A acumulação anormal de pluviosidade, em conjunto com o crescimento das dunas, criou um cenário onírico na Praia do Guincho. O lago que ali nasceu, em Dezembro de 2016, deslumbrante no contraste entre o céu, a serra e o mar, compõe um postal extraordinário que ficará na memória de Cascais e dos Cascalenses.
Blog sobre Portugal, os Portugueses, a sua História, e a realidade política, económica, cultural e social Nacional.
segunda-feira
sexta-feira
O Círio de Nossa Senhora do Cabo na Paróquia de Cascais
por João Aníbal Henriques
Depois de um interregno de mais de 50 anos desde a sua última
visita a Cascais, a Veneranda Imagem Peregrina de Nossa Senhora do Cabo
regressou à Nossa Terra, no ano de 2002-2003 retomando assim o milenar Círio
Saloio do Cabo Espichel.
A iniciativa do então Prior de Cascais, Padre Raul Cassis Cardoso,
foi essencial para a recriação daquela que é uma das mais antigas tradições
Cascalenses. Numa parceria com a Sociedade Propaganda de Cascais, que nessa
altura assumiu a responsabilidade de recuperar a memória ancestral daquele
importante acto devocional, foi possível reconstituir os rituais que a passagem
do tempo havia feito esquecer e recriar toda uma existência religiosa que há
muito tempo não existia nesta Freguesia.
Para o êxito desta iniciativa, que consolidou de forma efectiva a
Identidade Cascalense, foi essencial o trabalho conjunto e o apoio da então
Câmara Municipal de Cascais, presidida pelo Dr. António Capucho, da Junta de
Freguesia de Cascais, Presidida por Pedro Silva, e da Associação Humanitária
dos Bombeiros Voluntários de Cascais. Mas, acima de tudo, foi de primordial
importância a forma extraordinariamente empenhada e motivada que caracterizou a
participação dos cascalenses e das diversas instituições da sociedade civil de
então nas muitas cerimónias que fizeram parte deste Círio.
O Círio de Nossa Senhora do Cabo Espichel, expressão ancestral de
uma devoção profundamente ligada à terra e à sobrevivência das comunidades dela
dependentes, recupera a antiga lenda do aparecimento de Nossa Senhora a um
saloio de Alcabideche precisamente no ponto de ligação entre Cascais e Sintra.
O investigador Vítor Adrião, no seu livro “Sintra Serra Sagrada”, aponta
expressamente a sobreposição simbólica do Cabo Espichel, promontório sagrado da
Portugalidade, à imagem ideal do Monte Carmelo, eixo de Fé da comunidade
religiosa carmelita que em Cascais veio ocupar e dinamizar o antigo Convento de
Nossa Senhora da Piedade e que, dessa forma, congregou as mais sublimes
expressões da sabedoria sagrada na comunidade Cascalense. Diz Adrião que “os
dogmas teologais terão servido, tão só, de capa protectora, ante o vulgo
profano, ao entendimento iluminado da Sabedoria Divina oculta dentro das
paredes pias deste Colégio de Filosofia, esta que é, sabe-se, o umbral
dialéctico da Teosofia”.
O Círio Sagrado de Nossa Senhora do Cabo, profundamente sentido
pela comunidade cascalense, insere-se assim numa dinâmica de Fé da qual depende
a existência efectiva dos mais ancestrais arquétipos de pensamento de Cascais.
É essa ligação, quantas vezes menosprezada ao longo da História mais recente
desta terra, que determina e possibilita a criação e desenvolvimento dos laços
essenciais de cidadania comunitária na Nossa Terra.
A memória colectiva de Cascais, em 2002-2003 como em todas as
outras vezes em que a Imagem de Nossa Senhora do Cabo por aqui passou, ficou
profundamente marcada por este acontecimento que só se repetirá, no âmbito da
concretização da praxis determinada pelo ancestral círio saloio, em 2032. Nessa
altura, recuperando as memórias calorosas que marcaram o início do Século XXI e
o despontar do novo milénio, Cascais renovará os votos de Fé e devoção que
marcaram sempre a sua História, reforçando os vínculos de cidadania que esta
última visita de Nossa Senhora do Cabo foi capaz de fazer renascer.
A bem de Cascais!
Fotografias da autoria de Sara Liberdade
As Cocheiras do Monte Estoril
por João Aníbal Henriques
A excelência urbana do Monte Estoril, Concelho de Cascais, resulta
da conjugação entre a forma de viver da sua comunidade e a definição criteriosa
do seu espaço comunitário. As casas, as ruas, a decoração dos jardins e até as
técnicas construtivas utilizadas na construção das habitações, dos seus muros
delimitadores e dos seus equipamentos, fazem parte de um projecto global que
pressupõe a recriação de um ideário social bem definido.
Um dos melhores exemplos desta projectada qualidade, até porque
foi sempre imaginado e concebido como um equipamento de índole prática que se
destinava a fins pragmaticamente dependentes do devir quotidiano da localidade,
é o das Cocheiras do Monte Estoril.
Aqui, marcada pelo binómio que se caracteriza em permanência pelo
contraste entre a existência burguesa e a aristocracia tradicional, acaba por
influir na criação de uma nova identidade local, na qual o próprio carácter
cénico da paisagem, do vestuário e da decoração das diversas casas, garante a
manutenção das prerrogativas que mantêm no seu lugar cada uma das partes que
compõem a nova totalidade social.
As Cocheiras do Monte Estoril são, por isso, um exemplo
paradigmático dessa situação. Com uma colocação geográfica extraordinariamente
boa, situada muito próximo da zona mais central daquela que foi na época a mais
nobre das nobres localidades da Costa do Sol, o pequeno complexo das cocheiras
possui características cénicas que permitem entendê-lo como uma espécie de
tradução da sua singularidade face à totalidade do espaço envolvente.
Muito próxima dos outros, de que depende para sobreviver, a
comunidade de assalariados que habita nas cocheiras possui um espaço próprio
que, em termos do seu enquadramento estrutural, se alicerça em princípios estéticos
que lhe garantem não se confundir com as partes restantes da paisagem urbana.
