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quinta-feira

Regresso do Presidente da República a Cascais Após Viagem aos Açores em 1941



por João Aníbal Henriques

Em Julho e Agosto de 1941, num contexto internacional marcado pela II Guerra Mundial, a República Portuguesa teve necessidade de afirmar a importância do Arquipélago dos Açores para a soberania nacional. Para tal, cumprindo aquele que era um desiderato sempre adiado desde a viagem efectuada àquele território pelo Rei Dom Carlos e pela Rainha Dona Amélia, o então Chefe de Estado, o General Óscar Fragoso Carmona, fez uma visita oficial preparada com minúcia e muito cuidado e apoiada por uma campanha de comunicação nunca vista em Portugal.

Com o perigo eminente de um ataque alemão àquela que era estrategicamente uma das mais importantes rotas de fuga numa Europa em guerra, os Açores eram igualmente visitados pelos interesses particulares de ingleses e americanos que Portugal tinha de rebater, afirmando-se historicamente como o país proprietário daquele território ultramarino. A visita do General Carmona foi, deste modo, a forma encontrada para propagar junto de todo o Mundo a soberania portuguesa sobre os açores e, no contexto da guerra, reforçar a importância de Portugal enquanto parceiro estratégico das potencias beligerantes mesmo mantendo a sua bem conhecida neutralidade política.




Tendo corrido da melhor forma e cumprido integralmente os propósitos para os quais havia sido concebida, a visita do Presidente da República aos Açores fez manchetes em toda a comunicação social nacional e internacional, levando consigo a mensagem subliminar do Estado Português, e enchendo de orgulho e de esperança os portugueses que viam nos dirigentes do Estado Novo a solução mais pragmática para os muitos problemas que afectam cronicamente Portugal desde há demasiadas décadas.

Como no resto do País, Cascais vibrou de forma entusiasmada como os ecos desta viagem. E os cascalenses, cientes do facto de a sua vila ter sido escolhida pelo histórico presidente para sua residência oficial, impavam de orgulho perante o sucesso alcançado por aquele que eles consideravam um deles.

O mais entusiasmado dos cascalenses com o êxito da iniciativa foi José Florindo d’Oliveira, o dirigente de sempre da Propaganda de Cascais que, politicamente muito próximo dos ideais propagados pelo Estado, aproveitava todas as oportunidades para contribuir activamente para que a sua terra fizesse parte do grande plano de salvar Portugal. E nesta ocasião, mesmo contra as opiniões oficiais que pediam às entidades locais que se alheassem da viagem do Presidente da República aos Açores, Florindo d’Oliveira teimou em organizar a sociedade civil cascalense para receber de forma gloriosa o General Carmona no seu regresso à Cidadela de Cascais depois de tão retumbante êxito alcançado em terras açorianas.

Em conluio com o Presidente da Câmara Municipal de Cascais, José Roberto Raposo Pessoa, organizou uma festa de boas-vindas ao Chefe de Estado marcada de forma brilhante por um convite feito a todos os cascalenses que possuíssem automóveis, de forma a que se concentrassem à entrada do território municipal, junto à Fortaleza de São Julião da Barra, acompanhando em desfile a entrada do General Carmona em Cascais e acompanhando-o ao longo da Avenida Marginal, em cortejo embandeirado, até à residência oficial na Cidadela.




Dizia Florindo d’Oliveira num panfleto que encheu todas as caixas de correio do Concelho de Cascais: “Preparemo-nos para festivamente aguardar a chegada do Exmº. Senhor Presidente da República! Depois da triunfal visita aos Açores o Chefe da Nação tornou-se ainda mais querido aos nossos corações! A admiração que temos por Sua Excelência, o respeito que nos inspira o alto cargo, que tão elevadamente desempenha, aumentam com as manifestações de carinho, admiração e respeito que todos os nossos concidadãos lhe tributam. Recebamos grandiosamente, na volta ao seu lar nesta nossa vila, o Exmº. Senhor General Carmona e a Sua Exmª. Família! Regosijarmo-nos pela sua feliz viagem é abraçar também o Portugal Insular, pela nobreza com que recebeu o Chefe da Nação comum! Gritar bem alto que muito queremos ao preclaríssimo Chefe da Nação é dizer ao Mundo o nosso amor a Portugal!”




