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quarta-feira

A Via-Rápida de Cascais: Vícios Suburbanos numa vila (ainda) especial...




A inauguração do CascaisVilla, em Novembro de 2001, representou o culminar de uma verdadeira revolução urbanística em Cascais. A substituição da antiga Rua Padre Moysés da Silva, com os seus saudosos relvados sempre bem cuidados, pela nova Avenida Dom Pedro I, com o seu perfil de via rápida em pleno coração da vila, inverteu por completo a urbanidade de Cascais, transformando drasticamente a velha e charmosa urbe em mais um moderno e incaracterístico subúrbio de Lisboa.

A nova porta de Cascais, encabeçada pelo popularíssimo “Titanic”, foi projectada para facilitar a entrada de automóveis na vila, deixando para segundo plano as preocupações com os peões e com o carácter antigo desta vila tão especial. As quatro filas de trânsito paralelas, atravessadas somente por quatro míseras passadeiras de peões, promovem a velocidade automóvel e dividem literalmente a velha povoação em duas partes desiguais.

Os semáforos foram pensados para deixar os nervos em franja a qualquer incauto passeante. O intolerável tempo de espera para os peões, aliado à falta de sincronização entre as passagens, faz com que a travessia da avenida demore tanto tempo que a maior parte das pessoas acaba por corajosamente atravessar com sinal encarnado pelo meio dos carros. Quando colocados perante a morosidade dos semáforos, os estrangeiros que ali chegam pela primeira vez e todos aqueles que não conhecem este pesadelo suburbano de Cascais, concluem geralmente que estes estão avariados e também eles empreendem a perigosa passagem…

E como se tal não fosse suficiente, decidiu-se juntar à confusão uma espécie atabalhoada de central de camionagem que, localizada no piso inferior do centro comercial, usufrui de um acesso literalmente encaixado à força e de forma abastardada no projecto inicial, criando uma zona de trânsito semi-condicionado e muito inseguro que poucos percebem e que ajuda a fomentar a precariedade de todo o espaço.




Mas, não bastando o carácter inusitado de toda esta situação, o recém-aprovado PDM de Cascais, ainda promove o agravamento da situação (Ver AQUI). Os parâmetros urbanísticos previstos para este local, ao invés de reverterem a situação e de devolverem a Cascais a dignidade urbana própria que a vila merece, multiplicam este carácter suburbano, potenciando o aumento da construção.

Poder-se-ia dizer que toda esta situação poderia ser facilmente resolvida a bem de Cascais e da sua população. E é verdade. Mas, embora as críticas sejam muitas e o rebuliço partidário se acenda a cada 4 anos, o certo é que ninguém ousou fazer as coisas de maneira diferente.

A Vila de Cascais, que durante muitas décadas foi local de charme e de reconhecida qualidade urbana e comercial, vem-se transformando aos poucos em mais um subúrbio desinteressante e incaracterístico de Lisboa. Os danos colaterais, bem visíveis no paulatino desaparecimento do comércio tradicional e no aumento da insegurança urbana, afectam a qualidade de vida de todos os Cascalenses, comprometendo a vocação turística municipal.

Mas, ao que parece, é mesmo esta a infeliz opção…  




Passadeiras? Para peões?...

As quatro passagens de peões existentes nesta via-rápida são insuficientes e foram desenhadas para potenciar o tráfego automóvel. O tempo de espera para peões, agravado com a falta de sincronização das mesmas, faz com que para muitos a única opção seja o atravessamento com luz encarnada, pondo em risco a sua vida e a daqueles que circulam nos carros. É intolerável!

quinta-feira

Cascais a Duas Velocidades

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A inauguração da A5, em 1991, modificou radicalmente os equilíbrios urbanos no Concelho de Cascais. O novo eixo viário, cortando longitudinalmente o território municipal, transformou-se numa barreira artificial que literalmente afastou o litoral do interior e produziu duas realidades distintas que desde há mais de 25 anos afectam a qualidade de vida de muitos Cascalenses.

A diferença entre o Cascais do interior e o do litoral é abissal. Depois da inauguração da auto-estrada, a gestão urbanística do território situado a Norte sofreu as consequências do afastamento físico provocado pela mesma e desenvolveu-se a partir de um modelo vivencial marcado pela proliferação das construções clandestinas e pela paulatina destruição dos antigos núcleos urbanos consolidados.

Aldeias como a Abóboda, Quenene, Polima, Trajouce, Tires ou Talaíde, foram completamente desvirtuadas, perdendo a Identidade arreigada que possuíam e desenvolvendo novos reequilíbrios profundamente marcados pela anomia social e por um cenário de caos que se espraiou na degradação da segurança, da mobilidade, da habitação, da saúde, da educação, do património e das demais áreas que se sabe que são indicadores essenciais para a qualidade de vida das populações.

