quarta-feira

A Estação Arqueológica do Castro da Cola




Recuam ao Século XVI as primeiras referências literárias ao Castro da Cola, importante estação arqueológica situada a escassos doze quilómetros de Ourique, no Alentejo. André de Resende, conhecido humanista eborense dessa época, esteve naquele local no ano da graça de 1573, sendo que dois séculos depois terá sido seguido nesse acto por Frei Manuel do Cenáculo, que ali efectuou um primeiro estudo topográfico.

Segundo Joaquim Figueira Mestre, o Castro da Cola ocupou desde sempre o imaginário das gentes da região: “ (…) existindo lendas de tesouros e mouras encantadas na sua tradição oral. O Castro da Cola chegou assim até nós mitificado e envolto numa auréola de mistério”.

Em termos concretos, o Castro de Nossa Senhora da Cola teve uma ocupação que vai desde o período Neolítico até ao reinado do Rei Dom Afonso III sem que, no entanto, tenham deixado de existir certos hiatos de tempos nessa ocupação.

Durante a época muçulmana, o Castro da Cola mais não era do que um pequeno povoado fortificado, possuindo na sua base as componentes de uma economia agro-pastoril, baseada não só nos interesses e nas disponibilidades dos povos de então, mas também nas potencialidades naturais da região.

O período do seu apogeu, ao que parece, deu-se no dealbar na Nacionalidade, assistindo-se nesse período à construção de diversas edificações no interior do povoado. Segundo Abel Viana, são dessa época os grosseiros pavimentos de “pequenas e mesquinhas habitações”, de que precedem a maior parte dos vestígios ali encontrados.

A destruição e abandono do local, mais do que às vicissitudes do tempo, ficou a dever-se sobretudo às diversas violações impostas ao monumento ao longo da sua longuíssima História e principalmente durante os primeiros anos do Século XX. Segundo consta em relatos dessa altura, existia na Aldeia de Palheiros um grupo de caçadores de tesouros que escavaram o castro, destruindo para sempre uma grande parte das informações que ele teria para nos oferecer.

Numa época em que a Europa nos surge ávida de singularidades que tornem atractivos os seus territórios, e em que Portugal tanto necessita de conhecer e reconhecer as suas inúmeras mais valias, resta-nos esperar que as entidades responsáveis assumam a importância deste lugar, salvaguardando aquela que é uma das mais importantes peças da herança cultural do Alentejo.

A bem de Portugal!




segunda-feira

Almodôvar - Uma História da História de Portugal




Situado estrategicamente a escassas dezenas de quilómetros da cidade de Beja, capital do Distrito, e abrangendo a vasta planície alentejana e as ondulantes serras algarvias, o Concelho de Almodôvar desde cedo despertou a atenção do Homem.

A fertilidade dos seus terrenos e a amenidade do seu clima, são factores fundamentais para o desenvolvimento de uma agricultura rica em produtos essenciais: os cereais, as cortiças, os pastos e a criação de gado.

Data do período Neolítico a ocupação humana em Almodôvar. Vestígios dessa época podemos encontrá-los na Aldeia dos Fernandes junto da estrada para Lisboa, e em diversas antas e monumentos megalíticos situados em todas as suas freguesias. Os exemplares mais deslumbrantes e importantes são as Antas do Meio e as dos Mouriscos.

Do período comummente designado por Idade do Ferro são vastos os testemunhos, deixando bem sublinhada e documentada a própria História dos povos que habitaram este extremo Sul da Península Ibérica.

O Monte do Guerreiro, o Monte dos Mestres, as Mesas do Castelinho, o Corte Freixo, o Tavilhão, o Monte Beirão, o Monte Novo da Misericórdia, o Monte da Azinheira, o Corte Figueira, a Atafona, o Corte Zorrinho, o Castelo dos Mestres e outros, são alguns desses vestígios que, por si só, dão mote para uma visita prolongada ao Concelho de Almodôvar.

Do período Romano também existem vários vestígios no seu território. No Castelinho, no Monte do Castelejo, na Senhora da Graça dos Padrões e na Horta dos Mouros, podemos encontrar ainda muitos sinais da sua passagem por esta região, percebendo bem como se processou o processo paulatino de conquista e ocupação do território que hoje faz parte de Portugal.

