segunda-feira

A Torre do Galo e a Real Barraca da Ajuda




por João Aníbal Henriques

Porque o destino sempre se impõe à realidade, o desastre fatídico que destruiu a cidade de Lisboa no dia 1 de Novembro de 1755, não afectou directamente o Rei nem a Família Real. Por vicissitudes várias e naturalmente alheias ao terramoto, o Rei Dom José, a sua mulher e os filhos, encontravam-se no Palácio de Belém naquela ocasião terrível. O Paço Real, situado na zona fronteira ao Cais das Colunas, em pleno Terreiro do Paço, ficou exactamente no epicentro do sismo, tendo sido a zona mais destruída da Cidade de Lisboa.

Mas o monarca, que imediatamente visitou a cidade para tomar nota dos estragos produzidos, ficou bastante abalado psicologicamente pelo cataclismo. Regressado a Belém, zona considerada de menor actividade sísmica, afirmou categoricamente que nunca mais voltaria a viver em edifícios feitos de alvenaria e pedra. Para resolver a situação, e ainda com medo de eventuais réplicas que ainda devastassem mais a cidade, o Rei mandou construir, na Quinta da Ajuda, um enorme palácio real, feito de madeira e de materiais leves, cuja estrutura marcou de forma indelével a paisagem e o imaginário lisboeta durante muitos anos.




O palácio de madeira, conhecido popularmente como a Real Barraca, ocupava uma vasta zona sobranceira a Belém. Foi a sua estrutura, marcante do ponto de vista paisagístico mas também determinante para a consolidação urbana desta parte da cidade, quem ajudou a definir os novos arruamentos e o espírito urbanizador do novo bairro.

Agregado ao palácio abarracado, na denominada Quinta da Ajuda de Cima, foi também construída uma Capela Real, que tinha como principal função substituir a Igreja Patriarcal que tinha sido bastante abalada pelo terramoto. Também elaborada em madeira, com traço de Elias Sebastião Pope, a Capela Real integrava o único apontamento em alvenaria existente no conjunto original. A sua torre sineira, projectada pelo Arquitecto Manuel Caetano de Sousa, começou a ser construída em 1792, funcionando como Patriarcal de Lisboa até 1833, quando regressou à Sé de Lisboa.




Tendo perdido a sua funcionalidade, foi a antiga patriarcal de madeira mandada demolir no Século XIX, tendo restando unicamente a velha torre sineira.

Sendo hoje uma imagem de marca do Bairro da Ajuda, que conta com o galo em ferro forjado que encima a torre como seu símbolo heráldico, a Torre da Ajuda causa estranheza a quem dela se acerca sem conhecer a sua história. A sua monumentalidade, assente numa altura de muitos metros que a faz sobranceira ao próprio Palácio Nacional, a torre integra oito sinos que dão corpo à sua estrutura principal. Na cúpula, é o cata-vento em forma de galo, feito em ferro forjado, que lhe dá o cunho de estranheza que a torna tão imponente…




Em termos formais, a denominada Torre do Galo apresenta uma morfologia muito semelhante àquela que foi utilizada no Palácio das Necessidades e no Palácio de Mafra, sendo porventura um decalque do mesmo modelo que foi aproveitado para este efeito.  

Com a destruição da antiga Real Barraca por um incêndio e com a demolição da Capela Real, a velha torre ficou perdida no meio de um terreiro transformado em parque de estacionamento. Pelo que representa em termos da historiografia de Lisboa, pelo impacto que tem na paisagem da cidade e na definição do imaginário colectivo da Ajuda e de Belém, merecia que ali se concretizasse um projecto de valorização qualquer. Os escassos metros que a separam do palácio actual, com um murete de separação que regula o desnível produzido pelo terreno, não faz nenhum sentido, representando um verdadeiro atentado patrimonial à memória dos Portugueses.

Dom Diogo de Menezes – Heróis & Traidores em Cascais




Entre 1580 e 1640, Portugal atravessou um dos mais negros períodos da sua História e Cascais desempenhou um papel essencial neste triste episódio. A traição do então Senhor de Cascais, que num acto hediondo vendeu a Nossa Terra à Coroa Espanhola, contrastou com a coragem heróica com a qual D. Diogo de Menezes defendeu Portugal. Pagou muito caro pela sua lealdade e foi indignamente executado na Cidadela de Cascais em 1580, deixando atrás de si uma lenda de glória que o tempo não vai conseguir destruir…

por João Aníbal Henriques

A perda da independência nacional, em 1580, foi um dos episódios mais negros da História de Portugal. Fruto da imberbe actuação do Rei Dom Sebastião no Norte de África, e dos muitos interesses que desde sempre corporizaram o poder político Português, o país mergulhou na sua maior crise de sempre, entregando o trono de Portugal ao usurpador Espanhol.

Apesar do então Senhor de Cascais ser traiçoeiramente partidário das pretensões de Filipe II de Espanha, o povo de Cascais não hesitou em apoiar a causa de Dom António, Prior do Crato, participando activamente na sua aclamação como Rei de Portugal. Até à implantação da república, em 1910, manteve-se na toponímia Cascalense uma homenagem sublime ao monarca Português, consubstanciada numa “Rua D. António I”, representando simbolicamente o leal apoio de Cascais à Causa Nacional.




Nessa altura crítica, quando o Rei Dom António escolhia os seus mais fiéis e bravos apoiantes para defender Portugal do avanço das tropas Espanholas, D. Diogo de Menezes, que tinha sido Governador de Ormuz e Vice-Rei da Índia, foi nomeado General e colocado como Comandante da Fortaleza de Cascais.

Soldado experiente e bem preparado, D. Diogo de Menezes organizou as suas parcas forças de forma a assegura a inexpugnabilidade da fortificação Cascalense perante o ataque Espanhol. E, quando no dia 27 de Julho, o Duque d’Alba desembarca em Sesimbra, Cascais estava a postos para defender Portugal.

Mas o Senhor de Cascais, acompanhado da sua cáfila de meia-dúzia de traidores, empenha-se em entregar aos invasores informações detalhadas sobre a defesa da terra, permitindo ao Duque d’Alba desembarcar inesperadamente na Lage do Ramil, junto ao Farol da Guia. E, não satisfeito com a sua traição, organiza a corja que o acompanha de forma a conseguir abrir as portas da fortaleza, onde D. Diogo de Menezes defendia activamente a Causa Portuguesa.

Derrotado pela diferença abissal de forças entre o seu pequeno contingente Cascalense e a enormidade do exército Espanhol, Diogo de Menezes é capturado depois de uma batalha renhida e terrível e invoca as leis da honra e da cavalaria para, em conformidade com a sua alta posição hierárquica dentro das tropas do Rei Dom António, o deixarem regressar a Lisboa para ajudar o monarca. Mas o invasor Espanhol, num acto que subverte a própria honra militar, manda executar o herói Português na própria parada da fortaleza…




Conta o historiador espanhol António de Herrera  y Tordesillas que “eram quatro da tarde e estava a praça apinhada de piques e arcabuzes alemães, e no meio dela via-se o cadafalso, onde o sangue nobre ia sujar os brasões de um dos maiores de Espanha, fazendo-o expiar as nódoas estampadas pela venialidade de haver esquecido quem era e o que devia aos seus antepassados e ao reino de Espanha”…

E na mesma linha, sublinhando a dignidade heróica de D. Diogo de Menezes na defesa corajosa da liberdade de Portugal, Ferreira de Andrade não hesita em indicar a traição do Senhor de Cascais como um dos actos mais ignóbeis da nossa História, em linha com a falta de dignidade e de honra que caracterizou a decisão brutal do Duque d’Alba: “Assim morreu nesta vila de Cascais um dos mais nobres e honrados fidalgos de então, pelo crime horrendo de ser Português. Uma mancha de sangue marcaria para sempre, como um estigma de ignomínia, os gloriosos feitos do grande general de Filipe II”.

