quarta-feira

As Igrejas e a Religiosidade de Cascais




por João Aníbal Henriques

A religiosidade ancestral de Cascais, visível através dos monumentos que contribuem para a face urbana da vila, é marcada por um conjunto de lendas e tradições que englobam resquícios de muitas épocas e vivências diferentes.

O Cristianismo, realidade nascente em Cascais logo nos dealbar da sua existência, é somente uma das faces de um edifício muito mais vasto do qual fazem parte os fundamentos do islamismo que tanta expressão teve neste território, e também de muitos outros credos e facções que corporizaram um impressionante espólio cultural que os Cascalenses, muitas vezes sem disso se aperceberem, acabam por integrar no seu dia-a-dia.

O culto a Nossa Senhora, por exemplo, espraia-se nas suas várias devoções, de que em Cascais temos expressão na Senhora da Conceição, Padroeira de Portugal, na Senhora dos Navegantes, na Senhora da Vitória, na Senhora da Assunção, na Senhora do Rosário, na Senhora de Fátima, etc. Mas na sua essência mais profunda, as raízes perdem-se nos tempos longínquos, anteriores ao nascimento da própria mãe de Jesus Cristo, tendo-se adaptado aos tempos e às vontades e perseverado no inconsciente das populações.




Na sua vertente urbana, é nas igrejas que encontramos os vestígios mais impositivos desta prática, sendo Cascais uma vila rica em património religioso.

A Igreja dos Navegantes é, de acordo com as mais abalizadas opiniões, o mais antigo templo existente actualmente em Cascais. Também denominada de Nossa Senhora dos Prazeres ou de São Pedro Gonçalves, é vulgarmente denominada como “Igreja dos Homens do Mar”, seus fundadores, pertencentes à irmandade dos marítimos de Cascais. A monumentalidade da obra, e as dificuldades inerentes à canonização de Frei Pedro Gonçalves, estiveram na origem de diversos factores que levaram ao imenso atraso da sua construção. As suas características arquitectónicas, mais até do que a documentação conhecida sobre o templo, indicam que foi reconstruída em 1729, embora as suas torres só tenham sido concluídas em 1942.




A Igreja da Misericórdia, situada em pleno coração da actual Vila de Cascais, é um edifício construído em 1777 sobre as ruínas de um templo anterior e que ruiu com o terramoto de 1755. As reutilizações de materiais anteriores, ainda hoje bem visíveis na estrutura do edifício, levam a que se pense que a origem ancestral da igreja anterior remonte aos idos de 1551, data da instituição de Misericórdia em Cascais. O facto de na Sacristia se encontrarem vestígios de uma antiga Capela de Santo André, parece indicar uma fundação mais antiga, ou talvez a uma remodelação ou ampliação que terá acontecido algures em meados do Século XVI.




A Ermida de Nossa Senhora da Conceição dos Inocentes, situada em local próximo da antiga Igreja da Ressurreição, foi erigida em 1634, conforme indica o cruzeiro colocado junto à sua entrada. O terramoto de 1755 marca profundamente o seu culto, uma vez que, segundo reza a lenda, a intercessão da padroeira terá estado na base de um grande milagre. Nesta ermida se refugiaram os habitantes de Cascais quando do terramoto, não tendo o edifício sofrido qualquer dano como consequência daquele catastrófico acontecimento, mesmo estando tão próximo do mar.

O Convento de Nossa Senhora da Piedade, eram sem sombra para dúvidas um dos mais importantes e emblemáticos edifícios da vila. Para além da sua monumentalidade, ainda hoje visível em vários pormenores que acabaram por ser integrados no processo de adaptação a casa de veraneio e posteriormente a centro cultural, era ali que existia o primeiro colégio de filosofia de Portugal, nele convergindo grande parte dos principais vultos da espiritualidade de então.

A capela que integra o edifício, e que é hoje utilizada como auditório, será datável do Século XVI, sendo contemporânea da construção do próprio convento. No entanto, e tal como este, a capela actual nada tem a ver com a antiga, quer em termos arquitectónicos, quer em termos da disposição do seu espaço. Do que lhe aconteceu naquela manhã fatídica do dia 1 de Novembro de 1755 sabemos, por intermédio de um dos seus frades que continuou a viver no meios das suas ruínas, “do que se proveita ficar o de Nª Srª. da Piedade com suas paremestras em alto, se todas estão inclinadas e fora dos prumos e as abóbadas da igreja e seu frontispício até à barra rendido, suas celas e oficinas abauladas e o claustro sem palmo de parede que não esteja caído?”.

A Ermida de Nossa Senhora da Guia, comummente datada do Século XVI, é atribuída à Ordem de São Francisco, não só porque pertencia a uma ordem de freiras, como também pela indicação fornecida pelo pároco da Freguesia da Ressurreição. Uma das suas lápides sepulcrais possui a data de 1577. Embora também tivesse sofrido bastante com o terramoto de 1755, perdendo grande parte da sua fachada e a grande escada mencionada pelo Padre Marçal da Sjlveira, é ainda possível encontrar por lá alguns vestígios da construção original.

O grande número de edifícios religiosos que existem no casco mais antigo de Cascais, aponta assim para o forte e arreigado sentimento religioso da população, provando também que existiam meios financeiros suficientes para a sua construção. A indústria das pescas, de acordo com as invocações que perduram nos seus interiores, terá sido a fonte desses meios, ainda que muitos deles se saiba que provieram de ordens religiosas, do Patriarcado de Lisboa e mesmo de alguns particulares.




A boa relação e interajuda existe entre os pescadores da vila e os frades das ordens religiosas aqui instaladas, está bem patente nas palavras do já mencionado Padre Marçal da Sjlveira, que nos diz que foram os frades quem ensinou aos pescadores da vila a secar e a conservar os seus peixes.

Sendo intemporal a importância deste património para o sustento da tão vilipendiada vocação turística municipal, o certo é que as igrejas, ermidas e capelas de Cascais são ainda hoje pedras basilares na formatação cultural e social desta terra. Eixos assumidos de uma religiosidade transversal a todas as épocas da História de Cascais, calcorrear estes edifícios representa um passo essencial na definição e na compreensão do que é ser Cascalense.

segunda-feira

Cascais e o Terramoto de 1755




por João Aníbal Henriques

O cataclismo que se abateu sobre Lisboa no dia 1 de Novembro de 1755 deixou um rasto de destruição na Vila e no Concelho de Cascais. O terramoto e o posterior maremoto, foram acompanhados de incêndios e muitos dos principais edifícios que existiam foram completamente destruídos.

A face urbana da Vila de Cascais, com a monumentalidade própria de uma pequena vilória piscatória, sofreu enormes alterações e, mercê dos muitos interesses instalados nesta terra, terá sido porventura o terramoto o embrião da primeira operação de especulação que Cascais conheceu…

De facto, as Memórias Paroquiais, bem como as respostas dos reitores das igrejas às questões levantadas pelas autoridades depois do terramoto, apresentam-nos informações muito úteis para conhecer e compreender o que então aconteceu em Cascais. A menção à antiga torre-relógio, que desapareceu nessa manhã fatídica, e a organização espacial dentro das muralhas do velho castelo, estão bem expressas nas palavras do pároco de então: “Está esta vila sem relógio porque este, e sua grande torre feita pelos mouros, que sefes em cinzas. O palácio dos marqueses de Cascaes uq era de hua excelente perspectiva, e de exquisitas pinturas, com hua bella ermida, desconhecesse tudo pelo que foi, e já não hé (…). Nesta freguesia há hu castelo, cujo hoje está todo cheio de moradores e para nada serve mais, porem ahinda selhe conservão alguas amejas, cujo fica para abanda da ribeira, pegado com os palacios dos marqueses de Cascaes”.



