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segunda-feira

João Sande e Castro e as Contas do Desporto em Cascais




“Um dia chegava eu à reunião […] e ia-se votar a construção do centro comercial CascaisVila. Após duas horas de discussão acesa e quando já passava das oito da noite, Judas perguntou, como é da praxe: ‘quem vota contra?’ Dei por mim sozinho com a mão no ar. Não que me arrependa de o ter feito. Pelo contrário, sinto bastante orgulho nisso. Apenas eu na altura fiquei um pouco espantado por ser o único a votar contra, por os meus colegas da oposição não terem votado em igual sentido.”

42 anos depois da revolução da liberdade, o prestar de contas político é de uma raridade confrangedora! E esse facto conduz a um progressivo afastamento entre eleitores e eleitos e a  um desinteresse generalizado que vai matando de forma paulatina a própria democracia.

O exercício da democracia, quando é concretizado sobre a escolha de propostas e programas por parte dos eleitores, só se completa quando os eleitos prestam contas do que fazem. A transparência relativamente ao que se fez e às opções que se tomaram, quando tudo isso acontece em consciência, pressupõe que ao eleitor é dada toda a informação. É esta que lhe permite analisar o desempenho do eleito e perceber quais foram os seus critérios de governação.

E foi isto precisamente que fez João Sande e Castro, antigo vereador da Câmara Municipal de Cascais que, num acto inédito na Nossa Terra, apresentou publicamente o seu livro “Desporto em Cascais”.

Passando em revista o seu trabalho à frente do Pelouro do Desporto na edilidade Cascalense, o ex-autarca analisa de forma detalhada cada projecto, cada iniciativa e cada decisão que tomou durante o período em que durou o seu mandato, explicando quais foram as ideias e os critérios que presidiram à sua actuação e as opções que tomou relativamente a quase tudo aquilo que lhe passou pelas mãos.

Podemos concordar ou discordar com as suas escolhas. Podemos acompanhá-lo nas suas opções político-ideológicas ou situarmo-nos nas antípodas das mesmas. Mas ninguém pode negar que, com este livro, João Sande e Castro presta um contributo inestimável para a consolidação da democracia e para o exercício de rigor e transparência que quase sempre falta nesta Nossa Terra.

E quando assim é, só pode ser a Bem de Cascais!...




João Sande e Castro tutelou o pelouro do desporto na Câmara Municipal de Cascais durante 12 anos. 
Neste livro descreve, de forma informal, o que foi a sua experiência na vereação e as 
relações da autarquia com os clubes do concelho.

terça-feira

As Armas de Cascais






Representando a História e os principais valores associados à actividade piscatória no Concelho, o Brasão de Cascais foi aprovado pela Comissão Administrativa de Cascais em Abril de 1934.

A constituição heráldica das armas do Concelho, assente na Portaria nº 7839 desse mesmo ano, define com muita clareza os contornos do símbolo oficial de Cascais: "De prata com um castelo de vermelho, aberto e iluminado de prata, sobre uns rochedos de negro, saindo de um ondado de prata e de verde. O ondado coberto de uma rede de ouro. Coroa mural de prata de quatro torres. Listel branco com os dizeres Câmara Municipal de Cascais a negro. Bandeira vermelha. Cordões e borlas de prata e de vermelho. Lança e haste de ouro. Selo circular tendo ao centro as figuras das armas sem indicação dos esmaltes, tudo dentro de círculos concêntricos, com os dizeres Câmara Municipal de Cascais”.

A descrição oficial da simbologia municipal, explicada no próprio website oficial da Autarquia (www.cm-cascais.pt), diz que “o castelo representa a praça-forte, que impusera Cascais enquanto sentinela avançada de defesa da entrada do Tejo e, consequentemente, de Lisboa. Já o esmalte vermelho do castelo é a cor que, heraldicamente, significa vitória, ardis e guerras, e representa ainda a vida, a alegria, o sangue e a força. Por sua vez, a prata do campo das armas demonstra humildade e riqueza, qualidades dos naturais da região. O negro dos rochedos representa a terra e significa firmeza e honestidade, qualidades que também sempre distinguiram os naturais de Cascais. Note-se que o ondado de prata e o verde são as cores indicadas para simbolizar o mar, tanto mais que heraldicamente o verde corresponde à água e significa esperança e fé. Finalmente, a rede representa a vida activa dos cascalenses e o seu sustento, tendo a cor escolhida sido o ouro, que significa fortuna, poder e liberalidade. Refira-se, ainda, que o vermelho da bandeira teve por base a cor do castelo, o elemento principal das armas. A prata da coroa mural obedece à norma estabelecida para simbolizar as vilas”.

Apesar da importância destes símbolos na definição da Identidade Municipal de Cascais, com implicações práticas no devir quotidiano dos Cascalenses, têm sido vários os executivos municipais que optaram por recriar símbolos não oficiais que, utilizando estratégias de marketing que respondem a interesses propagandísticos distintos, acabam por desvirtuar e desformatar a imagem municipal.

O primeiro a proceder desta forma foi o Presidente José Luís Judas. Com o objectivo de demarcar a sua gestão do período precedente, optou por alterar o logotipo de Cascais. Embora mantendo o brasão oficial de forma integrada no novo desenho, acrescentou um facho de fogo cujo significado ainda hoje Cascais tem dificuldade em interpretar. Depois, com a chegada do Presidente António Capucho, tudo mudou novamente. Provavelmente com o mesmo objectivo de diferenciação relativamente ao período precedente, lá caiu definitivamente a heráldica oficial do município que foi substituída por um quadrado encarnado no qual surgia a letra C. E quando ele saiu, mantendo-se no entanto à frente dos destinos do Concelho a mesma coligação de partidos por ele criada, o logotipo foi alterado novamente, possivelmente respondendo à mesma necessidade de afirmação propagandística que enformara as alterações anteriores. Desta vez desaparece o quadrado e o nome Cascais surge em negativo sobre um rectângulo cinzento, com as letras esburacadas por pequenos círculos aleatoriamente colocados.

Dir-se-á que é somente uma questão de gosto e que as alterações sucessivas representam unicamente a passagem do tempo. Mas não é. Cada uma destas operações tem significativos custos associados que, sendo pagos pelos Cascalenses, não trazem nenhum benefício ao Concelho. Por outro lado, ao alterarem os símbolos que nos representam, deturpam a Identidade de Cascais, conduzindo a uma anomia generalizada que impede a representação efectiva dos Cascalenses.

O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, aludindo à importância dos símbolos para a Identidade de Portugal, refere que “A diluição espiritual e cultural de um povo significará inevitavelmente a perca da sua identidade e a sua fusão num hoje sem futuro”.

Ninguém quer que isto aconteça na Nossa Terra!...


quarta-feira

Os Passadiços da Cresmina em Cascais




Também se fazem coisas boas em Cascais!

