quinta-feira

São Martinho de Palma (Alcácer do Sal) e o Apelo à Pureza Original




por João Aníbal Henriques

Ali mesmo, onde começa a paisagem enorme do Alentejo, encontra-se a velhíssima Aldeia de Palma com a sua vetusta igreja paroquial e um inusitado apelo a uma visita sã e demorada em linha com o apelo visual imposto pela magnitude do edifício e pelo contraste ineludível relativamente à singeleza da povoação envolvente.

E apesar de se saber pouco acerca das origens mais remotas desta localidade, que já foi sede de freguesia e outrora ficou conhecida como o maior dos latifúndios Portugueses, sabe-se desde logo que a grandeza e opulência da sua igreja contrasta em definitivo com a humildade quase pagã das muitas casas que a envolvem.




Acontece assim, numa dicotomia que se repete vezes sem conta por Portugal fora, basicamente porque a grandiosidade do templo espelha a riqueza imensa da terra onde o mesmo foi construído, hoje pejado de sobro e de arroz, mas outrora conhecido pela sua fertilidade pródiga que deu corpo a lendas e histórias que fazem parte da própria história de Palma.

É o caso das meloas, que já no Século XIX foram cantadas como as mais doces de Portugal, como já outrora outros produtos haviam trazido fama grande a este local.




Ligada de forma absoluta ao nome do empresário José Maria dos Santos, que em meados do Século XIX adquiriu a propriedade original ao Conde do Sabugal por setenta e cinco contos mercê de um processo de litígio judicial que literalmente depauperou o proprietário original, Palma cresceu desmesuradamente durante esse período. O novo proprietário, detentor de conhecimentos tecnicamente avançados e de uma capacidade empreendedora pouco usual no Portugal de então, não só se entusiasmou com a tarefa de acrescentar mais terras à terra que já tinha, como ainda introduziu técnicas modernas nas práticas agrícolas que ali concretizou. Os novos adubos, duplicando a capacidade de produção, permitiram potenciar o valor da terra e a antiga herdade, habituada a viver ao ritmo lento e sentido do Alentejo de outros tempos, depressa se transformou num negócio próspero e pujante, afirmando-se como exemplo para outros empreendedores nacionais.

Toda essa nova dinâmica teve repercussões na própria igreja local e é ainda hoje visível para quem a visita. O painel azulejar dedicado a São João Baptista, está datado de finais do Século XIX e acompanha a alteração do orago original do templo.

Originariamente dedicada a São Martinho, com notícias documentais que comprovam a sua existência pelo menos desde 1544, quando o ermitão João Rodrigues aqui viveu, a velha ermida foi crescendo ao sabor do crescimento da própria propriedade e adquire a sua volumetria inusitada actual pela mão de João Maria do Santos, que lhe dedicou uma parte da riqueza que Palma lhe conferiu.




Destruída quase por completo com o terramoto de 1 de Novembro de 1755, a velha ermida perdeu totalmente as suas características originais com o processo da reconstrução, sendo actualmente virtualmente impossível provar factualmente a sua lendária origem do Século XIII.

Mas não deixa de ser irónico que o dedicatória original a São Martinho, o Santo-Menino que, encaminhado para a vida de soldado, oferece metade da sua capa de Inverno para proteger um menino pobre com quem se cruzou durante uma intempérie primaveril, tenha evoluído para a maior propriedade de Portugal, numa trajectória onde o apelo à pureza original se verga de forma inclemente à necessidade de afirmação terrena e material.




Palma, outrora na rota de todos aqueles que anualmente rumavam de Lisboa para o Algarve, fica ali a meio caminho entre Águas de Moura e Alcácer-do-Sal, na Estrada Nacional que sucumbiu perante a imponência da nova auto-estrada que atravessa Portugal. Mas merece o desvio, a visita e o deslumbramento de um lugar pequenino e singelo mas detentor de uma História sem igual.

terça-feira

Padre Raúl Cassis Cardoso (1928-2019)



Figura marcantíssima, interveniente, controversa e sempre presente na História recente de Cascais, faleceu hoje, aos 90 anos de idade, o Padre Raúl Cassis Cardoso.

Nascido no Distrito de Santarém, o Padre Raul foi ordenado Sacerdote em 1952 pelo então Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira e, depois de um périplo pelas Paróquias de Carregueiros, Pedreira, Calhandriz e Alverca do Ribatejo, assumiu a liderança da Paróquia de Cascais em 1970, ainda na juventude dos seus 41 anos. Durante os que 4 décadas em que esteve em Cascais, o Padre Raúl foi responsável pela dinamização generalizada da Paróquia local, tendo sido o motor principal de muitos dos movimentos paroquiais que deram forma ao Cascais que hoje temos.

 Activo e sempre interveniente, nem sempre de trato fácil quando em causa estavam as suas mais profundas convicções, foi líder espiritual de uma comunidade que nele se reviu durante muitos anos e cujo exemplo motivou as vidas de quase todos aqueles que com eles tiveram a sorte de se cruzar. Quando em 2008 deixou a liderança da Paróquia de Cascais, e se retirou para aqueles que seriam os seus últimos anos de vida, o Padre Raúl manteve-se permanentemente bem vivo na memória de milhares de Cascalenses que recordavam com saudade a sua dedicação à Igreja e à comunidade local. 

Ainda há pouco tempo, quando a atribuição de um topónimo com o nome de um dos seus antecessores a um arruamento na Freguesia de Cascais o fez regressar à terra onde trabalhou durante tantos anos, foi com amizade que a comunidade local o recebeu, enchendo com o carinho de um familiar muito próximo os ânimos daqueles que tiveram a oportunidade de com ele conviver.

