Em 1385 a independência de Portugal foi salva por um homem. Chamava-se João das Regras. Criou uma nova dinastia - de Avis - e o Mundo novo em que agora vivemos. Foi devido a ele que a Europa se ligou à Ásia, à África, à América e à Oceania. Como prémio de vida o Rei Dom João I ofereceu-lhe o presente mais extraordinário do Portugal de então: o Senhorio de Cascais!
Blog sobre Portugal, os Portugueses, a sua História, e a realidade política, económica, cultural e social Nacional.
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sexta-feira
segunda-feira
Dom Fuas Roupinho no Castelo de Porto de Mós
por João Aníbal Henriques
Ao contrário do que é comum afirmar-se,
a matemática nem sempre produz resultados absolutos. Por vezes, a soma de duas partes não
origina a multiplicação linear do resultado, antes desenvolvendo um factor
potenciador que reforça o carácter inesperado desse mesmo resultado...
É o acontece na Cidade de Porto
de Mós, na Região Centro de Portugal, onde o horizonte surge bem vincado pelo
perfil inesperado do seu castelo. Tendo ficado a história da sua origem
definitivamente perdida no tempo, até porque não se conhece com exactidão a
data que marca a construção da estrutura actual, o Castelo de Porto de Mós
ocupa um local estrategicamente essencial para a defesa da povoação circundante
e de todo o território Nacional. Antes dele, existiria no mesmo sítio uma
antiga fortificação de origem árabe, que foi conquistada logo em 1148 pelos
exércitos chefiados por Dom Afonso Henriques, e que, por seu turno, veio sobrepor-se
a uma estrutura anterior, provavelmente remontando ainda ao período neolítico.
O castelo que hoje ali vemos,
cuja base estrutural foi definida durante o reinado de Dom Sancho I, é o
resultado da soma de diversos contributos de várias civilizações que nos
antecederam e, também, de vários estilos arquitectónicos e artísticos. Mas, tal
como acontece com a matemática, a soma de todos estes contributos é amplamente
maior do que cada uma das partes que o compõem…
Reza a lenda que o Castelo de
Porto de Mós foi entregue, logo em 1148, ao ilustre fidalgo Dom Fuas Roupinho.
Desconhecido documentalmente (ainda) o fidalgo Português foi um dos principais
conselheiros do fundador da Nacionalidade, tendo simultaneamente assumido o
papel de primeiro Almirante da Esquadra Portuguesa. Fernão Gonçalves Churrichão
de seu nome verdadeiro, entrou na História devido à sua participação no
denominado ‘Milagre da Nazaré’, consolidando o prestígio e o poder que já
detinha por ter sido membro activo e importante da Ordem dos Cavaleiros do
Santo Sepulcro, ou seja, dos Cavaleiros Templários.
Quando caçava na Nazaré, durante
o período em que assumiu funções como Senhor de Porto de Mós, Dom Fuas Ropuinho
terá sido envolvido por uma espessa cortina de nevoeiro que, toldando a sua
vista, o impediu de perceber que cavalgava de forma intrépida em direcção ao
precipício que exista junto às falésias. Ao dar conta da desgraça eminente, e
ao perceber que estava num local muito próximo da uma gruta onde se venerava
uma imagem de Nossa Senhora, terá pedido a sua ajuda e intervenção que foi
imediatamente concedida. A Virgem fez estancar o cavalo à beira do precipício,
onde deixou uma marca bem visível na rocha, evitando a morte certa do fidalgo
Português. A devoção que desenvolveu por essa imagem, bem como a Fé profunda
que tinha no seu poder junto da sua própria vida, fez com que ali mandasse
construir uma capela dedicada a Nossa Senhora da Nazaré, que se situa
precisamente sobre a velha gruta onde o cavalo foi mandado parar pela mãe de
Jesus.
O veado que Dom Fuas caçava
naquele importante dia da sua vida enquanto Senhor de Porto de Mós, é
interpretado em termos simbólicos como sendo a própria figura do Demo, num
impulso de tentação com o qual terá tentado destruir o piedoso Templário. É,
por isso, uma luta prolixa entre o bem e o mal aquilo que trata esta lenda,
cujas reminiscências mais profundas, perdidas provavelmente para sempre no
devir histórico de Portugal, alavancam a lei dos contrastes que explica e
enriquece a Identidade Nacional.