E o povo de Cascais respondeu à altura ao apelo de Florindo d’Oliveira e José Raposo Pessoa, literalmente entupindo a Avenida Marginal, entre a entrada por Carcavelos e a Cidadela de Cascais, com milhares de automóveis ostentando orgulhosamente centenas de bandeiras de Portugal, e acompanhados ao longo da estrada e enchendo os passeios, por milhares de Cascalenses que gritavam apoteoticamente pelo seu vizinho Presidente.

A reacção do Chefe de Estado não se fez esperar e no mesmo dia, através de telegrama enviado para a Câmara Municipal e para a Sociedade Propaganda de Cascais, o General Óscar Carmona agradece de forma sincera e reconhecida a iniciativa da Sociedade Propaganda, da Câmara Municipal, na pessoa do seu Presidente e dos Vereadores, e de todas as entidades públicas e privadas que contribuíram para a organização deste evento, sublinhando o quão importante havia sido para ele e para a sua esposa essa grande manifestação de carinho por parte dos cascalenses. Diz ele que foi “uma manifestação que lhe calou muito no seu espírito e que jamais esquecerá!”

Nas contas apresentadas no final do evento, verifica-se que o investimento dos cascalenses no mesmo ascendeu  a 602$50, a que se somaram cerca de 300$00 que foram pagos directamente pela Junta de Turismo de Cascais para impressão dos cerca de 10.000 convites distribuídos à população, e mais 600$00 relativos à oferta de foguetes e morteiros lançados durante a festa e que foram pagos pelo Grupo Desportivo Estoril Plage.


Fotografias do AHMC – Arquivo Histórico Municipal de Cascais

quarta-feira

Portugal: Uma Pátria sem Povo




por João Aníbal Henriques

Num 10 de Junho marcado pelo desmaio do Presidente da República, Cavaco Silva, em se pretendia comemorar o Dia de Portugal e dos Portugueses, assistimos tristemente ao estado de vazio exemplar a que deixaram chegar Portugal.

A cerimónia comemorativa, preparada ao pormenor, foi pensada para a praça principal da cidade da Guarda na qual, em frente à extraordinária fachada da Sé, se conjugavam todas as condições cenográficas para tão importante ocasião.

Mas, estranhamente, destas cerimónias ficou arredado o público – leiam-se os Portugueses – que foram impedidos de aceder àquele espaço. Esta decisão, que nenhuma entidade oficial se dignou explicar, ficou naturalmente a dever-se ao medo da contestação popular. Afinal, no Dia de Portugal e dos Portugueses não é suposto ouvir-se a voz dos próprios…

E, com o desmaio de Cavaco a encher televisões e capas de jornais, fica reduzido ao sorriso cínico do sindicalista perverso perante a adversidade do Chefe de Estado, o estado a que conduziram Portugal.

Sem povo e sem Portugueses, este dia foi somente mais uma oportunidade para o confronto desonroso dos partidos e dos poderes que controlam Portugal, digladiando-se numa luta que coloca os seus interesses à frente dos interesses do País e gerando uma onda de insignificância que se traduz na abstenção eleitoral que todos bem conhecemos e num ódio crescente que ontem todos verificámos.

Dirão que é este o Portugal que temos. Não é verdade.

Este Portugal que encheu a comunicação social, do qual ficaram arredados os Portugueses, é um Portugal artificial, desinteressante, promíscuo, insignificante e reles. É o Portugal do rotativismo eleitoral em que vivemos e que eles teimam em continuar a chamar democracia. Um regime que não respeita os Portugueses, os seus sentimentos e as suas necessidades. Um regime fechado sobre si próprio e a sugar dia após dia, os últimos laivos de uma grandiosidade que a Pátria ainda tem mas que eles estão quase a conseguir matar.