A vocação turística municipal, que era o pilar sustentador do antigo PUCS (Plano de Urbanização da Costa do Sol), foi substituída em 1997 pelo primeiro PDM (Plano Director Municipal), que assumiu a legalização a todo o custo como principal prioridade municipal. E desta maneira, com fundamento legal e suporte político dos partidos que desde então governaram Cascais, praticamente 1/3 do território concelhio foi absorvido pelo desregramento urbano e fez colapsar os últimos resquícios da cidadania Cascalense.

Esquecido por todos ao longo deste tempo, e vivendo numa espécie de clima brando de auto-gestão, o interior de Cascais passou a viver em ciclos de quatro anos. Esquecido pelo poder político durante a maior parte do tempo, era literalmente invadido pelos diversos partidos em época eleitoral, numa lógica de propaganda que ciclicamente o enchia de novas passadeiras, bancos de jardim, semáforos e novos arruamentos, bem como de festas e foguetes para comemorar o sempre propagado “interesse extraordinário pelo interior de Cascais”.


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Com a aprovação do novo PDM em 2015 (Ver AQUI), perdeu-se a grande oportunidade da década para inverter esta situação. Ao invés do que seria de esperar, o novo plano não assume a bipolaridade territorial e, por isso, não projecta uma nova dinâmica que permitiria ir progressivamente invertendo esta dramática situação.

E que fácil seria fazê-lo! Até porque, tal como acontece no litoral, o interior é um espaço  riquíssimo de potencialidades que a generalidade dos Cascalenses desconhece. Do património à paisagem, passando pelo que resta da identidade rural desses espaços antigos e pela pujança empreendedora das suas novas populações, a zona Norte do território Cascalenses possui todas as condições que lhe permitiriam requalificar-se e garantir a todos os cidadãos os mesmos parâmetros de qualidade que algumas zonas mais privilegiadas já têm.

A nível das acessibilidades, seria essencial que existisse um verdadeiro plano municipal de mobilidade. Sem a propaganda política que distorce a realidade, exigir-se-ia que fossem criados verdadeiros corredores cicláveis entre as duas partes, complementando uma rede real de transportes que assumisse a componente de serviço público da sua função, e reaproximasse os munícipes.

Os eixos verdes das ribeiras que transversalmente cruzam o concelho, desde a Ribeira dos Mochos até à Ribeira da Laje, são canais naturais que estão adaptados à situação imposta pela A5 e que, até por isso, poderiam ser rentabilizados de forma integrada num plano municipal que abrangesse as duas realidades de Cascais. No caso da Ribeira das Vinhas, por exemplo, o eixo verde que acompanha o leito é transitável desde o coração da vila até à Barragem do Rio da Mula (Ver AQUI e AQUI), configurando uma verdadeira preciosidade na reformatação social das localidades por onde vai passando.

Ao nível da gestão urbana, seria essencial um recentrar das prioridades de investimento no interior, assumindo uma intervenção de fundo que efectivamente transformasse as legalizações forçadas dos antigos bairros clandestinos em acções verdadeiras de requalificação, aproximando paulatinamente os índices de qualidade urbana de ambas as partes do concelho. Os núcleos patrimoniais mais importantes como FreiriaAlapraiaAlto do Cidreira, ou os Casais Velhos, deveriam ser transformados em fulcro desse investimento, consubstanciando uma política que recuperasse efectivamente a qualidade urbana e que, ao mesmo tempo, promovesse a memória colectiva e a Identidade Municipal.

Como é evidente, uma intervenção nesta linha, que esbatesse a diferenciação negativa que afecta a territorialidade de Cascais, seria um projecto de longa duração. E, por isso, é incompatível com os ciclos eleitorais autárquicos que de quatro em quatro anos subvertem a realidade e impõem interesses terceiros aos interesses legítimos e Cascais e dos Cascalenses.

Mas, num ano em que o céu de Cascais será riscado em permanência pela magia dos foguetes e o ar se vai encher do ribombar dos tambores que acompanharão as muitas festas que se vão fazer, vale a pena apresentar uma vez mais a sugestão, porque dela depende o futuro desta Nossa Terra.

terça-feira

A Singularidade e o Escadote Social de Cascais




O Concelho de Cascais, pela sua situação estratégica no seio da Península de Lisboa, e pela notoriedade que granjeou ao longo do último século e meio de uma história verdadeiramente extraordinária, é um dos espaços mais atractivos de Portugal, possuindo uma fama que o precede e que é conhecida e reconhecida por toda a Europa.

O cunho cosmopolita desta terra, assente nos pressupostos atrás definidos, é de extraordinária importância na definição da vida quotidiana do Concelho. Com um ímpeto progressista que surge associado à permanente capacidade de recriar paradigmas renovados a partir dos problemas com os quais se debate, Cascais esteve sempre um passo à frente do resto do Pais e caracterizou-se sempre pela inovação e pela modernidade.




