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sexta-feira
A República em Cascais (1910-2010) – Os Antecedentes Monárquicos da Vila
por: João Aníbal Henriques
É sempre difícil, para um período cronológico concreto, traçar as principais linhas orientadoras da existência de uma povoação. A complexidade que caracteriza a vida em sociedade, o efeito devastador que o tempo exerce sobre os resquícios de sociedades já desaparecidas, e os próprios condicionalismos internos que encadearam os acontecimentos, são alguns dos principais impedimentos à realização de um estudo histórico de características globalizantes.
No caso concreto de Cascais, para o período compreendido entre 1870, altura em que o monarca Dom Luís I passa a utilizar a vila como seu local de veraneio, e os anos imediatamente posteriores à implantação da república, a diversidade que pautou o devir histórico do local, bem como as enormes transformações que aqui se introduziram, realçam mais ainda a incapacidade do historiador face ao conhecimento puro e simples dos factos que pretende narrar.
Pequena vila de nome desde 1364, Cascais, nos primeiros anos do terceiro quartel do Século XIX não passava de uma pequena aldeia de pescadores. As modestas habitações, bem como os artefactos recolhidos em diversas escavações arqueológicas efectuadas no núcleo histórico da vila (1), apontam a pesca e a agricultura como principais ocupações dos Cascalenses, dados que as informações de carácter demográfico confirmam (2), de acordo com o reduzido número de pessoas que aqui viviam. Quaisquer correntes de pensamento que aqui existissem, mercê do grau de imenso analfabetismo que caracterizava a sociedade Portuguesa naquela época, proviriam assim do pequeno núcleo de monges carmelitas instalados no Convento de Nossa Senhora da Piedade.
Com a chegada da Corte, e de todas as novidades que ela trouxe, aumentou significativamente a taxa demográfica do pequeno burgo e, consequentemente, assistiu-se a uma progressiva dinamização das suas actividades económicas. A indústria do pão e das conservas, bem como a da construção civil, uma vez que se construiu neste período um grande número de novas casas, vieram alterar por completo o rosto da Vila de Cascais, insuflando-a com um nível de vida que ela nunca tinha conhecido. Foram estas as causas primordiais da simpatia com que o povo de Cascais, demonstrando a sua gratidão, recebe anualmente a Família Real, facto que vai ultrapassar largamente os acontecimentos trágicos do dia 5 de Outubro de 1910.
A corrente republicana, que se encontrava em pleno desenvolvimento um pouco por todo o País, encontra assim em Cascais um ambiente extremamente adverso à sua implantação, razão pela qual, mesmo hoje, é possível vislumbrar tão poucos vestígios da actuação desses grupos na vida social da Vila. Se por um lado, logo no dia a seguir à revolução republicana, Cascais passa a ser governado por um grupo de republicanos natural deste Concelho, por outro, a totalidade dos elementos que compõem esse grupo provêm exclusivamente das localidades da Parede e Carcavelos, sendo certo que a população da Vila e arredores se manteve em sintonia com o regime monárquico. As causas destes factos, se bem que explicadas pelo carácter periférico que esses locais ocupam face ao centro administrativo do Concelho, recebendo assim menos atenção por parte das autoridades administrativas, devem-se também ao facto de essa gente ser maioritariamente oriunda de outras zonas do País. A proximidade do Concelho de Oeiras, onde o ideário republicano obtinha grande sucesso e onde se publicavam diversos jornais pró-republicanos, ajuda também a explicar as tendências da Parede, bem como a inexistência de imprensa republicana em Cascais.
Foi assim a grande implantação social, económica e cultural que a instalação da Corte promoveu em Cascais, bem como a quase total inexistência de instituições anteriores a 1870, a causa principal para o insucesso republicano, explicando-se dessa forma não só a falta de empenho da população durante os momento mais quentes do período revolucionário, como a simpatia e apoio votado à aristocracia Nacional e estrangeira que para aqui aflui de forma permanente até à actualidade.
A implantação da república na Vila da Corte, ao contrário do que vinha acontecendo em diversas partes do País, obedece assim a regras muito sui-generis, havendo a necessidades, após a tomada de posse da administração republicana, de se controlar politicamente os Cascalenses, quer através do desenvolvimento de um enorme esforço evolutivo, quer através de um efectivo apagamento de toda a simbologia monárquica que proliferava nas casas, nos espaços públicos e na toponímia local.