Construídas de raiz para albergar os empregados da Companhia do
Monte Estoril, principalmente os operários que trabalharam na construção da
linha férrea que ligava o Monte Estoril a Pedrouços, as cocheiras possuem no
seu andar térreo uma série de espaços para guardar animais. Com todo o terreno
vago que envolve o Monte Estoril, no qual facilmente se poderiam construir as
instalações necessárias à colocação dos animais, a Companhia opta por
colocá-los em conjunto com os seus operários, demonstrando assim que a
centralidade do espaço construído para esse efeito, contrariamente àquilo que
seria de esperar, não é definidora de uma qualidade e de uma excelência na sua
existência, mas sim de uma certa discriminação, essencial para que se possa
alicerçar a educabilidade que deveria enformar a criação da nova sociedade
estorilense.
Em termos estéticos, a decoração utilizada para a concretização
destas ideias, misto de beleza que deveria envolver uma zona nobre por
excelência, e de uma certa particularidade que garantisse a satisfação da
diferença, alicerça-se na utilização de uma cor diferente daquela que era
utilizada para a generalidade das restantes habitações daquele novo espaço.
Assim, enquanto que o ideal estético da denominada ‘Casa Portuguesa’, com a sua
luminosidade alva nas paredes, envolvida nos pormenores rocambolescos de uma
exuberância que dota aquele espaço de características que o vão transformando
numa zona única em todo o panorama turístico português, assenta na pintura em
tinta branca, fazendo recriar os laços existentes entre a nova vivência e
aquilo que se pretendia consubstanciar como a existência tradicional do País,
as cocheiras adoptam uma luminosidade opaca, baseada nos tons amarelados, ao
qual se apensam alguns elementos decorativos em madeira. A utilização da cor,
marcando a distinção do espaço servil face ao espaço nobre da localidade, e a
decoração em madeira, marcando uma aproximação aos ideais estéticos de índole
romântica que garantiam a dependência de ambos os espaços, é assim fundamento
de uma formalização objectiva do património edificado enquanto elemento gerador
de educação na nova comunidade.
A importância patrimonial das Cocheiras do Monte Estoril é, desta
forma, profundamente dependente da hierarquia social que compôs a localidade na
segunda metade do Século XIX, definindo um enquadramento cénico ao qual não é
alheia a necessidade de construir uma sociedade diferente.
Hoje, quando o Plano Director Municipal de Cascais abre caminho a
uma apreciação casuística de cada uma das peças patrimoniais do município, vale
a pena visitar as recuperadas (e adaptadas) Cocheiras do Monte Estoril, onde é
possível distinguir perfeitamente a inter-dependência que existe entre cada
edifício e o carácter singular daquela outrora distinta localidade Cascalense.
Compreender o Monte Estoril exige uma perspectiva de conjunto.
Cada uma das suas casas; cada detalhe do traçado sinuoso de cada arruamento;
cada uma das pedras aparentemente mal-aparelhada que compõe os seus muros; e até o aspecto algo
arruinado de alguns dos jardins que sobreviveram desde a sua concepção
romântica; faz parte do charme que levou longe o nome de Cascais.
Não compreender este
princípio, que a Companhia Mont’Estoril utilizou na concepção linear da
localidade, é condenar o Monte Estoril de outrora ao desaparecimento,
carregando consigo a excelência pela qual Cascais foi mundialmente reconhecida
em tempos que já lá vão.
quarta-feira
Nossa Senhora da Oliveira e a Igreja Matriz de Samora Correia
por João Aníbal Henriques
A inovação de Nossa Senhora da
Oliveira, misto de várias lendas que congregam uma orientação devocional
ancestral, surge em diversos recantos de Portugal. Sendo maioritariamente do
Século XVIII, no que ao território nacional diz respeito, a lenda remete para
histórias antigas que provavelmente conjugam práticas e rituais pré-Cristãos
que foram sendo progressivamente integrados no culto Católico.
No caso de Samora Correia, onde a
Senhora da Oliveira surge associado à lenda do aparecimento de Nossa Senhora a
uma criança paraplégica a quem ajudou a curar-se, a lenda faz perdurar uma
atípica ligação aos ritos relacionados com o sofrimento e a dor. De facto,
Nossa Senhora da Oliveira é originariamente uma inovação que se fundamenta na
Paixão de Jesus, na Palestina, onde o sofrimento extremo do Senhor é elemento
indissociável da libertação da própria humanidade. E é esta inovação, que está
amiúde relacionada com o sofrimento intolerável da Mãe de Cristo pelo calvário
sofrido pelo seu Filho, que estabelece a relação sincrónica com a criança ribatejana
bafejada com o dom da libertação do seu suplício precisamente pela Senhora da
Dores (ou das Dores) simbolizada pela omnipresente oliveira.
A Mãe de Cristo, por extensão Mãe
da Humanidade no seu todo, congrega no seu sofrimento a dor do seu Filho, reforçando
dessa maneira a entrega total à causa da salvação da humanidade. Na Bíblia,
Nossa Senhora surge descrita precisamente como o fruto privilegiado dessa
árvore importantíssima para a qualidade de vida no médio-Oriente, dizendo-se
mesmo que a sua glória é igual ao fruto da oliveira. A santidade de Nossa
Senhora cumpre-se assim numa abordagem curativa, dela dependendo o povo para o
desvanecimento das suas chagas.
A ligação a São Tiago, que também
lendariamente terá trazido consigo a imagem de Nossa Senhora da Oliveira que se
encontra em Guimarães, estabelece também ele relação com a invocação
ribatejana, em virtude de a Igreja Matriz de Samora Correia, construída em 1721
pelo Padre Henrique a Silva Araújo, sobre as ruínas demolidas de um templo
anterior, pertencer originalmente à Ordem e Santiago da Espada, cuja inovação
surge em paralelo com a da Senhora da Oliveira.
