Blog sobre Portugal, os Portugueses, a sua História, e a realidade política, económica, cultural e social Nacional.
segunda-feira
Comércio de Cascais – Encerrou a Agência Vitória de João Cabral da Silva no Largo Camões
por João Aníbal Henriques
Quando a Agência Vitória, a
primeira imobiliária de Cascais, abriu portas, no já longínquo ano de 1956, já
o edifício onde esteve instalada, no Largo Camões, estava desde há muito ligado
à Família Cabral da Silva.
Adquirido no início dos anos 20 por
João Cabral da Silva (1905-1966), o edifício setecentista albergou a antiga
ourivesaria da família, que ocupava o piso térreo, tendo no primeiro andar, em
regime de aluguer, uma sucursal da mítica Pastelaria Garrett.
A construção do edifício da Agência Vitória em 1956
João Cabral da Silva, nascido na
Gândara do Além, em Carvide, Monte Real, veio para Cascais com cinco anos, por
ter ficado órfão de forma inesperada. Criado por um tio paterno, o mítico
Cabral “o Velho” que possuía estabelecimento comercial na Travessa Afonso
Sanches, e que Pedro Falcão eternizou na sua obra memorial “Cascais Menino”,
fez toda a sua vida na vila de Cascais, em conjunto com dois primos-direitos
que o tratavam como irmão e com quem desenvolveu as naturais apetências
comerciais que todos possuíam.
No início da Rua Direita, virada
para o mesmo Largo Camões, João Cabral fundou a “Papelaria Cabral”, através da
qual se tornou representante oficial das mais importantes marcas de canetas e
de perfumes, ao mesmo tempo que, dando azo ao seu espírito empreendedor, inaugurou
no primeiro piso do imóvel a primeira biblioteca pública de Cascais. Mais
tarde, adquirindo o imóvel do Século XVII que existia na Rua Regimento
Dezanove, ali instalou a sua primeira ourivesaria, vendendo e comprando outro,
prata, pedras preciosas e relógios, numa paixão que se estendeu durante muitas
décadas e que o filho herdou.
João Cabral da Silva foi ainda
sócio fundador da Associação Comercial de Cascais e, dentro da estrutura da
Igreja Católica, foi um dos principais impulsionadores e promotores das
procissões e actos devocionais que aconteciam na vila. Para tal contribuiu de
forma decisiva o facto de ter estado com a sua avó Guilhermina Cabral da Silva
na Cova da iria, em Fátima, no dia 13 de Outubro de 1917, tendo assistido no
próprio local ao “Milagre do Sol”. Esse evento, que o marcou de forma profunda
e eterna, foi a razão principal da sua profunda Fé e devoção a Nossa Senhora de
Fátima a quem dedicou inclusivamente a sua capela privativa, situada na casa “Serradinho
da Eira”, na aldeia da Charneca. Através da Igreja, e sempre resguardado no
recato que considerava essencial para que a caridade não se transformasse num
instrumento de promoção social, apoiou discretamente dezenas de famílias pobres
de Cascais, a quem assegurava a dignidade que defendia para toda a gente.
Falecido na sua casa da Rua
Direita no dia 13 de junho de 1966, o seu trabalho foi continuado pelo filho,
João Moreira Cabral da Silva (1935-2024), que dirigiu a Agência Vitória desde o
dia da sua inauguração e até ao dia da sua morte.
Casado com Maria Fernanda Veiga
Henriques Cabral da Silva (1936-2023) e sem descendência, João Cabral da Silva
foi um dos mais inovadores empresários do sector imobiliário. Empreendedor e
visionário, foi capaz de transformar o legado do seu pai numa das mais
prósperas casas comerciais da vila, para onde convergiam clientes provindos das
mais variadas partes do mundo e que ali procuravam as casas onde viriam a
morar.
A Agência Vitória, reconhecida
internacionalmente pelos seus bons serviços e pela seriedade do seu trabalho, serviu
algumas das mais proeminentes figuras da vida política, económica e cultural da
Europa de meados do Século XX, chegando a ter uma carteira com mais de 500
imóveis disponíveis e perto de mil clientes (entre proprietários e inquilinos),
geridos por Cabral da Silva que, com a sua mulher, liderava uma equipa com
cerca de 20 colaboradores.
