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quinta-feira

O Comércio Tradicional e a Dinâmica Urbana de Cascais





Marcado por um percurso histórico semelhante àquele que traduziu o desenvolvimento urbano da localidade, o comércio cascalense foi, durante mais de seis séculos, um dos mais representativos repositórios da capacidade e do empreendimento dos munícipes de Cascais.

Totalmente dependente das oscilações conjunturais, bem como dos ciclos sempre repetidos e das variações estruturais do País, o comércio dito tradicional apresenta um modelo de penetração no espaço que está em permanente dependência das condições de vida das populações.

O que isto quer dizer, em termos da existência prática desta actividade, é que a prosperidade ou o declínio do comércio tradicional, ao contrário do que acontece com outras actividades, depende mais das condições que estrutural e urbanisticamente lhe são oferecidas do que da sua própria vontade e capacidade de existir. Ou seja, o comerciante resulta do meio que o envolve, e as suas características intrínsecas são, assim, o melhor espelho da sociedade do seu tempo.

Por tudo isto, e no que a Cascais diz respeito, parece difícil determinar com rigor e exactidão aquele que foi o devir histórico do comércio local.

Por um lado, no decorrer do período que vai desde 1364 até 1870, ou seja, desde a subida à condição de município autónomo de Sintra, até à chegada da Corte, Cascais é um território que de caracteriza por uma oscilação permanente nas suas estruturas político-sociais e, consequentemente, também nas suas principais actividades.

A Vila Piscatória dessas épocas, marcada sobretudo pela sua relação de proximidade ao mar e a tudo o que a ele diz respeito, era também uma espécie de guarda avançada de Lisboa, aqui se mantendo, sempre com características diferentes em virtude da época ou épocas a que nos reportamos, uma série de aquartelamentos que trazem exigências próprias à povoação e à sua população. Por outro lado, era também o ponto de chegada de uma série de produtores agrícolas e hortícolas que, oriundos do termo rural do Concelho ou até de outros concelhos dos arredores, aqui vinham vender, trocar e exportar para Lisboa grande parte da sua produção.

A um tempo, Cascais é porto de pesca, com indústrias relacionadas com essa indústria e com o pescado comprovadas pelos menos desde a época romana e, simultaneamente, espaço de instalação de contigentes militares. Por outro lado, é também cabeça de um fértil território de génese rural que utiliza os seus areais e as condições ímpares da sua Baía como ponto privilegiado para despacho de produtos para a Capital.

Esta pluralidade de vocações, cada qual com as suas características, exigências e expectativas é assim o principal cenário que nos permite compreender a sua actividade comercial que, mais do que o resultado dos decretos e da legislação Nacional, se pautava pela vontade e, mais ainda, pela necessidade de responder às necessidades da comunidade aqui sedeada.

Por tudo isso, e sobretudo porque a linearidade processual está sempre afastada da actividade comercial, o comércio cascalense entre 1364 e 1870 é o resultado directo da conjugação entre as forças produtivas de Cascais e do seu termo, a pesca e a agricultura, e as necessidades de fornecimento de bens às forças militares ou militarizadas existentes no seu território.

Por outro lado, e embora com carácter incipiente, há a registar ainda uma influência positiva exercida como consequência do seu posicionamento estratégico durante a epopeia marítima portuguesa, pois era aqui que as naus e demais embarcações envolvidas nos processos comerciais de além mar, faziam a aguada depois de saírem de Lisboa e antes de enveredarem pelas difíceis rotas oceânicas. Como é evidente, o fornecimento das últimas parcelas de víveres frescos e de água potável fazia-se em Cascais, e nada mais óbvio do que partir do princípio de que esses produtos resultavam das actividades agrícolas locais.

Assim, e a título de conclusão provisória, é lícito afirmar que durante o período em questão, o comércio de Cascais se caracterizou sobretudo pela sua extrema dependência em relação à política nacional. Os períodos de maior instabilidade, com o aumento dos contingentes militares sediados em Cascais, fazia aumentar as necessidades de fornecimento de víveres e dos demais apoios. Logo, fazia aumentar também as expectativas comerciais locais. Os períodos de maior estabilidade, significando um decréscimo do número de tropas aqui sediadas e, logo, uma diminuição substancial da procura comercial, traduziram-se em menor pujança do comércio local.

Durante os anos de maior actividade de descoberta e de comércio internacional, esse dependência esbateu-se um pouco, mercê da já referida relação existente com a aguada dos navios, e com a assumpção do papel de guarda avançada de Lisboa. Apesar de tudo, implicações de carácter legislativo que impediam carregamentos e descarregamentos fora do Porto de Lisboa, foram surgindo amiúde, o que comprometia o fluxo de mercadorias e a prática comercial nos portos circundantes e, nomeadamente, também no de Cascais.

Embora não existam fontes documentais que comprovem directamente e com exactidão estas asserções, existem vestígios de outra índole que asseguram indirectamente o quadro que acabámos de traçar.

Em termos urbanísticos, por exemplo, é visível a enorme dependência que existe entre o crescimento de Cascais e as necessidades de fornecimento à Capital e aos contigentes militares aqui estacionados. Os períodos de mais conturbação são precisamente aqueles em que se regista um maior fulgor construtivo; e, em contrapartida, os de maior pacificação, são aqueles que se traduzem em Cascais por uma estagnação construtiva acrescida (1).

Com significante incidência na taxa populacional de Cascais, que oscilou sempre ao sabor das vicissitudes políticas Nacionais, o comércio local caracterizou-se quase sempre pela sua génese eminentemente rural. As principais actividades comerciais que existiam em Cascais eram, durante este longo período, aquelas que se prendiam com o acesso aos bens essenciais, ou sejam, a compra e venda de produtos alimentares e, de forma complementar, os serviços associados a uma existência urbana. Os alfaiates, tanoeiros, barbeiros e sapateiros, partilhavam a clientela com serviços relacionados com a construção e a reabilitação de construções. De pedreiros a ladrilhadores, passando por calceteiros, carpinteiros e demais profissões relacionadas com este sector, Cascais possuiu sempre uma panóplia de oferta comercial e de serviços que lhe permitiu manter-se como um local bem provido de tudo aquilo que era essencial à vida quotidiana dos seus habitantes.

No entanto, e apesar de tudo, a sua extrema dependência em relação a flutuações conjunturais externas, aliada à grande proximidade relativamente a Realeza Sintrã, e à Capitalidade de Lisboa, que se afiguravam como atractivos fundamentais ao estabelecimento de eventuais novos promotores comerciais, fez com que Cascais se mantivesse sempre como uma pequena Vila Piscatória, sem grande relevo na zona envolvente.

Quando em 1364, o Rei D. Pedro I concedeu Foral a Cascais, libertando assim esta Vila do jugo administrativo de Sintra, verifica-se que existe um especial cuidado na defesa dos interesses dos produtores locais. Para além dos pescadores, que tiveram uma palavra importante na determinação das prerrogativas de que iria gozar o novo Concelho, também os produtores agrícolas e hortícolas beneficiaram de importantes isenções fiscais e de benefícios que promoveram a produção interna.

Por outro lado, é também digna de uma nota especial, a atenção particular que o Foral atribuído a Cascais dispensa às restantes produções que, nessa época longínqua, podem ser consideradas como a génese da actividade comercial. Desde as louças até ao gado, passando pelos escravos, pela cal, pela pedra, pela cera, pelo mel, pelos metais e pelos tecidos, o Foral Cascalense atribui incentivos que, embora semelhantes àqueles que são oferecidos a outros municípios que recebem a sua carta na mesma época, denotam um cuidado especial na promoção das actividades que enquadram a actividade comercial.

Pode por isso dizer-se, sem sombra de dúvida, que o embrião do comércio cascalense pode encontrar-se nos primórdios da sua municipalidade, usufruindo dos benefícios e das regalias constantes na sua Carta de Foral. Apesar de a produção e a compra e venda de produtos se ter mantido sem grandes transformações até ao último quartel do Século XIX, o que é natural se pensarmos que o comércio depende sempre das condições urbanas, sociais e comunitárias do espaço em que se insere, não deixou de ter sempre uma sólida posição no contexto económico e financeiro da Vila de Cascais.

Mas todo este quadro mudou drasticamente a partir de 1870.

Com a chegada da Corte durante o período final do estio, vieram para Cascais uma série de famílias de renome Nacional que transformaram a Vila numa das mais apelativas estâncias de veraneio de Portugal.

A instalação deste novo contigente populacional, inicialmente de carácter muito precário, mas progressivamente cada vez mais evidente, alterou radicalmente os equilíbrios comerciais de Cascais, trazendo novas exigências de qualidade e de diversidade, mas também um mercado muito mais amplo que tornou mais apelativo o estabelecimento na Vila (2).

É neste período áureo, aliás, que Cascais se assume como povoação de vanguarda no contexto Nacional, pois foram aqui inauguradas uma série de novidades que, mais do que popularizar esta Vila como destino de excepção, vão trazer para o burgo um cunho de modernidade e progresso que a transformam num espaço privilegiado para o empreendedorismo comercial.

