quarta-feira

Caminhos da Liberdade: As Origens do Partido Comunista Português em Cascais...

Cascais surge ao público associada quase sempre a uma ideia de conservadorismo que não corresponde à realidade. Em vários sectores de actividade, desde a ciência, à tecnologia, à pintura, escultura e literatura, passando pelo empreendedorismo e até pela política, Cascais foi sempre terra de vanguarda e contribuiu de forma decisiva para o nascimento e consolidação de ideias inovadoras que ajudaram a transformar e a fazer evoluir Portugal e o próprio Mundo. Um destes exemplos prende-se com o surpreendente rol de “Casas Clandestinas” existente neste concelho. De facto, desde a sua fundação em 1921, que o Partido Comunista Português utiliza o respeito pela liberdade que aqui encontra para dar corpo às suas iniciativas e projectos.  Em Novembro de 1943, contra quase tudo o que é expectável, realiza-se no Monte Estoril o primeiro congresso do partido depois de ter sido remetido à clandestinidade, no qual o líder Álvaro Cunhal, em plena II Guerra Mundial, vem defender a unidade da Nação Portuguesa na luta pelo pão, pela liberdade e pela independência. E alguns anos depois, já em 1957, é em Cascais que são aprovados os primeiros estatutos do partido, alicerçando um programa de princípios que norteará a actividade comunista durante as épocas conturbadas que depressa chegarão. Decorrido na Casa dos Cedros, em São João do Estoril, este V Congresso do PCP é marcado pela grande discussão sobre o problema colonial, tendo sido a primeira vez que os congressistas Portugueses recebem as saudações oficiais por parte dos restantes partidos comunistas do Mundo de então. Depois, já em 3 de Janeiro de 1960, foi na Vivenda Montalvinho, em São João do Estoril, que o histórico líder comunista se refugiou depois do grande sucesso da sua fuga da prisão em Peniche, mostrando de forma cabal ser este o destino de excepção que melhor lhe garantiria a segurança neste momento tão importante, inquietante e marcante da sua vida pessoal e da vida do próprio partido nascente. Em suma, num registo historicamente longo de respeito pelo outro e pelo pensamento de vanguarda, Cascais foi sempre um verdadeiro bastião de liberdade, tendo a capacidade de acolher e promover formas alternativas e vanguardistas de pensamento. Porque este é o ADN Cascalense. 


sexta-feira

Avis e Cascais

Em 1385 a independência de Portugal foi salva por um homem. Chamava-se João das Regras. Criou uma nova dinastia - de Avis - e o Mundo novo em que agora vivemos. Foi devido a ele que a Europa se ligou à Ásia, à África, à América e à Oceania. Como prémio de vida o Rei Dom João I ofereceu-lhe o presente mais extraordinário do Portugal de então: o Senhorio de Cascais!


segunda-feira

A Filiação Hermética da Alquimia Cascalense


A primeira escola de filosofia de Portugal funcionou no antigo Convento de Nossa Senhora da Piedade em Cascais. O edifício, onde actualmente está instalado o Centro Cultural, foi durante muitos séculos cadinho primordial do pensamento e da cultura em Portugal, ali tendo sido produzidas muitas das mais importantes e significantes obras de filosofia, de História e das ciências dos séculos XVI,  XVII e XVIII. Destruído quase por completo durante o grande terramoto de 1755, o edifício foi transformado em Casa de Veraneio pelo Visconde da Gandarinha e guardou na poeira dos novos tempos um dos mais extraordinários segredos de Cascais… Transportado para o Jardim dos Condes de Castro Guimarães, o painel de azulejos do antigo convento passa despercebido a muita gente. Mas naquele recanto encantado, à vista de todos e a comprovar que muitas vezes é no mais óbvio que se encontram as lições mais importantes, fica a prova da filiação hermética de Cascais e sublinha o significado profundo da simbologia alquímica desenvolvida no antigo convento. A “Procissão Triunfal”, misto de teologia e alquimia, retrata a Virgem Maria que segue em Glória num carro puxado a cavalo que esmaga com as suas rodas o dragão telúrico das forças mortais e terrenas. À frente, ostentando de forma vigorosa o Sol e a Luz, numa alusão simbólica à totalidade, os Arcanjos São Miguel e São Gabriel abrem o caminho para os grandes pensadores de todos os tempos: A “Ciência de Maria”, vulgo alquimia, consagra-se na Grande Obra de Santo António de Lisboa, Santa Isabel de Portugal, Santo Alberto Magno, Santa Isabel da Hungria, Arnaldo de Vilanova, etc. fechando o cenário com os anjos que carregam cada qual uma das alfaias sagradas do Hermetismo Carmelitano. Numa época de absurdo absoluto, em que se põem em causa os valores mais essenciais do humanismo português, importa olhar com atenção para este segredo, pois é pegada fundamental na caminhada em direcção ao entendimento iluminado da Sabedoria Divina que se oculta sob esta capa protectora dos ataques inesperados do Mundo Profano. É Cascais, uma vez mais, a tomar a dianteira desta procissão monumental!...


sexta-feira

Conversas de Cascais: a Europa Nasceu Aqui

Pedro Gomes Sanches e João Aníbal Henriques numa "Conversa de Cascais" no âmbito do programa de comemorações do 656º Aniversário da Vila de Cascais:

Cascais: um caminho para Portugal e para a Europa



por Pedro Gomes Sanches e João Aníbal Henriques

in "O Observador" 12 de Junho de 2020

Cascais é a mais sadia terra que se sabe em Portugal. Assim o disse Frei Nicolau de Oliveira, no seu "Livro das Grandezas de Lisboa" no Século XVI, e o confirmámos nós, desde o início dos anos 90 do século passado quando, num velho Mini Moke amarelo, calcorreamos juntos cada canto e recanto desta terra que agora festeja o seu 656.º aniversário.

