terça-feira

Os Bolsos da Dívida Grega




Adiando com a barriga aquele que é o mais grave problema estrutural da União Europeia e garantindo que no permeio todos ficam bem na fotografia e aptos a enfrentar mais uma ronda de eleições internas, o Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira, ou seja, o Banco Central Europeu, o FMI e a própria União Europeia, anunciaram com pompa e circunstância um empréstimo extraordinário de emergência à Grécia de mais de sete mil milhões de Euros.

E depois, como se de nada soubessem, os mesmos FMI e Banco Central Europeu, em momento diferentes para fazer render o espectáculo e os dividendos propagandísticos da sua acção, anunciaram que a Grécia havia liquidado as suas dívidas e os respectivos juros e que, por isso, estavam disponíveis para analisar um novo resgate àquele país helénico.

Esqueceram-se de explicar aos incautos Europeus, que o pagamento das ditas dívidas foi feito com o tal empréstimo de emergência concedido na véspera… ou seja, o dinheiro entrou no bolso esquerdo da Grécia e, horas depois, saiu pelo direito!

Atente-se: ao BCE a Grécia pagou 3,5 mil milhões de euros de empréstimos anteriores, aos quais acresceram mais 700 milhões em juros! E ao FMI, pagou mais 2 mil milhões de euros, aos quais juntou mais uns tantos milhões pagos ao Banco Central da Grécia.

Na prática, o que aconteceu foi que a Grécia recebeu mais um novo empréstimo virtual e fictício das instâncias internacionais, pelo qual pagou muito mais caro do que por qualquer dos anteriores (note-se que até a carne e o papel higiénico passaram a ser taxados com a taxa máxima do IVA) que imediatamente devolveu aos credores. Na perspectiva inversa, os credores entregaram à Grécia 7 mil milhões de euros que voltaram a receber logo de seguida, acrescidos de juros e de novas condições duríssimas a que uma vez mais fica sujeito o povo grego…

Os bolsos da Grécia e dos Gregos, esses continuam vazios. Mas algures depois da leva de eleições que aí vem, há-de chegar a data para um novo pagamento que o País não vai conseguir fazer, porque tem a economia condicionada externamente pelos seus credores e fica total e completamente impossibilitado de crescer. E nessa altura, para terror de todos nós, vamos voltar a ver este mesmo filme.

Que tristeza de Europa esta!


sexta-feira

"Era uma Vez em Angola" de Guilherme Valadão




Era uma Vez em Angola” é o título do primeiro romance de Guilherme Valadão. Publicado recentemente pela Bertrand, esta surpreendente incursão no mundo da ficção transporta-nos ao longo de muitos quilómetros num percurso difícil entre as cidades de Lobito e de Luanda, na Angola dos anos 40.

Com uma linguagem simples e muito acessível, Guilherme Valadão deixa transparecer a profundidade de uma história em que se sentem os laivos de memória de uma vida – da sua vida – num exercício complexo que conjuga a serenidade de quem muito fez e de quem muito faz, com a ingenuidade própria do rapazinho que dá a cara por este enredo original.

Nas páginas de “Era uma Vez em Angola”, que de uma forma quase magnética nos prendem ao destino de um João Botelho ainda muito novo mas já reflectindo os arquétipos mais profundos de um saber ancestral que se vive sem ser necessário aprender, encontramos a emoção própria do desnorte de uma criança que deambula por uma África que nos enche a boca com o pó cru que se levanta com o vento, com as paisagens inesquecíveis que só quem lá esteve sabe descrever e com os sons, sabores e aromas antiquíssimos que acompanham o devir da humanidade que desde sempre ali foi capaz de viver. Quase é possível ouvir, ao virar de cada página, os batuques das comunidades por onde João Botelho passou ou sentir no ar o estrugido do peixe cozinhado tradicionalmente… E a acompanhar a viagem, os laivos omnipresentes dos valores da família, da amizade, do amor e da honestidade profunda, suporte da narrativa onde vamos descobrindo o seu autor e redescobrindo novos ensejos que ajudam a perceber o que é viver.