O período Árabe, entre 711 e o Século XII foi, no entanto, aquele que marcou decisivamente a vida desta povoação. A sua influência persiste ainda hoje, não só na típica arquitectura das casas, como também no próprio artesanato, de que as típicas mantas alentejanas são a sua mais genuína expressão.

Já durante o período da Nacionalidade, Almodôvar recebeu o seu primeiro Foral das mãos de Dom Diniz, em 1285, tendo o mesmo sido confirmado e ampliado por Dom Manuel I em 1512.

Almodôvar foi Padroado Real e, mais tarde, por doação de Dom Diniz, pertenceu ao Mestrado de Santiago.

Representando um breve e confortável desvio na viagem de férias ao Algarve, a visita a Almodôvar representa uma incursão num dos mais emblemáticos municípios de Portugal. A sua riqueza urbana, histórica, gastronómica, enológica e cultural, e principalmente o facto de se manter praticamente desconhecida do visitante comum, faz deste espaço um local deslumbrante que transforma radicalmente a forma por vezes sombria como alguns caracterizam Portugal!




sábado

Ourique - Mais uma Pérola que Portugal tem de Descobrir





Com uma vasta História, rica em complicados episódios que marcaram decisivamente o próprio devir histórico Nacional, Ourique e o seu Concelho possuem diversos vestígios imensos motivos de interesse.

Para além do seu castelo, bastante alterado e desvirtuado na sua formulação espacial mas ainda marcante por aquilo que representa no contexto da nossa Nacionalidade, Ourique possui ainda várias Igrejas, capelas e ermidas que constituem, no seio de um infindável potencial turístico, um valioso património cultural.

Os primeiros passos da existência de Ourique foram certamente dados durante o dealbar da independência de Portugal. Sabe-se, através as fontes escritas, que a História de Ourique se revela de grande importância em pleno Século XII, ainda durante o processo de reconquista do território da Península Ibérica aos Mouros.

Foi na planície do campo de Ourique, pese embora a controvérsia, que D. Afonso Henriques enfrentou as tropas mouras chefiadas por Esmar, no já longínquo ano de 1139. As interpretações variam e as lendas são díspares em relação ao que realmente sucedeu, mas os dados de cariz toponímico e geo-estratégico apontam cada vez mais para a veracidade desta crença.

Também quanto à origem do nome da povoação persistem duas versões: ORIK, dos Árabes, com a significação de infortúnio e/ou desgraça , a assinalar a derrota sofrida perante o reconquistador Cristão; ou a derivação de OURIQUE, do ouro que se diz ter existido em abundância nos seus solos.

O crescimento da Vila e o incremento da sua importância estratégica na defesa e na manutenção da independência Nacional, terão estado na base dos diversos forais que Ourique recebeu ao longo do Século XIII, reconhecendo os direitos e os deveres da comunidade aqui existente e autorizando a sua participação na vida administrativa do Reino. Em 1288, durante o reinado de Dom Diniz, foi concedida a Ourique a carta de feira anual, traduzindo também o seu destacado papel na vida económica, social e política do Portugal medieval. Nesta época, a concessão deste tipo de documento, com as suas consequentes prerrogativas, assentava na existência de meios de produção de riqueza de dimensões consideráveis e de uma relevância grande no contexto do equilíbrio económico do Reino de Portugal. Era nessas feiras, aliás, que se desenvolviam as diversas actividades relacionadas com a administração do País, sendo também aí que se criaram as primeiras actividades culturais que deram forma à Identidade Nacional.

A importância de Ourique vai crescendo de forma permanente ao longo dos Séculos, facto comprovado com a atribuição de novo foral, já no Século XVI, quando Dom Manuel I, com vista à actualização administrativa do Reino, procede à reforma dos forais.

A Comarca de Ourique, que já existia em 1646, conservou-se na Vila até 1865, altura em que foi transferida para Almodôvar, e de onde só voltou em 1874. Relatos dos jornais da época apontam para a realização de um grande cortejo fúnebre organizado pela populações e pelas entidades locais, que terá acompanhado a transferência e marcado o desagrado de todos perante tal situação.

