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sexta-feira

O Grupo Dramático e Sportivo de Cascais e o Culto ao Espírito-Santo!



por João Aníbal Henriques

Em Maio de 1947, quando Cascais vivia na pujança singela de uma vila que havia recuperado o seu charme idílico ao receber os importantes exilados que procuraram refúgio em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial, o Grupo Dramático e Sportivo de Cascais celebrava as festividades do Espírito-Santo com uma grande vitória na modalidade do Hóquei em patins.

A pedido da França e da Bélgica, que procuravam espaços para treinar as suas selecções nacionais com a segurança e o conforto que a muito abalada Europa não conseguia prestar, Cascais recebeu as principais equipas desses países que aqui vieram treinar e jogar.

O Grupo Dramático e Sportivo de Cascais, conhecido pela qualidade dos seus atletas, assumiu-se como anfitrião daquelas importantes equipas europeias e, como penhor de gratidão pela sua hospitalidade, nos dias 25 e 26 desse mês decorreram importantes jogos privados de hóquei em patins entre as ditas selecções e a equipa local de Cascais que visavam agradecer ao dramático todos os cuidados dispensados, oferecendo-lhe dois momentos de grande visibilidade que concorreriam para alicerçar a fama do já então muito relevante clube de Cascais.

Mas a surpresa instalou-se assim que a equipa local, treinada por Gomes, venceu a Bélgica por 3-1, ao que se seguiu nova vitória retumbante contra a França por 2-0…

O povo de Cascais não podia acreditar! A equipa formada por A.S. Machado, M.E.F. Jorge, F.M. Magro, V. da S. Fonseca, A.J. d’Oliveira e A.G.M. dos Reis, todos cascalenses de gema, demonstrou internacionalmente a qualidade do seu jogo e a importância do Grupo Dramático e Sportivo de Cascais na modalidade, afirmando Cascais como grande destino do hóquei em patins a nível mundial e, acima de tudo, reforçando a já muito importante vocação turística municipal.

Recebidos como heróis, os atletas foram agraciados com um jantar comemorativo na sala da velha Petisqueira, situada no final da então Calçada da Assunção, que cruzou a festa comemorativa das vitórias desportivas com o pleito de Fé e devoção pelo Santíssimo Espírito Santo de Cascais, que nesse ano partilhou as honras de Maio com os atletas do Dramático de Cascais!


segunda-feira

Visita Guiada à Fortaleza de Nossa Senhora da Luz e à Torre de Santo António de Cascais

Comércio de Cascais – Encerrou a Agência Vitória de João Cabral da Silva no Largo Camões


por João Aníbal Henriques

Quando a Agência Vitória, a primeira imobiliária de Cascais, abriu portas, no já longínquo ano de 1956, já o edifício onde esteve instalada, no Largo Camões, estava desde há muito ligado à Família Cabral da Silva.

Adquirido no início dos anos 20 por João Cabral da Silva (1905-1966), o edifício setecentista albergou a antiga ourivesaria da família, que ocupava o piso térreo, tendo no primeiro andar, em regime de aluguer, uma sucursal da mítica Pastelaria Garrett.



A construção do edifício da Agência Vitória em 1956

João Cabral da Silva, nascido na Gândara do Além, em Carvide, Monte Real, veio para Cascais com cinco anos, por ter ficado órfão de forma inesperada. Criado por um tio paterno, o mítico Cabral “o Velho” que possuía estabelecimento comercial na Travessa Afonso Sanches, e que Pedro Falcão eternizou na sua obra memorial “Cascais Menino”, fez toda a sua vida na vila de Cascais, em conjunto com dois primos-direitos que o tratavam como irmão e com quem desenvolveu as naturais apetências comerciais que todos possuíam.



João Cabral da Silva e sua Mulher D. Celestina Moreira Cabral da Silva 


No início da Rua Direita, virada para o mesmo Largo Camões, João Cabral fundou a “Papelaria Cabral”, através da qual se tornou representante oficial das mais importantes marcas de canetas e de perfumes, ao mesmo tempo que, dando azo ao seu espírito empreendedor, inaugurou no primeiro piso do imóvel a primeira biblioteca pública de Cascais. Mais tarde, adquirindo o imóvel do Século XVII que existia na Rua Regimento Dezanove, ali instalou a sua primeira ourivesaria, vendendo e comprando outro, prata, pedras preciosas e relógios, numa paixão que se estendeu durante muitas décadas e que o filho herdou.