Também Frei António do Espírito-Santo, um dos frades carmelitas do Convento de Nossa Senhora da Piedade (actual Centro Cultural de Cascais), dá-nos conta do estado do castelo após o terramoto de 1755: “cahio a torre com o seu mais especioso relógio nas sonoras vozes do seu sino, que fica olhando para norte, e matando 22 pessoas”.

Esta torre, bem identificada em muita da cartografia antiga que se conhece, corresponderia à torre que se situava na parte Nascente do Castelo, com frente para a área do antigo Rossio. Teria planta redonda, em linha com a tradição arquitectónica deste tipo de edifícios, facto ainda visível nas fotografias tiradas no início do Século XX por João da Cruz Viegas, D. António de Castelo-Branco e pelo Visconde de Coruche. De salientar que alguns dos torreões do antigo castelo, marcando os eixos que deram forma ao núcleo urbano inicial da Vila de Cascais, subsistiram até aos anos 60 do século passado, quando foram demolidas no âmbito do surto de construção que assolou Cascais nessa época.
Em termos religiosos, eram vários os edifícios que existiam em Cascais neste final do Século XVIII. Mas a maior parte, mercê das agruras do cataclisma, acabou por ficar muito danificado ou mesmo completamente destruído.



De acordo com o testemunho do Reitor da Igreja Matriz de Cascais, Padre Manoel Marçal da Silvejra, ao responder em 1758 aos inquéritos paroquiais, nada sobrou do terramoto e o que se manteve de pé estava em tais condições que a ele lhe parecia que mais valia destruir para construir novas edificações de raiz do que proceder ao seu restauro: “(…) a villa ficou toda arruinada até ao chão. Não há caza, wur ou não cahisse em terra, ou não ficase abalada, ameaçando ruína. Os templos, a ponte, a cidadela, e os eus quartéis, tudo está demolido, e feito em pó. A major parte da villa haita ahinda em barracas fora, e dentro do destricto, a ponte está com hu só arco em pee, e senaõ passa po rella, sem que se reparasse ahinda nada, somente alguas czas setem levantado, poucas, ao mesmo tempo, que outras, com as tempestades e ventos, se tem acabado de postrar”.

Do reitor da Freguesia da Ressureição, a segunda freguesia de Cascais e situada no espaço extra-muros, recebemos a informação de que foi esta uma das mais afectadas freguesias do país com a catástrofe do terramoto de 1755: “De todas as terras foi esta aq. Experimentou mayor ruina (conforme dizem todos) por causado ditto terramoto, pois todos os edifícios serruinarão, e quazi todos cahiram, e algum q. nan cahio de todo ficou inahabitavel, mas ao prezente is se acham muntos deles reedificados”.

Mas, se é certo que a destruição provocada pelo terramoto foi enorme, certa é também a dose de exagero patente em todos estes documentos, explicável possivelmente com a necessidade de chocar quem os lê-se para sensibilizar o poder nacional para a necessidade de recursos que Cascais sentia para proceder à sua recuperação urbana. De facto, tendo ruído a Igreja da Ressurreição, que se situava sensivelmente onde actualmente se encontra a estação de comboios, muitos outros monumentos civis, militares e religiosos se mantiveram de pé o foram reconvertidos e/ou recuperados e ainda hoje podem ser apreciados na Vila de Cascais.




A Igreja de Nossa Senhora da Assunção, por exemplo, uma construção de meados do Século XVII que resistiu à força do terramoto, foi bastante alterada no seu exterior tendo sofrido várias alterações que lhe conferem a imagem que hoje apresenta. Na sacristia e no arco que suporte o coro, ainda são visíveis as sequelas do cataclisma, ao lado com uma pequena inscrição que informa que o templo havia sofrido obras de restauro em 1720 à custa dos irmãos pescadores.

Mais à frente, e para além dos muros antigos do castelo, a Cidadela de Cascais e a Fortaleza de Nossa da Luz resistiram ao terramoto, tendo acontecido o mesmo com o Convento de Nossa Senhora da Piedade que, já no Século XIX, foi comprado em hasta pública pelo Visconde do Gandarinha que o adaptou a residência de veraneio. Quando essas obras foram efectuadas, estavam ainda em estado razoável de conservação a antiga sala do capítulo, a capela, o claustro, a cisterna e mesmo o friso de janelas viradas a Sul que ainda hoje se mantém.




Da mesma maneira, e para além das pequenas capelas de Nossa Senhora de Porto Seguro e de Nossa Senhora da Conceição, sobreviveram ainda as capelas de Nossa Senhora da Vitória, a Igreja da Misericórdia e a Igreja e Nossa Senhora dos Navegantes que foram reconstruídas depois da catástrofe.




Tendo exagerado de forma linear a verdade do que aconteceu, a documentação coeva dá-nos uma primeira imagem do que era Cascais naquela época. E, sabendo nós que o ímpeto de construção que se lhe segue fica a dever-se à generalizada informação de ruína eminente em que pretensamente Cascais se encontrava, fácil se torna perceber que naquela altura, como ainda hoje, foi sobre inverdades e premissas adaptadas às necessidades do momento, que se deu uma nova cara ao Cascais de sempre.

108º Aniversário do Regicídio




Cumprem-se hoje 108 anos desde o dia em que o Rei Dom Carlos e o Príncipe Herdeiro Dom Luís Filipe foram assassinados em Lisboa. No dia 1 de Fevereiro de 1908, pondo fim a mais de 750 de Monarquia e de História, a carbonária, braço armado da maçonaria e grupo de terrorista a soldo de interesses estrangeiros, disparou sobre a carruagem real quando o rei e a sua família atravessavam o Terreiro do Paço depois de uma viagem a Vila Viçosa. Com esse acto de terror, a organização terrorista impulsionou os laivos republicanos que tinham chegado a Portugal fruto dos tempos que então se viviam e das vicissitudes recentes que tinham afectado Portugal. Neste dia, para gáudio daqueles que colocavam os seus interesses à frente dos interesses do nosso país, iniciou-se um período negro na nossa história. Depois da coroação do Príncipe Dom Manuel e do turbilhão de golpes e de contra-golpes que visavam somente a destabilização do país, Portugal caminhou rapidamente para a república, encetando um período de intensa convulsão e de instabilidade permanente que se arrastou ao longo de mais de 20 anos.





Não tendo sido um rei perfeito, até porque o seu espírito humanista e a sua profundíssima cultura o transportavam rapidamente para um mundo onírico que era muito diferente daquele que se vivia em Portugal nessa época, Dom Carlos foi um dos mais marcantes monarcas de finais do Século XIX, tendo ajudado o país a modernizar-se e a ganhar as dinâmicas do novo século. Foi uma pena ter visto a sua vida ceifada de forma prematura, inconsequente e, sobretudo, injusta para Portugal e para os Portugueses. 





quarta-feira

História do Urbanismo de Cascais na Idade Moderna




por João Aníbal Henriques

As tendências urbanísticas de um local, mais do que um reflexo do gosto de então, espelham sobretudo o pulsar interno da ida de uma nação ou de um povoado.

A dispersão das casas, o maior ou menor estreitamento das suas vias, a altura e o aspecto das suas edificações, a monumentalidade das suas igrejas e templos, são acima de tudo características ditadas por uma série de situações que derivam directamente do devir das populações.

Assim, para compreender o Cascais da actualidade, importa conhecer melhor a história do seu desenvolvimento urbano, dele retirando as pistas que nos permitirão conhecer e perceber o substrato político, económico e social que deu corpo àquilo que hoje temos e somos.

Com este objectivo bem definido, vamos então traçar as verdadeiras tendências urbanas desta região, utilizando a documentação histórica coeva e integrando-a, sempre que possível naquela que exista para os concelhos limítrofes.

A demografia, na sua vertente mais pura, assim como os censos populacionais, as inquirições religiosas e os demais instrumentos de trabalho desta área científica, reforçarão as hipóteses e as pistas que daremos acerca do pulsar político de Cascais ao longo dos tempos.