D. Diogo de Menezes, heróico defensor da Portugalidade, morreu em Cascais a lutar ao lado dos Cascalenses pela defesa da independência de Portugal.  A sua memória, parte maior da Memória de Cidadania desta Nossa Terra, é pilar estrutural da Identidade Municipal.

Promover a memória dos seus feitos e a coragem que demonstrou ter na defesa de Portugal, é assim obrigação de Cascais, onde o seu sangue jorrou perante o desespero dos Cascalenses de então. Porque dos ecos da sua grandeza se retiram lições fundamentais para preparar o futuro das próximas gerações…

quinta-feira

A Quinta da Alagoa em Carcavelos (Cascais)




por João Aníbal Henriques

Edificada dentro do parque municipal a que dá nome, a Quinta da Alagoa situa-se muito perto do centro da povoação de Carcavelos, no extremo Nascente do concelho de Cascais. Conjugando dois estilos arquitectónicos distintos, uma parte do século XVI e um palacete de finais do século XVIII, a Quinta da Alagoa pertenceu, até 1983, aos Morgados da Alagoa, à família do Eng.º D. Vasco Belmonte. Até essa altura, mercê da grande quantidade de vinha que possuía e da mata que envolvia quase toda a propriedade, foi um dos locais importantes da freguesia de Carcavelos, uma vez que era aí, mais do que em qualquer outro lugar, que se produzia o famoso Vinho de Carcavelos, que possuía projecção internacional e que serviu de base à criação de uma zona demarcada.

Na primeira metade da década de oitenta do Século XX, por necessidades várias, a família de Alagoa acorda com a Câmara Municipal de Cascais a cedência de todo o espaço. No protocolo assinado nessa época, previa-se a manutenção de toda a zona rural, bem como a utilização do palacete e antigo convento como espaço cultural, ao serviço da população de Carcavelos. Ainda nesse documento, foi estipulada a adaptação de uma parte imóvel para sede dos escuteiros locais.




Dessa data até 1986, não mais se ouviu falar da Quinta da Alagoa, sendo que, dois anos após a transacção, o antigo Jornal da Costa do Sol, em artigo publicado nas suas páginas, alerta as entidades competentes para o facto de numa dessas noites ter sido completamente destruído o recheio do imóvel, juntando mesmo uma fotografia do palacete, com portas e janelas abertas mas ainda com telhado. A então Câmara Municipal de Cascais, em resposta a tão categórico artigo, responde que não possuía verbas  para proceder a uma vigilância contínua ao local, pelo que, segundo a mesma entidade, a destruição que o Jornal da Costa do Sol  mostrava nas fotografias se ficava a dever a uma noite de vandalismo dos jovens locais!




Após a urbanização da quase totalidade do espaço envolvente, a Quinta da Alagoa foi sujeita ao mais completo desprezo que se prolongou ao longo de vários anos. Em 1990, uma vez mais, o mesmo Jornal da Costa do Sol publica novas fotografias do sítio. Nesta data, para além dos problemas já anteriormente mencionados, acrescenta-se o facto de ter desaparecido por completo o telhado do imóvel.

Com a aproximação das eleições autárquicas o assunto caiu no esquecimento, e a esperança de uma mudança assolou o coração dos habitantes das redondezas. No entanto, para desespero de todos, e embora existissem diversos projectos para o local, nada foi concretizado, e a Quinta da Alagoa continuou ao abandono…




Em Junho de 1994, inesperadamente, o então executivo da C.M.C. anuncia publicamente a assinatura de um protocolo com a E.I.A. - Ensino, Investigação e Administração, visando a construção neste local de uma universidade. O alto patrocínio do Presidente da República, bem como a brevidade do anúncio, um dia antes da assinatura do protocolo, veio levantar alguma celeuma, uma vez que um terreno público passaria a ser explorado por particulares. Por outro lado, os trâmites legais não foram completamente respeitados, como viria a ser confirmado pela Assembleia Municipal em 01. 06. 1994, que declara a aprovação do protocolo como ilegal, baseado no facto de este órgão não ter sido consultado antes da assinatura do mesmo, como estava previsto na lei. A Associação de Moradores da Quinta da Alagoa, que representava todos aqueles que compraram as suas casas nesse local com a condição de os terrenos da velha quinta se destinarem a uso público, também não foram consultados, tendo feito um abaixo-assinado para travar o projecto.

Neste ano de 2017, comemoram-se 27 anos desde este triste incidente e a Quinta da Alagoa, de forma surpreendente, mantém o estado de abandono e de ruína que a devastação dessa época lhe havia granjeado.




Sendo repositório privilegiado das memórias daquela localidade, nela se centrando os testemunhos ainda vivos da exploração outrora rendosa do afamado Vinho de Carcavelos, e sendo o palácio e antigo convento peças exemplares do Património Cascalense, será aceitável o que por ali se continua a passar? 

A Igreja de Nossa Senhora dos Remédios em Carcavelos




por João Aníbal Henriques

O orago de Nossa Senhora dos Remédios remete-nos para as memórias mais ancestrais da humanidade De facto, a Senhora que cura e cuida dos seus filhos, reminiscência simbólica das práticas de sociabilização que acompanham o nascimento do conceito de família, tem o seu apogeu nos primórdios do período Neolítico, quando os primeiros assentamentos humanos abandonam nomadismo e adoptam estilos de vida marcados pela sedentarização.

A Senhora dos Remédios, que o lendário Português associa directamente aos perigos e perseguições sofridas pelos primeiros Cristãos durante o descalabro que acompanhou a queda do Império Romano, é assim simultaneamente a histórica Mãe de Jesus e a figura épica da Senhora da Conceição, eixo primordial da Fé e da espiritualidade antiga naquele que é hoje o território de Portugal. A ligação estreita entre ambos os oragos, num displicente apelo à figura que centra em si a capacidade de apoiar o ser humano nesta sua aventura terrena, conjuga-se nas práticas Cristãs como repositório dos valores absolutos da bondade inequívoca e da entrega total à vontade de Deus, consubstanciado de forma completa no papel desempenhado por Nossa Senhora enquanto cadinho alquímico da transformação da divindade pura em carne e em sangue.




É, pois, o sofrimento geral que acompanha a vida humana neste recanto inóspito do fim-do-mundo romano, marcado pela angústia que resulta da dúvida sistemática em relação ao que o futuro nos reserva e à incerteza em relação à vontade de Deus, quem determina a devoção ancestral que liga a Senhora dos Remédios a Carcavelos, num pleito de harmonia profunda entre as vicissitudes próprias da antiga comunidade rural que subsistia neste local e os ventos mais recentes de um impulso regenerador e progressista que os tempos recentes vieram trazer. Remedia Nossa Senhora aqueles que são ais desafortunados…

A faceta saloia de Carcavelos, dependente em permanência da terra e das instáveis vontades da natureza, recria uma forma muito própria de viver a espiritualidade. Aqui, mais do que em qualquer outro local da periferia de Lisboa, sente-se no ar a dúvida permanente entre o valor da matéria e o bem geral da comunidade… Será isso, possivelmente, o que explica a decoração singela da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, na qual a nave única se enche da policromia própria dos painéis azulejares do Século XVI, prescindindo da opulência vistosa dos dourados barrocos que algum tempo depois hão-de transformar-se na principal marca dos templos e das igrejas de Portugal.