As memórias que Guilherme Valadão mascara por detrás de uma história comovente, descobrem-se progressivamente à medida que a história vai trazendo à superfície os sinais incontornáveis de um conjunto de sonhos pessoais que ele não tem a capacidade de esconder. Está lá e sente-se a riquíssima experiência de vida do autor, as sólidas e estruturantes vivências da sua família e um laivo de esperança que, mesmo no desânimo, ele deixa transparecer.

Também lá está, naquilo que o autor dá a entender que é uma ponte entre os tempos e as eras, uma mensagem de futuro, transversal à herança que Valadão quer deixar aos seus netos e que neste livro partilha através de uma interessante estratégia que conjuga o passado e o futuro através de um presente que deve ser permanentemente aproveitado e sofregamente entendido como o mais importante de todos os alicerces.

Em suma, “Era uma vez em Angola” transborda de uma África vivida de forma inebriante e seduz pela ligação permanente ao autor e às memórias únicas que se vão descobrindo ao longo do enredo. É uma leitura que envolve quem nunca teve a sorte de ter vivido África e, certamente, que não deixará indiferente quem lá esteve.

O livro pode ser adquirido na Bertrand Editora AQUI ou na Wook AQUI

Figos de Cascais ou Figos de Rabadilha




Reza a lenda que durante o período de ocupação filipina, o edil de Cascais apoiava a causa dos usurpadores espanhóis e que traía Portugal…

Ora vivia nesta altura na velha vila piscatória um judeu velhaco que ocupava os seus dias à procura de estratagemas para afrontar o poder e para se impor aos grandes senhores que oprimiam o seu povo. Atencioso, rico e influente, o dito Judeu começou a enviar diariamente ao edil de Cascais uma bandeja de ouro com os melhores figos da sua quinta.

Do alto da sua sobranceria, o senhor de Cascais tomou o acto como um gesto de simpatia muito usual naquela época para ganhar os favores daqueles que governavam o concelho. E deleitava-se com os figos oferecidos pelo judeu, não se coibindo de lhes gabar o extraordinário e único odor que tanto apreciava e que o deixava tão satisfeito.

Mas um dia, quando o judeu foi preso pela inquisição, foi instado a contar publicamente os seus segredos. E eis que, para gáudio dos Cascalenses que defendiam a sua pátria contra os interesses estrangeiros, explicou o estranho e inesperado odor que tanto agradava ao senhor de Cascais…é que, antes de os enviar ao edil, o judeu passava-os pelo rabo e era ali que eles ganhavam o aroma que conquistara o palato do senhor cascalense!

Assim nasceu, com força de uma lição que perdura ao longo dos séculos, a lenda dos “Figos de Cascais”, popularmente conhecida como a lenda dos “Figos de Rabadilha”.

quinta-feira

Uma Tragédia Grega numa Europa Trágica?




Possivelmente decidir-se-á hoje o impasse relacionado com a resolução do problema estrutural da Grécia e da sua dívida europeia. O desenlace, depois do imbróglio demasiado longo que se foi arrastando ao longo dos últimos cinco anos, terá pouco de apoteótico… aconteça o que acontecer, mesmo que a Grécia decida aceitar as novas condições impostas pela Europa para preservar a sua continuidade na zona Euro ou que a Europa se mantenha firma nas suas exigências e expulse a Grécia do seu seio, o mal está feito e a única certeza que existe é que mais do que uma tragédia grega, o resultado vai ser uma terrível tragédia Europeia.

Em primeiro lugar porque ficou bem patente que não existe nenhuma unidade europeia. A Europa não foi, não é e nunca será uma nação, nem tão pouco terá sequer o sustento mínimo para dar corpo a uma federação homogénea de estados independentes. Porque as diferenças são mais do que muitas (em vários registos e a vários níveis) e porque os fortes não aceitam a igualdade dos mais fracos, nem tão poucos estes últimos aceitam a supremacia dos primeiros.

