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sexta-feira
A República em Cascais (1910-2010) – O Devir Histórico e a Identidade dos Cascalenses
por: João Aníbal Henriques
Compreender o devir histórico de Cascais ao longo dos últimos anos do Século XIX, tal como as diversas questões inerentes ao desenvolvimento das estruturas organizativas da sociedade Cascalense, longe de ser passível de determinação individual, pressupõe um arreigado exercício de contextualização e de integração cronológica, social e espacial.
De uma maneira geral, tanto para os que dela são naturais como para aqueles que nela somente residem, a Vila de Cascais é um local com inúmeros atractivos. A proximidade da capital, as condições estratégicas de defesa, o clima privilegiado e as diversas linhas de água que a percorrem, foram as condições essenciais que definiram a ocupação humana que se estende desde o Paleolítico até à actualidade.
Deixando de lado os mais remotos e inatingíveis tempos da sua vida, e tomando em consideração somente o período que se estende entre 1143 e o dia 5 de Outubro de 1910, podemos distinguir na vida Cascalense quatro períodos fundamentais: o primeiro, que se estende desde o dealbar da Nacionalidade, em 1143, até 1364, corresponde ao período de afirmação da pequena vila piscatória como Concelho, desenvolvendo as suas instituições e a força do seu tecido social (4). O segundo, de 1364 até 1870 (5), caracteriza-se fundamentalmente pelo desenvolvimento das suas capacidades naturais. A pesca e as actividades em prol da defesa de Lisboa, a agricultura e a pecuária, encontram neste período a sua época de desenvolvimento e consolidação, antevendo a preparação das condições essenciais à radical transformação de que vai ser alvo no último quartel do Século XIX. O terceiro período da História de Cascais encontra-se situado entre os anos de 1870, data em que Dom Luís I, com o seu amor pelo mar e pelas actividades marítimas, passa a utilizar a vila como estância de banhos, para onde trás a Corte durante a época estival. E o último, corresponde ao período compreendido entre a implantação da república e a actualidade, onde o nível de vida, as capacidades da vila e as suas riquezas naturais, vêm-se progressivamente degradando, mercê da utilização exaustiva dos seus recursos e pautando a sua existência por uma contínua expansão turística massificada, onde pouco lugar sobeja para conhecer, reconhecer e potencializar a sua natural vocação de qualidade.
O presente trabalho, longe de procurar apresentar alternativas ao rumo tomado pelo Concelho ao longo do último Século, debruçar-se-á principalmente sobre os dois últimos períodos da existência da Vila, sendo que, pelas radicais diferenças que os caracterizam, e de entre um e o outro não ter existido uma evolução paulatina mas sim um processo revolucionário de modificação radical, será lógico encontrar no primeiro as sementes do segundo, e no segundo, de igual modo, as ramificações e consequências que resultam do primeiro.
As condicionantes básicas às existências destas duas formas de pensamento que, como se actualmente não são radicalmente opostas no que concerne à sua função prática, mudando-se os nomes e os processos de execução, mas mantendo-se as obras básicas de implantação, estão assim patentes em diversos momentos e decisões tomadas pelos órgãos competentes, sejam eles os diversos clubes, sociedades e grupos desportivos e culturais, como também na Câmara Municipal, na Junta de Turismo, de entre outras. As formas de propaganda de cada um dos regimes, bem como as benesses ou as imposições que ambos utilizaram durante a vigência dos seus mandatos, servirão assim de base à compreensão da consciência cívica e política da sociedade que, sem possuir um papel activo na gerência e/ou na administração da terra, se vê embrenhada em todas as questões, sofrendo na sua pele inocente as consequências negativas das decisões e medidas tomadas pelos governantes de ambas as facções.
(4) COLAÇO, Branca de Gontha e ARCHER, Maria, “Memórias da Linha de Cascais”, Lisboa, (SN), 1943.
(5) HENRIQUES, João Aníbal, “O Urbanismo de Cascais na Época Moderna”, Jornal da Costa do Sol, 22 de Julho de 1993.
A República em Cascais (1910-2010) – O Visconde da Luz e a Modernização Urbana
por: João Aníbal Henriques
Decorria o longínquo ano de 1862, quando a Vila de Cascais não passava ainda de um pequeno burgo piscatório, que Joaquim António Velez Barreiros, Visconde de Nossa Senhora da Luz, resolveu edificar na Vila Nova, antigo Alto da Bela Vista, a sua moderna casa de veraneio.