Mas, se no Século XVI, foi a génese saloia e rural da actual Freguesia de Carcavelos, quem determinou a estrutura do templo, obviamente enquadrado naquilo que eram as práticas arquitectónicas comuns na sua época, a partir daí foram muitos os problemas que vieram a afectar a igreja, condicionando a sua formulação e até a própria implantação no espaço, naquele que é o coração da localidade.

De facto, pouco tempo depois da sua construção, a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios foi bastante danificada pelo terramoto de 1755. E se, noutros lugares, a recupeação foi possível e decorreu de forma célere, em Carcavelos o processo foi moroso e difícil, em linha com a pobreza que nessa altura caracteriza aquele espaço. Ao longo do Século XVIII e, mais tarde, durante todo o Século XIX, a situação financeira da Igreja e da Paróquia de Carcavelos foi-se agravando, ao ponto de, por ocasião da implantação da república, a igreja ter sido encerrada por falta de recursos. E daí por diante, mercê da laicização progressiva da sociedade e das influências republicanas sentidas nesta zona Nascente do Concelho de Cascais, a situação foi-se agravando ainda mais, ao ponto de a igreja ter sido mesmo transformada numa escola depois de ter sido desmantelado e vendido todo o seu recheio.

Mas a devoção a Nossa Senhora dos Remédios, a senhora que ajuda quem dela mais precisa, acabou por ser determinante na história da própria localidade. Logo depois da implantação da república, é o administrador do Concelho de Cascais quem toa a iniciativa de defender o património da igreja, proibindo a retirada e a venda dos seus painéis de azulejo. E é também ele quem, ao proteger os bens daquele importante templo, recria as condições essenciais para que mais tarde se recupere a paróquia e o culto seja devolvido a Carcavelos.




Em termos iconográficos, como consequência da história associada à Ordem Hospitalar da Santíssima Trindade, que foi a principal responsável pelo orago de Nossa Senhora dos Remédios, a imagem devocional da igreja apresenta uma Nossa Senhora com o menino no braço esquerdo e uma bolsa de dinheiro na mão direita. Cumpria-se, assim, a ajuda da Virgem aos seus devotos, numa entrega de bens que suprem as necessidades mais prementes daqueles que a Ela apelam. E a Senhora dos Remédios, remedei-a assim os mais necessitados, num desapego perante a materialidade que é essencial no percurso espiritual daqueles que seguem o seu exemplo.

Será certamente este valor potencial que determina a amplitude devocional em Carcavelos. Dentro da igreja, venerados pelos paroquianos, existe uma outra imagem de Nossa Senhora, esta feita do Carmo, que complementa em termos simbólicos a força que emana no órgão principal. Nossa Senhora do Carmo, possivelmente denotando a relação com o Convento do Carmo existente desde o Século XVI em Cascais, apresenta-se com o escapulário próprio da ordem e representa a total entrega à vontade de Deus.





A visita à Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, em Carcavelos, é pois o sinónimo desta entrega absoluta à divindade. A singeleza da sua formulação estética, marcante do estilo chão que sempre caracterizou a via em Carcavelos, impõe-lhe uma beleza sem par. Vale a pena, desta maneira, passar os antigos portões de Carcavelos e visitar esta igreja tão especial. 

quarta-feira

A Sé Catedral de São Salvador em Angra do Heroísmo (Ilha Terceira / Açores)




por João Aníbal Henriques

A representação simbólica de Cristo, numa linha de recriação da sacralidade que perpetua no tempo os laivos da própria eternidade, surge apoteoticamente associada ao acto da salvação. Jesus, simultaneamente Deus e Homem, Cristifica-se para salvar a humanidade, entregando-se totalmente nas mãos do Pai e abandonando a Sua vontade para que se garanta o espaço suficiente para que se expresse a vontade do Criador.

O Salvador do Mundo é, assim, a pedra angular na sobrevivência daqueles que sofrem e simultaneamente eixo central na Fé daqueles que paradoxalmente o buscam para nele encontrarem a plenitude de uma existência a que aspiram chegar. Para Ele convergem os olhares desesperados dos que anseiam por um Mundo melhor e é também nele que assentam a Fé os que o tomam por exemplo, procurando na replicação da sua imagem o cadinho de santidade que lhes assegura a eternidade.

Na Cidade de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, o fulcro da vivência religiosa é precisamente consagrado a São Salvador. A Sé Catedral, com dedicação ao Rei do Mundo, espelha de sobremaneira este intrincado processo de Fé, conjugando a serenidade da contemplação passiva como repositório de graças com o despojamento total e absoluto daqueles que nele procuram as condicionantes que lhes permitem compreender e perceber os desafios impostos pelo devir quotidiano.




Construída provavelmente após a colonização da Ilha Terceira no Século XV, a igreja primitiva é hoje quase completamente desconhecida dos historiadores. Logo em 1496, após a nomeação do seu primeiro vigário, a comunidade Cristã de Angra do Heroísmo percebeu que as dimensões do templo eram sobejamente inferiores às suas necessidades e que a prosperidade da ilha, associada a uma paisagem extraordinária, depressa faria crescer o número de fiéis, exigindo a construção de uma catedral de maiores dimensões.

Depois de várias iniciativas que tinham como objectivo o de sensibilizar a Coroa para esta necessidade essencial do povo Açoriano, foi o Cardeal Dom Henrique, já em 1568, quem mandou construir a nova igreja. E, assumindo para si a responsabilidade pela evangelização dos povos que ali habitavam, decide pagar ele, através de um imposto que a Coroa geralmente cobrava sobre os pastéis produzidos na ilha, os cerca de três mil Cruzados anuais que as obras custavam.




O primitivo Altar dedicado ao Salvador do Mundo foi assim substituído pela actual catedral, cuja construção se iniciou em 1570, quando se realizou a cerimónia solene de colocação da primeira pedra. As suas linhas maneiristas, que muitos advogam ser uma mera adaptação regional da arquitectura chã que existia na maioria dos pequenos lugares dos domínios continentais, são da autoria do arquitecto Luís Gonçalves, embora sucessivas adaptações, resultantes de intervenções variadas que o novo edifício conheceu, tenham alterado bastante o projecto original.

A sua surpreendente disposição no espaço, contrariando as regras normais neste tipo de construções e subvertendo o princípio de orientar para Nascente o seu Altar principal, fica a dever-se às imposições do doador do espaço que pretendeu reservar para si e para os seus o direito de ocupar o principal espaço em frente à catedral.




De dimensões imensas para a escala da Ilha Terceira, a Catedral de Angra é certamente o maior espaço de culto do Arquipélago dos Açores, para ele convergindo as dinâmicas apostólicas que determinam a sua importância na própria História de Portugal. De facto, em vários momentos da história, foi em Angra do Heroísmo que se definiram os critérios políticos que haviam de resultar em novas formas de governação de Portugal.