Os arrendamentos temporários,
sobretudo durante o período estival, foram um dois pilares que sustentou o
desenvolvimento e a afirmação do Turismo de Cascais durante várias décadas. E
ao nível das vendas e dos arrendamentos de longa duração, inovou com a oferta
de contratos relativos a imóveis completamente mobilados, que eram nessa altura
um filão raro e muito difícil de encontrar em Portugal. Do seu portfolio faziam
ainda parte uma parte substancial da oferta de imóveis comerciais na vila e no
concelho de Cascais, sector que se afigurou de primeira importância para a
consolidação da vocação turística municipal.
Erudito e conservador,
preservando os mesmos hábitos e costumes que haviam sido desenvolvidos durante
a vida do pai, João Cabral da Silva foi figura marcante e incontornável do
Cascais do Século XX. Durante e após o processo revolucionário, em 1974,
manteve intocados os valores que sempre defendeu, preferindo pagar o preço dos
seus princípios do que vergar-se à novidade que exigia dele posicionamentos
mais modernos e liberalizantes. E até final do século, numa luta permanente da
qual nunca pediu tréguas, conseguiu manter vivo o seu negócio e encontrar um
registo de trabalho assente nesses valores de seriedade que permitiram à
Agência Vitória manter a suas portas abertas e preservar uma parte substancial
da sua carteiras de clientes, mesmo quando por toda a vila se multiplicavam os
concorrentes que surgiam no mercado com
ofertas melhor adaptadas aos novos tempos que iam chegando.
Já na sua velhice, debilitado por
uma saúde frágil, manteve sempre abertas as portas da Agência Vitória, onde
trabalhava diariamente até à véspera do seu falecimento na mesma casa da rua
direita onde tinha nascido há 89 anos.
A Agência Vitória laborou ainda
até final do ano, tendo encerrado definitivamente as suas portas no dia 30 de
Setembro de 2024. Com o seu encerramento, fecha-se um ciclo longo e próspero do
comércio de rua em Cascais, acompanhado infelizmente pelo igual encerramento da
mítica Drogaria Costa, a Pastelaria Bijou, a Galera Modas, o Faraó e muitos
outros estabelecimentos comerciais que durante muitas décadas ajudaram a
definir o que era a Vila de Cascais.
Ficam as memórias perenes e inultrapassáveis destes negócios históricos e, sobretudo, a lembrança das vidas dos empresários que lhes deram ensejo e forma. A todos eles se dedicam as palavras de gratidão pela forma como com as suas vidas ajudaram a fazer desta vila uma das mais extraordinárias terras de Portugal.
Cascais em Setembro de 1968: Entre o Fim de Salazar e a Mítica Festa Patiño
por João Aníbal Henriques
No dia 6 de Setembro de 1968
Portugal mudou radicalmente. O então Presidente do Conselho de Ministros,
António de Oliveira Salazar foi submetido à derradeira operação ao cérebro, num
a tentativa final de impedir o avanço da doença debilitante que o tinha
atingido depois da queda sofrida durante a estadia de veraneio no Forte de
Santo António da Barra, em São João do Estoril.
E, por ironia do destino, ali
mesmo ao lado, em Alcoitão, o milionário boliviano Antenor Patiño organizava na
mesma noite aquela que é considerada como a maior e mais extraordinária festa jamais
ocorrida em Portugal.
Os dois acontecimentos, ocorridos
simultaneamente e com epicentro em pleno concelho de Cascais, são a marca mais
flagrante do fim de uma era, marcando em definitivo aquele que foi um dos mais
prósperos e significantes períodos da história recente deste município.
Com a presença de mais de mil
convidados, onde se integravam as maiores estrelas do mundo dessa altura, como
as actrizes Audrey Hepburn, Gina Lollobrigida, Zsa Zsa Gabor e Maria Félix, a
festa reuniu ainda os grandes nomes da política e do poder. Em termos
internacionais, entre muitos outros nomes de menor importância, destacam-se a
ex-imperatriz Soraya Esfandiary da
Pérsia, a princesa Margarida da Dinamarca, Ira de Furstenberg, Douglas Fairbanks, Begum Aga Khan, Hubert
de Givenchy, Capucine (Germaine Lefebvre) e o empresário Gunter Sachs.
