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quinta-feira

Regresso do Presidente da República a Cascais Após Viagem aos Açores em 1941



por João Aníbal Henriques

Em Julho e Agosto de 1941, num contexto internacional marcado pela II Guerra Mundial, a República Portuguesa teve necessidade de afirmar a importância do Arquipélago dos Açores para a soberania nacional. Para tal, cumprindo aquele que era um desiderato sempre adiado desde a viagem efectuada àquele território pelo Rei Dom Carlos e pela Rainha Dona Amélia, o então Chefe de Estado, o General Óscar Fragoso Carmona, fez uma visita oficial preparada com minúcia e muito cuidado e apoiada por uma campanha de comunicação nunca vista em Portugal.

Com o perigo eminente de um ataque alemão àquela que era estrategicamente uma das mais importantes rotas de fuga numa Europa em guerra, os Açores eram igualmente visitados pelos interesses particulares de ingleses e americanos que Portugal tinha de rebater, afirmando-se historicamente como o país proprietário daquele território ultramarino. A visita do General Carmona foi, deste modo, a forma encontrada para propagar junto de todo o Mundo a soberania portuguesa sobre os açores e, no contexto da guerra, reforçar a importância de Portugal enquanto parceiro estratégico das potencias beligerantes mesmo mantendo a sua bem conhecida neutralidade política.




Tendo corrido da melhor forma e cumprido integralmente os propósitos para os quais havia sido concebida, a visita do Presidente da República aos Açores fez manchetes em toda a comunicação social nacional e internacional, levando consigo a mensagem subliminar do Estado Português, e enchendo de orgulho e de esperança os portugueses que viam nos dirigentes do Estado Novo a solução mais pragmática para os muitos problemas que afectam cronicamente Portugal desde há demasiadas décadas.

Como no resto do País, Cascais vibrou de forma entusiasmada como os ecos desta viagem. E os cascalenses, cientes do facto de a sua vila ter sido escolhida pelo histórico presidente para sua residência oficial, impavam de orgulho perante o sucesso alcançado por aquele que eles consideravam um deles.

O mais entusiasmado dos cascalenses com o êxito da iniciativa foi José Florindo d’Oliveira, o dirigente de sempre da Propaganda de Cascais que, politicamente muito próximo dos ideais propagados pelo Estado, aproveitava todas as oportunidades para contribuir activamente para que a sua terra fizesse parte do grande plano de salvar Portugal. E nesta ocasião, mesmo contra as opiniões oficiais que pediam às entidades locais que se alheassem da viagem do Presidente da República aos Açores, Florindo d’Oliveira teimou em organizar a sociedade civil cascalense para receber de forma gloriosa o General Carmona no seu regresso à Cidadela de Cascais depois de tão retumbante êxito alcançado em terras açorianas.

Em conluio com o Presidente da Câmara Municipal de Cascais, José Roberto Raposo Pessoa, organizou uma festa de boas-vindas ao Chefe de Estado marcada de forma brilhante por um convite feito a todos os cascalenses que possuíssem automóveis, de forma a que se concentrassem à entrada do território municipal, junto à Fortaleza de São Julião da Barra, acompanhando em desfile a entrada do General Carmona em Cascais e acompanhando-o ao longo da Avenida Marginal, em cortejo embandeirado, até à residência oficial na Cidadela.




Dizia Florindo d’Oliveira num panfleto que encheu todas as caixas de correio do Concelho de Cascais: “Preparemo-nos para festivamente aguardar a chegada do Exmº. Senhor Presidente da República! Depois da triunfal visita aos Açores o Chefe da Nação tornou-se ainda mais querido aos nossos corações! A admiração que temos por Sua Excelência, o respeito que nos inspira o alto cargo, que tão elevadamente desempenha, aumentam com as manifestações de carinho, admiração e respeito que todos os nossos concidadãos lhe tributam. Recebamos grandiosamente, na volta ao seu lar nesta nossa vila, o Exmº. Senhor General Carmona e a Sua Exmª. Família! Regosijarmo-nos pela sua feliz viagem é abraçar também o Portugal Insular, pela nobreza com que recebeu o Chefe da Nação comum! Gritar bem alto que muito queremos ao preclaríssimo Chefe da Nação é dizer ao Mundo o nosso amor a Portugal!”