Apesar de existirem aspectos positivos e negativos associados a esta situação, pois o crescimento desmesurado, associado à falta de planeamento e de rigor e de, em muitos momentos da nossa história, ter sido governada de forma pouco capaz, acabou por resultar nalgum caos urbano que se espraiou, com características diferenciadas, um pouco por todo o território municipal, o certo é que a fama de Cascais sobreviveu sempre e foi capaz de se impor às várias gerações que até agora habitaram o concelho.

A ideia de qualidade que Cascais deixa transparecer, conjugando o glamour das suas zonas mais emblemáticas com a fama que carregou até bem longe as suas potencialidades, transformou-se em ideias e estereótipos de um determinado tipo de vida que, não sendo linearmente real, serviu sempre de base para que viver em Cascais fosse considerado algo de verdadeiramente notável. Em consequência disso, e pelo menos desde que o Rei Dom Luís escolheu Cascais para estância de veraneio, nos idos de 1870, que esta terra é palco assumido para os devaneios de índole diversa que dão forma à sociedade portuguesa.

Como se de um escadote real se tratasse, Cascais é o local que procuram todos aqueles que alcançam a fortuna e o êxito, sendo aqui o melhor espaço para poderem usufruir das suas conquistas. Da mesa forma, e no plano oposto, Cascais é também o local escolhido por todos aqueles que anseiam pelo prestígios e pelo êxito, recriando em seu torno um espaço onírico que serve de cenário para a concretização dos sonhos que ainda faltam acontecer.




A singularidade de Cascais é, desta forma, dupla e dúbia. Associa-se às grandes figuras da nossa história que por cá passaram, e também aos grandes desaires e apaixonantes episódios que aconteceram dentro das fronteiras do Concelho, tornando-o único e irrepetível por aquilo que é, mas também por aquilo que muitos acreditam que ele pode vir a ser.

Um dos aspectos em que mais se faz sentir esta espécie de pressão positiva, que se fundamenta na solidez estrutural que todos ligamos à qualidade, é o da habitação. As casas, as ruas, os espaços públicos e os acessos a Cascais, sempre foram aspectos essenciais neste pressuposto de afirmação que a terra procura promover. Quem alcançou o sucesso, constrói normalmente em Cascais uma casa à altura do seu sucesso, ao mesmo tempo que quem procura o êxito opta por uma habitação que transpareça o fim último que procura atingir. Por tudo isto, durante muitas décadas, o crescimento e a consolidação da paisagem urbana no Concelho fez-se num processo de paulatina afirmação da qualidade, assumindo uma componente estética que reforçou de sobremaneira a já de si grande fama que a terra transportava. Os parâmetros volumétricos, as cores, as formulações geométricas e os materiais utilizados, eram geralmente de grande qualidade e inseriam-se nos mais vanguardistas movimentos da culturalidade das épocas em que se concretizavam.




No que aos espaços públicos diz respeito, o movimento foi idêntico, assistindo-se à criação de infra-estruturas e equipamentos de grande qualidade, em linha com o que se passava com a habitação privada. A qualidade de vida que resultou deste processo, evidente para toos aqueles que aqui viviam e mesmo para os que somente a visitavam, redobraram a fama de excelência que lá fora já caracterizava o concelho, exigindo que governantes e governados se pautassem por níveis de excelência pouco usuais no Portugal de então. Dos colégios e das escolas que recebiam as novas gerações, aos restaurantes, jardins, hotéis e campos de golfe, Cascais foi-se apetrechando de tudo aquilo que caracterizava uma grande capital, ao mesmo tempo que era capaz de preservar a pequenez das terras de sonho e das estâncias turísticas que desde o século XIX consolidaram o seu prestígio um pouco por toda a Europa.

quinta-feira

O Património da Democracia em Cascais





por João Aníbal Henriques

Para além de serem testemunhos importantes das gerações que outrora habitaram em Cascais, as mais importantes peças do património histórico de Cascais também falam directamente para o futuro e contribuem para a consolidação da nossa identidade municipal.  

O sentido de cidadania, essencial para a consolidação da democracia e para o reforço da nossa consciência cívica, depende em primeira instância das memórias partilhadas pelas várias gerações de Cascalenses.

No ano em que se processa a revisão do Plano Director Municipal, instrumento essencial na gestão urbana do Concelho de Cascais, assumir o património histórico como peça-chave na reconfiguração da fácies municipal, é assinalar com especial cuidado a necessidade que temos de retomar a vocação turística municipal e de o fazer consolidando uma oferta de qualidade que passa pelo reforço da diferença que os Estoris apresentam.

