domingo

A Geografia Medieval de Cascais




Por João Aníbal Henriques

A geografia medieval de Cascais, associada à implantação do antigo castelo e, mais tarde, à readaptação do espaço às circunstâncias que derivam dos vários episódios rocambolescos pelos quais passou a Vila, é hoje bastante fácil de decifrar. Descobertas modernas, efectuados um pouco por todos os arquivos históricos em Portugal e Espanha, permitem definir com alguma clareza a forma como se organizou o espaço e a vivência das suas gentes.

Se, por um lado, a monumentalidade da concepção arquitectónica do seu castelo não deixa indiferente aquele que o visita, por outro, e no que ao Castelo Medieval de Cascais diz respeito, foram muitos aqueles que se sentiram de tal forma marcados pela visão de tão vetusto monumento que optaram como eternizá-la em mapas, figuras e gravuras que se estendem ao longo dos tempos e das épocas históricas. Estas, que vão desde o esboço a carvão de um mero retrato até ao complexo mundo da cartografia, conseguem trazer até nós um pouco daquilo que foi este recinto amuralhado, quase desde a época áurea da nossa Nação até aos inícios do Século XX.



Para este conhecimento contribuiu o esforço de uma série de pessoas que, estudando com empenho os arquivos Nacionais e estrangeiros, conseguiram trazer para a actualidade toda a documentação que tornou possível este trabalho. De entre elas, salientamos a da Drª. Margarida Magalhães Ramalho, que procurando no Arquivo de Simancas, em Espanha, fontes para complementar as escavações arqueológicas que dirigiu na antiga Fortaleza de Nossa Senhora da Luz, na Cidadela de Cascais, conseguiu trazer à luz do dia e ao público em geral, duas imagens inéditas deste castelo, que aliadas àquelas que nos mostram Ferreira de Andrade, Carlos Ribeiro e Guilherme Cardoso, permitiram a reconstituição quase completa da forma do mesmo.

Assim, na mais antiga descrição que se conhece da Vila, a figura datada de 1572 da autoria de George Braunius, impressa na sua obra “Civitias Orbius Terrarum”, pode ver-se a vila envolvida pelas muralhas, que possuíam sete torres, sendo as do lado Nascente de forma circular. Junto à praia, uma barbacã defendia o areal dos desembarques do inimigo e é a única porta que vislumbramos aberta na muralha. A torre Sul do castelo é a única que possui telhado e tem geminadas duas construções que seriam, provavelmente, as casas do Conde de Cascais.

O Professor A.H. de Oliveira Marques diz-nos, acerca da topografia da Vila Medieval de Cascais, que muito pouco se pode saber. No entanto, e também em comparação com a já referida Gravura de Braunius, ele sublinha o seguinte: “O confronto com planta actual e com as mais antigas plantas de Cascais, que datam do Século XVII, permite aventar uns 0,6 Há para a área compreendida dentro da cinta amuralhada”. Este autor aponta-nos ainda o facto de originariamente este castelo se situar no ângulo Sueste do perímetro amuralhado.

Segundo Manuel Acácio Pereira Lourenço, as muralhas deviam ocupar uma pequena área, e teriam sofrido uma série de transformações e melhoramentos, que nas suas estruturas externas, que nas suas dependências senhoriais, pelos vários senhores que decerto aí residiram: “Desde os meados do Século XIV que há notícias de que parte da Vila já era cerca de muralhas que deviam ocupar uma pequena área, a qual se pode circunscrever hoje ao espaço existente entre a Estrada Marginal, a Sul, a Rua Marques Leal Pancada, a Norte, a Rua Luís Xavier Palmeirim, a Oeste, e a escarpa sobre a Baía, a Leste. Dentro destas muralhas, e na sua face Norte existia o castelete, que era, presumivelmente, o palácio dos donatários. É possível que o primeiro donatário, Gomes Lourenço de Avelar, já ali possuísse a sua habitação, como é certo que o arrogante Henrique Manuel de Vilhena ali residiu. Porém, se qualquer destes dois donatários ali fez obras importantes, é mais provável que João das Regras, pela alta importância da sua personalidade, longa vida e frequente permanência em Cascais, tivesse feito maiores instalações, depois melhoradas e ampliadas pelo genro”. E é ainda este autor que nos propõe uma lista de moradores que em épocas que se seguiram, devido à perda de importância do castelo, ali passaram a residir permanentemente.