A nível nacional, numa época em
que o Estado Novo ainda marcava em definitivo os destinos da nação, estiveram
em Alcoitão, esquecendo a terrível intervenção cirúrgica a que o chefe de
estado estava a ser submetido simultaneamente, a maior parte das grandes
figuras que sustentavam o regime, facto que causou grande celeuma e discussão,
acentuada pelo facto de ter sido este o episódio que definitivamente trouxe a
público e aos portugueses a consciência sobre o estado de saúde muito débil que
caracterizava nessa altura o poderoso Presidente do Conselho de Ministros. De
manhã, quando os principais jornais publicavam as dramáticas notícias sobre
Salazar, ainda saíam da Quinta Patiño os convidados mais retardatários da festa
sumptuosa aí decorrida.
Portugal, depois desta noite, não
voltou a ser o mesmo. E, se o charme internacional de Cascais se acentuou, numa
réstia de publicidade que levou longe o nome da nação, os equilíbrios políticos
e sociais que sustentavam Portugal soçobraram para sempre, encetando o processo
de mudanças radicais que culminará, meia dúzia de anos depois, com a revolução
do 25 de Abril e, logo depois, com as atrocidades do PREC que definitivamente
puseram fim a mais de 500 anos de História.
O município de Cascais, uma vez
mais, foi o palco onde tudo aconteceu, concentrando nas suas paisagens
magníficas as memórias inesquecíveis das muitas histórias que transversalmente
por ali aconteceram.
Vera Lagoa, a mítica cronista
social que desafiava os estereótipos instituídos e ousava descrever tudo o que
via e se passava em Portugal, foi a grande responsável pela integral
transcrição do que foi esta festa deslumbrante. Foi ela quem identificou as
caras, os nomes e a importância das muitas celebridades que vieram a Portugal
de propósito para estar na Festa Patiño, e foi ela quem sarcasticamente
identificou os trajes, as toilettes e os truques de maquiagem que reformataram
as personagens criadas para a participação neste extraordinário evento.
Foi igualmente ela quem, por
portas e travessas, conseguiu tirar as fotografias que eternizaram aqueles
momentos, tendo-as distribuído pela imprensa e, dessa maneira, nos ajudam hoje
a perceber a real magnitude daquela noite tão especial.
As fotografias que ilustram este
pequeno apontamento são de sua autoria e foram publicadas no jornal local “A
Nossa Terra”, o jornal da Costa do Sol, a quem ela as ofereceu.
sexta-feira
O Carnaval de 1939 no Casino Estoril
O Mundo vivia envolvido num clima
de profunda tensão em 1939, e a Europa, marcada pela ascensão política de Adolf
Hitler e do III Reich alemão, debatia-se com a dúvida relativamente ao que
fazer perante aquela absurda e rápida tomada de poder. O clima de incerteza era
enorme e no horizonte político de curto prazo sabia-se que era possível
iniciar-se uma guerra devastadora com consequências imprevisíveis para o velho
continente e para os países que o compunham há muitos séculos.
Mas no Estoril, paraíso resguardado
num enclave de paz e serenidade, a vida continuava quase alheada do que estava
a acontecer…
No Carnaval de 1939, num Mundo
prestes a entrar em guerra, o Casino Estoril anuncia uma animada e
extraordinária festa com cunho internacional. Para além dos corsos que se
multiplicaram pelas ruas apinhadas de público daquela maravilhosa estância
balnear, nos quais participaram artistas de renome internacional e que contou
até com um carro decorado pelo próprio Salvador Dali, o canal de televisão americano
CBS, com o seu renomado programa conduzido pelo conhecido Ed Sullivan,
transmitiu o seu famoso show a partir do Casino Estoril.
A alegria e a elegância dos
Estoris, era assim apresentada numa profusão de bailes temáticos em que os participantes
entravam vestidos a rigor.