O que ficou deste 10 de Junho?

Nada. Infelizmente para Portugal. 

sexta-feira

A República em Cascais (1910-2010) – Os Antecedentes Monárquicos da Vila





por: João Aníbal Henriques

É sempre difícil, para um período cronológico concreto, traçar as principais linhas orientadoras da existência de uma povoação. A complexidade que caracteriza a vida em sociedade, o efeito devastador que o tempo exerce sobre os resquícios de sociedades já desaparecidas, e os próprios condicionalismos internos que encadearam os acontecimentos, são alguns dos principais impedimentos à realização de um estudo histórico de características globalizantes.

No caso concreto de Cascais, para o período compreendido entre 1870, altura em que o monarca Dom Luís I passa a utilizar a vila como seu local de veraneio, e os anos imediatamente posteriores à implantação da república, a diversidade que pautou o devir histórico do local, bem como as enormes transformações que aqui se introduziram, realçam mais ainda a incapacidade do historiador face ao conhecimento puro e simples dos factos que pretende narrar.

Pequena vila de nome desde 1364, Cascais, nos primeiros anos do terceiro quartel do Século XIX não passava de uma pequena aldeia de pescadores. As modestas habitações, bem como os artefactos recolhidos em diversas escavações arqueológicas efectuadas no núcleo histórico da vila (1), apontam a pesca e a agricultura como principais ocupações dos Cascalenses, dados que as informações de carácter demográfico confirmam (2), de acordo com o reduzido número de pessoas que aqui viviam. Quaisquer correntes de pensamento que aqui existissem, mercê do grau de imenso analfabetismo que caracterizava a sociedade Portuguesa naquela época, proviriam assim do pequeno núcleo de monges carmelitas instalados no Convento de Nossa Senhora da Piedade.

Com a chegada da Corte, e de todas as novidades que ela trouxe, aumentou significativamente a taxa demográfica do pequeno burgo e, consequentemente, assistiu-se a uma progressiva dinamização das suas actividades económicas. A indústria do pão e das conservas, bem como a da construção civil, uma vez que se construiu neste período um grande número de novas casas, vieram alterar por completo o rosto da Vila de Cascais, insuflando-a com um nível de vida que ela nunca tinha conhecido. Foram estas as causas primordiais da simpatia com que o povo de Cascais, demonstrando a sua gratidão, recebe anualmente a Família Real, facto que vai ultrapassar largamente os acontecimentos trágicos do dia 5 de Outubro de 1910.

A corrente republicana, que se encontrava em pleno desenvolvimento um pouco por todo o País, encontra assim em Cascais um ambiente extremamente adverso à sua implantação, razão pela qual, mesmo hoje, é possível vislumbrar tão poucos vestígios da actuação desses grupos na vida social da Vila. Se por um lado, logo no dia a seguir à revolução republicana, Cascais passa a ser governado por um grupo de republicanos natural deste Concelho, por outro, a totalidade dos elementos que compõem esse grupo provêm exclusivamente das localidades da Parede e Carcavelos, sendo certo que a população da Vila e arredores se manteve em sintonia com o regime monárquico. As causas destes factos, se bem que explicadas pelo carácter periférico que esses locais ocupam face ao centro administrativo do Concelho, recebendo assim menos atenção por parte das autoridades administrativas, devem-se também ao facto de essa gente ser maioritariamente oriunda de outras zonas do País. A proximidade do Concelho de Oeiras, onde o ideário republicano obtinha grande sucesso e onde se publicavam diversos jornais pró-republicanos, ajuda também a explicar as tendências da Parede, bem como a inexistência de imprensa republicana em Cascais.

Foi assim a grande implantação social, económica e cultural que a instalação da Corte promoveu em Cascais, bem como a quase total inexistência de instituições anteriores a 1870, a causa principal para o insucesso republicano, explicando-se dessa forma não só a falta de empenho da população durante os momento mais quentes do período revolucionário, como a simpatia e apoio votado à aristocracia Nacional e estrangeira que para aqui aflui de forma permanente até à actualidade.