(1) CARDOSO, Guilherme, “Carta Arqueológica do Concelho de Cascais”, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1991 e NERY, Isabel e outros, “Cascais – Evoluções Históricas”, in Jornal Notícia, 15 de Maio de 1989.
(2) DIAS, João Alves, “Cascais e o seu Termo na Primeira Metade do Século XVI”, Arquivo de Cascais, nº 6, 1987, pp. 67-72.
(3) ANDRADE, Ferreira de, “Cascais – Vila da Corte”, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964.
A República em Cascais (1910-2010) – O Devir Histórico e a Identidade dos Cascalenses
por: João Aníbal Henriques
Compreender o devir histórico de Cascais ao longo dos últimos anos do Século XIX, tal como as diversas questões inerentes ao desenvolvimento das estruturas organizativas da sociedade Cascalense, longe de ser passível de determinação individual, pressupõe um arreigado exercício de contextualização e de integração cronológica, social e espacial.
De uma maneira geral, tanto para os que dela são naturais como para aqueles que nela somente residem, a Vila de Cascais é um local com inúmeros atractivos. A proximidade da capital, as condições estratégicas de defesa, o clima privilegiado e as diversas linhas de água que a percorrem, foram as condições essenciais que definiram a ocupação humana que se estende desde o Paleolítico até à actualidade.
Deixando de lado os mais remotos e inatingíveis tempos da sua vida, e tomando em consideração somente o período que se estende entre 1143 e o dia 5 de Outubro de 1910, podemos distinguir na vida Cascalense quatro períodos fundamentais: o primeiro, que se estende desde o dealbar da Nacionalidade, em 1143, até 1364, corresponde ao período de afirmação da pequena vila piscatória como Concelho, desenvolvendo as suas instituições e a força do seu tecido social (4). O segundo, de 1364 até 1870 (5), caracteriza-se fundamentalmente pelo desenvolvimento das suas capacidades naturais. A pesca e as actividades em prol da defesa de Lisboa, a agricultura e a pecuária, encontram neste período a sua época de desenvolvimento e consolidação, antevendo a preparação das condições essenciais à radical transformação de que vai ser alvo no último quartel do Século XIX. O terceiro período da História de Cascais encontra-se situado entre os anos de 1870, data em que Dom Luís I, com o seu amor pelo mar e pelas actividades marítimas, passa a utilizar a vila como estância de banhos, para onde trás a Corte durante a época estival. E o último, corresponde ao período compreendido entre a implantação da república e a actualidade, onde o nível de vida, as capacidades da vila e as suas riquezas naturais, vêm-se progressivamente degradando, mercê da utilização exaustiva dos seus recursos e pautando a sua existência por uma contínua expansão turística massificada, onde pouco lugar sobeja para conhecer, reconhecer e potencializar a sua natural vocação de qualidade.
O presente trabalho, longe de procurar apresentar alternativas ao rumo tomado pelo Concelho ao longo do último Século, debruçar-se-á principalmente sobre os dois últimos períodos da existência da Vila, sendo que, pelas radicais diferenças que os caracterizam, e de entre um e o outro não ter existido uma evolução paulatina mas sim um processo revolucionário de modificação radical, será lógico encontrar no primeiro as sementes do segundo, e no segundo, de igual modo, as ramificações e consequências que resultam do primeiro.
As condicionantes básicas às existências destas duas formas de pensamento que, como se actualmente não são radicalmente opostas no que concerne à sua função prática, mudando-se os nomes e os processos de execução, mas mantendo-se as obras básicas de implantação, estão assim patentes em diversos momentos e decisões tomadas pelos órgãos competentes, sejam eles os diversos clubes, sociedades e grupos desportivos e culturais, como também na Câmara Municipal, na Junta de Turismo, de entre outras. As formas de propaganda de cada um dos regimes, bem como as benesses ou as imposições que ambos utilizaram durante a vigência dos seus mandatos, servirão assim de base à compreensão da consciência cívica e política da sociedade que, sem possuir um papel activo na gerência e/ou na administração da terra, se vê embrenhada em todas as questões, sofrendo na sua pele inocente as consequências negativas das decisões e medidas tomadas pelos governantes de ambas as facções.