O processo desenvolvido desde então, a par com diversas medidas introduzidas ao nível do embelezamento do passeio e acessos à povoação, produziu assim transformações perenes na diminuta povoação que a dotaram das condições necessárias para se tornar no centro cosmopolita de turismo que a caracterizaria durante as duas últimas décadas do Século XIX.
Foi a acção conjunta de diversos forasteiros, atraídos para Cascais depois da instalação do Visconde da Luz, a par com a vontade expressa por parte de alguns ilustres moradores, dos quais fez parte o saudoso Presidente da Câmara João de Freitas Reis, que determinou o futuro da localidade. Por postura camarária de 24 de Maio de 1860, o referido Presidente da Edilidade, de comum acordo com os anteriormente referidos, cria a estrada entre Cascais e Oeiras, obra fulcral no desenvolvimento das comunicações entre a foz do Tejo e a capital. Paralelamente, a mesma postura determina que todos os carros, ómnibus, seges e bestas somente pudessem transportar pelo empedrado, sob pena de multa. Para o embelezamento desta importante via pública cedeu a Câmara, a instâncias do Visconde da Luz, as varas necessárias para a protecção do crescimento das inúmeras árvores então plantadas.
Provado que está o esforço empreendido pela classe dirigente do pequeno burgo no sentido de o dotar das infra-estruturas necessárias ao seu desenvolvimento, promovendo assim as condições naturais que lhe estavam inerentes, poder-se-á pois concluir da conjugação de esforços efectuada em torno destas iniciativas, envolvendo naturais e recém-chegados à Vila de Cascais.
A República em Cascais (1910-2010) – O Crescimento Real
por: João Aníbal Henriques
Povoada até aí quase exclusivamente por agricultores que ocupavam a sua zona mais interior, e uns poucos pescadores assentes na faixa litoral, a Vila de Cascais assistiu passivamente a uma radical transformação social.
Se a presença no povoado de um pequeno convento da Ordem Carmelita, dedicado a Nossa Senhora da Luz, serviu de incentivo à modernização de algumas das actividades desenvolvidas no sector primário da economia, a extinção das Ordens Religiosas, com toda a problemática que a envolveu, representou o final da única instituição relevante no desenvolvimento social de Cascais. Por esse motivo, quando em 1832 o edifício do convento é vendido em hasta pública, são poucos os interessados em adquiri-lo, sendo que, em pouco mais de cinquenta anos, conheceu um elevado número de proprietários, tendo entrado na posse do Visconde do Gandarinha já após o surto de desenvolvimento encetado pelo Visconde da Luz (6) já no último quartel do Século XIX.
Foi, no entanto, o gosto pelo mar da Princesa Maria Pia de Sabóia, que no dia 5 de Outubro de 1863 chegou a Cascais para desposar o monarca Português Dom Luís I, que contribuiu de sobremaneira para a transformação do espectro social da vila. As suas origens Italianas, da Família Sabóia, misturadas com as reminiscências da Dinastia de Saxe-Coburgo-Gotha, da qual descendia, faziam dela uma das mais espontâneas admiradoras das belezas naturais, as quais cascais possuía em grande abundância…
Um novo ciclo vai dimanar para Cascais destas novidades que, em conjunto com a acção dinamizadora do Visconde da Luz, vão trazer a esta Vila o esplendor da fina-flor da sociedade da época. A chegada da Corte, noticiada pela imprensa no mês de Setembro de 1870 (7), vem marcar para sempre o devir histórico da localidade, que passa assim a usufruir do estatuto de Vila da Corte. Por este motivo, passam a afluir a Cascais em carácter de veraneio ou mesmo em esporádicos passeios dominicais, uma numerosa horda de forasteiros que entregam à povoação Cascalense um movimento que ela nunca sonhara poder vir a conhecer. É neste contexto festivo, rodeado de um fausto difícil de igualar, e em que as grandes famílias Portuguesas lutavam para se impor, que se celebravam constantemente grandes recepções e jantares, aos quais, todo aquele que pretendesse atingir o estatuto de galã social, não se poderia furtar.
Muitas vezes com prejuízo irremediável para o restante do ano, as famílias Lisboetas alugavam as modestas habitações dos pescadores da Vila, onde, de acordo com os relatos da época (8) sobreviviam sem as menores condições de higiene e comodidade, não dispensado, no entanto, a utilização dos melhores serviços de prata que possuíssem nos seus palácios na capital. Num curioso episódio descrito por Dom Tomaz de Mello Breyner, Conde de Mafra, é possível vislumbrar as pitorescas situações a que se podia assistir durante a estação estival Cascalense (9). É enquadrado neste ambiente forjado que se assiste a um progressivo aumento das actividades na Vila que para aqui atrai um cada vez maior número de visitantes.