E o Estoril, apresentado como a estância com o inverno mais suave da Europa, era verdadeiramente o paraíso para reis, príncipes e princesas que ali faziam brilhar o charme próprio de quem sabia ser gente muito especial que tinha a sorte de poder estar no mais especial de todos os destinos daquelas Europa em pânico!
terça-feira
Nossa Senhora da Graça de Cascais
por João Aníbal Henriques
Diz-se na “Chancelaria de Dom
Fernando” que em 1364, quando pescavam nas águas da baía de Cascais, os
pescadores encontraram submersa uma magnífica imagem de Nossa Senhora com o Menino
ao colo. Talhada em madeira de cipreste, a imagem era de tal maneira formosa
que foi desde logo apelidada de Nossa Senhora da Graça, facto que consolidou a
devoção dos pescadores cascalenses àquela evocação antiga de Nossa Senhora. O
fervor da oração em torno da imagem foi tanto que, mercê da fama angariada por
esse Portugal fora, foi a imagem entregue à guarda dos Frades Agostinhos de
Lisboa, que a colocaram em lugar de destaque no Altar-Mor do seu mosteiro na
capital. Nasceria assim o Bairro da Graça, onde o tal mosteiro estava
implantado, reforçando o fervor devocional do povo antigo de Cascais!
segunda-feira
Quando o Rei Humberto II de Itália foi Doar Sangue em Cascais
por João Aníbal Henriques
Existem histórias que se
transformam em mitos e mitos que se transformam em História… foi o que aconteceu
com o Rei Humberto II de Itália durante os muitos anos em que residiu exilado
na Vila de Cascais.
Despojado, por sua vontade, dos
rigores protocolares que tinha conhecido enquanto foi monarca, o Rei fez
questão de se integrar plenamente nos usos e nos costumes de Cascais,
partilhando com os cascalenses os seus hábitos e a simplicidade despojada que
desde sempre caracterizou a vida social nesta vila.
Pouco depois de aqui se instalar,
inicialmente em Casa do Conde Monte Real, em frente à Cidadela de Cascais e,
depois, numa das Casa Pinto Basto situada junto à enseada de Santa Marta,
resolveu um dia logo pela madrugada, de forma a não ser visto por ninguém,
dirigir-se ao posto de saúde da vila para se inscrever como doador de sangue.
O seu natural altruísmo, e o desdém que sentia por qualquer acto de ostentação, obrigava-o a zelar pela discrição, evitando assim qualquer publicidade que desvirtuasse o acto abnegado que queria concretizar.
Mas para grande constrangimento
do monarca, estavam nesse dia no posto de saúde duas varinas de Cascais que,
reconhecendo o Rei e sendo assumidamente suas fãs, lhe pediram reiteradamente
que não fizesse esse sacrifício que, segundo elas, poderia pôr em risco a sua
saúde e até a sua vida, o que elas consideravam ser um atentado por ser ele um
Rei gentil, de muito boa aparência e pai de quatro filhos…
Mas, apesar do pedido do Rei de
que não contassem a ninguém o que tinham acabado de ver, as varinas não se
calaram e espalharam por todo o lado a notícia do que Humberto II de Itália
tinha acabado de fazer.
O Rei nunca desmentiu nem
confirmou a história, fugindo sempre do assunto e procurando que o mesmo fosse
caindo no esquecimento dos cascalenses.
Mas anos mais tarde, quando foi
visitado pelo investigador e escritor Júlio Sauerwien, que viera a Cascais para
recolher material para o seu livro “Exilados Régios no Estoril”, foi
frontalmente questionado sobre a veracidade dessa história. E, não querendo
mentir, foi obrigado a confirmar que era verdadeira!
Mais uma história da História de
Cascais que vem confirmar a máxima atribuída a Sua Majestade o Rei Dom Carlos I
de Portugal de que “Cascais é o sítio onde o povo é mais nobre e onde a nobreza
é mais popular”!
quinta-feira
Quando era Preciso Passaporte para Entrar em Cascais
por João Aníbal Henriques
Um dos muitos problemas que
afectaram as povoações destruídas pelo grande terramoto de 1755 foi o que nessa
altura se chamava “vadiagem”. Os sem-abrigo, impossibilitados de recuperar as
habitações perdidas durante o cataclismo, deambulavam pelas ruas mendigando e
arrastando a desgraça que sobre eles se tinha abatido. O problema era de tal
forma grave que no 25 de Junho de 1760 foi publicada uma lei que obrigava os
cidadãos que pretendiam viajar entre concelhos a levar consigo um “passa-porte”
autorizado. Em Cascais, a exigência do dito “passa-porte” municipal vigorou até
1825 e a sua emissão por parte da câmara exigia que os que o requeriam
apresentassem testemunhas e fiadores!
