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quarta-feira

Rei Dom Luís I - A Última Vez em Cascais



por João Aníbal Henriques

No dia 31 de Julho de 1889, há 135 anos, o Rei Dom Luís I chegou pela última vez a Cascais. A conselho dos médicos, que conheciam a extrema gravidade da sua saúde e o seu estado terminal, instalou-se no Palácio Real da Cidadela, de forma a que os seus últimos dias fossem passados a contemplar a sua Baía de Cascais. Para tal, o quarto foi mudado para outro compartimento de forma a colocar a cama junto à janela que tinha aquela vista privilegiada. Expirou serena e tranquilamente no dia 19 de Outubro de 1889 com o olhar perdido nas águas maravilhosas do mar que tanto amava. Sempre em Cascais.




(o quarto privado do Rei Dom Luís I no Palácio Real da Cidadela de Cascais)





terça-feira

As Casas de Cascais



por João Aníbal Henriques

A designação corrente de Casas de Veraneio, termo que se tornou comum no léxico dos Cascalenses desde há já muito tempo, surge em Cascais nos anos anteriores a 1870, dando origem a uma série de modificações que culminam na escolha desta povoação, a partir dessa data, como local de veraneio oficial do Rei e da corte, durante o período outonal.

A escolha de Cascais, mais do que devido aos méritos da terra, pois estes estiveram presentes desde o início dos tempos, deveu-se sobretudo à conjugação de factores culturais, como sejam o interesse pelo mar e pela oceanografia, da qual era grande adepto o Rei Dom Luís, com factores de índole patrimonial, uma vez que antes da chegada da corte já o Visconde da Luz lutara pela introdução nesta vila de uma série de alterações que visavam sobretudo a melhoria das condições de veraneio e de habitabilidade.





As habitações de génese rural e saloia, com uma forte componente arábico-muçulmana, que até essa altura abundavam em Cascais, são assim confrontadas com a necessidade de fornecimento de níveis superiores de conforto aos veraneantes lisboetas da alta aristocracia que aproveitavam a relativa proximidade da vila de Cascais face à capital, bem como a influência social conseguida pela progressiva aproximação à corte, para singrar no complicado panorama político português dessa época.

Uma das condicionantes mais importantes dessa situação, para além da conjugação de factores já apontada, foi ainda o estado físico do burgo Cascalense nesta segunda metade do século XIX. O marasmo edificativo dos últimos séculos, devido à pacatez que sempre caracteriza a vida de pescadores e de agricultores, promovera a continuidade tipológica das casas e das gentes. Uma população maioritariamente pobre, sem grandes recursos para além daqueles que retiraram da terra e do mar, aliados a uma posição geográfica estratégica no que concerne à defesa de Lisboa, e que trouxe a Cascais grande número de tropas que obviamente não necessitavam de construir casas e que habitavam nos aquartelamentos marítimos, fez com que o aglomerado urbano da vila se mantivesse sempre muito característico, facto ainda observável na parte denominada de centro histórico. A agravar ainda mais este marasmo, estava a pouca concentração populacional no Cascais desta época, facto que, inclusivamente, encontra eco na própria imagem que nos é dada da vila de então: «O cerne dessa imagem é, paradoxalmente, o esvaimento do próprio lugar humano - o nome Cascais evoca um sentimento cosmopolita da paisagem, a curva artificiosa da baía, o recorte das falésias que suportam o embate festivo das marés. Esse nome é quase só uma ponte entre a monotonia do quotidiano e o apelo, que se presume aventureiro, do mergulho e da viagem. Às portas de Lisboa, Cascais não é um lugar de entrada na capital mas um privilegiado ponto de partida. Em direcção à não urbe ou seja à natureza, entre o céu e o mar e espaço indefinido do algures». As casas, quase todas de pequeno porte e evidenciadoras de um conservadorismo devido à falta de necessidade de transformação chegam a 1755 com as referências tipológicas medievais praticamente intactas, sendo que o terramoto, mais do que criar a necessidade de novas construções, onde a novidade seria facilmente introduzida, veio criar a possibilidade, devido à morosidade das obras de reconstrução, de se transformar por completo o núcleo edificado da vila, após 1870, adaptando-o às necessidades da nova aristocracia veraneante.