Em épocas mais recentes, a História de Ourique tem acompanhado a linha que serve de orientação à generalidade dos mais pequenos municípios do Alentejo. Um peso extraordinário atribuído à agricultura, acompanhado pelo declínio da sua capacidade de produzir riqueza quando a indústria se começa a impor às lides da terra. No ano de 1900, a população de Ourique era de 9143 pessoas que, como já acontecia cerca de sete séculos antes, se dedicava maioritariamente à agricultura e ao gado. Cinquenta anos depois, em 1950, atinge-se o pico do crescimento da povoação, com um conjunto populacional de 16685 pessoas. De então para qual, e num processo paulatino, Ourique tem vindo a perder os seus habitantes, sendo que em 2001 o número total de residentes se cifrava nos 6703.

Situada estrategicamente junto à Estrada que leva Lisboa ao Algarve, e marcada por uma História excepcional que se associa a um património riquíssimo, Ourique é mais uma das preciosidades de Portugal que teima em manter-se desconhecida e desaproveitada no seu imenso potencial.

Um Portugal coeso, consciente e sólido, assente numa Identidade bem vincada e num edifício sócio-ecomómico que suporte a consciência crítica dos seus cidadãos e a cidadania activa que todos desejamos, tem obrigatoriamente de ser capaz de se conhecer e, com isso, reconhecer cada um destes espaços onde tudo está ainda por fazer e rentabilizar.


Academia de Letras e Artes e Junta de Freguesia de Cascais Evocam a Memória de Cascais



Numa iniciativa conjunta da ALA - Academia de Letras e Artes e da Junta de Freguesia de Cascais, que contou também com o apoio da Câmara Municipal de Cascais, foram homenageadas três figuras ilustres do passado Cascalenses. O fotógrafo César Guilherme Cardoso, o poeta Fernando Tavares Rodrigues e o Empresário João Cabral da Silva, foram relembrados numa cerimónia evocativa das suas memórias e do seu contributo para a consolidação da memória colectiva do Concelho. Reforçando o testemunho de memória e de gratidão relativamente a estes três vultos da História de Cascais, a ALA e a Junta de Freguesia de Cascais inauguraram topónimos em três arruamentos da Freguesia, perpectuando assim os seus nomes na memória colectiva de Cascais.


FERNANDO TAVARES RODRIGUES




Fernando Jácome de Castro Tavares Rodrigues nasceu em Lisboa em 1954.

Licenciado em Ciências Sociais e Humanas ...pela Universidade Nova de Lisboa, e diplomado em jornalismo foi sociólogo, jornalista, poeta e escritor, tendo publicado vários livros e criado letras para alguns dos mais conceituados artistas Nacionais, nomeadamente Beca do Amaral, Kátia Guerreiro, João Veiga, Maria Germana Tânger, José Campos e Sousa, etc.

Foi membro do Conselho de Gerência da RTP e adjunto para a Comunicação Social do então Primeiro-Ministro Cavaco Silva, e relações públicas da EPAL. Fernando Tavares Rodrigues foi ainda membro do Conselho de Leitura da Bertrand Editores, dirigente da Associação Portuguesa de Escritores e Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Poetas.

Foi também académico da ALA – Academia de Letras e Artes, com sede em Cascais, tendo vivido no Monte Estoril, onde fazia parte da direcção da Associação de Moradores.

Faleceu em Lisboa em Fevereiro de 2006.








CÉSAR GUILHERME CARDOSO




O olhar de César Guilherme Cardoso (1920-2005) fixou mais de 60 anos da história de Cascais em milhares de fotografias. Os monarcas exilados no concelho confiaram-lhe retratos da intimidade porque era um anti-paparazzo, um fotógrafo com princípios. No âmbito da sua actividade, e a partir do seu atelier em Cascais, Césa...r Cardoso estudo afincadamente as mais moderna técnicas ligadas à fotografia, tendo reunido um valioso acervo que actualmente se encontra no Arquivo Histórico de Cascais.