Esta transformação, visível também ela no conjunto edificado da Vila de Cascais, que numa primeira fase somente se adaptou de uma forma parcial para receber os novos habitantes durante dois ou três meses por ano, e só posteriormente assistiu ao surgimento de novos edifícios e espaços que traduziam o investimento em habitações condignas por parte das mais importantes famílias do Reino, teve implicações drásticas em todo o edifício económico e financeiro do Concelho.

Por um lado, dentro da Vila de Cascais, surgiu um enorme conjunto de estabelecimentos comerciais e de prestadores de serviços que procurava dar resposta ao aumento da procura que resultou do crescimento significativo da população. Por outro, na generalidade dos espaços rurais do território concelhio, assistiu-se ao florescimento da actividade agrícola e hortícola pois, ao contrário do que acontecia até aí, a criação de um mercado pujante situado no centro da própria Vila, acabou por facilitar o escoamento dos produtos e o consequente aumento do lucro (3).

Apesar de não existirem dados efectivos que permitam aferir numericamente este aumento de actividade comercial, uma vez que muitos dos empreendimentos surgidos aparecem também de forma algo volátil como extensões de firmas e de sociedades constituídas em Lisboa que vão dando os primeiros passos de um processo longo de estabelecimento no Concelho de Cascais (4), o aumento do investimento no nosso Concelho foi fulgurante e contribuiu para uma alteração profunda nos costumes, nos hábitos e na estruturação social da Vila e do seu termo.

No conjunto das actividades comerciais que mais cresceram na Vila de Cascais no período que se situa entre 1870 e 1910, merece uma referência especial o ramo relacionado com a construção e as obras.

De facto, num espaço urbano em evidente crescimento, no qual assumia primordial importância a capacidade de oferecer condições de alojamento que estivessem de acordo com a relevância social dos novos habitantes cascalenses, os estabelecimentos que forneciam material ligado a essa indústria conheceram tempos de grande pujança e crescimento.

É de notar que, no período subsequente, ou seja, no período mais conturbado que caracterizou o início da primeira república e que representou um momento de declínio para Cascais, são precisamente os comerciantes relacionados com este ramo que melhores condições possuem para ultrapassar a crise e para se manter em funcionamento a nível local. Nessa época, na qual instituições variadas procuraram criar condições e incentivos que permitissem ao comércio local prosperar, são precisamente estes comerciantes quem prepara as melhores montras e quem dá mostras de maior longevidade (5). São também eles que demonstram possuir um espírito mais empreendedor e inovador e, consequentemente, uma maior capacidade de investimento nos seus negócios em Cascais, conforme se pode deduzir dos dados existentes (6).

Depois de implantação da república, com o consequente afastamento da Corte da Vila de Cascais, alteram-se novamente as condições de prosperidade e desenvolvimento que vigoravam desde 1870.

A precariedade política que caracterizou o País, extensível ao conjunto de decisões controversas e, tantas vezes contraditórias, que os principais responsáveis pelo Concelho de Cascais iam tomando (7), transformou o comércio e a generalidade das actividades a ele inerentes em profissão de elevado risco, o que implicou uma regressão do investimento que se fez nesta Vila e Concelho (8).

Esta situação foi, no entanto, muito transitória, uma vez que devido à intervenção directa de uma série de personalidades que assumem os destinos de Cascais, se assiste ao início de um novo período de investimento e desenvolvimento logo a partir de 1921. É a partir deste ano que, num esgar de reconhecido empenho pelo desenvolvimento do País, Cascais assiste à assumpção do turismo como a grande vocação municipal.

Com a criação das Comissões de Iniciativa e Turismo, que procuravam encontrar junto da sociedade civil as condições económico-financeiras que permitissem ultrapassar os insolúveis problemas orçamentais do Estado, Cascais passou a usufruir das condições necessárias ao início de um novo período de próspero desenvolvimento.

Nomes como os de Fausto Cardoso de Figueiredo ou José Florindo de Oliveira, para além de muitos outros que desempenharam papéis de relevo em todo o Século XX cascalense, foram aproveitando as condições deixadas no Cascais da Corte e, rentabilizando-as, recriaram a vocação turística municipal.

Ao longo de quase todo o Século XX, por iniciativa da Comissão de Propaganda de Cascais, realizaram-se inúmeros concursos e festivais que procuravam promover o comércio local e, simultaneamente, dotá-lo de condições de competitividade.

É nesta época que se assiste ao sucesso dos concursos de montras, exposições de lenços, festivais de flores, saraus de propaganda, etc. Desse período de florescimento e progresso resultaram evidentes benefícios para o comércio cascalense.
O aumento da procura, e o acentuado crescimento da população, assumiram-se como óptimas condições para o restabelecimento das condições de vida e, consequentemente, para a efectivação dos investimentos necessários à tão desejada prosperidade.

Cascais foi-se tornando, de uma forma paulatina, num local de excepção, onde se passaram a encontrar os artigos de excepção que chegavam a Portugal. Uma povoação onde, a partir da Segunda Guerra Mundial, passaram a residir as principais famílias da aristocracia europeia, que aqui se reuniram às grandes figuras Nacionais, e na qual se conjugavam condições climáticas e paisagísticas ímpares, transformando-se num dos principais mercados comerciais de Portugal.

É deste período de ouro, que se prolongou desde a década de 20 até quase ao final do Século, que resulta o fascínio, o ‘glamour’, o prestígio e a tradição comercial de Cascais.

Durante todos estes anos, nos quais Cascais se assumiu como uma das mais emblemáticas Vilas Portuguesas, o comércio local consolidou-se, cresceu e prosperou, beneficiando das condições ímpares que lhe oferecia o Concelho e da conjuntura favorável que envolveu a povoação.

Nesta época, para além de uma crescente autonomia em relação a Lisboa, pois em Cascais existia quase tudo o que era necessário ao dia-a-dia daqueles que cá habitavam, a instalação das melhores marcas e produtos a nível mundial foi transformando a Vila num espaço também privilegiado comercialmente.

Não era raro, nesta época de fascínio cascalense, encontrar famílias lisboetas e de outras partes do País que vinham “às compras a Cascais”. Aqui encontravam as marcas, os produtos e a qualidade comercial que não existia nos seus locais de residência.

Depois, com a crescente urbanização; com a massificação; com a proliferação das grandes superfícies incaracterísticas; com a falta de condições ambientais; com problemas graves de identidade social; e com uma progressiva descaracterização paisagística, Cascais foi perdendo a qualidade desses tempos.

Hoje, mercê do nome e da fama que granjeou durante esses anos de fulgor, Cascais ainda pode retornar à senda do sucesso (9).








(1)Henriques, João Aníbal, História Rural Cascalense, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 1997;
(2)AMORIM, Diogo Pacheco de, e HENRIQUES, João Aníbal, Urbanismo & Comércio, Cascais, Fundação Cascais, 2002;
(3)Ver nota (1);
(4)Ver dados aprofundado em ANDRADE, Ferreira de, “Monografia de Cascais”, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964;
(5)HENRIQUES, João Aníbal, Propaganda – Sete Décadas de Promoção de Cascais, Cascais, Câmara Municipal de Cascais e Sociedade Propaganda de Cascais, no prelo.
(6)HENRIQUES, João Miguel, Cascais – Do Final da Monarquia ao Alvorecer da República (1908-1914), Cascais, Edições Colibri e C.M.C., 2001;
(7)HENRIQUES, João Aníbal, O Estoril e a Paróquia de Santo António, Cascais, Fundação Cascais, 1999;
(8)ANDRADE, Ferreira de, Cascais Vila da Corte, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964.
(9)Ver nota (2).

sexta-feira

Dário Vidal Expõe em Macedo de Cavaleiros




Reciclar foi o mote e o tema da mais recente exposição de Dário Vidal. Numa altura em que a sustentabilidade se tornou fulcro da vida humana, e em que a esperança relativamente ao futuro radica na capacidade de o Homem reconfigurar a sua relação com o planeta, Dário Vidal levou ao Centro Cultural de Macedo de Cavaleiros um conjunto espantoso de novas propostas. Segundo o artista “(…) temos de reconhecer que há objectos, para alguns tornados desnecessários, que ainda podem ter uma nova vida, recriados em assemblage, com formas específicas, associados a certos estilos de arte”. Com a opinião partilhada por Beraldino Pinto, Presidente da Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros, a mostra levou ao interior do País o que de melhor Portugal produz ao nível da arte contemporânea. Para além de membro da Academia de Letras e Artes, o currículo de Dário Vidal regista a realização de diversas exposições tanto individuais como colectivas, e o Prémio de Pintura da Fundação Marquês de Pombal. A sua obra está presente em diversas instituições, das quais se destacam o Museu Nacional do Paço dos Duques, em Guimarães, o Museu da Água e a Colecção Berardo em Lisboa.



segunda-feira

Almodôvar - Uma História da História de Portugal




Situado estrategicamente a escassas dezenas de quilómetros da cidade de Beja, capital do Distrito, e abrangendo a vasta planície alentejana e as ondulantes serras algarvias, o Concelho de Almodôvar desde cedo despertou a atenção do Homem.