(4) COLAÇO, Branca de Gontha e ARCHER, Maria, “Memórias da Linha de Cascais”, Lisboa, (SN), 1943.
(5) HENRIQUES, João Aníbal, “O Urbanismo de Cascais na Época Moderna”, Jornal da Costa do Sol, 22 de Julho de 1993.
A República em Cascais (1910-2010) – O Visconde da Luz e a Modernização Urbana
por: João Aníbal Henriques
Decorria o longínquo ano de 1862, quando a Vila de Cascais não passava ainda de um pequeno burgo piscatório, que Joaquim António Velez Barreiros, Visconde de Nossa Senhora da Luz, resolveu edificar na Vila Nova, antigo Alto da Bela Vista, a sua moderna casa de veraneio.
O processo desenvolvido desde então, a par com diversas medidas introduzidas ao nível do embelezamento do passeio e acessos à povoação, produziu assim transformações perenes na diminuta povoação que a dotaram das condições necessárias para se tornar no centro cosmopolita de turismo que a caracterizaria durante as duas últimas décadas do Século XIX.
Foi a acção conjunta de diversos forasteiros, atraídos para Cascais depois da instalação do Visconde da Luz, a par com a vontade expressa por parte de alguns ilustres moradores, dos quais fez parte o saudoso Presidente da Câmara João de Freitas Reis, que determinou o futuro da localidade. Por postura camarária de 24 de Maio de 1860, o referido Presidente da Edilidade, de comum acordo com os anteriormente referidos, cria a estrada entre Cascais e Oeiras, obra fulcral no desenvolvimento das comunicações entre a foz do Tejo e a capital. Paralelamente, a mesma postura determina que todos os carros, ómnibus, seges e bestas somente pudessem transportar pelo empedrado, sob pena de multa. Para o embelezamento desta importante via pública cedeu a Câmara, a instâncias do Visconde da Luz, as varas necessárias para a protecção do crescimento das inúmeras árvores então plantadas.
Provado que está o esforço empreendido pela classe dirigente do pequeno burgo no sentido de o dotar das infra-estruturas necessárias ao seu desenvolvimento, promovendo assim as condições naturais que lhe estavam inerentes, poder-se-á pois concluir da conjugação de esforços efectuada em torno destas iniciativas, envolvendo naturais e recém-chegados à Vila de Cascais.
A República em Cascais (1910-2010) – O Crescimento Real
por: João Aníbal Henriques
Povoada até aí quase exclusivamente por agricultores que ocupavam a sua zona mais interior, e uns poucos pescadores assentes na faixa litoral, a Vila de Cascais assistiu passivamente a uma radical transformação social.
Se a presença no povoado de um pequeno convento da Ordem Carmelita, dedicado a Nossa Senhora da Luz, serviu de incentivo à modernização de algumas das actividades desenvolvidas no sector primário da economia, a extinção das Ordens Religiosas, com toda a problemática que a envolveu, representou o final da única instituição relevante no desenvolvimento social de Cascais. Por esse motivo, quando em 1832 o edifício do convento é vendido em hasta pública, são poucos os interessados em adquiri-lo, sendo que, em pouco mais de cinquenta anos, conheceu um elevado número de proprietários, tendo entrado na posse do Visconde do Gandarinha já após o surto de desenvolvimento encetado pelo Visconde da Luz (6) já no último quartel do Século XIX.