As Dunas da Cresmina, situadas a Norte da Praia do Guincho, em direcção à Areia, são uma das peças mais importantes do património natural e paisagístico de Cascais. Repletas com um conjunto de espécies vegetais únicas, com peças que já são raras na natureza, as dunas possuem um enquadramento cenográfico de grande impacto, enquadrando o imenso areal do Guincho no sinuoso percurso do Vale da Foz e tendo como pano-de-fundo a Serra de Sintra e o Cabo da Roca.




Os passadiços de madeira que foram construídos no local, em 2011, pela Câmara Municipal de Cascais, para além de servirem para preservar o conjunto dunar, sempre sensível ao pisoteamento e à actividade humana, permitem ao público um usufruto confortável do espaço. Devidamente inseridos na paisagem e até reforçando a sua beleza natural, são hoje um importante contributo para a oferta turística da Costa do Estoril.

Depois de um período de alguma incúria, durante o qual vários troços se foram degradando, foi recentemente efectuada uma nova intervenção que, prolongando o passadiço Sul até junto da extrema do parque de campismo, reforça a atractividade do local, tocando vários tipos de ecossistemas que passam a ser observáveis pelos passeantes.

Pena é que da estrutura original a edilidade tenha optado por abandonar definitivamente o troço que passava junto à mãe-de-água da Cresmina, num dos passadiços mais utilizados durante a primeira fase do projecto, uma vez que essa peça do património Cascalense faz parte da estrutura arqueológica dos Casais Velhos, do período romano, apresentando um conjunto de potencialidades culturais e turísticas que enriquecia o espaço.




O património histórico é, aliás, o elemento que falta neste projecto. A identificação das espécies vegetais que se podem observar no local e os painéis que explicam o contexto espacial e a fauna que por ali subsiste, estão bem preparados e cumprem o seu duplo objectivo de explicar e ensinar quem por ali anda, faltando somente (pelo menos) uma alusão à História da Cresmina que, sendo desconhecida da maioria do Cascalenses, tem uma importância extraordinária na definição da Identidade de Cascais.

Apesar de tudo, tem nota muito positiva esta recente intervenção, que devolve aos Cascalenses um dos recantos encantados da Nossa Terra. 





domingo

As Dunas do Guincho: Um Apelo Sentido de Todos os Cascalenses




Quando a Câmara Municipal de Cascais inaugurou, em Julho de 2011, os passadiços de madeira nas Dunas do Guincho (Praia da Cresmina), ainda sob a presidência de António Capucho, foi grande o júbilo dos Cascalenses.

Apesar de os projectistas se terem “esquecido” de integrar no percurso maravilhoso as três peças do património de Cascais que lhe estão adjacentes (a mãe-de-água da Cresmina, o Aqueduto Romano e o Povoado dos Casais Velhos) e de ter perdido a oportunidade para os recuperar, esta intervenção oferecia ao turismo do Estoril uma nova e extraordinária ferramenta de trabalho que, para além de permitir o acesso a um dos mais bonitos recantos do Concelho de Cascais, deslumbrando todos aqueles que tivessem a sorte de saber da sua existência, também servia como contributo importante para preservar (e recuperar) as dunas da Cresmina.

Mas agora, em 2014, depois de se ter mudado a presidência da C.M.C. e de as eleições terem sido ultrapassadas, a situação em que se encontra este equipamento é muito diferente.

Fruto da incúria e do desleixo, a degradação tomou conta do passadiço e, em alguns troços, para além de ter desaparecido a corda que marcava o percurso e que protegia as dunas consolidadas, existem sinais evidentes de destruição da própria estrutura em madeira.

Agora, são muitos aqueles que voltaram a pisotear e a destruir os habitats naturais e as próprias dunas, em linha com o ar de abandono em que se encontra toda a estrutura, destruindo assim uma parte substancial da riqueza natural de Cascais e das potencialidades turísticas do local.

Mais preocupante ainda, dado tudo isto ter sido feito e pago com verbas públicas, ou seja, dinheiro que pertence a todos os Cascalenses, é percebermos que se a recuperação da estrutura não vier a acontecer num curto espaço de tempo, e não for seguida de um esforço continuado de manutenção, perderemos definitivamente mais este equipamento.


Agora que as eleições autárquicas já passaram, esperemos que as europeias que aí vêm e as legislativas que se lhes seguem, sejam argumentos suficientes para que a Autarquia tome em mãos a resolução do problema... 







sexta-feira

O Fim da Agenda Cultural de Cascais




Desejada pelos Cascalenses desde há muitas décadas, e concretizada somente em 2003 sob a presidência de António Capucho com o entusiasmo de António Carvalho, Cascais teve, durante uma década, uma excelente Agenda Cultural.

Com periodicidade bimestral, a Agenda Cultural de Cascais incluía toda a programação cultural do Concelho e pequenos apontamentos historiográficos sobre peças importantes – e por vezes mal conhecidas – do Património Cascalense. Era um instrumento indispensável para todos aqueles que tinham vontade de usufruir da muita e excelente programação cultural de Cascais e, para muitos, chegava mesmo a ser uma espécie de objecto de culto que comerciantes e munícipes coleccionavam, pelo valor intrínseco de memória que a mesma continha.

Quando saía, era normal vê-la nas mãos dos que circulavam pelas colectividades, academias, associações e demais instituições do concelho, bem como dos munícipes seniores que se habituaram a encontrar ali toda a informação acerca do que de melhor se fazia em Cascais.

Este mês, alegando uma pretensa “sustentabilidade económica dos projectos” , o recém-eleito executivo municipal decidiu extinguir a versão em papel da Agenda Cultural e, contrariando a vontade expressa pelos Cascalenses há muitos anos, passar a produzi-la exclusivamente numa versão online.

Perde-se tudo. Perdem-se as memórias, a ligação e a informação dos Cascalenses em relação às memórias de Cascais. Perdem os produtores culturais do Concelho que, a partir de agora, deixam de te um instrumento de promoção do seu trabalho. Perde a identidade de Cascais que, na lógica do poder político municipal, não vale o custo de impressão da Agenda Cultural.

A Agenda Cultural não incluía propaganda política e não servia outros interesses que não os da cultura da Nossa Terra.

Mais uma vez perde Cascais. Infelizmente…

Monte Estoril - Uma Estória da História de Cascais






Situada estratégicamente junto ao litoral cascalense, a povoação do Monte Estoril é certamente um dos locais que merece um maior cuidado de observação e análise. A sua importância, mais do que pelo enorme e valioso espólio arquitectónico e cultural que possui, vem-lhe da sua situação actual, misto de um cenário abandonado e destruído, onde a podridão, em conjunto com a actual putrefacta acção do Homem, tem vindo a promover o desenvolvimento de um caótico centro de consumo e distribuição de estupefacientes.