Depois porque, conforme anunciou hoje o primeiro-ministro grego, aconteça o que acontecer a Grécia e a Rússia vão encontrar-se numa cimeira bilateral formal na próxima Sexta-feira, demonstrando ao mundo e aos restantes parceiros europeus, que existem caminhos e soluções alternativas que poderão ser mais facilmente aceites pelos próprios Gregos.

Por fim, porque se não for a Rússia será a China ou qualquer potência emergente, disponível para apoiar e, dessa maneira, condicionar, os equilíbrios estruturais sempre periclitantes no velho continente.

Em suma, a utopia fantástica de uma Europa una e coesa em clima de fraterna solidariedade e em sã convivência, unida numa estrutura federal em que todos os estados detêm direitos iguais, caiu definitivamente por terra. Tal como tinha acontecido em 1918 e em 1945, existem fortes e fracos, dependentes e independentes, generais e soldados-rasos nesta Europa sem rumo.

Hoje, numa Europa dividida pela realidade que se impôs, com um parlamento Europeu onde cerca de 11% dos deputados são contrários à existência da união e advogam a sua dissolução imediata, a tragédia grega é muito mais do que a decisão do que vai acontecer com o País onde a democracia nasceu.

Hoje, a Europa trágica da demagogia partidarizante de índole partidocrático e de sustento federalista morreu. E isso, sendo uma tragédia, está longe de ser o acontecimento trágico, final e determinante que nos querem vender os europeístas convictos que nos conduziram para este pântano. 

Henrique Simões Felgar e as Memórias Perenes da Cidade de Viseu





Se fosse vivo, cumpriria na próxima semana o seu 122º aniversário. Henrique Simões Felgar, filho de Joaquim Simões Felgar e de Maria da Glória Tavares, nasceu no lugar de Paço, na antiga Freguesia de Santo André no Concelho de Vila Nova de Poiares, no dia 16 de Junho de 1893. De origem humilde, começou cedo a sua vida de trabalho, recolhendo lixo e ferro-velho que depois vendia às principais fábrica do local. Habituado a calcorrear a pé as serranias envolventes, sempre em busca do material para venda, Henrique Felgar conhecia cada canto e recanto das antigas beiras, onde era também reconhecido e conhecido por quase toda a gente. Audaz e empreendedor, não levou muito tempo até conseguir inverter a linha do seu destino, adquirindo novos recursos comerciais e desenvolvendo novas estratégias para garantir a prosperidade pela qual ansiava. Casado desde muito novo com Maria Ermelinda Queirós (1901-1984), também ela natural de Poiares, desenvolveu grande parte da sua vida adulta na Cidade de Viseu, onde se instalou com a sua família e onde montou a sua fábrica de lanifícios. Vivendo primeiramente numa casa arrendada na zona da Ribeira, junto ao espaço onde funcionava a fábrica, adquiriu posteriormente um conjunto de duas magníficas propriedades situadas junto à Cava do Viriato, na Estrada Velha de Abraveses, onde instalou uma espécie de grande aldeia comunitária na qual viviam várias dezenas de pessoas. A Quinta da Machada, composta por uma parcela anteriormente designada como “Machada de Cima”, na qual presidia uma casa beirão antiquíssima com a designação “Casa do Lago” e por uma outra, localizada a Poente e virada para o Terreiro de Viriato e para o chão da feira, designada como “Machada de Baixo”, era um espaço de vivências muito profundas no qual nasceram e cresceram muitos daqueles que deram forma à nova geração de viseenses. Optando por habitar a enorme casa situada no extremo da quinta, que dividiu em duas unidades independentes de forma reforçar o seu rendimento, Henrique Felgar construiu ainda vários outros edifícios que foi alugando a funcionários e amigos, que partilhavam o espaço da Quinta da Machada e também uma “belga” de terra onde cada família cultivava a sua pequena horta doméstica. Na casa principal da quinta, onde residia a Família Felgar, teria estado alojado o Francês Marechal Massena em vésperas da sua derrota no Bussaco no início do Século XIX. Reza a lenda, que Henrique Felgar conhecia e que contava amiúde nas suas tertúlias de fim-de-tarde na sua mítica adega “Cova Funda”, que o tesouro formado pelos saques perpetrados pelos franceses durante o tempo em que foram evoluindo pelo território Português e que nunca chegou a aparecer depois da pesada derrota que o exército napoleónico conheceu logo depois de sair da Quinta da Machada, estará escondido algures num dos muitos espaços subterrâneos que existem sob a velha casa. Num desses espaço, aliás, instalou Henrique Felgar uma fábrica e armazém de caixões e demais artigos funerários que, alimentando as muitas lendas que envolviam a já de si extravagante casa, davam um tom ainda mais lúgubre e aterrorizante aos dias em que os seus netos e bisnetos por lá passavam. Nesta casa teve e/ou criou Henrique Felgar 17 filhos: Maria da Glória, Emanuel, Maria Ermelinda, Maria Emília, Maria Isabel, Maria de Lurdes, Maria da Conceição, Henrique, António, João, Maria Edite, José, Maria Teresa, Joaquim, Moisés e Elias. Vinte e nove anos depois da sua morte, no quarto do meio da velhinha casa da Quinta da Machada, Henrique Felgar deixa atrás de si um rasto profundo de muitas memórias que se perpetuam (e o perpetuam) no tempo. O seu carácter muito próprio, assente numa espontaneidade onde não cabiam o cinismo e o fingimento, angariaram-lhe uma vastíssima plêiade de amigos e também uma prole não despiciente de inimigos dos quais ele falava sempre lançando as suas melhores gargalhadas. Foi um homem único, que viveu intensamente uma vida desconcertante e irrepetível, num contexto histórico-sociológico que acompanha a afirmação da excelência da própria cidade de Viseu. Devem-lhe muito os filhos, os netos e os bisnetos, que carregam consigo o peso da responsabilidade de terem herdado o apelido dele. Mas deve-lhe ainda mais a cidade de Viseu, que nele teve um dos mais fiéis repositórios das memórias, dos valores e dos princípios que hoje se reconhecem como parte da identidade colectiva da capital da Beira Alta.