Foi, no entanto, o gosto pelo mar da Princesa Maria Pia de Sabóia, que no dia 5 de Outubro de 1863 chegou a Cascais para desposar o monarca Português Dom Luís I, que contribuiu de sobremaneira para a transformação do espectro social da vila. As suas origens Italianas, da Família Sabóia, misturadas com as reminiscências da Dinastia de Saxe-Coburgo-Gotha, da qual descendia, faziam dela uma das mais espontâneas admiradoras das belezas naturais, as quais cascais possuía em grande abundância…
Um novo ciclo vai dimanar para Cascais destas novidades que, em conjunto com a acção dinamizadora do Visconde da Luz, vão trazer a esta Vila o esplendor da fina-flor da sociedade da época. A chegada da Corte, noticiada pela imprensa no mês de Setembro de 1870 (7), vem marcar para sempre o devir histórico da localidade, que passa assim a usufruir do estatuto de Vila da Corte. Por este motivo, passam a afluir a Cascais em carácter de veraneio ou mesmo em esporádicos passeios dominicais, uma numerosa horda de forasteiros que entregam à povoação Cascalense um movimento que ela nunca sonhara poder vir a conhecer. É neste contexto festivo, rodeado de um fausto difícil de igualar, e em que as grandes famílias Portuguesas lutavam para se impor, que se celebravam constantemente grandes recepções e jantares, aos quais, todo aquele que pretendesse atingir o estatuto de galã social, não se poderia furtar.
Muitas vezes com prejuízo irremediável para o restante do ano, as famílias Lisboetas alugavam as modestas habitações dos pescadores da Vila, onde, de acordo com os relatos da época (8) sobreviviam sem as menores condições de higiene e comodidade, não dispensado, no entanto, a utilização dos melhores serviços de prata que possuíssem nos seus palácios na capital. Num curioso episódio descrito por Dom Tomaz de Mello Breyner, Conde de Mafra, é possível vislumbrar as pitorescas situações a que se podia assistir durante a estação estival Cascalense (9). É enquadrado neste ambiente forjado que se assiste a um progressivo aumento das actividades na Vila que para aqui atrai um cada vez maior número de visitantes.
Os anos que decorrem após 1870 são férteis na actividade de construção, aparecendo diversos chalets e palacetes que garantiam uma maior comodidade aos grandes senhores do Reino. É este o caso das obras de remodelação da Cidadela, para a estada da Família Real, bem como a construção dos Palácios dos Duques de Palmela, a “Casa da Serra” de Andrade Torrezão, e diversos palacetes pertencentes, de entre outros, a António José Marques Leal, Francisco Ribeiro Ferreira, Duques de Loulé, Eduardo Plácido, Marquês da Foz, D. António de Lencastre, Carlos Mantero, Marquês do Faial, D. Nuno d’Almada, Conde de Arnoso, D. António de Avillez, Raul Lino, Jorge O’Neill, Francisco Vilaça e os Condes de Castro Guimarães.
Paralelamente a este esforço modernizativo que obrigou a uma radical transformação da paisagem urbana do burgo, ocorreu a acção social da Duquesa de Palmela que, mercê da sua abastada posição económica, provocou uma renhida concorrência com a Rainha, promovendo recepções e jantares a um ritmo alucinante, para os quais eram convidados os maiores e mais importantes fidalgos do País. O Palácio Real da Cidadela, para além de não possuir o fausto do da Duquesa de Palmela, sofria com a depauperada situação financeira da Rainha Dona Maria Pia, que se via obrigada a grandes esforços para manter o seu esplendoroso nível de vida.
(6) A respeito da via no Convento de Nossa Senhora da Piedade e do complexo processo de que foi alvo e definiu as inúmeras modificações acontecidas no final do Século XIX ver: MENDES, Fernando Viana, “Escavações Arqueológicas Mostram Quatro Séculos de História”, Jornal A Zona, 12.02.1993; TEIXEIRA, Carlos A., “Escavações Arqueológicas em Cascais Desvendam Quatro Séculos de História”, Jornal da Costa do Sol, 13.02.1992; HENRIQUES, João Aníbal, “O Estado da Cultura ou a Cultura do Estado”, Jornal Tribuna Regional, Janeiro de 1993; BARAONA, Joaquim, “As Casa da Gandarinha em Cascais: Tudo Concertado Antes do Final do Ano”, Jornal Tribuna Regional, Setembro de 1993; TEOTÓNIO PEREIRA, Inês, “Sem Piedade”, Jornal O Independente, 15.10.1993; HENRIQUES, João Aníbal, “As Casas da Gandarinha em Cascais – A Hora da Mudança”, Jornal da Costa do Sol, 28.10.1993; HENRIQUES, João Aníbal, “Casas Abandonadas de Cascais: As Casas da Gandarinha e o Convento de Nossa Senhora da Piedade”, Jornal Tribuna Regional, Outubro de 1993; HENRIQUES, João Aníbal, “Convento de Nossa Senhora da Piedade – 400 Anos de História”, Jornal da Costa do Sol, 17.03.1994; HENRIQUES, João Aníbal, “História Rural Cascalense”, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 1997.