A situação actual do Monte Estoril, agravada por um desconhecimento paulatino relativamente às suas origens, é assim de perfeito desentendimento histórico, sociológico, cultural ou mesmo comercial, uma vez que, neste outrora rico e característico interstício da nossa linha de costa, é possível encontrar uma incompreensível mistura de novas edificações, inseridas numa arquitectura moderna e incaracterística, com velhos e esplenderosos edifícios de finais do século passado, excelentemente bam conservados e mantidos e que, por seu turno, possuem nas vizinhamças semi-destruídos restos do Monte Estoril de outrora, com as suas paredes enventradas e de onde se pode observar as muitas seringas e demais apetrechos que ali são deixados para as noites seguintes de prazer. Os interesses de todos aqueles que por ali habitam ou simplesmente passam, estão assim em confronto permanente, tornando também este espaço, outrora conhecido pela sua vivência comunitária, num sítio sem memória, sem passado, sem presente e sem perspectivas de futuro.

Para abordar de forma congruente o Monte Estoril de hoje, após vários períodos mais ou menos prolongados de incúria e destruição exacerbada, interessa fundamentar as observações que pretendemos em três perspectivas diferentes, afinal de contas as únicas que o tornaram naquilo que hoje representa: o local; a história; e as suas gentes.

Em primeiro lugar, este sítio é o resultado de um processo recíproco de interacção entre o Homem, o meio e a história que, em conjunto, fundaram uma povoação em que o caos aparente se transforma em harmonia, e em que o sentido inerente à sua disposição, embora dixando transparecer o êxito das acçãoes que ali foram levadas a efeito, depressa se transforma em acaso e insucesso, factores onde assenta, com raízes profundas o sucesso de outrora.



O Monte Estoril é, acima de tudo, uma mistura quase incompreensível de um cosmopolitismo lusitano com um aparente portuguesismo estrangeirado, conjugados com uma acção de reciprocidade aparentemente caótica, mas que mais não é do que o cume da montanha do paradoxo. Contradição, paradoxo e acaso são assim as principais formas que orientaram a criação deste outrora considerado “paraíso terrestre”, incompreensível à mente humana da actualidade sempre muito sujeita às pressões quotidianas da vida moderna, mas plena de sentido quando observada pelos eternos românticos do fim do século XIX. O sentido do Monte Estoril, bem presente em todos aqueles que daqui se consideram, muito embora possam ter nascido no ponto mais nórdico da Europa ou no extremo sul da Oceania, está assim patente e escondido; patente para quem o não procurar, perdendo-se no seio das ruelas ladeadas de jardins; e escondido, de todos os olhares atentos que por ali procurem observar algo de mais vigoroso e rico.

Torna-se assim difícil, perante esta pequena introdução, mencionar aquilo que foi, que é e que poderia vir a ser o Monte Estoril, uma vez que não existe um só, mas muitos, de acordo com a perspectiva de quem o observa. Tal como Cascais e as pequenas aldeias saloias que compõem o seu concelho, este pequeno aglomerado populacional vale por aquilo que representa, um símbolo da Portugalidade e uma ideia de algo que consegue existir para além de tudo aquilo que o Homem possa imaginar.

Dizia em tempos que já lá vão o sábio Santo Agostinho (1), que o tempo já não existe. O passado, segundo o próprio, não o podemos observar pois já passou, tendo deixado de existir; o futuro, ainda não veio, pelo que não existe também; e o presente pela fugacidade que o caracteriza, ainda não é presente quando nele pensamos porque ainda não veio, e já é passado quando esse momento passa, não podendo assim existir também. O mesmo se passa com o Monte Estoril, patente na mente de quem o imaginou, mas diferente daqueles que o programaram. O Monte Estoril é assim algo que não existe, existindo eternamente, fruto do pensamento dos Homens, da vontade dos Deuses, e adaptado aquilo que cada um dele espera.

A recuperação do Monte Estoril, mais do que um exercício de reordenamento urbanístico, tal como se fará noutras aldeolas do concelho de Cascais, é sobretudo a requalificação da conjugação daqueles três factores: o local, a sua história, e as suas gentes. A programada substituição da população Monte Estorilense por escritórios e serviços, tal como foi defenido no Plano Director Municipal de Cascais, é retirar deste espaço grande parte da sua marginalidade, mas é também retirar deste espaço priviligiado uma vivência característica e sã, que sempre norteou a actuação das populações que aqui habitaram. Se, pela mesma razão, se efectivarem estas ideias expressas pela edilidade cascalense, mais um passo terá sido dado para acabar com tudo aquilo que historicamente representa Cascais.

Se tal assunto, numa primeira análise, parece não interessar muito para o desenvolvimento harmonioso da Área Metropolitana de Lisboa e do próprio País, imaginemos a actuação análoga de muitas outras cãmaras municipais, sem qualquer espécie de representatividade efectiva, transformando Portugal num espaço turístico sem qualquer espécie de atractivo, e de onde estão ausentes todas as características da Portugalidade.

O Monte estoril de outros tempos oferecia o sol e o mar, conjugando tais factores com a beleza da sua paisagem e com o resplandecente movimento social que apresentava. O Monte Estoril de hoje não pode oferecer o seu sol que, como sabemos, está estragado pelas consequências nocivas de muitas décadas de utilização de aerossóis sobre a camada de ozono; o Monte Estoril de hoje não pode oferecer a praia, pois as águas do seu mar estão poluídas e mal-cheirosas, fruto de muitos anos de caos urbanístico e de uma construção desregrada que continua a aumentar; o Monte Estoril de hoje não pode apresentar a paisagem como atractivo principal, pois o abandono em que se encontra, fruto da especulação imobiliária e da incúria de muitos anos, o transformaram num subúrbio descaracterizado e perigoso da vila de Cascais; e por fim, e se calhar é esta a perincipal doença que apresenta, o Monte Estoril de hoje não pode já apregoar a cordialidade e simpatia que carcterizava os seus habitantes, pois muitos já faleceram e, aqueles que ainda ali habitam, têm de se precaver contra a incerteza de encontros fortuitos e maléficos com personagens altamente marginais que por ali deambulam.

Vamos criar um Monte Estoril novo mas velho ao mesmo tempo! Vamos contribuir para a recriação de Cascais e de Portugal! Vamos ser, ao mesmo tempo, membros e interventores na governação deste concelho, deixando administrar aqueles que verdadeiramente sejam cascalenses e portugueses, venham eles de onde vierem!...



Para o Paraíso Natural do Monte Estoril...

As abordagens que têm sido levadas a efeito sobre o Monte Estoril, sejam elas de cariz turístico, cultural ou mesmo social, possuem até hoje um elemento comum: o facto de assentarem, em exclusivo, sobre a dicotomia entre o património edificado e as pessoas que ali desenvolveram as suas actividades.

De facto, se atendermos ao Monte estoril de hoje, depressa nos aperceberemos de que essa relação recíproca entre as edificações e as pessoas que as utilizaram são a peça-chave para a compreensão daquilo que foi esta pequena povoação, outrora connhecida como a Côte d' Azur Portuguesa. No entanto, e porque de uma perspectiva geral pretendemos tratar, difícil seria deixar de abordar a temática directamente relacionada com o meio envolvente que, como se usa hoje dizer, diz respeito a todos, cabendo a todos um papel único na sua salvaguarda.