Os anos que decorrem após 1870 são férteis na actividade de construção, aparecendo diversos chalets e palacetes que garantiam uma maior comodidade aos grandes senhores do Reino. É este o caso das obras de remodelação da Cidadela, para a estada da Família Real, bem como a construção dos Palácios dos Duques de Palmela, a “Casa da Serra” de Andrade Torrezão, e diversos palacetes pertencentes, de entre outros, a António José Marques Leal, Francisco Ribeiro Ferreira, Duques de Loulé, Eduardo Plácido, Marquês da Foz, D. António de Lencastre, Carlos Mantero, Marquês do Faial, D. Nuno d’Almada, Conde de Arnoso, D. António de Avillez, Raul Lino, Jorge O’Neill, Francisco Vilaça e os Condes de Castro Guimarães.
Paralelamente a este esforço modernizativo que obrigou a uma radical transformação da paisagem urbana do burgo, ocorreu a acção social da Duquesa de Palmela que, mercê da sua abastada posição económica, provocou uma renhida concorrência com a Rainha, promovendo recepções e jantares a um ritmo alucinante, para os quais eram convidados os maiores e mais importantes fidalgos do País. O Palácio Real da Cidadela, para além de não possuir o fausto do da Duquesa de Palmela, sofria com a depauperada situação financeira da Rainha Dona Maria Pia, que se via obrigada a grandes esforços para manter o seu esplendoroso nível de vida.
(6) A respeito da via no Convento de Nossa Senhora da Piedade e do complexo processo de que foi alvo e definiu as inúmeras modificações acontecidas no final do Século XIX ver: MENDES, Fernando Viana, “Escavações Arqueológicas Mostram Quatro Séculos de História”, Jornal A Zona, 12.02.1993; TEIXEIRA, Carlos A., “Escavações Arqueológicas em Cascais Desvendam Quatro Séculos de História”, Jornal da Costa do Sol, 13.02.1992; HENRIQUES, João Aníbal, “O Estado da Cultura ou a Cultura do Estado”, Jornal Tribuna Regional, Janeiro de 1993; BARAONA, Joaquim, “As Casa da Gandarinha em Cascais: Tudo Concertado Antes do Final do Ano”, Jornal Tribuna Regional, Setembro de 1993; TEOTÓNIO PEREIRA, Inês, “Sem Piedade”, Jornal O Independente, 15.10.1993; HENRIQUES, João Aníbal, “As Casas da Gandarinha em Cascais – A Hora da Mudança”, Jornal da Costa do Sol, 28.10.1993; HENRIQUES, João Aníbal, “Casas Abandonadas de Cascais: As Casas da Gandarinha e o Convento de Nossa Senhora da Piedade”, Jornal Tribuna Regional, Outubro de 1993; HENRIQUES, João Aníbal, “Convento de Nossa Senhora da Piedade – 400 Anos de História”, Jornal da Costa do Sol, 17.03.1994; HENRIQUES, João Aníbal, “História Rural Cascalense”, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 1997.
(7) Jornal do Comércio, Domingo, 15 de Setembro de 1870: “Cascais – Os bons e pacíficos cidadãos de Cascais fizeram esplêndida recepção a El-Rei e à Rainha, que para fazerem uso de banhos no mar, chegaram àquela Vila às seis e um quarto da tarde do dia 12. Desde o princípio da Vila até à Cidadela, as janelas estavam enfeitadas com bandejas, globos de vidro, e vistosas colchas de damasco. As ruas encontravam-se cobertas de areia e de buxo”.
(8) Diário de Notícias, 28 de Agosto de 1871.
(9) “A Madame Dupias vinha a Cascais de visita a uma amiga doente, moradora numa rua estreita, pobre, suja e calçada com pedregulhos, encontrou uma titular das suas relações saindo de uma habitação modestíssima e preparando-se para entrar num coupé bonito, puxado por bela e bem arreada parelha, com um cocheiro bem fardado e um trintanário bem posto de chapéu na mau, abrindo a portinhola. Esta senhora em Lisboa vivia numa casa magnífica”.
A República em Cascais (1910-2010) – Modernização e Prosperidade no Final do Século XIX
por: João Aníbal Henriques
Paralelamente ao grande desenvolvimento social da Vila, um complexo sistema de alterações económicas vem gradualmente contribuir para modificações profundas no nível de vida da sua população.