JOÃO CABRAL DA SILVA




João Cabral da Silva, nascido na Freguesia de Carvide (Leiria) em 1905 e radicado em Cascais desde tenra idade, foi comerciante e empresário dinâmico da nossa terra, tendo desenvolvido longa e profícua actividade em diversas instituições sedeadas em Cascais. Diplomado em Contabilidade pelo Ateneu Comercial de Cascais, João Cabral da Silva foi Presidente do Grémio dos Comerciantes em Cascais onde fundou e explorou diversas empresas nos ramos da mediação imobiliária, seguros, papelaria e relojoaria. Na Tabacaria Cabral, no Largo Camões, fundou a primeira biblioteca pública de Cascais, tendo sido directamente responsável pela promoção das letras e das artes no nosso Concelho. Profundamente religioso, e professando a religião Católica, João Cabral da Silva assistiu à última das Aparições de Fátima, em 1917, tendo assistido ao Milagre do Sol. Como consequência deste facto, a capela da sua casa da Charneca, em Cascais, foi consagrada ao Sagrado Coração de Jesus e a Nossa Senhora de Fátima. Faleceu na Rua Direita, em Cascais, no dia 13/06/1966.




quarta-feira

Pedro Falcão e o Cascais Menino



por João Aníbal Henriques 

Quando Dom Simão do Santíssimo Sacramento Pedro Cotta Falcão Aranha de Sousa e Menezes nasceu em Cascais, em Maio de 1908, a Vila atravessava um período de convulsão profunda que havia de alterar radicalmente a sua forma de ser. As muitas crises que acompanharam o final do regime monárquico, o recente assassinato do Rei Cascalense – Dom Carlos I, e o paulatino aumento do poder e da influência de uma burguesia empreendedora e anti-aristocrática que se instalara na Parede e em Carcavelos e que criticava os laivos aristocráticos da Vila Velha e da Parada onde o escritor viria a crescer, abalaram os arquétipos de tolerância, cosmopolitismo e urbanidade que davam forma a Cascais e às suas gentes. 

Filho de uma das famílias tradicionais da Vila da Corte, desde sempre ligada à História de Cascais e sobretudo ao desenvolvimento e progresso que acompanhou a chegada da Família Real, Dom Simão Aranha habituou-se desde cedo à frequência elegante dos melhores salões da terra, tendo crescido a ouvir as estória de uma História em que Cascais foi sempre personagem principal. Ao mesmo tempo, num período de crise e convulsão como foi aquele que se seguiu à revolução republicana de 1910, teve também a oportunidade de se perder livremente nos becos e vielas da Vila, fomentando relações de amizade com os muitos pescadores e trabalhadores agrícolas que nessa época ainda enchiam as ruas de Cascais. Conheceu pescadores, varinas, aguadeiros, limpa-chaminés, lavadeiras e canteiros. Ouviu os seus anseios, crescendo com os seus projectos, ideias, motivações, necessidades e, sobretudo, com os muitos sonhos que estes criaram com as expectativas que lhes impingiram para explicar a implantação do novo regime. 

Para Dom Simão Aranha, os anos de meninice em Cascais misturaram o glamour da sociedade aristocrática com as necessidades práticas do dia-a-dia dos Cascalenses mais comuns, recriando um cenário onírico onde a realidade e a fantasia co-habitavam e que se tornou no principal traço que mais tarde serviu ao escritor para marcar as suas obras. A imensa confusão entre aqueles dois mundos distantes e por vezes antagónicos, observados pela criança interessada, perspicaz e curiosa que ele sempre foi, formaram uma personalidade verdadeiramente única e irrepetível. Simão Aranha circulava livremente através dos cafés e tascas de Cascais, onde sempre foi ouvido e acarinhado pelos mais humildes, ao mesmo tempo que frequentava os bailes da moda, os saraus culturais e os círculos fechados de uma aristocracia que detinha o poder.