João Cabral da Silva foi ainda sócio fundador da Associação Comercial de Cascais e, dentro da estrutura da Igreja Católica, foi um dos principais impulsionadores e promotores das procissões e actos devocionais que aconteciam na vila. Para tal contribuiu de forma decisiva o facto de ter estado com a sua avó Guilhermina Cabral da Silva na Cova da iria, em Fátima, no dia 13 de Outubro de 1917, tendo assistido no próprio local ao “Milagre do Sol”. Esse evento, que o marcou de forma profunda e eterna, foi a razão principal da sua profunda Fé e devoção a Nossa Senhora de Fátima a quem dedicou inclusivamente a sua capela privativa, situada na casa “Serradinho da Eira”, na aldeia da Charneca. Através da Igreja, e sempre resguardado no recato que considerava essencial para que a caridade não se transformasse num instrumento de promoção social, apoiou discretamente dezenas de famílias pobres de Cascais, a quem assegurava a dignidade que defendia para toda a gente.



João Cabral da Silva na Janela do 1º Andar da Tabacaria Cabral


Falecido na sua casa da Rua Direita no dia 13 de junho de 1966, o seu trabalho foi continuado pelo filho, João Moreira Cabral da Silva (1935-2024), que dirigiu a Agência Vitória desde o dia da sua inauguração e até ao dia da sua morte.

Casado com Maria Fernanda Veiga Henriques Cabral da Silva (1936-2023) e sem descendência, João Cabral da Silva foi um dos mais inovadores empresários do sector imobiliário. Empreendedor e visionário, foi capaz de transformar o legado do seu pai numa das mais prósperas casas comerciais da vila, para onde convergiam clientes provindos das mais variadas partes do mundo e que ali procuravam as casas onde viriam a morar.



O Casal Maria Fernanda e João Cabral da Silva na Agência Vitória em 2023

A Agência Vitória, reconhecida internacionalmente pelos seus bons serviços e pela seriedade do seu trabalho, serviu algumas das mais proeminentes figuras da vida política, económica e cultural da Europa de meados do Século XX, chegando a ter uma carteira com mais de 500 imóveis disponíveis e perto de mil clientes (entre proprietários e inquilinos), geridos por Cabral da Silva que, com a sua mulher, liderava uma equipa com cerca de 20 colaboradores.

Os arrendamentos temporários, sobretudo durante o período estival, foram um dois pilares que sustentou o desenvolvimento e a afirmação do Turismo de Cascais durante várias décadas. E ao nível das vendas e dos arrendamentos de longa duração, inovou com a oferta de contratos relativos a imóveis completamente mobilados, que eram nessa altura um filão raro e muito difícil de encontrar em Portugal. Do seu portfolio faziam ainda parte uma parte substancial da oferta de imóveis comerciais na vila e no concelho de Cascais, sector que se afigurou de primeira importância para a consolidação da vocação turística municipal.



João Cabral da Silva e Manuela Araújo na Agência Vitória em 1956

Erudito e conservador, preservando os mesmos hábitos e costumes que haviam sido desenvolvidos durante a vida do pai, João Cabral da Silva foi figura marcante e incontornável do Cascais do Século XX. Durante e após o processo revolucionário, em 1974, manteve intocados os valores que sempre defendeu, preferindo pagar o preço dos seus princípios do que vergar-se à novidade que exigia dele posicionamentos mais modernos e liberalizantes. E até final do século, numa luta permanente da qual nunca pediu tréguas, conseguiu manter vivo o seu negócio e encontrar um registo de trabalho assente nesses valores de seriedade que permitiram à Agência Vitória manter a suas portas abertas e preservar uma parte substancial da sua carteiras de clientes, mesmo quando por toda a vila se multiplicavam os concorrentes que surgiam no mercado com  ofertas melhor adaptadas aos novos tempos que iam chegando.  