O Concelho de Cascais, rico, ontem como hoje em potencialidades e belezas naturais, desde cedo despertou a atenção e o interesse da espécie humana. A amenidade do seu clima, a riqueza das suas águas, a fertilidade das suas terras e a posição estrategicamente privilegiada em que se encontra, foram factores decisivos na definição da história municipal.




Deixando de lado as questões directamente relacionadas com os primeiros anos da ocupação do território (que poderá rever AQUI), procuraremos acima de tudo dar uma panorâmica daquilo que foi Cascais e o seu termo no período imediatamente posterior à libertação jurídica face a Sintra.

Assim, no período que medeia o ano de 1364, data em que Dom Pedro I concede o foral a Cascais, e o ano de 1370, data em que Cascais fica efectivamente livre do jugo de Sintra pela mão do Rei Dom Fernando I, todo o termo do Concelho sofre enormes transformações.

Se, por um lado, assistimos à criação de toda a plêiade de cargos administrativos inerente à nova posição política concelhia, por outro, terão de ser criadas as condições urbanísticas necessárias à manutenção e alojamento das pessoas que resultam deste acréscimo populacional. O termo de Cascais, por seu turno, e mercê das enormes dificuldades que resultavam do esforço de manter e defender a independência, teve também de contribuir para esse esforço de afirmação política, assistindo-se na mesma época ao aproveitamento de uma série de potencialidades que existiam em todo o território municipal.




São, desta forma, desta época, a maior parte das edificações e casas antigas de Cascais, principalmente aquelas que vieram ocupar os espaços situados no núcleo intra-muralhas e na margem direita da Ribeira as Vinhas, e que complementaram os extensos espaços ocupados pelas habitações dos pescadores espalhadas ao longo da linha do mar. Estas, como é evidente, seriam muito mais precárias, construídas de madeira e em forma de abarracamentos. O Paço dos Senhores de Cascais, de influência marcadamente italiana, surge somente em finais do Século XVI, pese embora se situasse dentro do perímetro das muralhas antigas da vila, sensivelmente onde hoje se encontra a Casa do Conde Monte Real, na Avenida Dom Carlos. O Convento de Nossa Senhora da Piedade, já fora desse mesmo recinto, é seu contemporâneo, complementando assim os domínios de Gomes Lourenço de Avelar a quem Dom Fernando entregara, em 1370, as terras de Cascais: “seu caualleyro e […] guarda moor e leal vassalo”.

No dia 7 de Junho de 1373, cerca de três anos depois da primeira doação, o mesmo monarca desfaz o documento original, penalizando Gomes Lourenço de Avelar por este se ter recusado a entregar um dos seus filhos como refém no âmbito da assinatura do Tratado de Santarém. Neste último documento, a vila de Cascais é entregue a Henrique Manuel de Vilhena, figura pouco quista entre as gentes do concelho. É aqui que pela primeira vez surge uma menção ao Reguengo de Oeiras que, a partir desta mesma altura, passa a integrar o termo de Cascais.

Em 3 de Julho de 1384, sabemos que Henrique Manuel de Vilhena já havia sido desapossado do senhorio, porque andava então “em deserujço destes regnos e senhor com elrey de Castella” (Chancelaria de Dom João I).

Nesta época o território do termo de Cascais seria já muito semelhante àquele que conhecemos actualmente, exceptuando-se a integração do Reguengo de Oeiras ou de parte dele, conforme veremos adiante, e o acrescento posterior de alguns territórios que ainda pertenciam a Sintra e que o Rei, por considera-los seus, resolveu integrar no termo cascalense. Na carta de foral de 8 de Abril de 1370, Dom Fernando I integra no termo de Cascais territórios bem definidos: “Por seu termo como se começa pollo porto de Touro (fooz do Touro) e desy per cima da debaruas de Rey e dhy acima da malueirra e pella pena da era e desy como se vay dhi endiante atta o açude daacenha do tarãbulho e desy como se vay per cima de janas torta os fornõs da cal acima daaçenha do caminho todo agoas vertentes e desy pella strada dirrejta ao rio do trotulho com villa noua e desy como se vay pela strada do camjnho de lixboa atta as portas de manique e dhy adiante pello veeiro acima como se vay topar na strada de sintra que vay topa na ponte do rio ao mar vaao todalas quetaães e herdades que ora o dicto gomez Lourenço há em rio de mouro aaller e aaquê daagoa do dicto rio de mouro e outrossy a aldeã dalgafamy”. (Chancelaria de Dom Fernando).




O aspecto urbano de Cascais e do seu termo seria assim uma constante de contradições incluindo no seu seio o povoamento rural das zonas interiores, as zonas que haviam sofrido maiores influências islâmicas situadas nas faldas da Serra de Sintra, bem como as zonas mais urbanas situadas no centro da vila, consolidando assim um quadro marcadamente ecléctico e de abertura cultural que dará corpo àquilo que tem sido Cascais ao longo dos anos.

De salientar ainda, neste quadro daquilo que é a face urbanística de Cascais nos inícios da Idade Moderna, o povoamento disperso em pequenos casais espalhados aleatoriamente ao longo dos mitos e pequenos riachos que lhe sulcavam a terra. Este aspecto, como se verá no desenvolvimento económico concelhio (ver HENRIQUES, João Aníbal, História Rural Cascalense, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 1997), prenderá a atenção de Jorge Fernandez, enviado do Rei que, em 19 de Setembro de 1527 elabora o primeiro censo populacional conhecido para esta vila.

Ainda hoje, em certos cantos e recantos pouco conhecidos do concelho, e possível vislumbrar os restos desses casais, marcados profundamente pela vida simples e pacata que neles se levava.



terça-feira

Cascais na Idade Média Clássica




por João Aníbal Henriques

A reconquista Cristã e a entrada de novas gentes no actual território da Península de Lisboa, veio afectar de sobremaneira o Concelho de Cascais. É ponto assente entre os estudiosos da matéria, que Cascais exista já em 1147 e que foi alvo do interesse do novo rei de Portugal, Dom Afonso Henriques.

Segundo Pedro Barruncho, na sua obra “Villa e Concelho de Cascais”, datada de 1873, “é mais provável, para começarmos em mais próximos tempos, que pouco antes ou depois da tomada do Castelo de Cintra, se não ao mesmo tempo, o lugar de Cascaes entrasse no domínio do novo reino Lusitano”.

Esse facto é por demais evidente se nos debruçarmos mais profundamente sobre o Foral de Dom Manuel em que se pode ler acerca das preocupações que tanto Dom Afonso Henriques como Dom Sancho I tiveram em relação a este pequeno território: “Achámos visto os foraes por El-Rei D. Affonso Henriques e por El-Rei D. Sancho seu filho que os direitos e foros da dita villa de Cascaes sa hão-de arrecadar e pagar d’aqui em diante na maneira e formas seguintes […]”.

Este documento, com data de 15 de Novembro de 1514, é ponto fulcral de mudança e transição no estudo da História da Vila de Cascais a nível demográfico. Por um lado, ele comprova a importância da vila para os monarcas das primeira e segunda dinastias, quer seja a nível militar e estratégico, como defesa do estuário do Tejo perante as ameaças Almorávidas, quer a nível político. Por outro lado, ele diz-nos que Cascais possuía já um número razoável de habitantes que lhe permitia alguma expressão ao nível dos centros de poder governamental.

