal. Sabe-se que Geraldo conquistou Estremoz em 1185 e que, mercê do período conturbado que então se vivia, ela foi perdida e reconquistada muitas vezes até ter entrado em definitivo na posse dos Reis de Portugal. Em 1258, pela mão de Dom Afonso III, recebeu o seu primeiro foral, facto que sustenta e comprova a importância que tinha no contexto da consolidação política nacional.

De entre outros, foi Dom Dinis um dos principais impulsionadores dessa importância relativamente à cidade. Foi ele quem, possivelmente por gosto pessoal relativamente ao espaço e à paisagem, mandou edificar o Paço Real e a torre de menagem atrás mencionada, que passaram a funcionar como baluarte da defensão do reino nas paragens longínquas do Alentejo.




O seu topónimo – Estremoz – é, aliás, um repositório importante dessa situação extrema em que se encontra a cidade, localizada numa zona de fronteira e sempre sujeita às vicissitudes e às pressões que dela derivavam.

A Rainha Santa Isabel, ligada de forma indelével e permanente aos destinos de Estremoz, onde aliás morreu em 1336, vê reforçados os seus laços com a urbe como consequência desse facto. A sua santidade, mais do que ao milagre das rosas, que lhe dá fama, fica a dever-se ao trabalho que efectivamente fez pela paz no reino de Portugal e que, por vicissitudes diversas, a traz amiúde até estas paragens.

Filha do Rei de Aragão e de uma princesa Italiana, Isabel casou com Dom Dinis e sofreu em vida as amarguras de um casamento do qual parece que resultou pouca afeição. O rei, conhecido admirador do belo sexo, dedicava-se pouco à sua santa esposa e procurava amiúde o folguedo junto das damas da região. Conhecida pela sua bonomia, a rainha terá sido conivente com tal situação, recebendo no paço, onde lhes facultava condições de vida e uma educação semelhante à que dava aos seus filhos naturais, os vários bastardos reais.




O futuro Dom Afonso IV, seu filho primogénito e legítimo herdeiro do trono, foi ele próprio alvo dessa situação, dado que o seu pai, tendo preferência por um dos seus filhos bastardos, teimou em deixar-lhe por herança o reino de Portugal. O príncipe, defendendo os seus direitos, terá dado início à primeira guerra civil da nossa história, que teria sido muito mais sangrenta se não fosse a intervenção permanente da sua mãe a Rainha Santa Isabel.

Em 1336, a antiga rainha que havia professado em Santa Clara-a-Velha, em Coimbra, onde desejava passar os seus últimos dias ajudando os pobres, vê-se obrigada a nova e derradeira viagem a Estremoz para evitar uma nova guerra do seu filho agora já rei com o seu cunhado Rei de Castela. Deixando Coimbra carregada de peste, a rainha sucumbe em Estremoz, não sem antes evitar novo derramamento de sangue e de ter deixado expressa a sua vontade de ser sepultada em Coimbra conforme havia planeado fazer.

O cortejo fúnebre, que se alongou durante vários dias sob o calor tórrido do Julho no Alentejo, transportou os restos mortais da rainha de Estremoz até Coimbra. O caixão, levado em ombros pelas principais personagens do reino, acabou por rebentar durante o percurso, deixando sair um líquido viscoso que se ia espalhando ao longo do trajecto. Mas, para surpresa e gáudio dos que tiveram a sorte de participar neste triste evento, o líquido que saia deixava no ar um forte aroma a flores que reforçou a aura de santidade que já se atribuía à rainha. Não se sabendo com exactidão quanto haverá de lenda e de realidade nesta história, o certo é que, muitos séculos depois, quando o caixão voltou a ser aberto quando se procedeu à transladação do corpo de Santa Clara-a-Velha para Santa Clara-a-Nova, se encontrou incorrupto o corpo da rainha, sendo que ainda hoje, quase setecentos anos depois da sua morte, se expõe a sua mão à devoção dos Portugueses.