Carlos Ribeiro, numa das publicações dos Serviços Geológicos Portugueses, dá-nos uma panorâmica da Costa de Cascais, onde se podem ver o castelo, o Convento de Nossa Senhora da Piedade, o porto do Marégrafo e ainda a Fortaleza de Nossa Senhora da Luz. Esta panorâmica, datada na publicação do Século XIX, não poderá, no entanto, ser considerada válida como elemento descritivo da Costa de Cascais, uma vez que apresenta graves faltas no que concerne ao posicionamento de certos componentes no desenho.

Assim, aponta-nos uma ligação entre o antigo Castelo Medieval de Cascais e a actual Cidadela. Por outro lado, o Convento de Nossa Senhora da Piedade que, como hoje se sabe, ficou muito danificado como consequência do grande terramoto de 1755, aparece-nos aqui completamente erguido de acordo com as descrições dos Frades Carmelitas que aí habitaram. Um varandim trabalhado e decorado que hoje se encontra na fachada Sul do edifício, e que o Visconde da Gandarinha aí mandou colocar após ter adquirido as ruínas do antigo edifício em meados do Século XIX, aparece-nos nesta gravura no seu local original de antes do terramoto, ou seja, na fachada Este. A descrição que aí se encontra do arco de entrada para o sítio do castelo, situando-se a cerca de sete centímetros, no desenho, a Sul do porto marégrafo, colocá-lo-ia no mesmo sítio onde no Século XIX se encontraria a Cidadela e a Fortaleza de Nossa Senhora da Luz.

Tomando esta gravura como verdadeira, ela representaria uma realidade que se situaria cronologicamente entre os Séculos XVI e XVII, pois torna-se completamente obsoleta a representação da Cidadela, sem espaço de divisão até ao Castelo, e ainda para mais encontrando-se a Norte do Convento, que actualmente se sabe, e este facto pode ainda ser verificado ‘in locco’, situar-se exactamente e em perfil, no espaço que se situa entre as duas construções.

Para além da figura de Braunius, existem ainda algumas figuras mais recentes, mas que no entanto dão contributos bastante importantes para o conhecimento da localização do antigo Castelo Medieval de Cascais. A planta desenhada por Filipe Terzio, recolhida também pela Drª. Margarida Magalhães Ramalho no Arquivo de Simancas, apresenta a Fortaleza de Nossa Senhora da Luz, a Casa do Visconde Monsanto e a Vila Velha em perspectiva, seguida da seguinte legenda: “Plano de Cascaes en donde figuran en prespectiva las fortalezas nueva e vieja asi como las casas de Don António, señor de Cascaes. Lisboa 22 Jenero 1594”.

Nesta planta, a Vila Velha aparece-nos englobada dentro das antigas muralhas medievais do castelo, sendo composta de cerca de onze habitações e de umas cavalariças. O acesso a esta área era feito através de uma porta lateral que daria para a actual Rua Marques Leal Pancada. Junto a esta porta está desenhada em perspectiva uma das torres circulares do castelo, que possivelmente será aquela que ainda em finais da década de quarenta do Século passado, o Visconde Coruche terá fotografado. Segundo a opinião de Guilherme Cardoso e João Pedro Cabral, seria esta a Torre do Relógio: “A torre onde estava o relógio é a torre do lado Nascente da torre porta, conforme a Planta de Terccio e era de configuração circular (…)”.

Segundo a Drª. Margarida Magalhães Ramalho, e de acordo com o que se pode ver nesta figura, a torre possuiria três andares: “De três andares, com um pequeno “varandim” entre o segundo e o terceiro piso é encimada por uma pequena cúpula”.

Outra das plantas que nos pode esclarecer acerca de delimitação geográfica do Castelo de Cascais é da autoria de Leonardo Turriano, datada de 28 de Abril de 1597. Tem esta figura a seguinte legenda: “Plano de Cascaes que represente en la parte superior el monasterio de Santo António y en la parte inferior el fuerte, jardines y casa del conde de Monsanto junto a la muralla del castillo viejo com el diseño de una trinchera que ha de efectuarse para su defensa por Leonardo Turriano 28 de Abril de 1697”.



Neste desenho podemos reconhecer a forma como o Palácio dos Senhores de Cascais terá sido implantado sobre um dos pedaços de muralhas hoje desaparecidos, na fachada Nascente do mesmo castelo, destruindo, para a sua construção, algumas das torres que ladeavam as muralhas.

As restantes plantas da Vila de Cascais, todas elas da autoria de desenhadores Italianos ao serviço do Rei de Espanha, pouco ou nada adiantam à descrição do Castelo de Cascais, uma vez que são decalques umas das outras, efectuadas com o propósito de informar este Monarca do estado em que se encontravam as fortalezas Portuguesas, neste caso específico da de Nossa Senhora da Luz, pouco mais dizendo relativamente ao Castelo Medieval ou a outros aspecto do devir urbano da maravilhosa Vila de Cascais.