A fertilidade dos seus terrenos e a amenidade do seu clima, são factores fundamentais para o desenvolvimento de uma agricultura rica em produtos essenciais: os cereais, as cortiças, os pastos e a criação de gado.

Data do período Neolítico a ocupação humana em Almodôvar. Vestígios dessa época podemos encontrá-los na Aldeia dos Fernandes junto da estrada para Lisboa, e em diversas antas e monumentos megalíticos situados em todas as suas freguesias. Os exemplares mais deslumbrantes e importantes são as Antas do Meio e as dos Mouriscos.

Do período comummente designado por Idade do Ferro são vastos os testemunhos, deixando bem sublinhada e documentada a própria História dos povos que habitaram este extremo Sul da Península Ibérica.

O Monte do Guerreiro, o Monte dos Mestres, as Mesas do Castelinho, o Corte Freixo, o Tavilhão, o Monte Beirão, o Monte Novo da Misericórdia, o Monte da Azinheira, o Corte Figueira, a Atafona, o Corte Zorrinho, o Castelo dos Mestres e outros, são alguns desses vestígios que, por si só, dão mote para uma visita prolongada ao Concelho de Almodôvar.

Do período Romano também existem vários vestígios no seu território. No Castelinho, no Monte do Castelejo, na Senhora da Graça dos Padrões e na Horta dos Mouros, podemos encontrar ainda muitos sinais da sua passagem por esta região, percebendo bem como se processou o processo paulatino de conquista e ocupação do território que hoje faz parte de Portugal.

O período Árabe, entre 711 e o Século XII foi, no entanto, aquele que marcou decisivamente a vida desta povoação. A sua influência persiste ainda hoje, não só na típica arquitectura das casas, como também no próprio artesanato, de que as típicas mantas alentejanas são a sua mais genuína expressão.

Já durante o período da Nacionalidade, Almodôvar recebeu o seu primeiro Foral das mãos de Dom Diniz, em 1285, tendo o mesmo sido confirmado e ampliado por Dom Manuel I em 1512.

Almodôvar foi Padroado Real e, mais tarde, por doação de Dom Diniz, pertenceu ao Mestrado de Santiago.

Representando um breve e confortável desvio na viagem de férias ao Algarve, a visita a Almodôvar representa uma incursão num dos mais emblemáticos municípios de Portugal. A sua riqueza urbana, histórica, gastronómica, enológica e cultural, e principalmente o facto de se manter praticamente desconhecida do visitante comum, faz deste espaço um local deslumbrante que transforma radicalmente a forma por vezes sombria como alguns caracterizam Portugal!




quarta-feira

As Joaninhas da Paulinha: Os Sabores da História de Cascais





É um esforço titânico de recuperação das memórias mais ancestrais da gastronomia Cascalense, aquele que está a ser feito por Paula Brito Nunes, proprietária do “Restaurante Paulinha” em Cascais.

Perdida no meio das memórias mais antigas desta localidade excepcional, onde as estórias pessoais das senhoras velhinhas se cruzam com os restos das indicações das mais conceituadas cozinhas locais, encontrou a receita ancestral das “Joaninhas de Cascais”.

Longas e em cor amarelada, contrariando a ideia do corpo redondo e encarnado com pintas pretas do insecto simpático que usa o mesmo nome, as “Joaninhas de Cascais” são uma iguaria preparada a partir de amêndoa granulada, ovos e açúcar que não deixa ninguém indiferente.

A aposta na doçaria histórica de Cascais, num projecto mais vasto que procura recriar as memórias antigas de Cascais a partir dos ingredientes, das técnicas e dos sabores que deliciaram os nossos avós, representa um importante contributo para a recuperação da identidade municipal, fomentando as memórias que se associam às emoções da experiência de qualquer coisa verdadeiramente excepcional.

As “Joaninhas de Cascais” estão disponíveis no Restaurante Paulinha, situado na Rua Alexandre Herculano, nº 72, mesmo no centro de Cascais. O telefone de contacto é o 214865932.




segunda-feira

Abu Zaid Abd-Ar Rhaman Ibne Mucane: O Início de uma Longa História em Alcabideche (Cascais)





Existe em Alcabideche, a escassos metros de conhecido Cascaishopping, um monumento que a muitos passa despercebido.

Composto por uma laje comemorativa com uma citação política e por duas grandes pedras colocadas na vertical, teve em tempos um idílico cenário campestre do qual sobressaíam dois dos mais antigos moinhos de vento penisulares.

O monumento, dedicado ao grande poeta Árabe Ibne Mucane, natural de Alcabideche, marca no tempo um dos mais interessante, pujantes e mal conhecidos períodos da nossa História comum: os Séculos X e XII da nossa era, e a ocupação Árabe da Península Ibérica.

Mas quem foi Abu Zaid Abd-Ar Rhaman Ibne Mucane?

Segundo as fontes, e tomando em linha de conta o que actualmente se conhece da História desta região, Ibne Mucane terá sido, o primeiro autor a cantar os moinhos de vento da Europa.

Como do conhecimento geral, quer pela tecnologia empregue, quer quer pelos recursos que eram necessários para a sua construção, quer ainda pela extrema importância que têm em termos do incentivo à produção, os moinhos de vento traduzem de sobremaneira o estado de desenvolvimento de uma regão.

A importância de Ibne Mucane está assim intimamente ligada à introdução de uma série de inovações técnicas e de novos conhecimentos na estrutura produtiva de génese rural do extremo ocidental da Península Ibérica, que a partir da chegada dos ocupantes Árabes veio influenciar de sobremaneira a vida futura de toda a Europa medieval.

Em termos práticos e imediatistas, os versos de Ibne Mucane têm, no entanto, um outro significado. Se por um lado são eles os primeiros a cantar a introdução dos moinhos de vento em solo Europeu, com todo o desenvolvimento que lhe está implícito, por outro, traduzem também a realidade político-social que se fazia sentir na zona mais rural do actual Concelho de Cascais.

A falta gritante de água e uma importante componente cerealífera na produção agrícola do concelho estão bem patentes nas palavras de Ibne Mucane:


Ó tu que vives em Alcabideche
Oxalá nunca te faltem
Nem grãos para semear,
Nem cebolas, nem abóboras.
Se és um homem de decisão
precisas de um moinho
que funcione com as nuvens
sem necessidade de regatos.


Para além desta referência directa à falta de água, que deve ter sido uma das mais prementes preocupações constante a todos os agricultores de Alcabideche, Ibne Mucane refere ainda outros problema com que se debatiam os habitantes desta zona interior do actual Município de Cascais:

A minha terra é boa... mas o mal
é que se o ano é bom, nunca dá mais do que
vinte carregos, vinte e tal de cereais.
E quanto mais promete e mais cuidados
eu lhe dispenso em sonhos mais me iludo
porque então, javalis dos despovoados
surgem famintos, e devastam tudo!


Assim, muito embora a terra não fosse de facto de muito má qualidade, os javalis que existiam nas redondezas contribuíam para a destruição das colheitas e para o consequente empobrecimento da população.

Ibne Mucane, embora possua, com o intuito de preservar a sua memória, um monumento na terra que o viu crescer, para além de uma escola com o seu nome, não é de facto um poeta conhecido, nem para os naturais de Cascais nem para todos aqueles que se interessam pelo estudo de um passado histórico que urge preservar e que nos fornece pistas essenciais para a definição da nossa memória colectiva.

Os seu versos, para além de traduzirem toda uma realidade que se encontra subjacente a um período mal conhecido em termos historiográficos, conseguem ainda trazer dados novos para a compreenão da importância real que teve a civilização Árabe no crescimento e no desenvolvimento da Europa Medieval.

Quando se fala em Árabes, pensa-se naturalmente nos topónimos iniciados com AL, esquecendo-se tantas vezes a tecnologia, os usos e costumes, e a maneira inovadora de pensar, que contribuiu decisivamente para a criação de duas maneiras distintas de encarar a existência.

Ibne Mucane, acima de tudo, merece ser lembrado como um natural de Alcabideche, que deixou atrás de si, as condições necessárias para a compreensão do período em que viveu, e cumpre a Cascais e aos seus actuais ocupantes, a tarefa de não deixar cair no esquecimento toda a essência do seu contributo.


José Carlos Santanita Eleito Escanção do Ano





O escanção José Carlos Santanita foi galardoado com o título de "Escanção do Ano" pela Revista de Vinhos e recebeu o respectivo prémio concedido pelo Comendador Rui Nabeiro.

A cerimónia de entrega deste importante galardão, que marca de forma perene o reconhecimento da entrega de José Santanita àquele que é um dos mais importantes sectores empresariais Portugueses, aconteceu na Praça de Touros do Campo Pequeno, durante um jantar que reuniu cerca de 900 pessoas.