Durante a Guerra Civil de Espanha, na qual participou como voluntário, somou ao seu currículo diversas condecorações e distinções. Mais do que ao perfil militar que verdadeiramente não tinha, atribuiu-as à intervenção divina. Depois de vários dos aviões que pilotava terem sido abatidos em pleno voo, e de mesmo assim ter escapado sempre incólume e saído de cena como um herói que sempre achou que não era, Simão Aranha desenvolveu uma relação estranha com a vida. Cada minuto, cada centímetro de paisagem, cada palavra e cada recanto tornaram-se preciosidades que importava preservar. Em linha com a sua personalidade bem vincada, abandonou desde logo os estudos de direito e cursou belas artes, promovendo o belo e suspirando a cada momento pela poesia que o quotidiano permanente lhe fazia viver. Em termos estéticos, a grande marca da sua vida é Cascais. A sua terra, as suas gentes, os seus recantos e pormenores, as suas vozes, sonhos e aspirações tornam-se desde logo motivo central de toda a sua obra. Pelo ‘Palco da Vida’, como designava os seus livros, fez passar as estórias de uma História que ia desaparecendo à medida em que iam morrendo as personagens que compunham o Cascais da sua infância. Queria eternizá-los, atribuir-lhes laivos quase divinos, e com eles reconstruir aquele Cascais Menino que lhe transbordava na Alma. Assinando sempre com o pseudónimo Pedro Falcão, escreveu peças de teatro, poesia, romances e livros de História. Ousou desafiar as memórias tradicionais da Vila e publicou obras onde a fantasia e a realidade se misturavam numa espécie de cadinho místico e sensual. Deslumbrou quem o leu, e deixou para trás um rasto de saudade que tocou de forma profunda quem teve o privilégio de o conhecer. 

Mas, assumindo frontalmente o seu sonho, teve também a coragem de criticar as vaidades, atacar as injustiças e defender um Cascais que também considerava seu. Foi amado e odiado pela forma como teve a coragem de viver, e legou à sua terra um testemunho inolvidável de tudo aquilo que ela foi e sentiu durante os noventa anos em que aqui viveu. Para além de historiador, que ele dizia não ser; de etnógrafo e sociólogo que achava que não era; do romancista que não pretendia ser; e do poeta, que ele considerava que não tinha qualidade para ser, Pedro Falcão foi sobretudo uma personalidade ímpar numa terra sem igual. A genialidade da sua Alma, o amor à terra que o viu nascer, e a humildade de alguém que se sentia sempre aquém das ideias que da sua imaginação fértil brotavam permanentemente, traçaram o perfil de um marco na História de Cascais que transformará em definitivo as memórias que as futuras gerações criarão sobre esta vila diferente. 

Já no final da sua vida, quando preparava o romance “Os Valares”, composto por várias camadas de história, estórias e por muitos dos desejos e sonhos que ele próprio construiu para a sua terra, ousou publicar um projecto de reconversão da vila que ele tanto amava. Muniu-se de arquitectos e engenheiros e sonhou um Cascais com a Ribeira das Vinhas aberta e navegável. Imaginou barquinhos à vela a atravessar a vila e crianças de Cascais a aprender a navegar ali mesmo no centro da localidade. Suspirou um quadro idílico onde os esforços se uniam em torno de um grande projecto que transformasse Cascais numa aguarela maravilhosa onde os matizes de cores se misturavam com os sonhos de cada um dos que por ali andavam… morreu com a utopia de um Cascais diferente… do seu Cascais de menino! A sua mulher e companheira de muitas décadas, Yan Rub, dizia que a História de Pedro Falcão não começava no princípio e terminava no fim e não tinha data fixas ou rotas certas. Era a obra de um menino que conversava com outro menino, perdidos ambos na sensibilidade que só a pureza de espírito mais profunda pode conceber.

 
E tinha razão. A obra de Pedro Falcão é uma herança valiosíssima que perdurará ao longo de muitas gerações de Cascalenses. Mas é sobretudo um suspiro de menino, que despertará a alma de criança dos que ainda estão para nascer e que durante muitas décadas com ele correrão livremente e de pés descalços por entre um Cascais intuído, sonhado e sentido num palco da vida onde tudo pode acontecer. Dez anos passados sobre a sua morte, urge recuperar a memória de Pedro Falcão. Não porque o escritor necessite dos tributos, das honrarias e das cerimónias que desenvolveremos em sua memória, mas sim porque Cascais e os Cascalenses precisam dele. Dom Simão do Santíssimo Sacramento Pedro Cotta Falcão Aranha de Sousa e Menezes - Pedro Falcão [1908-2000]

domingo

A Devoção de Cascais a Nossa Senhora dos Navegantes





A ligação de Cascais ao mar, provavelmente tão antiga quanto a existência de vida humana neste território, tem o seu ponto mais alto na procissão anual dedicada a Nossa Senhora dos Navegantes.