Do espólio da igreja faz parte um
importantíssimo património azulejar contemporâneo da sua construção que, apesar
de bastante maltratado pelo terramoto de 1755 e, posteriormente, pelo grande
terramoto que afectou a região do Ribatejo em 1909, apresenta ainda um nível artístico
digno de uma atenção muito especial. Quase inteiramente dedicado a São Tiago,
cujas armas da ordem militar se encontram pintadas no tecto da igreja, os
painéis de azulejos foram assinados com a sigla P.M.P., retratando o “Mata
Mouros” como monge-guerreiro, numa alusão directa ao esforço da reconquista
Cristã e ao papel que ela teve na consolidação da Identidade Nacional.
Na fachada da igreja, a cerca de
14 metros de altura, nasceram (julga-se que de forma espontânea) uma oliveira e
uma figueira, que do alto da sua vetustez, fazem parte da imagem de marca do
monumento. Estando previsto o seu corte durante as obras de recuperação que
recentemente tiveram lugar no templo, foi amplamente criticado pelo povo de
Samora Correia que conseguiu que se mantivessem como parte integrante do mesmo.
Classificada como Imóvel de
Interesse Público desde 1957, a Igreja de Nossa Senhora da Oliveira de Samora
Correia, impõe-se na paisagem da cidade e no conjunto patrimonial ribatejano,
apresentando um conjunto de incongruências ao nível da definição espacial e da
sua localização que são bastante ilustrativas da realidade religiosa e
comunitárias deste recanto de Portugal.
Parte integrante do antigo
terreiro do Palácio dos Infantado, cuja fachada principal está para ela virada,
a Igreja Matriz de Samora Correia é inultrapassável numa visita ao Ribatejo e é
peça essencial na compreensão daquilo que foi sempre a enorme ligação de
Portugal à figura de Nossa Senhora.
segunda-feira
O Palácio do Infantado em Samora Correia
por João Aníbal Henriques
O Ribatejo, com a sua lezíria
verdejante e as águas pressentidas do Tejo sempre no horizonte, exerce um
ancestral atractivo sobre as comunidades humanas. Desde tempos imemoriais,
provavelmente desde que existe um homem sobre a Terra, que a actual província
do Ribatejo é habitada, nela tendo ficado os vestígios e as marcas de muitos
milhares de anos e de gerações sobre gerações que nela se deleitaram ao longo
do tempo.
É, pois, essa mesmo a explicação
para o nascimento de Samora Correia. Elevada à categoria de cidade em 2009, e
mantendo-se como cabeça de uma das principais freguesias do Concelho de
Benavente, Samora Correia acompanha o processo de reestruturação e açoreamento
do Rio Tejo, em cuja margem esquerda está implantada, alcançando assim as
condições que permitem u assentamento humano mais permanente. A partir do
Século XII, quando Dom Sancho I entregou o seu território nos domínios da Ordem
Militar de Santiago da Espada, Samora Correia conheceu as suas primeiras
grandes construções, nomeadamente o Baluarte de São João Baptista e a primeira
versão daquela que é hoje a sua Igreja Matriz.
As terras de Samora eram,
naqueles idos antigos em que Lisboa era ainda uma miragem longínqua afastada
pelas águas do rio, basicamente reserva de caça dos grandes senhores de
Portugal, que durante bastante tempo foram a razão de ser da importância daquela
terra.
A criação da Casa do Infantado,
no tempo de Dom João IV, com o objectivo de garantir rendimento para os filhos
segundos do monarca, marca o principal ponto de viragem na História de Samora
Correia. A partir dessa altura, o seu território passa a receber a visita
constante das principais figuras da vida Nacional, tornando-se espaço
incontornável na definição da Identidade de Portugal.
O Palácio do Infantado, também
conhecido como Palácio de Dom Miguel ou Palácio da Companhia das Lezírias, é o
principal monumento de Samora Correia, representando de forma óbvia o devir
quotidiano da terra e das suas gentes.
Construído na segundo metade do
Século XVI por iniciativa de Dom Francisco de Bragança (1691-1742), filho do Rei
Dom Pedro II, o palácio era sobretudo um porto de abrigo para os dias de caçada
real de que tanto gostava o infante. Embora apresentasse uma formulação
espacial diferente daquela que ostenta hoje, com um único piso que se
prolongava em frente da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, o palácio era já o
pólo central do processo determinante de exploração do actual território
ribatejano, consolidando uma estratégia de ocupação e de exploração do solo que
culminará, alguns anos depois, com a criação das lezírias tal como hoje
conhecemos.
Tendo sobrevivido ao terrível
terramoto de 1755, que praticamente devastou a região de Lisboa, o palácio
surge nas memórias Paroquiais como tendo sido a morada principal do Infante D.
Francisco.
A ligação ao partido conservador e
absolutista de Dom Miguel, também ele um apreciador do cenário de caça
propiciado por Samora Correia, surge já em pleno Século XIX, quando as forças
do Remexido chegam ao local onde são presas pelos defensores do novo regime
constitucional.
Em termos de cataclismos, o
Palácio do Infantado sobreviveu ainda ao terramoto de 1909, que arrasou quase
por completo as habitações muito precárias do povo de Samora Correia, tendo
sido posteriormente destruído por um enorme incêndio que nele lavrou no ano de
1976. Depois dessa data e de uma série de campanhas de obras que se prolongaram
até 1998, foi totalmente reconstruído tendo angariado a forma que hoje se lhe
conhece.
Pólo central da vida cultural da
Cidade de Samora Correia, o Palácio do Infantado, com a sua localização
privilegiada no largo fronteiro à Igreja Matriz e em pleno coração do núcleo
histórico consolidado da povoação, é hoje espaço incontornável numa visita do
Ribatejo, ali sendo possível perceber com mais rigor a forma como se consolidou
toda aquela tradicional região.
quarta-feira
A Igreja de São Domingos de Rana
por João Aníbal Henriques
Profundamente ligada ao trabalho
da pedra, numa zona do Concelho de Cascais onde as pedreiras e os ofícios de
cantaria assumiam especial importância, a Igreja de São Domingos de Rana é um
dos mais importantes imóveis históricos que fazem parte do Património
Cascalense.
