por João Aníbal Henriques
No dia 6 de Setembro de 1968
Portugal mudou radicalmente. O então Presidente do Conselho de Ministros,
António de Oliveira Salazar foi submetido à derradeira operação ao cérebro, num
a tentativa final de impedir o avanço da doença debilitante que o tinha
atingido depois da queda sofrida durante a estadia de veraneio no Forte de
Santo António da Barra, em São João do Estoril.
E, por ironia do destino, ali
mesmo ao lado, em Alcoitão, o milionário boliviano Antenor Patiño organizava na
mesma noite aquela que é considerada como a maior e mais extraordinária festa jamais
ocorrida em Portugal.
Os dois acontecimentos, ocorridos
simultaneamente e com epicentro em pleno concelho de Cascais, são a marca mais
flagrante do fim de uma era, marcando em definitivo aquele que foi um dos mais
prósperos e significantes períodos da história recente deste município.
Com a presença de mais de mil
convidados, onde se integravam as maiores estrelas do mundo dessa altura, como
as actrizes Audrey Hepburn, Gina Lollobrigida, Zsa Zsa Gabor e Maria Félix, a
festa reuniu ainda os grandes nomes da política e do poder. Em termos
internacionais, entre muitos outros nomes de menor importância, destacam-se a
ex-imperatriz Soraya Esfandiary da
Pérsia, a princesa Margarida da Dinamarca, Ira de Furstenberg, Douglas Fairbanks, Begum Aga Khan, Hubert
de Givenchy, Capucine (Germaine Lefebvre) e o empresário Gunter Sachs.
A nível nacional, numa época em
que o Estado Novo ainda marcava em definitivo os destinos da nação, estiveram
em Alcoitão, esquecendo a terrível intervenção cirúrgica a que o chefe de
estado estava a ser submetido simultaneamente, a maior parte das grandes
figuras que sustentavam o regime, facto que causou grande celeuma e discussão,
acentuada pelo facto de ter sido este o episódio que definitivamente trouxe a
público e aos portugueses a consciência sobre o estado de saúde muito débil que
caracterizava nessa altura o poderoso Presidente do Conselho de Ministros. De
manhã, quando os principais jornais publicavam as dramáticas notícias sobre
Salazar, ainda saíam da Quinta Patiño os convidados mais retardatários da festa
sumptuosa aí decorrida.
Portugal, depois desta noite, não
voltou a ser o mesmo. E, se o charme internacional de Cascais se acentuou, numa
réstia de publicidade que levou longe o nome da nação, os equilíbrios políticos
e sociais que sustentavam Portugal soçobraram para sempre, encetando o processo
de mudanças radicais que culminará, meia dúzia de anos depois, com a revolução
do 25 de Abril e, logo depois, com as atrocidades do PREC que definitivamente
puseram fim a mais de 500 anos de História.
O município de Cascais, uma vez
mais, foi o palco onde tudo aconteceu, concentrando nas suas paisagens
magníficas as memórias inesquecíveis das muitas histórias que transversalmente
por ali aconteceram.
Vera Lagoa, a mítica cronista
social que desafiava os estereótipos instituídos e ousava descrever tudo o que
via e se passava em Portugal, foi a grande responsável pela integral
transcrição do que foi esta festa deslumbrante. Foi ela quem identificou as
caras, os nomes e a importância das muitas celebridades que vieram a Portugal
de propósito para estar na Festa Patiño, e foi ela quem sarcasticamente
identificou os trajes, as toilettes e os truques de maquiagem que reformataram
as personagens criadas para a participação neste extraordinário evento.
Foi igualmente ela quem, por
portas e travessas, conseguiu tirar as fotografias que eternizaram aqueles
momentos, tendo-as distribuído pela imprensa e, dessa maneira, nos ajudam hoje
a perceber a real magnitude daquela noite tão especial.
As fotografias que ilustram este
pequeno apontamento são de sua autoria e foram publicadas no jornal local “A
Nossa Terra”, o jornal da Costa do Sol, a quem ela as ofereceu.