As Guerras Liberais, por exemplo, tiveram largo impacto na praxis social da Ilha Terceira e ajudaram a definir de forma sistemática aquilo que viria a ser a concretização dos novos poderes em Portugal. Nesse período, do qual o Obelisco da Memória traduz o essencial, travaram-se na catedral várias questiúnculas que depauperaram o seu tesouro e que ajudam a perceber o impacto que a guerra teve no próprio desenvolvimento de Portugal.

Tendo sido bastante afectada pelo grande terramoto que atingiu os Açores em 1980, e também pelo incêndio que a afectou em 1984, a Catedral de São Salvador viu quase completamente destruídos os seus elementos decorativos mais importantes. O processo e reconstrução, no entanto, acabou por redefinir de forma consolidada a sua colocação no âmbito do novo urbanismo terceirense, recriando um processo que teve como principal consequência uma enorme vinculação do povo local à Fé no seu santo padroeiro.




Sem a decoração barroca que noutros tempos levou muito longe a fama da catedral, São Salvador de Angra do Heroísmo mantêm ainda intocadas várias das muitas características que a tornam num local especial. O seu baptistério, por exemplo, ostenta ainda as pinturas maneiristas da “Circuncisão de Cristo” e da “Adoração dos Magos” que abrem a cartela que marca aquele importante espaço terceirense. Foi ali que a maior parte dos paroquianos de Angra do Heroísmo foram baptizados e, com eles, dois vultos muito grandes da nossa História. O primeiro foi o Beato João Baptista achado, mártir açoriano que pereceu no Japão num esforço hercúleo de evangelização; e o segundo a figura quase mítica de Gongunhana, o líder africano capturado por Mouzinho de Albuquerque e que, já no Século XIX, aqui recebeu a água que o iniciou na vida Católica.

Cognominado como o “Leão de Gaza”, Gongunhana foi o último imperador do Império de Gaza, situado no actual território de Moçambique. Depois da sua captura pelo Estado Português, foi deportado para o Açores onde chegou em 1896. A sua chegada ao porto da cidade, perante o espanto e a curiosidade imensa da população local, foi um dos mais significantes episódios da história recente de Angra do Heroísmo. Cabisbaixo e humilhado, o prisioneiro e os seus companheiros foram levados para o Monte Brasil onde ficariam instalados durante o período do exílio. Ao contrário do que muitos esperavam, a sua integração na comunidade local e na vida social da ilha decorreu de forma muito linear e simples. A humildade da sua postura e a forma como se interessou pelos usos e costumes Portugueses, acabaram por fazer com que o sentimento inicial de repúdio sentido pelos locais, se transformasse num misto quase carinhoso de adopção dos novos visitantes. Poucos anos depois da sua chegada, Gongunhana aprende a ler e a escrever e, em 1899, baptizou-se precisamente no baptistério da Catedral de São Salvador. Foi ali que acabou por falecer, já no ano de 1906, tendo sido sepultado no cemitério local.




Para ele, como também para todos aqueles que procuraram na Ilha Terceira caminhos para novas formas de vida, São Salvador representou sempre um papel essencial. No seu significado de profundo despojamento da materialidade, essencial na definição dos novos rumos que todos haviam de trilhar em direcção ao Céu, São Salvador estabelece a ponte com os cultos ao Espírito-Santo que corporizam ainda hoje a face mais visível da Fé local, desenvolvendo laços de enorme impacto no dia-a-dia das populações. O Senhor que salva a todos e que a todos acolhe nos seus braços é, afinal, exactamente o mesmo que com o Espírito-Santo coroa a criança e lhe oferece, porque ela não a entende, toda a dignificação da vida social desprovida de interesse e/ou de importância quando o destino final é o paraíso e a presença perante Deus.


A Sé Catedral de São Salvador de Angra do Heroísmo, classificada como Monumento Regional desde 11 de Junho de 1980, é hoje possivelmente o mais significativo monumento da Ilha Terceira. Pelas suas características arquitectónicas, pela história que patenteia e, sobretudo, pelo significado profundo da sua presença na definição da Identidade Açoriana, é peça de visita essencial para todos os Portugueses que tenham a sorte de visitar esta ilha tão especial. 

terça-feira

Maravilhas de Cascais - O Trilho Saloio da Ribeira das Vinhas




por João Aníbal Henriques

Está de parabéns a Câmara Municipal de Cascais pela excelente intervenção realizada no primeiro troço da Ribeira das Vinhas, entre as traseiras do Mercado Municipal e a Quinta do Casal Ventoso. A recuperação minimalista da antiga serventia saloia, praticamente sem interferências ao nível dos equilíbrios ecológicos do espaço, recupera a ancestral ligação entre Cascais e a suas origens rurais, promovendo a memória colectiva e a identidade municipal.

Respondendo a um desejo demasiado antigo expresso pelos Cascalenses no sentido de se proceder à recuperação da antiga serventia saloia da Ribeira das Vinhas, em Cascais, a edilidade requalificou recentemente o primeiro troço do velho trilho, entre a vila e o acesso à Pampilheira.

A intervenção, minimalista tal como advogavam os que defendiam o projecto (Ver AQUI), permite o usufruto de uma das mais impactantes paisagens de Cascais, descobrindo um recanto essencial para se conhecer e perceber a História Rural Cascalense (Ver AQUI).

Antigo trilho que ligava a vila às aldeias saloias do Cobre, Pampilheira, Murches, Birre e Zambujeiro, a Ribeira das Vinhas foi utilizada desde tempos imemoriais como espaço de troca entre as comunidades que subsistiam da agricultura e que se situavam na zona mais interior do Concelho, e as comunidades piscatórias e cosmopolitas do litoral.  Era através deste caminho de pé-posto, normalmente atravessado pelos grandes rebanhos de ovelhas que noutros tempos marcavam o panorama económico de Cascais, que a vila se abastecia dos bens mais essenciais, como o leite, o pão, a farinha, o queijo e as hortaliças. E era também através dele que, em burricadas que ainda perduram na memória dos mais velhos, as lavadeiras transportavam a roupa que lavavam nas suas aldeias.




Para além da imensa riqueza ecológica, bem visível através das muitas espécies de animais que sobrevivem naquele espaço, a Ribeira das Vinhas apresenta ainda um conjunto importantíssimo de património histórico, ao qual se juntam os complexos de grutas e uma paisagem de extraordinária beleza.

A intervenção agora concretizada pela Autarquia é, assim, um importante contributo para o fomento da cidadania em Cascais, com possibilidade de rapidamente se transformar num instrumento pedagógico e educativo para as escolas onde estudam as novas gerações de Cascalenses.

Sugestões para complementar e melhorar a intervenção agora concretizada:




PROLONGAMENTO DA INTERVENÇÃO

Sendo excelente, a recuperação agora concluída cinge-se aos primeiros metros da antiga serventia saloia. É essencial que a mesma se prolongue acompanhando o leito da ribeira, numa segunda fase até Alvide e à Quinta das Patinhas e, depois de se ligar ao Parque das Penhas da Marmeleira, atravessando o Vale do Zambujeiro e a Quinta do Pisão em direcção à Barragem do Rio da Mula.