Sem se conhecer a data da sua
fundação, nem tão pouco se a antecedeu qualquer outra espécie de espaço de
culto ou edifício sagrada que tenha anteriormente ocupado o alto da colina onde
se ergue este templo, remete para a lenda e para as tradições orais as
principais indicações que nos permitem compreender o imóvel no contexto da
religiosidade rural do interior do Concelho de Cascais.
Reza a lenda que, algures durante
a Idade Média, os trabalhadores que tiravam pedra das muitas pedreiras
existentes nesta zona, viam amiúde a figura de São Domingos de Gusmão passeando
reiteradamente por aquela zona. O santo, historicamente nascido em Castela em
Junho de 1170 e que foi fundador da Ordem dos Pregadores, mais tarde conhecidos
como Dominicanos, está ligado de forma directa aos rituais de despojamento que
determinam a essência sagrada do culto Cristão em Portugal.
Depois de ter viajado ainda muito
novo até à Dinamarca para participar no acto solene de trazer para a Península
Ibérica a noiva Escandinava do Príncipe de Castela, São Domingos terá ficado
profundamente impressionado com a falta de conhecimentos que aqueles povos
teriam de Cristo e da sua doutrina. Nasce-lhe assim, num acto de inspiração que
muda vida até à actualidade, a ideia de criar uma ordem cujo objectivo
essencial seria o de evangelizar esses territórios, conquistando Almas novas
para o orfeão Cristão. As dificuldades, no entanto, associadas a várias
experiências que o ajudaram a despertar os sentidos e a clarividência,
mostraram-lhe que o Ser Humano não é naturalmente bom nem tem uma natural
propensão para a bondade. Pelo contrário! O apelo do mal e da maldade,
reconhecido nos mais mesquinhos apontamentos da vida de cada comunidade, mostraram
a São Domingos que o único caminho possível em direcção ao Céu e a Deus, era o
da abdicação total e absoluta à mundanidade e à materialidade da vida corrente,
como forma de propiciar a libertação do anjo sagrado que o Santo considerava
que existia dentro de cada um e que se mantinha subjugado pelas tentações
carnais do mundo e da sociedade.
Domingos de Gusmão, com
influência existencial marcada pelo ideário cátaro, liberta-se assim das
pulsões da natureza e determina uma ordem na qual o afastamento do mundo e das
coisas é a regra principal. A Ordem de São Domingos, mendicante de origem, é
assim o repositório mais profundo da ancestralidade mística de Portugal, num
plano de existência na qual a iluminação advém directamente da capacidade de
libertar o espírito do que da compilação da doutrina conventual.
A propensão para locais
recônditos e remotos, dos quais fosse possível obter uma visão periférica e
exterior do mundo, surge em sequência com a escolha lendária do local onde
havia de vir a ser erguida a Igreja de São Domingos de Rana. No cimo da colina
de Rana, da qual é possível abarcar uma paisagem que se estende por terra e
pelo mar ao longos de muitos quilómetros de distância, a actual igreja motiva o
eremita a uma comunhão directa com Deus através de um esforço de contemplação
do qual não está alheada a entrega total e absoluta aos ideias de despojamento
que serão sempre apanágios das mais iluminadas e marcantes figuras da História
de Portugal.
Em termo históricos, a Igreja de
São Domingos que hoje temos é o produto dos restos da antiga igreja construída
no início do Século XVIII e que foi amplamente destruída pelo terramoto de
1755. Há, no entanto, notícia, de que antes dessa data, já em meados do Século
XVI, ali existia um templo Cristão, cujas origens documentais se desconhecem.
A qualidade dos materiais da
igreja, até por ser esta uma terra de canteiros e de pedreiras florescentes, dão
corpo a um dos mais importantes monumentos do Concelho de Cascais. A sua
fachada, altivamente erguida com vista para Sul e para o Estuário do Rio Tejo,
denotada uma riqueza arquitectural que destoa da pobreza tradicional das
povoações da envolvente. As suas duas torres sineiras, uma das quais ostentando
um vetusto relógio de Sol, enquadram-se nos padrões construtivos que deram o
mote à reconstrução do concelho nos finais do Século XVIII e início do Século
XIX; apresentando um porte altivo que contrasta com a singeleza do seu
interior.
Em termos territoriais e devido à
posição estratégica que ocupa perante o território que a envolve, a Igreja de
São Domingos de Rana foi sempre referência essencial para a navegação, servindo
de guia para as entradas e saídas da Barra do Tejo.
Concretizando na solidez do seu
porte a Fé dos habitantes de São Domingos de Rana, a igreja de São Domingos é
um dos mais interessantes atestados do poder que a devoção tem na formação das
comunidades locais, tendo sido ela o principal factor determinante da criação
da própria localidade que a envolve.
segunda-feira
L’Église de Saint Antoine - Un Bastion de la Memoire à L’Estoril
Insérée dans une ambiance cosmopolite, où régne
la logique touristique, l’église de Saint
Antoine de l’Estoril, Qui est devenu un lieu d’excepionnel intéret pour
l’éventuel visiteur, présente une histoire pleine de vicissitudes.
Les premiéres mentions à ce lieu se rapportent
à 1527, quand on appris l’existence d’une petite église en bois dédiée à Saint Roch, avec un autel à Saint Antoine
mis au seuil, construit par Leonor Fernandes, qui deumeurait au “Casal do
Estoril”.
Selon Ferreira de Andrade, le terrain où se
dressait cette petite église appartenait, au XVIéme siécle, à Luis da Maia, Qui
l’aurait dotée à l’ordre de Saint François. Avec das pierres provenant de
l’ancien Couvent d’Enxobregas, les religeux nouveaux-logés ont commencé tout de
suite la construction d’un nouveu temple auquel on a annexé un petit ermitage
et un atélier artistique.