E o povo de Cascais respondeu à altura ao apelo de Florindo d’Oliveira e José Raposo Pessoa, literalmente entupindo a Avenida Marginal, entre a entrada por Carcavelos e a Cidadela de Cascais, com milhares de automóveis ostentando orgulhosamente centenas de bandeiras de Portugal, e acompanhados ao longo da estrada e enchendo os passeios, por milhares de Cascalenses que gritavam apoteoticamente pelo seu vizinho Presidente.

A reacção do Chefe de Estado não se fez esperar e no mesmo dia, através de telegrama enviado para a Câmara Municipal e para a Sociedade Propaganda de Cascais, o General Óscar Carmona agradece de forma sincera e reconhecida a iniciativa da Sociedade Propaganda, da Câmara Municipal, na pessoa do seu Presidente e dos Vereadores, e de todas as entidades públicas e privadas que contribuíram para a organização deste evento, sublinhando o quão importante havia sido para ele e para a sua esposa essa grande manifestação de carinho por parte dos cascalenses. Diz ele que foi “uma manifestação que lhe calou muito no seu espírito e que jamais esquecerá!”

Nas contas apresentadas no final do evento, verifica-se que o investimento dos cascalenses no mesmo ascendeu  a 602$50, a que se somaram cerca de 300$00 que foram pagos directamente pela Junta de Turismo de Cascais para impressão dos cerca de 10.000 convites distribuídos à população, e mais 600$00 relativos à oferta de foguetes e morteiros lançados durante a festa e que foram pagos pelo Grupo Desportivo Estoril Plage.


Fotografias do AHMC – Arquivo Histórico Municipal de Cascais

sexta-feira

A Rainha Dona Maria Pia em Cascais no dia 5 de Outubro de 1863


por João Aníbal Henriques

O dia 5 de Outubro de 1863 foi de festa em Cascais. Com pompa e circunstância, a baía encheu-se de salvas e vivas para receber a Princesa Dona Maria Pia de Sabóia que chegava nesse dia a Portugal para casar com o Rei Dom Luís I.

A vila, engalanada com as cores da Casa de Bragança, foi assim a primeira terra de Portugal a conhecer a futura rainha, mal sabendo ainda o quão importante ela haveria de ser para afirmar Cascais como a “Vila da Corte”, transformando-a com o seu requinte italiano no mais charmoso de todos os destinos em Portugal.

Em 1863 a então Princesa de Sabóia, com a frescura dos seus 15 anos de idade, chegou a bordo da corveta portuguesa Bartolomeu Dias, comandada por Francisco Soares Franco,  e transmitia a todos os que a rodearam o sentimento de esperança que trazia para o seu casamento real.




Mal sabia que, depois de uma vida de enganos e desenganos com o monarca seu marido, haveria de assistir à terrível morte de um filho e de um neto, sendo ela própria expulsa de Portugal.

Para além deste imenso desgosto, do qual nunca mais recuperou,  a Rainha Dona Maria Pia sofreu em Cascais um dos mais tenebrosos momentos da sua vida. Apesar das crises imensas que afectavam o casamento real, a rainha acompanhou o rei a Cascais quando este, já doente terminal, decidiu que queria morrer a olhar para as muito amadas águas da nossa baía. E não descansou quando, hora após hora, cuidou do seu marido ao longo da longa agonia que este haveria de sofrer na Cidadela Real.

O desgosto e o sofrimento foram tão grandes que depois da morte do rei decidiu que não queria voltar a entrar no Paço de Cascais. Esse espaço que se lhe tinha tornado maldito foi substituído pelo Chalet que havia adquirido no Monte Estoril e que partir desse momento passará a ser o sítio privilegiado para a reunião com os seus familiares e amigos numa espécie de corte secundária sempre que vinha a Cascais acompanhar a Família Real.



Quando morreu exilada em Itália, Dona Maria Pia pediu para ser sepultada com o rosto virado na direcção de Portugal, o país que apesar de tanto mal lhe ter infligido, era efectivamente a sua casa à qual devotadamente entregava o coração e a alma num gesto de amor que nunca foi reconhecido devidamente em Portugal.