O meio ambiente do Monte estoril, pelo menos aquele que hoje encontramos, nada tem a ver com o outro que foi encontrado por José Jorge de Andrade Torresão, o primeiro dos grandes construtores dos chalés de veraneio do Monte. Segundo Branca Gontha Colaço e Maria Archer (2), numa das mais sentidas obras escritas sobre os concelhos de Cascais e Oeiras, e que, à laia de permeioaconselhamos vivamente a leitura e a reflexão sobre os assuntos focados, revelam ter sido o território actualmente ocupado pela povoação em questão, completamente deserto, apenas ornado de vastas manchas verdes de pinheiros que, inclusivamente, acabaram por influenciar a própria toponímia antiga do sítio, que se chamou, durante muitos anos, simplesmente Pinhal da Andreza: «Solidão absoluta. Nem casa nem choupana, Pã vagueava no seu domínio como um verdadeiro deus. Não se ouvia balido de ovelha nem flauta de pastor. O mar inundava, com seu canto majestoso, a solidão magnífica. Os pinheirais gemiam em uníssono as saudades dos temporais».



Estudar o Monte Estoril de hoje, pensando demoradamente sobre a razão de ser dos diversos chalés de diferentes características inexplicavelmente salpicando as antigas matas de pinheirais e ocupando progressivamente as apetecíveis colinas, é sobretudo um esforço de reconstituição daquilo que foi este mesmo território antes de possuir as actuais edificações. Como tal, qualquer estudo que se faça sobre a arquitectura e o urbanismo do Monte Estoril terá de possuir, a suportá-lo, uma abordagem mais alargada que permita perceber, em termos de colocação e divisão do espaço, qual a lógica subjacente ao desenvolvimento que se efectivou durante a última décadado século XIX. Como é óbvio, daqueles que primeiro chegaram a este sítio, encontraram uma disponibilidade total de ocupação do espaço, disponibilidade essa patente devido ao total alheamento dos construtores face ao enquadramento do conjunto edificado, uma vez que o mesmo não existia; alheamento ainda face a possíveis sujeições legais, pois não existiam parâmetros rígidos nem definidosque orientassem os projectos (quando existiam os projectos); e alheamento, afinal de contaspois o facto de o terreno não estar ainda muito utilizado, permitia a escolha precisa do local para criar a nova habitação, bem como a forma através da qual se desenvolveriam os arruamentos e os jardins que a iriam circundar. Actualmente, quando alguém escolhe um terreno para edificar uma habitação, tem obrigatóriamente de ter em conta as casas construídas em redor, tal como os acessos e o seu estado, e a forma como o quintal se poderá articular com a edificação e com a rua, de modo a promover as necessidades da família ocupante e de melhor cumprir os objectivos para que foi criada. Tal facto, ao contrário do que sucedeu no Monte estoril, ajudou a criar na actualidade uma certa monotonia de valores estéticos, facto que podemos observar nos novos bairros recentemente construídos, bem como nas vedações em tapume metálico que abundam em quase todos os quintais cascalenses. A rua assume aqui uma função de mera passagem deixando de marcar significativamente o carácter do local, facto que é acentuado pela cada vez maior necessidade de privacidade, que vai alterar toda a estratégia das relações de vizinhanças e, assim, reestruturar a concretização histórica do povoado.

No Monte Estoril, a ausência de construções foi motivo sobejamente suficiente para afastar dos primeiros edificadores todos e quaisquer receios de falta de privacidade, facto facilmente contemplável através dos muretes de baixa altura que circundavam as habitações. Por outro lado, a própria vivência social da época, fruto do enriquecimento abrasileirado de muitos burgueses lisboetas, criava a necessidade de promover a sociabilidade, facto que condicionou de modo perene as próprias características das ruas que tinham como principal função a de facilitar o acesso às novas edificações, mostrando, ao mesmo tempo, o esplendor de todas aquelas que ficavam na vizinhança.

As características das casas, bem como os pormenores que rodeiam a sua arquitectura, assumem assim um papel de verdadeiros documentos no que diz respeito à compreensão daquilo que foi a estrutura mental e social que esteve na origem do Monte Estoril. Os pequenos espanta-fantasmas, de ferro forjado e de formas arrojadas, muitas vezes aliados a janelas de águas-furtadas conjugadas com telhados de duas águas muito inclinados acentuando acentuando o seu carácter nórdico, mais não são do que características para serem admiradas do exterior, tanto mais que representavam a possibilidade de estas grandes famílias burguesas lisboetas usufruírem dos lucros que obtinham com as suas práticas comerciais e, assim, demonstrarem a aristocracia cascalense, que continuava a veranear em Cascais sem qualquer espécie de condições, que o seu poderio económico lhe permitia usufruir de excelentes condições de férias, muito embora não fossem bem recebidos nas praias da moda frequentadas pela Família Real e pela generalidade dos membros da corte.

Cascais mantinha nessa altura, praticamente todas as velhas estruturas que possuía muito antes de ser o local escolhido para o fim da época estival da corte. As casas, deterioradas por muitos anos de uso, e pelo completo desajustamento face às novas necessidades, só muito dificilmente se adaptavam às novas necessidades, sendo por isso bastante complicado, à grande aristocracia portuguesa, poder desenvolver umas férias na praia mantendo o estilo de vida que possuíam na capital. Pelo contrário, no Monte Estoril, a nova burguesia enriquecida, dada a facilidade que possuía na construção dos seus chalés, podia facilmente impor-se pela moda, aproximando-se assim daqueles que até aí tinham conseguido manter a supremacia do relacionamento da alta-sociedade portuguesa. Ramalho Ortigão, numa das suas mais conhecidas obras dedicadas ao acto de veranear, não deixa de acentuar que embora Cascais fosse a mais importante praia da Estremadura, possuindo até o palácio real, não deixava de sofrer com a falta de desenvolvimento urbano que a caracterizava (3): «Como povoação, Cascais é a mais importante das praias da Estremadura. É cabeça de concelho. O número dos seus fogos é de cerca de 1.700 - exactamente o mesmo número que existia há cem anos, o que prova que Cascais, se não tem prosperado, também não tem decaído durante o curso do último século». Tal facto é ainda acentuado pela estagnação que caracterizava os preços pedidos pelas habitações na vila de Cascais: «[...] A renda das casas, que se alugam com mobília e louça durante os meses de temporada de banhos, com quanto não seja absolutamente elevada, é ainda pouco menos do que o preço porque as mesmas casas se venderiam, se alguém as comprasse, há quinze anos» (4).

O contraste entre a velha aristocracia portuguesa, desde sempre acompanhando a corte e possuidora de genes que se ligavam directamente a vários episódios importantes da História de Portugal, estava patente em muitas ocasiões em longo deste verão, sendo de salientaro peso que tal diferença teve na forma como foi edificada a nova estância balnear do Monte estoril, e esta, em época subsequente, na mais jovem Estoril. É ainda Ramalho Ortigão que, nas suas “Praias Portuguesas”, muito ao estilo da literatura Nacional da época, melhor descreve esta disfuncionalidade social, responsável por episódios caricatos, divinamente relatados por Ferreira de Andrade na sua “Vila da Corte” (5) e que, pela sua importância na compreensão da ambiência e do enquadramento paisagístico do Monte Estoril, não hesitamos em transcrever: «As senhoras da burguesia destoam neste meio e não fazem bem em sujeitar-se ao contraste desse confronto, a não ser que não tenhamlevado as suas jóias, que não ponham senão vestidos velhos, que usem o mais simples dos penteados e que sejam despretenciosas e boas, - no qual caso todas as mulheres, qualquer que seja o seu nascimento e a sua categoria, são igualmente elegantes e distintas».