quarta-feira

A China – Quando a Natureza e a Verdade se Renegam a Cada Esquina…





por João Aníbal Henriques

A China é o maior e o mais populoso País do Mundo. Com os seus perto de um bilião e meio de habitantes, ocupando uma imensidão de mais de nove milhões de quilómetros quadrados, a República Popular da China conjuga uma história milenar, patente em cada canto e recanto e sensível em milhares de pequenos laivos da vivência cultural do seu povo, com uma espécie de história nova, de pouco de setenta anos, que acompanha algo a que por lá se chama “revolução cultural” e que ditou os destinos do controle do Partido Comunista Chinês desde o fim da guerra civil que aconteceu em meados do Século XX.

Quando se chega à China tudo é inesperado e a sensação que perdura, mais do que os sons marcantes e os cheiros que preenchem todos os detalhes da sua paisagem marcante, é uma sensação de choque cultural que se traduz num impacto muito grande.

Com um regime político muito marcado pelo totalitarismo político do Partido Comunista, bem visível nos símbolos, nas cores e na profusa presença de militares nas ruas das cidades, a China empreendeu um esforço hérculeo ao longo das últimas décadas para literalmente apagar das memórias dos seus habitantes os ensinamentos antigos que haviam dado corpo à identidade  nacional. Quem hoje visita a China, e salvo as raríssimas excepções de monumentos ancestrais que não foi possível demolir pelo impacto que tiveram e continuam a ter um pouco por todo o Mundo, como a Cidade Proibida, a Grande Muralha da China, etc. vê um país marcadamente ocidentalizado, com avenidas largas repletos de milhões de carros em engarrafamentos constantes, enormes arranha-céus ao jeito do que se faz na Alemanha e na América e centenas de gigantescos centros comerciais, copiados dos que existem no Ocidente mas agigantados ao gosto chinês, nos quais se encontram as marcas e as lojas mais importantes da Europa actual.