segunda-feira
O Museu do Mar, o Rei Dom Carlos e o Sporting Clube da Parada em Cascais
por João Aníbal Henriques
Diz Pedro Falcão na sua incontornável obra literária “Cascais Menino”, que
é impossível falar de Cascais sem mencionar o Sporting Club da Parada. De
facto, desde 1879, quando os terrenos da antiga parada militar da Cidadela de
Cascais foram desanexados para se constituir o clube cascalense, que este se
tornou no coração da vida social, cultural e política de Cascais e do Portugal de
então.
O Sporting Club da Parada era um espaço exclusivo, num recinto murado e
fechado, onde só entravam aqueles que pertenciam à elite local. Foi ali, mercê
do empenho e espírito empreendedor de gente relevante das principais famílias
tradicionais de Cascais, como os Avillez, os Ereira, os Falcões, os Pinto basto
ou os Castelo-Branco, que se constituiu o núcleo pensante do Cascais da
Monarquia, onde reside a génese do Cascais cosmopolita e visceralmente
turístico onde hoje vivemos.
Mas há uma figura que se impõe na forma como nasceu, cresceu e se
consolidou o Sporting Club da Parada e a própria Vila de Cascais. El-Rei Dom
Carlos, que entre outros predicados possuía uma vastíssima cultura marítima e
um amor incondicional ao mar de Cascais e a tudo aquilo que lhe diz respeito,
foi peça fulcral na transformação da velha vila piscatória num burgo pujante e
de referência no panorama português do final do Século XIX.
A sua ligação forte à Parada e à vida social que ali se consolidava,
resulta de forma eficaz num catalisador que eleva Cascais às mais altas
instâncias da aristocracia e do empresariado de então. As grandes figuras da
nação e os grandes problemas políticos e económicos que ensombraram Portugal
entre 1879 e 1950 passaram todos pelo escrutínio apetado dos cascalenses que fruíam
da Parada de Cascais como fórum relevante para a discussão do futuro de
Portugal.
E na área dos desportos, do ténis ao futebol, passando pelo cricket, pelo
golfe ou pelo rugby, foi no velho recinto da Parada de Cascais que nasceram os
seus embriões, catapultando o prestígio e a glória da vila cascalenses até
paragens além-fronteiras. As primeiras gincanas automóveis aconteceram ali e
foi dentro daquele recinto que as grandes figuras do ciclismo português deram
os primeiros passos no sentido de colocar Portugal como referência nesse
desporto a nível internacional.
A ligação forte do Rei Dom Carlos ao Clube da Parada, cruzada de forma
permanente com a sua relação profícua com o mar, fizeram com que tenha sido ali
que muitas vezes o monarca reunia as grandes figuras das artes plásticas
nacionais para discutir posições e para definir caminhos novos para a cultura
portuguesa. As suas pinturas, maioritariamente dedicadas ao mar, aos barcos e
aos recortes pitorescos da costa de Cascais, conheceram ali a sua apoteose,
quando o Rei, nos saraus magníficos ali organizados, os oferecia aos seus amigos
frequentadores deste espaço indiscutivelmente essencial para a vida quotidiano
de muitos portugueses.
Quando em 1974 aconteceu a revolução portuguesa, o Sporting Clube da Parada
foi encerrado, ocupado e o seu espólio saqueado sem apelo nem agravo. E o
espaço, outrora prenhe daquilo que era a génese social da vida nesta pequena
terra, ficou abandonado até 1976, quando a edilidade resolveu adquiri-lo e
adaptá-lo a museu.
O Museu do Mar, que a partir de 1997 ganhou o cognome do rei pintor,
cientista e poeta, era uma aspiração antiga do povo cascalense. Com um impulso
muito sentido da sociedade civil local, que se uniu em torno deste comum
desiderato de adaptar os velhos pavilhões do Clube da Parada no Museu do Mar, depressa
o museu do mar reassumiu a essência maior do recinto de outros tempos,
recuperando a memória e a alma do Cascais de sempre.