Pode parecer presunção que dois Cascalenses de gema, criados com os aromas, as cores e as memórias muito vivas de uma infância em Cascais, venham agora a público dizer que a Europa também nasceu em Cascais. Mas não é. Porque a História, que nasce pujante nas pedras velhas da Villa Romana dos Casais Velhos , nos comprova que a púrpura ali fabricada alquimicamente teve papel decisivo na génese Católica, Apostólica e Romana da Europa em que vivemos.

Portugal, de uma forma geral, e Cascais, em particular, estão muito longe do estereótipo imposto à Europa pela centralidade franco-germânica. Não são, como muitos lá fora por desdém teimam em dizer, e muitos cá dentro por incúria teimam em confirmar, as periferias pobres e desinteressantes que, situadas no Finisterra dos Romanos, nada têm a acrescentar à História.

Pelo contrário. Portugal é a cara de uma magnífica Europa, plena de futuro e capaz de representar e acolher todos. Ou não tivesse já Pessoa, antes de qualquer União Europeia, afirmado que o rosto com que a Europa fitava o Ocidente, futuro do passado, era Portugal. A sua localização atlântica, vocação turística centenária e cosmopolitismo, transformam este país numa janela de oportunidades para uma Europa que respeite as diferenças e seja capaz de rentabilizar o seu conhecimento e a sua experiência para estabelecer alianças com outros povos. O Portugal que herdámos é a ponte de ligação directa a África, à América do Sul e à Ásia, tendo a potencialidade e também o dever de contribuir de forma pragmática para encontrar respostas que permitam inverter a crise geral em que parecemos mergulhados, e nos libertar do atavismo a que parecemos condenados.

E se há exemplo de que tal é possível, ele está precisamente aqui em Cascais. Na comemoração de mais um aniversário, ouvindo ao longe os passos abafados dos pescadores nossos avós que receberam o seu foral em 1364, temos um Cascais reforçado por um polo de ensino superior que reúne o melhor que existe no Mundo nas áreas da ciência, da economia e da gestão. Cascais hoje exporta saber, conjugando a experiência de muitos séculos e a sabedoria avoenga com a ambição futurista dos nossos filhos. E fá-lo com um património histórico e arqueológico recuperado para servir de atractivo à visita de todos aqueles que desejarem aprender e deslumbrar-se com as experiências extraordinárias que estamos preparados para lhes proporcionar, bem como alimentando a memória dos que cá vivem lembrando-os quem são e donde vieram.

A já recuperada Villa Romana de Freiria, em São Domingos de Rana; o antigo Convento de Nossa Senhora da Piedade, actual Centro Cultural de Cascais; a Casa Sommer, actual arquivo histórico; as Grutas Neolíticas de Alapraia, cujo núcleo de interpretação será em breve devolvido aos Cascalenses; as Grutas Pré-Históricas do Poço Velho, em pleno coração da vila; ou a fábrica de púrpura dos Casais Velhos, junto ao Guincho; são apenas alguns exemplos de que estamos preparados para o futuro sem esquecer o passado.

Mas Cascais não é só património edificado. Num tempo, ora vagamente esquecido por força da crise pandémica, de emergência climática, Cascais está também na linha da frente na preservação do seu património ambiental e da sua biodiversidade. Da Duna da Cresmina à praia das Avencas, passando pela Ponta do Sal, Quinta do Pisão ou Ribeira das Vinhas; da aposta na mobilidade light ao envolvimento empenhado e estratégico na mobilidade metropolitana de Lisboa; são apenas alguns exemplos de que sabemos inovar sem deixar de preservar.

Mas que Europa é esta de que falamos e que país é este que projectamos a partir de Cascais?

Esta é uma Europa de Nações, assumindo a diferença de cada um como contributo inestimável para um todo mais forte. Uma Europa baseada no respeito pelo outro que, num Mundo em permanente convulsão, conhece as suas origens e tem a capacidade para se afirmar com contributos decisivos que nenhum outro pode promover. Um Europa, com Portugal na linha da frente, com a marca de um pluralismo onde todos cabem. E uma Europa livre, democrata e inovadora.

E o país? Um país à imagem de Cascais. Nos 656 anos de Cascais, o nosso mote é o reforço da identidade, da promoção da cultura, da gestão das memórias e por outro lado da capacidade de fazer por nós, de inovar e de olhar com optimismo e determinação o futuro. Porque nós Cascalenses temos orgulho no nosso passado, trabalhamos arduamente no nosso presente e estamos preparados para enfrentar sem medo o futuro. Chamando a nós, sem o velho fado do queixume, o desenho do nosso destino. É por isso, pelo futuro que constrói e pelo passado que honra, que Cascais está de parabéns!

segunda-feira

Joaquim António Pereira Baraona (1930-2018)




por João Aníbal Henriques

Agitador de massas, de consciências e de paradigmas, Joaquim António Pereira Baraona, nascido em Ourique, no Alentejo, no ano de 1930 e falecido em Cascais em 2018, foi uma das figuras mais marcantes e controversas da História recente de Portugal.

Enorme, na sua capacidade de compreender o Mundo e os Homens e de se entregar sem pejo na luta convicta pela justiça e pelos valores que vivia de forma justificante e plena, era simultaneamente humilde na relação com todos aqueles que ele sabia que viviam de acordo com os princípios que sempre nortearam a sua existência.




O Comendador Joaquim Baraona nunca deixou ninguém indiferente nos locais por onde passou. E, gerando de forma desconexa uma multiplicidade de amores e ódios que determinaram a sua passagem pela Terra, deixou atrás de si um rasto pujante e pleno de significado, que se multiplica e multiplicará durante séculos de forma exponencial na medida em que muito do que fez e defendeu teve, tem e terá repercussões duradouras na vida de muita gente e que se estenderá por várias gerações.