A implantação da república na Vila da Corte, ao contrário do que vinha acontecendo em diversas partes do País, obedece assim a regras muito sui-generis, havendo a necessidades, após a tomada de posse da administração republicana, de se controlar politicamente os Cascalenses, quer através do desenvolvimento de um enorme esforço evolutivo, quer através de um efectivo apagamento de toda a simbologia monárquica que proliferava nas casas, nos espaços públicos e na toponímia local.

(1) CARDOSO, Guilherme, “Carta Arqueológica do Concelho de Cascais”, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1991 e NERY, Isabel e outros, “Cascais – Evoluções Históricas”, in Jornal Notícia, 15 de Maio de 1989.
(2) DIAS, João Alves, “Cascais e o seu Termo na Primeira Metade do Século XVI”, Arquivo de Cascais, nº 6, 1987, pp. 67-72.
(3) ANDRADE, Ferreira de, “Cascais – Vila da Corte”, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964.

A República em Cascais (1910-2010) – O Devir Histórico e a Identidade dos Cascalenses





por: João Aníbal Henriques

Compreender o devir histórico de Cascais ao longo dos últimos anos do Século XIX, tal como as diversas questões inerentes ao desenvolvimento das estruturas organizativas da sociedade Cascalense, longe de ser passível de determinação individual, pressupõe um arreigado exercício de contextualização e de integração cronológica, social e espacial.

De uma maneira geral, tanto para os que dela são naturais como para aqueles que nela somente residem, a Vila de Cascais é um local com inúmeros atractivos. A proximidade da capital, as condições estratégicas de defesa, o clima privilegiado e as diversas linhas de água que a percorrem, foram as condições essenciais que definiram a ocupação humana que se estende desde o Paleolítico até à actualidade.

Deixando de lado os mais remotos e inatingíveis tempos da sua vida, e tomando em consideração somente o período que se estende entre 1143 e o dia 5 de Outubro de 1910, podemos distinguir na vida Cascalense quatro períodos fundamentais: o primeiro, que se estende desde o dealbar da Nacionalidade, em 1143, até 1364, corresponde ao período de afirmação da pequena vila piscatória como Concelho, desenvolvendo as suas instituições e a força do seu tecido social (4). O segundo, de 1364 até 1870 (5), caracteriza-se fundamentalmente pelo desenvolvimento das suas capacidades naturais. A pesca e as actividades em prol da defesa de Lisboa, a agricultura e a pecuária, encontram neste período a sua época de desenvolvimento e consolidação, antevendo a preparação das condições essenciais à radical transformação de que vai ser alvo no último quartel do Século XIX. O terceiro período da História de Cascais encontra-se situado entre os anos de 1870, data em que Dom Luís I, com o seu amor pelo mar e pelas actividades marítimas, passa a utilizar a vila como estância de banhos, para onde trás a Corte durante a época estival. E o último, corresponde ao período compreendido entre a implantação da república e a actualidade, onde o nível de vida, as capacidades da vila e as suas riquezas naturais, vêm-se progressivamente degradando, mercê da utilização exaustiva dos seus recursos e pautando a sua existência por uma contínua expansão turística massificada, onde pouco lugar sobeja para conhecer, reconhecer e potencializar a sua natural vocação de qualidade.

O presente trabalho, longe de procurar apresentar alternativas ao rumo tomado pelo Concelho ao longo do último Século, debruçar-se-á principalmente sobre os dois últimos períodos da existência da Vila, sendo que, pelas radicais diferenças que os caracterizam, e de entre um e o outro não ter existido uma evolução paulatina mas sim um processo revolucionário de modificação radical, será lógico encontrar no primeiro as sementes do segundo, e no segundo, de igual modo, as ramificações e consequências que resultam do primeiro.