O Padre Raúl Cassis Cardoso marcou Cascais, a Paróquia que tão bem dirigiu e a vida de centenas de crianças (hoje adultos) que dele receberam as primeiras orientações espirituais. Que descanse em paz como merece. Cascais não o vai esquecer.

segunda-feira

O Forte das Velas na Praia do Abano em Cascais




por João Aníbal Henriques

Só existe um adjectivo com a abrangência suficiente para descrever de forma capaz o popularmente designado Forte do Abano, situado a Norte da Praia do Guincho, em pleno Parque Natural Sintra-Cascais: incrível!

Sendo um momento singelo de raiz militar, semelhante tipologicamente a tantos outros existentes ao longo da nossa linha de costa e construído especificamente para garantir a segurança do território Nacional perante eventuais investidas marítimas dos nossos muitos inimigos, é único na sua relação com o espaço e com o enquadramento cénico que lhe dá forma.





A sua localização, num promontório rochoso entre as Praias do Guincho e do Abano, plena e permanentemente fustigado pela fúria das ondas do mar e pelo vento que chega agreste e forte vindo da Serra de Sintra, confere-lhe um impacto sem par na paisagem. À sua volta, no contraste permanente entre o azul do mar, o branco das nuvens e o verde forte das encostas que dali seguem até à Peninha, a vista alonga-se através de um dos mais inesquecíveis cenários do Concelho de Cascais, potenciando a sua presença e reforçando a sua importância estratégica na definição da vocação turística municipal.

Incrível também porque, até contextualizando o monumento na sua mera função figurativa enquanto esteio promocional do turismo desta região, o estado deplorável de abandono, vandalismo latente e degradação acentuada, representa um autêntico atentado ao património de Cascais, dos Cascalenses e mesmo de Portugal.



É totalmente inconcebível que num país como Portugal e num Concelho como o de Cascais, nos quais a projecção da importância do sector turístico é tão grande, seja possível deixar que desleixadamente este tipo de equipamentos se vá perdendo por incúria, incapacidade e desinteresse das entidades públicas,  perdendo não só todo o valor cultural que a ele está inerente, como também todo o enorme conjunto de potencialidades económicas, empresariais, culturais, patrimoniais, educativas e outras que o mesmo apresenta. É inconcebível e intolerável que o Estado Português, responsável tutelar pela salvaguarda dos valores que os Portugueses lhe deram à guarda, permita que este tipo de peças patrimoniais chegue a este estado de abandono, não efectuando sequer o mínimo esforço para garantir que os mesmos estão fechados e inacessíveis aos vândalos que os vão degradando.



E infelizmente, este não é caso único, nem singular em Cascais e em Portugal! Intolerável e incrível!
O Forte das Velas, sendo peça integrante no esforço efectuado depois da Restauração da Independência Nacional em 1640, faz parte de um complexo de vários fortes que cruzavam fogo sobre as principais enseadas marítimas de Cascais, recriando uma cortina que visava impedir desembarques indesejados nas principais praias do concelho.






Com a volumetria tradicional da sua época, o também designado Forte do Abano foi construído em 1642 por ordem de D. António Luís de Castro, Conde de Cantanhede e Governador da Praça de Cascais, e inicialmente guarnecido por sete peças de artilharia pesada.

Classificado como Imóvel de Interesse Público através do Decreto 129/77, de Setembro de 1977, foi alvo de várias obras de requalificação e adaptação ao longo dos anos, que lhe conferiram o aspecto que hoje apresenta.

Na componente de alojamento, teria inicialmente três corpos cobertos virados a Este, protegidos da força do mar pelo terraço onde se instalava o grosso da artilharia, e terá sido reformado em meados do Século XIX, quando o desenvolvimento de novas técnicas militares possibilitou a libertação de algum do espaço de aquartelamento, perdendo o corpo central que foi substituído por um pequeno terraço a céu aberto e pela nova cisterna de captação de água corrente.




Da estrutura inicial são ainda de salientar as duas chaminés de aquecimento dos corpos de alojamento situados junto à entrada, vandalizadas possivelmente de forma irrecuperável em época recente, bem como a estrutura de transporte e captação das águas para o seu espaço de armazenamento.

Com o enquadramento cénico único propiciado pelo espaço onde se encontra, o Forte das Velas é uma das peças patrimoniais que mais interesse desperta junto dos muitos milhares de veraneantes e passeantes que frequentam a Praia do Guincho, que quase sempre sobem o espaço da encosta para o observar mais de perto.




Sobre a porta da entrada, praticamente ilegível debaixo do Escudo de Armas Português, a placa comemorativa da sua inauguração desperta o gracejo dos que o visitam. Em acentuada degradação e em estado de ruína eminente, é simultaneamente um tesouro precioso e um perigo imenso, com a acessibilidade privilegiada que tem cruzada com a falta de controle de quem por ali transita.

Resta pouco tempo de vida ao Forte das Velas. Até porque para além do vandalismo a que está sujeito quotidianamente, os próprios elementos se encarregam de o ir destruindo.

Com o seu desaparecimento e paulatina degradação perde Cascais, perdem os Cascalenses e todos os Portugueses. Incrível que seja assim!


quinta-feira

Cascais com as Mãos na Nossa Terra




por João Aníbal Henriques

Outubro de 2018 começou com uma marca negra no Concelho de Cascais. Mais uma vez, de forma inesperada e fortemente impactante, um enorme incêndio que terá deflagrado junto ao Santuário da Peninha, já no Concelho de Sintra, reduziu a cinzas uma área vastíssima que se prolongou até junto à linha de costa na Praia do Guincho.

