segunda-feira

Comércio de Cascais – Encerrou a Agência Vitória de João Cabral da Silva no Largo Camões


por João Aníbal Henriques

Quando a Agência Vitória, a primeira imobiliária de Cascais, abriu portas, no já longínquo ano de 1956, já o edifício onde esteve instalada, no Largo Camões, estava desde há muito ligado à Família Cabral da Silva.

Adquirido no início dos anos 20 por João Cabral da Silva (1905-1966), o edifício setecentista albergou a antiga ourivesaria da família, que ocupava o piso térreo, tendo no primeiro andar, em regime de aluguer, uma sucursal da mítica Pastelaria Garrett.



A construção do edifício da Agência Vitória em 1956

João Cabral da Silva, nascido na Gândara do Além, em Carvide, Monte Real, veio para Cascais com cinco anos, por ter ficado órfão de forma inesperada. Criado por um tio paterno, o mítico Cabral “o Velho” que possuía estabelecimento comercial na Travessa Afonso Sanches, e que Pedro Falcão eternizou na sua obra memorial “Cascais Menino”, fez toda a sua vida na vila de Cascais, em conjunto com dois primos-direitos que o tratavam como irmão e com quem desenvolveu as naturais apetências comerciais que todos possuíam.



João Cabral da Silva e sua Mulher D. Celestina Moreira Cabral da Silva 


No início da Rua Direita, virada para o mesmo Largo Camões, João Cabral fundou a “Papelaria Cabral”, através da qual se tornou representante oficial das mais importantes marcas de canetas e de perfumes, ao mesmo tempo que, dando azo ao seu espírito empreendedor, inaugurou no primeiro piso do imóvel a primeira biblioteca pública de Cascais. Mais tarde, adquirindo o imóvel do Século XVII que existia na Rua Regimento Dezanove, ali instalou a sua primeira ourivesaria, vendendo e comprando outro, prata, pedras preciosas e relógios, numa paixão que se estendeu durante muitas décadas e que o filho herdou.

João Cabral da Silva foi ainda sócio fundador da Associação Comercial de Cascais e, dentro da estrutura da Igreja Católica, foi um dos principais impulsionadores e promotores das procissões e actos devocionais que aconteciam na vila. Para tal contribuiu de forma decisiva o facto de ter estado com a sua avó Guilhermina Cabral da Silva na Cova da iria, em Fátima, no dia 13 de Outubro de 1917, tendo assistido no próprio local ao “Milagre do Sol”. Esse evento, que o marcou de forma profunda e eterna, foi a razão principal da sua profunda Fé e devoção a Nossa Senhora de Fátima a quem dedicou inclusivamente a sua capela privativa, situada na casa “Serradinho da Eira”, na aldeia da Charneca. Através da Igreja, e sempre resguardado no recato que considerava essencial para que a caridade não se transformasse num instrumento de promoção social, apoiou discretamente dezenas de famílias pobres de Cascais, a quem assegurava a dignidade que defendia para toda a gente.



João Cabral da Silva na Janela do 1º Andar da Tabacaria Cabral


Falecido na sua casa da Rua Direita no dia 13 de junho de 1966, o seu trabalho foi continuado pelo filho, João Moreira Cabral da Silva (1935-2024), que dirigiu a Agência Vitória desde o dia da sua inauguração e até ao dia da sua morte.

Casado com Maria Fernanda Veiga Henriques Cabral da Silva (1936-2023) e sem descendência, João Cabral da Silva foi um dos mais inovadores empresários do sector imobiliário. Empreendedor e visionário, foi capaz de transformar o legado do seu pai numa das mais prósperas casas comerciais da vila, para onde convergiam clientes provindos das mais variadas partes do mundo e que ali procuravam as casas onde viriam a morar.



O Casal Maria Fernanda e João Cabral da Silva na Agência Vitória em 2023

A Agência Vitória, reconhecida internacionalmente pelos seus bons serviços e pela seriedade do seu trabalho, serviu algumas das mais proeminentes figuras da vida política, económica e cultural da Europa de meados do Século XX, chegando a ter uma carteira com mais de 500 imóveis disponíveis e perto de mil clientes (entre proprietários e inquilinos), geridos por Cabral da Silva que, com a sua mulher, liderava uma equipa com cerca de 20 colaboradores.

Os arrendamentos temporários, sobretudo durante o período estival, foram um dois pilares que sustentou o desenvolvimento e a afirmação do Turismo de Cascais durante várias décadas. E ao nível das vendas e dos arrendamentos de longa duração, inovou com a oferta de contratos relativos a imóveis completamente mobilados, que eram nessa altura um filão raro e muito difícil de encontrar em Portugal. Do seu portfolio faziam ainda parte uma parte substancial da oferta de imóveis comerciais na vila e no concelho de Cascais, sector que se afigurou de primeira importância para a consolidação da vocação turística municipal.



João Cabral da Silva e Manuela Araújo na Agência Vitória em 1956

Erudito e conservador, preservando os mesmos hábitos e costumes que haviam sido desenvolvidos durante a vida do pai, João Cabral da Silva foi figura marcante e incontornável do Cascais do Século XX. Durante e após o processo revolucionário, em 1974, manteve intocados os valores que sempre defendeu, preferindo pagar o preço dos seus princípios do que vergar-se à novidade que exigia dele posicionamentos mais modernos e liberalizantes. E até final do século, numa luta permanente da qual nunca pediu tréguas, conseguiu manter vivo o seu negócio e encontrar um registo de trabalho assente nesses valores de seriedade que permitiram à Agência Vitória manter a suas portas abertas e preservar uma parte substancial da sua carteiras de clientes, mesmo quando por toda a vila se multiplicavam os concorrentes que surgiam no mercado com  ofertas melhor adaptadas aos novos tempos que iam chegando.  



A Agência Vitória em pleno funcionamento nos anos 70 do Século XX

Já na sua velhice, debilitado por uma saúde frágil, manteve sempre abertas as portas da Agência Vitória, onde trabalhava diariamente até à véspera do seu falecimento na mesma casa da rua direita onde tinha nascido há 89 anos.

A Agência Vitória laborou ainda até final do ano, tendo encerrado definitivamente as suas portas no dia 30 de Setembro de 2024. Com o seu encerramento, fecha-se um ciclo longo e próspero do comércio de rua em Cascais, acompanhado infelizmente pelo igual encerramento da mítica Drogaria Costa, a Pastelaria Bijou, a Galera Modas, o Faraó e muitos outros estabelecimentos comerciais que durante muitas décadas ajudaram a definir o que era a Vila de Cascais.



A Agência Vitória no dia em que comemorava o seu 40º Aniversário em 1996


Ficam as memórias perenes e inultrapassáveis destes negócios históricos e, sobretudo, a lembrança das vidas dos empresários que lhes deram ensejo e forma. A todos eles se dedicam as palavras de gratidão pela forma como com as suas vidas ajudaram a fazer desta vila uma das mais extraordinárias terras de Portugal.