As condicionantes básicas às existências destas duas formas de pensamento que, como se actualmente não são radicalmente opostas no que concerne à sua função prática, mudando-se os nomes e os processos de execução, mas mantendo-se as obras básicas de implantação, estão assim patentes em diversos momentos e decisões tomadas pelos órgãos competentes, sejam eles os diversos clubes, sociedades e grupos desportivos e culturais, como também na Câmara Municipal, na Junta de Turismo, de entre outras. As formas de propaganda de cada um dos regimes, bem como as benesses ou as imposições que ambos utilizaram durante a vigência dos seus mandatos, servirão assim de base à compreensão da consciência cívica e política da sociedade que, sem possuir um papel activo na gerência e/ou na administração da terra, se vê embrenhada em todas as questões, sofrendo na sua pele inocente as consequências negativas das decisões e medidas tomadas pelos governantes de ambas as facções.

(4) COLAÇO, Branca de Gontha e ARCHER, Maria, “Memórias da Linha de Cascais”, Lisboa, (SN), 1943.
(5) HENRIQUES, João Aníbal, “O Urbanismo de Cascais na Época Moderna”, Jornal da Costa do Sol, 22 de Julho de 1993.

A República em Cascais (1910-2010) – O Visconde da Luz e a Modernização Urbana





por: João Aníbal Henriques

Decorria o longínquo ano de 1862, quando a Vila de Cascais não passava ainda de um pequeno burgo piscatório, que Joaquim António Velez Barreiros, Visconde de Nossa Senhora da Luz, resolveu edificar na Vila Nova, antigo Alto da Bela Vista, a sua moderna casa de veraneio.

O processo desenvolvido desde então, a par com diversas medidas introduzidas ao nível do embelezamento do passeio e acessos à povoação, produziu assim transformações perenes na diminuta povoação que a dotaram das condições necessárias para se tornar no centro cosmopolita de turismo que a caracterizaria durante as duas últimas décadas do Século XIX.

Foi a acção conjunta de diversos forasteiros, atraídos para Cascais depois da instalação do Visconde da Luz, a par com a vontade expressa por parte de alguns ilustres moradores, dos quais fez parte o saudoso Presidente da Câmara João de Freitas Reis, que determinou o futuro da localidade. Por postura camarária de 24 de Maio de 1860, o referido Presidente da Edilidade, de comum acordo com os anteriormente referidos, cria a estrada entre Cascais e Oeiras, obra fulcral no desenvolvimento das comunicações entre a foz do Tejo e a capital. Paralelamente, a mesma postura determina que todos os carros, ómnibus, seges e bestas somente pudessem transportar pelo empedrado, sob pena de multa. Para o embelezamento desta importante via pública cedeu a Câmara, a instâncias do Visconde da Luz, as varas necessárias para a protecção do crescimento das inúmeras árvores então plantadas.

Provado que está o esforço empreendido pela classe dirigente do pequeno burgo no sentido de o dotar das infra-estruturas necessárias ao seu desenvolvimento, promovendo assim as condições naturais que lhe estavam inerentes, poder-se-á pois concluir da conjugação de esforços efectuada em torno destas iniciativas, envolvendo naturais e recém-chegados à Vila de Cascais.

A República em Cascais (1910-2010) – O Crescimento Real





por: João Aníbal Henriques

Povoada até aí quase exclusivamente por agricultores que ocupavam a sua zona mais interior, e uns poucos pescadores assentes na faixa litoral, a Vila de Cascais assistiu passivamente a uma radical transformação social.

Se a presença no povoado de um pequeno convento da Ordem Carmelita, dedicado a Nossa Senhora da Luz, serviu de incentivo à modernização de algumas das actividades desenvolvidas no sector primário da economia, a extinção das Ordens Religiosas, com toda a problemática que a envolveu, representou o final da única instituição relevante no desenvolvimento social de Cascais. Por esse motivo, quando em 1832 o edifício do convento é vendido em hasta pública, são poucos os interessados em adquiri-lo, sendo que, em pouco mais de cinquenta anos, conheceu um elevado número de proprietários, tendo entrado na posse do Visconde do Gandarinha já após o surto de desenvolvimento encetado pelo Visconde da Luz (6) já no último quartel do Século XIX.