Somente a título de curiosidade, o autor de uma delas, o Italiano Frei Vicenzio Casale, faz a seguinte legenda da sua planta: "Hazer modello de Casquaiz ansi del castillo com de la villa metiendo dentro la Iglesia q se haze aora y la casa del señor e unos redutos q aj."

Segundo Guilherme Cardoso e João Pedro Cabral, nos seus "Apontamentos Sobre os Vestígios do Antigo Castelo de Cascais", existiam várias portas que davam acesso ao Castelo de Cascais: "Eram duas as portas do castelo, se bem que anteriormente tenha existido uma outra na barbacã, sensivelmente onde hoje são as escadas ao fim da Rua Manuel de Araújo Viana. O "títolo 140º, lixo na porta pequena do livro de posturas da câmara - 1587-1837" refere-nos a existência de uma porta pequena no lado do mar. O "títolo 63º" do mesmo livro sobre o "lixo e a sugidade na villa", refere também a porta pequena que ficava abaixo do castelo redondo do senhor. A referência a uma porta pequena deixa implícita a existência de uma outra porta, que considerada em oposição, deveria ser maior. Essa porta pequena consta na Planta de Terccio e localizava-se senvolvelmente onde hoje são as escadas do arruamento que parte do Sítio do Castelo".

O facto é que ainda hoje, ao subirmos a íngreme ladeira que faz a Rua Marques Leal Pancada, podemos encontrar restos do antigo Castelo Medieval de Cascais. Aqui, nota-se uma grande porta há muito emparedada que, pelo facto de ter figurado o Escudo dos Castros, encimado pela Esfera Armilar, poderá ser considerada como a principal porta do castelo. Esta parte, apesar das modernas intervenções que sofreu, apresenta ainda as seteiras autênticas e o já mencionado escudo.

Ainda na mesma Rua Marques Leal Pancada existe uma outra porta em forma de arco. Segundo a maior parte das opiniões, essa porta, onde se pode ler uma breve alusão Às reuniões dos homens bons de Cascais que aí ocorreriam, teria sido aberta em época muito posterior, não fazendo parte da configuração original da fortificação.

Por tudo o que aqui foi apresentado, pode concluir-se que o Castelo de Cascais, embora de raízes perdidas na bruma dos tempos, conserva ainda hoje vários vestígios que nos permitem perceber que foi na Época Medieval que ocorreram as maiores e mais marcantes intervenções no casco urbano de Cascais.

Em termos grográficos, a área do antigo Castelo Medieval é delimitado na actualidade pela Avenida Dom Carlos I, pela Rua Luís Xavier Palmeirim e pela Rua Marques Leal Pancada. Lá dentro, o perímetro amuralhado compreenderia a actual Rua Major Augusto Escrivanis, a Rua Manuel de Araújo Viana, a Travessa Tenente Valadim e a Rua Tenente Valadim.

As suas muralhas, servindo altaneiramente a Causa Nacional, erguiam-se sobranceiras ao mar, e continham no seu interior, para além do Palácio dos Senhores de Cascais, um núcleo de casas de habitação que posteriormente serviram para albergar grande parte da população de Cascais.



segunda-feira

O Castelo Medieval de Cascais





por João Aníbal Henriques

O Castelo Medieval de Cascais, de que hoje já só restam algumas das inúmeras pedras que contribuíram para o seu esplendor, reveste-se, desde tempo imemoráveis, de uma cortina de fumo que, de uma maneira ou de outra, tem despertado a atenção de historiadores, poetas e artistas plásticos.

Como hoje conhecemos, através da recente descoberta nos arquivos de Simancas pela Drª. Margarida Ramalho, ilustre arqueóloga do nosso Concelho, o Castelo Medieval de Cascais é o resultado de um intrincado processo de melhoramentos e intervenções variadas que de maneira perene não nos permitem conhecer de fiel as suas origens.

As teses relativas a essa origem aparecem assim distribuídas num espectro cronológico que nos leva quase desde o período Calcolítico, onde como é do conhecimento geral apareceram os primeiros recintos fortificados, até ao período comummente designado como “Filipino”.

Segundo Manuel Acácio Pereira Lourenço, no seu livro “As Fortalezas da Costa Marítima de Cascais”, o Castelo de Cascais já existia quando E-Rei Dom Afonso Henriques fundou a nação: “Ao fundar-se a Nação, no território de Cascais a população era, predominantemente moura, e há notícia da existência na Vila de uma Torre dos mouros que ruiu com o terramoto de 1755”.