José Carlos Santanita está desde tenra idade no mundo da hotelaria e da restauração. Começou chefe de sala em várias unidades hoteleiras e restaurantes de grande qualidade no Alentejo e, mais tarde, tornou-se no primeiro escanção da Herdade do Esporão (Reguengos de Monsaraz), local onde também deu formação à equipa de Enoturismo.

José Santanita é bem conhecido pelo seu dom da palavra e pela enorme capacidade em transmitir conhecimento. Consegue entusiasmar plateias com o seu discurso e com os seus ensinamentos, que têm sempre como objectivo último permitir que cada um retire o máximo de prazer de um copo de vinho...

Actualmente e com o apoio de Sílvia Cardoso, José Santanita dá forma a um projecto aromático e saboroso na Adega das Mouras, em Arraiolos. A Wine Academy Portugal, empresa que tem a Educação Vínica como instrumento principal, dedica-se à promoção Nacional e internacional dos melhores vinhos Portugueses.

Este galardão, que se afigura de extraordinária importância por reconhecer o esforço, a dedicação e a qualidade que José Carlos Santanita empresta ao seu trabalho, é também um marco no reconhecimento da enologia e da gastronomia como instrumentos de suporte à requalificação do Turismo de Portugal, na senda da criação de uma oferta que conjugue os aromas, os sabores e as cores que dão forma à eno-gastronomia com tudo o mais que o nosso País tem para oferecer.

Os nossos sinceros parabéns ao José Carlos Santanita!

sexta-feira

Vítor Adrião: A Ressureição de Portugal




Como resultado da segunda edição do "Curso Livre de Introdução à Portugalidade", que decorreu na ALA - Academia de Letras e Artes com o apoio da TOW - Travel Our Way, foi apresentado publicamente o livro "A Ressureição de Portugal" da autoria do investigador Vítor Manuel Adrião.

A cerimónia, em que participou o edil de Cascais António Capucho, foi presidida por António de Sousa Lara que sublinhou o interesse da obra no contexto de um Portugal abatido por uma onda de pessimismo que nada tem a haver com o carácter expressivo da História Pátria.

Na sua intervenção, o autor Vítor Adrião explicou o contexto em que decorreu esta segunda edição do curso, sublinhando que a presente obra é um testemunho da perenidade de uma Nação possuidora de um forte cunho sagrado e que, por isso, está condenada a ser pujante.

Contrariando todos aqueles que se tem dedicado a criticar, esfoliar e denegrir Portugal, esta "Ressureição de Portugal" é um testemunho franco, sapiente, sentido e sagrado da Alma deste País.

Mais uma obra-prima de Vítor Manuel Adrião, comprovando uma vez mais que, apesar das críticas e das polémicas em que o tentam envolver, é com toda a certeza um dos maiores vultos da Portugalidade no tempo actual.

quarta-feira

O Forte de São Julião da Barra em Oeiras




por João Aníbal Henriques

Quando despontam os primeiros raios de sol, nas frias manhãs do início da Primavera, o Forte de São Julião da Barra surge recortado no horizonte. Espécie de cenário fantástico de um qualquer espectáculo de teatro, o edifício alberga algumas das mais terríveis memórias da História de Portugal.

Quando D. Manuel desfrutava as vistas magníficas do Termo de Lisboa, em demorados passeios que se alongavam pelos mais pitorescos recantos dos actuais Concelhos de Cascais e de Oeiras, era comum lembrar-se de determinadas intervenções que, complementando a astúcia política do seu reinado, prolongaram a sua memória e imortalizaram o seu nome.

De acordo com o Memorial Histórico de Oeiras, terá sido este o caso do Forte de São Julião da Barra que, da sua estratégica situação geográfica, controla o tráfego marítimo na barra do Rio Tejo.

O principal motivo que levou D. Manuel a aconselhar o seu filho a iniciar a construção desta fortificação, mais do que o poderio militar que dele poderia retirar, foi o de instituir uma barreira dissuasória em situações de ataque de piratas e corsários. De facto, durante todo o reinado do monarca, foram-se tornando usuais as investidas deste tipo de atacantes à Cidade de Lisboa. Sem qualquer pejo pelas envelhecidas sentinelas da capital, totalmente obsoletas devido ao desenvolvimento técnico dos barcos e das novas armas entretanto desenvolvidas, os meliantes avançavam intrepidamente pelo Tejo, até atingirem os mais cruciais pontos nevrálgicos da actividade mercantil que utilizava o rio como espaço privilegiado de actuação.

Ao longo dos anos, e com excepção de 1831, quando uma armada francesa utilizou a prisão de um cidadão daquele País como pretexto para intervir militarmente e desprestigiar o popular Governo do Rei absolutista D. Miguel, foram muito raras as utilizações militares do Forte de São Julião da Barra.

O seu aspecto imponente, e uma monumentalidade que ainda hoje impõe respeito junto de todos quantos o observam no horizonte, criam uma aura de inexpugnabilidade que dissuade possíveis ataques ao forte.

Mais do que pelo seu cariz militar, São Julião da Barra é conhecido e reconhecido pelo facto de ter sido, ao longo de muitos dos mais críticos períodos da História de Portugal, uma prisão de Estado, onde se encerravam em masmorras terríveis alguns dos mais acérrimos opositores dos regimes políticos vigentes.

De acordo com Carlos Pereira Calixto, autor de uma conhecida obra sobre as fortificações marítimas do Concelho de Oeiras, é precisamente a notoriedade dos prisioneiros encerrados em São Julião da Barra que confere o estatuto de tenebroso a este forte: “ [...] tanto no tempo dos Filipes, como na Restauração, com Pombal no governo, ou nos princípios do Estado Novo, nas masmorras desta fortificação existiram detidos militares políticos, eclesiásticos e civis, como em 1640 D. Fernando Mascarenhas, Conde da Torre, detido pelos espanhóis, ou o Arcebispo de Braga, D. Sebastião de Matos Noronha, envolvido na conspiração contra D. João IV, aí falecido, e sepultado a 26 de Outubro de 1644 na Capela do Santíssimo Sacramento da Igreja da fortaleza”.

A fama de São Julião – a Torre – como era conhecido o forte nos meios mais contestatários da Lisboa do Século XIX, ficou também a dever-se ao carácter sangrento de alguns dos seus mais conhecidos directores. Na sua obra “Portugal Contemporâneo”, na qual pretende descrever com alguma profundidade alguns aspectos relevantes da vida política dessa época, Oliveira Martins menciona amiúde a Torre de São Julião da Barra. Em termos sarcásticos e teatrais, refere que mais do que em qualquer prisão portuguesa, era ali que se desenrolavam os episódios mais fulgurantes da “carnificina” absolutista de então: “[...] o limoeiro era para os presos políticos uma estação provisória. O seu armazém estava na barra do Tejo, em São Julião, confiado à guarda de um cérebro fiel, honrado, e bruto, entusiasticamente cruel: o Teles Jordão”.

Foi de São Julião da Barra que, na manhã de 18 de Outubro de 1817, saiu o General Gomes Freire de Andrade para a forca que o esperava no terreiro circundante. E foi também nesse espaço, aproveitando o cenário terrífico das paredes de pedra, que muitos lisboetas assistiam com pasmo aos pedagogicamente preparados espectáculos executórios com que os governos controlavam a sua insatisfação.

Temido para uns; de má memória para outros; o certo é que o Forte de São Julião da Barra é uma das mais importantes e magníficas peças do património histórico do Concelho de Oeiras.

A Capela de Laveiras: Uma História de Vontade




Insignificante do ponto de vista da monumentalidade que caracteriza grande parte dos edifícios de culto religioso da região de Lisboa, a Capela de Nossa Senhora das Dores, situada na povoação oeirense de Laveiras, é hoje um importante marco patrimonial daquele concelho. As vicissitudes muito próprias da sua História, demonstrando que, muitas vezes, a vontade colectiva é mais importante do que os percalços políticos pontuais, transformam-na em mais um repositório de memória que contribui para a consolidação da cidadania daquele que habitam nas suas redondezas.

Situada numa das mais interessantes povoações de cariz saloio do Concelho de Oeiras, a Capela de Nossa Senhora das Dores é um marco inestimável do poder de concretização que deriva da vontade popular.

Sem que se conheça com exactidão a data da construção original, que com toda a certeza deverá ser anterior ao Século XVII, este edifício situa-se na povoação de Laveiras, tendo sofrido ao longo dos anos variadas campanhas de obras que, sem lhe retirarem a simplicidade original, conseguiram mante-la num excelente estado de conservação.

Contrariamente àquilo que aconteceu com a generalidade dos edifícios religiosos portugueses, que atravessaram de forma complicada os tumultos provocados pelas diversas crises políticas que o País sofreu, a Capela de Laveiras possui uma história sui generis, que lhe confere um estatuto patrimonial diferente.