Portugal deve muito a esta rainha e Cascais deve quase tudo o que fez deste lugar um sítio tão especial!

quinta-feira

A Invasão Espanhola a Cascais


por João Aníbal Henriques

Há precisamente 443 anos, Cascais participou num dos mais negros episódios da História de Portugal. No dia 27 de Julho de 1580, o comandante das tropas espanholas encarregue por Filipe II de Espanha de invadir Portugal, decidiu concretizar o seu plano de ataque a Lisboa por terra, desembarcando as suas tropas na Laje do Ramil, junto ao Farol da Guia, com o apoio expresso de D. António de Castro, Conde de Monsanto e Senhor de Cascais, que havia traído a Causa Nacional e apoiado o invasor. Dada a disparidade de forças, o pequeno reduto de portugueses que defendia Portugal logo percebeu qual seria o desfecho previsível da contenda. Mas, liderado pelo herói Dom Diogo de Meneses, preferiu entregar corajosamente a sua vida a entregar ignobilmente a bandeira nacional. A invasão aconteceu no dia 29 de Julho e D. Diogo de Meneses foi barbaramente executado pelos espanhóis na Fortaleza de Cascais no dia 2 de Agosto, sacrificando-se para salvar a honra de Cascais e de Portugal. Inspiremo-nos na sua memória!







segunda-feira

O Marégrafo de Cascais




No final do Século XIX, depois de Dom Luís ter escolhido Cascais para o seu período de veraneio, a Vila transformou-se num imenso cadinho de novidades que alteraram de forma profunda o seu dia-a-dia e a dinâmica da povoação.

Para além da luz eléctrica e do telefone, bem como de várias benfeitorias introduzidas na Vila pelo Visconde da Luz, em 1882 Cascais assistiu à inauguração do seu Marégrafo. O instrumento, que servia para recolher dados sobre as correntes e sobe as marés, foi determinante na definição do sistema de altimetrias Nacional, tendo contribuído de forma decisiva para a criação de uma estrutura de análise e estudo do mar.

Mudado para o local onde actualmente se encontra em 1895, depois de se ter verificado que a localização inicial não permitia uma leitura correcta dos dados, o Marégrafo passou a fazer parte da linha de paisagem de Cascais e da sua baía, assumindo-se como fulcro de ligação dos Cascalenses ao mar.

Do seu varandim, ao qual se acedia através de uma escadaria situada no final do Passeio Maria Pia, muitos eram aqueles que aproveitavam as suas vistas abertas para descansar ao som cadenciado da ondulação.

Depois da inauguração da Marina de Cascais e, mais tarde, da remodelação do Clube Naval de Cascais, o Marégrafo foi completamente engolido pelo betão, tendo-se perdido no seio de um espaço fechado ao público e tendo deixado de usufruir da antiga ligação aberta aos mares de Cascais.

Falta de senso, de consciência patrimonial e de capacidade de entender a importância simbólica que este tipo de equipamentos e monumento tem no imaginário colectivo e na identidade municipal, determinaram que o Marégrafo seja hoje uma mera peça sem préstimo e sem dignidade que, afastado do usufruto dos Cascalenses, perdeu a importância que durante mais de um século teve na vida desta terra.


Mudam-se os tempos, mudam-se os governantes e o regime… e vão-se esvaziando os vínculos antigos de Cascais.

terça-feira

Palavra de Honra! O Caso do Yacht Thermopylae Afundado na Baía de Cascais

 
 
 
Depois de muitos anos de pesquisas e esforços inglórios, um conceituado investigador marítimo terá finalmente conseguido determinar com precisão o ponto da Baía de Cascais onde estão submersos os destroços do Clipper Thermopylae.
 
A história desta embarcação faz parte dos anais da própria História da Navegação Mundial. Construído no Século XIX por um importante armador britânico, o Thermopylae foi, durante várias décadas, uma das principais jóias marítimas da Coroa Inglesa.
 
De porte robusto, e com os seus três mastros oferecendo-lhe uma imponência difícil de igualar, o Thermopylae foi durante muito tempo o veleiro mais veloz do Mundo, mantendo uma rivalidade permanente com o seu conterrâneo Cutty Sark que ainda hoje faz as delícias dos amantes do mar e dos desportos náuticos. Conta-nos o Comandante Peter Kemp “que o mais rápido clipper que se construiu em qualquer época foi o Thermopylae, no seu tempo o orgulho do serviço da Marinha Britânica”.
 