É, por isso, num cenário
miraculoso que o Cavaleiro Templário faz nascer a sua lenda e é sobre ela,
assente num imaginário colectivo que carrega consigo velhas tradições
ancestrais, que Dom Fuas Roupinho dá corpo ao mais profundo, significante e
importante legado que corporiza a formação da Nacionalidade, resgatando das
profundezas das antigas tradições da sabedoria a chama com a qual aquece o
caldeirão alquímico sobre o qual se construiu Portugal. De facto, o novo País
nasce em ligação estreita e profunda com o ideário mariano de matriz Cristã.
Mas, na sequência daquilo que foi a cristianização do actual território
Nacional, grande parte dos valores, doutrinas e ritualísticas associados à nova
práxis religiosa, são afinal resultado da evolução natural de várias ideias
arquétipas que, mesmo sendo Pré-Cristãs, integram em si precisamente os mesmos
princípios que hão-de orientar o surgimento da mais revolucionária das
religiões Ocidentais. Entre o Cristianismo e as religiões que o antecederam,
tal como entre o Castelo de Porto de Mós e as fortificações e construções que
antes dele ali existiram, existe uma linearidade evolutiva que ao contrário do
que é comum dizer-se, pautou-se pelo respeito e pela confiança, num cenário de
evolução no qual a palavra cisão não fazia qualquer sentido.
A soma das partes, também na vida
de Dom Fuas é maior do que as partes em si próprias, fomentando um potencial de
significado que transcende largamente a história da sua própria vida.
No caso de Porto de Mós, diz a
lenda que Dom Fuas Roupinho não teve tarefa fácil. Depois de receber o encargo
de defender a localidade de eventuais investidas inimigas, não conseguiu evitar
que os exércitos muçulmanos viessem a recuperar o domínio da sua fortificação.
Mas ele, provavelmente fazendo uso dos conhecimento que detinha pela sua condição
de Cavaleiro Templário, terá encontrado um estratagema que lhe permitiu
recuperar a praça pouco tempo depois do malogrado acontecimento, num laivo
miraculoso cujos ecos perduram ao longo do tempo…
Em termos estruturais, o Castelo
de Porto de Mós que hoje vemos já pouco tem a ver com a estrutura medieval
inicial. Sucessivas campanhas de obras, que assumem o cenário idílico onde o
mesmo se ergue, com vista sobre a serra e o Vale do Lena, vão progressivamente
retirando à edificação a sua carga militar e transformando o velho castelo num
magnífico palácio onde se privilegiava a apreciação das artes e das letras. A
sua fachada actual, com os torreões cobertos de telha verde que se transformou
no ex-libris da localidade, foi construída no Século XV pelo 4º Conde de Ourém,
filho dos primeiros Duques de Bragança. E é novamente nessa ligação quase
genética ao imaginário Nacional, que Porto de Mós recupera o carácter vincado
da sua importância simbólica e a originalidade de uma existência onde a lenda
se volta a misturar com a realidade.
Isto porque, em 1385, Porto de
Mós tomou partido pelo Mestre de Avis. E, em consequência disso, foi ali que
estiveram aquarteladas as tropas nacionais nas vésperas de seguirem para
Aljubarrota, onde por intercessão de Nossa Senhora, e sob a orientação
estratégica de Dom Nun’Álvares Pereira, alcançaram uma das mais significantes
vitórias militares em toda a História de Portugal. Por reconhecimento ao seu
Condestável, o novo Rei Dom João I, simultaneamente Mestre de Avis e pai da
Ínclita Geração que haveria de dar novos mundos ao Mundo e oferecer a Portugal
a sua vocação hermética, oferece Porto de Mós a Nun’Álvares Pereira que ele,
enquanto Grande-Construtor de universos, lega por seu turno à sua filha e
genro, precisamente os primeiros Duques de Bragança. Mantém-se visível e
actuante, desta maneira, a consagração de Porto de Mós à mais profunda tradição
iniciática de Portugal, reconvertendo a sua linha de cenário num objecto pleno
de importância para quem quiser compreender verdadeiramente a razão de ser da
própria existência deste País sem igual.