Physiquement, léglise était composée par une
seule nef avec trois autels: Il y avait une image de la Vierge de la “Boa Nova”
sur l’autel principal; dans les autres, il y avait les images de Saint
Dominique et de Saint François. Selon la “Crónica Seráfica da Santa Província
dos Algarves”, où on décrit les bâtiments de l’ordre de Saint François, il y
aurait encore une image de Saint Antoine à côté de l’épitre, sur l’autel
principal. Il y aurait une image du Saint thaumaturge avec plus au moins de
trois pieds de haut, où se trouve aujourd’hui la croix, tout près du parvis de
l’actuelle église. Les primitifs carreuax vernissés datés de 1719 et de 1751,
dénotent una noble qualité de production artistique.
Presque entiérement détruite par le tremblement
de terre de 1755, l’église a souffert, au XVIIIéme siécle, de grandes
transformations. Commencé en 1756 sur l’initiative du gardien du temple, Frei
Basílio de São Boaventura, le chantier de récupération a été fait sur un rythme
extraordinairement rapide. On a pris connaissance en 1758, deux ans après son
commencement, que les travaux de reconstruction de l’autel étaient déjà
terminés, avec as actuelle sculpture dorée. Le même religieux, soigneux,
exécuteur de ses devoirs, a élargi encore le choeur vers le parvis, à peu près
douze pieds, en le dotant de trois larges fenêtres sur la façade intégralement
effectuée en pierre de taille, ainsi qu’on la trouve aujourd’hui, et l’image de
Saint Antoine placé dans un niche qui si trouvait au-dessus.
En 1834, quand les ordres religieux ont
disparu, le Couvent a été vendu aux encheres à Manuel Joaquim Jorge, qui a
construit dans les terrains annexes un bâtiment de rapport, qu’il louait
pendant l’époque estivale fut remisse à la confrérie de Saint Antoine de
l’Estoril.
Néanmois, l’histoire de cette église ne finit
pas ici, une fois qu’en 1927 un incendie a détruit le temple reformé du Viéme
siécle. Le combat engagé contre le feu par les pompiers es divers corporations
presentes, a permis la récupération d’une grande partie du mobilier, du
crucifix de l’autel, des chandeliers d’argent et de plusieurs objets du culte.
Le projet de Tertuliano Marques a permis sauver
quelques anciens carreaux vernissés et maintenir l’esquisse original du
bâtiment, en lui accroîtant les fresques de l’actuel toit, dont l’auteur est
Carlos Bonvalot, Qui a acore dressé quelques nouveaux carreaux vernissés qu’on
y trouve encore aujourd’hui.
En 1929, à la cérémonie d’ouverture de la
nouvelle paroisse de l’Estoril, déjà sur l’orientation du Monseigneur Moita, on
a trouvé le temple avec son actuel aspect, une espéce de bastion de la mémoire
d’un Estoril d’autrefois.
terça-feira
O Castelo de Arraiolos no Alentejo
por João Aníbal Henriques
Quando se chegada à Vila de
Arraiolos, num qualquer final de tarde estival, é impossível ficar imune à
beleza do recorte extraordinário do horizonte que envolve a sua paisagem. Por
detrás do casario, que parece ouvir-se chiar mercê do calor imenso que a inclemência
do Sol teima em provocar, vislumbram-se as sombras inquietas do velho castelo
medieval, erguido numa época longínqua quando Portugal ainda não sabia o quanto
iria durar.
O Castelo de Arraiolos, prenhe de
História e de histórias, ocupa o alto da colina de São Pedro que
estrategicamente serve de miradouro à localidade. Ali, desde tempos imemoriais que
se acoutaram homens procurando discernir e prevenir ao longe os ataques e
investidas dos inimigos que a sua condição os havia feito ganhar. Foi dali, em
assentamentos que a arqueologia já provou que se prolongam desde a
Pré-História, que os primeiros homens se dedicaram a estudar a natureza, fermentando
as ideias que hão-de gerar o sedentarismo que hoje vivemos.
As muralhas velhas que hoje ali
vemos, e que testemunham os últimos anos desta história extraordinária, são
originárias do Século XIII, quando o Rei Dom Afonso II efectua a doação da
chamada ‘Herdade de Arraiolos’ ao Bispo de Évora. Nesse documento,
provavelmente motivado pelo clima de crescente animosidade vivida com os
vizinhos Castelhanos, surge pela primeira vez a menção à necessidade de ali ser
construído um castelo.
Não se sabendo se esta ordem de
construção foi cumprida, ou pelo menos em termos parciais, mas sabe-se, no
entanto, que durante o reinado de Dom Dinis o monarca determina a construção de
novas muralhas com o intuito de reforçar a segurança do lugar e, dessa maneira,
de motivar a instalação de novos habitantes que o viessem povoar. Em 1306, o
Rei concedeu à povoação uma verba de 2000 libras para o início dos trabalhos,
tendo escolhido o Mestre João Simão para as planificar.
A confirmação do Foral de
Arraiolos, no ano de 1310, veio encontrar o novo castelo já terminado, fazendo
menção à existência da Igreja Matriz do Salvador, pitorescamente colocada no
ponto mais alto do lugar.
No tempo de Dom João I, depois da
grave crise de 1383-85, o novo Rei oferece Arraiolos ao seu braço-direito, D.
Nun’Álvares Pereira, a quem é entregue o título de Conde de Arraiolos. O
Condestável, firmemente decidido em contribuir para o sucesso do projectado
Portugal, entrega-se ali aos desígnios do céu e será a partir da Igreja do
Salvador, num acto profundamente vincado pela Fé que corporiza a sua
intervenção militar, que prepara as muitas incursões que chefiará contra
Castela que virão a traduzir-se de forma cabal nos mais importantes argumentos
a apoiar a causa Nacional.
O Santo Condestável, mais tarde
convertido por completo à regra do claustro, preparará em Arraiolos o seu
percurso de iniciação religiosa, ali bebendo, provavelmente das fontes árabes
que se foram conservando, os ensinamentos e a sabedoria que culminará na sua
entrada no Convento do Carmo, em Lisboa, e na completa e total abdicação da materialidade.