O terror da noite do incêndio, que ameaçou a Malveira-da-Serra, o Zambujeiro, a Charneca e vários outros aglomerados habitacionais situados dentro da área do Parque Natural Sintra-Cascais, levou à evacuação de pessoas, animais e bens e obrigou a uma operação de grande relevo por parte das entidades competentes.

Os cerca de 700 homens que combateram as chamas durante toda a noite, apoiados por meios terrestres e aéreos, foram insuficientes perante a dimensão da tragédia e o fogo foi alastrando até consumir quase por completo a zona da duna consolidada da Cresmina, os passadiços que permitiam o seu usufruto e várias espécies endógenas que haviam sido recuperadas ao longo dos últimos anos e que estavam a devolver ao local a linearidade ambiental de outros tempos.

Mas o mais impressionante desta tragédia, numa altura em que Cascais ainda cheira a fumo, foi a resposta dos Cascalenses a um apelo lançado pela edilidade e que pedia ajuda para limpar os terrenos ardidos.

Na manhã do último Sábado, foram mais de 1200 os Cascalenses que responderam ao repto da Câmara Municipal de Cascais e que, pondo as mãos na Nossa Terra, deram o seu contributo para recuperar a nossa serra.

Impressionantes a entrega, a devoção e o carinho que emocionou quem teve a sorte de ter podido participar e colaborar nesta iniciativa!

Demonstra que a Identidade Municipal é, de facto, indestrutível!

Parabéns à organização pela iniciativa e pela mobilização. Assim vale mesmo a pena.  






terça-feira

Villa Romana de Freiria em Cascais


Devolvida aos Cascalenses 2000 anos depois…




por João Aníbal Henriques

2000 anos depois de Titvs Cvriativs Rvfinvs ter chegado à Lusitânia oriundo de Roma e ter solicitado autorização aos Deuses Manes para se instalar no território que hoje pertence ao Município de Cascais, os vestígios que restam da sua enorme villa agro-senhorial foram finalmente devolvidos a Cascais e aos Cascalenses!

A Villa Romana de Freiria, localizada junto a Polima, na Freguesia de São Domingos de Rana, tem uma ocupação humana que se perde nas brumas do tempo. Utilizada provavelmente desde a Pré-História, mercê da sua localização privilegiada junto ao estuário do Rio Tejo e do carácter muito fértil das suas terras agrícolas, Freiria apresenta vestígios únicos que atestam os principais momentos da evolução civilizacional do Homem, e um conjunto de estruturas do período romano que são peças únicas da arqueologia mundial.




Entre os dois conjuntos termais, com águas quentes e frias, o espaço habitacional e de lazer profusamente decorado com mosaicos e irrigado com um complexo sistema de distribuição de águas avançadíssimo para o seu tempo, e as estruturas agrícolas de grandes dimensões e de uma qualidade construtiva sem par, a Villa Romana de Freiria possui um potencial cultural extraordinário que se cruza com o valor turístico que a vocação de Cascais não permite renegar.

Descoberta por Virgílio Correia no início do Século XX, a Villa Romana de Freiria foi escavada em dezenas de campanhas que se prolongaram ao longo de todo o século, num esforço hercúleo que permitiu recolher milhares de artefactos únicos e atestar de forma comprovada a imensa importância do local.



Desde meados do século passado, quando a expansão urbanística da região de Grande Lisboa determinou o alastramento absurdo da mancha habitacional e reformatou a matriz urbanística das periferias a partir do caos imposto pelas construções clandestinas, que Freiria foi sendo envolvida por centenas de construções desregradas que, para além de comprometerem a integridade do espaço, acabaram por influir de forma dramática na sua conservação e na possibilidade do seu usufruto por parte da população local.

Praticamente desconhecidas dos Cascalenses, as ruínas romanas foram sobrevivendo aos ataques sucessivos das últimas décadas através do enorme esforço da equipa de arqueólogos que foi acompanhando e estudando o local e que, através de estratagemas quase impensáveis, foram conseguindo esconder, tapar e guardar alguns dos mais importantes detalhes do espaço, salvando assim a sua integridade até à actualidade.




O poder político (ou melhor dizendo) os poderes políticos que sucessivamente foram tomando conta dos destinos de Cascais, demonstraram sempre uma incapacidade latente ao nível decisório, tendo sido todos eles incapazes de contribuir o que quer que seja para a salvaguarda e para o aproveitamento do potencial deste local.

No início dos anos 90 do século passado, quando a Freguesia de São Domingos de Rana cresceu de forma desmesurada e desregrada, a Villa Romana de Freiria foi literalmente engolida pela clandestinidade envolvente, havendo mesmo casas, oficinas e outro tipo de construções que utilizaram materiais das próprias ruínas para as suas próprias edificações. E quando foi apresentada a primeira proposta de um Plano de Pormenor que visava salvar o local, a inoperância política de quem mandava impediu a sua cabal concretização e manteve o cenário de abandono e de incúria até praticamente à actualidade.




As memórias de Titvus Cvriativs Rvfinus, o romano de cepa que chegou a Freiria no Século I d.C. pareciam estar destinadas a uma mera prateleira numa qualquer sala de museu, à medida em que o abandono do espaço incitava à presença dos caçadores de tesouros, dos curiosos e dos detectores de metais, iam esboroando aos poucos aquele que era um dos principais patrimónios de Cascais.