Mas para além de Geraldo – o sem pavor, de Dom Dinis – o plantador de naus a haver, e da rainha Santa Isabel, também por Estremoz passaram outras ilustres figuras que ajudam a perceber a real importância desta cidade única de Portugal. Em 1367 morreu em Estremoz o Rei Dom Pedro I, muitos anos depois dos míticos e românticos amores com a sua eterna apaixonada Inês; Em 1385, foi Estremoz das poucas praças que sem vacilar apoiou a Causa Nacional durante a crise que levou ao trono o Mestre de Avis e que deu forma à Ínclita Geração, tendo sido dali que Dom Nuno Álvares Pereira, o Condestável Santo que fez nascer a Casa de Bragança e aquela que virá a ser a última das dinastias no trono de Portugal, saiu para as batalhas dos Atoleiros e de Aljubarrota, dando corpo a uma defesa total e intransigente do interesse Nacional. Da mesma maneira, alguns anos depois, é a Estremoz que o rei Dom Manuel I se dirige para entregar a Vasco da Gama a importante tarefa de descobrir o caminho marítimo para a Índia e de estabelecer o contacto com o Prestes João…

Não se percebendo bem de onde vêm tão ilustres pergaminhos, perdidos no sem-sentido que dá forma à história local, o certo é que Estremoz conjuga em si própria os encantos maiores do Sul de Portugal. Tal como o País vai sobrevivendo quase incólume às muitas desgraças que dão forma à sua história maior, também Estremoz reafirma a sua Portugalidade em torno de feitos e acontecimentos que se conjugam no plano das ideias ara dar forma ao desígnio maior da nação.

Visitar Estremoz, subindo ao amplo terraço que se encontra no topo da Torre de Menagem, é ser capaz de reviver os passos difíceis que por ali deram os nossos ancestrais avós, abarcando com a vista a amplitude infinita da paisagem alentejana. Deslumbrante e avassaladora, a brancura de Estremoz acompanha a beleza extraordinária do seu mármore que, depois de um processo alquímico associado à purificação maior das impurezas que o compõem, se transforma na pedra maior que dá forma ao que de melhor se construiu em Portugal. Está por todo o lado, nas asas, nas ruas e nos lambris dos passeios. Mostra-nos a altivez, o charme e a riqueza deste recanto mágico de Portugal.  









Dia 1 de Dezembro de 2014 e a Dependência de Portugal




O dia 1 de Dezembro marca uma data incontornável para Portugal. Em 1640, depois de avanços e recuos que foram determinantes para a definição do conjunto de práticas que deram forma à recuperação da independência nacional, os conjurados defenestraram (atiraram-no pela janela) Miguel de Vasconcelos e entregaram o trono de Portugal ao Duque de Bragança que foi aclamado como Dom João IV.

Durante muitos anos, uma prática reiterada que procurava reforçar a nossa identidade, o dia 1 de Dezembro foi feriado em Portugal. E foi feriado grande, devidamente celebrado um pouco por todo o País, precisamente porque marcava o mais importante de todos os acontecimentos políticos desde o dia 5 de Outubro de 1143 quando Dom Afonso Henriques fez nascer Portugal…

Mas depois de 1974, com governos atrás de governos e eleições atrás de eleições, os partidos políticos colocaram Portugal na bancarrota e, em situação de profunda dependência estrangeira e de subjugação à vontade de uma Europa onde a Alemanha tem a principal voz, resolveram abolir a comemoração.

E não o fizeram de forma linear… escondendo-se por detrás das desculpas que julgavam ser suficientes para lhes preservar a face, optaram por uma explicação fajuta, dizendo que a abolição do feriado seria essencial para a recuperação económica de Portugal! Dizem eles que sem este feriado, a produtividade de Portugal aumentará de forma exponencial.