O sinal marcante deste processo
de consolidação estrutural surge perfeitamente identificado com a Cruz de
Cristo e, por isso, com a própria Alma de Portugal. É ela que encabeça o
esforço inicial de Roupinho na sua faceta Templária e é ela também quem surge
enfunada nas velas que movem as naus que farão os Descobrimentos de Portugal. Diferente
da latina, a Cruz de Portugal que se corporiza em Porto de Mós é praticamente a
mesma que marca o ‘Centro do Universo’ na milenar Cidade Proibida de Pequim, da
mesma forma que é semelhante em termos físicos e de significado, às cruzes
Coptas pré-Cristãs que se encontraram na antiga Abissínia.
Depois de ter sido bastante destruído
pelo grande terramoto de 1755, o Castelo de Porto de Mós foi sucessivamente
alvo de várias campanhas de obras que consolidaram a sua vocação palaciana.
Actualmente, numa cenografia
arquitectónica definida pelo apelo à beleza e à arte, Porto de Mós é uma
espécie de capital espiritual de Portugal. O seu castelo, outrora essencial
para defender militarmente a independência do País, defende agora (e é
essencial) a própria Alma de Portugal.
quarta-feira
A Rainha Dona Filipa de Lencastre e o Palácio de Sintra
por João Aníbal Henriques
Casada com o Rei Dom João I,
lendário Mestre de Avis e fundador da segunda dinastia Real Portuguesa, a
Rainha Don Filipa de Lencastre, de ascendência inglesa e chegada a Portugal em
1387, foi uma das mais importantes e marcantes figuras da História deste país.
A fama de santidade que a rodeia,
ligad à reconhecida castidade que se associava a uma cultura fora do normal,
ficou aquém do maior dos feitos que em território Nacional deixou como legado.
Os seus filhos, que Pessoa eternizou como a “Ínclita Geração”, foram a sua obra
maior, num País onde as marcas da Idade Média eram ainda nessa época muito
importantes e no qual a educação e o requinte eram matéria sobejamente
desconhecida das elites reinantes.
Os conhecimentos de línguas
estrangeiras que possuía, bem como a capacidade de compreender um Mundo que bem
conhecia, dotaram-na do espírito necessário para empreender a autêntica
revolução modernizadora que deu forma ao novo Portugal. Descendente da Casa
Real dos Plantagenetas, de quem as más-línguas da sua época diziam que herdara
uma dureza na sua relação com os outros, Filipa trazia consigo os traços
fisionómicos da sua família, marcando pela diferença a sua presença no país que
a acolheu. Loira e de olhos azuis, com a pele clara que a falta de Sol
característica da Britânia sempre confere, deixou essas características na face
dos seus filhos e netos, os quais foram sempre marcadamente o resultado do seu
enorme carisma e da sua musculada forma de viver.
Em Sintra, onde viveu muito tempo
e onde literalmente se apaixonou por Portugal, encontra-se hoje o maior dos
monumentos que atestam a sua memória. O Palácio Real da Vila, com as suas
icónicas chaminés altivas, numa sobranceria que se impõe na paisagem e até na
definição daquilo que há-de ser a identidade onírica da vila, foi quase todo
obra sua, uma vez que foram de sua autoria as enormes obras de remodelação que
ali se empreenderam durante o Reinado de Dom João I.
Simbolicamente associada à Rosa
Encarnada, simultaneamente representando as suas origens plantagenetas e o seu
cunho de rainha alquimista que transforma um País em linha com as suas
principais crenças e convicções, Dona Filipa de Lencastre foi sempre, durante
todo o seu casamento, a pedra angular que definiu a conduta do seu marido e,
depois da sua morte, a dos seus filhos durante o processo magistral dos
descobrimentos. A rosa, verdadeiramente flor que significa a pureza virginal e
o esplendor máximo da Obra Divina na Terra e também a verdadeira cruz, carrega
consigo a chave que permite compreender a sua mítica capacidade para recriar
pontes entre a vivência tradicional Portuguesa e a distante e diferente
Inglaterra. A sua cruz, distinta da Cruz Romana que o Catolicismo tradicional
Português até aí consagrava como expoente máximo dos seus laivos de Fé, ganha
vida e movimento ao ser plasmada na rosa que a rainha transporta a peito.
Torna-se vida, fomentando a dinâmica do movimento, trazendo assim uma mensagem
diferente ao povo Português, cujo cerne mais profundo, justamente encoberto
pelo segredo do conhecimento verdadeiro, foi conhecido e compreendido por
Fernando Pessoa que o integrou na sua mais grandiosa obra sobre os feitos do
génio Português.