Mas nesta semana, num acto digno de louvor, a Câmara Municipal de Cascais terminou e inaugurou uma intervenção extraordinária no local.




Para além de vedar de forma total o espaço da villa romana, e de recriar um conjunto de passadiços em madeira que permitem percorrer todo o perímetro do monumento sem comprometer a estrutura arqueológica, a intervenção agora concretizada contempla a colocação de sinalética com a identificação dos principais motivos de interesse para quem o visita e, acima de tudo, informação clara e eficiente acerca do que se está a ver e a interpretar.

Com esta intervenção agora inaugurada, Freiria é finalmente devolvida aos Cascalenses, a Cascais e a Portugal, que agora passa a poder usufruir, a conhecer e a reconhecer uma peça ímpar na História deste local.

Desta maneira, mercê do circuito interpretativo, da salvaguarda da integridade do espaço, e do conforto para a visitação, a Villa Romana de Freiria transforma-se no cadinho que desde sempre deveria ter sido de potenciação cultural do local. E, ao invés do que muitos diziam quando há cerca de 20 anos se instalou a polémica acerca do estado de abandono do monumento, passou a ser também um dos principais motores qualificadores de todo o espaço envolvente, fomentando a identidade local e as potencialides turístico-culturais de Cascais e da Freguesia de São Domingos de Rana.




Com a inauguração do pólo universitário de Carcavelos, e a selagem recente do aterro de Trajouce, cria-se nesta zona um eixo de crescimento sustentado e de qualidade que não pode deixar ninguém indiferente. Todo o Vale da Ribeira da Lage, desde o Bairro do Pomar das Velhas até ao novo pólo universitário de Carcavelos, passa agora a ter condições para se destacar da paisagem inóspita da invasão clandestina que caracterizou o Cascais de outros tempos, traduzindo-se em elementos geradores de qualidade de vida para todos os Cascalenses.

Estão de parabéns as equipas de arqueólogos que desde há muitas décadas dedicaram o seu tempo a lutar pela preservação de Freiria. Estão de parabéns as equipas técnicas que idealizaram e concretizaram este importante programa de salvaguarda. E estão de parabéns, os decisores políticos que foram capazes de passar das palavras aos actos e de (finalmente) devolver a Cascais um dos valores maiores da sua culturalidade.




Ganhou Cascais. Ganharam os Cascalenses e ganhou Portugal.

quinta-feira

O Castelo de Palmela




por João Aníbal Henriques

Altaneiro no cimo da Serra de São Luís, o Castelo de Palmela é, provavelmente, aquele que tem o melhor enquadramento cenográfico natural de Portugal. Com vista privilegiada para o Estuário do Sado, controlando as Serras da Arrábida e as terras de Tróia, o castelo apresenta características típicas das várias épocas construtivas a que foi sujeito.

A ocupação original do espaço, provavelmente da época Neolítica, ainda em período Pré-Histórico, enquadra-se na vivência mais comum deste tipo de construções, aproveitando a sua situação estrategicamente relevante para, num laivo de recrudescimento de eventuais posturas, se impor perante a envolvência e definir em seu turno uma vasta área de paz e de prosperidade.




A ocupação deste local é, assim, linear e contínua ao longo dos séculos, com focos permanentes de ocupação humana que lhe foram conferindo, através das suas intervenções na paisagem, a forma e as características que hoje apresenta.

Depois de Visigodos e de Muçulmanos terem feito de Palmela uma povoação de destaque no contexto da ocupação humana do território agora Português durante a Idade Média, foi na época conturbada da reconquista que se definiram em definitivo as suas dinâmicas de ocupação e de desenvolvimento.



Quando Dom Afonso Henriques, no esforço de reconquista das Terras de Portugal, derruba Lisboa, em 1147, abriu caminho para outras lutas e vitórias, que se estenderam, ainda na mesma data, a Sintra, Alenquer e Palmela.

Mas foi sol de pouca dura… a sua posição privilegiada na paisagem e a situação estratégica na defesa das entradas por mar via Rio Sado, tornavam Palmela demasiado importante para que a reconquista Cristã fosse facilmente concretizada e definitiva. Estratégias de contra-ataque, numa tentativa permanente de recuperar esta peça tão importante para a afirmação do poderio militar muçulmano, tornaram este castelo alvo de vários episódios sangrentos de conquistas e reconquistas, passando sucessivamente de mão para mão com evidentes prejuízos para a população e para a paz do local. Depois de recuperada pelos Árabes, Palmela foi reconquistada e novamente perdida pelas forças da Cristandade em 1158 e em 1165, data em que o Rei Dom Sancho I, numa tentativa fugaz de condicionar o destino do local, entrega o castelo à Ordem Militar de Santiago.

Mesmo assim, perante o poderio inaudito do líder muçulmano Abu Yusuf Ya’qub al-Mansur, voltou a cair nas mãos do inimigo e só em 1205 entrou em definitivo em mãos Cristãs.




Mas mesmo assim não foram de paz permanente os tempos do Castelo de Palmela. Mesmo depois de estar definitivamente integrada no Reino de Portugal, foi alvo de investidas e ataques que a desfiguraram, gerando um clima de insegurança e de incerteza que se prolongou pelos tempos. Em 1382, durante o reinado do Rei Dom Fernando, as tropas Castelhanas saquearam a cidade o o seu castelo, produzindo um índice de devastação que desfigurou de forma perene a estrutura defensiva daquele baluarte, obrigando à realização de obras profundas com vista à sua recuperação e ao reforço da sua capacidade de resistência às investidas dos inimigos, que lhe confeririam o aspecto que hoje lhe conhecemos.