Cumprindo a ancestral devoção dos pescadores de Cascais à sua padroeira, a procissão inicia-se na Vila e tem o seu momento mais significante quando os andores embarcam para um passeio marítimo engalanado com as cores garridas que os homens do mar utilizam para decorar os seus barcos. A meio percurso, quando a imagem da Senhora dos Navegante chega à Guia, é lançada a bênção ao mar, aos pescadores e ao povo de Cascais.

Esta tradição, imensamente significante para as gentes de Cascais, tem as suas raízes provavelmente no Século XV, quando a devoção a São Pedro Gonçalves é progressivamente substituída pela da Senhora dos Navegantes. Depois de muitos anos de concretização, foi a procissão interrompida em 1834, quando o liberalismo ditou o fim das Ordens religiosas, tendo sido retomada em Agosto de 1942 para comemorar a reconstrução dos torreões da Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes, no casco velho da Vila de Cascais, que tinham sido destruídos pelo terramoto de 1755.

Este ano, uma vez mais, a procissão saiu à rua acompanhada pelo Padre Nuno Coelho – Prior da Paróquia de Nossa Senhora da Assunção, por milhares de pessoas e pelas entidades oficiais do Concelho, cumprindo assim um ritual antigo que faz parte da Identidade Municipal.

Praticamente 650 anos depois de ter visto reconhecida a sua autonomia municipal, e de ter o seu foral vincadamente marcado pela necessidade de dotar os homens do mar com as condições necessárias ao cumprimento da sua tarefa essencial, Cascais reconhece de forma sentida a sua ligação perene ao mar, aos rituais que marcaram a vida dos seus avós e à devoção que deu força e alento à povoação para se impor no contexto Nacional.















sexta-feira

A República em Cascais (1910-2010) – Os Antecedentes Monárquicos da Vila





por: João Aníbal Henriques

É sempre difícil, para um período cronológico concreto, traçar as principais linhas orientadoras da existência de uma povoação. A complexidade que caracteriza a vida em sociedade, o efeito devastador que o tempo exerce sobre os resquícios de sociedades já desaparecidas, e os próprios condicionalismos internos que encadearam os acontecimentos, são alguns dos principais impedimentos à realização de um estudo histórico de características globalizantes.

No caso concreto de Cascais, para o período compreendido entre 1870, altura em que o monarca Dom Luís I passa a utilizar a vila como seu local de veraneio, e os anos imediatamente posteriores à implantação da república, a diversidade que pautou o devir histórico do local, bem como as enormes transformações que aqui se introduziram, realçam mais ainda a incapacidade do historiador face ao conhecimento puro e simples dos factos que pretende narrar.

Pequena vila de nome desde 1364, Cascais, nos primeiros anos do terceiro quartel do Século XIX não passava de uma pequena aldeia de pescadores. As modestas habitações, bem como os artefactos recolhidos em diversas escavações arqueológicas efectuadas no núcleo histórico da vila (1), apontam a pesca e a agricultura como principais ocupações dos Cascalenses, dados que as informações de carácter demográfico confirmam (2), de acordo com o reduzido número de pessoas que aqui viviam. Quaisquer correntes de pensamento que aqui existissem, mercê do grau de imenso analfabetismo que caracterizava a sociedade Portuguesa naquela época, proviriam assim do pequeno núcleo de monges carmelitas instalados no Convento de Nossa Senhora da Piedade.

Com a chegada da Corte, e de todas as novidades que ela trouxe, aumentou significativamente a taxa demográfica do pequeno burgo e, consequentemente, assistiu-se a uma progressiva dinamização das suas actividades económicas. A indústria do pão e das conservas, bem como a da construção civil, uma vez que se construiu neste período um grande número de novas casas, vieram alterar por completo o rosto da Vila de Cascais, insuflando-a com um nível de vida que ela nunca tinha conhecido. Foram estas as causas primordiais da simpatia com que o povo de Cascais, demonstrando a sua gratidão, recebe anualmente a Família Real, facto que vai ultrapassar largamente os acontecimentos trágicos do dia 5 de Outubro de 1910.