Na hora da morte, que aconteceu
em Odivelas em plena campanha de conquista de Ceuta pelos seus filhos, acontecimento
que há-de ser o mais marcante de todos os que definem a História Portuguesa por
ter representado o arranque do movimento das descobertas marítimas, diz a lenda
que foi dando conta de forma consciente de todos os passos pelos quais ia
passando. Depois de receber os derradeiros sacramentos, que marcavam o início
do processo de desligamento da vida material, a rainha ainda teve ensejo para
saber dos avanços do exército dos seus filhos no Norte de África, e de ouvir
uma última vez os cânticos sagrados do corpo eclesiástico que sempre a
acompanhava.
Depois do seu passamento foi
enterrada no Mosteiro de Odivelas, de onde foi posteriormente transladada para
o Panteão Real construído por Dom João I no Mosteiro da Batalha.
Carlos e Diana em Sintra numa Homenagem à Rainha Filipa de Lencastre
Numa iniciativa da British
Historical Society of Portugal, Suas Altezas Reais os Príncipes de Gales,
Carlos e Diana, estiveram em Portugal em Fevereiro de 1987 para homenagear a
sua conterrânea a Rainha Dona Filipa de Lencastre, mulher de Dom João I. A
colocação numa das paredes do Palácio Real de Sintra de uma lápide e de um
alto-relevo com o busto da rainha, representou o ponto mais significante do
vasto programa de comemorações do 600º aniversário do casamento Real, que
celebrou também a mais antiga aliança internacional celebrada por Portugal. Dona
Filipa de Lencastre, para além de mãe da Ínclita Geração que deu novos mundos
ao Mundo, foi também uma apaixonada por Sintra e pelo seu palácio, no qual
viveu durante longas temporadas e cujas obras de reconstrução foram por si
supervisionadas directamente.
segunda-feira
Pax Júlia e o Castelo de Beja
por João Aníbal Henriques
São muito raras as cidades, sejam
elas situadas no actual território Português ou fora dele, que podem
orgulhar-se de ostentar um topónimo tão significativo como Beja. O actual nome
da cidade, recuperando o topónimo ancestral (provavelmente pré-histórico) do
local, deriva da palavra baja, ou seja, lama ou lodo, trazendo à memória a
fertilidade excepcional dos terrenos agrícolas que envolvem a cidade. Mas,
durante o processo de romanização, iniciado provavelmente no primeiro século
antes de Cristo, adquiriu a designação latina de Pax Julia. O pax reverte para
o processo de pacificação das populações célticas que foram invadidas pelos romanos,
e o epíteto Julia tem a ver com o nome do Imperador que deu forma a esse
processo de paz: Júlio César.
Beja é, por isso, cidade
simultaneamente de paz e de fertilidade, ou seja, tem tudo aquilo de que o Ser
Humano necessita para viver bem e usufruir da sua vida! A planície alentejana,
dourada pelo restolho quente que dá forma e corpo ao ciclo agrícola, perpetua
no tempo os valores antigos de gerações e gerações de Portugueses que se vão
substituindo umas às outras neste espaço imenso.
E a História de Beja é longa e
profícua. Inicia-se provavelmente durante a pré-História, como o indicam os
muitos vestígios arqueológicos existentes nas redondezas, e afirma-se de forma
peremptória durante o calcolítico quando ali foi construído um povoado
fortificado que ocupava o espaço onde hoje se situa o castelo.
Quanto a este, altaneiro a partir
das suas muralhas antigas, é produto da evolução dos tempos e das necessidades
pelas quais foram passando os muitos pacenses que foram habitando o lugar. Se
as primeiras pedras foram colocadas ainda antes da História, tendo-se perdido o
seu rasto nos complicados repositórios da memória popular, certo é que os laivos
da fortificação mais resistente serão de origem romana. André de Resende, o
historiador quinhentista de Évora, assegura, embora sem fontes fidedignas que o
atestem, que o local onde hoje se situa o castelo de Beja foi outrora ocupado
por um oppidum romano, ou seja, uma fortificação de carácter simples e planta
circular, cuja principal função seria a de proteger aqueles que governavam a
cidade.