RECUPERAÇÃO URGENTE DA ENTRADA

O troço existente entre as traseiras do mercado (que agora foi designado como Rua Padre Moysés da Silva) e o início do caminho, está num estado deplorável de abandono. Sem controlo de tráfego e coberto de viaturas por ali estacionam sem regras nem cuidado, é um imenso lamaçal quando chove e um mar de pó durante o tempo seco, impedindo o acesso e o usufruto do espaço recuperado.




MOBILIDADE COMUNITÁRIA


Permitindo uma ligação muito simples e rápida do centro de Cascais aos principais bairros da periferia, é urgente que a intervenção seja complementada com as ligações aos trilhos de Alvide, do Bairro de São José e do Outeiro da Vela. Para além de muitos simples de concretizar, porque os trilhos já existem há muitos séculos, devolverão às comunidades locais um meio acrescido de mobilidade e de acesso ao centro.  

quinta-feira

Manuel Possolo e as Memórias Profundas de Outros Carnavais em Cascais




por João Aníbal Henriques

Quando Manuel Possolo nasceu, em 1910, Cascais enfrentava um dos maiores desafios da sua história. A implantação da república, pondo fim à relação afectiva que a vila possuía com a Família Real, condicionou o desenvolvimento da localidade, exigindo imaginação e uma imensa capacidade de adaptação para que os novos tempos mantivessem incólume o registo de qualidade que até aí tinha sido apanágio de Cascais.

Mas a Nossa Terra esteve à altura do desafio. Marcando de forma extraordinária os novos tempos de Portugal, Cascais foi capaz de se reinventar, recriando uma nova geração de Cascalenses que souberam honrar a herança dos antepassados, ousando singrar um caminho novo ao qual dedicaram a sua vida e que foi essencial na definição da nossa nova identidade.

José Florindo de Oliveira, Boaventura Ferraz, Armando Vilar, Fausto Figueiredo e Abreu Nunes foram alguns dos vultos maiores desta época grandiosa. A vocação turística de Cascais, que a marca “Estoril” dignamente representou, assentava no carácter único desta terra especial e na dinâmica empresarial dos seus primeiros promotores. Mas entre eles, com uma capacidade visionária e um espírito empreendedor fora do usual, estava alguém que marcou definitivamente o futuro municipal…

Manuel Possolo foi um dos mais activos membros da sociedade civil Cascalense. Enquanto director da Sociedade Propaganda de Cascais, foi um dos fundadores do Clube Naval de Cascais e um dos entusiastas que deu corpo às inúmeras iniciativas de propaganda da vila, nomeadamente os concursos de montras, os bailes de angariação de fundos para construção do hospital e da praça de toiros e os corsos de Carnaval.




A sua paixão pelos cavalos, que começou com a transformação do fosso da Cidadela numa espécie de picadeiro que servia para treino hípico, culminou com a realização de muitas dezenas de concursos de saltos que transformaram os Estoris numa das referências hípicas mundiais.

Foi ele quem viabilizou a cedência de uns terrenos que pertenciam ao Visconde dos Olivais, para ali se construir um moderno e magnífico hipódromo onde decorreu, em 1937, o primeiro grande concurso hípico de Cascais. A qualidade do seu trabalho foi reconhecida em 1961, quando o Presidente da República o agraciou com a Medalha de Mérito Desportivo, assumindo a importância que teve na promoção internacional de Cascais através da fama de excelência e do prestígio que os concursos hípicos que organizava traziam para a Costa do Estoril.

Quase esquecido da generalidade dos Cascalenses, que recentemente viram uma parte substancial dos terrenos do hipódromo transformados num inusitado parque de estacionamento (!), a memória de Manuel Possolo perdura singelamente na designação oficial do equipamento que criou: “Hipódromo Municipal Manuel Possolo”.

Faleceu no Carnaval de 1979 e a sua memória cruza-se com a Memória Colectiva e com a própria Identidade Municipal.

A bem de Cascais!

quarta-feira

A Igreja de Santa Maria da Porta em Melgaço




por João Aníbal Henriques

Dizem que santos de porta não fazem milagres… basicamente porque depois do Concílio de Trento, a disposição das figuras sacras dentro de uma qualquer igreja ou espaço religioso passou a obedecer a regras bem definidas, nas quais a hierarquia celeste ia crescendo na medida em que nos vamos aproximando do Sacrário.




Mas Santa Maria da Porta, orago da principal igreja de Melgaço, no Minho, representa a mais profunda contradição relativamente a este princípio. De facto, assente na profundidade escatológica que acompanhou a formação de Portugal, o orago minhoto integra a generalidade dos arquétipos essenciais que deram corpo à nacionalidade, representando porventura um dos melhores exemplos que subsiste da criação de ponte relacionais com a cultualidade ancestral nesta parte da Península Ibérica.

A Senhora da Porta, ou seja, aquela que guarda as entradas e as saídas de um determinado espaço, é simultaneamente causa e consequência do porvir quotidiano de uma comunidade. É dela que dependem os habitantes do local, sendo do seu carácter sacro, bem como da sua capacidade alquímica de transmutar as almas, que resulta o processo de passamento final dos mundos, num trâmite que não se concebe senão à luz das consequências sempre nefastas do pecado original.




Para os habitantes de Melgaço – Melgazo na sua grafia original -, Santa Maria maior ficava à porta, sendo para ela que convergiam as dinâmicas sociais de criação da própria localidade. No Século XII, quando surgem documentalmente as primeiras referências do povoado, marcava a sua diferença relativamente à outra igreja local, esta dedicada a Santa Maria do Campo, reformatando a ligação entre os seus fiéis e as novas práticas trazidas ao dia-a-dia do burgo em consequência do processo de independência de Portugal. A imagem de Nossa Senhora, simultaneamente mãe de Jesus e padroeira maior de Portugal, reforçava assim os seus vínculos milenares (provavelmente pré-Cristãos) com a Fé avoenga das terras nortenhas.

Construída à porta do antigo castelo, e marcada pelo estilo arquitectónico coevo, de um românico prenhe de apelos telúricos à força da pedra e ao peso das tradições ancestrais, a igreja nasceu por iniciativa do Arcediago de Valares, D. Garcia, que guardou para si, com autorização do Abade de Fiães, com a terça parte do padroado.




Muito desvirtuada na sua formulação estética em consequência das muitas intervenções de que foi alvo ao longo dos seus quase 900 anos de história, a Igreja de Santa Maria da Porta representa de forma muito evidente o carácter vincadamente significante que Melgaço sempre representou na estratégia de defesa das fronteiras de Portugal. A fragilidade dos primeiros tempos de nacionalidade, associados à proximidade da fronteira e às constantes investidas das tropas inimigas, fez de Melgaço um bastião essencial na defesa do reino, facto que terá condicionado de forma cabal a sua estrutura urbanística, e sobretudo a eminente necessidade de reforço e resguardo do seu castelo e da sua cinta de muralhas.

Singela na forma como se apresenta perante o visitante, a igreja é ela própria um testemunho vivo da força e da determinação daqueles que ao longo de muitos séculos ousaram viver neste lugar, sofrendo na pele as vicissitudes de decisões emanadas de muitos quilómetros de distância. Do alto do seu campanário, espécie de torre de vigia coeva dos primeiros anseios de Portugal, é possível vislumbrar aquilo que terá sido o Minho nessa época tão importante. Na torre sineira, colocada de forma recuada relativamente à fachada principal, é possível ainda hoje ler as assinaturas dos Portugueses de antanho que modelaram a pedra para construir esta igreja sem igual.