Foi, no entanto, o gosto pelo mar da Princesa Maria Pia de Sabóia, que no dia 5 de Outubro de 1863 chegou a Cascais para desposar o monarca Português Dom Luís I, que contribuiu de sobremaneira para a transformação do espectro social da vila. As suas origens Italianas, da Família Sabóia, misturadas com as reminiscências da Dinastia de Saxe-Coburgo-Gotha, da qual descendia, faziam dela uma das mais espontâneas admiradoras das belezas naturais, as quais cascais possuía em grande abundância…

Um novo ciclo vai dimanar para Cascais destas novidades que, em conjunto com a acção dinamizadora do Visconde da Luz, vão trazer a esta Vila o esplendor da fina-flor da sociedade da época. A chegada da Corte, noticiada pela imprensa no mês de Setembro de 1870 (7), vem marcar para sempre o devir histórico da localidade, que passa assim a usufruir do estatuto de Vila da Corte. Por este motivo, passam a afluir a Cascais em carácter de veraneio ou mesmo em esporádicos passeios dominicais, uma numerosa horda de forasteiros que entregam à povoação Cascalense um movimento que ela nunca sonhara poder vir a conhecer. É neste contexto festivo, rodeado de um fausto difícil de igualar, e em que as grandes famílias Portuguesas lutavam para se impor, que se celebravam constantemente grandes recepções e jantares, aos quais, todo aquele que pretendesse atingir o estatuto de galã social, não se poderia furtar.

Muitas vezes com prejuízo irremediável para o restante do ano, as famílias Lisboetas alugavam as modestas habitações dos pescadores da Vila, onde, de acordo com os relatos da época (8) sobreviviam sem as menores condições de higiene e comodidade, não dispensado, no entanto, a utilização dos melhores serviços de prata que possuíssem nos seus palácios na capital. Num curioso episódio descrito por Dom Tomaz de Mello Breyner, Conde de Mafra, é possível vislumbrar as pitorescas situações a que se podia assistir durante a estação estival Cascalense (9). É enquadrado neste ambiente forjado que se assiste a um progressivo aumento das actividades na Vila que para aqui atrai um cada vez maior número de visitantes.

Os anos que decorrem após 1870 são férteis na actividade de construção, aparecendo diversos chalets e palacetes que garantiam uma maior comodidade aos grandes senhores do Reino. É este o caso das obras de remodelação da Cidadela, para a estada da Família Real, bem como a construção dos Palácios dos Duques de Palmela, a “Casa da Serra” de Andrade Torrezão, e diversos palacetes pertencentes, de entre outros, a António José Marques Leal, Francisco Ribeiro Ferreira, Duques de Loulé, Eduardo Plácido, Marquês da Foz, D. António de Lencastre, Carlos Mantero, Marquês do Faial, D. Nuno d’Almada, Conde de Arnoso, D. António de Avillez, Raul Lino, Jorge O’Neill, Francisco Vilaça e os Condes de Castro Guimarães.

Paralelamente a este esforço modernizativo que obrigou a uma radical transformação da paisagem urbana do burgo, ocorreu a acção social da Duquesa de Palmela que, mercê da sua abastada posição económica, provocou uma renhida concorrência com a Rainha, promovendo recepções e jantares a um ritmo alucinante, para os quais eram convidados os maiores e mais importantes fidalgos do País. O Palácio Real da Cidadela, para além de não possuir o fausto do da Duquesa de Palmela, sofria com a depauperada situação financeira da Rainha Dona Maria Pia, que se via obrigada a grandes esforços para manter o seu esplendoroso nível de vida.