O próprio Júlio César, cumulado
de glória por ter conseguido conquistar os anteriores habitantes do local,
subjugando-os pela força do seu exército mas também pelo carácter imperioso da
cultura que o Império Romano representava, terá estado ali para formalizar a
paz que conseguira assegurar. O período romano, foi assim uma época de grande
prosperidade para a cidade, que foi simultaneamente sede de convento – o Conventus
Pacencis – e sede de uma das chancelarias da Lusitânia. Por ali passava uma das
principais vias romanas, que permitia a ligação directa à capital do Império, corporizando
um impulso urbanístico cujos vestígios são ainda hoje visíveis um pouco por
toda a cidade.
O declínio do Império Romano e a
sua progressiva desagregação, sendo sinónimo de uma diminuição paulatina do
poder detido pelos invasores, representou também ele o início de um período de
maior instabilidade no actual território alentejano e, por extensão, na própria
cidade de Pax Julia. Os ataques dos bárbaros, sistemáticos e sucessivos ao
longo de vários séculos, traduziram-se em várias conquistas e reconquistas que,
como facilmente se percebe, significaram também saques e destruição,
delapidando as muitas riquezas que existiam na cidade. Será porventura dessa
época o período de maior destruição das muralhas do castelo. Sem tempo nem
estabilidade para serem reconstruídas, o processo natural de erosão das mesmas
e a incapacidade de se proceder a obras de reconstrução, gerou um processo de ruína
acentuado, do qual não escaparam as necessidades práticas e quotidianas de
pedras para utilização noutros equipamentos e em casas que foram sendo
edificadas. É ainda hoje muito fácil encontrar nas ruas de Beja, casas e muros
onde são notórias as grandes pedras retiradas da anterior fortificação da
cidade e que, século após século, foram dando forma à urbe que hoje ali
encontramos.
Já na idade média, durante o
domínio árabe, foi Beja novamente retransformada numa das mais importantes
cidades do Alentejo. Os ocupantes muçulmanos, ali chegados no ano de 711, propuseram-se
recuperar o traçado urbano antigo e é dessa época a transição do topónimo
romano – Pax Julia – para a ancestral Baja. No entanto, quer pelas guerras internas,
quer possivelmente pelas alteração dos eixos estratégicos dentro do território,
não voltou Beja a recuperar a grandiosidade de outros tempos.
As notícias mais recentes na
História da Cidade e do seu castelo são assim do século XII, quando Fernão Gonçalves,
chefiando um grupo de populares oriundos de Santarém, ataca a cidade de
surpresa alcançando uma vitória retumbante. Embora tivesse sido sol de pouca
dura, porque logo depois os inimigos muçulmanos conseguiram voltar a recuperar
a cidade, o certo é que até este primeiro esforço de reconquista mostra bem o
estado lastimoso em que Beja se encontrava. Um grupo mal armado e mal
preparado, naturalmente motivado pela possibilidade do saque a que a vitória do
seu ataque daria direito, avança de forma amadora e despreparada sobre as
velhas muralhas e facilmente as consegue conquistar.
O regresso ao controle cristão não
está devidamente documentado, mas um estudo comparativo com o que aconteceu nas
redondezas, permite supor que Beja terá regressado à Coroa Portuguesa algures
entre 1232 e 1234, dado terem sido estas as datas em que tal processo aconteceu
com as vizinhas cidades de Moura, Serpa e Aljustrel. Mas o seu velho castelo,
destruído por sucessivos séculos de ataques e de abandono, só virá a conhecer
obras de recuperação com o Rei Dom Afonso III que em 1234 atribuiu o foral à
cidade.
O Rei Dom Dinis, depois de
confirmar o foral inicial, dedicou-se também à reconstrução do castelo, sendo
da sua responsabilidade a generalidade dos amuralhamentos que ali hoje vemos.
Foi também ele quem, por necessidades práticas associadas à consolidação da
fronteira Nacional, mandou edificar a torre de menagem que é hoje um símbolo de
Beja. Com cerca de 40 metros de altura, o que faz dela a mais alta de Portugal,
foi concebida de forma similar àquela que existe no Castelo de Estremoz, tendo
sido concluída provavelmente durante o reinado de D. João I, o fundador da
Dinastia de Avis, à qual Beja se manteve firmemente fiel durante o conturbado
processo político de 1383-1385.
Depois deste período, novamente
no Século XVI se realizam obras no castelo, desta vez para o adaptar às
modernas exigências técnicas da guerra, que já não se compadecia com a
formulação eminentemente medieval da velha fortificação. Apesar deste esforço
modernizativo, Beja foi completamente destruída pelas tropas napoleónicas
durante as invasões francesas, tendo depois disso mantido o seu carácter
humilde de cidade de província, estatuto que manteve até ao final da primeira
metade do Século XX.