Da mesma opinião é Ferreira de Andrade, grande historiador Cascalense que, em meados do Século XX, publicou aquele que é um dos baluartes da História de Cascais. Assim, este recinto amuralhado, segundo as palavras do autor no seu livro “Cascais – Vila da Corte”, é-nos situado cronologicamente algures perto do período da Independência Nacional: “Já no capítulo I nos referimos à existência em Cascais, possivelmente dos primórdios da nacionalidade ou, mesmo, de época anterior, à conquista Cristã de uma fortaleza defensível do burgo. Castelo, no sentido lato de baluarte murado (…)”.

Fruto do terramoto de 1755, foram levados a cabo no Concelho de Cascais, uma série de inquéritos, com vista à determinação do estado em que ficou o município após aquele acontecimento catastrófico. Assim, segundo o então Reitor da Igreja Matriz de Cascais, Manuel Marçal da Silveira, no dia 6 de Abril de 1758: “Há castelo antiquíssimo que estava o signo do relógio da Camera, porem esta cahio por ocasião do terramoto do primeiro de Novembro do anno de mil settecentos e sincoente e sinco”. Deste mesmo interrogatório nos fala também Ferreira de Andrade, referindo-se a um monge do Convento de Nossa Senhora da Piedade (onde hoje se encontra o edifício do Centro Cultural de Cascais) que pouco após o terramoto de 1755 se terá referido à Torre moura da Vila. Não nos foi possível, no entanto, encontrar esse documento.

A existência de um castelo ou recinto amuralhado nesta Vila de Cascais encontra-se, no entanto, provada para períodos mais recentes, nomeadamente para o reinado de Dom Pedro I, autor do primeiro Foral outorgado à Vila. Acerca deste fala-nos o grande Gama Barros no terceiro volume do seu livro “História da Administração Pública em Portugal”: “D. Pedro, considerando que pela situação do lugar o pedido importa à defensão do País, resolve em carta de 7 de Junho de 1364 que Cascais fique isento da sujeição de Sintra”.

De facto, no referido Foral concedido por Dom Pedro I de Portugal à Vila de Cascais, o monarca aplica o termo “Guarda da minha terra”, não sendo possível, no entanto, provar a existência de um castelo somente a partir destas breves palavras.

Sobre este problema se debruçou também D. Fernando de Castelo-Branco na sua publicação de 1972 “Cascais nos inícios do seu municipalismo e na crise de 1383-1385”: “Dom Pedro ao conceder a Cascais a categoria de Vila, fê-lo, segundo diz, porque tal “he serviço de Deus e meu e guarda da minha terra porque aquelle logar esta em aquella costa de mar (…)”. Todavia parece-nos que a expressão “guarda da minha terra” não deverá ter o sentido de defesa do País, porquanto não pode ser interpretada isoladamente, mas sim no seu contexto: “guarda da minha terra porque aquelle logar está em aquella costa de mar”. Ora, como é óbvio, Cascais não importava à defensão do País somente por estar no litoral. Outra deve ser pois a interpretação dada a essa frase”.



No entanto, e por razões que se encontram fora do âmbito deste trabalho, a autonomia de Cascais não entra em vigor durante este reinado. Tenha sido por pressões de Sintra, cuja vida quotidiana e o equilíbrio financeiro dependiam em grande parte do porto de Cascais para a exportação dos seus produtos, ou por falta de jurisdição régia, o que se encontra provada é que foi necessária uma nova série de pedidos dos homens-bons de Cascais para que, de facto, fossem tomadas as necessárias medidas para a sua autonomia.

A primeira vez que o Castelo Medieval de Cascais nos aparece expressamente em documentos da época, é já no reinado de Dom Fernando. Este, após seis anos, confere na realidade a autonomia administrativa a Cascais, entregando-a e ao seu castelo a Gomes Lourenço de Avelar, seu fiel servidor: “Damos a elle dicto Gomez Lourenço e a todos os seus sucessores per jure derdade o nosso castello e lugar de Cascaes…”

Segundo o Dr. José Dias Arnaut, a câmara passou a ser constituída pelos juízes de cascais, por dois vereadores, um procurador do Concelho, um alcaide e alguns vintineiros (representantes decerto das freguesias que então se designavam por vintenas), um almoxarife e dois tabeliões.

Ferreira de Andrade diz-nos ainda que esta câmara reunia às portas do castelo, tal como a câmara de Lisboa às portas da Sé: “Era então usual a administração ter as suas reuniões ao ar livre e, tal como em cascais, assistida por um porteiro e por um pregoeiro”.