No que concerne ao castelo, a principal
nota da sua longa história prende-se com a reiterada queixa por parte dos
moradores de diversas eras relativamente ao desconforto dos ventos que o
fustigavam. Ainda no esplendor da Idade Média, quando as paredes estavam novas
e ofereciam a segurança que a população desejava, foram muitas as queixas
daqueles que alegavam ser difícil passar as noites no cimo do monte. Mesmo
depois de se fecharem as portas, correndo o risco de desagradar aos moradores
do espaço situado fora das muralhas que ficavam à mercê dos acontecimentos, a
generalidade da população acordava em que era impossível ficar lá dentro.
Terá sido esse o motivo, aliás
que terá determinado um progressivo abandono do espaço amuralhado em prol do
assentamento nas imediações do castelo, formando aquilo que é a Vila de
Arraiolos que hoje conhecemos. A população, transportando consigo as pedras das
suas casas antigas, desce da colina em direcção à planície circundante, fazendo
da nova povoação uma espécie de cópia directa do povoamento original.
Dentro das muralhas, no perímetro
mais antigo, subsistem actualmente a Igreja de São Salvador e os restos do Paço
dos Alcaides que o terramoto de 1755 acabou por arruinar definitivamente.
No início do Século XX, quando o
Rei Dom Carlos visitou Arraiolos, eram já as ruínas muito destruídas do velho
castelo que ele vai encontrar, não se conhecendo desde essas altura campanhas
de obras dignas desse nome que tivessem o objectivo de o recuperar.
Arraiolos, com o seu castelo
altaneiro, é hoje um dos quadros mais impressivos do Alentejo. A beleza do seu
horizonte, mesclado com o colorido das casas, tem o condão de nos transportar
para outras eras e para outro tempos, se sair do mesmo lugar.
Vale mesmo a pena passar um dia
inteiro por lá!
segunda-feira
A Capela de Nossa Senhora da Graça em Tires
por João Aníbal Henriques
Dizem os eruditos que a pequena
capela de Tires foi dedicada a Nossa Senhora da Graça num acto de gratidão
pelos benefícios recebidos pelos pescadores de Cascais, em 1362, quando foram
libertados do jugo administrativo de Sintra.
O templo, no entanto, é muito
mais recente, e embora não esteja datado em termos documentais, tal como acontece
com a generalidade de espaços de culto semelhantes, será provavelmente
originária do Século XVI ou XVII.
De planta simples e uma só nave,
integra-se esta capela na tipologia mais comum dos monumentos de cariz rural e
de estilo chão, espraiando a devoção dos habitantes mais humildes e geralmente
ligados de forma perene à terra e à sua produção.
A inovação da Senhora da Graça, “Ó
Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”, remete-nos
para um universo religioso profundamente marcado pelas devoções antigas que
proliferaram no actual território de Cascais desde tempos ancestrais. A
concepção imaculada da Virgem-Mãe, arquétipo primordial da religiosidade
pré-Cristã em Cascais, denota precisamente essa ligação à terra e aos ciclos da
fertilidade, conduzindo-nos, numa linha mística repleta de significado, para a
própria essência profunda e sagrada de Portugal.
De facto, Nossa Senhora da
Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal, foi sempre elemento indissociável
das graças concedidas a este País, num fluxo constante de oração e Fé que marcou de
forma indelével os mais importantes momentos da nossa História. O apelo à
Rainha, mãe ancestral de todos aqueles que utilizam a força da natureza como
bitola definidora das suas escolhas materiais, num «Ó» de súplica que fomenta os
mantras sonoros típicos da sabedoria mais avançada, faz-se precisamente através
de um acto de entrega total e absoluta à vontade de Deus numa ligação profunda
ao martírio de Cristo em defesa dos seus pares.
Em Tires, Nossa Senhora da Graça
é assim espaço de memória que se define a partir do fulcro mais importante da
existência cultural da localidade. Com a sua estética simples, num corpo em que
a única nave abre caminho simbólico em direcção ao céu, são de sublinhar os
elementos decorativos esculpidos na pedra calcária da porta principal, nos
quais a flor, natureza em movimento, nos transporta para a concepção onírica
dos planos mais elevados. A torre sineira, simples na sua formulação, mas
perfeita na forma como se integra na estética do lugar, prima pela
proporcionalidade que fomenta o carácter da capela.
A Capela de Tires, no centro
nevrálgico da localidade, é assim uma espécie de eixo definidor que nos permite
conhecer melhor Portugal e a história recente das gentes anónimas de Cascais. Deve
ser conhecido e reconhecidamente integrado na vocação turística deste lugar.
A Igreja de São Vicente de Alcabideche
por João Aníbal Henriques
A Igreja de São Vicente de
Alcabideche é o principal monumento religioso daquela importante freguesia de
natureza rural do Concelho de Cascais. Embora seja de origem recente na sua
formalização histórica, uma vez que as primeiras referências que sobre ela
existem são do Século XVII, quando ali foi fundado o Compromisso do Santíssimo
Sacramento, terá sido muito provavelmente antecedida por outros espaços de culto
dos quais se perdeu memória.
Sucessivamente destruída por cataclismos
naturais, nomeadamente pelo grande terramoto de 1755, o templo foi várias vezes
reconstruído e adaptado, chegando assim à formulação singela e em estilo chão
que actualmente apresenta.
O espaço onde o templo foi
construído, num dos pontos estrategicamente mais relevantes da antiquíssima
localidade de Alcabideche, deixa antever os vestígios daquilo que foi a Igreja
de São Vicente noutras épocas e até em períodos em que existiam outras formas de
religião. Em redor da capela, num espaço repleto de vestígios arqueológicos
cronologicamente situados entre o Neolítico, o período Romano e a modernidade,
foram encontrados vários vestígios de construções anteriores. Ainda hoje,
encastrados nas paredes antigas das casas do largo e mesmo no interior do
templo, existem várias lápides, estelas discóides e cantarias que comprovam a
utilização antiga daquele espaço.