Depois da chegada do vapor, e depois de centenas de missões cumpridas com êxito sob bandeira britânica, o Thermopylae foi vendido em hasta pública e adquirido por Portugal. A partir dessa altura, com o nome de “Pedro Nunes”, calcorreou as águas sob domínio português como navio-escola, e continuou a sua carreira de sucesso e prestígio.
 
Em 1907, depois de Portugal ter adquirido as suas primeiras embarcações a motor, o Thermopylae deixou novamente de servir, tendo sido encostado à Doca de Santos, em Lisboa, onde esteve durante algum tempo a servir de cais para descarregamento de carMas as autoridades portuguesas de então, cientes do prestígio, da fama, e da história fantástica do navio, depressa perceberam que aquelas funções não estavam de acordo com o Thermopylae. E a opção era uma de duas: o desmantelamento e a venda como sucata, tal como acontecia normalmente em situações semelhantes; ou o seu afundamento puro e simples, para que repousasse em paz nas águas profundas do oceano para o qual havia sido construído.
 
No dia 13 de Outubro de 1907, no âmbito de um festival naval realizado em Cascais sob protecção de Sua Majestade o Rei D. Carlos, que era simultaneamente o Comodoro do Clube Naval de Lisboa, o Thermopylae foi afundado ao largo da Vila, servindo de alvo aos torpedeiros que a Marinha de então estreava.
 
Com pompa e circunstância, e cumprindo todo o cerimonial inerente ao desaparecimento daquele que era já então uma lenda dos mares, o povo de Cascais assistiu dignamente ao afundamento do navio, que foi acompanhado de salvas de palmas e de disparos de honra dos canhões da Cidadela.
 
De acordo com as notícias de então, pretendia-se “poupar ao Thermopylae a ignomínia da venda para sucata”, oferecendo-lhe um desaparecimento digno do seu nome.
 
Estranhos tempos esses em que o Estado Português, que poderia ter arrecadado nos seus cofres uma verba substancial com o desmantelamento do navio, tenha optado por fazê-lo desaparecer, em prol da honra, da memória e da história de um barco. Estranhos tempos esses em que ainda não se falava de democracia mas em que o respeito, a lealdade e a transparência imperavam. Estranhos tempos esses em que o Rei Dom Carlos dizia acerca de cascais “que era a terra onde o povo era mais nobre e onde a nobreza era mais popular!”
 
Palavra de honra!

quinta-feira

Memórias de Cascais na Época Medieval




por João Aníbal Henriques

Sendo certo que é geralmente difícil conhecer em profundidade as raízes medievais de uma terra ou lugar, o certo é que, naquelas em que a importância estratégica se apresenta, as menções diversas em documentação de vários géneros e a sua ligação aos mais importantes episódios da História Nacional, acabam por nos oferecer caminhos e pistas que facilitam esse reconhecimento e a compreensão dessa realidade. É esse o caso da Vila e do Concelho de Cascais.

Neste caso específico, existem variadíssimas razões para que tal aconteça. Em primeiro lugar porque, como acontece na generalidade dos casos análogos, o Castelo Medieval de Cascais teve certamente a sua origem em estruturas defensivas anteriores, muito possivelmente durante o domínio Árabe da Península Ibérica (711-1147) facto que lhe conferiu uma História longa no tempo e um assentamento humano que, prolongando-se ao longo de muitas gerações, deixa evidentemente vestígios das suas actividades. Depois, e tal como nos comprova a arqueologia, porque a generalidade destes espaços, e Cascais não foi excepção, viram-se ocupados por construções de outras origens que, principalmente em épocas de paz prolongada, iam subvertendo a sua original componente defensiva e militar, num uso de índole habitacional e doméstico. Ou seja. Reconfigurando-se o seu miolo, as estruturas defensivas originais perpectuaram-se no seio da estrutura urbana posterior e, dessa maneira, permitiram a conservação de muitos dos seus vestígios e de muitas postas sobre a forma como se organizavam anteriormente.