Esta necessidade de mostrar aquilo que possuíam, valorizando assim a posição recentemente assumida em desprimor daquilo que eram as bases sólidas da aristocracia de então, demonstra de sobremaneira as tentativas sucessivas que esta classe social desenvolveu com o intuito de se aproximar da elite social do País. Esses esforços, verificáveis quotidianamente através dos ornamentos e das jóias que procuravam ostentar, jóias essas que, na grande maioria dos casos não eram acessíveis à maior parte dos membros da aristocracia depauperada, causavam assim reacções cada vez maiores de encerramento dentro dos diversos grupos, que se protegiam desta forma das investidas cada vez mais audaciosas que eram promovidas pela burguesia.

Em termos mais simbólicos, era nas casas que se podiam encontrar os maiores vestígios da transformação social verificada em Portugal naquela época, sendo que, de entre todas as povoações deste País, o Monte Estoril é, com toda a certeza, aquela que maiores potencialidades de demonstração possui. as suas edificações, ornamentadas excessiva e excentricamente, promoviam o aparecimento de uma ambiência nova, facto que causou grandes transtornos à elite social vigente. As casas do Monte Estoril, principalmente aquelas que foram construídas com intuitos puramente de veraneio, são assim a face visível de uma terrível luta fratricida, que, que culminou em Cascais na tomada de poder por parte das forças revolucionárias republicanas, fruto de um exacerbado ódio criado no seio de uma dicotomia que separava o Monte de Cascais, e depois do Estoril e das restantes povoações da costa litoral deste concelho. Em relação a esta luta, é ainda Ramalho Ortigão quem na obra citada, melhor descreve a forma como se procurava a todo o custo, furar as apertadas teias da modernidade social, servindo-se de um saber instituído, mas também utilizando os estratagemas que derivavam na recente ascensão financeira do grupo: «Os homens novos que quiserem fazer o que se chama a entrada no mundo, a investtidura social, devem procurar esta praia para abrir a brecha, para penetrar na praça. Aconselhar-lhes-emos nesse caso que não emitem os homens que acompanham essas senhoras e são seus pares. Não, caro leitor inexperiente e amigo! Se quiseres ser recebido nesta sociedade portuguesa - em que se pegam os touros, em que se toca a guitarra, em que se dança o fado - não toques o fado, não pegues os touros, não bebas, não fumes, não deites para trás o chapéu dando-lhe um piparote na aba. Tudo isso fazem os fidalgos, mas tu, burguês, nunca parecerás um fidalgo se o fizeres. Parecerás apenas um moço de cavalariça e nenhuma dessas senhoras consentirá em que lhe apertes a mão. Não tenhas também muito espírito, nem maneiras muito acentuadas, nem opiniões muito expressivas. Sê o mais que possas fácil, complacente, obscuro, nulo. Vai à missa, lê o teu ripanço, está de joelhos na igreja, confessa-te uma ou duas vezes, veste-te como um padre ou como um saloio, dá-te um ligeiro ar idiota, inofensivo, pascácio. Terás um sucesso infalível. As senhoras receber-te-ão com agrado, como um auxiliar que não que não compromete, como um passivo, como um neutro. Apresentar-te-ão, rindo, às suas amigas. Pedir-te-ão os pequenos serviços suaves que se encarregam aos procuradores e aos capelães: que chegues uma cadeira, que vás buscar as luvas, o lenço ou o chapéu de sol que esqueceu, que acompanhes esta, que vás chamar aquela, que deites no correio uma carta para aqueloutra, etc.; terás uma incumbência de responsabilidade nos pic-nics, nos passeios em burro, nas soirées de subscrição; serás o ponto ou o contra-regra, o comparsaou o criado que traz a carta nas representações de salão. Converter-te-ás finalmente num personagem que será lembrado, requerido, utilizado. No ano seguinte àqueleem que por estes meios te ouveres introduzido na sociedade, poderás então tocar guitarra, enrolar nos dedos, em pleno clube, diante das senhoras, um pestilento cigarro de papel, arrojar o chapéu da testa para a nuca com o piparote fadista, e falar o calão - porque terás tomado posse, e principiarás a exercer o teu lugar de janota nacional, encartado e inamovível».

A constante luta travada entre os membros da burguesia endinheirada portuguesa e a velha e empobrecida aristocracia de cepa, tiveram o seu pontomais fulgurante na velhíssima vila de Cascais, que assistiu, em poucos anos, a uma radical transformação urbanística. Para responder à chegada da corte, muitos houveram que resolveram escolher Cascais para estância de veraneio, e esses, quando possuíam as posses necessárias para tal efeito, não hesitavam em construir as casas ao estilomais arrojado de então, servindo-se dessa construção e do seu esplendor para alicerçar a sua posição no espectro social nacional. É esse o caso, por exemplo do Palácio dos Duques de Palmela, construído de caordo com elevados parâmetros de qualidade e subordinado à experiência de arquitecto requintado e muito escolhido, com o intuito de fazer frente a uma ostentação que a coroa e a rainha dificilmente conseguiram suportar no seu mal-acabado palácio real adaptado da velha fortaleza de Cascais.

O Monte Estoril, em momento subsequente vai servir de resposta desta nova classe burguesa ao atrevimento social da aristocracia, utilizando para tal os recursos que possuia em maior quantidade: dinheiro, ideias inovadoras e espaço livre.

Foi sobretudo a conjugação deste capital imediato com a liberdade espacial que caracterizava o velho Pinhal da Andreza, que condicionou o aparecimento de uma povoação baseada em novos parâmetros urbanísticos, onde as dificuldades geográficas naturais, de acordo com o projecto de Carlos Anjos, se tornariam um incentivo essencial para a criação de uma ambiência que não existia em mais nenhuma parte do mundo. A construção do lago, e do aqueduto que traria a água da sua quinta de Vale de Cavalos, serve assim de exemplo para demonstrar quão importante era, para a época em questão, a ostentação da superioridade burguesa nacional, dispondo de verbas de valor e de força empreendedora, conseguindo tornar um desinteressante pedaço de terra, em mais um quase celestial povoado cascalense. O cuidado posto neste empreendimento foi de tal ordem, que o próprio Carlos Anjos previu com todo o cuidado o enquadramento necessário à criação de um ambiente novo, preservando as espécies vegetais de maior valor e misturando-lhes os vestígios de outras espécies exóticas trazidas de diversas partes do mundo O ponto a que chegou esse projecto foi tão profundo que o seu mentor previu ainda a cobertura das ruas com areia, como forma de promover a beleza e limpeza do sítio, bem como as aves que vagueariam por entre as ramagens viçosas e fulgurantes das espécies para aqui transportadas. O constante chilrear de pássaros mais ou menos conhecidos, misturado com o esplendor vegetal, completaria assim o conjunto fornecido pelas diversas edificações que possuiam também elas características que as tornavam únicas em todo o País.