Logo desde muito jovem, quando na Vila de Ourique aprendia as primeiras letras, Joaquim Baraona deixou nota da sua diferença.

Oriundo de uma família ligada ao pequeno comércio local e à exploração agrícola das terras, empenhou-se com muito sucesso na generalidade das poucas iniciativas de âmbito social que existiam naquela região nessa altura. Da Mocidade Portuguesa à Banda de Música Local, Baraona foi sempre figura de destaque nos locais por onde passou. E tal facto, contrariamente ao que dita a mediocridade da História, não resultou de grandes feitos e de enormes iniciativas, até porque a sua tenra idade nessa época impediria tal forma de estar e esse alcance normativo. Veio precisamente do facto de ele ser figura diferente no devir social e anímico da sua terra, tendo assim construído e reforçado a personalidade que o caracterizou até ao final da sua vida.




Sempre preocupado com o bem-estar de quem o rodeava, e com a sua capacidade de contribuir para o sustento dos seus, logo desde muito jovem foi um empreendedor nato, tendo trabalhado arduamente na criação de riqueza em todos os locais por onde passava.

Na sua biografia “A Montanha” publicada quando comemorou o 70º aniversário, dizia-se que ainda em criança comprava fruta pelos pomares dos arredores de Ourique, que revendia com lucro no centro de vila, melhorando a vida de quem lhe comprava os seus produtos e também de quem, com esta sua capacidade empreendedora, acabava por ser contributo inestimável na venda desses produtos e no alargamento dos muito escassos mercados dessa época. E era uma criança somente quem assim pensava e fazia, num ímpeto de construir e de criar que nunca o largou até ao fim.

E nas terras do seu pai, cumprindo os afazeres que os progenitores lhe encomendavam de acompanhar os trabalhos agrícolas que gente assalariada era paga para realizar, nunca ninguém o viu de braços cruzados dando ordens conforme seria de esperar. Desde cedo, chegando sempre antes dos outros e sendo o último a largar o trabalho, campeava lado-a-lado com quem trabalhava, endurecendo as mãos e o espírito e reforçando de forma inequívoca os valores e os princípios que tão importantes serão nos episódios rocambolescos que deram forma à sua História pessoal.

Durante a pujança da sua juventude, Joaquim Baraona foi consubstanciando as suas potencialidades e amadurecendo o espírito, de uma forma tão sentida que, nas descrições que dele fazem os seus contemporâneos, surge envolvido por uma aura de concretizador sem par, que o há-de acompanhar ao longo dos anos.




Quando se mudou para Cascais, num acto de entrega total e absoluta e de adopção assumida de um novo destino que escolheu para corporizar a vida adulta, fê-lo novamente de Alma e Coração, multiplicando de forma abissal a sua lógica de concretizadora e deixando um legado de tal forma impactante que as próximas gerações nunca o conseguirão esquecer.

Na terra de adopção, enquanto consolidava a sua família recém constituída, Joaquim Baraona trabalhou afincadamente em vários projectos em simultâneo e, mais uma vez, os frutos do seu empenho foram de tal maneira fortes que alterou por completo a praxis social do seu local de residência.

Da Conservatória do Registo Predial, onde desempenhou funções desde muito novo mas sempre com uma capacidade de criar que fazia toda a diferença, até às instituições sociais da localidade, como a Paróquia de Cascais, a Santa Casa da Misericórdia e as muitas academias e tertúlias culturais que o Cascais de então ainda conseguia ter, Baraona recriou rotinas e dinâmicas, instituiu novos procedimentos e gerou projectos-sobre-projectos num ímpeto de criação de transformou as ditas instituições e as pessoas que com ele participavam nos seus muitos projectos.

E, para além dos grandes empreendimentos de vulto e circunstância que lhe granjearam o reconhecimento público e a notoriedade que se prolongou durante a vida inteira, Joaquim Baraona interessou-se, participou, empenhou-se e trabalhou de forma incessante em centenas de pequenos projectos pessoais, em ajudas a todos quantos lho pediam e no apoio desmesurado a incontáveis instituições de visibilidade nula, dos quais quase ninguém ouviu falar, dos quais não ganhava nenhuma fama, mas que alteraram de forma brutal a vida de muita gente…

Nesta sua faceta menos conhecida, na linha de benemérito e de benfeitor recatado, foi sempre o mais discreto dos intervenientes, zangando-se mesmo quando aqueles a quem ajudava, por entenderem que ao reconhecerem a sua ajuda estavam a reforçar a gratidão que sentiam por ele, tornavam públicos os actos de grande abnegação e humanismo que só ele tinha capacidade de empreender.




Em termos da sua vida pública, são conhecidos e reconhecidos os projectos enormes em que se envolveu. Bairros sociais construídos de raiz; um novo, moderno e pujante hospital distrital pelo qual a vila ansiava há tantos anos; uma praça de toiros construída a partir da conjugação do trabalho empenhado e da dedicação comunitária de milhares de Cascalenses; a maternidade na qual nasceram sucessivas gerações de Cascalenses; jornais e revistas; colectividades; e tantas estátuas, monumentos, escolas, academias e associações que nasceram pela sua mão e com a ajuda dele…

Não existem palavras no léxico Português onde caiba a obra e o legado do Comendador Joaquim Baraona. Porque ela, sendo reconhecidamente enorme na parte pública, era incomensuravelmente maior na componente que poucos tiveram a sorte de conhecer.

A grandiosidade do seu trabalho, trilhando caminhos quase sempre improváveis mas sempre marcados pelo ferro do bem-fazer, espraiaram-se por áreas das quais a sua obra transpira quotidianamente. Baraona foi erudito, escritor, diplomata, político, empresário, benfeitor e tantas outras coisas onde expressou a profundidade da sua excelência.