Em 1384, novamente no âmbito de um cerco que punha em causa da sobrevivência do próprio Estado de Portugal, foi dos torreões do Castelo de Palmela que Santo Condestável Dom Nun’Álvares Pereira, o monge consagrado à devoção de Maria, avisou o Mestre de Aviz da chegada dos Castelhanos, acendendo ali enormes fogueiras que foram vistas a partir de Lisboa.




O Castelo de Palmela é, desta forma, uma das peças mais interessantes do património militar Português. Não só pelas características específicas que denotam a conturbação de quase dois mil anos de uma história pouco fácil, mas também pela sua intervenção específica nos destinos que a História reservou a Portugal.








quarta-feira

Joaquim António Pereira Baraona (1930-2018)


por João Aníbal Henriques

O Comendador Joaquim Baraona nasceu em 1930, em Ourique, e era orgulhosamente um alentejano dos quatro costados. Quando chegou a Cascais, onde veio criar a Conservatória do Registo Predial, assumiu de Alma-e-Coração esta terra de adopção onde deixou uma marca perene e extraordinária que o triste dia de hoje não vai conseguir abalar.

Em Cascais, quase tudo transborda com os ecos do trabalho, do empenho e da paixão do Comendador Baraona. A antiga maternidade onde nasceram milhares de Cascalenses; o hospital; as conservatórias; os bairros sociais; as academias e as colectividades; o jornais, as revistas e a imprensa local; os movimentos cívicos e de cidadania; as grandes causas que acenderam os ânimos e mudaram a face da Nossa Terra… Por todos os lados, em todos os cantos e recantos de Cascais existe obra do Comendador Baraona.

E para além desta, da qual ele passava sempre ao lado, como se não fosse coisa sua mas que todos sabiam e nela reconheciam a sua intervenção, um vastíssimo legado de entrega à comunidade, ao próximo, a Cascais e a Portugal que ele nunca permitiu que se soubesse que tinha sido ele. Generoso como só ele sabia ser, foram milhares aqueles a quem ele literalmente salvou nos piores momentos, exigindo somente discrição nesses actos, para que ninguém soubesse a grandiosidade indescritível que ele sabia ter.

Não existem palavras no léxico Português onde caiba a obra e o legado do Comendador Joaquim Baraona. Porque ela, sendo reconhecidamente enorme na parte pública, era incomensuravelmente maior na componente que poucos tiveram a sorte de conhecer…

Joaquim Baraona, foi erudito, académico, escritor, diplomata, político, empresário, benfeitor e tantas outras coisas onde expressou a profundidade da sua excelência. Foi condecorado pela Presidência da República como reconhecimento público pela sua obra e, depois da revolução, perseguido de forma injusta pelos mesmos motivos.

Soube, porque era figura maior do que os pequenos personagens com quem se cruzou na vida toda, virar a página e abraçar Portugal como causa sua, continuando, praticamente até ao último dia, a trabalhar a favor de toda a gente.

O dia de hoje é marcante para Cascais e para Portugal. Já nada voltará a ser com era. O desaparecimento físico do Comendador Joaquim Baraona representa o fim definitivo de uma era e, para desgraça dos que cá ficam com a sua boa memória, a certeza absoluta de que é insubstituível para sempre.

Que descanse em paz. Porque o merece.

A bem de Cascais.

quinta-feira

A Porta da Ravessa no Redondo




por João Aníbal Henriques

Parte integrante do antigo Castelo do Redondo, no Alentejo, a Porta da Ravessa é, mercê de uma acção de marketing associada a uma marca de vinhos, um dos mais conhecidos e procurados monumentos históricos daquela região.

Marcando inicialmente a linha da frente na defesa das fronteira nacionais, num sistema complexo que integrava ainda os castelos de Estremoz, Monsaraz e Portel, o Castelo do Redondo apresenta uma formulação espacial simples, promovendo a integração do núcleo urbano mais antigo da localidade. Tendo feito parte do conjunto de fortalezas recuperadas pelo Rei Dom Dinis no Século XIV, terá tido a sua origem em período muito mais recuado, provavelmente durante o domínio muçulmano , aproveitando uma possível estrutura defensiva de carácter mais precário que ali havia sido construída pelos romanos.




A estrutura actual, no entanto, mantendo basicamente inalterada a traça original, deverá bastante mais recente, reforçando a convicção generalizada de que a povoação que hoje temos resulta de um processo histórico marcado pela consolidação da nacionalidade já no final da Idade Média.

A Porta da Ravessa, localizada a Norte do recinto amuralhado, também é conhecida como Porta do Sol, definindo a protecção do eixo viário que ligava Évora a Badajoz. Nela se centrava, pelo enquadramento urbano de que é peça central, a estrutura administrativa da localidade, facto ainda hoje visível na presença das marcas da vara e do côvado que fomentam a celebridade deste monumento.

Expressão maior das potencialidades do Alentejo, a Porta da Ravessa é um bom exemplo da forma como o património histórico se afigura essencial na determinação da Identidade e da Cidadania, num processo mais amplo e pragmático que determina a condição essencial da própria democracia. 

segunda-feira

A Anta da Pedra da Orca em Gouveia




por João Aníbal Henriques

A Anta da Pedra da Orca, também conhecida na região como Dolmen do Rio Torto, é um dos mais importantes monumentos do Concelho de Gouveia. A definição estrutural da história da comunidade, marcada de forma evidente pela presença deste monumento megalítico, é bem visível na forma como o designativo do local se impõe como topónimo espacial, até porque, sendo sinónimos as palavras anta e orca, derivam ambos da referência expressa ao megalítico que dá corpo a este espaço, e que desde há muito foi marca perene no devir quotidiano da localidade.