(7) Jornal do Comércio, Domingo, 15 de Setembro de 1870: “Cascais – Os bons e pacíficos cidadãos de Cascais fizeram esplêndida recepção a El-Rei e à Rainha, que para fazerem uso de banhos no mar, chegaram àquela Vila às seis e um quarto da tarde do dia 12. Desde o princípio da Vila até à Cidadela, as janelas estavam enfeitadas com bandejas, globos de vidro, e vistosas colchas de damasco. As ruas encontravam-se cobertas de areia e de buxo”.
(8) Diário de Notícias, 28 de Agosto de 1871.
(9) “A Madame Dupias vinha a Cascais de visita a uma amiga doente, moradora numa rua estreita, pobre, suja e calçada com pedregulhos, encontrou uma titular das suas relações saindo de uma habitação modestíssima e preparando-se para entrar num coupé bonito, puxado por bela e bem arreada parelha, com um cocheiro bem fardado e um trintanário bem posto de chapéu na mau, abrindo a portinhola. Esta senhora em Lisboa vivia numa casa magnífica”.
A República em Cascais (1910-2010) – Modernização e Prosperidade no Final do Século XIX
por: João Aníbal Henriques
Paralelamente ao grande desenvolvimento social da Vila, um complexo sistema de alterações económicas vem gradualmente contribuir para modificações profundas no nível de vida da sua população.
Se o sector da construção constituiria na época uma das mais rendosas actividades profissionais, mercê do elevado número de construções e melhoramentos introduzidos na Vila (10), os serviços de apoios ao cada vez mais elevado número de habitantes e visitantes iam crescendo também. Par fazer face ao crescimento exponencial da procura, abrem na Vila de Cascais diversas padarias e fábricas de pão, que importavam o trigo e farinha necessários aos produtores instalados no vizinho Concelho de Oeiras (11).
Como complemento a esta actividade de panificação, e de acordo com a anterior tradição do Concelho, implementaram-se diversas fábricas de tratamento e conserva de peixe, que serviam de base à dieta alimentar dos veraneantes e que perduraram activas até à década de sessenta do Século seguinte (12). A actividade hortícola, até aí promovida basicamente pelos “saloios” da Várzea de Sintra, conhece também um importante crescimento nas regiões interiores do próprio Concelho, notando-se nesta época um crescimento significativo nas povoações de Alcabideche, Adroana, Manique, São Domingos de Rana, Malveira-da-Serra, de entre outras, que exportavam as suas produções para o núcleo principal do Concelho onde já desde a década de 80 do Século XIX existia um importante mercado para comercialização de produtos agrícolas.
Acompanhando este surto de desenvolvimento económico, e em linha com o que acontecia nas principais estâncias balneares Europeias, os jornais da época publicitavam cada vez mais as actividades desenvolvidas na Vila de Cascais. Em 1870, no dia 24 de Julho, o Diário de Notícias anuncia o aluguer de uma moradia em Cascais, bem como uma viagem de recreio no vapor “Lusitano” entre Lisboa e a Vila. Facto curioso nessa notícia é o de, em relação ao preço do bilhete, que ele seria o mesmo do costume, o que deixa antever a grande procura de que seria alvo esse meio de transporte.
Em 13 de Agosto de 1871, na sua folha oficial, o mesmo Diário de Notícias publicava um decreto com a concessão do caminho-de-ferro do sistema americano ao Duque de Saldanha, na Estrada Real nº 67, de Lisboa a Cascais, e no dia 28 de Setembro do mesmo ano é anunciada a inauguração da luz eléctrica.
Do ponto de vista cultural, representou um momento áureo da vida na Vila de Cascais a realização no Concelho do Congresso Internacional de Arqueologia, em 1880, que para aqui trouxe centenas de congressistas oriundos de diversas partes do Mundo. Assim, durante um breve mas significativo dia, os grandes nomes da arqueologia mundial tiveram a oportunidade de visitar os monumentos Pré-Históricos da Vila de Cascais, terminando o seu passeio, já bastante tarde, num baile de gala oferecido pela Rainha.