E, quando foi agraciado pela Presidência da República com a condecoração máxima que existe para a área da benemerência, recebeu os louros do seu trabalho perante uma multidão que todos os dias, na sua vida pública e privada, vivia e usufruía dos resultados de tudo quanto ele estava a fazer.






Dias depois, quando a revolução aconteceu, foram muitos aqueles que correram de imediato a defendê-lo. E ao contrário do que seria expectável, até porque na vida de Joaquim Baraona nunca nada foi aquilo que seria de esperar que se supusesse acontecer, os meses seguintes àquela mudança destruturante na vida de Portugal, foram de continuidade e de luta constante para que o universo dos Portugueses não se desmoronasse e para salvar postos de trabalho, ensejo e projectos. Contou nessa altura com o apoio de quase todos os que estavam há muito tempo ao seu lado mas, na força maior da raiva e da inveja, outros houve que não foram capazes ou quiseram honrar os compromissos e as dívidas de vida que com eles haviam contraído e que, de forma fácil e com o apoio dos novos poderes emergentes, num registo de injustiça atroz e de um desprezo que Ser Humano algum merece sofrer, ousaram apunhalar a sua confiança e sacar da sua posse os instrumentos de que ele necessitava para se defender.

E Baraona surpreendeu novamente.

Perseguido pelo bem que tinha feito e sofrendo injúrias e as mentiras que uns poucos usaram para toldar a rectidão da sua vida e a dedicação a tantos projectos, teve de salvar os filhos ainda menores e de encontrar um caminho alternativo que os salvaguardasse do sofrimento causado por motivos que ainda nem sequer tinham capacidade de perceber. Rumou para o Brasil, para onde seguiu praticamente sem nada, deixando para trás a casa, os bens pessoais, as memórias da sua vida e o legado dos seus pais. Levava consigo a Alma Grande de Português e a força avassaladora de quem tem a convicção de que esteja onde estiver a força da sua determinação impõe-se a qualquer vicissitude conjuntural que possa surgir.

No Brasil repetiu tudo aquilo que fez durante a infância em Ourique e durante o tempo em que trabalhou em Cascais. Construiu projectos inovadores, arrasou com uma visão estratégica fulminante e mudou a face e o rumo do Estado do Espírito-Santo que o recebeu de forma esfusiante por nele ver uma perspectiva de futuro total e radicalmente diferente. Em Vitória moveu montanhas, criou um resort turístico de fama mundial e dirigiu uma operação sem precedentes de plantio de videiras e de produção do que ele chamava “o melhor do vinho Português”. Criou empregos, gerou riqueza, mudou uma vez mais a vida de muita gente.

No meio desse processo, quando o espectro melindroso dos efeitos da revolução começava a dissipar-se em terras de vera gente, foi contactado pelo novo Estado e, sondado acerca de um qualquer natural rancor que pudesse ter depois de tudo aquilo que de terrível lhe haviam feito em Portugal, de imediato se dispôs a abraçar a causa de sempre e, com Portugal no peito, logo se transformou no mais pujante e dinâmico pilar das pontes diplomáticas a estabelecer entre a democracia nascente e o potencialmente brilhante Brasil que estava então a renascer.




Contra tudo e contra todas as expectativas criadas por aqueles que miseravelmente e de forma cobarde o tinham atacado, geminou cidades e gerou irmãos, recriou vínculos e laços fraternos entre academias e associações sedeadas em ambos os lados do Atlântico, e fomentou negócios e dinâmicas empresariais que muito contribuíram para a afirmação de Portugal no Mundo com o denodo que só ele sabia ter.

Foi generoso acima do que seria expectável. Foi generoso com aqueles que o apoiaram e com aqueles que o atacaram. Olhou sempre de cima para o lodo da sociedade e impôs-se pela ligeireza com que regia os ódios, as implicâncias, as maledicências e as invejas mesquinhas que a sociedade humana tem grande dificuldade de ultrapassar e esquecer. Soube, porque era figura maior do que os pequenos personagens com quem se cruzou na vida toda, virar a página e abraçar Portugal como causa sua, continuando, praticamente até ao último dia, a trabalhar a favor de toda a gente.

Quem teve a sorte de o conhecer bem recorda a sua boa-disposição, a educação primorosa, o saber estar e o saber fazer e, acima de tudo, o carácter implacável perante a ignomínia e a falsidade. Era irredutível em tudo o que dizia respeito ao desleixo, ao desinteresse à incúria e à falta de rigor. E isso gerou-lhe amores e ódios que foram marcantes ao longo de toda a vida.

Em Cascais, tudo transborda à obra de Joaquim Baraona. Ele está em cada canto e recanto, em cada esquina e nos pequenos e grandes pormenores das ruas, das casas e das instituições de Cascais.

Quando inaugurou aquele que seria o mais moderno e inovador hospital Português, numa Vila de Cascais que ansiava pelo mesmo há muitas décadas e que sempre se mostrou incapaz do o desenvolver, logo se deparou com outros projectos e ideias que marcaram a vida da comunidade e que mostram bem a fibra que sempre teve.




Numa entrevista concedida em 1970 ao jornal “A Nossa Terra” o (demasiado) jovem Provedor Joaquim Baraona promete iniciar de imediato as obras de remodelação do velho hospital e dotá-lo da mais moderna tecnologia existente nessa época, num ímpeto de ousadia que não deixou indiferentes os poderes instituídos de então. Considerando que o que existia não era compatível com a vocação turística que Cascais vivia, Baraona menciona os avanços técnicos e científicos que a medicina havia alcançado e refere como exemplo uma máquina denominada “auto-analizer”, existente em vários hospitais Norte-Americanos que era considerada um dos mais revolucionários equipamentos do seu tempo. E, perante a estupefacção do repórter que o entrevistava, desde logo promete que o Hospital de Cascais seria o primeiro a tê-lo em Portugal!
E assim o fez! Procedendo a angariações de fundos e à captação de investimentos, o jovem provedor consegue rapidamente obter os meios para proceder à reconstrução do hospital, para o equipar com as mais modernas tecnologias e com o dito “auto-analizer” que de imediato adquiriu nos Estados Unidos.