Analisada pela primeira vez ainda em pleno Século XIX pelo ilustre investigador minhoto Martins Sarmento, que por ali deambulou em busca das origens primevas da portugalidade, a Anta da Pedra da Orca foi alvo de posteriores investigações sob a tutela de Maximiliano Apolinário, que ali encontrou vários vestígios arqueológicos de grande importância e que actualmente se podem ver no Museu Nacional de Arqueologia em Lisboa.




Composto basicamente por pontas de seta, fragmentos cerâmicos e restos de ossadas humanas, o espólio encontrado nesta anta reforça a sua datação como originária do final do período Neolítico, com cerca de 8000 anos, enquadrando-se tipologicamente nas estruturas comuns desse período existentes por toda a Península Ibérica. A sua estrutura pétrea, da qual subsistem alguns dos esteios que suportavam a grande pedra de fecho, estaria originalmente tapada por uma grande quantidade de terra e pequenas pedras que, configurando uma espécie de monte artificial, teria como principal função a de dissimular o monumento na paisagem, evitando assim a sua identificação e o eventual saque que dela resultasse.

A câmara, ou seja, o espaço central da anta, teria uma funcionalidade eminentemente funerária, servindo para a deposição dos restos mortais dos membros da comunidade local, num contexto simbólico que denota já uma alargada capacidade simbólica e que exigia necessariamente uma estruturação social complexa e bem organizada. O corredor de acesso, numa alusão simplificada ao canal vaginal feminino, supõe uma ligação perene entre à ritualidade ligada aos cultos da fertilidade, presumivelmente em linha com os cultos da Deusa-Mãe e da mitologia associada ao eterno feminino cujos vestígios surgem amiúde em outras antas espalhadas por todo o território nacional.

Nesta perspectiva, em que os cultos matriarcais prevalecem, assume especial importância a sua localização numa das encostas Nascentes da Serra da Estrela, simbolicamente conotada com essa vertente feminina e que determinou de forma evidente toda a simbólica religiosa que virá a caracterizar as comunidades humanas que ali se instalam em períodos subsequentes. É esta Deusa-Mãe, cujo útero úbere se enche de vida num processo mágico que o Homem de então desconhece, quem define a ligação simbólica mas pragmática que os povos desta região desenvolveram com a mitologia de origem feminina e que, depois da queda do Império Romana e da Cristianização do território peninsular, se vai paulatinamente adaptando aos novos uso e costumes, adoptando a essência mais profunda de uma associação que a aproxima da figura primeva da Mãe de Jesus, ou seja, de Nossa Senhora…




E, se a Rainha e Padroeira de Portugal é Nossa Senhora desde 1640, é certo também que a devoção mariana conflui no Portugal que hoje temos precisamente para o designativo de Nossa Senhora da Conceição ou seja, numa calara alusão ao carácter fértil da Mãe de Deus, recriando assim uma ponte simbólica entre aquela que se assume como a principal das linhas de pensamento religioso actual e estas primitivas expressões do sagrado nas comunidades. Em suma, é a mesma devoção sagrada, numa expressão de mistério que impõe a ultrapassagem das barreiras do tempo para, no âmbito de um contexto comum, juntar comunidade cujas vidas estão separadas por espaços de vários milhares de anos, mas que convergem na sua capacidade de identificar a divindade nos mesmos pressupostos e de para eles encaminhar a expressão mais profunda da sua Fé.

O regresso às origens, ao útero materno e ao mundo interno configurado pelo ninho escuro do ventre materno, transforma-se assim num processo de recondicionamento da própria vida. Quem nasce, necessariamente cresce, vive e morre, regressando então às suas origens num périplo de retrocesso à primitiva pureza original. A anta, de uma forma geral, e esta de Gouveia em particular, é assim o primeiro pilar estrutural de uma forma de pensamento que dará corpo àquilo que são hoje os alicerces da própria humanidade, ajudando a compreender a complexificação das relações entre os homens a partir da forma como eles expressam o seu entendimento pelos mistérios maiores da vida (ou das vidas) que vão vivendo.

No caso específico da Anta da Pedra da Orca, a ligação ancestral à estrela ainda aprofunda mais esse pressuposto. A estrela, simbolicamente expressando a forma da luz primordial e inacessível, ou seja, a candeia que acompanha o homem no se percurso final em direcção ao céu, é fundamentalmente um apelo à condição primordial da dependência da vida relativamente à mulher. Não há vida, nem trabalho, nem prosperidade sem a mágica sublime da concepção e do nascimento. E, da mesma maneira, nada disso existente sem a condicionante final da morte, expressão sublime da existência humana, exigindo assim sistemas complexificados de pensamento que ajudem a explicar e a perceber um fenómeno que, sendo transversal a todos os seres humanos, é por eles entendido de forma incipiente.