A Agência Vitória em pleno funcionamento nos anos 70 do Século XX

Já na sua velhice, debilitado por uma saúde frágil, manteve sempre abertas as portas da Agência Vitória, onde trabalhava diariamente até à véspera do seu falecimento na mesma casa da rua direita onde tinha nascido há 89 anos.

A Agência Vitória laborou ainda até final do ano, tendo encerrado definitivamente as suas portas no dia 30 de Setembro de 2024. Com o seu encerramento, fecha-se um ciclo longo e próspero do comércio de rua em Cascais, acompanhado infelizmente pelo igual encerramento da mítica Drogaria Costa, a Pastelaria Bijou, a Galera Modas, o Faraó e muitos outros estabelecimentos comerciais que durante muitas décadas ajudaram a definir o que era a Vila de Cascais.



A Agência Vitória no dia em que comemorava o seu 40º Aniversário em 1996


Ficam as memórias perenes e inultrapassáveis destes negócios históricos e, sobretudo, a lembrança das vidas dos empresários que lhes deram ensejo e forma. A todos eles se dedicam as palavras de gratidão pela forma como com as suas vidas ajudaram a fazer desta vila uma das mais extraordinárias terras de Portugal.

A Escravatura em Cascais


por João Aníbal Henriques

Por incrível que pareça, em 1514, quando Dom Manuel I renovou o antigo Foral de Cascais, a escravatura era um exercício comercial comum na nossa vila. 

De facto, numa das posturas desse documento diz-se taxativamente que quem vendesse um escravo ou uma escrava em Cascais teria de pagar um imposto de 13 Reais e meio! E que as escravas que fossem mães de crianças que ainda mamassem não veriam agravadas as suas taxas por esse efeito.

Uma realidade cruel que caracterizou a nossa terra e o resto do mundo mas que felizmente já está muito distante! Pelo menos por cá e por enquanto…

quinta-feira

Quando era Preciso Passaporte para Entrar em Cascais



por João Aníbal Henriques

Um dos muitos problemas que afectaram as povoações destruídas pelo grande terramoto de 1755 foi o que nessa altura se chamava “vadiagem”. Os sem-abrigo, impossibilitados de recuperar as habitações perdidas durante o cataclismo, deambulavam pelas ruas mendigando e arrastando a desgraça que sobre eles se tinha abatido. O problema era de tal forma grave que no 25 de Junho de 1760 foi publicada uma lei que obrigava os cidadãos que pretendiam viajar entre concelhos a levar consigo um “passa-porte” autorizado. Em Cascais, a exigência do dito “passa-porte” municipal vigorou até 1825 e a sua emissão por parte da câmara exigia que os que o requeriam apresentassem testemunhas e fiadores!

quarta-feira

Rei Dom Luís I - A Última Vez em Cascais



por João Aníbal Henriques

No dia 31 de Julho de 1889, há 135 anos, o Rei Dom Luís I chegou pela última vez a Cascais. A conselho dos médicos, que conheciam a extrema gravidade da sua saúde e o seu estado terminal, instalou-se no Palácio Real da Cidadela, de forma a que os seus últimos dias fossem passados a contemplar a sua Baía de Cascais. Para tal, o quarto foi mudado para outro compartimento de forma a colocar a cama junto à janela que tinha aquela vista privilegiada. Expirou serena e tranquilamente no dia 19 de Outubro de 1889 com o olhar perdido nas águas maravilhosas do mar que tanto amava. Sempre em Cascais.




(o quarto privado do Rei Dom Luís I no Palácio Real da Cidadela de Cascais)





O Mito do Pelourinho de Cascais em 24 de Julho de 1833



por João Aníbal Henriques

Diz a voz popular, repetida incansavelmente há muitas gerações, que o Pelourinho de Cascais está situado em frente à lota, com vista privilegiada sobre a nossa extraordinária baía.

Mas não é verdade. O Pelourinho Medieval de Cascais, que a documentação atesta ter existido junto à ponte que ligava as duas margens da Ribeira da Vinhas, terá sido completamente destruído pelo grande terramoto de 1755.