Se o sector da construção constituiria na época uma das mais rendosas actividades profissionais, mercê do elevado número de construções e melhoramentos introduzidos na Vila (10), os serviços de apoios ao cada vez mais elevado número de habitantes e visitantes iam crescendo também. Par fazer face ao crescimento exponencial da procura, abrem na Vila de Cascais diversas padarias e fábricas de pão, que importavam o trigo e farinha necessários aos produtores instalados no vizinho Concelho de Oeiras (11).
Como complemento a esta actividade de panificação, e de acordo com a anterior tradição do Concelho, implementaram-se diversas fábricas de tratamento e conserva de peixe, que serviam de base à dieta alimentar dos veraneantes e que perduraram activas até à década de sessenta do Século seguinte (12). A actividade hortícola, até aí promovida basicamente pelos “saloios” da Várzea de Sintra, conhece também um importante crescimento nas regiões interiores do próprio Concelho, notando-se nesta época um crescimento significativo nas povoações de Alcabideche, Adroana, Manique, São Domingos de Rana, Malveira-da-Serra, de entre outras, que exportavam as suas produções para o núcleo principal do Concelho onde já desde a década de 80 do Século XIX existia um importante mercado para comercialização de produtos agrícolas.
Acompanhando este surto de desenvolvimento económico, e em linha com o que acontecia nas principais estâncias balneares Europeias, os jornais da época publicitavam cada vez mais as actividades desenvolvidas na Vila de Cascais. Em 1870, no dia 24 de Julho, o Diário de Notícias anuncia o aluguer de uma moradia em Cascais, bem como uma viagem de recreio no vapor “Lusitano” entre Lisboa e a Vila. Facto curioso nessa notícia é o de, em relação ao preço do bilhete, que ele seria o mesmo do costume, o que deixa antever a grande procura de que seria alvo esse meio de transporte.
Em 13 de Agosto de 1871, na sua folha oficial, o mesmo Diário de Notícias publicava um decreto com a concessão do caminho-de-ferro do sistema americano ao Duque de Saldanha, na Estrada Real nº 67, de Lisboa a Cascais, e no dia 28 de Setembro do mesmo ano é anunciada a inauguração da luz eléctrica.
Do ponto de vista cultural, representou um momento áureo da vida na Vila de Cascais a realização no Concelho do Congresso Internacional de Arqueologia, em 1880, que para aqui trouxe centenas de congressistas oriundos de diversas partes do Mundo. Assim, durante um breve mas significativo dia, os grandes nomes da arqueologia mundial tiveram a oportunidade de visitar os monumentos Pré-Históricos da Vila de Cascais, terminando o seu passeio, já bastante tarde, num baile de gala oferecido pela Rainha.
Enquadrado no esforço do Visconde da Luz em modernizar a Vila, e com a autoria de Manuel Rodrigues de Lima, construiu-se em 1869 uma sala de espectáculos em Cascais. Pelo Teatro Gil Vicente, que recebeu recentemente obras avultadas de remodelação (15) passaram os grandes nomes do espectáculo do Século XIX, como Mercedes Blasco, Laura Ferreira, Pedro Cabral, Pereira da Silva, Beatriz Rente, Rodrigo Berquó , Dom Fernando Atalaia, D. Belmira Lima, etc.
Ao contrário do que se poderia pensar, a morte de Dom Luís I, grande impulsionador da vida em Cascais, ocorrida em 1889, não representou o fim da época de esplendor. O próprio cortejo fúnebre do Rei, maravilhosamente descrito por Ramalho Ortigão nas suas “Farpas” (16), representou um dos acontecimentos sociais mais marcantes do final do Século, tendo sido acompanhado de perto por todos os grandes nomes da aristocracia Nacional.
Após a subida ao trono de Dom Carlos I, que continuou a escolher Cascais como a sua praia de banhos, e no próprio ano da morte do rei Popular, é inaugurado o transporte ferroviário para Lisboa (17). A continuidade na utilização das praias da linha como pontos fundamentais da vida social de então, marcaram decisivamente a política daquela época. No “António Maria” de 29 de Setembro de 1881 (18), esboça Bordalo Pinheiro a sua primeira nota relativamente a esta extraordinária Praia da Corte. Por esta altura era o Teatro Gil Vicente palco de inúmeras actuações, durante o dia com “matinés” infantis que serviam para entreter as crianças e as suas “nannys” enquanto os pais passeavam descontraidamente pelo Passeio Marítimo, e à noite com grandiosas actuações de música ligeira, ópera e teatro. No Jornal “GilBrás” de dia 28 de Outubro de 1899, são-nos anunciadas duas grandiosas e opulentas festas de caridade que decorreram no Teatro Gil Vicente (19).