Assim, e tendo presente a subjugação administrativa a Sintra que Cascais sofria nessa época, podemos vislumbrar de forma mais linear a curva demográfica da vila durante este período já longínquo da História. É facto assente que desde épocas remotas existiria uma estrada que garantiria a ligação a Lisboa. Essa estrada, designada por “Caminho Velho” em certos documentos medievais, existiria já desde o tempo dos Romanos e possuiria uma extensão que estabeleceria a ligação a Sintra. Por este motivo, e porque Sintra dependia de Cascais e do seu porto para a exportação, pois a única solução para transportar produtos perecíveis para Lisboa era por mar, lógico seria que Cascai tivesse já nesta altura um contingente significativo de homens do mar que, conjuntamente com as suas famílias, se dedicassem à arte de marear. Tal facto é confirmado por José d’Encarnação e Guilherme Cardoso que se têm dedicado à procura da origem do povoamento do território Cascalense: “Uma das preocupações que temos é precisamente a de localizar os vestígios dessa via quando se faz qualquer urbanização no Concelho, uma vez que é muito provável que existisse, e existia mesmo, não temos dúvida nenhuma (temos documentos medievais que nos falam por exemplo na via velha, no caminho velho). É, portanto, possível que esse caminho velho fosse um caminho já utilizado no tempo dos Romanos – tinha forçosamente de existir uma estrada de Lisboa para Cascais, pois ao contrário do que se pensa, eles preferiam afastar-se do mar”.

Cascais foi, por isso, causa e efeito da reconquista Cristã, pois que, com o seu porto, contribui fortemente para o desembarque das naus da referida reconquista. Por outro lado, essa mesma reconquista contribuiu por sua vez para um desvanecer das fronteiras a Sul, e a consequente estabilidade que dela resultou contribuiu de forma decisiva para a facilitação do povoamento do território que, a par com a expansão demográfica e económica da Europa, vêm facilitar o desabrochar de novas povoações e o crescimento das já existentes.

Como é evidente, nem todos concordam linearmente com esta premissa. Oliveira Marques, por exemplo, contradiz-se ao referir-se a Cascais da seguinte maneira: “Apesar de todos estes povoamentos, o território de Cascais – como aliás toda a região litoral a Ocidente de Lisboa – era considerada como terra bravia e despovoada nos começos da nacionalidade”. Mas mais à frente, na mesma obra, acaba por atestar a importância de Cascais ao sublinhar a relevância da entrega do “Sturil”, actual lugar do Estoril, a Estevão Eanes, valido de Dom Afonso III, que comprova a importância daquele que é hoje o território municipal Cascalense.


O Teatro Gil Vicente em Cascais




por João Aníbal Henriques

Quando Cascais assistiu, nos idos de 1869, à inauguração do Teatro Gil Vicente, recém-construído a expensas do ilustre Cascalense Manuel Rodrigues Lima, ainda não tinha perfeita consciência da importância desse acto e dessa data da História da própria vila.

É que, nesse ano, Cascais era ainda a pequeníssima aldeia de pescadores situada numa das zonas mais longínquas dos arredores de Lisboa, conhecida mais pelo seu peixe e pela sua importância estratégica de âmbito militar, do que pela arte, ciência, sociedade ou cultura.

Mas foi em 1869, com a inauguração do teatro, que tudo começou a mudar.

Logo nesse mesmo ano, depois de os jornalistas lisboetas noticiarem a inauguração de um “teatro de luxo na vila de Cascais”, os cerca de 500 lugares da sala de espectáculos esgotaram várias vezes. Por ali, como se de uma grande capital cosmopolita se tratasse, passaram os grandes nomes da vida artística europeia dessa época. Desde o grande actor Vale, passando por Mercedes Blasco, Laura Ferreira, Pedro Cabral, Beatriz Rente e Pereira da Silva, muitos foram os nomes famosos que levaram longe a fama da nova casa de espectáculos e da própria vila de Cascais, recriando em torno da povoação uma mística de interesse que nunca mais desapareceu.

Terá sido também a partir da construção do Teatro Gil Vicente, que se criaram em Cascais numerosos grupos, colectividades, associações e academias, que alteram por completo a vivência social e cultural do velho burgo. O teatro de amadores, ainda hoje recordado com nostalgia por ter marcado de forma perene a História de Cascais, desenvolveu-se sempre em torno deste espaço. D. Fernando Atalaia, Rodrigo Berquo, Maria Luís da Costa, Belmira Lima, D. José de Atalaia, Ermelinda Assunção, subiram ao palco lado-a-lado com celebridades estrangeiras como Sandor Vegh, Eisenberg, Hans Munch e Karl Engel. E o fulgor manteve-se inalterado durante praticamente um século. Francisco Carneiro, Luís Costa Constante, João Constante, Helena Pinto, Edmundo Ferreira, Jaime Salgado, Marília Costa, Cármen Mota, João Carriço, Juvenália Tavares, são apenas alguns exemplos dos muitos artistas amadores que durante muitas décadas foram criando, encenando e fazendo subir ao palco algumas das mais divertidas, cómicas, dramáticas e culturalmente emblemáticas peças de teatro do país.


Foi também a inauguração do Teatro Gil Vicente, com toda a animação que a envolveu, que motivou o Rei Dom Luís I e a Corte Portuguesa, a escolherem Cascais como estância de veraneio a partir de 1870, tendo a Família Real assistido, de forma reiterada, a várias peças de teatro e inúmeros eventos culturais nas cadeiras deste novo espaço de entretenimento.



sexta-feira

Um Aborto




PS, PCP, BE e os Verdes vão aprovar hoje novas mudanças à lei do aborto. Totalmente liberalizado ate às 10 semanas, o aborto vai voltar a ser uma prática médica livre e sem constrangimentos de qualquer espécie. Como se de um método contraceptivo se tratasse, qualquer mulher pode ir ao hospital e abortar livremente.

Desta maneira, uma vez mais, os Portugueses serão obrigados a pagar taxas moderadoras se partirem uma perna ou um braço, se tiverem um qualquer acidente, se adoecerem ou se precisarem de mudar de óculos ou de tratar uma dor de dentes.

Mas se quiserem abortar é grátis!

É este o país que temos. 

Síria, Refugiados e Atentados




A Síria é governada por Bashar Hafez Al-Assad desde Julho de 2000. Chegou ao poder sucedendo ao seu pai, que governou o país com mão de ferro durante 30 anos e depois da morte inesperada do seu irmão mais velho que deveria ter herdado o cargo.

A sua formação em medicina e o percurso académico na Europa, tornaram-no numa esperança para o Ocidente que via como possível facilitador de uma mudança democrática no tradicionalmente radical regime político daquele país. Mas não foi. Al-Assad, cumprindo a vontade do pai e mantendo o status quo antigo da Síria, manteve um regime autoritário e gerou descontentamento numa larga facção do seu próprio povo, basicamente porque sendo ele um alauita, facção religiosa minoritária no país, teve desde logo a oposição da Liga Árabe e das correntes mais ocidentalizadas do Islamismo local.

Tal como aconteceu com vários dos seus colegas árabes radicais, Al-Assad foi pressionado durante a denominada Primavera Árabe a abandonar o poder. Mas, tal como os outros, recusou-se a faze-lo e deu corpo à luta contra os oposicionistas. Ao contrário de Saddam Hussein ou de Muammar al-Gaddafi, que foram completamente cercados pelas forças internacionais e presos e mortos para gáudio do Ocidente, Al-Assad conseguiu, mediante negociatas relacionadas com o controle do petróleo e de outras riquezas estratégicas do seu país, chegar a acordo com a Rússia, impedindo assim o cumprimento do fim sangrento que caracterizou a queda dos seus vizinhos de outros tempos.

A guerra civil na Síria é, a um tempo, o resultado deste impasse nas relações políticas internacionais entre o dito Ocidente (que mais não é do que a personificação da vontade e da força dos Estados Unidos da América) e a Rússia. Nada tem a ver com a vontade, as necessidades e a determinação do povo Sírio. Esse, sem nenhuma palavra a dizer no processo, sofre com os ataques das forças governamentais armadas pelos russos, dos ditos rebeldes armados pelos EUA e dos radicais do estado islâmico e demais seitas que por al proliferam. E, para não morrer imediatamente à mão desta gente, deita-se ao Mediterrâneo e foge para a Europa em busca de um sonho grandioso que se esgota na pequenez daquilo que simplesmente procuram: a paz.