De nave única, marcada hoje pelo telhado de madeira que nos leva até ao altar principal, tem no seu Altar-Mor a imagem de Nossa Senhora da Conceição, provavelmente original do Século XVII, cujos contornos assentam de forma perfeita no estereótipo principal da criação do próprio Portugal. De facto, em parceria com Nossa Senhora do Campo, de cuja essência saiu para assumir o seu papel de guardiã da porta do castelo, Nossa Senhora da Porta não é mais do que a mãe-primordial dos Portugueses, numa recuperação simbólica de pressupostos de Fé que antecedem a própria ideia de Portugal.

Situada num dos mais belos recantos de Portugal, numa vila que sustenta o charme das suas vetustas muralhas, a Igreja de Santa Maria da Porta e a própria localidade de Melgaço, são pormenor incontornável em qualquer visita que se faça ao Norte de Portugal. Ali, pelo que subsiste da sua gloriosa história, é possível sentir e entender aquele que é o alicerce maior da Alma de Portugal. 

quinta-feira

Estertor de Memórias em Cascais




por João Aníbal Henriques

Na década de 90, quando cobriram Cascais com uma imensa toalha de betão, era usual dizer-se que “podia ser pior”… E a coberto disso, porque de facto pode ser sempre muito pior, utilizando a mediocridade como bitola e renegando a excelência que foi sempre a principal imagem da Nossa Terra, foram matando a Identidade e a Memória de Cascais. O Projecto de Requalificação da Entrada Nascente de Cascais, que foi ontem apresentado publicamente, representa um retrocesso a esses tempos de má memória. Podia ser pior? Claro que sim. Mas o que se pretende fazer na entrada principal da vila é o assumir definitivo da vocação suburbana de Cascais, abandonando para sempre os parâmetros de excelência de outros tempos e de outras gentes. E já não será possível voltar atrás…

O projecto de requalificação da entrada de Cascais é antigo. Praticamente desde a inauguração do hipermercado, em 1973, que os Cascalenses defendem uma intervenção no espaço visando a recuperação dos valores urbanísticos tradicionais e a recriação de uma dinâmica arquitectónica que promova as memórias antigas que subsistem no local.




Ao contrário do que refere o esforço de propaganda associado à apresentação pública que ontem decorreu, este projecto é mais um que vem juntar-se aos vários que já foram desenvolvidos e que, para sorte dos Cascalenses, acabaram por nunca se concretizar. Desta maneira, perdidas no meio das ruínas que enchem todo o local, sobrevivem ainda os últimos resquícios de uma memória que Cascais não pode dar-se ao luxo de apagar.

O projecto agora apresentado, e que ficará em discussão pública sujeito às sugestões e críticas dos Cascalenses, pretende desenvolver um conjunto de operações urbanísticas que visam o reparcelamento da propriedade e a relocalização do hipermercado. Para os seus autores, a requalificação da principal entrada de Cascais passará pelo enterramento do estabelecimento comercial e pela reformatação de todo o terreno envolvente através da construção de um novo empreendimento que substituirá as ruínas patrimoniais que sobrevivem no local.




Mas, se é óbvia a necessidade de intervir neste espaço, até porque a vocação turística municipal é incompatível com o estado de ruína generalizada em que todo o quarteirão se transformou, as opções agora assumidas são profundamente atentatórias do registo de qualidade que os Cascalenses defendem.

Em primeiro lugar porque assumem como área de intervenção somente o quarteirão situado entre a Avenida de Sintra, a Avenida Marginal, a Avenida Marechal Carmona e a Rua Henrique Seixas, deixando de fora toda a margem esquerda da avenida, o espaço antigamente ocupado pela Quinta das Loureiras, onde está hoje o CascaisVilla, e os terrenos vazios circundantes. Esta opção, não só impede a recriação de um plano geral que efectivamente requalifique a entrada de Cascais, como constrange, em termos dos parâmetros urbanísticos que hão-de servir de referência nas intervenções a realizar no futuro nos espaços agora deixados de fora, a práxis urbanística que para aqui se defende.

Depois, porque para tornar possível a reformatação urbana que pretendem, os autores deste plano defendem a demolição dos últimos exemplares da arquitectura de veraneio que ainda ali sobrevivem, substituindo-os por incaracterísticos edifícios habitacionais suburbanos que não representam a memória do local nem supõem a sua recuperação em prol da identidade de Cascais. Dirão certamente que os edifícios não estão classificados oficialmente, que estão em avançado estado de ruína, etc. E é verdade. Porque embora façam parte do “Levantamento do Património Cascalense”, adquirido pela Autarquia no ano 2000, o actual executivo municipal optou por incluir como anexo ao PDM somente os edifícios classificados, impedindo novos processos de classificação e a consequente recuperação da memória municipal que a eles estaria associada.




E, mais importante ainda, despreza por completo o valor identitário dos imóveis situados fora do quarteirão agora intervencionado (infelizmente a Casa da Quinta das Loureiras, onde funcionou o St. George’s School, foi demolida em má hora para construção do CascaisVilla), criando as condições políticas para que todos eles venham a ser substituídos por novos empreendimentos de características semelhantes àquelas que agora se defendem para este local.

E seria tão fácil desenvolver neste espaço um projecto verdadeiramente qualificador, minorando o impacto do que de pior lá existe e integrando e promovendo as peças que representam a nossa memória e a nossa identidade…

Em suma, a intervenção que se pretende fazer na entrada de Cascais não requalifica o espaço. Moderniza-o, introduzindo elementos que facilitam a fruição visual para quem chega à vila através da Avenida Marginal, mas despreza a oportunidade de intervir para recuperar uma das mais importantes memórias da Nossa Terra. E ao ser assim, e assumindo a explicação já antiga de que “podia ser pior”, condena a entrada de Cascais a uma mediocridade própria de uma qualquer terreola suburbana, arrastando definitivamente consigo a grandiosidade extraordinária que sempre definiu o charme empolgante e a vocação de excelência de Cascais.

E é uma pena que seja assim. Porque a Cascais já não restam muitas oportunidades.

segunda-feira

Dom Fuas Roupinho no Castelo de Porto de Mós




por João Aníbal Henriques

Ao contrário do que é comum afirmar-se, a matemática nem sempre produz resultados absolutos. Por vezes, a soma de duas partes não origina a multiplicação linear do resultado, antes desenvolvendo um factor potenciador que reforça o carácter inesperado desse mesmo resultado...

É o acontece na Cidade de Porto de Mós, na Região Centro de Portugal, onde o horizonte surge bem vincado pelo perfil inesperado do seu castelo. Tendo ficado a história da sua origem definitivamente perdida no tempo, até porque não se conhece com exactidão a data que marca a construção da estrutura actual, o Castelo de Porto de Mós ocupa um local estrategicamente essencial para a defesa da povoação circundante e de todo o território Nacional. Antes dele, existiria no mesmo sítio uma antiga fortificação de origem árabe, que foi conquistada logo em 1148 pelos exércitos chefiados por Dom Afonso Henriques, e que, por seu turno, veio sobrepor-se a uma estrutura anterior, provavelmente remontando ainda ao período neolítico.