Cascais, de forma especial, pela proximidade ao mar e pela sua posição estratégica na guarda de Lisboa, necessitou de permanentes e profundas intervenções de manutenção e adaptação, pelo que o devir histórico das suas muralhas de foi permanentemente readaptando ao longo do tempo.

Por todas estas razões, o que muitas vezes nos resta em termos informativos relativamente a estes espaços, é uma amálgama de vestígios diversificados que não nos permite esmiuçar de forma profunda e rigorosa as origens reais e o momento do seu surgimento.

Por último, importa sublinhar que os testemunhos que subsistem dessas épocas são normalmente subvertidos por exageros, falta de isenção e, sobretudo, pela necessidade de adequação a interesses específicos que conjunturalmente afectavam a terra, as entidades oficiais, ou mesmo o próprio autor dessas palavras. A documentação, enformando desse desígnio, deverá ser, por isso, perscrutada com especial atenção, retirando delas as pistas que permitirão reinterpretar as palavras que contêm à luz do que hoje conhecemos sobre a realidade dessa época.

Em termos pictográficos, profusamente utilizados para tentar compreender a forma como Cascais existiu e evoluiu ao longo dos tempos, verifica-se ser muito difícil, devido a imprecisões diversas que a documentação apresenta, discernir aí a visão concreta sobre a realidade local. As plantas e imagens, desenhadas à mão por gente que por vezes tinha pouco apetência para as artes plásticas, condicionada pelo facto de não serem raros os casos de calques efectuados sobre outros decalques já de si portadores de diversas deficiências, tornam-se instrumento incapazes de nos apontar os dados pelos quais tanto ansiamos.

Em resumo, e salvo a possibilidade de uma eventual descoberta fortuita de nova documentação esquecida num qualquer arquivo, é praticamente impossível definir com total exactidão os contornos do que foi Cascais durante a época Medieval.

Ponto de honra é, no entanto, a certeza absoluta de que Cascais foi terra de importância extraordinária na definição do Portugal moderno. A comprová-lo, para além da relevância estratégica da sua posição de controlo da entrada na barra do Tejo e, por isso, enquanto guarda avançada de Lisboa, está a sua posse, durante este período por gente da primeira linha de fidalgos essenciais para a Casa Real. Gomes Lourenço de Avelar e, mais tarde, Henrique Manuel de Vilhena, foram ambos figuras excelsas de um Portugal ainda em afirmação no contexto de uma Europa envolvida em precariedade e, por tudo isso, são provas cabais do interesse que a Coroa dedicava a esta pequena Vila plantada junto ao mar.

A tudo isso não será estranho, até porque daí derivaram os muitos sucessos que nasceram da crise de 1383-1385, o facto de as Guerras com Castela terem aumentado a importância da Vila, tornando-a ponto fulcral na estratégica defensiva do Reino de Portugal.

As guarnições de soldados que acorreram à Vila, principalmente depois de Dom Pedro I lhe ter concedido a independência relativamente a Sintra, povoaram de forma permanente a outrora insignificante vilória, suscitando interesses complementares, ao nível do comércio e dos serviços, que condicionaram de sobremaneira a História recente de Cascais.

Cascais é, desta maneira, peça incontornável na medievalidade Portuguesa, assumindo papel de grande relevo na reformulação da pirâmide político-social Nacional. Nessa altura, como hoje, conhecer as origens da Identidade Cascalense, é perceber como é que a gestão das potencialidades deste tipo de territórios pode ser essencial na definição daquilo que somos, do que sentimos, do que fazemos e do que pensamos.


O Palácio Real da Cidadela de Cascais







por: João Aníbal Henriques


Depois de quase meio século de abandono e de ter atingido um estado de incúria e desleixo que o levou a pré-ruína, foi finalmente recuperado o Palácio Real da Cidadela de Cascais.

O edifício, originalmente mero aposento integrado no aquartelamento militar que ocupava a Cidadela, foi adaptado a palácio real em 1870 quando o Rei Dom Luís I e a Rainha D. Maria Pia escolheram Cascais como estância de veraneio. Do final do Verão e até meados do Outono, a Casa Real Portuguesa e os membros da corte instalavam-se em Cascais para vir a banhos e, no caso específico do Rei, para que ele pudesse usufruir de forma sentida da paisagem marítima de Cascais.