As ossadas humanas encontradas no espólio da Anta da Pedra da Orca são, por isso, os vestígios que restam das comunidades que certamente durante várias gerações utilizaram este monumento como espaço funerário, sendo que os restantes objectos votivos, principalmente as pontas de seta e os recipientes cerâmicos que ali foram descobertos, teriam uma funcionalidade efectiva na vida subsequente daqueles que ali eram depositados, num regresso ao colo materno, quando a morte de aproximava e a vida chegava ao seu fim definitivo e terreno. Os construtores neolíticos, ainda tão primitivos tecnicamente quando comparados com aqueles que lhes sucederam, tinham já nessa época a convicção profunda da dualidade espírito-corpo que actualmente define as religiões modernas, consignando a morte como um mero momento num percurso ou caminho mais longo e amplo em direcção à eternidade espiritual dos que morreram.




Por tudo isto, mais do o impacto maravilhoso que este monumento impõe sobre quem o visita, a Anta da Pedra da Orca, em Gouveia, representa de forma subtil a operação maior pela qual o homem passou em direcção à humanização que hoje temos. E, definindo de forma rigorosa a via que a isso levou, num percurso necessariamente longo e complexo, mostra-nos com exactidão o papel que nesse desiderato desempenhou a comunidade que habitava naquela região do actual território português.


É que, não sendo ainda o Portugal que hoje temos, é já o embrião totalmente perfeito dos Portugueses que hoje temos a capacidade de ser. 

sexta-feira

O Castelo de Noudar em Barrancos




por João Aníbal Henriques

Existem poucos monumentos em Portugal como o Castelo de Noudar, situado no Concelho de Barrancos, no Alentejo profundo. A sua situação geográfica, situada estrategicamente junto à raia Espanhola, associada a um cenário paisagístico profundamente impressivo e impactante, fazem deste recanto um dos mais encantados monumentos de Portugal.

Com uma história muito longa, que os vestígios arqueológicos comprovam ter-se iniciado ainda durante a Pré-História e durante o período da primeira ocupação humana no actual território português, o Castelo de Noudar que hoje vemos é o resultado de sucessivas campanhas de construção e reconstrução que remontam à ocupação romana e que os Visigodos e mais tarde os Muçulmanos, vieram a adaptar às suas necessidades.




Situado na confluência da ribeira de Múrtega e do Rio Ardila, numa elevação do terreno que lhe confere enorme visibilidade sobre o território envolventes, o castelo é uma espécie de sentinela avançada de Portugal, representando um papel essencial na definição do controle territorial nacional perante as constantes investidas do país vizinho.

Constantemente alvo de ataques e de contra-ataques, numa luta permanente pela independência, nunca foi fácil a via em Noudar. A vila nascida dentro das suas muralhas, detentora de um poder civil amplamente reconhecido pela Coroa Nacional, foi sempre reforçando a sua importância política, facto que explica a elevada taxa populacional que foi sempre apresentando ao longo dos seus muitos séculos de história.




Em termos urbanísticos, com a sua estrutura simples, Noudar configura-se em torno da sua torre de menagem e dos edifícios de cariz oficial que governavam o seu território. A cadeia, ainda hoje um ex-libris da velha povoação, assume especial importância sobre tudo num espaço no qual a força da Lei era imperativo maior na manutenção da qualidade de vida dos cidadãos, apesar da distância quase absurda que medeia entre aquele lugar e os principais pontos do poder administrativo Nacional.

A antiga alcáçova, aberta na zona mais central da antiga localidade, compõe um quadro romântico que se acentua pelo cenário de ruínas que actualmente caracteriza o povoado.

Quando Gonçalo Mendes da Maia, conhecido historicamente como o “lidador”, a conquistou em 1167, Noudar era uma povoação essencial para o reforço da autonomia nacional. O controle da estrada que ligava a sede episcopal em Beja com a centralidade política espanhola, fazia da povoação um dos pontos-chave na estratégia de definição territorial Cristã, recriando em seu torno um complexo sistema de rentabilização económica do espaço que não deixa indiferentes os principais poderes políticos daquela época. É, por isso, apetecível a ocupação de Noudar, assim se mantendo durante muitos séculos.

Em 1644, por ocasião da Guerra da Independência, o usurpador Espanhol manteve Noudar sobre a sua tutela. E a libertação da localidade, acontecida somente em 1715 no âmbito do Tratado de Utrecht, concretiza-se depois de uma acção de destruição massiva das principais estruturas da povoação. Este facto, aliado a uma pretensa epidemia de natureza desconhecida que afectou simultaneamente a população, terá determinado a extinção oficial da vetusta vila, facto que dará origem a um processo paulatino de despovoamento que se prolongará durante algumas décadas e do qual, por exclusão de partes, resulta o florescimento da vizinha Vila de Barrancos da qual este território faz actualmente parte.




Noudar é actualmente uma espécie de Castelo Encantado perdido nos alvores da modernidade Portuguesa. Desde o Século XVIII, quando a sua extinção administrativa aconteceu, não mais foi alvo de intervenções que ali tenham construído novas edificações. Mantém, por isso, os traços antigos de um espaço perdido no tempo, assumindo-se como ruína romântica de uma era longínqua cuja memória se foi perdendo ao longo dos tempos…

Da sua memória mais ancestral, provavelmente reforçada com a aura misteriosa que o seu abandono configurou, faz parte uma lenda maior do Alentejo marcante e profunda onde a mesma sua desenvolve. Ainda hoje, tantos séculos depois de se ter transformado numa imensa ruína perdida no tempo, há quem afirme convictamente que em certas noites do ano, quando o calor do estio se prolonga noite adentro, é possível ver, no topo da sua torre de menagem, a figura esbelta de uma cobra altiva que, com um toutiço na cabeça, vai dançando fantasmagoricamente à luz do luar!