A partir daí, fruto de uma grande
aposta do Estado, Beja conheceu um novo período de crescimento. Viu construídas
várias escolas e um grande hospital, tendo recuperado alguma das suas antiga
pujança. Para surpresa de muitos, ali se construiu um aeroporto internacional,
nos idos de 2011, que apesar de não apresentar movimento (!?) é hoje o
ex-libris das modernas obras públicas na cidade!
Mantendo nas suas armas municipais
a figura do touro, recuperado da velha lenda que nos conta a forma como Beja
conseguiu matar uma cobra venenosa que aterrorizava os habitantes da cidade, a
urbe é hoje um símbolo muito firme da força e da perseverança que sempre
caracterizou as suas gentes, sendo capaz de se afirmar como um espaço de
excepcional importância para compreender Portugal e para perceber as origens da
identidade Portuguesa.
A paz que a cidade ostenta,
cobrindo de glória os muitos motivos de interesse para uma visita e a
inesgotável fonte de História e de história que a cada canto e recanto
representam, são marca indelével de um sentido de Portugalidade que é urgente
compreender.
sexta-feira
A Capela de Nossa Senhora da Vitória e o Paço Medieval de Rio Maior
por João Aníbal Henriques
Nossa Senhora da Vitória, em
pleno centro histórico da Cidade de Rio Maior, é uma capela com características
singelas mas que esconde um vastíssimo manancial de segredos históricos.
Não se conhecendo com exactidão
as suas origens, sabe-se, no entanto, que foi construía sobre ruínas de
ocupações anteriores. Escavações arqueológicas efectuadas no seu interior e no
espaço envolvente, desde o adro fronteiro até ao antigo edifício dos bombeiros,
vieram comprovar que seria ali o antigo Paço Senhorial de Rio Maior, mencionado
por Fernão Lopes nas suas “Crónicas d’el-Rei Dom João I de Boa Memória”. Existindo
já no Século XIV, terá sido ali que se passou um dos mais rocambolescos
episódios da História de Portugal, quando o irmão da Rainha Dona Leonor, mulher
do Rei Do Fernando, terá chegado a Rio Maior para matar o Conde Andeiro, cujas
ligações amorosas com a sua irmã traziam imenso escândalo à corte de então.
O antigo paço, também designado
como “Real” em alguma documentação, por ali terem pernoitado vátios monarcas
Portugueses ao longo da sua vasta história, seria assim uma forma de
aproveitamento da topografia natural do local. Sobrelevado relativamente ao
resto do burgo, a colina onde se situa o templo personificaria uma forma
natural de defesa relativamente a possíveis perigos que pudessem advir, sendo
por isso muito natural que tenha sido utilizada desde tempos muito recuados
como ponto central a partir do qual se desenvolveu a actual cidade.
No decorrer das várias campanhas arqueológicas
ali realizadas, foi possível encontrar pelo menos três níveis diferenciados de
ocupação e que, no espaço interior da capela, recuam até ao Século, quando ali
foi enterrada uma criança de tenra idade cujas ossadas foram levantadas numa
dessas intervenções. Também se encontraram, no entanto, vários materiais
anteriores, em níveis não consolidados e impossíveis de datar, mas que, dada a
interacção com os documentos coevos, sugerem ter sido este espaço pertença de
um mais antigo templo que terá existido dentro do próprio Paço Real.
Sem acesso público nem culto, uma
vez que é desde há bastante tempo utilizada como depósito dos materiais
arqueológicos recolhidos em Rio Maior, a Capela de Nossa Senhora da Vitória
terá sido assim baptizada depois da vitória de Dom João I em Aljubarrota perante
o exército castelhano. Antes dessa data, por ter pertencido à Irmandade das
Almas, ter-se-á chamado Capela das Almas.
O enquadramento cenográfico deste
tempo, num espaço simbolicamente associado ao devir histórico da cidade,
apresenta um imenso potencial turístico que, se conjugado com as muitas
estruturas construtivas de diversas épocas que foram encontradas em seu torno
(e que estão preservadas debaixo da calçada que dá forma ao seu adro), poderá
um dia sustentar a criação de um pólo de grande interesse para a região de
turismo do Ribatejo.
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