Quando mencionamos o fluxo edificativo dessa época, derivado da chegada a Cascais de uma população que nada tem a ver com as origens do próprio espaço físico cascalense, encontramos também a chegada das novidades arquitectónicas e da arquitectura que designamos de veraneio. As antigas casas dos cascalenses de outros tempos, ou melhor, aquelas que resistiram minimamente à destruição protagonizada pelo grande terramoto de Lisboa, mantiveram-se assim na sua grande maioria sem transformações de maior, muito embora o desenrolar dos tempos, e principalmente as transformações políticas resultantes do fim do regime monárquico, tenham obrigado a que muitas delas assistissem ao acrescentamento de um andar superior que, no entanto, e no que diz respeito à sua classificação tipológica, manteve as características básicas das antigas habitações rurais com primeiro andar, tendo recebido ainda algumas alterações ao nível da decoração e dos acabamentos.

Se em Cascais a situação tende a tornar-se intermédia, no sentido em que as velhas habitações de génese rural e saloia se vão progressivamente misturando com as novas edificações aristocratas que ocupam os lugares abandonados pelas ruínas das construções arruinadas em 1755, no resto da zona litoral a situação é amplamente diversa. 

Povoações como o Monte Estoril e o Estoril, por exemplo, são vastos pinheirais desabitados, ou locais onde o carácter precário das edificações permite a sua demolição completa e a sua substituição por novas habitações. São João do Estoril, Cai-Água e Parede, por seu turno, são pequenas aldeias saloias, onde a precariedade das construções existentes, bem como o reduzido preço das terras, permitiu a sua venda aos recém-chegados veraneantes de largas posses, e a substituição patrimonial de grande parte das suas habitações pela nova tipologia de veraneio. 

Carcavelos, no entanto, apresenta ainda, pela sua origem muito marcada pela presença dos ingleses e pela exploração dos recursos vinícolas, um panorama ligeiramente diferenciado, uma vez que as antigas habitações rurais e saloias, devido à necessidade de mão-de-obra que era fornecida pelos seus habitantes para os trabalhos agrícolas, permitiu uma certa continuidade de ocupação, muito embora hoje seja já difícil distinguir as velhas habitações de Carcavelos completamente abandonadas e em ruínas, de velhos pardieiros e de currais para animais.

A Corte em Cascais (1870-1910)





por: João Aníbal Henriques

Foi motivo de grande perplexidade  para o País a chegada da Corte a Cascais em 1870. Ao contrário do que vinha sucedendo desde há muitos séculos, a Família Real optou por deixar Sintra no final do Verão para vir para Cascais onde o Rei Dom Luís se deleitava com os salpicos salgados da água do mar. A decisão de se instalar na até aí quase desconhecida vila situada no extremo mais Ocidental da Europa, surge envolvida em polémica e nalguma galhofa junto dos círculos socialmente mais favorecidos da moderna sociedade Lisboeta. É que enquanto que em Sintra, em Évora, em Mafra ou em Vila Viçosa a Corte se deslocava de palácio em palácio, instalando-se em edifícios deslumbrantes que davam forma à grandeza que se imagina que acompanha sempre a figura do Rei, em Cascais a Família Real ficava instalada no Palácio do Governador da Cidadela que é, na sua diminuta expressão, o reaproveitamento das antigas instalações militares da velha guarnição…

Mas a situação ainda se complica um pouco mais quando falamos do resto da Corte. As grandes famílias Portuguesas, habituadas ao fausto e à grandiosidade dos salões da capital, sentem-se obrigadas a vir para Cascais com os Reis e a Família Real, mas aqui chegadas, contrariamente ao que acontece noutros locais, não têm outro remédio senão instalar-se nas minúsculas e velhas casinhas dos pescadores, trazendo consigo os serviços de refeições, toda a loiça, roupa de cama, etc. Nos primeiros dias depois da chegada a Cascais chegava a ser cómica a cena, com dezenas de criados trajados a rigor a esforçarem-se o mais que podiam para limpar e aconchegar os casebres Cascalenses que os pescadores locais lhes alugavam para a estadia de veraneio.




Nas revistas da moda e até junto dos mais conceituados escritores da época como Ramalho Ortigão, são às dezenas as crónicas e as descrições deste inusitado momento. Cascais, povoação conhecida por ser “feia” e pelo ditado que corria de boca em boca e dizia “a Cascais uma vez e nunca mais”, sentava-se ao espelho e pinta-se como se fosse uma primeira bailarina de uma qualquer sala de ópera Europeia. Depois de tratada, e principalmente durante os meses em que por cá permaneciam os visitantes ilustres da capital, tornava-se o espaço da moda onde convinha ser-se visto pois disso dependia o êxito social do Inverno seguinte.