Na nave da igreja, situada à
entrada logo a seguir à Pia Baptismal, está colocada uma antiga estela
medieval, ostentando a Cruz de Cristo e a Flor-de-Lis, num apelo sentido à
profundidade cultual de Alcabideche. Noutros pontos, fruto da reutilização de
materiais que foram recuperados de ruínas que a precederam, existem vários
exemplares de cantaria trabalhada manuelina, evidenciando que a data
setecentista que se aponta como origem do templo, nada mais representa do que
um dos momentos de reconstrução do mesmo.
A ligação a São Vicente, na linha
da complexa orientação da Identidade Municipal de Cascais, recupera os valores
essenciais da ocupação islâmica de Alcabideche. A temática dos corvos, que
lendariamente terão impedido o corpo do mártir cristão de ser devorado
pelos abutres, surge num contexto simbólico bem visível na história da localidade.
Alcabideche, ou Al-Qabdaq na sua grafia árabe, está desde há muito ligada às
dinâmicas da natureza que se espraiam nos ciclos agrícolas e na dependência da
fertilidade. Quando Abu Zaid Abd-Arh Ramãn Ibn Mucane cantou os moinhos de
vento de Alcabideche, já eram as aves de rapina, enquanto repositório do rol de
preocupações que toldava a felicidade quotidiana da população, as referências
essenciais num apelo sentidode dependência da terra e dos frutos que ela dava.
O corpo do mártir São Vicente, e
a sua aventurosa viagem de partidas e retornos por terra, pelo ar e pelo mar,
nem sequer escapou à ira do fogo, cuja dimensão simbólica nos arrasta de forma imediata
para os mais complexos universos da purificação e expiação dos pecados mortais.
Alcabideche é, dessa forma,
espaço de limpeza espiritual, num plano que o Cristanismo foi capaz de integrar
no dia-a-dia da comunidade. A Igreja de São Vicente, testemunha antiga dos
rituais de outrora, é também ela ponte de ligação entre as muitas gerações que
sucessivamente vêm vivendo a sua vida nesta localidade, consolidando um pleito de cidadania que faz convergir vontades e formas de estar.
sexta-feira
Milagre de Novembro em Cascais
Eu sou aquelle, que Cascaes já vi,
eu sou o que Cascaes não vejo já,
de quanto era dantes fumos dá,
e tudo he fumo o que contém em si.
Frei António do Espírito-Santo
Mestre de Filosofia do Convento de Nossa Senhora da Piedade
em Cascais
1756
por João Aníbal Henriques
Eram 9h45 da manhã desse dia 1 de Novembro de 1755 quando a Vila de Cascais viveu o pior cataclismo da sua História. Depois de um início de dia calmo e ameno, que fez sair a população das suas casas para se dirigir às igrejas e capelas para assistir à Santa Missa do Dia de Todos-os-Santos, começaram a ouvir-se ao longe os rugidos tremendos oriundos das entranhas da terra e a sentir-se os primeiros tremores que anunciavam o terror que estava para vir.
Assustados, os Cascalenses de
então refugiram-se na oração e, de dentro dos espaços sagrados de Cascais,
assistiram incrédulos à completa destruição da sua terra. À medida que os
abalos iam aumentando, fazendo cair pedras e as paredes velhas, aumentava o
clamor do rugido que se ia misturando com a gritaria enlouquecida da população
com a visão turvada pelo medo e pela morte. E como se não bastasse, porque a
natureza foi especialmente truculenta naquele dia nefasto, num instante
transbordaram as águas da Ribeira das Vinhas que encheram a vila e provocaram
afogamentos sem igual. O mar, enraivecido também ele pelo desastre que se
abatia sobre Portugal, galgara os rochedos e entrava livremente em Cascais, esmagando
com a sua força muitos daqueles que procuravam sobreviver à desgraça geral.
Não tendo outro local para onde fugir, um grupo de Cascalenses refugiu-se dentro da frágil Capela de Nossa Senhora da Conceição, ali procurando a protecção divina contra a desgraça que imperava ao seu redor. Unidos pela sua Fé, fizeram um voto a Nossa Senhora dos Inocentes pedindo protecção contra o desastre que enfrentavam. E, tendo sido ouvidos pela Senhora da Conceição, que logrou salvar a singela capelinha dos fenómenos desastrosos que por todos os lados a atacavam, salvaram-se todos os que ali se tinham abrigado. Agradecidos pela mercê, criaram uma irmandade que tinha como principal objectivo o cumprimento do voto feito a Nossa Senhora, consignado numa Procissão que aconteceu anualmente até 1920, sempre com a presença de todo o povo de Cascais.
O milagre de Nossa Senhora da
Conceição dos Inocentes, perpectuado em Cascais através da singela presença do
antigo templo, é marca perene da devoção ancestral dos Cascalenses à
sacralidade primordial da Senhora da Conceição. Simbolicamente agregada aos
arquétipos ancestrais da fertilidade, congregando em seu torno o papel de mãe e
protectora que ilumina aqueles que têm Fé na sua mensagem, a ritualidade
mística que envolve esta devoção é inquestionavelmente um dos alicerces
principais da vivência sagrada da vila de Cascais.
Não se conhecendo com rigor a
data de construção da capela, mas inferindo que o ano de 1609 que consta no
cruzeiro construído ao seu lado poderá corresponder ao início da sua
edificação, a Capela de Nossa Senhora da Conceição dos Inocentes, para onde se
transferiu o culto religioso depois de o terramoto ter destruído quase por completo
todas as restantes igrejas e capelas da vila, apresenta uma planta simples à
qual foram adicionados, já em meados do Século XIX, os dois corpos laterais, em
linha com aquilo que era a tradição mais antiga da religiosidade de raiz rural
que proliferava junto da população.
Passando hoje bastante
despercebida no caminho de veraneio para o paredão, a Capela de Nossa Senhora
da Conceição dos Inocentes carrega consigo uma das principais memórias de
Cascais e aquela que é a pedra basilar da Identidade Municipal dos Cascalenses.