Mas levantava-se um problema prático que o previdente provedor não tinha conseguido prever: o hospital era demasiadamente pequeno e não existia espaço físico onde se pudesse colocar este equipamento!

Mas Joaquim Baraona não desistiu. Procurando em redor do hospital espaços vazios onde fosse possível construir as instalações para montar o tão desejado “auto-analizer” encontra ali mesmo ao lado, num terreno que pertencia ao Estado e que se encontrava ocupado por um edifício onde tinha funcionado há algum tempo um posto de apoio à tuberculose, a tão desejada solução para o seu problema. Mas surpreendentemente foi muito mais fácil encontrar os meios para adquirir o equipamento do que obter as autorizações governamentais para o instalar no edifício devoluto já existente…

E uma vez mais Joaquim Baraona não esmoreceu. Com o apoio unânime da Mesa Administrativa da Misericórdia, o jovem provedor dirigiu-se ao prédio devoluto, arrombou a porta oficialmente selada e iniciou de imediato a instalação do equipamento. Como seria de esperar, as vozes críticas de sempre logo se levantaram e as ameaças surgiram imediatamente. Mas Baraona sabia que o espaço continuava legitimamente no domínio público e assim concretizou sem mais atrasos o seu projecto que contribuiu de forma imediata para uma melhoria significativa dos serviços médicos do hospital e que foi responsável pela vida de milhares de Cascalenses. O novo hospital foi inaugurado em Abril de 1974, dias antes da revolução, com a presença do Presidente da República e das mais altas individualidades do Estado e da sociedade desta terra.




Teria sido impossível com outra pessoa qualquer! Com outro provedor é mais do que certo que ainda hoje teríamos o “auto-analizer” por estrear e guardado numa arrecadação qualquer. Mas a coragem e a determinação de Joaquim Baraona foi essencial na defesa dos interesses legítimos de Cascais e dos Cascalenses, resultando numa benfeitoria que funcionou até 2010…

Quando partiu em 2018, o Comendador Joaquim Baraona deixou atrás de si um vazio difícil (senão impossível) de preencher. Diz-se que não existe ninguém insubstituível e que o ritmo da vida impõe que alguns partam e deixem o espaço para outros fazerem e brilharem também. Mas isso não se aplica com Joaquim Baraona. O espaço que ficou, num registo que era só dele, vai ficar vazio para sempre. Infelizmente.

Na grandeza do seu desapego e na coragem única que usava para enfrentar os problemas, foi figura de tal forma grande que cobria com o manto do desinteresse os pequenos personagens que nem sequer o conseguiam perceber.




Era o Senhor Comendador. Era pai, amigo e companheiro. Era mestre e professor. Era uma figura de tal maneira grande que qualquer homenagem que se lhe queira fazer ficará sempre aquém da realidade efectiva com que viveu.

Que descanse em paz. Porque por cá, ninguém o vai esquecer.

Obrigado Comendador.

sábado

A Aldeia Nova de Cascais no Alto da Bela Vista




O Cascais que conhecemos e em que hoje vivemos, resultante das grandes alterações havidas na vila a partir do último quartel do Século XIX quando o Rei Dom Luís escolheu este espaço como destino privilegiado de veraneio, esconde de forma literal todo um enquadramento histórico que deriva do processo natural de nascimento, crescimento e afirmação da urbe no contexto nacional. O Alto da Bela Vista é exemplo paradigmático desta situação, pois reúne em si mesmo um conjunto de memórias consubstanciadas em património urbano de primeira importância para Cascais, que ficou encoberto pela assimilação daquele espaço pelo perímetro histórico consolidado da vila que agora temos. Conhecer a génese histórico/urbanística do Alto da Bela Vista é, desta forma, um importante contributo para a recuperação da Memória Histórica e, por extensão, da Identidade Municipal de Cascais, reafirmando a capacidade de enquadramento dos projectos que surjam para aquele local e potenciando o seu valor enquanto factores consolidadores da cidadania local.


por João Aníbal Henriques 




A Génese do Espaço e as Memórias de Cascais

Ninguém sabe, de forma efectiva, onde Cascais nasceu. A urbe que hoje temos, tradicionalmente marcada pelo epíteto de “Vila de Reis e de Pescadores”, é o resultado efectivo de um enorme conjunto de acontecimentos que por aqui se desenvolveram ao longo dos séculos.

Sabendo-se que a ligação de Cascais ao mar é realidade inata à própria existência de aglomerados habitacionais neste espaço, o certo é que a ligação da vila aos seus ilustres pescadores nem sempre se desenhou a partir dos cenários que hoje conhecemos.

Nos primórdios da existência humana em Cascais, quando as primeiras comunidades deambulavam em busca de segurança e alimento, o espaço agora ocupado pela vila oferecia condições excepcionais de habitabilidade.

O mar, fonte praticamente inesgotável de alimentos, assegurava praticamente ao longo de todo o ano, o sustento necessário à sobrevivência humana. E, se o clima e a paisagem eram (e são cada vez mais) paradisíacos, faltava assegurar somente uma dessas componentes básicas que dão sustento a existência de comunidades humanas: o abrigo e a segurança perante ataques e intempéries.

Mas neste campo, possivelmente diferenciando Cascais das demais enseadas arenosas e desérticas que abundavam na região, possui no seu subsolo um conjunto de grutas e cavidades que, furando a pedra calcária que dá forma ao nosso solo, formam um vasto complexo de cavernas que apresentavam excelentes condições de acesso e habitabilidade.