De acordo com J. de Vilhena Barbosa, que editou no final do Século XIX algumas notas sobre um possível roteiro de Lisboa, no qual incluía Oeiras e o seu Concelho, a Capela de Laveiras é “muito antiga nas suas origens”. Sem precisar datas ou nomes, o autor refere o Século XVII como a marca temporal mais exacta para a sua edificação, sublinhando ainda que a ajuda régia foi fundamental para, em conjunto com o empenho da população, se criar ali um núcleo cultual que servisse toda a envolvência.
Segundo Rodrigues Soares, autor dos textos que integram o livro “Retratos de Oeiras”, a edificação da Capela antecede a criação da própria Irmandade de Nossa Senhora das Dores, que foi formalizada somente em 1812.

Dessa data em diante, e uma vez mais contrariando a História de quase todos os templos existentes naquela época, a Capela de Laveiras, conhece um período de enorme prosperidade, uma vez que a recém criada Irmandade, para além dos assuntos relacionados com o culto e com a manutenção do edifício, desenvolve significativo trabalho educativo na região, criando em seu torno uma escola, e diversas actividades sociais.

É neste clima de laboriosa entrega que a Capela conhece os períodos difíceis do liberalismo e da perspectiva anti clerical do Estado, factores que, no entanto, acabaram por não afectar a fiel comunidade católica de Laveiras.

Mesmo com o incêndio que praticamente a destruiu no ano de 1870, a Capela de Nossa Senhora das Dores de Laveiras foi totalmente reconstruída, tendo inclusivamente sido ampliada na mesma época, e reabriu ao público em 1889, tal como consta de uma inscrição apensa numa das suas paredes exteriores.

Nessa recuperação desempenhou uma vez mais papel de relevo o Estado que, através do então Ministro das Obras Públicas, Emídio Navarro, auxiliou a Irmandade nas obras em curso.

Apesar das suas diminutas dimensões, e de ter perdido a utilização cultual em prol da capela do Convento da Cartuxa, em Caxias, a Capela de Laveiras manteve-se sempre como símbolo fundamental da vivência religiosa oeirense.

No início de um novo Século e de um novo Milénio, quando quase toda memória histórica e social das antigas aldeias dos arredores de Lisboa se está a perder como consequência do desenvolvimento de uma terceirização que transforma os arredores da Capital em meros dormitórios sem marca e sem passado, a Capela de Laveiras, assume-se como marco indiscutível de uma forma de estar na qual o Concelho de Oeiras desempenhou um papel fundamental.

A preservação deste monumento, bem como o necessário reenquadramento urbanístico que ele exige, garante aos habitantes locais a possibilidade de rentabilizarem a sua memória, promovendo uma socialização mais natural e efectiva, que contribua para a qualidade de vida de todos quantos ali têm a honra de viver.

O Palácio do Marquês de Pombal (Oeiras): As Memórias do Espaço





Mais do que o seu estilo, características arquitectónicas ou disposições urbanísticas, os edifícios que compõem o património histórico oeirense assumem-se como repositórios de memória, deixando transparecer os resquícios de todas as vidas que por eles passaram.

Situado no cerne da actual Vila de Oeiras, e funcionando como o grande catalisador do desenvolvimento moderno da localidade, o Palácio do Marquês de Pombal é um dos mais significativos monumentos arquitectónicos da Área Metropolitana de Lisboa.

A sua memória mesclada com a aura fulgurante do primeiro proprietário, Sebastião José de Carvalho e Melo, polémico Primeiro-Ministro do Rei Dom José, dilui-se na biografia mítica do velho governante.

Apesar da elegância do projecto da autoria do Húngaro Carlos Mardel, que consagrou através deste edifício os mais modernos princípios arquitectónicos da Europa das Luzes, o Palácio do Marquês de Pombal é definitivamente marcado pela sua fantástica capacidade de se integrar no espaço envolvente, abarcando os valores urbanísticos da velha Oeiras, e projectando-os através da promoção da paisagem natural envolvente.
A responsabilidade da ideia, apesar de concepção de Mardel, fica a dever-se sobretudo à Condessa Leonor Daun, segunda mulher de Pombal, e principal impulsionadora da construção do grande conjunto edificado.

São as memórias desta mulher, um pouco encobertas pela extraordinária competência política do seu marido, que ainda hoje subsistem no palácio. De facto, quer no edifício principal, quer mesmo nos conjuntos adjacentes, hoje profusamente utilizados pela Câmara Municipal de Oeiras, é possível encontrar os vestígios sublimes do ambiente vienense do Século XVIII que a Condessa procurou recriar neste espaço.

A conjugação da sensibilidade da sua ideóloga, com o saber técnico e artístico do arquitecto, e sobretudo com a grande capacidade concretizadora do seu proprietário, transformam o Palácio do Marquês de Pombal num dos mais ilustrativos exemplos de urbanismo iluminado em Portugal.

A Vila de Oeiras, habituada a viver à sombra do ilustre governante, foi também ela directamente afectada pela sua construção. De facto, não só nos espaços envolventes ao palácio, como principalmente no núcleo histórico da localidade, são inúmeros os exemplos dos benefícios herdados de Pombal que, principalmente após o grande terramoto de 1755, passou a habitar definitivamente na sua casa de Oeiras.

O fulgor desse período, bem visível na atribuição do Foral Novíssimo de 1760 e, depois, na realização da grande exposição agrícola de 1775, consagra-se com a sua utilização pelo próprio monarca. Por sofrer de grandes males que o obrigavam a frequentar diariamente as milagrosas águas termais do Estoril, e sobretudo por não existirem em Cascais habitações com qualidade suficiente para receberem a Corte, foi no Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras, que esteve o Rei Dom José durante um ano, transformando a recém-criada Vila na capital política do País.

A memória do espaço oeirense, sujeita às vicissitudes que acompanharam o percurso final da vida do seu ilustre Senhor, absorve também ela o desânimo, o abandono e a degradação que acompanhou Pombal no seu exílio forçado.

Esquecida por quase todos, e uma vez mais sujeita aos laivos da lembrança do antigo braço direito de Dom José, Oeiras vai perdendo o seu estatuto, e deixando degradar a herança histórica que este lhe havia legado. Até há uns anos, quando a Câmara Municipal decidiu retomar a promoção da ilustre povoação, Oeiras permitiu que grande parte dos seus valores desaparecessem nas mãos ignóbeis de saqueadores desconhecidos. O Palácio do Marquês de Pombal, altaneiro na sua elegância, assistiu impavidamente à destruição progressiva dos seus pertences.

Só recentemente, fazendo jus àquilo que Oeiras conseguiu ser no tempo de Pombal, a edilidade local reiniciou o processo de requalificação do local, centrando no espólio arquitectónico do Século XVIII a marca de um passado que nem mesmo a passagem dos anos consegue apagar.

A memória do Palácio do Marquês de Pombal, atravessando transversalmente as malhas inexoráveis do tempo, impôs a Oeiras o seu caminho. Independentemente de tudo o que de bom ou de mal possa suceder àquela Vila, este conjunto edificado assumir-se-á sempre como o sustento de uma memória que Oeiras nunca irá perder.

segunda-feira

Roteiros Turísticos do Património Mundial




O Turismo de Portugal, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o IGESPAR, apresentou recentemente os cinco volumes dos “Roteiros Turísticos do Património Mundial”.

A iniciativa, que se centra na necessidade de promover conveniente a zona centro de Portugal, local onde a riqueza patrimonial se traduz na existência de três monumentos classificados pela UNESCO como Património Mundial – Alcobaça, Batalha e Tomar -, aborda algumas das mais interessantes, emblemáticas e atractivas temáticas de Portugal. O Tesouro dos Templários, com uma visão abrangente e esclarecedora sobre o importante papel que a Ordem do Templo teve na formação da Nacionalidade; os Caminhos da Fé, num périplo que nos leva através das crenças mais arreigadas da Portugalidade; os Quatro Elementos, com uma passagem muito interessante sobre as riquezas naturais desta região; e a Demanda do Graal, remetendo os leitores para os mais profundos arquétipos que deram forma à cultura Portuguesa actual; são os quatro motes que exploram de forma muito alternativa os três importantes monumentos Mundiais.

A qualidade do produto final, bem como de todos os conteúdos agora trazidos a público, vem colmatar uma necessidade efectiva que Portugal sente desde há muito tempo. Utilizando como atractivo o turismo cultural, sinónimo de exigência na sua formulação prática, o Turismo de Portugal está a rentabilizar o que de melhor existe no País, ao mesmo tempo que cria as condições necessárias para que os operadores turísticos possam promover lá fora aquilo que de único e excepcional o nosso País possui.

Com a edição destes Roteiros Turísticos do Património Mundial, deixam de existir desculpas para a falta de uma promoção que, de uma vez por todas, coloque Portugal como destino de excepção numa Europa cada vez mais marcada pela linearidade e pela pouca competitividade parente destinos turísticos exóticos que vão surgindo pelo Mundo.