A complementar estes aspectos urbanísticos a Sociedade do Monte Estoril, no mesmo projecto, proibiu a construção de muros de grandes dimensões, complementando tais directivas com a obrigatoriedade da recolha de pedras das praias Monte Estorilenses para a sua construção. As copas das árvores, tocando-se sob o azul do céu, em conjunto com os muros rústicos de pedra natural, promoveriam assim a tal envolvência espacial que a burguesia necessitava para transformar a sua estância de veraneio num local onde a qualidade de vida fosse, de facto, altamente apetecível.

Se no Monte Estoril foi possível criar uma povoação com estas bases, e que de facto se tornou única no mundo, tal se ficou a dever, em primeira análise ao envolvimento natural que lhe esteve na origem, sendo que a completa liberdade espacial, mesclada com as dificuldades geográficas que existiam em grande quantidade, promoveria neste sítio o nascimento de uma simbologia dinâmica e definitiva, transformando o Monte em algo de único que o devir histórico cascalense não tem conseguido preservar.








NOTAS:


(1) AGOSTINHO, Santo, Confissões de Santo Agostinho, Porto, Livraria Apostulado da Imprensa, Junho de 1984, pp. 303-304.

(2) COLAÇO, Branca de Gonta e ARCHER, Maria, Memórias da Linha de Cascais, Lisboa, [S/N], 1943.

(3) ORTIGÃO, Ramalho, As Praias de Portugal, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1943.

(4) Ob. Cit.

(5) ANDRADE, Ferreira de, Cascais - Vila da Corte, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964.

As Aldeias Rurais e o Futuro de Cascais





Apesar de serem poucos aqueles que as conhecem, as aldeias de génese rural existentes no Concelho de Cascais possuem um potencial turístico e cultural incontornável. A degradação paulatina de que têm sido alvo é completamente descabida num espaço que pretende ver sedimentada a denominada “vocação turística”, e a sua recuperação exige uma intervenção imediata e consequente. A sua atractividade, no contexto de uma urbanidade que tem vindo a perder a identidade cultural, é essencial para que Cascais possa readquirir a qualidade de vida de outros tempos.

Já vão muito longe os tempos em que se consideravam os resquícios da ruralidade portuguesa como exemplos malditos de uma actuação política que se dizia que tinha feito estagnar o País. Hoje, sobretudo nos países mais desenvolvidos, o que ainda resta de uma existência ruralizante e tradicional é aproveitado e rentabilizado turística e culturalmente.

A raiz cultural do nosso País, marcada de forma eminente pelo cunho de um tradicionalismo ligado aos trabalhos do mar e da agricultura, não pode alhear-se dessa realidade.

Contrariamente ao que parece mostrar a intervenção das entidades oficiais ligadas às Autarquias e às instituições governamentais com responsabilidades na área do Ordenamento do Território, da Cultura e do Turismo, o reconhecimento, a recuperação e a promoção dos resquícios da nossa identidade rural são actividades fundamentais para a criação de uma oferta turística que permita a Portugal enfrentar com dignidade os desafios novos que lhe surgirão ao longo dos próximos tempos.

De facto, impedido de produzir em termos agrícolas, incapaz de produzir industrialmente, e marcado em permanência pelo jugo implacável do desemprego, restam poucas saídas para que Portugal possa sustentar-se económica e financeiramente de forma condigna. O sector do turismo, principalmente num Concelho como o de Cascais, transformou-se no fulcro de todo o desenvolvimento, dele dependendo o comércio, os serviços e mesmo a gestão urbana do território.

Aldeias antigas como as da Charneca, Birre, Areia, Torre, Malveira da Serra, Janes, Zambujeiro, Atrozela, Alcabideche, Cabreiro, Murches, Livramento, Adroana, Pau Gordo, Galiza, Murtal, Caparide, Zambujal, Tires, Mato Cheirinhos, Trajouce, Conceição da Abóboda, Polima, Rana ou Rebelva, são apenas alguns exemplos de povoações que possuem ainda bem vivas as memórias de uma ruralidade que alicerçou toda a nossa História municipal. Possuem também, ainda com elevado potencial turístico que se encontra em risco eminente de desaparecer, restos únicos de habitações, fontes, chafarizes, portais, moinhos, fornos de pão e de cal, para além de um enorme manancial de lendas e de histórias locais, que noutros países e concelhos são atractivo turístico essencial e incontornável.

Em Cascais, perdidos nas faldas confusas de um alárvico e permanente apelo às novas construções, os resquícios existentes desta ruralidade perdida estão votados ao abandono e ao esquecimento. Exemplares únicos de casais saloios e rurais, com estruturas construtivas integráveis naquilo que é costume designar como “arquitectura chã”, vão sendo substituídos por prédios de concepção duvidosa e de assumida negação da tradicionalidade local.

Com o desaparecimento destes vestígios, e com a consequente fragilização da nossa Identidade Municipal, fica também posta em causa a vocação turística de Cascais e a possibilidade de voltarmos a ser o destino de excepção de outros tempos.

O turista moderno, culto e bem preparado, já não quer chegar a Cascais para passar cinco ou seis dias estirado ao sol. Hoje, numa lógica de bem-estar social e cultural, o ambiente envolvente, a tradicionalidade, o tipicismo, e a aprendizagem social, são partes importantes na promoção turística dos destinos europeus.

O Concelho de Cascais, apesar de todas as vicissitudes por que tem passado, possui as condições necessárias para encetar os esforços que tornarão possível este desiderato, sempre na certeza de que apostar na tradicionalidade daquilo que resta das nossas aldeias rurais, é garantir o futuro do turismo, do comércio e dos serviços, e o emprego e a estabilidade social dos munícipes cascalenses.

Nas aldeias rurais cascalenses, mais do que num sol e numa praia totalmente envolvidos em betão, reside grande parte do potencial que alicerçará a nossa vocação, oferecendo a todos um futuro socialmente saudável e economicamente sustentado.





segunda-feira

Abu Zaid Abd-Ar Rhaman Ibne Mucane: O Início de uma Longa História em Alcabideche (Cascais)





Existe em Alcabideche, a escassos metros de conhecido Cascaishopping, um monumento que a muitos passa despercebido.

Composto por uma laje comemorativa com uma citação política e por duas grandes pedras colocadas na vertical, teve em tempos um idílico cenário campestre do qual sobressaíam dois dos mais antigos moinhos de vento penisulares.

O monumento, dedicado ao grande poeta Árabe Ibne Mucane, natural de Alcabideche, marca no tempo um dos mais interessante, pujantes e mal conhecidos períodos da nossa História comum: os Séculos X e XII da nossa era, e a ocupação Árabe da Península Ibérica.

Mas quem foi Abu Zaid Abd-Ar Rhaman Ibne Mucane?