O castelo que hoje ali vemos, cuja base estrutural foi definida durante o reinado de Dom Sancho I, é o resultado da soma de diversos contributos de várias civilizações que nos antecederam e, também, de vários estilos arquitectónicos e artísticos. Mas, tal como acontece com a matemática, a soma de todos estes contributos é amplamente maior do que cada uma das partes que o compõem…

Reza a lenda que o Castelo de Porto de Mós foi entregue, logo em 1148, ao ilustre fidalgo Dom Fuas Roupinho. Desconhecido documentalmente (ainda) o fidalgo Português foi um dos principais conselheiros do fundador da Nacionalidade, tendo simultaneamente assumido o papel de primeiro Almirante da Esquadra Portuguesa. Fernão Gonçalves Churrichão de seu nome verdadeiro, entrou na História devido à sua participação no denominado ‘Milagre da Nazaré’, consolidando o prestígio e o poder que já detinha por ter sido membro activo e importante da Ordem dos Cavaleiros do Santo Sepulcro, ou seja, dos Cavaleiros Templários.

Quando caçava na Nazaré, durante o período em que assumiu funções como Senhor de Porto de Mós, Dom Fuas Ropuinho terá sido envolvido por uma espessa cortina de nevoeiro que, toldando a sua vista, o impediu de perceber que cavalgava de forma intrépida em direcção ao precipício que exista junto às falésias. Ao dar conta da desgraça eminente, e ao perceber que estava num local muito próximo da uma gruta onde se venerava uma imagem de Nossa Senhora, terá pedido a sua ajuda e intervenção que foi imediatamente concedida. A Virgem fez estancar o cavalo à beira do precipício, onde deixou uma marca bem visível na rocha, evitando a morte certa do fidalgo Português. A devoção que desenvolveu por essa imagem, bem como a Fé profunda que tinha no seu poder junto da sua própria vida, fez com que ali mandasse construir uma capela dedicada a Nossa Senhora da Nazaré, que se situa precisamente sobre a velha gruta onde o cavalo foi mandado parar pela mãe de Jesus.

O veado que Dom Fuas caçava naquele importante dia da sua vida enquanto Senhor de Porto de Mós, é interpretado em termos simbólicos como sendo a própria figura do Demo, num impulso de tentação com o qual terá tentado destruir o piedoso Templário. É, por isso, uma luta prolixa entre o bem e o mal aquilo que trata esta lenda, cujas reminiscências mais profundas, perdidas provavelmente para sempre no devir histórico de Portugal, alavancam a lei dos contrastes que explica e enriquece a Identidade Nacional.



É, por isso, num cenário miraculoso que o Cavaleiro Templário faz nascer a sua lenda e é sobre ela, assente num imaginário colectivo que carrega consigo velhas tradições ancestrais, que Dom Fuas Roupinho dá corpo ao mais profundo, significante e importante legado que corporiza a formação da Nacionalidade, resgatando das profundezas das antigas tradições da sabedoria a chama com a qual aquece o caldeirão alquímico sobre o qual se construiu Portugal. De facto, o novo País nasce em ligação estreita e profunda com o ideário mariano de matriz Cristã. Mas, na sequência daquilo que foi a cristianização do actual território Nacional, grande parte dos valores, doutrinas e ritualísticas associados à nova práxis religiosa, são afinal resultado da evolução natural de várias ideias arquétipas que, mesmo sendo Pré-Cristãs, integram em si precisamente os mesmos princípios que hão-de orientar o surgimento da mais revolucionária das religiões Ocidentais. Entre o Cristianismo e as religiões que o antecederam, tal como entre o Castelo de Porto de Mós e as fortificações e construções que antes dele ali existiram, existe uma linearidade evolutiva que ao contrário do que é comum dizer-se, pautou-se pelo respeito e pela confiança, num cenário de evolução no qual a palavra cisão não fazia qualquer sentido.

A soma das partes, também na vida de Dom Fuas é maior do que as partes em si próprias, fomentando um potencial de significado que transcende largamente a história da sua própria vida.

No caso de Porto de Mós, diz a lenda que Dom Fuas Roupinho não teve tarefa fácil. Depois de receber o encargo de defender a localidade de eventuais investidas inimigas, não conseguiu evitar que os exércitos muçulmanos viessem a recuperar o domínio da sua fortificação. Mas ele, provavelmente fazendo uso dos conhecimento que detinha pela sua condição de Cavaleiro Templário, terá encontrado um estratagema que lhe permitiu recuperar a praça pouco tempo depois do malogrado acontecimento, num laivo miraculoso cujos ecos perduram ao longo do tempo…



Em termos estruturais, o Castelo de Porto de Mós que hoje vemos já pouco tem a ver com a estrutura medieval inicial. Sucessivas campanhas de obras, que assumem o cenário idílico onde o mesmo se ergue, com vista sobre a serra e o Vale do Lena, vão progressivamente retirando à edificação a sua carga militar e transformando o velho castelo num magnífico palácio onde se privilegiava a apreciação das artes e das letras. A sua fachada actual, com os torreões cobertos de telha verde que se transformou no ex-libris da localidade, foi construída no Século XV pelo 4º Conde de Ourém, filho dos primeiros Duques de Bragança. E é novamente nessa ligação quase genética ao imaginário Nacional, que Porto de Mós recupera o carácter vincado da sua importância simbólica e a originalidade de uma existência onde a lenda se volta a misturar com a realidade.

Isto porque, em 1385, Porto de Mós tomou partido pelo Mestre de Avis. E, em consequência disso, foi ali que estiveram aquarteladas as tropas nacionais nas vésperas de seguirem para Aljubarrota, onde por intercessão de Nossa Senhora, e sob a orientação estratégica de Dom Nun’Álvares Pereira, alcançaram uma das mais significantes vitórias militares em toda a História de Portugal. Por reconhecimento ao seu Condestável, o novo Rei Dom João I, simultaneamente Mestre de Avis e pai da Ínclita Geração que haveria de dar novos mundos ao Mundo e oferecer a Portugal a sua vocação hermética, oferece Porto de Mós a Nun’Álvares Pereira que ele, enquanto Grande-Construtor de universos, lega por seu turno à sua filha e genro, precisamente os primeiros Duques de Bragança. Mantém-se visível e actuante, desta maneira, a consagração de Porto de Mós à mais profunda tradição iniciática de Portugal, reconvertendo a sua linha de cenário num objecto pleno de importância para quem quiser compreender verdadeiramente a razão de ser da própria existência deste País sem igual.




O sinal marcante deste processo de consolidação estrutural surge perfeitamente identificado com a Cruz de Cristo e, por isso, com a própria Alma de Portugal. É ela que encabeça o esforço inicial de Roupinho na sua faceta Templária e é ela também quem surge enfunada nas velas que movem as naus que farão os Descobrimentos de Portugal. Diferente da latina, a Cruz de Portugal que se corporiza em Porto de Mós é praticamente a mesma que marca o ‘Centro do Universo’ na milenar Cidade Proibida de Pequim, da mesma forma que é semelhante em termos físicos e de significado, às cruzes Coptas pré-Cristãs que se encontraram na antiga Abissínia.

Depois de ter sido bastante destruído pelo grande terramoto de 1755, o Castelo de Porto de Mós foi sucessivamente alvo de várias campanhas de obras que consolidaram a sua vocação palaciana.