Como é evidente, no meio da amálgama de interesses que proliferam no caos imenso em que a Síria se transformou, existem terroristas que se aproveitam das muitas fragilidades daí resultantes. Matam e morrem do alto da sua tenra idade, depois de alguns insanos radicais terem semeado nos seus cérebros inflamáveis as orgias insanáveis dos infernos terrenos… e já estiveram em Londres, em Madrid, em Paris e agora já todos sabem que estarão em todo o lado.

E muitos dos ocidentais, atemorizados e desprovidos da capacidade de pensar os outros e a vida humana, culpam os refugiados que se atiram à vida sem medo da morte simplesmente para fugir das atrocidades desumanas que hoje o mundo infelizmente bem conhece.

Mas o que mais custa, no meio desta rede de interesses materialistas e comerciais que dão forma à política internacional do mundo em que vivemos, é que Bashar Al-Assad está no poder não por vontade dos Sírios nem em representação deles, mas sim somente porque ao  Vladimir Putin lhe interessa…

Ou seja, a resolução do problema da Síria e dos países árabes, nada tem a ver com os árabes que lá nasceram. Depende do controle do petróleo e das riquezas que por lá existem, e do jogo porco e inadmissível que Estados Unidos e Rússia vão jogando.

Quando a um deles, para as suas contas de estado, convier que Al-Assad seja deposto, lá vamos nós ocidentais aplaudir mais um patíbulo ou uma guilhotina que dará combustível para alimentar a insaciável fome de sangue que caracteriza os que por lá vão ficar. Numa espécie de jogo de monopólio jogado entre Moscovo e Washington onde Putin e Obama se divertem a decidir quem vive e quem vai morrer.

A religião e a vontade dos Sírios nada pesam no que está a acontecer.

São eles os principais responsáveis pelos 149 mortos em Paris na passada Sexta-feira. Infelizmente.

quarta-feira

O Convento de Mafra 298 Anos Depois




por João Aníbal Henriques

Existem realidades que são maiores do que a História e que subjugam os factos, os documentos e a factualidade. Transcendem-se a si próprias, repercutindo os sonhos de quem as idealizou e os horizontes infinitos e intemporais que são sempre sinónimos da genialidade. É o que acontece com o Palácio / Convento de Mafra. Que importa recordar no dia em que se cumprem 298 anos desde aquele dia extraordinário em que Dom João V ali colocou a primeira pedra.




O Convento de Mafra, localizado a poucos quilómetros de Lisboa, foi uma das mais impactantes obras de arquitectura jamais concretizadas em Portugal. Com os seus mais de 40000 m2 de área total, os seus impressionantes 29 pátios, as 880 divisões e as duas mais de 4500 portas e janelas, o edifício produz um enorme impacto visual a quem dele se acerca, sendo um repositório que está à altura do facto de ter sido edificado durante o mais rico de todos os reinados dos reis portugueses.

Dom João V, cognominado como o magnânimo, teve a sorte de alcançar o ouro do Brasil durante o seu reinado. E com ele, impôs-se como um dos mais poderosos reis europeus. Casado com a arquiduquesa Maria Ana Josefa da Áustria (1683-1754), filha do Imperador Leopoldo I, da Casa dos Habsburgos, foi pai do futuro rei Dom José I de Portugal  e, por morte deste, do Rei Dom Pedro III. Durante a sua vida, assente na magnanimidade da sua imensa riqueza, teve uma intervenção política muito relevante ao nível da cena política internacional e foi um dos monarcas Portugueses que maior influência teve na definição do rumo da Europa durante a sua época.

Mas o dia 17 de Novembro de 1717, quando decorreu a primeira pedra do futuro Convento de Mafra, tem um profundo significado simbólico para o então Rei de Portugal em linha, aliás, com todo o simbolismo associado ao edifício, à sua decoração e até ao uso que teve ao longo dos últimos séculos. Tendo tido grande dificuldade em gerar a sua descendência, Dom João V terá feito uma promessa a Deus de que edificaria um convento em Mafra no caso de lhe nascer um filho varão no prazo de um ano a contar daquela data. Diz-se ainda que a promessa, feita por um rei que nunca foi coroado, visto que, tal como os seus antecessores desde o restauracionista Dom João IV, decidiu coroar no seu lugar a imagem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, Padroeira de Portugal, aconteceu durante uma das crises de melancolia do monarca. De facto, nos dias que antecederam o lendário episódio, Dom João V ter-se-ia retirado para o Alentejo devido à estranha doença que o afectava. E terá sido num dos dias de maior prostração, quando a rainha o encontrou desolado sob a sua poderosíssima condição, que terá formulado o seu voto do qual resultou a construção do vetusto monumento.




De facto, apesar de o primeiro filho do rei não ter sido varão, pois nasceu a Princesa Maria Bárbara, futura rainha de Espanha por casamento com Fernando VI, o Rei Português decidiu não só manter a sua promessa de construção do pequeno convento destinado a cerca de 13 frades capuchos arrábidos, como incrementou o projecto juntando-lhe um inusitado palácio real que causou a estupefacção e a surpresa dos Portugueses de então.

Com o traço de João Frederico Ludovice, Mafra assenta numa planta também ela estranha para a sua época. Com as dimensões extraordinárias que foram indicadas pelo Rei, o Convento de Mafra sobrepõe-se de forma básica à planta da Baixa Pombalina de Lisboa, construída pelo Marquês de Pombal depois do Terramoto de 1755. A sua biblioteca, os aposentos de caça e os longuíssimos corredores que ligam as diversas alas do edifício, consolidam uma fachada decorada com uma escadaria monumental que nos transporta até à basílica. E por baixo de todo esse espaço, escondem-se dos olhares menos atentos os espaços de morte onde se acumulam os restos mortais de várias centenas de religiosos que ali viveram e morreram ao longo dos anos.

Estranho ainda, pelo seu carácter vincado e linearmente ostensivo, os espaços vãos existentes entre os tectos dos andares superiores e a cúpula exterior do monumento. Nessas zonas inacessíveis mas bem acabadas, montaram-se vastos espaços de culto ritualístico maçónico, bem patentes na simbologia e na imensa parafernália de instrumentos que a decora. A ideia do Grande Construtor é, aliás, o persistente sinal que acompanha o Rei na sua demanda pela eternidade, consolidando a premissa de que Mafra não é só aquilo que se vê e que existe uma causa discretamente marcada nas suas paredes da qual dependeu a orientação e a decisão real.




A vertente simbólica do Convento de Mafra, explicando o tantas vezes mal compreendido carácter perdulário de Dom João V, transmite-nos a certeza de que o monumento é significativamente o expoente máximo da expressão religiosa de Portugal, numa tentativa de tradução cosmológica da realidade imensa do universo que necessariamente terá de passar o entendimento mesquinho do dia-a-dia Português. Mafra é, para Dom João V, o palácio-convento que hoje temos. Mas é sobretudo, na sua vertente mística de um Rei magnânimo, uma espécie de altar-mor de Portugal, idealizado para aproximar o País do seu eterno destino de representação na Terra do cruzeiro de luz que emana do céu. A visão quinto-imperial que transvaza a demanda do Prestes João e que enforma a épica empresa dos descobrimentos, consolida-se aqui no palácio onde o império aguarda a chegada nunca concretizada do desejado, numa prática de despojamento que coroa como imperador o mais puro e inocente dos rapazes. Porque nem sempre aquilo que lá está é exactamente o que percebemos e, sobretudo, porque raramente aquilo para onde olhamos é aquilo que vemos.




Nos míticos subterrâneos de Mafra, onde a lenda diz que existem ratazanas imensas que são capazes de se alimentar de seres humanos, nada existe de extraordinário, para além da cloaca colossal para dar vazão à imensidade de gente que utilizava o edifício. Mas no topo das torres, onde o céu já se sente, aí sim, existem os vestígios de uma porta para o paraíso terrestre.
Num espaço repleto de lendas e de ideias-feitas, genericamente resultantes do impacto imenso que um edifício com estas características sempre tem, importa ainda relembrar os míticos carrilhões.