É por isso um banho de água fria, para quem lá chega à espera de encontrar os vestígios da cultura milenar chinesa, da sua forma de vestir e de estar, bem como os retorcidos telhados dos pagodes ancestrais. Tudo isso desapareceu mercê da revolução dita cultural que o regime empreendeu, e foi paulatinamente substituído por uma espécie de grande cenário Ocidental onde se tenta copiar de forma espampanante o que se faz por cá.

Mas tenta-se somente. Porque por detrás das fachadas de vidro, dos carros alemães e das lojas mais requintadas de Paris, sobressaem ainda os gestos antigos que os Chineses teimam em perder… os arrotos sonoros em plena rua, a preparação de comida à porta de casa, as cuspidelas para o chão e o lixo que esvoaça por todo o lado, contrastam de sobremaneira com aquilo que imaginamos para um lugar assim. E depois a desordem ordenada e controlada que existe por todo o lado. Num País onde não é possível navegar livremente na internet, as ruas estão cheias de prostitutas e chulos que perseguem os poucos turistas ocidentais que por ali andam, oferecendo o seu produto e tentando levar os mais incautos para aventuras estranhas e muitos caras das quais poucos têm a coragem de voltar a falar mais tarde.



E o engano é palavra de ordem que não deixa ninguém indiferente. À sombra da sua incapacidade de falar outra qualquer língua para além do Chinês e da natural dificuldade de comunicação que daí advém, qualquer ocidental que entre num táxi, que tente comprar o que quer que seja e que não esteja habituado aos usos e costumes daquela gente, será enganado com toda a certeza.

Apesar de tudo isso, da falta que fazem as memórias antigas de um País antiquíssimo e que tanta importância teve na nossa forma de estar e de ser, o impacto de uma visita à China traduz-se numa experiência de vida, provavelmente mais impactante do que qualquer outra viagem que alguém possa tentar fazer.

Vale a pena? Vale certamente!

Pequim vs Beijing




Existem elementos incontornáveis numa visita a Pequim. Para além da sua imponência e antiguidade, são marcos fulgurantes na imaginação de qualquer um e definem com rigor aquilo que um turista Ocidental pensa antes de chegar a um destino tão impactante. A Cidade Proibida, a Praça de Tian’anmen, a Grande Muralha ou o Templo do Céus, são parte da paisagem e da aura de mistério que acompanha esta enorme metrópole asiática.

Tendo anteriormente designações diferentes, como Zhongdu, Dadu ou Cambuluc, Pequim (ou Beijing na ortografia local) é a actual capital da China. Com uma imensa população de quase 24 milhões de habitantes, é a segunda cidade chinesa depois de Shanghai e aquela que conjuga maior simbolismo no contexto da ditadura comunista que actualmente se está ali a viver.





Fundada originalmente no Século XIII, quando Genghis Khan unificou um conjunto de pequenos povoados ali existentes, Pequim (ou Capital do Norte) foi crescendo ao sabor das muitas vicissitudes que deram forma à sua História. Ali residiram as principais figuras da História da China e ali se centralizam as estruturas de poder ao longo dos últimos séculos.

A Praça da Paz Celestial ou Praça de Tian’amnen




A Praça da Paz Celestial, como optou por chamar-lhe o regime comunista que controla o País, também conhecida por Praça de Tian’amnen, é a maior do Mundo e foi inaugurada em 1651 às portas da Cidade Proibida. Por ali se representaram as encenações das grandes paradas e dos espectáculos com maior impacto políticos da Ásia e nela se desencadearam acontecimentos políticos que mudaram para sempre a percepção do Mundo em relação a este país tão marcante. Foi ali, em 1989, que centenas de estudantes foram massacrados pelo regime depois de tentaram mostrar a sua insatisfação pelo que estava a acontecer.