(6) A respeito da via no Convento de Nossa Senhora da Piedade e do complexo processo de que foi alvo e definiu as inúmeras modificações acontecidas no final do Século XIX ver: MENDES, Fernando Viana, “Escavações Arqueológicas Mostram Quatro Séculos de História”, Jornal A Zona, 12.02.1993; TEIXEIRA, Carlos A., “Escavações Arqueológicas em Cascais Desvendam Quatro Séculos de História”, Jornal da Costa do Sol, 13.02.1992; HENRIQUES, João Aníbal, “O Estado da Cultura ou a Cultura do Estado”, Jornal Tribuna Regional, Janeiro de 1993; BARAONA, Joaquim, “As Casa da Gandarinha em Cascais: Tudo Concertado Antes do Final do Ano”, Jornal Tribuna Regional, Setembro de 1993; TEOTÓNIO PEREIRA, Inês, “Sem Piedade”, Jornal O Independente, 15.10.1993; HENRIQUES, João Aníbal, “As Casas da Gandarinha em Cascais – A Hora da Mudança”, Jornal da Costa do Sol, 28.10.1993; HENRIQUES, João Aníbal, “Casas Abandonadas de Cascais: As Casas da Gandarinha e o Convento de Nossa Senhora da Piedade”, Jornal Tribuna Regional, Outubro de 1993; HENRIQUES, João Aníbal, “Convento de Nossa Senhora da Piedade – 400 Anos de História”, Jornal da Costa do Sol, 17.03.1994; HENRIQUES, João Aníbal, “História Rural Cascalense”, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 1997.
(7) Jornal do Comércio, Domingo, 15 de Setembro de 1870: “Cascais – Os bons e pacíficos cidadãos de Cascais fizeram esplêndida recepção a El-Rei e à Rainha, que para fazerem uso de banhos no mar, chegaram àquela Vila às seis e um quarto da tarde do dia 12. Desde o princípio da Vila até à Cidadela, as janelas estavam enfeitadas com bandejas, globos de vidro, e vistosas colchas de damasco. As ruas encontravam-se cobertas de areia e de buxo”.
(8) Diário de Notícias, 28 de Agosto de 1871.
(9) “A Madame Dupias vinha a Cascais de visita a uma amiga doente, moradora numa rua estreita, pobre, suja e calçada com pedregulhos, encontrou uma titular das suas relações saindo de uma habitação modestíssima e preparando-se para entrar num coupé bonito, puxado por bela e bem arreada parelha, com um cocheiro bem fardado e um trintanário bem posto de chapéu na mau, abrindo a portinhola. Esta senhora em Lisboa vivia numa casa magnífica”.

quarta-feira

O Dia da Raça e as Memórias de Auschwitz





por: João Aníbal Henriques

No seu discurso comemorativo do Dia de Portugal, o Presidente da República, Cavaco Silva, referiu-se à necessidade de reforçar a comemoração do “Dia da Raça”.

Essa expressão, que os partidos da esquerda mais radical imediatamente associaram à prática instituída pelo Estado Novo para reforçar o sentimento de pertença a Portugal que todos sabiam ser necessário para estruturar o esforço Nacional que o País devia fazer para ultrapassar as vicissitudes de uma Europa conjunturalmente em caos, tornou-se de imediato no fulcro de dezenas de peças jornalísticas nos diversos jornais e televisões, servindo ainda como lenha para atear as fogueiras de vários comentadores.

Num País que já pouco sabe de si próprio, e no qual (como aliás o próprio Cavaco Silva referiu ainda há pouco tempo) a História é considerada elemento retrógado que deve ser esquecida para dar lugar a abordagens de futuro, a intervenção do Presidente da República só pode ser entendida de duas maneiras:

1ª – Ele conhece a nossa História recente e utilizou a frase como forma assumida de contextualizar o caos recente em situações análogas que Portugal já atravessou, deixando pistas que permitem perceber quais são os melhores caminhos para o garante do êxito final;

2º - Ele não conhece a nossa História recente e foi somente a sua argúcia política que, tendo em consideração o estado de caos económico-político-social em que vivemos, lhe ditou o caminho mais estruturado para ultrapassar a crise.