Construídos em Antuérpia e Liége por Guilherme Withlockx e Nicolau Levache, respectivamente, terão custado a módica quantia de 50000 moedas de ouro ao cofre Português. Diz-nos a lenda que , tendo encomendado o primeiro, o seu manufactor terá comentado que era obra de grande monta para um Estado tão pequeno… ao que o rei Português, mostrando bem o poder que resultava da sua imensa riqueza, terá respondido que duplicava a encomenda e desejava adquirir não um mas dois carrilhões para o seu edifício mafrense!




Lenda ou realidade, o Convento de Mafra é hoje uma realidade que se impõe a todos os Portugueses. Se para uns representa o exercício perdulário que sugou imensamente o erário pública, para outros é certamente o expoente máximo da visão ancestral de um dos reis que melhor personificou a tradicionalmente portuguesa demanda do Graal.

Vale a pena visitar com atenção e cuidado, libertando-se de preconceitos e alumiando os recantos mais sombrios de uma história que ainda tem muito para contar ao País onde nasceu. E no fim, depois de subir aos carrilhões e de descer aos sombrios recessos dos subterrâneos, é essencial sair pela “porta do cavalo”… se souber!




A Moura Salúquia do Alentejo



por João Aníbal Henriques

As memórias da Cidade de Moura, no Alentejo, guardam consigo o ensejo antigo da beleza e da formosura da Princesa Salúquia, filha de Abu-Hassan e noiva eterna de Bráfama, alcaide de Aroche.

Aos seus pés, perdido algures na brancura singela da planície, sob um manto de restolho inchado pelas águas úberes deste Outono ameno, está o tesouro antigo que os tempos fizeram questão de olvidar.

Quando Moura se chamava ainda Al-Manijah, Salúquia estava apaixonada por Bráfama e aguardava nervosamente no cimo da torre de menagem do castelo a chegada do seu noivo. Mas, ao contrário daquilo que deveria ter sido, os exércitos mouros foram derrotados numa breve peleja pelos audazes seguidores de Dom Afonso Henriques. E a princesa, puríssima e com o colo alvíssimo preparado para receber o seu amado, assiste perplexa à entrada encapuçada dos cristãos no recinto amuralhado onde o seu pai a havia deixado à guarda dos seus mais sérios soldados.

Consciente do carácter sórdido dos maus-tratos que a esperavam assim que os invasores subissem ao castelo e ciente da morte prematura de Bráfama e do seu pai, Salúquia prescindiu da vida e atirou-se do cimo da torre de menagem para o chão duro do castelo.

Morreu. Levando consigo o tesouro de virtude que a acompanhava e a paixão que lhe enchia a alma.

Salúquia está hoje presente no Brasão de Moura, deitada eternamente aos pés da cidade onde nasceu, onde viveu e onde se entregou de corpo e alma ao seu destino. Com ela seguem os sons ocos de uma vida radicalmente diferente daquela que hoje temos e simultaneamente igual ao devir que ainda agora constrange o dia-a-dia de todos os Portugueses.

Decidiu morrer ao invés de se entregar nas mãos dos Cristãos recém-chegados, impedindo-os de deleitosamente gozarem os prazeres intocados da sua imaculada existência. Mas fê-lo às mãos daqueles que a tornaram imortal, entregando-lhe muitas centúrias de vidas e sucessivas gerações de Portugueses.

Dizem que ainda hoje Salúquia circula por ali. Não já no corpo que entregou por amor, mas com o espírito que continua a guardar o seu segredo.

E nas manhãs de nevoeiro, quando toda a paisagem se cobre com a película diáfana do mistério, não são poucos aqueles que a conseguem discernir, com os seus olhos fixos no horizonte, numa espera eterna pelo amor que nunca há-de chegar a ser. Dizem também, sobretudo aqueles que vêem com os olhos da sua própria alma, que Salúquia já não é uma mulher, tendo assumido um corpo de cobra que deambula sinistramente pelo meio daqueles que a pressentem… 

A cobra encantada de Moura. No Alentejo.




quinta-feira

Sai uma Privatização para a Linha da CP e Cascais...




E vez em quando, porque lhe apetece, a administração da CP decide mudar as regras de utilização dos seus comboios.

Desta vez, acompanhada por uma campanha de comunicação feita num tom irritantemente opressivo, decidiu que os títulos de transporte mensais (vulgo passes) deverão também eles passar a ser activados antes de cada viagem.

Nada disto seria problemático se todas as estações tivessem cancelas que obrigassem os utentes a utilizar o seu passe para as abrir e para aceder ao cais. Mas, em muitas das estações da linha, não só não existem as ditas cancelas como os terminais de activação são poucos e normalmente estão avariados. Ou seja, numa utilização frequente e activa do passe, é praticamente impossível a um utente com passe proceder sempre à activação do seu título, até porque mesmo passando o passe pelo activador muitas vezes a dita activação não fica feita. E não há como saber.

Ora dentro dos comboios, os revisores têm ordens para multar quem não tiver o passe activado. E se há alguns simpáticos, que até cumprimentam os passageiros com um normal bom dia ou boa tarde e percebem que o passe está pago, é válido e o utente não conseguiu passa-lo com êxito pelo activador, a grande maioria, sem um cumprimento, um sorriso ou qualquer atenção para o facto de ser o dinheiro pago pelo passe que lhe paga o ordenado mensalmente, pura e simplesmente expulsa o passageiro na primeira estação onde o comboio para e exige que ele vá ao activador e regresse a casa no comboio seguinte!

E a CP faz isto, no meio de um clima de crispação crescente entre os seus funcionários e os utentes (leia-se “clientes”) numa altura em que acumula problemas e dificuldades que não consegue resolver. Os comboios andam sujos, mal-cheirosos e não cumprem horários. Muitos dos revisores parece que engoliram um sapo logo pela manhã e são incapazes de concretizar a sua tarefa humanamente… Isto para não falar nos atrasos, nos comboios suprimidos sem apelo e sem agravo e sem respeito nenhum pelos passageiros que adquiriam os seus títulos de transporte em boa fé e nas greves.

Sim. As greves, compulsivas, sistemáticas e inadmissíveis que colocam o ónus das dificuldades de funcionamento da empresa e dos sindicatos sobre as costas dos utentes. As greves que carregam exigências que ninguém percebe e que geram prejuízos graves não à CP nem aos seus funcionários (à CP porque recebe sempre o valor mensal dos passes e poupa em ordenados e em material durante a vigência da greve e os funcionários porque têm o seu ordenado sempre assegurado no final do mês), mas sim aos muitos milhares de utentes que pagam o seu passe e às empresas nas quais eles trabalham e onde têm dificuldades enormes em chegar a tempo.

O que falta na linha de Cascais da CP? Tudo.

Tudo que incluí novas carruagens, nova maquinaria, novos horários, novos administradores e novos funcionários.


Como já se viu que aos partidos políticos que controlam o país não estão interessados em nada disto, resta apelar a que se privatize a linha de Cascais. Muito depressa!

E assim se foi… a Liberdade de Expressão!




Durou pouco mais de quarenta e um anos em Portugal! A liberdade de expressão, conquista paradigmática da mudança de regime acontecida em 1974, que custou sangue e lágrimas a muitos milhares de Portugueses, ficou definitivamente comprometida com a Providência cautelar importa pelos advogados de José Sócrates visando as notícias sobre o famigerado “Processo Marquês”.

Num acto inédito que muitos constitucionalistas ousam caracterizar como de censura e inconstitucionalidade, a juíza Florbela Filomena Moreira Lança de Vieira Martins impede os órgãos de comunicação social do Grupo Cofina de publicarem notícias sobre aquele mediático processo que, de acordo com a Lei, pode ser consultado livremente por qualquer cidadão que se constitua assistente!