Enquadrado no esforço do Visconde da Luz em modernizar a Vila, e com a autoria de Manuel Rodrigues de Lima, construiu-se em 1869 uma sala de espectáculos em Cascais. Pelo Teatro Gil Vicente, que recebeu recentemente obras avultadas de remodelação (15) passaram os grandes nomes do espectáculo do Século XIX, como Mercedes Blasco, Laura Ferreira, Pedro Cabral, Pereira da Silva, Beatriz Rente, Rodrigo Berquó , Dom Fernando Atalaia, D. Belmira Lima, etc.
Ao contrário do que se poderia pensar, a morte de Dom Luís I, grande impulsionador da vida em Cascais, ocorrida em 1889, não representou o fim da época de esplendor. O próprio cortejo fúnebre do Rei, maravilhosamente descrito por Ramalho Ortigão nas suas “Farpas” (16), representou um dos acontecimentos sociais mais marcantes do final do Século, tendo sido acompanhado de perto por todos os grandes nomes da aristocracia Nacional.
Após a subida ao trono de Dom Carlos I, que continuou a escolher Cascais como a sua praia de banhos, e no próprio ano da morte do rei Popular, é inaugurado o transporte ferroviário para Lisboa (17). A continuidade na utilização das praias da linha como pontos fundamentais da vida social de então, marcaram decisivamente a política daquela época. No “António Maria” de 29 de Setembro de 1881 (18), esboça Bordalo Pinheiro a sua primeira nota relativamente a esta extraordinária Praia da Corte. Por esta altura era o Teatro Gil Vicente palco de inúmeras actuações, durante o dia com “matinés” infantis que serviam para entreter as crianças e as suas “nannys” enquanto os pais passeavam descontraidamente pelo Passeio Marítimo, e à noite com grandiosas actuações de música ligeira, ópera e teatro. No Jornal “GilBrás” de dia 28 de Outubro de 1899, são-nos anunciadas duas grandiosas e opulentas festas de caridade que decorreram no Teatro Gil Vicente (19).
Paralelamente, era inaugurada em Cascais uma Real Praça de Toiros, onde lidaram alguns dos melhores toureiros da época. D. António Vasco de Mello, como cavaleiro, e José Martinho Alves do Rio, como farpeador, deram assim início a uma tradição tauromáquica arreigada que se estendeu quase até à actualidade e à qual desde logo se juntou o próprio Rei Dom Carlos I. Desde essa altura, muitas foram as touradas importantes realizadas em Cascais, sendo naturais desta Vila os senhores Dom Francisco de Avillez, Alberto O’Neill, Simão da Veiga, João da Veiga, Affonso Villar, Zêa Bermudez e Estêvão Vanzeller, responsáveis pela implantação da tauromaquia como grande espectáculo artístico Nacional.
A primeira exposição fotográfica que se realizou no nosso País, e que contou com a participação de artistas como Frederico Pinto Basto, Ennes Ulrich, Francisco de Herédia e o próprio Visconde da Luz, teve lugar em Cascais no dia 13 de Outubro de 1898. Foi este evento noticiado como grande acontecimento pelo Diário de Notícias (26) que mudou radicalmente o conceito nacional relativamente à fotografia, que passou a ser vista como uma arte equiparada à pintura e à escultura, e não como uma mera actividade figurativa.
Todas estas transformações, que aconteceram durante o período compreendido entre a chegada do Visconde da Luz e o final do reinado de Dom Carlos I, tiveram profundas consequências na Vila de Cascais e nas suas gentes. Se até aí produziam essencialmente para se auto-abastecerem, sendo a exportação para a Capital um fenómeno isolado e pouco digno de nota, a chegada da Corte marcou um definitivo ponto de viragem. A criação de postos de trabalho, que inicialmente acontecia somente durante o período estival, não tardou a alargar-se ao restante tempo do ano, à medida em que a aristocracia Lisboeta aqui ia investindo a sua riqueza, sobretudo construindo casas que lhes permitiam usufruir dos banhos e da companhia Real com mais conforto e comodidade. O apoio dado directamente por Dom Carlos I aos grupos recreativos, culturais e desportivos incentivo à criação de raízes sólidas neste local.