Mas mentem. Mentem porque o peso económico da abolição deste feriado é de tal forma residual que que é possível que não é nenhum. E mentiram também porque a única consequência directa desta abolição é uma drástica, efectiva e muito substancial diminuição da consciência política nacional, associando a “pouca importância da restauração da independência” ao puro e simples esquecimento das circunstâncias que nessa altura viveu Portugal.

Agora, sem o feriado, a restauração da independência pura e simplesmente desapareceu das escolas, das salas de aulas e da memória nacional. Agora, tal como queriam os estrangeiros que controlam de forma efectiva os destinos e o devir do nosso País, está enfraquecida da Identidade Nacional.

Olhando criticamente à nossa volta, é árida a paisagem e vazios estão os campos onde ecoavam os gritos e as lutas dos nossos avós… E no seu lugar, para que cumpramos o destino que quem nos controla determinou, está o aquiescer perante interesses estrangeiros, num laivo de subserviência de um povo que sabe que já se perdeu a independência de Portugal.


Dia 1 de Dezembro de 2014. Triste. 

Mensagem de SAR o Senhor Dom Duarte no 1º de Dezembro de 2014




Mensagem de Sua Alteza Real o Senhor Dom Duarte, Duque de Bragança, Chefe da Casa Real de Portugal, por ocasião das Comemorações da Restauração da Independência, no dia 1 de Dezembro de 2014

Portugueses:

O 1º de Dezembro é a mais nacional de todas as nossas datas.

Sem ela, todos os outros feriados civis deixam de fazer sentido.
E por isso, começo por saudar a Iniciativa Popular para a reposição do feriado comemorativo do dia 1º de Dezembro!
Nós, monárquicos, nunca a deixaremos de celebrar como aquele dia em que renasceu Portugal!

Hoje, Portugal e os Portugueses vivem dias amargurados.

Vive a nossa Pátria dias difíceis porque não se comporta como País livre e independente, grande pelos seus avós, e grande pelos nossos filhos.
Não podemos hoje, a soldo de interesses económicos duvidosos, vender essa independência que tanto custou a tantas gerações de portugueses.

Vivem os Portugueses dias difíceis porque o desemprego assola as famílias e destrói capacidades e laços de vida, obrigando as mesmas famílias a terem o papel supletivo que o Estado social já não alcança.

Vivem os Portugueses dias difíceis porque são forçados a emigrar, sobretudo os mais jovens e sobretudo os mais qualificados; e por muita experiência que possam trazer de volta, fazem-nos agora falta.

Vivem os Portugueses dias difíceis, porque manifestam pouca confiança naquelas instituições que deveriam garantir a nossa democracia, como sejam a Justiça e a Assembleia da República.

É nestes momentos mais difíceis, que o povo português deve revelar as suas extraordinárias capacidades.

Assistimos a sinais muito recentes de que a Justiça finalmente está a funcionar, com plena independência entre os poderes.

A nossa justiça tem dado extraordinárias provas de independência apesar das péssimas condições com que os juízes contam para realizarem o seu trabalho.
Sem uma justiça rápida e eficiente não pode haver democracia.

Assistimos a que, nas eleições autárquicas, os portugueses manifestaram o desejo de ver independentes nos cargos municipais a serem escolhidos pessoalmente pelos eleitores.

Assistimos a sinais de que os cidadãos se movimentam para procurar alternativas políticas para as eleições legislativas, mais consonantes com tudo aquilo que a sociedade civil sabe fazer, e fazer bem.

Para todo este desejo de renovação que perpassa pelo nosso país, estou convicto que a Instituição Real seria muito importante, ao aproximar a população das suas instituições políticas.

Todas as democracias cujo Chefe de Estado é um Rei ou uma Rainha têm essa ligação muito mais forte do que os Países onde a chefia de Estado é assumida por um político, independentemente das notáveis qualidades pessoais que ele possa ter.

Num momento em que os portugueses sofrem as consequências gravíssimas de muitos anos de políticas economicamente irresponsáveis e moralmente desajustadas, precisamos de uma “revolução cultural”.
A ignorância e o relativismo moral estão na base da nossa crise actual.