Embora sem grande importância arquitectónica, contrastando, aliás, com o fausto de alguns dos palacetes construídos em Cascais por membros da Corte, o Palácio Real da Cidadela é uma das mais importantes e significantes peças do património histórico desta Vila piscatória. Depois da chegada da Família Real, e até final do regime monárquico, em 1910, Cascais foi completamente transformada naquilo que ainda é hoje. Os laivos da pequena e desinteressante aldeia destituída de motivos de interesse e sobre a qual corria o ditado “A Cascais uma vez e nunca mais”, transformaram-se numa das mais requintadas, cosmopolitas e extraordinárias terras de Portugal, levando a que o dito popular se transformasse numa coisa completamente diferente “A Cascais uma vez e muitas mais!”.

As obras de recuperação que agora terminaram, exigidas pelo povo de Cascais desde há muitas décadas, deveriam ser uma boa notícia nestes tempos turbulentos que atravessamos. Mas não são.

Não são, porque apesar de ser unânime que a vocação de Cascais é o turismo, e que para fomentar a excelência nessa área é essencial que a região possua equipamentos de diversas índoles que sirvam de atractivo para uma visita, o Palácio Real de Cascais vai continuar a estar sob a tutela da presidência da república e, na prática, inacessível aos Cascalenses.

Apesar de ter servido pontualmente de residência de alguns presidentes da república, o Palácio Real da Cidadela de Cascais nasceu e afirmou-se (fazendo nascer e afirmar a própria estância turística de Cascais) sob a alçada do enorme amor dos Reis Dom Luís e Dom Carlos ao mar e à Baía de Cascais. Foi, dessa maneira, o cerne da modernização que estes Monarcas trouxeram ao País, ali se centrando muito do pensamento científico e cultural do Portugal contemporâneo. É por isso, aliás, que a designação oficial do edifício é “Palácio Real” e não palácio presidencial…

O acto de manter o Palácio Real da Cidadela sob a alçada da presidência da república, numa altura em que Cascais necessita de um espaço que possa funcionar como local de excelência para a realização de grande parte das acções de charme que estão por detrás da captação para a Região do Estoril dos grandes eventos que alavancam a afirmação deste espaço como destino de excelência na Europa, é um contra-senso total e absoluto pois priva o município de poder potenciar a sua vocação essencial. Depois, em termos da afirmação da Identidade Municipal, é também um contra-senso, numa altura em que o vínculo das comunidades locais aos espaços onde habitam é condição fundamental para a criação dos laços de cidadania da qual depende a superação das dificuldades que actualmente atravessamos.

O Palácio Real da Cidadela de Cascais é o cadinho no qual nasceu, cresceu e se impôs o Cascais que hoje conhecemos e, como tal, deveria estar acessível, de forma livre e incondicional, para que os Cascalenses de todas as idades o pudessem ver, conhecer, sentir e tocar.

Só assim, libertando-se este edifício do jugo imposto legalmente pelas vicissitudes históricas que constrangeram Portugal em 1910, se poderá fazer jus à grata memória que Cascais mantém relativamente ao que lhe trouxe a Monarquia e, dessa maneira, se poderá cumprir a vontade reiteradamente expressa pelo Rei Dom Carlos de que a estadia da Corte em Cascais fosse sinónimo de desenvolvimento e qualificação da vida dos Cascalenses.

O Palácio Real da Cidadela deve ser devolvido aos Cascalense. Até porque, como dizia o Rei Dom Carlos: “Cascais é a terra onde o povo é mais nobre e na qual a nobreza é mais popular!”


Os Espaços Exteriores do Palácio Real da Cidadela de Cascais











O Interior do Palácio Real da Cidadela de Cascais











A Sala Árabe




No primeiro piso do Palácio Real da Cidadela, a Sala Árabe foi o espaço escolhido pelo Rei Dom Luís I para resignadamente esperar a agonia da morte. Ali, com vista para a Baía de Cascais, o Monarca morreu olhando o mar que tanto amava...

quarta-feira

A Fortaleza de Nossa Senhora da Luz (Cascais)





Primeiro pedaço de terra a ser observado quando se chega de Lisboa por mar, e último quando se parte para viagens de descoberta, a Fortaleza de Cascais é assumidamente uma das mais importantes peças da guarda avançada da capital. Muito embora violada na sua memória histórica desde a construção da marina, que lhe retira por completo o sentido de existência, é hoje um espaço onde se mantêm viva uma parte importante da História de Cascais.