Paulatinamente, os que inicialmente só vinham para Cascais passar curtos períodos, começaram a instalar-se definitivamente, promovendo uma autêntica revolução no tecido social da antiga vila de pescadores.
Fácil de torna perceber, desta maneira, a forma hospitaleira e a efectiva alegria com a qual os Cascalenses receberam os seus novos e ilustres moradores, bem como a harmonia social e cultural que se recriou a partir desse momento. A chegada da Corte a Cascais, e a relação íntima de Cascais com o regime Monárquico, acabou por constranger em definitivo a implementação na Vila das medidas revolucionários que os partidários do 5 de Outubro aqui quiseram promover.
(10) Ver Nota (5)
(11) MIRANDA, Jorge, “Tecnologia Tradicional e Sistemas de Moagem em Oeiras”, in Actas dos Encontros de História Local, Oeiras, câmara Municipal de Oeiras, 1992.
(12) GOES, Maria das Dores, “A Real Fábrica de Lanifícios de Cascais”, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964
(13) Diário de Notícias, 28 de Setembro de 1898, “deve ser iluminada a Cidadela de Cascais para marcar a data de aniversário do Princípe Real Dom Luís Filipe”
(14) Ver Nota (3)
(15) Jornal da Costa do Sol, Fevereiro de 1994
(16) ORTIGÃO, Ramalho, “As Farpas”, Pag. 291
(17) Jornal O Aldense
(18) GilBrás, 28 de Outubro de 1899
(19) Diário de Notícias, 14 de Outubro de 1898
Aquilino Ribeiro: Deturpar Portugal
por: João Aníbal Henriques
De tempos a tempos, e em áreas completamente díspares, Portugal é abalado por acontecimentos que, pela sua importância, se tornam decisivos para o futuro do País.
Contrariamente ao que seria de esperar, muitos desses acontecimentos acabam por não possuir o envolvimento mediático que lhes conferiria a notoriedade pública que merecem, passando despercebidos aos cidadãos menos atentos, e relegando para uma pseudo-elite culturalmente exigente as discussões em torno das repercussões dessa situação no devir Nacional.
Foi exactamente isto que se passou recentemente em Portugal. O escritor Aquilino Ribeiro, quarenta e quatro anos após a sua morte, foi transladado para o Panteão Nacional com o apoio unânime a aclamação de todos os Deputados da Assembleia da República.
O gesto, envolto na pompa e na circunstância que lhes foram conferidas pela presença do Presidente da República e por algumas das mais altas instâncias da Nação, representa um choque profundo para a Portugalidade, possuindo repercussões graves na essência quase mística que envolve o dia-a-dia de Portugal.
Reconhecido de forma unânime como um dos grandes vultos literários e culturais do Portugal do Século XX, com uma obra profusa e de enorme (e inquestionável) qualidade, Aquilino Ribeiro foi paralelamente um activista político, com posições muito próprias e atitudes condizentes. Foram essas actividades que nortearam a sua vida, determinando de forma efectiva aquilo que foi a sua relação social com os outros e com o País. Quer queiramos ou não; quer gostemos ou não; quer partilhemos ou não com Aquilino as suas opiniões, posições e formas de intervenção, há qualquer coisa que é inultrapassável e que marca a diferença nas apreciações que dele possamos fazer: assumiu sempre aquilo que foi e aquilo em que acreditava.
A cerimónia de transladação de Aquilino Ribeiro foi, no entanto, um acto de profundo desrespeito por ele, pela sua vida e pelas suas posições, sendo que, no plano oposto, foi também um momento que não dignificou as causas dos que se opuseram a este acto.
De um lado, os políticos e intervencionistas ditos de esquerda, apoiantes da homenagem, que teceram comentários jocosos àqueles que levantaram dúvidas sobre a legitimidade do acontecimento. Do outro, um conjunto de personalidades ditas de direita (na comunicação social tidas erradamente como monárquicos), que inventaram contra o escritor, tentando aniquilar a sua obra à sombra da mancha que paira sobre o seu desempenho político.