Torna-se fácil perceber, desta maneira, a razão de ser de ter sido provavelmente nas actuais Grutas do Poço Velho, situadas no sopé do morro da Bela Vista, que Cascais nasceu efectivamente. E de, nesses tempos imemoriais do Paleolítico, terem sido ocupadas por caçadores-recolectores que naturalmente utilizavam o mar como sua fonte principal de alimentos.

Cascais nasceu ali, há dezenas de milhares de anos atrás, a partir do binómio que ainda corporiza o inconsciente colectivo da grande maioria dos Cascalenses: o Sol e o Mar, definindo na sua lógica de desenvolvimento urbano uma componente que vincula ambas as realidades perante a necessidade maior de oferecer qualidade de vida a todos os seres humanos que ali se instalaram e que escolheram este como o local ideal para viver.

Suficientemente afastadas do mar para poderem salvaguardar a segurança desejada mas, ao mesmo tempo, próximas o suficiente para serem acessíveis no labor quotidiano, foi no espaço das Grutas do Poço Velho que nasceram as primeiras comunidades piscatórias locais. Foi também ali, a partir dos pressupostos atrás elencados, que nasceram e se criaram as técnicas, as práticas e os conhecimentos que aproximam Cascais do mar até à actualidade.

A consolidação e a sedentarização destas primeiras comunidades humanas na génese do território Cascalense inicia então um processo de paulatina aproximação física ao mar e às praias. O desenvolvimento de conhecimentos na área das construções e a pacificação que resultou do processo de Neolitização, tornou possível virar costas aos abrigos naturais proporcionados pelas grutas e optar por formas de abrigo mais precárias e melhor posicionadas relativamente ao mar. Nascem assim os primeiro aglomerados pré-urbanos, possivelmente localizados em torno da Baía de Cascais, a partir da construção de casas feitas com materiais perecíveis e cujos vestígios não chegaram naturalmente até à actualidade.

Na época Romana, na qual a urbanidade já tinha atingido outros níveis de conhecimento, já encontramos vestígios arqueológicos de ocupação humana na actual zona do castelo, de cara voltada para o mar mas ainda assim aproveitando o desnível do terreno para assegurar alguma segurança suplementar (ver as Cetárias Romanas situadas na Rua Marques Leal Pancada), ao mesmo tempo que o espaço antigo das velhas grutas de outros tempos vai ficando olvidado.




Durante muitos séculos a vida de Cascais recentrou-se em volta da Baía. Era ali que se situavam as velhas cabanas abarracadas onde pernoitavam os pescadores que aqui chegavam, era também ali que se situavam as indústrias de salga e conserva de peixe que tornaram próspero o lugar.

Utilização e Usufruto

Mas como nada é linear na História de Cascais, importa perceber que a concentração de esforços e o assentamento das primeiras comunidades na actual zona junto ao mar, não representou necessariamente o abandono dos velhos espaços. Pelo contrário.

Nas Grutas do Poço Velho e, de forma muito progressiva nas encostas do morro da Bela Vista, foram ficando pequenas comunidades humanas que trabalhavam e rentabilizavam esses espaços.

A primeira notícia que temos desta realidade situa-se precisamente junto à entrada nas Grutas do Poço Velho numa das ruas que dá acesso às mesmas para quem vinha da zona saloia situada no triângulo verdejante e próspero que liga a Serra de Sintra ao mar. Na pequeníssima e quase desconhecida Capela de Nossa da Conceição de Porto Seguro, está ainda hoje uma placa votiva que refere que o templo e o hospício que lhe estava anexo foi construído em 1691por Paschoal Dias e Maria da Costa, originários de Oeiras e que ofereceram esse espaço aos Frades Capuchos  de Santa Cruz da Serra de Sintra.

E por ali, contrariamente ao que hoje se sabe, consolidou-se um núcleo de povoamento dependente do apoio social proporcionado pelo hospício e, concomitantemente, pelo amparo espiritual da invocação maior que Nossa Senhora da Conceição represente em Cascais e em Portugal…




De tal forma foi importante esse povoamento do local, demonstrando a documentação existente que houve efectivamente um afastamento real entre esse espaço e o da consolidação urbanística da Vila de Cascais e seus arrabaldes, que já no Século XIX, quando a Corte escolhe a vila como estância de veraneio, Francisco Marques Leal Pancada, um benemérito Cascalense também relacionado profissionalmente com a conservação do peixe, adquire a capela e o hospício e efectua amplas obras de conservação e restauro.

É importante não esquecer que foi precisamente Leal Pancada que, tempos depois, oferece à população de Cascais o terreno onde virá a ser construído o Hospital dos Condes de Castro Guimarães, situado mesmo em frente ao local onde se situava o Campo Santo e o cemitério principal da localidade.





A Vila Nova de Cascais, por ironia do destino localizada precisamente sobre o local onde Cascais nasceu, cresceu assim com uma dinâmica própria e a pujança de um local que detinha meios próprios de subsistência. Sendo um arrabalde da vila propriamente dita, preservou a sua identidade e consolidou a sua importância no crescimento e consolidação geral da vida Cascalense.

Memórias e Identidade

Na caracterização da unidade urbanística que resulta do devir histórico da Aldeia Nova de Cascais e do próprio Alto da Bela Vista, importa recuperar muita da informação presente no “Levantamento Exaustivo do Património Cascalense” (Fundação Cascais: 2000) onde se elencavam cada casa e cada detalhe com relevância para a compreensão deste importante núcleo Cascalense.