Em qualquer dos casos, e tenha dito a frase de forma consciente ou inconsciente, é sempre meritório assistir a um Chefe de Estado que tem capacidade de distinguir a força da Alma Nacional, cadinho da energia de que a Nação necessita para prosperar noutras áreas, das vicissitudes conjunturais que afectam o País.

Portugal enquanto País, oprimido pelos bloqueios que lhe impõe uma Europa com a qual pouco tem a haver; pelas dificuldades estruturais que o caracterizam enquanto País; pelas conjunturais necessidades que a situação internacional acarreta; e pela complexidade que está inerente ao facto de o sistema político-partidário em que vivemos estar total e completamente moribundo; pouco mais pode fazer para resolver a crise convulsiva em que se encontra do que gerindo dia-a-dia os equilíbrios tecidos pelos muitos problemas com que vai tendo de lidar.

Enquanto Nação, no entanto, a força de Portugal é intocável e, como Cavaco Silva bem percebeu, incentivar esse fogo que dá alento ao País, significa alentar o povo, as instituições e a sociedade civil a reencontrar dentro de si própria formas inovadoras de se transcender e de se impor perante as vicissitudes do Mundo e da Europa.

Para que isso se torne possível, e para além do futebol (que já todos percebemos que é capaz de fazer esquecer os problemas e unir o povo em torno de algo imaterial), é fundamental que se reconstruam memórias e se conheça a História. É essencial que saibamos de onde viemos, quem somos e para onde poderemos ir. É fundamental que a consciência individual se fundamente num juízo crítico baseado nos factos e nas informações.

Essa consciência pessoa, mesclada com outras similares, forma a consciência Nacional que Portugal já mal se lembra de ter existido. Seria ela que, dando corpo às escolhas pessoais de cada um, permitiria que os actos eleitorais, as formações de listas para órgãos de soberania, a composição do parlamento, etc. fossem sinónimo de democracia (que não temos), porque ela só é possível com consciência e a consciência só é possível com base no conhecimento!...

Depois do discurso de Cavaco Silva, e por entre os muitos comentários radicais que ouvimos, houve aqueles que centralizaram em Salazar, no Estado Novo e até no Município de Santa Comba Dão as vicissitudes dos nossos males.

Diziam que o discurso do Presidente da República seria seguido do retorno ao passado; que agora só faltava a autorização para a abertura do Museu do Estado Novo; e que tudo isto tem como objectivo fazer Portugal voltar ao pré-25/04.

Olhando para trás, para uma Europa acéfala e cada vez mais perdida num crescimento híbrido que vai pondo cobro a algum alicerce identitário que possa ter existido, rapidamente percebemos que o pouco que resta se deve à memória que se foi criando.

O que seria da Europa sem as memórias das muitas guerras e atrocidades que aqui se cometeram? O que seria da Europa sem os espaços-memória de Auschwitz e dos campos de concentração nazis? O que seria do Mundo sem os dias do trabalhador, da família, da mãe e do pai, do ambiente, etc.? O que seria de nós sem conhecermos o que nos precedeu e sem termos a possibilidade de sobre essa informação erguermos o nosso espírito crítico?

Para nós, que assumidamente sabemos o mal que resultou da experiência soviética; dos projectos trabalhistas; das revoluções socialistas; das atrocidades comunistas; etc. não podemos deixar de aplaudir e de apoiar a construção, criação e promoção de museus e espaços de memória que garantam que perdura no tempo o resultado dessas experiências. Porquê? Porque foram péssimas; porque influíram negativamente nas vidas de milhões de seres humanos; e sobretudo porque não queremos que se repitam. E a única maneira de alcançar esse desiderato é mostrando o que foram.

Quando se fala (a medo) do Dia da Raça, suscitando comentários extremistas contra a ligação que essa expressão poderá trazer relativamente ao Estado Novo, isso só dá vontade de perguntar aos seus autores:

- Têm medo que se mostre por saberem que resultaram bem e que o povo perceba que nem tudo o que se disse no pós-25/04 é verdade?...