O padrão colocado junto à baía, a que tantos aludem como sendo o dito pelourinho, é um marco comemorativo de um dos mais sanguinários e destruidores momentos da História de Portugal: a luta fratricida entre Dom Pedro e Dom Miguel e a mortífera Guerra Civil que opôs liberais a absolutistas depois da morte de Dom João VI.

No dia 24 de Julho de 1833, liderando um exército formado com o apoio da Coroa Inglesa, que tinha vastíssimos interesses na independência de Portugal e no estabelecimento de um regime liberal que satisfizesse as suas necessidades no controle das rotas comerciais com a Ásia, com África e, sobretudo, com o Brasil, entra em Lisboa o Duque da Terceira, desferindo sobre os partidários do Rei Dom Miguel I um duro golpe que pôs fim à Guerra Civil.

Dom Pedro IV, primeiro imperador do Brasil e mítico autor do célebre Grito do Ipiranga, que tornou a antiga colónia portuguesa num país independente, decide abdicar da Coroa Portuguesa na pessoa da sua filha mais velha, assumindo a liderança da Casa de Bragança e regressando a Lisboa como Regente do Reino de Portugal, deixando o seu filho Dom Pedro II como Imperador do Brasil.

A entrada triunfal da Rainha Dona Maria II em Lisboa, depois do êxito de 24 de Julho de 1833, marca o início de um novo período da vida política de Portugal, uma vez que a jovem rainha, que passara uma parte importante da sua infância em Inglaterra, mantém uma ligação de profunda afeição e amizade com a futura Rainha Vitória, fortalecendo assim uma aliança que ainda hoje tem consequências diversas na política externa portuguesa e nos equilíbrios políticos de Portugal nesta Europa escalavrada em que vivemos.

O marco ao qual os Cascalenses chamam erradamente “pelourinho”, é assim um monumento que festeja a vitória liberal e a subida ao trono da Rainha Dona Maria II de Portugal!

segunda-feira

As Obras de Construção do Largo Camões em Cascais



Até ao dia 10 de Junho de 1980 o actual Largo Luís de Camões, em plano coração da Vila de Cascais, era um sórdido e mal preparado parque de estacionamento a céu aberto. O equipamento, por sua vez, havia substituído com carácter provisório este espaço onde anteriormente existiam casas antigas, prolongando o eixo da Rua Regimento 19 de Infantaria, e que foram demolidas de forma a abrir o espaço e a criar uma praça para onde se pretendia fazer convergir as principais dinâmicas comerciais da velha vila piscatória. As obras em curso, promovidas pelo saudoso Dr. Carlos Rosa, que presidia à Câmara Municipal depois das eleições que foram ganhas pela Aliança Democrática, tinham em vista a definição de uma linha de modernidade que promovesse o comércio tradicional e permitisse a reafirmação de Cascais como destino de excelência no seio da recém-criada Área Metropolitana de Lisboa.



























sexta-feira

A Inauguração do Largo e da Estátua de Camões em Cascais



No dia 10 de Junho de 1980, por iniciativa do saudoso Presidente da Câmara Municipal de Cascais, Carlos Rosa, foi inaugurado o novo Largo Camões e a estátua do poeta. A cerimónia, que contou a presença de todas as entidades e instituições municipais, foi literalmente engolida por milhares de Cascalenses que encheram este novo espaço urbano da Vila de Cascais. Antes das obras de reconversão, o actual Largo Camões era um espaço sombrio e pouco atractivo que funcionava como estacionamento automóvel. E a estátua, ali colocada provisoriamente até ser possível adquirir um exemplar condigno, é um molde feito em pedra-sabão encontrada por Benjamim de Quaresma Diniz nas arrecadações do Mosteiro dos Jerónimos e cedida a Cascais para este efeito. À frente do cortejo popular que calcorreou as ruas de Cascais em homenagem ao poeta-maior da Portugalidade, seguiam os alunos das escolas primárias do concelho, encabeçado por Miguel Mesquita Portugal e João Aníbal Henriques, alunos da Professora Primária Eglantina Ventinhas que, tendo ganho o concurso do mais bonito estandarte do cortejo, tiveram a honra de descerrar com Carlos Rosa o novo e mais emblemático monumento da Vila de Cascais.