Com todo o País desejoso de rigor e de verdade, predicados que parecem ter-se perdido no emaranhado desta autêntica ditadura partidária em que enredaram Portugal, é pernicioso, comprometedor e mesmo mesquinho este acto de privar os Portugueses de saberem o que verdadeiramente andou a fazer esta gente.

E o poder político, perdido nas aleivosidades que caracterizam a autêntica guerra em que os partidos meteram Portugal, vão assobiando para o lado e teimando em dizer aos muitos Portugueses a quem parece que nem vale a pena participar nos actos eleitorais, que continuamos a ter uma democracia em Portugal! 

Vale a pena ler o editorial de hoje do Correio da Manhã. Até porque sem imprensa livre pura e simplesmente não existe democracia.

segunda-feira

Mais um Orçamento Participativo em Cascais




Está novamente em curso o Orçamento Participativo de Cascais. A edição deste ano, composta por 20 projectos finalistas, vai pôr os cascalenses a votar através de SMS’s nas iniciativas que lhes parecem mais importantes, como se fosse um concurso televisivo em que uns ganham e outros perdem.

E se fossem somente pequenos projectos pessoais que fossem a jogo, tentando assim a sua sorte para poderem usufruir de uma parcela dos dinheiros públicos necessários à sua concretização, não haveria problema de maior, podendo até considerar-se que o dito concurso estimularia a imaginação e a criatividade dos Cascalenses para desenvolverem ideias diferentes.

Mas não. Os projectos a concurso são quase todos necessidades primárias do Concelho de Cascais e são parte integrante do conjunto de obrigações que o município assume enquanto entidade eleita para gerir o espaço público e zelar pelo erário que pertence a todos os Cascalenses.

Ou seja, a generalidade dos projectos que se sujeitam a este concurso, são coisas que todos os cascalenses esperam que a Câmara Municipal de Cascais concretize imediatamente e dos quais depende o bem-estar e a qualidade de vida no Concelho.

Mas o grande problema é que, como concurso que é, uns ganham e outros perdem… e, aqueles que tiverem menos amigos dispostos a pegar no seu telemóvel para mandar o SMS, estão condenados a não ver cumprida a sua vontade.

E agora, dos 20 projectos a concurso, imagine-se, por exemplo que não ganha o nº2… pois, a consequência é que não vai ser construído o muito necessário passeio entre a Charneca e a Malveira na EN9! E se perder o nº 8, não se farão as muito necessárias obras de restauro na Capela da Conceição da Abóboda! E se perder o nº 17, os Bombeiros de Alcabideche não vão ter as suas tão necessárias ambulâncias de suporte básico de vida! E se perder o nº 24, serão os Bombeiros de São Domingos de Rana que não terão um Veículo Urbano de Combate a incêndios! E se perder o nº 28, a Escola Básica de Carcavelos não terá um telheiro! E se perder o nº 36, os Bombeiros da Parede-Carcavelos continuarão a correr risco sérios de saúde porque não serão retirados os painéis de amianto dos telhados da sua sede! E se perder o nº 39, veja-se lá que a Villa Romana de Freiria, classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1997 e que se encontra num estado de inconcebível desleixo, não será reabilitada!

Para além de muitos outros exemplos, cada qual mais inconcebível.

A boa notícia é que alguém vai ganhar o concurso deste ano. No meio de um cenário mediático e envolvido por uma boa dose de propaganda, alguém vai ter a sorte de ver resolvida uma destas necessidades primárias.

Os outros... bem… se precisarem mesmo de uma ambulância, de um carro de bombeiros ou de um passeio na sua terra têm bom remédio: tentem novamente para o ano!

sexta-feira

Portugal Encavacado




Apesar as controvérsias, das discórdias, das polémicas mediáticas, das diferenças de opinião e de todo o conjunto de interesses que dão corpo a este sistema eleitoral partidarizado e pouco democrático que temos (é preciso lembrar que os Portugueses nem sequer são livres de escolher o(s) deputado(s) que os vai representar na Assembleia da República e que, à laia de embuste, são obrigados a fazer uma selecção daqueles que são escolhidos pelos partidos), existe uma conclusão óbvia, linear e inquestionável das eleições legislativas que decorreram no passado dia 4 de Outubro: o vencedor foi a coligação entre o PSD e o CDS.

Tiveram mais votos e ganharam as eleições. E, por isso, deveriam ter sido indicados pelo Presidente da República para formarem governo. Depois, com é evidente, os 230 deputados que compõem a assembleia logo decidiriam o que fazer, e arcariam com a responsabilidade da(s) sua(s) decisões perante Portugal e os portugueses.

Mas Cavaco Silva, uma vez mais estragou tudo. Quando devia simplesmente ter procedido à indigitação do vencedor das eleições para formar governo, calando-se de seguida de maneira a garantir o normal funcionamento das instituições, proferiu um discurso absurdo e completamente descontextualizado, com laivos de uma raiva que põe em causa a isenção e o distanciamento que o presidente deve ter em relação às escolhas dos portugueses.

Ao fazê-lo, Cavaco Silva condicionou de maneira inconcebível o universo partidário e gerou um sentimento de desconforto que põe em causa os interesses de Portugal. 

Agora, que o mal está feito, há uma coisa que importa sublinhar para que ninguém no futuro se venha a esquecer: Cavaco Silva é o responsável por tudo aquilo que vier a acontecer aos Portugueses. E deve ficar na história com esse ónus. Porque a decisão foi dele.

segunda-feira

Navio Tokio Spirit Encalhado em Cascais




Sábado, dia 17 de Outubro de 2015. No meio de um imenso temporal, com ventos fortíssimos e o caos instalado no Concelho de Cascais, o petroleiro “Tokyo Spirit”, das Bahamas e com 274 metros de comprimentos e 78845 toneladas, encalhou junto ao Farol de Santa Marta. Ao longo dos dois dias em que durou o resgate, no qual participaram rebocadores vindos de Setúbal e de Sines, o enorme navio foi arrastado para junto da marina de onde foi retirado no final da tarde de Domingo. 





quinta-feira

As Aparições Marianas na Asseiceira (Rio Maior)




por João Aníbal Henriques

Simplicidade, amor e oração, num apelo que chega de forma sublime e que se repercute sistematicamente pela comunidade, são as principais características transversais a todos os fenómenos relacionados com aparições marianas que acontecem em Portugal.

Tal como aconteceu em Fátima, na Fonte Santa, na Nazaré, em Coruche e em tantos outros cantos e recantos de Portugal, as aparições de Nossa Senhora que ocorreram na Asseiceira, concelho de Rio Maior, foram um fenómeno que assentou na figura de uma criança e que, com laivos quase pueris que são comuns às outras centenas de casos, foram posteriormente vistos e confirmados por dezenas de outras pessoas que acompanharam o vidente.

Sendo certo que existem fenómenos reais e que comprovadamente aconteceram, porque são muitos aqueles que os partilharam e que testemunharam a sua existência, é certo também que a sua descodificação é sempre um fenómeno de Fé que resvala para uma linha personalizada de relação com a religião e com o cosmos.

Nos casos portugueses, a Fé em Nossa Senhora, Mãe de Jesus e padroeira de Portugal, acompanha o país desde antes da formulação da nacionalidade, sendo possivelmente essa continuidade histórica que explica as explicações que são dadas sobre os fenómenos. Mas, sendo certo que é de Fé que se fala quando se discutem aparições marianas, o certo é que existem constantes que remetem para uma análise mais concreta que, nunca podendo ser científica, permitem perceber que é inquestionável o seu valor na definição dos valores e princípios sócio-identitários que dão forma à própria existência de Portugal.