Hoje existem outros museus extraordinários na nossa terra. Existem espaços
culturais dotados de moderna tecnologia e de condições de visitação que mantêm
Cascais na primeira linha da oferta cultural dos portugueses. Mas nenhum desses
espaços tem, pela sua localização, pelos edifícios que o compõem, pela ligação
anímica a Cascais e aos Cascalenses, a importância que o Museu do Mar vive
quotidianamente.
Assim que entramos no portão, percorrendo a velha alameda que nos leva até
ao pavilhão principal onde se situada a recepção do Museu do Mar, sentimos no
ar as memórias muito vividas de um espaço onde nasceu e se afirmou o Cascais
onde hoje vivemos. É ali, na frondosidade sombria das árvores enormes que
enchem os espaços onde outrora se situavam os tanques e os campos de “lawn-tennis”,
que ecoam ainda as vozes sempre subtis dos nossos avós que fizeram do Cascais
de então a maravilha que actualmente temos.
Cada um daqueles cantos e recantos está cheio de encanto. E a magia maior de um Cascais que nasceu de cara virada ao mar é ali que se sente!
Dizia o já referido Pedro Falcão (Dom Simão do Santíssimo Sacramento Pedro
Cotta Falcão de Aranha e Menezes), expoente máximo da cascalidade vivida e
sentida, que “a Parada, onde se juntava a nobreza, estava para Cascais como
anel de brazão está para quem o traz no dedo”.
E o Museu do Mar, congregando na sua imagética a Alma e a Espírito de
Cascais é, por tudo isso, o mais importante de todos os museus cascalenses. Que
dure para sempre! A bem de Cascais!
quinta-feira
O Solar dos Falcões em Cascais
por João Aníbal Henriques
Marcada pelo ritmo austero da sua
fachada, o Solar dos Falcões, situado no coração do núcleo urbano consolidado
de Cascais, é um dos mais importantes e significantes edifícios da vila. Tendo
sobrevivido ao grande terramoto de 1755, quando os danos que sofreu não
impediram que tenha passado a ser utilizado como substituto da igreja paroquial
que, ali mesmo ao lado, havia sido bastante danificada pelo cataclismo, é um
dos mais antigos edifícios de Cascais, carregando consigo informações
essenciais para compreendermos como era a vila antes das grandes transformações
ocorridas a partir de 1870 quando Dom Luís I escolheu este local como estância
de veraneio.
De salientar, até porque é bem
demonstrativo desta importância, o papel que teve Manuel Rodrigues de Lima, o
arrematando da hasta pública que vendeu esta casa e a capela anexa em 1864, na
concretização desse projecto de trazer a corte para a vila. Esse seu
proprietário, num acto inusitado de entrega ao bem comum, constrói no terreno
do velho solar um magnífico teatro dedicado a Gil Vicente que, na magnificência
do seu projecto, contrasta de forma evidente com a simplicidade chã que
caracterizava Cascais naquela época. E, despertando nos seus contemporâneos a
estranheza por tão grandiosa obra num espaço tão desinteressante, depressa se
percebe que a mesma fazia já parte de um plano maior engendrado pelas mais
importantes e influentes personalidades da vila, das quais faziam parte o dito
Manuel Rodrigues de Lima mas também João de Freitas Reis e, principalmente, Joaquim
António Velez Barreiros, Visconde de Nossa Senhora da Luz, que com um espírito
muito empreendedor foram dotando a vila dos equipamentos necessários para que
ela pudesse vir a ser escolhida pelo monarca como destino para o final das suas
férias de Verão.
O Solar dos Falcões e a Capela de
Nossa Senhora da Nazaré, em conjunto com o que resta do seu antigo jardim, apresentam
a formulação urbanística que definiu o nascimento e crescimento do casco antigo
da Vila de Cascais. A simplicidade dos volumes, contrastando de forma evidente
com a riqueza da sua decoração interior, é demonstrativa da influência que teve
a arquitectura popular tradicional da região saloia naquilo que foi a
consolidação da vila enquanto cerne de afirmação do poder municipal.