Actualmente, numa cenografia arquitectónica definida pelo apelo à beleza e à arte, Porto de Mós é uma espécie de capital espiritual de Portugal. O seu castelo, outrora essencial para defender militarmente a independência do País, defende agora (e é essencial) a própria Alma de Portugal.

sexta-feira

O Castelo de São Mamede em Guimarães




por João Aníbal Henriques

Quando a História se cruza com a lenda, recriando um cenário onírico onde fantasia e realidade compõem um espaço único que calcorreamos, criam-se as condições para que um determinado lugar assuma laivos de deslumbramento que perduram ao longo dos anos.

É o que acontece na Cidade de Guimarães, comummente aceite como “Berço de Portugal”, no topo da sua colina de Nossa Senhora da Oliveira onde se ergue o seu altaneiro castelo. A construção, que quase parece ter sido esculpida como se de um cenário de teatro se tratasse, impõe-se na paisagem da cidade e define de forma evidente o imaginário colectivo dos vimaranenses e representa a própria identidade de Portugal.




De acordo com a documentação histórica, o Castelo de Guimarães foi começado a construir pela Condessa Mumadona Dias, viúva do poderosíssimo Conde Hermenegildo Gonçalves que governou o Condado Portucalense no final do Século X. No ano de 968, para defesa de uma comunidade monástica que havia criado no sopé do monte de Guimarães, a condessa emite um documento de doação do castelo à comunidade religiosa com vista à sua protecção contra os gentios. Nesse documento, é mencionado expressamente que as obras de construção já estavam terminadas e que a designação oficial da fortaleza era São Mamede. Será, porventura, um dos mais antigos documentos de fundação existentes em Portugal e, com a clareza notarial que apresenta, é por certo o principal atestado que nos permite conhecer e perceber o processo que conduziu à formação da nossa identidade e, posteriormente, a conquista da independência nacional.

Depois da conturbação normal que resulta da morte da condessa e do processo de posse pelo qual lutaram os seus descendentes, o Castelo de Guimarães volta a intervir directamente no devir nacional quando é entregue, por ordem do Rei Afonso VI de Leão e Castela, ao Conde Dom Henrique. A doação real, resultante do casamento do nobre borgonhês com a filha segunda do monarca, D. Teresa, acompanha o processo de criação formal do Condado Portucalense e, segundo reza a lenda, é a principal responsável pelo facto de ali ter nascido Dom Afonso Henrique que, mais tarde, virá a ser o primeiro Rei de Portugal.



A ligação de Dom Afonso Henriques a Guimarães, eivada dos mistérios próprios das histórias que se criam e desenvolvem no imaginário popular, relaciona-se por sua vez com a célebre Batalha de São Mamede, na qual o futuro monarca derrota a sua mãe e assume oficialmente os destinos do país emergente. Ali, no ímpeto de uma das batalhas mais significantes da História de Portugal, o auto-proclamado rei desfere o golpe final contra a sua mãe. Em termos simbólicos, é este o momento decisivo na cisão definitiva entre a lealdade jurada ao rei estrangeiro e o assumir de um caminho novo, marcado pela protecção divina e até pela presença do Filho de Deus junto do novo rei, num episódio cujos contornos surgem enublados pela passagem do tempo, entrando numa zona de não-tempo e não-espaço onde desaparecem os indícios daquilo que é real e do que é imaginário.

São Mamede, o mártir Cristão que lendariamente nasce envolvido pela desgraça e que ao longo da vida se concentra numa relação de dependência profunda e directa da mercê de Deus, personifica a concretização do impossível e a o apelo à força de uma Fé que supera a própria existência do real. Tal como Dom Afonso Henriques fará em meados do Século XII, Mamede de Cesareia está marcado pelo destino. A ele compete zelar pelos fracos e pelos desprovidos de sorte, garantindo-lhes o estabelecimento de pontes directas com o céu. No cimo da colina do castelo, depois de ultrapassada a Capela de São Miguel, chega-se então ao portão daquele espaço especial, e cruzando-se a sua entrada, deparamo-nos com o cenário mais linear do que foi o próprio nascimento de Portugal.

O mártir São Mamede, depois de atacado no estômago pelo rei pagão, sobreviveu graças à intervenção de Deus Pai. Directamente do céu, foi a própria divindade quem lhe colocou um estômago novo, permitindo-lhes resistir ao ataque e sobreviver para continuar a promover a sua Fé. Mas, quando tudo parecia indicar um desfecho oposto, Deus dirige-se a Mamede e diz-lhe que os seus dias na Terra chegaram ao fim… e ele aceita, numa entrega consubstancial à vontade do seu Pai, e entrega prazeirosamente a Alma ao Criador, sabendo de antemão que o milagre que deu forma à sua curta vida era, ele mesmo, a pedra angular que reforçaria a Fé de tantos que haveriam ainda de nascer num futuro que ele não sonhava e nem sequer concebia.

Ao fundar Portugal, o Rei Afonso Henriques cumpre destino idêntico. Dá forma, corpo e vida ao novo Estado de Portugal, numa entrega absoluta à vontade de Deus e antecipadamente disposto a sacrificar a sua vitória em prol de um outro qualquer desígnio. A subida do monte em Guimarães, tendo como horizonte da Senhora da Oliveira cuja orientação assegurava o bom carácter do seu trajecto, fê-la de forma totalmente desligada da matéria, numa quase absurda ingenuidade de sentimentos que o afastavam do tempo e do espaço em que viveu. Por isso Ourique foi algures em Portugal, embora tenha sido palco privilegiado da visita do próprio filho de Deus! E, sem tempo e sem espaço, foi em todo o território de Portugal que isso aconteceu.




Como para poder nascer é necessário morrer, numa inversão completa da lógica de pensamento que constrange a cultura Ocidental, Afonso Henriques gera o novo reino num registo de imaterialidade que permite ao improvável país novo a sobrevivência num cenário em que nada o deixaria antever. Foi um milagre o nascimento de Portugal e milagre maior ainda a sua sobrevivência durante tantos séculos. Tudo foi possível, soba égide de São Mamede, porque em Guimarães, cadinho sagrado da Alma de Portugal, Afonso foi capaz de viver em pleno a consagração e de concretizar o irrealizável aos olhos dos homens por exclusiva vontade de Deus…

Depois de obras profundas realizadas no castelo pelo Rei Dom Dinis, o mesmo que foi casado com a alquímica Rainha Santa que transmutava a matéria aos olhos do povo e do seu Rei, o Castelo de São Mamede ganha a fora que hoje ainda tem. Passam-se depois vários séculos de paulatino abandono, mercê da estabilização territorial que torna inútil o altaneiro castelo, processo que culmina com a sua classificação como Monumento Nacional em 1908, que virá a desencadear uma intervenção profunda realizada em pleno Estado Novo pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Deste período ficou o aspecto cenográfico das suas muralhas, apimentadas com as ameias neo-medievais, que o retiraram do desinteressante e pouco edificante papel de fortaleza principal do Reino, para lhe conferir o título onírico de Berço de Portugal.

Em Guimarães ainda hoje se sente no ar o perfume fugidio desse sonho de antanho. As pedras das casas e das velhas capelas, erguidas à sombra do portentoso castelo e das imensas lendas que sempre o rodearam, vão refulgindo num brilho obscuro que acompanha os momentos bons e maus de Portugal.

É obrigatório visitar, explorar a fundo e conhece cada detalhe deste castelo excepcional. Até porque ali (ali mesmo naquele recanto sombrio do velho recinto amuralhado) nasceu Portugal!