Segundo as fontes, e tomando em linha de conta o que actualmente se conhece da História desta região, Ibne Mucane terá sido, o primeiro autor a cantar os moinhos de vento da Europa.

Como do conhecimento geral, quer pela tecnologia empregue, quer quer pelos recursos que eram necessários para a sua construção, quer ainda pela extrema importância que têm em termos do incentivo à produção, os moinhos de vento traduzem de sobremaneira o estado de desenvolvimento de uma regão.

A importância de Ibne Mucane está assim intimamente ligada à introdução de uma série de inovações técnicas e de novos conhecimentos na estrutura produtiva de génese rural do extremo ocidental da Península Ibérica, que a partir da chegada dos ocupantes Árabes veio influenciar de sobremaneira a vida futura de toda a Europa medieval.

Em termos práticos e imediatistas, os versos de Ibne Mucane têm, no entanto, um outro significado. Se por um lado são eles os primeiros a cantar a introdução dos moinhos de vento em solo Europeu, com todo o desenvolvimento que lhe está implícito, por outro, traduzem também a realidade político-social que se fazia sentir na zona mais rural do actual Concelho de Cascais.

A falta gritante de água e uma importante componente cerealífera na produção agrícola do concelho estão bem patentes nas palavras de Ibne Mucane:


Ó tu que vives em Alcabideche
Oxalá nunca te faltem
Nem grãos para semear,
Nem cebolas, nem abóboras.
Se és um homem de decisão
precisas de um moinho
que funcione com as nuvens
sem necessidade de regatos.


Para além desta referência directa à falta de água, que deve ter sido uma das mais prementes preocupações constante a todos os agricultores de Alcabideche, Ibne Mucane refere ainda outros problema com que se debatiam os habitantes desta zona interior do actual Município de Cascais:

A minha terra é boa... mas o mal
é que se o ano é bom, nunca dá mais do que
vinte carregos, vinte e tal de cereais.
E quanto mais promete e mais cuidados
eu lhe dispenso em sonhos mais me iludo
porque então, javalis dos despovoados
surgem famintos, e devastam tudo!


Assim, muito embora a terra não fosse de facto de muito má qualidade, os javalis que existiam nas redondezas contribuíam para a destruição das colheitas e para o consequente empobrecimento da população.

Ibne Mucane, embora possua, com o intuito de preservar a sua memória, um monumento na terra que o viu crescer, para além de uma escola com o seu nome, não é de facto um poeta conhecido, nem para os naturais de Cascais nem para todos aqueles que se interessam pelo estudo de um passado histórico que urge preservar e que nos fornece pistas essenciais para a definição da nossa memória colectiva.

Os seu versos, para além de traduzirem toda uma realidade que se encontra subjacente a um período mal conhecido em termos historiográficos, conseguem ainda trazer dados novos para a compreenão da importância real que teve a civilização Árabe no crescimento e no desenvolvimento da Europa Medieval.

Quando se fala em Árabes, pensa-se naturalmente nos topónimos iniciados com AL, esquecendo-se tantas vezes a tecnologia, os usos e costumes, e a maneira inovadora de pensar, que contribuiu decisivamente para a criação de duas maneiras distintas de encarar a existência.

Ibne Mucane, acima de tudo, merece ser lembrado como um natural de Alcabideche, que deixou atrás de si, as condições necessárias para a compreensão do período em que viveu, e cumpre a Cascais e aos seus actuais ocupantes, a tarefa de não deixar cair no esquecimento toda a essência do seu contributo.


sexta-feira

Vítor Adrião: A Ressureição de Portugal




Como resultado da segunda edição do "Curso Livre de Introdução à Portugalidade", que decorreu na ALA - Academia de Letras e Artes com o apoio da TOW - Travel Our Way, foi apresentado publicamente o livro "A Ressureição de Portugal" da autoria do investigador Vítor Manuel Adrião.

A cerimónia, em que participou o edil de Cascais António Capucho, foi presidida por António de Sousa Lara que sublinhou o interesse da obra no contexto de um Portugal abatido por uma onda de pessimismo que nada tem a haver com o carácter expressivo da História Pátria.

Na sua intervenção, o autor Vítor Adrião explicou o contexto em que decorreu esta segunda edição do curso, sublinhando que a presente obra é um testemunho da perenidade de uma Nação possuidora de um forte cunho sagrado e que, por isso, está condenada a ser pujante.

Contrariando todos aqueles que se tem dedicado a criticar, esfoliar e denegrir Portugal, esta "Ressureição de Portugal" é um testemunho franco, sapiente, sentido e sagrado da Alma deste País.

Mais uma obra-prima de Vítor Manuel Adrião, comprovando uma vez mais que, apesar das críticas e das polémicas em que o tentam envolver, é com toda a certeza um dos maiores vultos da Portugalidade no tempo actual.

quinta-feira

Os Banhos da Poça em São João do Estoril




Pouco tempo depois da realeza e da alta aristocracia se instalarem nas zonas nobres de Cascais e do Monte Estoril, a burguesia procurou um local para os seus tempos de veraneio. Entre a Poça e a Cadaveira, junto a um grupo de modestas habitações, nasceu com pompa e circunstância a povoação de São João do Estoril O edifício dos Banhos da Poça, ainda hoje existente, é o ex-libris principal daquele que foi o primeiro passo para a construção da Costa do Sol.

Quando Luís Filipe da Matta e Carlos Tavares, em 1890, constituíram uma sociedade para explorar os recursos hídricos da zona da Poça, onde era possível encontrar águas com propriedades medicinais notáveis, que curavam as doenças de pele e o reumatismo, mal imaginavam o contributo que estavam a dar para a constituição daquilo que hoje é commumente designada como a Vocação Turística do Concelho de Cascais.

De facto, e apesar desta iniciativa ter surgido como uma espécie de resposta burguesa à aristocrática Companhia Monte Estoril, que algum tempo antes dera início à urbanização do antigo Pinhal da Andreza (hoje a localidade do Monte Estoril), o núcleo habitacional que envolvia os Banhos da Poça já existia há algum tempo. No entanto, pela condição social e política dos seus habitantes, e também pelo carácter pouco ostentatório das suas casas, era considerado espaço de importância inferior no contexto da vivência social portuguesa do final do Século XIX.

Muito embora as águas da Poça fossem conhecidas desde há muito, existindo notícia do seu aproveitamento formal desde meados do Século XVIII, quando ali se construiu um modesto balneário, somente com Luís Filipe da Matta e o seu sócio se procedeu ao seu correcto aproveitamento. No início da última década do Século, edificou-se no local do antigo balneário um moderno edifício torreado e com ameias, ao jeito do carácter romântico que caracterizava a arquitectura de então. Interiormente, possuía grande qualidade terapêutica e condições logísticas que o colocavam entre os melhores do Mundo inteiro. Os quartos de banho com tinas de mármore, onde os doentes desenvolviam a terapêutica prescrita pelo Dr. Carlos Tavares – discípulo do famoso médico Sousa Martins – levavam longe a fama da qualidade daquele espaço, que possuía ainda um majestoso salão com 200 m2, um amplo estrado com um piano e uma mesa de bilhar e dois terraços com magnífica vista sobre a Baía de Cascais. De acordo com notícias da época, são milhares os visitantes que anualmente procuram a localidade de São João do Estoril.