As peças que hoje restam, para além do aglomerado habitacional que foi sendo construído a partir da criação do velho hospício e da Capela de Porto Seguro, ambos peças-chave para compreender e contextualizar eventuais intervenções futuras a realizar naquele espaço, cingem-se tão somente aos detalhes arquitectónicos que sobreviveram às agruras impostas pelos novos tempos e pelas novas necessidades. As cantarias das portas e das janelas, muitas delas com decoração singela em memória de realidades que não existem já, foram reutilizadas em processos de demolição e reconstrução sucessivas que por ali se foram fazendo. E na divisão dos lotes, mesmo com as contrariedades impostas pelo emparcelamento, ainda é possível encontrar os vestígios daquele que foi o Cascais primordial de outros tempos, com as suas courelas e pequenas quintas, os velhos currais de gado e até as actividades de apoio à vida quotidiana no coração da vila.




Esta vertente “saloia” da Aldeia Nova, o local onde se produzia muito daquilo que se consumia na vila de então, foi-se consolidando com o desenvolvimento industrial. Em primeiro lugar, logo ali ao lado, a Real Fábrica de Lanifícios de Cascais e, mais adiante, a Fábrica de Conservas de Peixe que ajudou a definir a margem direita da ribeira. O hospício, que entretanto foi evoluindo para um verdadeiro hospital (e cujo edifício ainda lá se encontra transformado em espaço residencial), era destino eminente para os mais pobres e desfavorecidos da sociedade de então. Convergiriam para ali os que tinham menos posses e meios, sendo certo que pescadores e mareantes ali encontravam o consolo físico e espiritual para os males que os afectavam.

Será eventualmente por isso que, a título de explicação, se mantém a ligação perene entre o mar e este arrabalde “longínquo” do centro de Cascais onde, aliás, se situava o cemitério onde encontravam os pescadores o seu eterno descanso. Possivelmente por isso igualmente, e parecendo pôr em causa toda a lógica e discernimento, ali é construído em época mais recente o “Bairro de Nossa Senhora dos Navegantes” (vulgo Bairro dos Pescadores) que, até há muito pouco tempo era cenário de velhos barcos esventrados ou em operações de reconstrução, pousados em pequenos terrenos cheios de redes e apetrechos velhos de pesca.




Enquadramento Urbanístico

A apreciação de operações urbanísticas neste espaço, natural por sabermos que o envelhecimento do espaço determina necessariamente a sua recuperação, actualização e modernização, deveria ter em conta esta identidade própria do Alto da Bela Vista e a sua importância efectiva na definição daquilo que ainda hoje é Cascais.

O enquadramento dos futuros projectos nesta realidade, bem como a rentabilização das memórias patrimoniais que ali subsistem, ajuda a qualificar as intervenções e, desta forma, consolida a Identidade Municipal e promove a memória colectiva.

Interpretar desta maneira a realidade que temos em linha com as pré-existências dos diversos lugares, assegura aos que projectam nos mesmos condições ímpares para reforçarem igualmente a sua atractividade e, por extensão natural, o valor intrínseco dos empreendimentos e espaços.

Por esse motivo ganha redobrada importância a proposta de requalificação do edifício situado na Rua da Bela Vista, cuja Certidão Urbanística foi discutida na última reunião de Câmara. Toda e qualquer intervenção efectuada no âmbito do contexto urbanístico e patrimonial que seja sinónimo de melhoria da qualidade dos edifícios, e que o faça sem desvirtuar o seu enquadramento genérico na realidade local, é contributo decisivo para o reforço da vocação turística municipal, sendo que esta, conforme está plasmado no próprio Plano Director Municipal, deverá ser resultando de um acréscimo na identidade dos moradores e frequentadores do local.




O potencial educativo e pedagógico do Alto da Bela Vista, tal como acontece em tantos outros cantos e recantos de Cascais, é imenso. É ali que reside a possibilidade de as novas gerações criarem laços e vínculos perenes com quem os antecedeu na ocupação deste espaço. Só assim, com esses laços bem evidentes e com uma abordagem politicamente consciente desta importância, será possível fazer crescer Cascais com qualidade, motivando os equilíbrios sociais com as necessidades de prosperidade e empreendedorismo, e zelando por um reforço efectivo da Identidade Municipal, essencial para uma cidadania consciente e, em última instância, para uma democracia saudável.




Conclusão

A Aldeia Nova de Cascais é uma realidade desconhecida de quase toda a gente. E esse facto, associado aos naturais processos de rejuvenescimento dos nossos espaços habitacionais consolidados, acaba por fazer perder potencialidades que um conhecimento enquadratório daquela realidade almejaria alcançar.

Compreender a razão de ser daquele espaço, os motivos que levaram a que tivesse chegado até nós com as características que nele reconhecemos e as potencialidades imensas que possui para a definição da qualidade que todos desejemos para Cascais, ajuda os técnicos que formulam e apreciam os projectos para aquele lugar, os professores e educadores das escolas locais, os políticos que decidem os destinos da nossa terra, e até o cidadão comum que pretende construir ali (ou reconstruir) a sua casa, a tomar as decisões que melhor correspondem aos interesses de todos os Cascalenses.

Porque sem consciência de quem somos, de onde viemos e para onde vamos, as discussões acabam naturalmente por perder-se nos interesses mais mesquinhos e imediatos, delas resultando pouco mais do que uma pequena peça na engrenagem imensa com que o sistema político que temos nos constrange.