O provável instituidor da capela
e possível construtor do solar, terá sido Bernardino Falcão Pereira e sua
mulher Antónia Felícia Gameiro Feyo que, algures ainda no Século XVII,
assumiram este espaço como morada para a família e como jazigo privado. Foram eles quem, depois de um processo de
instalação no território municipal muito marcado ainda pela exploração dos
recursos primários da vila, deram origem a uma linhagem familiar que foi
determinante na recriação do Cascais da Corte cujas repercussões se sentiram até
à actualidade. Pedro Falcão, o saudoso autor da mítica obra “Cascais Menino”
era um dos orgulhosos descendentes destes primeiros Falcões, fazendo eco deste
legado nas suas obras e nos vários momentos que determinam a sua profusa vida
de cascalense.
Em termos artísticos o Solar dos
Falcões possui um importante conjunto azulejar que, com data de 1729, foi
pintado pelo Mestre António de Oliveira Bernardes e centra-se numa pintura
figurativa de Nossa Senhora da Nazaré a ressuscitar um homem. Os símbolos
marianos, que enchem a Capela-Mor, acompanham várias figuras infantis com
ligação directa às litanias de Maria, compondo um quadro que complementa de
forma evidente a abordagem mariana existente no vizinho Convento de Nossa
Senhora da Piedade e o dogmatismo católico que caracteriza a abordagem
pragmática expressa de forma visual na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da
Assunção situada ali mesmo ao lado.
Em termos históricos, e para além
da forma como o conjunto monumental evoluiu ao longo da sua longa existência,
importa sublinhar a provável utilização desta casa para a assinatura da chamada
“Convenção de Sintra”, na qual o General Francês Junot assina a sua rendição
perante as tropas inglesas que na mesma altura estavam aquarteladas no edifício
dos Condes da Guarda, actuais Paços do Concelho. Importante é ainda, entre 1741
e 1753, a breve ocupação do imóvel por padres da Ordem de São Francisco de
Paula que pretendiam utilizar a casa para ali instalar o seu convento em
Cascais, e do qual desistiram depois de se aperceberem da existência de
condicionantes à posse plena da propriedade.
Estando a capela classificada
desde 1978 como Imóvel de Interesse Público, e o solar como de Interesse
Municipal desde 2009, o conjunto composto pelos dois monumentos faz parte
integrante da matriz identitária de Cascais e recupera os valores mais
importantes da génese de índole rural desta vila piscatória.
Integrada no quarteirão onde o
Teatro Gil Vicente impera visualmente, dando o mote para que se perceba como
evoluiu historicamente a vila desde meados do Século XIX até à actualidade, o
Solar dos Falcões e a Capela de Nossa Senhora da Nazaré serão porventura as
mais abrangentes peças do património cascalense.
O Espigão das Ruivas e o Porto de Touro na Sacralidade Devocional de Cascais
por João Aníbal Henriques
Existem espaços que,
independentemente da sua História e/ou da sua monumentalidade, apresentam uma
força extraordinária no imaginário colectivo das comunidades. Normalmente,
quando assim acontece, a sua História efectiva, baseada nos factos
incontornáveis ditados pela documentação existente ou pelos vestígios que a
arqueologia recuperou, mistura-se com os mitos que resultam do impacto que o
dito espaço tem nas gerações que se vão multiplicando em seu torno.
A sacralidade destes espaços,
constrói-se a partir da interpretação que se faz deles. E as comunidades que os
vivem, condicionando-os às suas necessidades e ensejos, traduzem normalmente
nessas abordagens os resquícios mais profundos da sua própria existência…
O mítico Espigão das Ruivas, situado no limite Ocidental do território municipal de Cascais, em local próximo do Cabo da Roca e em estricta ligação física ao Rio de Touro, que ali desagua misturando-se com o próprio Oceano, é exemplo paradigmático desta realidade, impondo-se no imaginário das populações e reformatando a sua relação com a Serra de Sintra e o com o Atlântico.
O seu envolvimento plástico e
cénico, com as arribas verdejantes ao fundo e em contraste profundo com o azul
do mar, mistura-se amiúde com o vento forte que condiciona o acesso e impõe
respeito a quem o quer visitar. Mítico, porque inacessível ao comum dos
mortais, apresenta características morfológicas especiais que adensam o
mistério e promovem essa perspectiva quase irreal de um sonho inconcretizado.