E essa cobra, que a sabedoria popular diz que é uma princesa moura encantada, encaixa de forma perfeita na estória da lendária moura Salouquia cuja vida terminou de forma abrupta quando, no calor imenso das guerras da reconquista, se terá suicidado atirando-se para a morte do alto da torre do Castelo de Moura. A princesa encantada, maravilhosa na formulação que dela faz o imaginário popular, não morreu como era a sua vontade a fugir dos atacantes Cristãos que se preparavam para tomar a sua cidade. Por artes mágicas, ter-se-á transformado numa cobra ao tocar no chão e, dessa maneira, contornando a perniciosa forma da morte, fugiu rastejando através dos plainos férteis do Alentejo até Noudar, onde ainda hoje se prepara todas as noites para receber o seu noivo oriundo do território do Islão!




Qualquer que seja a verdade associada a esta história lendária, o certo é que o Castelo de Noudar, classificado como Monumento Nacional desde 1910, carrega consigo o encantamento que o deslumbre da sua monumentalidade deixa transparecer. As suas muralhas velhas, gemendo ano após ano as agruras terríveis do frio do Inverno e o calor insuportável do Verão alentejano, ainda ecoam de forma sublime as vozes avoengas dos que nos precederam, toldando com a sua aura de mistério alguma razão de que pudéssemos fazer uso quando as visitamos. A impressão causada pela antiga vila abandonada de Noudar é de tal forma grande, com o peso ancestral da sua História e das suas estórias, que se torna difícil (senão impossível) manter o discernimento do que é real naquela amálgama de emoções que o espaço transparece.




Visitar Noudar, agora que as intempéries determinaram um triste fim para as ruínas que subsistiram ao longo de tantos séculos, é recuar muitas centenas de anos no tempo, pisando de forma sensível as mesmas pedras tal como outrora outros fizeram e recuperando memórias de outras eras.

É, enfim, uma autêntica máquina do tempo que, com a magia própria que emana das coisas verdadeiras, representa uma experiência sensorial irrepetível, prenhe daquilo que enche a Alma de qualquer Português.

quarta-feira

A Via-Rápida de Cascais: Vícios Suburbanos numa vila (ainda) especial...




A inauguração do CascaisVilla, em Novembro de 2001, representou o culminar de uma verdadeira revolução urbanística em Cascais. A substituição da antiga Rua Padre Moysés da Silva, com os seus saudosos relvados sempre bem cuidados, pela nova Avenida Dom Pedro I, com o seu perfil de via rápida em pleno coração da vila, inverteu por completo a urbanidade de Cascais, transformando drasticamente a velha e charmosa urbe em mais um moderno e incaracterístico subúrbio de Lisboa.

A nova porta de Cascais, encabeçada pelo popularíssimo “Titanic”, foi projectada para facilitar a entrada de automóveis na vila, deixando para segundo plano as preocupações com os peões e com o carácter antigo desta vila tão especial. As quatro filas de trânsito paralelas, atravessadas somente por quatro míseras passadeiras de peões, promovem a velocidade automóvel e dividem literalmente a velha povoação em duas partes desiguais.

Os semáforos foram pensados para deixar os nervos em franja a qualquer incauto passeante. O intolerável tempo de espera para os peões, aliado à falta de sincronização entre as passagens, faz com que a travessia da avenida demore tanto tempo que a maior parte das pessoas acaba por corajosamente atravessar com sinal encarnado pelo meio dos carros. Quando colocados perante a morosidade dos semáforos, os estrangeiros que ali chegam pela primeira vez e todos aqueles que não conhecem este pesadelo suburbano de Cascais, concluem geralmente que estes estão avariados e também eles empreendem a perigosa passagem…

E como se tal não fosse suficiente, decidiu-se juntar à confusão uma espécie atabalhoada de central de camionagem que, localizada no piso inferior do centro comercial, usufrui de um acesso literalmente encaixado à força e de forma abastardada no projecto inicial, criando uma zona de trânsito semi-condicionado e muito inseguro que poucos percebem e que ajuda a fomentar a precariedade de todo o espaço.




Mas, não bastando o carácter inusitado de toda esta situação, o recém-aprovado PDM de Cascais, ainda promove o agravamento da situação (Ver AQUI). Os parâmetros urbanísticos previstos para este local, ao invés de reverterem a situação e de devolverem a Cascais a dignidade urbana própria que a vila merece, multiplicam este carácter suburbano, potenciando o aumento da construção.

Poder-se-ia dizer que toda esta situação poderia ser facilmente resolvida a bem de Cascais e da sua população. E é verdade. Mas, embora as críticas sejam muitas e o rebuliço partidário se acenda a cada 4 anos, o certo é que ninguém ousou fazer as coisas de maneira diferente.

A Vila de Cascais, que durante muitas décadas foi local de charme e de reconhecida qualidade urbana e comercial, vem-se transformando aos poucos em mais um subúrbio desinteressante e incaracterístico de Lisboa. Os danos colaterais, bem visíveis no paulatino desaparecimento do comércio tradicional e no aumento da insegurança urbana, afectam a qualidade de vida de todos os Cascalenses, comprometendo a vocação turística municipal.

Mas, ao que parece, é mesmo esta a infeliz opção…  




Passadeiras? Para peões?...

As quatro passagens de peões existentes nesta via-rápida são insuficientes e foram desenhadas para potenciar o tráfego automóvel. O tempo de espera para peões, agravado com a falta de sincronização das mesmas, faz com que para muitos a única opção seja o atravessamento com luz encarnada, pondo em risco a sua vida e a daqueles que circulam nos carros. É intolerável!