Assim, após este breve intróito acerca da história da edificação deste castelo, ou melhor, das hipóteses levantadas para a data da edificação do mesmo, vamos passar à sua análise efectiva, tendo como pontos de honra a delimitação geográfica-estratégica do mesmo, e posteriormente, a contabilização da sua importância para a defensão do reino e principalmente da Cidade de Lisboa, numa época tão conturbada como foi quase todo o reinado de Dom Fernando.

Resta, no entanto, referir que o Castelo Medieval de Cascais sofreu ao longo dos anos o desgaste profundo provocado pela evolução dos tempos, tendo sido alvo de actos que, de uma maneira geral, são considerados como autênticos atentados à nossa memória histórica e à nossa cultura. De lembrar que ainda nos anos quarenta do Século XX, o Visconde de Coruche, morador dentro do perímetro amuralhado do antigo castelo, nos deixou fotografias de uma das torres desse castelo, que não foi já a tempo de salvar.

Anteriormente, quer por falta de pedra para a construção das casas da vila, que pelo terramoto de 1755, quer pela construção do Paço dos Castros, que derrubou grande parte das suas muralhas, já o castelo tinha sido por várias vezes atingido, não restando actualmente mais do que uma ínfima parte do que foi, em tempos, o seu muro.

Por este motivo, e porque se torna efectivamente difícil tirar grandes conclusões de tão parca informação, vamos deixar em aberto quaisquer hipóteses de resolução do problema acima referido, permitindo que mais aturados estudos dos documentos medievais Portugueses e acima de tudo Ibéricos, nos permita compreender e inserir o Castelo Medieval de Cascais nos seus parâmetros crono-estratigráficos.


quarta-feira

História da Vila e do Concelho de Cascais





por João Aníbal Henriques

Com uma vasta história repleta de pequenos incidentes, Cascais é uma vila com um ambiente que nos envolve desde o momento em que nela entramos.

De uma maneira geral, tanto para os que dela são naturais como para os que nela somente residem, Cascais apresenta-se com um enorme potencial atractivo, e embora o presente seja uma constante no quotidiano de cada um, também o passado nos espreita por cana “vinte passos” que nela damos.

Temos vindo a utilizar com relativa frequência o nome de Cascais, embora este nome seja efectivamente recente. O seu topónimo originário, segundo algumas teses, remonta provavelmente à época romana, tendo por base termos latinos como Cascales ou Cascanes. Desde as mais elaboradas até àquelas que se rodeiam de uma espessa auréola de melancolia, espelhando de sobremaneira a tradição popular, muitas tem sido apresentadas ao longo dos últimos séculos da nossa História.



A título de exemplo, e porque é de facto aquela que até há poucos anos traduzia a forma de pensar dos pescadores desta pequena vila, vamos transcrever a do Dr. Pedro Lourenço de Seixas Barruncho, que na sua obra “Villa e Concelho de Cascaes”, publicada no ano de 1873 nos explica a origem deste topónimo da seguinte maneira: “Da origem do seu nome lemos em Bluteau, que a villa de Cascaes principiara haveria duzentos anos; que os primeiros que a habitaram foram pescadores de redes, os quais para as lançarem ao mar primeiro as mascaravam com folhas de aroeira, que se punham em molhos em tinas ou talhas grandes onde metiam as redes. Que se fora povoando a villa cada vez mais, e assim também as tinas e talhas, a que os pescadores chamavam casqueiros, parecendo que d’ahi vinha, por corrupção de vocábulo, o nome de Cascaes, originado no costume de perguntar uns aos outros – encascaste já?”

No entanto, mais verosímil, concreta e digna de consenso entre a generalidade dos historiadores que se dedicam ao estudo deste nosso concelho, parece ser a tese segundo a qual o topónimo de Cascais resultaria da evolução concreta de uma expressão amplamente Portuguesa: Cascal, ou seja, um local coberto de cascas ou conchas de marisco. Assim, o mprimeiro nome desta bonita vila terá sido o de “Aldeia dos Cascais”, o qual, por simplificação, se transformou em Cascais.

Encontra-se actualmente comprovada a estada em Cascais de um aglomerado humano desde o aparecimento do Homem, no Paleolítico. Existem disso vestígios estudados no Guincho e no Alto do Estoril, onde apareceram calhau rolados e utensílios datados desta época. No entanto, mais interessantes são as necrópoles do Poço Velho, Alapraia e São Pedro do Estoril, de onde se retirou um importante espólio ao nível da cerâmica campaniforme.

Desde o Século II a.C. que Cascais se encontra ocupado pelos romanos, e existem actualmente muitos vestígios dessa ocupação espalhados por todo o território municipal de Cascais.