Mais informação poderão ser obtidas através do website www.descubraportugal.pt.

domingo

Joaquim Baraona Homenageado na Toponímia de Cascais




Num acto de profunda justiça e de grande significado para o Concelho, a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia de Cascais homenagearam o Comendador Joaquim Baraona através da atribuição do seu nome a uma das mais emblemáticas artérias da Vila. Antigo Provedor da Santa Casa da Misericórdia, instituição à frente da qual imaginou, planeou e concretizou um programa inovador e muito ambicioso nas áreas do apoio social e da saúde, Joaquim Baraona foi ainda figura de enorme importância nas áreas do empreendedorismo, turismo, diplomacia, associativismo, cultura e política, dinamizando inúmeras instituições em Portugal e no estrangeiro. Na actualidade, e mantendo o dinamismo e a vitalidade de sempre, o Comendador Baraona continua a ser uma das mais activas e empenhadas personalidades em várias instituições, academias, associações e colectividades de Cascais, à frente das quais muito tem contribuído para fomentar o bom-nome do Concelho e do País e para consolidar a qualidade de vida de todos aqueles que por aqui habitam ou trabalham. Com a atribuição deste topónimo, que será testemunho perene da importância que Joaquim Baraona teve e tem para Cascais, fica resposta a justiça que a revolução de 1974, por motivos que estão muito longe da nobreza das ideias daqueles que sonharam com a alteração do regime, havia posto em causa.




terça-feira

Tomar: Para Cumprir Portugal...






por: João Aníbal Henriques

Muitas vezes a realidade subverte-se… as paredes de pedra, sólidas na sua concretização, deixam antever as fraquezas e as inconsistências das muitas estórias que as envolvem… a patine do tempo, negra pelas agruras que lhe impõe o devir e as pessoas, transforma-se numa moldura que tolhe o próprio olhar…

Em Tomar é isto que acontece… um espaço mítico e místico que absorve as centelhas de luz num impasse que urge desvendar… cantos e recantos por onde passaram olhares… nichos e pormenores com os quais necessariamente temos de contar…

As salas, corredores e deambulatórios, prenhes de memórias que a Humanidade impõe, são como livros abertos para quem os quiser decifrar.

Mas cada olhar; cada perspectiva; cada vislumbre de Tomar é único… porque únicos foram também os episódios que por aqui se sucederam… são sinónimo de abordagens, quimeras de sonhos não cumpridos e… caminhos novos que cabe aos nossos pés trilhar…

Emoções à flor da pele. Emoções que nos toldam os sentidos e que nos transformam a fronte. Emoções difíceis de compreender, e quase impossíveis de interpretar.

Tomar… a cidade onde o Nabão enfatiza estados de Alma… onde cada curva agoniza perante as promessas que nascem do cruzamento do horizonte amplo e das necessidades do Homem. Tomar… o espaço onde as naus se plantam perante o olhar impávido dos monstrengos que nada temem enfrentar… Tomar… o enclave de saber (de saberes) conjugando sabedorias ancestrais… Tomar… cadinho onde os mistérios se desvendam, gerando pistas, possibilidades e esperanças que o Homem está condenado a enfrentar…

O Mundo não seria o que é hoje sem esta sala em Tomar…

O espaço, as coisas e os outros, emaranhados numa teia de interesses, vão-se formando, aqui, muito devagar…

Falamos de memórias… daquilo que ao longe vamos sentindo como diferente… falamos de respeito pelo alternativo, pelo outro, e de uma profunda vontade de abraçar… a cultura, a abordagem ao Universo… a capacidade de pensar.

Tomar é um cadinho… um recipiente bem cheio de tudo o que existe no ar… conjuga saberes, perspectivas, realidades e emoções em sonhos… sonhos comuns onde a força impera… sonhos com a capacidade de se concretizar…

Como se ao longe se ouvissem as ondas do mar…


E cumpriu-se Portugal… num Mundo enorme, diferente, assustador…

Enfrentando o mar e o desconhecido com a força que nasceu da sua História…

A cruz enrolou-se a o Templo abriu as portas a Cristo… cumprindo a profecia… contrariando a vontade geral.

E Portugal fez-se em Tomar… nas paredes avoengas de um castelo antigo… nas vicissitudes várias que a política lhe impôs.

Mestre Gualdim escolheu o local…marcou com o seu ferro o espaço telúrico onde tudo deveria fazer-se… e sonhou… com um Mundo novo onde se cruzassem saberes… e sabores… como se tudo fosse um vasto Portugal…

Estávamos em Março… no dia 1… no primeiro dia do resto de toda a História de uma Nação… num Século XII marcado pelas guerras, pelo sangue, pelas agruras do destino… num tempo em que o dia-a-dia dependia de uma côdea de pão… numa época em que tudo isso dependia de uma paz impossível de conquistar…

Por detrás, memórias antigas dos que já cá estiveram… pedras marcadas pelas mãos de outrem… Romanos? Muçulmanos? Ninguém sabe bem, embora se sinta no ar o embaraço dessa união…

O espaços são o que são independentemente das pessoas, ou melhor, daquilo que deles as pessoas fazem… são eternos, imortais, como os deuses… e tingem de perenidade o carácter efémero dos que agora cá estão…

Somos mais uns… unicamente algo mais para juntar ao que já foi… uma pitada de nada comparada com o que há-de vir… a sombra diáfana de um convencimento vil que é, afinal, a própria essência do viver…

Muitos chegam, mexem, transformam, alteram, marcam com a sua força procurando sofregamente o eterno… que não existe em nós… nem neles…

Tocam-se à força nos espaços sagrados (que o são) de um espaço onde o mito se conjuga com o rito e onde a repetição é sinónimo de saber… são séculos e séculos do mesmo… de capacidades e de discernimentos… de milénios de suspiros que deixam marcas no tempo….

São pré-existências que nos provam quem é importante… o que é importante! Que nos dizem quem somos, de onde vimos, para onde vamos e… tudo aquilo que queremos saber.

Na charola… naquele espaço circular onde todo o Universo parece caber… onde ressoam os cascos velhos dos que já cá não estão… mas onde ainda sentimos as lamúrias dos que teimam em lutar para viver…

É Jerusalém em peso que faz dobrar a coluna e levantar o chapéu… é a repetição nano-temporal que nos transporta para a modernidade da ciência… é perceber, sem o saber, que as pedras têm memórias… e que os Homens (sobretudo) as conseguem ler…

O Santo Sepulcro é um espaço de sofrimento. É claro!... é um espaço de dúvida, de dúvida permanente, persistente e muito real… é o espaço onde a salvação se confunde com a Morte, e onde esta abre caminho ao céu…

E Tomar é, em suma, tudo isto.

Tomar são os sonhos de romanos e de celtiberos… os anseios dos árabes… as doutrinas de fé Templária e Cristo… sempre Cristo… com a força de todo o seu Ser.

Tomar é a cruz em movimento… o arfar do vento no velame dos navios.

Tomar é a própria doutrina do Homem, a Tradição das Idades, o espaço que, existindo, permitiu o acontecer… e aconteceu! Aconteceu aqui! Aconteceu agora, ou melhor… há muito tempo! Vai acontecer ainda! Quer queiramos quer não!

Tomar é a essência alquímica de Portugal. O templo interior onde se nasce por missão… o espaço onde por castigo temos de viver.

Tomar é a opção… o livre arbítrio… o reinado do Espírito sobre a forma, e desta sobre a matéria.

O Mundo que hoje temos nasceu aqui… em torno desta mesa, neste mesmo espaço onde nos sentamos… em torno de caras como as nossas… necessidades como as que temos… sonhos como os que alimentamos e com os quais nos entorpecemos.

Queremos mais. Porque Portugal está vivo. Porque a força não se destrói.

Queremos Camões nestas paredes! Camões nas águas de um Nabão que sonha com o mar, desde Tomar o antevendo. Queremos Pessoa, com todos os seus! Cabiam aqui… todos… neste refeitório!

Portugal está por fazer. É um País único! Rico! Extraordinário e insubstituível! É um País onde os sonhos se fazem de História… de História que se acotovela nos sonhos dos que cá estão… de estórias que são vida e que dão vida a quem por ela anseia…

Vamos cumprir Portugal. Vamos sentir um País que é nosso. Vamos suspirar em todo o património que temos… transbordante de História, de estórias de… vida.

Vamos cumprir Portugal. Vamos mostrá-lo. Não aceitemos calar quem somos e o que temos.

Vamos cumprir Portugal. Vamos viver.

domingo

Heróis por Portugal





por: João Aníbal Henriques

Contrariando uma época insólita que Portugal está atravessar, na qual a tónica Nacional (ao contrário do que sempre aconteceu na História Nacional) é colocada no Ter e não, como sempre foi, no Ser, partiram esta semana para a China os atletas que vão representar o País nos Jogos Paraolímpicos.

A comitiva Portuguesa, ao contrário do que aconteceu com muitos dos participaram na comitiva dos Jogos Olímpicos, parte cheia de pretensões e com aspiração elevada em termos de resultados.