O milagre de Novembro de 1755, quando se passaram já 261 anos desde aquela
manhã faídica, é a prova cabal da ligação dos Cascalenses ao poder da Fé e à
inequívoca capacidade que sempre demonstraram ter de viver de forma assumida os
valores e os princípios que nortearam o seu devir existencial.
quinta-feira
A (in) Dignidade da Morte em Cascais
por João Aníbal Henriques
A morte faz parte da vida e é um
momento pelo qual todos os seres humanos estão condenados a passar. Apesar
disso, é daqueles fenómenos que geralmente nos passa ao lado, que acontece aos
outros e que procuramos manter a distância para nos defendermos da sua
permanente proximidade… no momento em que a legalização da eutanásia em
Portugal está na ordem do dia, vale a pena reflectir calmamente sobre as reais
implicações da vida e da morte no nosso dia-a-dia.
Por iniciativa do bloco de
esquerda, deu entrada na Assembleia da República uma petição solicitando a
legalização da eutanásia. O documento, assinado por dezenas de pessoas e muitas
individualidades com prestígio junto da sociedade Portuguesa, surge numa linha
de defesa intransigente do denominado ‘direito à autodeterminação’ de cada um,
e sustenta-se numa pretensa defesa da dignidade da morte e de combate ao
sofrimento.
Para os defensores da eutanásia, o
acto de matar alguém cujo prognóstico médico já não permite longevidade na duração
da sua vida, é um acto de misericórdia para com o doente e ajuda a preservar a
sua dignidade durante os seus últimos momentos de vida.
Mas a dignidade da vida não pode medir-se pela bitola do sofrimento. Pois se assim fosse, todos aqueles que por
infortúnio da sorte sofrem durante a sua vida, seriam indignos também… E não
são. O sofrimento, seja ele causado pela dor provocada por uma doença ou por um
acidente, pela morte de alguém que nos é muito querido, pela perda do trabalho
ou por qualquer outro motivo de entre tantos que infelizmente afectam a
humanidade, é parte integrante da vida e deve ser vivido de forma digna até ao
fim, sendo que cabe à sociedade encontrar respostas que permitem minorá-lo e resolver as causas que o provocaram. É esse o pilar principal da solidariedade que nos humaniza!
Na petição que solicita a
legalização da eutanásia, defende-se que o combate ao sofrimento se faça
através da morte. Mas, como bem refere a nota da Conferência Episcopal
Portuguesa sobre a mesma eutanásia, “não se elimina o sofrimento com a morte:
com a morte elimina-se a vida da pessoa que sofre”. E é completamente diferente
o modo de fazer e o resultado destas práticas antagónicas. Compreender o
sofrimento, conhecer as suas causas e debelá-lo de todas as maneiras possíveis,
é uma obrigação da sociedade perante aqueles que sofrem. Matar, pura e
simplesmente, aquele que sofre, é contornar a sua causa e provocar artificialmente
uma resposta final, sem possibilidades de reversão, que acaba com o efeito
mantendo aquilo que o causou.
Na História recente do Mundo,
temos infelizmente muitos exemplos de gente que defendeu práticas semelhantes
para resolver problemas idênticos. Na Alemanha dos anos 30 do século passado, a
morte dos inaptos (por diversos motivos que os dirigentes e então identificaram
como válidos), foi a solução encontrada para resolver os problemas.
Consequência principal: à sombra da argumentação que defendia a morte
assistida, morreram muitos milhões de inocentes com implicações psicossociais
únicas na configuração da civilização em que hoje vivemos.
Dirão alguns que a comparação é
excessiva. Dirão outros que no caso em apreço serão decisores médicos aqueles
que, com critérios científicos, avalizarão a sua concretização. Mas não é
assim. Nos países que já legalizaram a eutanásia, multiplicam-se os exemplos de
situações em que o critério que presidiu à decisão da morte foi um conceito
abstracto de “sofrimento intolerável”. Mataram-se pessoas que sofriam por estar
vivas e já não desejavam continuar a viver; mataram-se pessoas com desgostos
variados que as colocavam num sofrimento atroz; e até se mataram crianças que
padeciam de doenças graves e que nem sequer foram elas a escolher!
E em todos esses casos, teria
sido sempre possível defender a dignidade da vida, ajudando essas pessoas a
encontrar novos caminhos, novas alternativas e a recuperar o sentido e o valor da
sua vida. E nos casos de doença, seria também possível, com os conhecimentos
médicos que hoje temos, garantir o controle da dor física e reforçar de forma
humanizada a resposta aos padecimentos de outro género que aqueles pacientes
estavam a viver.
Mas a eutanásia pressupõe uma
solução mais rápida e limpa, em que a sociedade vira as costas de forma
simples aqueles que estão a sofrer e em que ratifica o acto da morte como forma
de resolver o problema.
E isso é indigno da nossa
humanidade. É indigno do dom da vida e da condição civilizacional que
actualmente ainda temos.
Para ajudar a aprofundar este
tema, procurando dar um contributo sereno e humanizado para a discussão que
agora começa, a Paróquia de Cascais recebeu recentemente Isabel Galriça Neto e
Pedro Vaz Pato para uma conferência sobre e eutanásia que decorreu no Centro
Cultural de Cascais. Com lotação esgotada, foram muitos aqueles que ouviram as
explicações dos dois especialistas sobre as várias questões associadas a este
problema e que perceberam as reais implicações que a eventual aprovação desta proposta virá trazer.
Os argumentos, compilados na nota
pastoral que a Conferência Episcopal Portuguesa agregou num documento sobre o
que está em jogo na eutanásia (ver AQUI), são simples de compreender. Não se
trata de questões ideológicas ou de convicções religiosas. Trata-se tão somente
da defesa da dignidade da vida e da responsabilidade que perante ela todos nós
temos.
Nota: Fotografias da conferência são propriedade da Paróquia de Cascais no Facebook
Nota: Fotografias da conferência são propriedade da Paróquia de Cascais no Facebook
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