Ao contrário do que até aqui se pensava, também a ocupação Árabe teve a sua importância no devir Histórico do Concelho. Para além dos topónimos que traduzem essa permanência, como Alcabideche, Alvide ou Alcoitão, de entre outros, existem também, e actualmente ainda em estudo, um cemitério e alguns silos de armazenagem de grão em Alcabideche.

Durante a Época Medieval, já seria Cascais uma aldeia com alguns recursos humanos, coadjuvados, como não podia deixar de ser, por uma vasta rede de potencialidades económicas baseadas na prática da pesca e da caça especializada, principalmente do Açor.



O Século XVII vai ser também um dos períodos mais prósperos para a vida deste pequeno município, assistindo à publicação por Frei Nicolau de Oliveira de um elogio político com vista a trazer para Portugal a corte dos Filipes, no “Livro das Grandezas de Lisboa” de 1620.



A estada de vários dos nossos ilustres monarcas em Cascais encontra-se comprovada desde D. Afonso Henriques, que segundo reza a lenda, descansou e tomou o seu repasto matinal à sombra de uma centenária palmeira que ainda em meados do Século XX existia na travessa com o mesmo nome.

D. Dinis e D. José dirigiram-se também aos meandros deste pequeno povoado, com o intuito, segundo dizem as lendas, de se banharem nas águas medicinais que são características da Praia da Poça, em São João do Estoril, e as de Santo António, na quinta com o mesmo nome a que Fausto Cardoso de Figueiredo, no início do Século passado, transformou numa das mais ilustres estâncias balneares da Europa, só comparada em qualidade com a “Cote d’Azur” Francesa.

Daí em diante, resta-nos salientar o proeminente papel que cascais vai desempenhar, quando foi escolhida para albergar a Corte durante os meses do final do Verão e do Outono, assistindo-se nessa época à inauguração da iluminação pública a gás, do telefone, do telégrafo e do comboio.



Acontecimento importante foi também a inauguração da luz eléctrica, levada a cabo como presente de aniversário do Príncipe Real, e que marcou um ponto fulcral na História recente de Portugal.

Passados estes anos dourados da sua História, Cascais é hoje a vila pacata que conhecemos, e que de uma maneira ou de outra, fazendo jus à sua essência cosmopolita, continua a atrair a atenção da generalidade da população Portuguesa e de milhares de estrangeiros que, sempre que podem, a utilizam como destino privilegiado de férias ou residência fixa.




quinta-feira

Mário Cardoso na Toponímia do Monte Estoril





O nome do falecido empresário e gestor Mário Cardoso, dá nome a um arruamento no Monte Estoril. A homenagem, promovida pela ALA - Academia de Letras e Artes com o apoio da Junta de Freguesia de Alcabideche, procura fomentar as memórias antigas que dão forma à Identidade Cascalense.

Conhecido empresário de Cascais, onde faleceu no dia 17 de Dezembro de 2003, Mário Cardoso nasceu em Monte Redondo – Arganil – em 10 de Fevereiro de 1938. Para além da sua actividade profissional, onde se destacou pela sua capacidade empreendedora e consciência social, Mário Cardoso foi Agraciado com a distinção de Cavaleiro da Ordem de Mérito Industrial pelo Presidente da Republica Portuguesa, em 1970, tendo recebido mais tarde a distinção de Citoyen Priviligiee concedido pelo Presidente da República Francesa, em 1980.

Em termos associativos, foi Presidente da Associação Comercial de Coimbra, onde desenvolveu profícuo trabalho na consolidação da vertente turística da cidade, tendo também fundado e presidido à Comissão de Melhoramentos de Monte Redondo, a sua terra natal, instituição a partir da qual se procederam a importantes obras de modernização da localidade e se asseguraram as condições mínimas para garantirem a qualidade de vida dos seus habitantes.




O Palácio Real da Cidadela de Cascais







por: João Aníbal Henriques


Depois de quase meio século de abandono e de ter atingido um estado de incúria e desleixo que o levou a pré-ruína, foi finalmente recuperado o Palácio Real da Cidadela de Cascais.

O edifício, originalmente mero aposento integrado no aquartelamento militar que ocupava a Cidadela, foi adaptado a palácio real em 1870 quando o Rei Dom Luís I e a Rainha D. Maria Pia escolheram Cascais como estância de veraneio. Do final do Verão e até meados do Outono, a Casa Real Portuguesa e os membros da corte instalavam-se em Cascais para vir a banhos e, no caso específico do Rei, para que ele pudesse usufruir de forma sentida da paisagem marítima de Cascais.