A partir dessa altura, como se tivesse sido transformada num enorme palco de teatro, Cascais tornou-se a terra do fingimento. Fingia-se não sentir o desconforto dos casebres precários onde "sangues-ilustres" eram consumidos pelos percevejos; fingia-se ter dinheiro que não se tinha ou, tendo-o, fingia-se ter um sangue azulíssimo… Era em Cascais que, depois de muito penar nos empregos e trabalhos árduos da capital, se gastavam as economias guardadas com esforço; e era também aí, em episódios caricatos e repetidos vezes sem conta ao longo dos anos, que se traçavam as alianças entre as famílias, as estratégias empresariais e muitas vezes até os casamentos que deram forma a uma nova geração de Portugueses. 





quinta-feira

Cascais em 1879: um Portugal a fingir...





Em 1879 tudo mudou em Cascais. Com a chegada da Corte e da Família Real, a vila ganha uma nova paisagem urbana e vê os seus hábito sociais profunda e radicalmente alterados. Mudam-se os tempos... mudam-se as vontades...

por: João Aníbal Henriques

Tudo é ilusão nesta terra única em Portugal. 

Em Cascais iludiam-se os pergaminhos através de apelos nem sempre bem conseguidos ao bom gosto e à vida requintada. Lutava-se, muitas vezes corpo a corpo, por impor as regras e os costumes que de muito longe se importavam. O resultado, quase sempre inglório, traduzia-se numa feroz incapacidade para tornar verdadeiro o dia-a-dia que aqui grassava. As senhoras, oriundas da mais ilustre aristocracia, deambulavam com os seus trajes de gala por entre as redes de pesca sujas e com os pés enterrados no profundo areal. Fingiam-se confortáveis e bem. Fingiam-se preparadas para enfrentar a dura realidade de um Portugal muito atrasado onde as discrepâncias entre a vida quotidiana das pessoas e o dia-a-dia na capital era gritante, preocupante e abissal. Fingiam sorrisos quando se cruzavam umas com as outras ou quando, mercê do acaso e da sorte, encontravam em pleno passeio algumas das figuras mais relevantes da corte de então. Até o Rei ou a rainha, com muita sorte, se podiam encontrar nas ruas de Cascais. E elas fingiam. Fingiam sempre para a eventualidade de terem um encontro igual e de, nesse momento, poderem curvar-se perante tão excelsas figuras que eram o modelo da sociedade de então.

Mas nessa altura os pescadores também fingiam. Dedicavam-se a servir os senhores e tentavam portar-se à altura dos costumes que eles traziam consigo da capital. Abandonavam as suas casas e moravam em barracas precárias para ganharem algum dinheiro durante o período estival. E fingiam que era sempre assim, que as casas não eram as suas, e que aqueles senhores que vinham com o Rei eram iguais ao cliente habitual. As mulheres, cientes do seu papel na economia do casal, lavavam a roupa, vendiam o peixe e comentavam os vestidos, as maneiras e os modos desta gente tão especial. E também fingiam. Fingiam-se importantes perante os fingidores que lhes ocupavam as casas onde elas passavam o seu Natal. Fingiam todos, afinal.




E o contra-senso imperava. Quem fingia menos era precisamente o Rei e a Família Real. Instalavam-se na Cidadela de Cascais, precariamente adaptada a residência real mas não o faziam para fingir nada de especial. Dom Luís, primeiro, e D. Carlos, depois, gostavam mesmo de Cascais. Gostavam do mar, das ondas, do clima, do peixe, dos barcos e da praia. Dom Luís refugiava-se nos seus estudos e nas prospecções. Estava em Cascais para poder estar próximo do mar. Morreu assim, a contemplá-lo. Dom Carlos gostava de tudo o resto. Gostava do mar também, mas não perdia uma ocasião para andar livremente por Cascais, sem escoltas, seguranças ou quaisquer outros cuidados. Fingia um pouco também. Fingia que não era ninguém importante e fingia que era seguro perder-se assim conversando aqui e ali com os pescadores de Cascais.

Nessa altura não se fingia. Perante o Rei todos eram como eram… pois se ele era assim também.

Mais um contra-senso para a Estória da região. Porque motivo não fingia ninguém perante o Rei e fingia-se sempre que ele virava costas e se dedicava ao mar? Possivelmente porque só assim se compreende a vida da corte e o mundanismo que atrai a atenção e transporta consigo o brilho do glamour que todos desejam.