Queremos que os produtos nacionais, na indústria, na agricultura e nos serviços, sejam cada vez mais conhecidos.

Queremos que os jovens encontrem alternativas adequadas às suas vocações.

Queremos que as famílias continuem a promover a educação dos filhos, apesar de entraves que o próprio Estado por vezes coloca.
Temos provas dadas na ciência, na tecnologia, na qualidade dos produtos nacionais, na ousadia dos nossos empresários, na dedicação dos nossos trabalhadores, nas competências dos nossos pescadores e agricultores, na eficácia das nossas Forças Armadas, nos feitos conseguidos pelos nossos desportistas.
Acreditamos que saberemos estar presentes num Mundo em evolução.


Aproveito para apelar aos nossos governantes, para que tenhamos uma intervenção em defesa das vítimas do fanatismo no Próximo Oriente.

Algumas organizações têm tido um papel muito importante na denúncia dos crimes cometidos contra as comunidades cristãs que há mais de mil anos vivem nessa região.

A Fundação de Ajuda à Igreja que Sofre é uma das mais eficazes no apoio efectivo às vítimas dessas perseguições.

A minha Família e eu temo-nos esforçado por contribuir para o progresso da nossa Pátria.

Neste ano que termina, visitámos em Família a Nação irmã de Timor-Leste, cujo Parlamento generosamente me concedeu a sua nacionalidade.

Visitámos S.E. o Presidente da República, General Taur Matan Ruak,  e o anterior Presidente da República,  Prémio Nobel Dr. José Ramos Horta e contactámos várias personalidades civis e religiosas.

O nosso filho Afonso foi nomeado pela Associação do Senado dos Liurais, presidido pelo Deputado Dr. Manuel Tilman, com o grau de Liurai Timorense.

Visitámos em caminho, a Tailândia, onde fomos recebidos pela Família Real e pela comunidade de origem portuguesa, descendentes dos militares que foram enviados para ajudar o Reino do Sião.
Visitámos também o Rei e a Família Real do Reino do Cambodja.

Visitei Angola, por ocasião do Congresso das Fundações da CPLP, iniciativa do maior interesse, tendo-me ainda reunido com Bispos da Conferência Episcopal Angolana.

Em Portugal visitámos oficialmente vários Concelhos a convite das suas Câmaras Municipais.
Em alguns casos, o motivo foi a celebração dos 500 anos do foral manuelino, noutros o apoio a boas iniciativas culturais, económicas e cívicas.

Estive presente em Braga, Sintra, Aveiro, Ovar, Porto, Guimarães, Massarelos, Estremoz, Viana do Castelo, Caminha, Aljustrel, Funchal, Torres Vedras, Lamego, Felgueiras, e Vieira do Minho. E daqui saúdo as suas populações, autarcas e outras pessoas que sempre tão generosamente me receberam.

O futuro de Portugal depende de mantermos vivas estas nossas raízes e de alcançarmos uma inteligente renovação das nossas instituições.
Só todos juntos, num esforço bem organizado, o poderemos conseguir.

Tenho afirmado que o pensamento republicano é de curto prazo; interessa-lhe resolver os assuntos a quatro anos, até às próximas eleições; é um pensamento muito provisório.

Hoje estamos aqui neste 1º de Dezembro porque respiramos o ar da História e esse ar mede-se por séculos e gerações e não por ciclos eleitorais.

E por isso, hoje e aqui, solenemente repito - na presença de minha Mulher Isabel, que tanto tem promovido as causas da família e da educação, e de meu Filho Afonso que este ano celebrou a sua maioridade - que a minha Família está preparada para assumir os compromissos que o nobre povo português nos quiser confiar.

Assim sucedeu noutras épocas da nossa gloriosa História como povo.

Assim possa vir a suceder, após estes tempos conturbados em que vivemos.

Viva Portugal!

Leia AQUI o comunicado oficial