Embora sem grande importância arquitectónica, contrastando, aliás, com o fausto de alguns dos palacetes construídos em Cascais por membros da Corte, o Palácio Real da Cidadela é uma das mais importantes e significantes peças do património histórico desta Vila piscatória. Depois da chegada da Família Real, e até final do regime monárquico, em 1910, Cascais foi completamente transformada naquilo que ainda é hoje. Os laivos da pequena e desinteressante aldeia destituída de motivos de interesse e sobre a qual corria o ditado “A Cascais uma vez e nunca mais”, transformaram-se numa das mais requintadas, cosmopolitas e extraordinárias terras de Portugal, levando a que o dito popular se transformasse numa coisa completamente diferente “A Cascais uma vez e muitas mais!”.

As obras de recuperação que agora terminaram, exigidas pelo povo de Cascais desde há muitas décadas, deveriam ser uma boa notícia nestes tempos turbulentos que atravessamos. Mas não são.

Não são, porque apesar de ser unânime que a vocação de Cascais é o turismo, e que para fomentar a excelência nessa área é essencial que a região possua equipamentos de diversas índoles que sirvam de atractivo para uma visita, o Palácio Real de Cascais vai continuar a estar sob a tutela da presidência da república e, na prática, inacessível aos Cascalenses.

Apesar de ter servido pontualmente de residência de alguns presidentes da república, o Palácio Real da Cidadela de Cascais nasceu e afirmou-se (fazendo nascer e afirmar a própria estância turística de Cascais) sob a alçada do enorme amor dos Reis Dom Luís e Dom Carlos ao mar e à Baía de Cascais. Foi, dessa maneira, o cerne da modernização que estes Monarcas trouxeram ao País, ali se centrando muito do pensamento científico e cultural do Portugal contemporâneo. É por isso, aliás, que a designação oficial do edifício é “Palácio Real” e não palácio presidencial…

O acto de manter o Palácio Real da Cidadela sob a alçada da presidência da república, numa altura em que Cascais necessita de um espaço que possa funcionar como local de excelência para a realização de grande parte das acções de charme que estão por detrás da captação para a Região do Estoril dos grandes eventos que alavancam a afirmação deste espaço como destino de excelência na Europa, é um contra-senso total e absoluto pois priva o município de poder potenciar a sua vocação essencial. Depois, em termos da afirmação da Identidade Municipal, é também um contra-senso, numa altura em que o vínculo das comunidades locais aos espaços onde habitam é condição fundamental para a criação dos laços de cidadania da qual depende a superação das dificuldades que actualmente atravessamos.

O Palácio Real da Cidadela de Cascais é o cadinho no qual nasceu, cresceu e se impôs o Cascais que hoje conhecemos e, como tal, deveria estar acessível, de forma livre e incondicional, para que os Cascalenses de todas as idades o pudessem ver, conhecer, sentir e tocar.

Só assim, libertando-se este edifício do jugo imposto legalmente pelas vicissitudes históricas que constrangeram Portugal em 1910, se poderá fazer jus à grata memória que Cascais mantém relativamente ao que lhe trouxe a Monarquia e, dessa maneira, se poderá cumprir a vontade reiteradamente expressa pelo Rei Dom Carlos de que a estadia da Corte em Cascais fosse sinónimo de desenvolvimento e qualificação da vida dos Cascalenses.

O Palácio Real da Cidadela deve ser devolvido aos Cascalense. Até porque, como dizia o Rei Dom Carlos: “Cascais é a terra onde o povo é mais nobre e na qual a nobreza é mais popular!”


Os Espaços Exteriores do Palácio Real da Cidadela de Cascais











O Interior do Palácio Real da Cidadela de Cascais











A Sala Árabe




No primeiro piso do Palácio Real da Cidadela, a Sala Árabe foi o espaço escolhido pelo Rei Dom Luís I para resignadamente esperar a agonia da morte. Ali, com vista para a Baía de Cascais, o Monarca morreu olhando o mar que tanto amava...

segunda-feira

Mónica de Morais Inagura "Tempo" na Galeria da ALA no Monte Estoril





Foi em tons marcados pelas cores envolventes que caracterizam a obra da pintora, que a ALA inaugurou na sua galeria no Monte Estoril a exposição de pintura e gravura intitulada “Tempo” de Mónica de Morais.

Recriando um universo onde a sua marca pessoal se afirma de forma inexorável, Mónica de Morais utiliza a tela como suporte para um exercício marcante e inesquecível que transborda de realismo e emotividade.