Hoje, rodeada de enormes medidas de segurança muito visíveis (e também de outras que ninguém vê mas que se sentem), alberga o monumento de memória ao antigo líder comunista Mao Tsé-Tung (1893-1976) e a tumba onde se encontra exposto o seu corpo embalsamado e está permanentemente cheia com centenas de milhares de visitantes maioritariamente chineses que, com um permanente sorriso nos lábios, por ali deambulam horas e horas a fio para poderem ver de perto o corpo daquele a quem, por medo ou respeito, continuam a chamar o “Grande Timoneiro”. E quase faz impressão olhar para aquele mar de gente, ali às portas da antiquíssima Cidade Proibida, gesticulando de satisfação em filas intermináveis que rodeiam o monumento várias vezes e onde passam horas após horas só para comprar o bilhete.



Mao Tsé-Tung e a Revolução Cultural Chinesa




E se a cidade tem uma história ancestral, marcante principalmente no Século XV quando a Cidade Proibida foi construída, o certo é que a sua importância foi reforçada no dia 1 de Outubro de 1949 quando Mao Tsé-Tung (1893-1976) ali proclama o nascimento da actual República Popular da China. Tendo sido conquistada pelo poder Nipónico em 1937, que manteve o controle sobre a cidade até à sua derrota na II Guerra Mundial em 1945, Pequim foi libertada pelo exército liderado por Mao e posteriormente reconquistada pelo poder comunista após a Guerra Civil que impôs o actual regime político.

E foi precisamente o auto-designado Grande Líder que, com a ajuda de uma das suas mulheres, empreende entre 1966 e 1969 aquilo a que optou designar por Revolução Cultural que literalmente deu forma à China actual e que tanta influência tem ainda hoje na formulação plástica e social o povo Chinês.

Tendo reformulado praticamente todos os aspectos da via quotidiana no seu País, o regime comunista optou por uma solução final que pusesse cobro a toda e qualquer possibilidade de protesto ou de sublevação. Para além de destruir grande parte do património histórico e cultural do País, que associava à possibilidade de descentrar as atenções do povo das inovações e do progresso que o regime comunista pretendia impor, a revolução cultural foi palco de grandes perseguições a oposicionistas, artistas e a todos os que ousassem pensar de maneira diferente. A autêntica lavagem cerebral levada a cabo por Mao Tsé-Tung, apagando os vestígios da milenar história chinesa e reforçando os laços com o movimento comunista, estendeu-se a escolas, empresas e às suas, que se encheram de simbologia do regime e apagaram por completo tudo aquilo que dissesse respeito a outros tempos.



Ainda hoje, na fachada principal da entrada da Cidade Proibida, se ostenta a fotografia do líder revolucionário, literalmente vigiando o seu povo e reverenciado como se de uma divindade se tratasse… 

A Cidade Proibida




E o maior choque para quem visita a China pela primeira vez será possivelmente a Cidade Proibida. Conjunto monumental de templos e palácios utilizados pelos vários imperadores chineses desde 1420, quando foi construído, a Cidade Proibida é possivelmente o monumento chinês que transversalmente acompanha o imaginário de todos aqueles que já pensaram estar neste lugar tão diferente.

Palco de filmes e de dramas imperiais, vedada ao acesso do cidadão comum, a Cidade Proibida é um autêntico e maravilhoso palco onde se recriavam os espectáculos que sustentavam a magnificência do poder político Chinês.




Actualmente, depois da revolução cultural de Mao Tsé-Tung, franquearam-se os portões antigamente sempre fechados e o povo literalmente tomou conta do espaço. Perdendo grande parte da sua mística e o antigo silêncio que dava corpo à apreciação do lugar e que é contado e recontado por todos os viajantes antigos que tiveram a sorte de lá entrar, a Cidade Proibidade está sempre literalmente a abarrotar de milhares e milhares de visitantes, maioritariamente chineses, que entram aos gritos, preenchem cada recanto e vão (literalmente) arrancando bocados dos adornos existentes no local.