A corrente republicana, que se encontrava em pleno desenvolvimento um pouco por todo o País, encontra assim em Cascais um ambiente extremamente adverso à sua implantação, razão pela qual, mesmo hoje, é possível vislumbrar tão poucos vestígios da actuação desses grupos na vida social da Vila. Se por um lado, logo no dia a seguir à revolução republicana, Cascais passa a ser governado por um grupo de republicanos natural deste Concelho, por outro, a totalidade dos elementos que compõem esse grupo provêm exclusivamente das localidades da Parede e Carcavelos, sendo certo que a população da Vila e arredores se manteve em sintonia com o regime monárquico. As causas destes factos, se bem que explicadas pelo carácter periférico que esses locais ocupam face ao centro administrativo do Concelho, recebendo assim menos atenção por parte das autoridades administrativas, devem-se também ao facto de essa gente ser maioritariamente oriunda de outras zonas do País. A proximidade do Concelho de Oeiras, onde o ideário republicano obtinha grande sucesso e onde se publicavam diversos jornais pró-republicanos, ajuda também a explicar as tendências da Parede, bem como a inexistência de imprensa republicana em Cascais.

Foi assim a grande implantação social, económica e cultural que a instalação da Corte promoveu em Cascais, bem como a quase total inexistência de instituições anteriores a 1870, a causa principal para o insucesso republicano, explicando-se dessa forma não só a falta de empenho da população durante os momento mais quentes do período revolucionário, como a simpatia e apoio votado à aristocracia Nacional e estrangeira que para aqui aflui de forma permanente até à actualidade.

A implantação da república na Vila da Corte, ao contrário do que vinha acontecendo em diversas partes do País, obedece assim a regras muito sui-generis, havendo a necessidades, após a tomada de posse da administração republicana, de se controlar politicamente os Cascalenses, quer através do desenvolvimento de um enorme esforço evolutivo, quer através de um efectivo apagamento de toda a simbologia monárquica que proliferava nas casas, nos espaços públicos e na toponímia local.

(1) CARDOSO, Guilherme, “Carta Arqueológica do Concelho de Cascais”, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1991 e NERY, Isabel e outros, “Cascais – Evoluções Históricas”, in Jornal Notícia, 15 de Maio de 1989.
(2) DIAS, João Alves, “Cascais e o seu Termo na Primeira Metade do Século XVI”, Arquivo de Cascais, nº 6, 1987, pp. 67-72.
(3) ANDRADE, Ferreira de, “Cascais – Vila da Corte”, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964.

A República em Cascais (1910-2010) – O Devir Histórico e a Identidade dos Cascalenses





por: João Aníbal Henriques

Compreender o devir histórico de Cascais ao longo dos últimos anos do Século XIX, tal como as diversas questões inerentes ao desenvolvimento das estruturas organizativas da sociedade Cascalense, longe de ser passível de determinação individual, pressupõe um arreigado exercício de contextualização e de integração cronológica, social e espacial.

De uma maneira geral, tanto para os que dela são naturais como para aqueles que nela somente residem, a Vila de Cascais é um local com inúmeros atractivos. A proximidade da capital, as condições estratégicas de defesa, o clima privilegiado e as diversas linhas de água que a percorrem, foram as condições essenciais que definiram a ocupação humana que se estende desde o Paleolítico até à actualidade.

Deixando de lado os mais remotos e inatingíveis tempos da sua vida, e tomando em consideração somente o período que se estende entre 1143 e o dia 5 de Outubro de 1910, podemos distinguir na vida Cascalense quatro períodos fundamentais: o primeiro, que se estende desde o dealbar da Nacionalidade, em 1143, até 1364, corresponde ao período de afirmação da pequena vila piscatória como Concelho, desenvolvendo as suas instituições e a força do seu tecido social (4). O segundo, de 1364 até 1870 (5), caracteriza-se fundamentalmente pelo desenvolvimento das suas capacidades naturais. A pesca e as actividades em prol da defesa de Lisboa, a agricultura e a pecuária, encontram neste período a sua época de desenvolvimento e consolidação, antevendo a preparação das condições essenciais à radical transformação de que vai ser alvo no último quartel do Século XIX. O terceiro período da História de Cascais encontra-se situado entre os anos de 1870, data em que Dom Luís I, com o seu amor pelo mar e pelas actividades marítimas, passa a utilizar a vila como estância de banhos, para onde trás a Corte durante a época estival. E o último, corresponde ao período compreendido entre a implantação da república e a actualidade, onde o nível de vida, as capacidades da vila e as suas riquezas naturais, vêm-se progressivamente degradando, mercê da utilização exaustiva dos seus recursos e pautando a sua existência por uma contínua expansão turística massificada, onde pouco lugar sobeja para conhecer, reconhecer e potencializar a sua natural vocação de qualidade.