As principais linhas de interpretação
do Espigão das Ruivas passam pelo mais básico alinhamento das reais
necessidades da vida das suas gentes com os impressivos resquícios das
vivências passadas. Os rituais da fertilidade, ancestrais na sua relação com a
própria sobrevivência da espécie humana, conjugam-se aqui de forma telúrica com
o cruzamento entre as águas do Rio Touro. Oriundo da Serra de Sintra, mais
propriamente do planalto de São Saturnino, a Poente da lendária Peninha, onde
António Carvalho Monteiro, conhecido como Monteiro dos Milhões, construiu o seu
eremitério sagrado sobre as penhas velhas da Senhora da Conceição, o ribeiro
desce a encosta de forma livre até se cruzar neste espaço quase inacessível,
com as tradições lunares das Ruivas, espécie de ninfas que aproveitam a solidão
daquele espaço para por ali prosperar.
A linha de abordagem positiva,
aqui consignada à figura mitológica do touro, sinónimo de força, de pujança viril
e de masculinidade, junta-se à linha matriarcal e feminina que a Lua lhe dá. E
desta ligação natural, simbolicamente traçando o contraste de forças
aparentemente antagónicas mas complementares, resulta o movimento que origina a
própria vida.
Com base neste pressuposto, e não
se sabendo com exactidão qual foi a origem efectiva da velha estrutura pétrea
existente no topo da rocha e com vista directa para a praia, fácil se torna
perceber a interpretação linear que dele faz a comunidade. Se a isto juntarmos
a longevidade desta situação, porque os vestígios que foram encontrados junto à
dita estrutura datam da Idade do Ferro, natural se torna perceber que a
extrapolação dos factos converge para aquilo que define as angústias maiores da
sobrevivência daqueles que por ali passam.
Ano após ano: século após século;
e milénio após milénio, vai-se aprofundando a convicção de que o Espigão das
Ruivas é o espaço onde se encontram as respostas efectivas às nossas principais
necessidades. E na perspectiva mais devocional do termo, resulta natural o
processo de sacralização de um espaço que se presta a uma vivência onde a
simbologia impera e que dá sentido a cada um dos detalhes que compõem a nossa
existência sagrada.
No choque de contrastes quase de
índole eléctrica que este espaço gera, cria-se uma janela de esperança que
ajuda de sobremaneira a definir formas alternativas de existência.
E hoje, seja para um passeio
deslumbrante através de uma das paisagens mais marcantes de Cascais, ou como
mote para uma introspectiva análise recatadamente elaborada a partir de um
qualquer anseio, a descida ao Porto de Touro, conjugado com a subida ao Espigão
das Ruivas, oferece a quem a faz uma perspectiva diferente do Cascais onde
vivemos.
Qualquer que seja o mote, o
ensejo, a crença, a fé ou a determinação de quem o faz, este é um passeio que
vale mesmo a pena!
segunda-feira
Anastasia Raykova apresenta a curta-metragem ELA em antestreia em Cascais
Memórias do Turismo em Cascais com António Aguiar
quarta-feira
Villa Romana de Freiria: Devolver aos Cascalenses a Memória Municipal
A Vocação Marítima de Cascais - da utopia à realidade...
por João Aníbal Henriques
Nascida à beira das águas tépidas da sua baía, e impregnada com o cheiro acre da maresia, a Vila de Cascais viveu sempre de e para o mar. As suas gentes, os seus monumentos, e toda a sua estrutura urbana, são repositórios integrais de uma relação ancestral com a baía, que as recentes intervenções parecem não conseguir compreender.
Guarda avançada de Lisboa, e garante da segurança na Barra do Tejo, Cascais nasceu e cresceu em estreita ligação com o mar. Desde que em 1363 o poder político concedeu a autonomia administrativa aos seus homens do mar, a vila assumiu essa vocação, recriando-se em torno do marulhar incessante das ondas da sua baía.
Quando na década de 40 do Século XX se construiu a Estrada Marginal, obrigando a entubar a antiga Ribeira das Vinhas e a demolir as inúmeras e ancestrais pontes que ligavam as suas duas margens, a face de Cascais foi completamente alterada.
No entanto, e apesar de serem poucos aqueles que actualmente ainda reconhecem na agitada Marginal o leito daquele antigo troço de água, ela permaneceu como elemento essencial na simbólica espacial desta vila cosmopolita.
