Paralelamente, era inaugurada em Cascais uma Real Praça de Toiros, onde lidaram alguns dos melhores toureiros da época. D. António Vasco de Mello, como cavaleiro, e José Martinho Alves do Rio, como farpeador, deram assim início a uma tradição tauromáquica arreigada que se estendeu quase até à actualidade e à qual desde logo se juntou o próprio Rei Dom Carlos I. Desde essa altura, muitas foram as touradas importantes realizadas em Cascais, sendo naturais desta Vila os senhores Dom Francisco de Avillez, Alberto O’Neill, Simão da Veiga, João da Veiga, Affonso Villar, Zêa Bermudez e Estêvão Vanzeller, responsáveis pela implantação da tauromaquia como grande espectáculo artístico Nacional.
A primeira exposição fotográfica que se realizou no nosso País, e que contou com a participação de artistas como Frederico Pinto Basto, Ennes Ulrich, Francisco de Herédia e o próprio Visconde da Luz, teve lugar em Cascais no dia 13 de Outubro de 1898. Foi este evento noticiado como grande acontecimento pelo Diário de Notícias (26) que mudou radicalmente o conceito nacional relativamente à fotografia, que passou a ser vista como uma arte equiparada à pintura e à escultura, e não como uma mera actividade figurativa.
Todas estas transformações, que aconteceram durante o período compreendido entre a chegada do Visconde da Luz e o final do reinado de Dom Carlos I, tiveram profundas consequências na Vila de Cascais e nas suas gentes. Se até aí produziam essencialmente para se auto-abastecerem, sendo a exportação para a Capital um fenómeno isolado e pouco digno de nota, a chegada da Corte marcou um definitivo ponto de viragem. A criação de postos de trabalho, que inicialmente acontecia somente durante o período estival, não tardou a alargar-se ao restante tempo do ano, à medida em que a aristocracia Lisboeta aqui ia investindo a sua riqueza, sobretudo construindo casas que lhes permitiam usufruir dos banhos e da companhia Real com mais conforto e comodidade. O apoio dado directamente por Dom Carlos I aos grupos recreativos, culturais e desportivos incentivo à criação de raízes sólidas neste local.
Paulatinamente, os que inicialmente só vinham para Cascais passar curtos períodos, começaram a instalar-se definitivamente, promovendo uma autêntica revolução no tecido social da antiga vila de pescadores.
Fácil de torna perceber, desta maneira, a forma hospitaleira e a efectiva alegria com a qual os Cascalenses receberam os seus novos e ilustres moradores, bem como a harmonia social e cultural que se recriou a partir desse momento. A chegada da Corte a Cascais, e a relação íntima de Cascais com o regime Monárquico, acabou por constranger em definitivo a implementação na Vila das medidas revolucionários que os partidários do 5 de Outubro aqui quiseram promover.
(10) Ver Nota (5)
(11) MIRANDA, Jorge, “Tecnologia Tradicional e Sistemas de Moagem em Oeiras”, in Actas dos Encontros de História Local, Oeiras, câmara Municipal de Oeiras, 1992.
(12) GOES, Maria das Dores, “A Real Fábrica de Lanifícios de Cascais”, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964
(13) Diário de Notícias, 28 de Setembro de 1898, “deve ser iluminada a Cidadela de Cascais para marcar a data de aniversário do Princípe Real Dom Luís Filipe”
(14) Ver Nota (3)
(15) Jornal da Costa do Sol, Fevereiro de 1994
(16) ORTIGÃO, Ramalho, “As Farpas”, Pag. 291
(17) Jornal O Aldense
(18) GilBrás, 28 de Outubro de 1899
(19) Diário de Notícias, 14 de Outubro de 1898
A República em Cascais (1910-2010) – A Vila da Corte no Processo Revolucionário

por João Aníbal Henriques
A criação de muitos postos de trabalho, e o incentivo dado à criação e posterior promoção do sector produtivo Cascalense durante os reinados de Dom Luís I e Dom Carlos I, foram os principais factores que estiveram na base da modernização e ao rejuvenescimento social e cultural da Vila de Cascais.