Com estas atitudes, posições e opiniões todos erraram. Uns, porque anulam o político intervencionista que Aquilino sempre foi e assumiu, dando ênfase exclusivamente à sua componente de escritor e de homem de letras; outros, porque fizeram exactamente o contrário. Anularam a genialidade cultural do escritor, e tornaram-no unicamente no assassino do Rei Dom Carlos e do Príncipe Dom Luís Filipe.
Ambos erraram porque nos dois campos distintos, o político e o cultural, Aquilino foi sempre aquilo que foi, tendo assumido os seus actos, ideias e obra, agindo em conformidade com isso. Não se considerava um génio, e sabia ter cometido actos em nome dos seus ideais que contrariam os princípios mais básicos da dignidade Humana.
Passando aos factos: Aquilino é, inquestionavelmente, uma referência incontornável da culturalidade Portuguesa do Século passado. Só quem nunca leu a sua obra, e quem nunca se deliciou com a forma rebuscada como utilizava a língua Portuguesa, sublimando a sua faceta mais erudita e complementando tudo isso com os trejeitos avoengos de outrora, pode não aceitar esta premissa.
Por outro lado, e na sua vertente política, Aquilina foi também um intervencionista extremista, membro activo da carbonários e defensor de ideais neo-anarquistas que o colocaram em situações dramáticas em determinados momentos da sua vida. Foi o próprio Aquilino Ribeiro quem, pelo seu próprio punho, assume que participou directamente no assassinato do Rei. É ele próprio quem diz que ninguém viu ou soube mas que ele estava lá, sendo directamente responsável pelo acto atroz e por tudo aquilo que ele representa.
Aquilino colaborou e participou directamente na morte do Rei. E a razão para tal, presente de forma transversal em toda a sua obra, foi simples e linear: não gostava daquele homem e não se identificada com o regime político que ele representava. Por isso, e sabendo de antemão que não existir nenhuma outra forma de o derrotar, matou-o.
Do alto da sua verticalidade, e contrariando os que agora o dizem defender, jamais negou a situação, não tendo tentado adaptar a História às novas necessidades e realidades entretanto surgidas. Aquilino assumiu aquilo que fez, e se esse erro macula a sua vida numa perspectiva moral, nada lhe retira em termos do génio literário que foi.
Mas em termos práticos, há factos que a passagem dos anos não conseguem alterar. Aquilino Ribeiro matou; colaborou com uma organização terrorista; e participou em actos ignóbeis que colocaram em causa a liberdade de expressão e até de existência de outros Seres Humanos.
A vida Humana é intocável e sagrada. Como todos os abemos. E sem entrar nas discussões monárquico-republicanas que envolveram este acontecimento, ninguém que mata outrem pode ser homenageado Nacionalmente como heróis.
Os Deputados que apoiaram a transladação e a homenagem; o Presidente da República que teceu rasgados elogios ao escritor fingindo esquecer tudo o resto; o Primeiro-Ministro que se associou à cerimónia; o Presidente da Assembleia da República que foi a cara de todo o processo; e todas as demais entidades e personalidades que estiveram presentes; deveriam responder a algumas perguntas simples para elucidar os Portugueses: Apoiam Aquilino? Apoiam o terrorismo político? A chacina? A morte de alguém?
Se não, porque não uma homenagem ao Aquilino homem de letras, numa qualquer praça Portuguesa? Uma estátua, um ciclo de conferências, um livro com memórias!... Nunca o Panteão Nacional onde se colocam aqueles que ascendem à categoria de heróis.
A transladação de Aquilino Ribeiro para o Panteão Nacional é ignóbil por isto: um regime dito democrático não pode vacilar perante o terrorismo; perante o ataque á liberdade; perante o radicalismo; perante a intolerância… Não pode ser convivente com os extremismos e com a violência.
Em homenagem ao aquilino vertical, que foi grande nas letras e nas suas crenças, e que assumiu tudo o que fez, deveríamos retirá-lo do Panteão Nacional. Porque lá, tratando-o como o herói que não foi, se contrariam e deturpam os ideais de tolerância, ecumenismo, e diálogo que sempre caracterizaram o Homem Português.
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