Foi precisamente com a criação dos Banhos da Poça, empreendimento digno de uma nota especial pelo cuidado que os seus promotores colocaram na sua idealização, na sua concepção e na sua promoção, chegando a editar opúsculos de grande qualidade onde se publicitavam as virtudes das águas que utilizavam, que a povoação envolvente começou a crescer.

No dia 22 de Junho de 1890, como relatam Branca Colaço e Maria Archer nas suas “Memórias da Linha de Cascais”, o Presidente da Câmara Municipal de Cascais – Jaime Artur da Costa Pinto – inaugura formalmente a povoação. Para celebrar o acontecimento, realizou-se no Chalet Brito uma grandiosa festa, que reuniu a grande maioria dos habitantes da recém criada São João do Estoril. De acordo com Raquel Henriques da Silva, que teve acesso a fotografias do evento, o acto decorreu com carácter solene, tendo mesmo pavilhão real para acolher o Rei Dom Carlos e a sua esposa a Rainha Dona Amélia.

Pouco tempo depois, a viúva de António Marques Leal dá início à construção “por sua conta”, da estrada de ligação do apeadeiro de São João à zona da Cadaveira, dando ensejo à criação daquele que depressa se tornará o mais importante núcleo construído da moderna localidade.

Para a já mencionada investigadora Raquel Henriques da Silva, São João fica a dever o seu crescimento à abnegada intervenção de um grupo de endinheirados beneméritos que ali se instalou. A suas expensas, e procurando ultrapassar as dificuldades logísticas e financeiras do município cascalense, homens como Luís Gonzaga Reis Torgal, Manuel José Martins Contreiras, Watts Garland e Alfredo Júlio Brito, foram urbanizando e embelezando a localidade, a eles se ficando a dever grande parte dos modernos arruamentos de São João, bem como a colocação do mobiliário urbano que transformou a face da povoação.

Sem controle oficial das entidades competentes, e crescendo ao ritmo dos gostos pessoais dos seus ilustres proprietários, São João do Estoril vai conhecer assim uma enorme diversidade de estilos e uma originalidade construtiva que dificilmente encontra paralelo no território português, transformando aquele espaço num centro urbano interessante e completo.

Apesar de os Banhos da Poça terem sido abandonados pouco tempo depois, passando mais tarde à posse da Santa Casa da Misericórdia de Cascais, a quem continuam a pertencer, foram eles que despertaram a atenção dos munícipes daquela época, transformando-se numa espécie de cadinho que contribuiu para o florescimento do turismo português.

Muito embora sejam hoje pouco conhecidos dos cascalenses, e quase totalmente desconhecidos dos muitos turistas que permanentemente nos visitam, os Banhos da Poça são indubitavelmente uma das mais valiosas peças do património arquitectónico cascalense.

sexta-feira

Cascais Natura: Excelência Ambiental e Pedagógica no Parque das Penhas da Marmeleira (Murches)







A Câmara Municipal de Cascais, através da empresa municipal Cascais Natura, inaugurou o novo parque urbano das Penhas da Marmeleira, em Murches.

A iniciativa, que surge na sequência de um ambicioso projecto de requalificação do Parque Natural de Sintra-Cascais, integra-se num conjunto de obras que começaram com a reflorestação da zona a nascente do Zambujeiro, a criação do Parque da Pedra Amarela, e a recuperação ambiental e paisagística da Quinta do Pisão.

No espaço em questão, com uma beleza paisagística impossível de descrever e até agora atulhado com milhares de toneladas de lixo que ilegalmente era ali depositado, a edilidade criou uma infraestrutura de excepção. Gerando acessibilidades para que os Cascalenses possam aceder àquela zona (que são muito poucos os que até agora a conheciam), a assim reforçar os laços de cidadania essenciais à criação da nossa identidade municipal, o Parque da Marmeleira possui ainda um percurso interpretativo verdadeiramente deslumbrante.

Para as crianças, um parque infantil inovador e de cariz ecológico, enquadrado numa paisagem de forte pendor educativo, é motivo mais do que suficiente para incentivar o usufruto, o interesse e o respeito pela natureza, possuindo um impacto de tal maneira evidente que com toda a certeza será um importante contributo para a gestação da próxima geração de Cascalenses.

Relembro com satisfação, as palavras que a Fundação Cascais publicou em 1999 quando se iniciou o processo de revisão do Plano Regulamentar do Parque Natural de Sintra-Cascais, que sugeriam a transformação dos depósitos de entulho e dos canais verdes ao longo das ribeiras, em percursos interpretativos e em zonas verdes com acessos facilitados à população. Considerávamos, nessa altura, que esse seria o único caminho em direcção à criação de um Cascais socialmente saudável e coeso, no qual Identidade e Cidadania fossem a pedra fulcral na consolidação dos laços comunitários.

Com este projecto, e de forma verdadeiramente excelente, a Câmara Municipal de Cascais e principalmente a agência Cascais Natura, não só cumpriram esse desiderato como o fizeram de uma forma que dignifica Cascais e valoriza aquele que é, por exclusão de partes, um dos últimos redutos de qualidade que o Concelho ainda pode explorar.

Dadas as suas características; qualidade de construção; enquadramento; beleza paisagística; riqueza ambiental; diversidade biológica; etc. quase me atreveria a sugerir que a visita passasse a ser de inclusão obrigatória nos planos de estudo das escolas do Concelho...

Parabéns aos promotores da iniciativa!

domingo

Joaquim Baraona Homenageado na Toponímia de Cascais




Num acto de profunda justiça e de grande significado para o Concelho, a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia de Cascais homenagearam o Comendador Joaquim Baraona através da atribuição do seu nome a uma das mais emblemáticas artérias da Vila. Antigo Provedor da Santa Casa da Misericórdia, instituição à frente da qual imaginou, planeou e concretizou um programa inovador e muito ambicioso nas áreas do apoio social e da saúde, Joaquim Baraona foi ainda figura de enorme importância nas áreas do empreendedorismo, turismo, diplomacia, associativismo, cultura e política, dinamizando inúmeras instituições em Portugal e no estrangeiro. Na actualidade, e mantendo o dinamismo e a vitalidade de sempre, o Comendador Baraona continua a ser uma das mais activas e empenhadas personalidades em várias instituições, academias, associações e colectividades de Cascais, à frente das quais muito tem contribuído para fomentar o bom-nome do Concelho e do País e para consolidar a qualidade de vida de todos aqueles que por aqui habitam ou trabalham. Com a atribuição deste topónimo, que será testemunho perene da importância que Joaquim Baraona teve e tem para Cascais, fica resposta a justiça que a revolução de 1974, por motivos que estão muito longe da nobreza das ideias daqueles que sonharam com a alteração do regime, havia posto em causa.