Porque como dizia Pedro Falcão no seu “Cascais Menino”, este é “o Cascais com que sonhamos”. 


segunda-feira

El-Rei Dom Sebastião: O Desejado de Portugal





Cumprem-se hoje 466 desde o nascimento de Dom Sebastião de Portugal. O Desejado de Alcácer Quibir, que carrega consigo o fado maior que explica o fado de Portugal, transcende largamente o homem que foi Rei, pois enquadra, contextualiza e explica muito daquilo que é a essência mais profunda de Portugal. 466 anos depois do seu nascimento, urge celebrar o Desejado, porque nele subsistem, mesmo tantas agruras depois do seu misterioso desaparecimento, as esperanças maiores de um País inteiramente inquietante.


por João Aníbal Henriques


El-Rei Dom Sebastião, filho do Príncipe Dom João e neto d’El Rei Dom João III, nasceu num dos mais conturbados e controversos momento dinásticos de Portugal. A morte dos vários filhos do Rei e a inexistência de descendência por parte dos que sobreviveram, condicionou de tal maneira as possibilidade de sucessão no trono que, até ao nascimento de Dom Sebastião, a única possibilidade viável seria a da entrega do trono à Princesa D. Maria Manuela que, por força das contrariedades, sendo casada com o Rei D. Filipe II de Espanha, naturalmente representaria a entrega da independência de Portugal ao nosso vizinho do lado.

Dom Sebastião foi assim, mesmo antes do seu nascimento, o Rei desejado, aquele no qual Portugal inteiro depositava as suas esperanças e do qual se esperava a restauração do esplendor perdido de um País que ainda pouco tempos antes havia conseguido mudar o Mundo e enriquecer de forma desmesurada.

E as contrariedades, agravadas por ser ele filho único de um pai que faleceu dias antes do seu nascimento, originando um movimento fervoroso de misticismo em torno do seu bom parto, aumentaram ainda mais quando morreu igualmente o seu avô, El-Rei Dom João III, quando o novo príncipe tinha apenas três anos de idade.

Terá sido, aliás, este clima de super-protecção e quase endeusamento, que terá conferido ao príncipe o seu conhecido e reconhecido mau feitio e uma soberba sem igual. Rezam as história da História, numa crónica prenhe de detalhes, que Dom Sebastião era uma figura de muito difícil trato. Não recebia ninguém, não se permitia dar ouvidos a nada e decidia tudo a seu bel-prazer do alto do seu pedestal sagrado, numa atitude de autismo profundo que condicionada de forma grave a sua noção do Mundo e de tudo aquilo que o rodeava.

Depois de um período sem grandes histórias, que correspondeu à sua infância e às regências da sua avó Catarina da Áustria e do seu tio-avô o Cardeal Dom Henrique, Dom Sebastião subiu ao trono quando atingiu os quatorze anos de idade, numa cerimónia lendariamente marcada pela intervenção do matemático Pedro Nunes, de Alcácer do Sal, que alegadamente terá tentado adiar este acto por ter visto nos astros que a data  lhe era aziaga…

Os dez anos que durou o reinado foram marcados por um declínio paulatino de Portugal. O Rei, muito condicionado pela sua visão distorcida da vida e do Mundo, sonhou quimericamente com os grandes feitos das conquistas de outros tempos e a sua faceta religiosa, possivelmente resultante da pressão sofrida durante toda a sua infância, impunham-lhe a determinação de se transformar num novo cruzado. Extemporâneo e teimoso, dedicou a grande maior do seu tempo a rezar e a preparar uma incursão gloriosa no Norte de África, arrastando consigo, até porque a Corte não ousava contrariá-lo, as riquezas e o prestígio que ainda restavam ao País que ele governava.

Da sua privada resta também muito pouco. Tímido e introvertido, características que agravava com uma soberba sem igual, El Rei Dom Sebastião abominava as mulheres que considerava sempre serem a personificação do diabo. E, nessa luta contra a natureza e contra si próprio, agravava a componente mística da sua personalidade, mergulhando num cenário de irrealidade que o impediu de aceitar as normais rotinas de casamento e, por consequência, a descendência pela qual todo o povo ansiava.




A quimera africana, em linha com a megalomania egocêntrica que caracterizou todo o seu reinado, culminou, como todos sabem, na fatídica batalha de Alcácer Quibir que dizimou quase por completo a aristocracia de Portugal e deixou órfão o País inteiro. Ninguém viu morrer Dom Sebastião às mãos dos mouros naquela peleja. Até porque, sendo nobres os que foram e nobres igualmente os poucos que conseguiram regressar, parecia mal e era imoral deixar morrer o Rei sem por ele morrer primeiro… e por isso ninguém viu, ninguém soube nem ninguém sabe o que aconteceu ao jovem, inquieto e perdulário Rei de Portugal.

O Dom Sebastião que hoje recordamos não é exactamente aquele que nasceu há 466 anos, nem tão pouco o que pereceu de forma inglória no Norte de África. Por detrás desta figura, literalmente encoberto pelo nevoeiro de muitas eras e desfigurado pelo mais iniciático mito da Portugalidade, está o Quinto Império de Portugal, aquela ideia inconcreta do que há-de vir e que se afigurará num esplendor total para gáudio de todos e para glória da Nação.

O império salvífico que assim se esconde, conhecido de uns poucos, ansiado por outros tantos e pressentido por todos, não se traduz por palavras nem se concretiza na matéria vil do desencanto. É um sonho, que como tal comanda a vida e que, no caso concreto de Dom Sebastião, se traduz numa demanda geracional e secular por algo de bom que nunca chega mas que se sabe que está ali mesmo, escondida de forma harmoniosa por detrás da cortina de nevoeiro que nos envolve a Alma.

Esta é a Alma de Portugal. Esta é a demanda do Graal que corporiza a Lusitânia gloriosa que tantos sonharam. Este é a Via Verdadeira em direcção ao reinado pleno de quem conhece o segredo primordial…

Diz-se em Sintra que “quem nasce em Portugal é por missão ou por castigo”, e que mais importante do que o que temos ou fazemos, o que somos é que define a diferença entre o bem e o mal.

Dom Sebastião não existe. E apesar de ter nascido naquela madrugada fria de um Janeiro qualquer, perdeu-se na História e deu corpo a uma história que é a maior de Portugal.

Paz à sua Alma!