Perdida no seio de sucessivas intervenções, que construíram e reconstruíram as estruturas defensivas da Vila de Cascais, a Fortaleza de Nossa Senhora da Luz é apenas uma parte da totalidade dos edifícios existentes dentro do recinto hoje commumente designado como Cidadela.

Composta pela Fortaleza de Nossa Senhora da Luz; pelos restos da antiga torre que a precedeu; pela cidadela propriamente dita, construída no Século XVII por D. João IV; e pelo Palácio Real do final do Século XIX; o conjunto monumental formado por estes equipamentos é hoje um dos mais importantes bastiões do património edificado cascalense.

Apesar de os mais antigos livros sobre o desenvolvimento histórico da Vila e do Concelho de Cascais apontarem o reinado de Dom Manuel I, como marco cronológico para o início da construção da Fortaleza de Nossa Senhora da Luz, possivelmente devido ao registo feito nesse sentido nas Memórias Paroquiais de 1758 pelo Pde. Marçal da Silveira, Pároco de Cascais, parece certo que as obras terão decorrido em período diferente, como aliás o atestam os trabalhos arqueológicos que ali se desenvolveram coordenados pela historiadora Margarida Magalhães Ramalho.

De facto, e tendo em conta as características estruturais do edifício, com os seus baluartes defensivos, tudo aponta para que a sua construção seja posterior àquela data. De acordo com aquela historiadora, somente no Século XVI é que se começaram a utilizar as novas técnicas construtivas visíveis na fortaleza de Cascais: “É por demais sabido que a invenção e a primeira utilização do traçado abaluartado é de responsabilidade italiana, estando esta Escola, na primeira metade do Século XVI, a dar os seus primeiros passos”.

Tendo sofrido diversas modificações, que alteraram significativamente o seu aspecto exterior, o edifício conseguiu, no entanto, manter sempre vivas as memórias dos tempos anteriores. Profundamente intervencionada no decorrer do período filipino, e posteriormente no reinado de D. João IV, que edificou todo o recinto amuralhado exterior, a Fortaleza de Nossa Senhora da Luz surge já representada iconograficamente na figura de Bráunio, de 1572, a mais antiga imagem conhecida da Vila de Cascais.

Em 1755, quando o terramoto destruiu grande parte dos edifícios da localidade, a Fortaleza de Nossa Senhora da Luz, e a Cidadela de Cascais conseguiram sobreviver ao cataclismo, mantendo de pé as mais importantes partes da sua estrutura exterior. As intervenções arqueológicas levadas a cabo no interior da fortaleza permitiram perceber que, apesar de a sua fisionomia ter sido alterada pela introdução de novas soluções arquitectónicas, nomeadamente as janelas que acabaram por se incluir nas paredes outrora cegas da torre medieval, o acidente de 1755 não foi suficiente para derrubar as grossas paredes dos edifícios existentes.

As inovações introduzidas, permitindo uma adaptação daquele espaço às novas exigências militares do Século XVIII, mantiveram a função dissuasória do edifício. Após a intervenção de 1645, durante o reinado de D. João IV, a capacidade do contingente da fortificação passou para cerca de 3000 homens, governados pelo Conde de Cantanhede, D. António Luiz de Menezes, o que comprova a importância estratégica que desde sempre caracterizou a Vila de Cascais.

Com a construção da moderna marina que, apesar da contestação promovida pela generalidade dos cascalenses, acabou por envolver todo o recinto amuralhado, a Cidadela de Cascais e a Fortaleza da Luz perderam os seus horizontes atlânticos, transformando-se numa memória oca dos destinos marítimos de outros tempos.
Defraudada, delapidada, e envelhecida, com o seu velho palácio Real, e com os constrangimentos paisagísticos que os políticos de hoje lhe impuseram, a Fortaleza de Cascais merece ser devolvida, de forma definitiva e irreversível aos cascalenses.