O presente trabalho, longe de procurar apresentar alternativas ao rumo tomado pelo Concelho ao longo do último Século, debruçar-se-á principalmente sobre os dois últimos períodos da existência da Vila, sendo que, pelas radicais diferenças que os caracterizam, e de entre um e o outro não ter existido uma evolução paulatina mas sim um processo revolucionário de modificação radical, será lógico encontrar no primeiro as sementes do segundo, e no segundo, de igual modo, as ramificações e consequências que resultam do primeiro.

As condicionantes básicas às existências destas duas formas de pensamento que, como se actualmente não são radicalmente opostas no que concerne à sua função prática, mudando-se os nomes e os processos de execução, mas mantendo-se as obras básicas de implantação, estão assim patentes em diversos momentos e decisões tomadas pelos órgãos competentes, sejam eles os diversos clubes, sociedades e grupos desportivos e culturais, como também na Câmara Municipal, na Junta de Turismo, de entre outras. As formas de propaganda de cada um dos regimes, bem como as benesses ou as imposições que ambos utilizaram durante a vigência dos seus mandatos, servirão assim de base à compreensão da consciência cívica e política da sociedade que, sem possuir um papel activo na gerência e/ou na administração da terra, se vê embrenhada em todas as questões, sofrendo na sua pele inocente as consequências negativas das decisões e medidas tomadas pelos governantes de ambas as facções.

(4) COLAÇO, Branca de Gontha e ARCHER, Maria, “Memórias da Linha de Cascais”, Lisboa, (SN), 1943.
(5) HENRIQUES, João Aníbal, “O Urbanismo de Cascais na Época Moderna”, Jornal da Costa do Sol, 22 de Julho de 1993.

A República em Cascais (1910-2010) – O Visconde da Luz e a Modernização Urbana





por: João Aníbal Henriques

Decorria o longínquo ano de 1862, quando a Vila de Cascais não passava ainda de um pequeno burgo piscatório, que Joaquim António Velez Barreiros, Visconde de Nossa Senhora da Luz, resolveu edificar na Vila Nova, antigo Alto da Bela Vista, a sua moderna casa de veraneio.

O processo desenvolvido desde então, a par com diversas medidas introduzidas ao nível do embelezamento do passeio e acessos à povoação, produziu assim transformações perenes na diminuta povoação que a dotaram das condições necessárias para se tornar no centro cosmopolita de turismo que a caracterizaria durante as duas últimas décadas do Século XIX.

Foi a acção conjunta de diversos forasteiros, atraídos para Cascais depois da instalação do Visconde da Luz, a par com a vontade expressa por parte de alguns ilustres moradores, dos quais fez parte o saudoso Presidente da Câmara João de Freitas Reis, que determinou o futuro da localidade. Por postura camarária de 24 de Maio de 1860, o referido Presidente da Edilidade, de comum acordo com os anteriormente referidos, cria a estrada entre Cascais e Oeiras, obra fulcral no desenvolvimento das comunicações entre a foz do Tejo e a capital. Paralelamente, a mesma postura determina que todos os carros, ómnibus, seges e bestas somente pudessem transportar pelo empedrado, sob pena de multa. Para o embelezamento desta importante via pública cedeu a Câmara, a instâncias do Visconde da Luz, as varas necessárias para a protecção do crescimento das inúmeras árvores então plantadas.

Provado que está o esforço empreendido pela classe dirigente do pequeno burgo no sentido de o dotar das infra-estruturas necessárias ao seu desenvolvimento, promovendo assim as condições naturais que lhe estavam inerentes, poder-se-á pois concluir da conjugação de esforços efectuada em torno destas iniciativas, envolvendo naturais e recém-chegados à Vila de Cascais.