A expectativa, mais do que nos rankings mundiais, nos quais, assim mesmo, os atletas Portugueses estão genericamente bem (e muito bem) classificados, centra-se quase em exclusivo no esforço extremo, na dedicação absoluta e no brio que todos (atletas, treinadores e acompanhantes) levam consigo. O motivo para tal, uma vez mais dando lições de desportivismo aos que já chegaram, é simples de perceber: deram tudo o que podiam e estão convictos de que farão o seu melhor quando começarem a competir. E isso, no que ao desporto Nacional concerne, é por si só uma vitória expressiva e extraordinária para o País.

Tal como nos Jogos Olímpicos, nos Paraolímpicos só participam os melhores. Estar colocado a esse nível, e ter a oportunidade de ali competir, é por si só sinónimo de uma qualidade que dignifica o atleta e Portugal. Os resultados, que ainda para mais estes atletas estão habituados a alcançar, são de somenos importância face ao orgulho que Portugal sente em ter esta gente a assumir a responsabilidade e o desafio de representar a Nação.

As histórias de vida; os percalços do dia-a-dia; as vicissitudes do destino; e as dificuldades que acompanham a preparação e a competição, foram inexoravelmente maiores para estes atletas do que para a maioria de nós. E eles, contrariando o destino e as curvas inóspitas da vida, ultrapassaram-se a si próprios e conquistaram batalhas que para a generalidade dos Portugueses parecem impossíveis de alcançar.

Por outro lado, na sua vida profissional, é notório o sucesso que caracteriza a vida de quase todos. De médicos a arquitectos, passando por profissões física e intelectualmente exigentes e desgastantes, os atletas paraolímpicos Portugueses formam uma equipa de qualidade incontornável, na qual a dedicação e o esforço (no caso deles duplicado pelos problemas que enfrentam) são marca perene que consolida ainda mais as conquistas que lograram alcançar.

O terem ido a Pequim e o estarem lá; tudo aquilo que isso significa em termos de investimento pessoal de cada um deles; e a postura honrada, confiante e plena de brio com que lá estão; são motivos de sobra para o grande orgulho que Portugal sente.

Apesar de desconsiderados face aos primeiros, nos quais deviam estar integrados, os Jogos Paraolímpicos são necessariamente o supra-sumo do desporto Mundial! Porque como nos outros, estão lá os melhores, os mais esforçados, e aqueles que, com o seu trabalho e espírito superaram a condição Humana à qual todos estamos sujeitos e os obstáculos que a vida lhe trouxe.

Ao fazerem isso, assumem condição de heróis, como acontecia com os cidadãos da Grécia antiga que triunfavam nas Olimpíadas…

Merecem, por tudo isso, o apoio, o tributo e a gratidão de Portugal.


sábado

Cascais em Mudança...






por: João Aníbal Henriques

Em Cascais já nada é como dantes…

A frase, repetida de forma permanente e insistente em todos os becos e vielas da Vila, quase sempre associada à negatividade de um dia-a-dia emaranhado na crise e nas dificuldades que afectam transversalmente quase todos os sectores de actividade, tem sido apanágio permanente de Cascais ao longo dos últimos anos, deixando no ar a forma natural e automática como o devir social consegue avaliar a actuação dos organismos responsáveis pela gestão do município.

No entanto, e contrariando uma tendência que se iniciou com o princípio da década de 90 do Século XX, a frase voltou agora a Cascais com uma nova pujança e um sentido diferente…

É verdade! Em 2008, nos mesmos becos, vielas e lojinhas de bairro; por parte de comerciantes, empresários, e profissionais liberais; nos balcões dos cafés e até nos corredores inóspitos das grandes superfícies; voltou a ouvir-se de forma insistente e permanente a célebre frase: já nada é como dantes…

Mas neste ano especial, e com um Verão nem sequer muito quente; com um clima geral de crise e insatisfação de âmbito Nacional e internacional; e com um sentimento de insegurança e de impunidade que grassa de forma dramática em Portugal; em Cascais parece que tudo voltou a mudar. Há animação nas ruas; há restaurantes cheios; há exposições, debates, colóquios e cursos livres cheios de participantes; há passeios pedestres e autocarros, bicicletas, e trotinetes a encher a ciclovia; há concertos de Verão, e fogo de artifício no ar.

Em Junho, no Dia 13, a Procissão de Santo António voltou a encher as ruas da Vila, e em Agosto, no dia 29, foi Nossa Senhora dos Navegantes que, como há três Séculos atrás, encheu de devoção as traineiras e demais embarcações cascalenses, que se apinharam de gente que, com os andores, foi ao mar.

E por todo o lado sente-se Cascais a acordar da letargia perigosa e da crise profunda que estava a atravessar.

É claro que o fulgor da construção inusitada continua a fazer-se sentir. Durante muito anos, enquanto os projectos anteriormente aprovados não se esgotarem, continuaremos a ver aparecer os mamarrachos que enriqueceram uns e destruíram a fácies de um espaço sem igual. Também é verdade que a descaracterização ainda impera, num Concelho dicotomicamente marcado por um litoral profundamente cosmopolita e activo, e por um interior terceiro mundista onde quase tudo é de génese ilegal. Sendo também verdade que o novo hospital aguarda desde 1974 a cerimónia de inauguração.

Mas do outro lado da moeda, as bibliotecas nascem, pela primeira vez, no interior do Concelho e as escolas, juntas de freguesia e centros de saúde vão sendo alvo de acções de requalificação como nunca existiram em Cascais.

É uma mudança geracional, e serão necessárias mais duas décadas para que se concretize totalmente. Mas o lançamento das sementes está a ser feito, e Cascais vai-se alterando.

Mesmo quem não é de Cascais e se habituou a visitar a Vila ao longo dos últimos anos para participar nas acções que persistentemente continuaram a concretizar-se, percebeu neste ano a diferença. É qualquer coisa no ar que se transmite ao sorriso dos locais, um misto de alegria e satisfação que deixa antever o conforto de aqui morar. É um glamour inexplicável que os turistas sentem e que os faz apreciar o tempo que aqui vão estar. É qualquer coisa que já não se sentia há mais de 18 anos, e que agora obriga a repetir a frase…

Em Cascais, uma vez mais, nada é como dantes!

segunda-feira

Sporting, Benfica e Porto: O Futebol e o Estado Português





por: João Aníbal Henriques

Por ser considerado um jogo “de risco elevado” a Polícia de Segurança Pública destacou cerda de 590 agentes para acompanharem o jogo de futebol entre o Benfica e o Futebol Clube do Porto.

A festa, como lhe chamam os apreciadores, poderia ser estragada pela intempestivos ataques de fúria dos adeptos que, para além de colocarem em risco a sua própria segurança, ainda ameaçavam a segurança dos transeuntes, dos restantes espectadores e de todos os locais que faziam parte do percurso que as claques utilizariam até chegar ao estádio.

Esta situação, comum nos dias que correm, coloca-nos dois problemas graves que põem em causa o próprio equilíbrio social Português: em primeiro lugar, e dado tratar-se de uma competição desportiva, anulam de imediato tudo aquilo que de positivo o desporto e a competição deveriam promover. A convivência, o fair-play, a animação e a descontracção, dão lugar a autênticas batalhas campais e a sinais de selvajaria que são intoleráveis num Estado de Direito. São, por isso, intoleráveis. Em segundo lugar, e num momento em que (infelizmente) Portugal tem vindo a atravessar um período negro devido à onda de criminalidade que tem vindo a grassar, obviamente relacionada com a inexistência de meios policiais suficientes para darem conta do recado, parece absurdo que 590 agentes tenham sido destacados para darem conta da falta de civismo num jogo de futebol. E isso é, obviamente, intolerável.

Sem nada contra o futebol, que poderá ser, de forma óbvia e evidente, um entretenimento saudável para quem o apreciar, parece-nos totalmente inconcebível que o Estado permita a existência de claques organizadas em torno de valores não desportivos, e que, pela sua prática, obrigam à utilização de contigentes polícias desta envergadura para as controlar. Intolerável e inaceitável é ainda o facto de, para além de se auto-mutilarem e de, dessa maneira, destruírem a substância positiva que o futebol deveria promover, procederem da mesma forma perante o espaço público que atravessam para chegar aos estádios, o mobiliário urbano que pertence a todos os Portugueses, e os incautos concidadãos que tenham a infelicidade de com eles se cruzarem ao longo do trajecto.

Quem procede dessa forma, seja de que clube for; seja qual for a sua região de origem; Nacionalidade; tom de pele ou língua utilizada; deve ser preso. Pura e simplesmente. É para isso que, todos os meses e com aumentos exponenciais ao longo dos últimos anos, todos nós, cidadãos cumpridores, pagamos ao Estado. Para zelar pela ordem pública e pela segurança dos cidadãos.

Mas isso não se faz através da utilização de 590 agentes para acompanharem um jogo. Sobretudo se esses agentes são necessários para garantir o cumprimento das suas missões noutros espaços, áreas, regiões e actividades.