A exposição agora inaugurada, na qual o tempo se confunde com os tempos através de pontes que relacionam as vidas que a pintora ali colocou, representa uma oportunidade única de conhecer e perceber uma das mais impactantes artistas plásticas da Portugalidade.

A exposição estará patente até final de Janeiro, todos os dias entre as 14h00 e as 1800. A não perder.








«Mónica de Morais não deixa que lhe imponham o que pinta, nem sequer pretende corresponder a modas efémeras ou a interesses específicos, limita-se a cursar um roteiro feito de busca plástica onde não só a temática é relevante, como o são, também, as várias técnicas ensaiadas, onde a Pintura não é a única arte maior, sendo sabiamente acolitada pela Gravura»

Paulo Morais-Alexandre

quinta-feira

O Sonho da Eternidade em Luís Athouguia




Na obra de Luís Athouguia cruzam-se formas – quase disformes – e cores, marcando fronteiras entre os espaços que vão compondo os cenários fictícios que ele vai imaginando.

Normalmente os seus quadros estão vazios. Não mostram caminhos, nem facultam direcções que nos permitam seguir viagem através dos terrenos bem cartografados onde nos parece que é seguro caminhar. Deixam escapar uns laivos de orientação, à laia de engodo para nos prender a atenção e nos fazer olhar ou… ver.

As suas obras, serpenteando de forma imprecisa através dos trilhos que cruzam e recruzam o Mundo não podem ser descodificadas. Mantêm-se presas àqueles laivos mais pressentidos do que sentidos que formam o cenário dos sonhos. Ali, numa matéria de tal maneira ancestral que deixa transparecer os aromas sublimes dos tempos em que nasceram os nossos primeiros avós, perdemo-nos sempre, deleitando-nos com o prazer sem igual de percebermos que só dessa maneira podemos reencontrar o rumo certo.

É difícil, senão impossível, descrever com exactidão a pintura de Luís Athouguia. Em primeiro lugar porque ele subverte por completo a lógica, o raciocínio e o pensamento da gens humana. Depois, porque ao distorcer a sua origem, nos impele em navegações que ultrapassam largamente as fronteiras do real, obrigando-nos a entrar em campos nos quais a matéria já não importa e onde os aromas, as cores e as formas mais não são do que ilusões efémeras que deixam para trás a realidade mais palpável.

A maior parte dos artistas são génios. São-no porque interiorizam a capacidade quase esquizofrénica que traduzir na tela ou no papel a nossa própria perspectiva acerca do Mundo real. Fazem-no com mestria e, quando de grandes mestres tratamos, sentimos que consagram numa só obra toda a multiplicidade de universos que carregam consigo todos os que os com eles se vão deslumbrando.

Com Luís Athouguia é tudo ainda mais transcendente, superando de forma exponencial o substrato místico que na arte prevalece. A sua obra, transbordando sensibilidade onírica, aprofunda de forma inquietante os princípios mais singelos que dão forma à existência e ao quotidiano. Ao contrário dos outros, que oferecem uma eternidade fictícia que tolda a noção que temos da inultrapassável efemeridade da vida Humana, Athouguia sublinha esse carácter visceral do dia-a-dia e consagra nas suas obras o cunho imediatista, finito e frágil que nos envolve a todos por igual.

Não existem meias-palavras na obra de Luís Athouguia. Nem palavras sequer. As linhas e as cores, transfiguradas em painéis que não esbatem o universo maravilhoso em que estamos mas que aguçam os pensamentos perdidos no meio dos nossos sonhos, são pontes efectivas que nos transportam até à verdadeira eternidade. Não aquela eternidade ilusória em que o fim não existe e em que os tempos se vão esticando até mais não… ele vai ao princípio, à matéria primordial, e é ali, naquele cadinho da alma, que encontra a verdade suprema e a totalidade do que não pode ser concebido…

É preciso coragem para literalmente podermos mergulhar na obra dele. É fundamental que o façamos num estado de liberdade absoluto que geralmente só encontramos quando conciliamos o sono com o sonho e nos libertamos das amarras do real. Só assim podemos conceber e sentir os universos alternativos que os seus quadros nos trazem. É com essa forma subliminar, livres e atrozmente perdidos, que podemos conceber os caminhos novos que a sua obra nos propõe.

Só dessa maneira, assumindo o carácter transitório do presente em que respiramos, o fechar dos ciclos passados em que suspirámos e antevendo alquimicamente as formas novas a que o futuro nos irá conduzir, podemos inverter as premissas do tempo e tornar-nos irresistivelmente imortais.

É isso que nos oferece Luís Athouguia. A eternidade de onde viemos, onde estamos e onde ficaremos sempre.

Mesmo que sejamos incapazes de o perceber!