A começar pela própria História. As aparições marianas em Portugal não são exclusivas de um determinado período ou contexto, nem tão pouco de uma determinada época de contornos bem definidos em termos económicos, políticos ou sociais. Pelo contrário. Atravessando os nossos quase 900 anos de História, as aparições de Nossa Senhora acontecem em vários locais e em vários tempos, adaptando-se obviamente aos contextos específicos nos quais ganham forma, mas sempre assentes em pressupostos que ultrapassam a esperança de vida daqueles que as vêem ou sequer as gerações às quais pertencem. É inquestionável, por isso, que as aparições não são um fenómeno que explica (ou ajuda a explicar) um momento histórico, nem tão pouco uma forma de vida determinada, antes respondendo de forma transversal aos arquétipos mais profundos da Portugalidade ao longo dos tempos.

Depois, de forma surpreendente pela diversidade de épocas e de locais em que acontecem, as semelhanças perante os fenómenos físicos que as acompanham. Raios de luz, alterações no Sol, vozes que somente alguns escutam e a pequenez das imagens que se vêem, são omni-presentes em quase todos os casos que se conhecem, deixando pistas que são quase referências em termos daquilo que se conhece. E se, pelo menos nalguns casos, é lícito pensar que os ditos videntes teriam acesso a histórias relacionadas com fenómenos idênticos que tentariam replicar no seu presente, na generalidade dos casos, a pureza pueril dos mesmos, associada a pouca formação académica e a contextos de isolamento profundos em que essas vidas acontecem, deitam por terra esse pressuposto e tornam quase impossível colocar a explicação nesse campo.

Por fim, temos ainda os conteúdos das mensagens. Com excepção de Fátima, na qual a mensagem surge encriptada e filtrada pelas determinações institucionais que as vão controlando ao longo do tempo, a quase totalidade das restantes remete para um apelo à singeleza da oração, da paz e da pureza que, parecendo coisa menor quando comparadas com uma descida à terra da própria Mãe de Jesus Cristo, são profundamente vincadas, marcantes e até revolucionárias nas comunidades em que as mesmas acontecem. Será crível pensar que tantas crianças, normalmente pobres e quase sempre analfabetas, repliquem com tanta exactidão uma mensagem que nada (ou pouco) lhes diz e que é transversal a todas elas?




No caso de Asseiceira, em que as aparições nunca foram sancionadas pela Igreja Católica, o padrão é o mesmo e, mesmo sem o cunho da oficialidade que certamente as teria transformado em algo de completamente diferente daquilo que aí verdadeiramente aconteceu, evocam valores, princípios e orientações que se encaixam de forma perfeita num vastíssimo conjunto de fenómenos no mesmo género.

No dia 16 de Maio de 1954, o menino Carlos Alberto da Silva Delgado, de 11 anos, apartando-se dos seus colegas de escola para rezar pelo sucesso de um exame que teria de fazer, ouve uma voz que lhe garante o êxito e que lhe pede que reze o terço Diariamente. Durante oito meses, todos os dias 16, o fenómeno voltava a acontecer, sendo acompanhado por um cada vez maior número de gente que acorria ao local para partilhar o dom de estar junto da Mãe de Deus.

Sem que se conheça qual outra mensagem e/ou orientação diferente do apelo sereno à oração e à santidade, o menino foi sujeito a vários exames médicos que determinaram ser o mesmo saudável não padecendo de nenhuma doença psiquiátrica que pudesse explicar o que estava a acontecer. Simultaneamente, tal como acontece em Fátima e noutros locais reconhecidos pela Igreja, as muitas testemunhas que acorrem ao local das aparições, divergem entre aqueles que vêem e ouvem o mesmo do que o vidente; aqueles que somente ouvem mas nada vêem; e os que vêem mas nada ouvem… Como se explica que seja assim em todos os locais e em todos os tempos?

Desde então até ao presente, o menino vidente faleceu prematuramente num acidente de automóvel, sem que no local deixasse de se reunir um número substancial de gente para cumprir a vontade da Mãe de Deus. Tinha 37 anos, não se lhe conhecem laivos de riqueza ou de grande poder, era casado, tinha dois filhos e uma vida normal, trabalhando como administrativo num banco. Ou seja, nada ganhou com o seu papel de vidente.

Mas o certo é que, até hoje, todos os dias 16, a meio da tarde, reza-se o Terço. Na comemoração do cinquentenário das aparições, em 2004, com dinheiro dos crentes, foram feitas obras de remodelação do espaço para que se continue sempre a cumprir aquela obrigação pungente.

segunda-feira

5 de Outubro de 1143: cumprem-se hoje 872 anos de independência de Portugal




por João Aníbal Henriques

No dia 5 de Outubro de 1143, há precisamente 872 anos, o Rei Afonso VII de leão e Castelo reconheceu o antigo Condado Portucalense como reino independente e Dom Afonso Henriques como rei. Neste dia nasceu Portugal.

Com a assinatura do Tratado de Zamora, assente nos factos atrás mencionados, o novo monarca Português dá início à designada Dinastia Afonsina e ao processo lento, moroso e complicado de fazer reconhecer Portugal pela Santa Sé.

Em 1143, o tratado veio reconhecer o reino e o rei, mas Afonso VII exigiu que para que esse reconhecimento se efectivasse, o rei português aceitasse manter-se como seu vassalo directo. Afonso Henriques, sabendo de antemão que a liberdade de movimentos e de determinação da sua história dependiam do reconhecimento papal, enceta um percurso que se arrastará até 1179 quando o Papa promulga a Bula Manifestus Probatum e definitivamente assume o rei português como seu vassalo directo, libertando-o dos laços que o mantinham na dependência de Castela.

Ao longo destes quase novecentos anos de história, Portugal tornou-se num caso extraordinário na Península Ibérica e na Europa, sendo afinal o único dos pequenos reinos que conseguiu sobreviver aos desígnios dos grandes países que se impuseram. Com excepção do período de domínio filipino, entre 1580 e 1640 e, mesmo assim, sob o lema de “dois países e uma só coroa”, dado que os monarcas espanhóis mantiveram a independência formal de Portugal assumindo no nosso país uma designação diferente daquela que utilizavam em Espanha, Portugal foi capaz de responder sempre aos grandes desafios que se lhe colocaram, contornando dificuldades e impondo-se sobre as suas especificidades e características.

Em 13 de Junho de 1985, em conjunto com Espanha, Portugal voluntariamente assina o tratado de adesão à então CEE, depois de um processo diplomático longo e muito complicado cujo principal mentor foi Mário Soares. A concretização deste desígnio é, aliás, confirmada em Janeiro de 1986, em cerimónia que decorreu no Mosteiro dos Jerónimos, já com Cavaco Silva enquanto Primeiro-Ministro.





Mas são muitos os factos e os acontecimentos que causam estranheza neste dia 5 de Outubro. A começar pelo (quase) incrível facto de não ser feriado em Portugal neste dia em que se comemora o nascimento do País e a conquista da independência nacional. 5 de Outubro de 1143 deveria ser estudado, compreendido e devidamente assinalado pois é ele que determina toda a existência política do nosso País até à entrada neste Europa. Depois, mais estranho ainda, é o facto de tanto esforço e dedicação que foram necessários para cumprir este objectivo, tenham sido anulados pelo esforço feito por Mário Soares e Cavaco Silva para desbaratar essa independência numa adesão incondicional e destravada a uma Europa com qual nada tínhamos a ver. E, sobretudo, o facto de esta entrega incondicional da nossa soberania, ter sido alcançada numa posição de subserviente obediência aos organismos Europeus, sem que Portugal tenha sido capaz de oferecer à Europa um contributo que resultasse das suas imensas potencialidades, não valorizando a sua entrada com um contributo que capitalizasse as suas posições e decisões, mas tão só enquanto membro-pedinte que ficou refém dos fundos e das infra-estruturas que a Europa ofereceu.


No dia 5 de Outubro de 2015, marcado pela ausência do Presidente da República nas muitas cerimónias que procuram reforçar as memórias da revolução que nefastamente e de forma antinatural implantou a república em Portugal (porque está sossegado a pensar), importa recordar os bravos de 1143, que neste dia deram corpo ao mais importante dia da vida Nacional.