E para compreender esta lógicas e as prioridades policiais do passado fim-de-semana, só existem duas possibilidades: ou temos 590 agentes a mais nas forças de segurança Portuguesas (que não nos parece) e então vale mais despedi-los e com o dinheiro que se poupa investir noutras formas de garantir segurança; ou foram retirados a áreas onde fazem falta, e isso, mais do que qualquer outra coisa, é profundamente injusto para todos os cidadãos pagantes que ficaram impedidos de usufruir desse serviço.

Para concluir, o futebol é (tem de ser) uma festa. O futebol tem de ser fruído em segurança total e absoluta, e deverá acontecer dentro dos parâmetros da Lei.

Se assim não for, a única solução é proibi-lo. Interditar as claques que o não saibam ser; interditar os estádios que não possuam meios que permitam garantir esse princípio; extinguir os clubes que não sejam capazes de controlar as claques que conspurcam o seu nome e destroem a imagem de Portugal.

É que, conforme se vê nas notícias que permanentemente preenchem a comunicação social Nacional, o futebol é o único sector de actividade onde não falta dinheiro. E não faltando dinheiro, falta com toda a certeza vontade e coragem para pôr na ordem aquilo que em seu torno se passa.


terça-feira

Portugal e o Desporto





Por: João Aníbal Henriques

Foi em clima de apoteose, quase uma semana depois da onda de descalabro e de revolta que se instalou no País quando Naide Gomes perdeu a possibilidade de sair medalhada de Pequim, que a comitiva Olímpica Portuguesa chegou a Lisboa.

As declarações do Presidente do Comité Olímpico (o mesmo que dias antes havia assumido pessoalmente o completo falhanço e o abandono daquele organismo) impavam de orgulho pelos “melhores resultados de sempre alcançados em jogos olímpicos”…

De imediato, quando questionado sobre o anúncio do abandono feito em Pequim, o responsável apressa-se a dizer que é o seu enorme amor à causa que o impeliu ao anúncio irreflectido que fez. E que, para além de os resultados extraordinários alcançados o terem obrigado a repensar a decisão, eram também eles suficientes para que dali resultasse uma possível recandidatura ao cargo nas eleições que se avizinham.

As televisões e demais órgãos de comunicação social que ouviam o dito senhor, registando as palavras e a satisfação latente por tudo o que foi feito na China, nada mais conseguiram fazer do que aquilo que de facto fizeram… silêncio absoluto sobre o assunto!... e nem sequer acusaram o espanto que deveria resultar deste episódio.

Mas, se pensarmos bem, que mais haveria para dizer? Nada, como é evidente…

É que, desde o princípio, quando o desastrado Secretário de Estado adjectivou como débil a participação Portuguesa nos jogos, nos quais o Estado, ao longo dos últimos quatro anos investiu cerca de 14 milhões de Euros que pertencem a todos os Portugueses, todo o processo ficou marcado pela incoerência e pelo absurdo, não sendo possível agora sequer vacilar perante mais este episódio caricato da Portugalidade.

O desporto, na sua essência, e os Jogos Olímpicos em particular, são o apelo mais sublime a alguns dos valores que a sociedade ocidental, de essência humanista, procura implantar. O desapego aos resultados, e a tónica colocada no esforço, na determinação, na pujança, no brio, no respeito pelo próximo, e na honra em participar, deveriam ser (de forma inquestionável) as principais linhas balizadoras da participação de Portugal neste importante evento Mundial.

Portugal, como o infeliz Secretário de Estado terá pensado mas não terá conseguido dizer de forma aceitável, não pode ter a veleidade de entrar nestes eventos com o objectivo único de ganhar. De facto, e infelizmente, temos uma política educativa e desportiva miserável, marcada por um sistema onde não existem condições para que os Portugueses mais aptos possam profissionalizar-se. Temos falta de infra-estruturas, de meios humanos e técnicos, de saber e de capacidade organizativa… Não temos, por outro lado, dinheiro suficiente para transformar a participação nuns jogos destes num mega desígnio Nacional, nem tão pouco temos a possibilidade de massificar nos próximos anos (pelo menos enquanto se continuarem a fazer sentir as consequências de uma revolução de mote ainda pouco definido – e ainda temos muitos anos de sofrimento pela frente até isso acontecer…) a prática do desporto de qualidade nas nossas escolas.

Desta forma, e como a generalidade dos Portugueses não tem acesso à educação desportiva, são muito poucos aqueles que usufruem da possibilidade de serem identificados como potenciais campeões e de, com essa identificação, poderem ser alvo de um investimento estatal que dê frutos para o País.

Dependemos, por isso, única e exclusivamente da sorte (como tem acontecido amiúde ao longo da nossa História), e das capacidades extraordinárias de uns tantos que, pese embora as dificuldades inenarráveis com que se deparam no seu devir quotidiano, conseguem transcender-se e treinar, rentabilizando as enormes potencialidades que possuem e afirmando-se nas suas áreas desportivas de eleição. Felizmente para Portugal, que já se sabe que não conta, não contou nem certamente contará ao longo dos próximos anos com governantes capazes de governar, são muito e bons os exemplos de campeões que conseguiram afirmar-se dessa forma e que levaram bem longe o nome, o valor e a essência de Portugal.

A todos eles o País deve estar grato pela missão impossível que cumpriram.

Em desideratos desta monta, quando a afirmação Nacional é essencial, devemos ter a dignidade e a força de assumir os desafios e de, com o apoio inequívoco de todos, contribuir para que o brio, a responsabilidade, a perseverança, e o trabalho daqueles que vão aos jogos representar o País seja sinónimo de orgulho para Portugal.

Não precisamos de responsáveis titubeantes que prometem medalhas e negoceiam apoios financeiros com Governos poucos aptos a compreender os desígnios Nacionais; não necessitamos de desportistas que fazem o favor a Portugal de ir aos jogos pelos 1500,00 € que o Estado lhes paga por mês para se prepararem; não queremos atletas que assumem debilidades que não possuem e que colocam em costas alheias as razões dos seus desaires…

Mas necessitamos avidamente de Portugueses com orgulho de representarem Portugal, com a capacidade de assumirem quem são e o que fazem; e com vontade de chegar ao fim de cabeça erguida sabendo que deram o melhor pelo País. Nesses, nós que ficamos por cá, encontramos sempre, e independentemente do lugar que ocuparam no pódio, motivo de orgulho e de reconhecimento. Desses, no meio de uma plêiade de heróis, destacam-se uns tantos que se transcendem e ao próprio País e que trazem consigo as cobiçadas medalhas que os responsáveis tantos desejam.

Vamos ver agora o que acontecerá com o grupo de heróis que representará Portugal nos Jogos Para Olímpicos…

quinta-feira

O Estado "Débil" de Portugal...





por: João Aníbal Henriques

A menos de uma semana do início de mais uma edição dos Jogos Olímpicos, vem a público um representante do Governo Português dizer que “os jogos são uma tremenda aventura para um País débil como Portugal”.

A inóspita afirmação, que todos julgam ter sido feita com a melhor das intenções, enaltecendo o valor dos atletas Portugueses que, como se sabe, têm poucas ou nenhumas condições para prepararem a sua participação em eventos desta dimensão, representa um lapso linguístico que, para além de indesculpável do ponto de vista da responsabilidade do Estado, mostra bem a despreparação, o desentendimento e a total incapacidade que o sistema político Português possui para conhecer e compreender Portugal.

É que, apesar de “débil”, foi o Estado Português quem investiu muito dinheiro público para viabilizar esta participação Nacional; é que, por outro lado, foi o Estado Português que avalizou a qualidade dos nossos atletas, concedendo-lhes esses apoios; e das duas uma… ou esse Estado é incompetente, porque avaliou mal os atletas e, apesar das suas “debilidades” acabou por apoiar indevidamente a sua pretensão de viajar até Pequim à nossa conta; ou esse Estado é incompetente, porque tendo percebido que o nosso País é “débil” na área do desporto, mesmo assim deu-se ao luxo de gastar o dinheiro de que avidamente precisamos em Portugal só para que um grupelho de gente fosse passear ao Oriente…

Mas a verdade, e essa é inquestionável, é que todos sabemos que o desporto Português (goste-se ou não) está muito longe de poder ser considerado débil, e que os nosso atletas, na precariedade de condições que o Estado lhes oferece, têm levado bem longe o nome e a pujança de um País extraordinário que é Portugal.

A menos de uma semana do início das Olimpíadas, que muitos atletas Nacionais vão enfrentar depois de anos de preparação exaustiva e investindo a própria vida na expectativa de alcançar bons resultados, vem um representante do Estado falar de um País que não existe para além das paredes sombrias da Secretaria de Estado onde o acomodaram.

Portugal é muito mais forte; muito mais sólido; muito mais estruturado; muito maior de que este secretário de estado pode imaginar.

Nos últimos 850 anos, no meio das maiores vicissitudes e de verdadeiras “debilidades” Portugal soube impor-se no Mundo. Só que não sabe disto é o Estado que, conjunturalmente, dizem que nos governa…