Sem qualquer outra espécie de orientação para além de umas ténues informações muitos genéricas acerca dos nomes ancestrais daquelas vastas praças e terraços, os visitantes seguem ao ritmo da curiosidade, espreitando aqui e além as muitas salas que enchem o lugar e ouvindo aqui e ali algumas palavras ditas por algum guia mais descuidado. Não existe informação escrita, placas indicativas ou sequer livros à venda com notas sobre o lugar (o único sítio onde encontrámos um livro em inglês sobre a história da Cidade Proibida foi na área de embarque do Aeroporto), tudo acontecendo ao sabor do nada que tudo enche! Perde-se a simbologia, o significado profundo e a magnificência milenar de uma história que importava recordar.




















Shanghai ou Xangai e Pudong


Situada junto à foz do Rio Yangtze, importante empório comercial durante muitos séculos, a Cidade de Shanghai é actualmente a maior cidade da China e possivelmente uma das maiores metrópoles do Mundo.



Considerada como “Cidade Mercado” em 1074, foi sempre ponto central na distribuição das riquezas produzidas no vastíssimo território Chinês e um porto da maior importância. De tal forma assim foi que, em 1842, quando a revolução industrial simplesmente começava na Europa, Shanghai se tornou no ponto-angular do comércio asiático, facto que ficou consubstanciado no Tratado de Nangum.

Profundamente ocidentalizada, com a sua estrutura urbana marcada por alguns dos maiores arranha-céus do mundo, Shanghai consubstancia o seu impacto na linha costeira do Rio Huangpo e no magnífico cenário do Pudong e a Torre Pérola Oriental, visto a partir do Bund.

A torre, construída entre 1991 e 1995, foi desenhada por Jia Huan Cheng e, com os seus 468 metros de altura, é actualmente uma das mais altas torres de televisão do Mundo, tendo-se assumido como ex-libris da cidade. O seu traço, baseado num poemos da Dinastia Tang, procura recriar a linha de paisagem com os traços de um alaúde…

Do outro lado, causando estranheza por ter sobrevivido ao surto implacavelmente destruir da revolução comunista, sobrevive um antigo palacete colonial actualmente utilizado como Embaixada da Rússia na China.










Guangzhou e o Cantão



De todas as cidades Chinesas, Guangzhou é possivelmente aquela que melhor traduz o estado em que se encontra China actual. Empório comercial antiquíssimo, fundada no Século II a.C. e com mais de dois milénios de História, Guangzhou ou Cantão, como é conhecida no Ocidente, é a capital da província de Guangdong, um dos mais prósperos territórios do País.

E se o Cantão é bem conhecido dos Portugueses, existindo centenas de relatos e descrições de viagens feitas à cidade ao longo de muitos séculos, até porque um tratado de 1511 atribui a Portugal o monopólio do comércio em Guangzhou, já pouco resta da magnificência de outrora.

Os antigos bairros, as casas típicas, os templos e as ruelas estreitas, foram progressivamente substituídos por enormes arranha-céus com dezenas e nalguns casos centenas de andares de altura, muitas vezes pintados de dourado e verdadeiramente resplandescentes, num processo de descaracterização total que cumpre os objectivos ditados pela dita revolução cultural comunista. Sendo actualmente a terceira metrópole da China continental, com mais de 13 milhões de habitantes, Guangzhou é uma espécie de enorme centro comercial, cruzando vários centros comerciais entre si e que se estende por cima e por baixo da terra.

Da sua história mais rocambolesca, subsiste o velho abrigo anti-bombardeamentos, resquício da pressão japonesa durante a II Grande Guerra, mas que se encontra literalmente perdido debaixo de uns quantos arranha-céus e de uma amálgama de centenas e centenas de lojas aglomeradas em vários centros comerciais subterrâneos.

O que sobrevive da antiquíssima cultura Chinesa? Pouco mais de nada. Os maus hábitos arreigados por práticas de sucessivas gerações, a sujidade que permanentemente vai enchendo as ruas das suas cidades, alguns hábitos alimentares também eles associados a práticas de pouca higiene e… nada mais. 

Uma pena.