Finalmente, após mais de quinhentos anos de História, Cascais sai do marasmo em que se encontrava, assistindo ao progressivo enriquecimento do seu povo. Pela primeira vez na História de Cascais, os naturais possuem as condições necessárias para se poderem desenvolver, incrementando as suas tradicionais ocupações, como a agricultura, as pescas e as indústrias conserveiras, e intentando novos investimentos em áreas de negócios mais rentáveis.
Com um quadro político desta natureza, e com a criação de extraordinários (e pouco usuais para a época) jardins e espaços públicos (o Jardim Visconde da Luz e a Parada são exemplos emblemáticos desta situação), paralelamente ao apoio que é dado aos corpos de salvamento de actividades marítimas, e a criação de novos arruamentos e meios de transporte, fácil será perceber as inúmeras dificuldades sentidas pelos propagandistas republicanos para poderem disseminar por aqui as suas ideias (21).
Segundo nos relata Ferreira de Andrade (22), o dia 1 de Fevereiro de 1908 representou o fim trágico do período de esplendor e crescimento da Vila de Cascais: “Não mais se animaram nessas tardes festivas dos últimos dias de Setembro os passeios e as praças da povoação. Um silêncio tétrico, pressago, pairava sobre a Vila. Dona Maria Pia continuava veraneando na sua vivenda no Mont’Estoril. D. Manuel II e sua mãe raras vezes se deslocavam à Cidadela (…)”.
O primeiro sinal de uma prática republicana em Cascais é-nos relatado pelo Professor Marques Guedes (23): “Um iniciado da Carbonária, que ameaçara denunciar alguns cúmplices num roubo de cartuchame, apareceu morto no fundo a alterosa falésia contra a qual as vagas se arrojavam em fúria em dias de temporal. Apresentava vestígios de para lá ter sido arremessado”.
Como vinha acontecendo desde a chegada a Cascais do Rei Dom Luís I, no já longínquo ano de 1870, as festas locais começaram a preparar-se no dia 2 de Outubro de 1910. Corridas de Toiros, torneios de tiro aos pombos e outras actividades festivas que acompanhavam as tradicionais regatas, encontravam-se em fase final de preparação quando chegaram a Cascais as primeiras notícias relativas aos motins ocorridos em Lisboa.
Acerca deste período, primorosamente descrito pelo Marquês do Lavradio nas suas “Memórias”, poucas informações existem para além de alguns apontamentos dispersos publicados no jornal “O Século”.
As diversas incongruências e incompatibilidades relatadas nessas notas de imprensa, demonstram de sobremaneira a imensa confusão que grassava no Reino e também na Vila de Cascais. Em nota publicada no dia 7 de Outubro, “O Século” afirma que desde que se iniciaram os tumultos em Lisboa que Cascais vive ansiosamente sempre à espera de notícias que rareavam na localidade. Não funcionando já os comboios, Dom Afonso, tio do Rei Dom Manuel II, percorreu por diversas vezes a Vila em automóvel, não parando nem sequer durante a noite. Em relação ao povo, o mesmo jornal afirma que se manteve cordato, não havendo conflitos, muito embora centenas de homens de Cascais e das proximidades se mantivessem armados e aguardando ordens. No seguimento desta informação, o jornal “O Século” afirma ainda que de manhã, quando Dom Afonso embarca no Yate Amélia, se despediu da Vila chorando, e dizendo que levava o bom povo de Cascais no coração. Entretanto, na Vila, aguardava-se com ansiedade o resultado da revolução. Quando às nove horas da manhã chegou a notícia da proclamação da república, Dom Fernando de Castelo-branco, administrador do Concelho, pede de imediato a sua demissão.
No Diário de Notícias do dia 6 de Outubro de 1910, pode ler-se que José João Diniz, acompanhado pelas Filarmónicas da Parede e de Carcavelos, só nessa tarde conseguiu chegar a Cascais, percorrendo no meio do maior entusiasmo as ruas da Vila, e tomando posse do cargo de administrador provisório do Concelho, nomeado por ordem do governo provisório.
Seguindo o exemplo do que havia acontecido em Lisboa, nessa mesma tarde, aqueles que na véspera haviam aclamado Dom Manuel II e acompanhado a figura simpática do Infante Dom Afonso, assistem com emoção ao içar da bandeira bicolor da revolução triunfante, desaparecendo num ápice a popularidade que até aí granjeava a Família Real.
(21) Ver Diário de Notícias de 29.09.1904; 21.09.1904; 01.10.1908; Jornal O Dia de 02.08.1904; Ilustração Portuguesa de 03.10.1904
(22) Ver Nota (3)
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