É necessário, desta forma, compreender os ritmos de construção e de edificação do espaço, de modo a tornar-se mais compreensível o reconhecimento das origens da nossa própria cultura. De nada serve, em nosso entender, promover sistemáticas sessões de fogo-de-artifício e em festas populares, gastando milhares euros do erário público em sessões que visam entreter a comunidade, se nessa mesma comunidade não existir um laço de união que ela partilhe e sinta, desejando-se e defendendo-se mutuamente daquilo que lhe é adverso e mantendo sempre o respeito pelo próximo como mantém o respeito por si mesmo.

A conservação do património histórico e cultural não deve ser visto única e exclusivamente, como um processo negativo de atraso no desenvolvimento e no progresso. A responsabilidade da actual geração de Cascalenses, no que a este assunto diz respeito, ultrapassa largamente o antiquarismo que está patente em algumas das nossas associações de defesa do património. Precisamos de garantir que o património cascalense é colocado ao serviço da comunidade, fazendo o ponto de ligação imprescindível entre a modernidade e a História, e criando elos essenciais entre as diversas gerações de cascalenses que aqui viveram, vivem e vão viver.


Para que tal seja possível, é necessário que exista conhecimento e carinho pelo que nos rodeia, de forma a que a manutenção da boa forma física dos imóveis, o seu estudo sistemático e, consequentemente, o seu usufruto cultural, lúdico, pedagógico e turístico se torne numa actividade que a todos diz respeito.

Acima de tudo, é essencial que a nossa herança patrimonial se mantenha, sempre que possível, integrada na vida quotidiana, fazendo parte da comunidade que nela ou junto a ela habita ou trabalha.

Se um determinado monumento ou sítio desperta na comunidade sentimentos de homogeneidade ou de nostalgia, como são os casos dos centros históricos da Abóboda, de Alcabideche, do Monte Estoril, ou mesmo de Caparide ou da azenha que dali retirou o seu nome, o nosso dever é apoiar a sua requalificação e promover assim um reordenamento urbano onde o progresso e o desenvolvimento possam estar interligados ao passado.



É essencial também, que todas as transformações que efectuarmos nestes núcleos urbanos, ao abrigo da necessidade de defesa do património cascalense, se caracterizem por um levado grau de qualidade, que nos garanta que as futuras gerações de munícipes as respeitam e admiram, perpetuando assim um ciclo que preserve a memória da nossa Nação.

Tal como existe continuidade entre o passado e o presente, também deverá existir uma enorme proximidade entre a actualidade e o futuro. É nosso dever tomar conta da nossa herança cultural não só para nosso próprio benefício, mas também para o usufruto das gerações futuras, fornecendo-lhes assim um legado vivo e em constante mutação, que lhes permita intervir e decidir o seu próprio futuro.

Outra das nossas obrigações, nesta perspectiva, é a de criar exemplos dignos em termos arquitectónicos, de modo a vermos representados no futuro aquilo que de melhor pensamos na actualidade. É o caso, por exemplo, de grande parte dos monumentos comemorativos do Concelho de Cascais que, na sua grande maioria, permitirão às futuras gerações, compreender as nossas perspectivas, os nossos anseios e as nossas necessidades, preservando assim os laços de união que com elas devemos criar.

No ano em que se comemora o 40º Aniversário do 25 de Abril de 1974 vão já muito longe os tempos em que em Cascais existia uma Comissão do Património Histórico e Cultural... 





quarta-feira

E Depois do Adeus...




por João Aníbal Henriques

A grave crise que vem afectando o País, com implicações em milhares de pessoas e em diversos sectores de actividade, também trouxe perspectivas menos boas para o Concelho de Cascais.

O sector turístico, ou seja, aquele que suporta a tão propagada Vocação Municipal, acabou por ressentir-se da decisão política assumida pela Câmara Municipal de Cascais de extinguir a centenária marca internacional “Estoril”, e o seu parque hoteleiro, que aguarda ansiosamente boas notícias ao nível da promoção da região para empreender uma vultuosa campanha de modernização das suas principais estruturas, acabou por se resignar às circunstâncias.



Para grande pena da generalidade dos Cascalenses, a maioria das outrora excepcionais unidades hoteleiras cascalenses já não existe.

Do Hotel Miramar ao Hotel Itália; passando pelo Hotel Nau, pelo Monte Estoril Hotel, ou pelo Hotel Estoril-Sol; muitas são as unidades que, mercê da sua antiguidade e da necessidade de investimentos que lhes permitissem uma adaptação aos modernos conceitos de qualidade, se viram obrigados a encerrar, enviando para Lisboa, Oeiras e Sintra os seus principais clientes.

As cinco estrelas de outros tempos, ou sejam, o símbolo de qualidade que atraía clientes com capacidade financeira para consolidarem o tecido empresarial local, dando ensejo ao comércio e aos serviços a ele associados, foram hoje substituídos por novas unidades que, apesar da sua reconhecida qualidade, precisam urgentemente de se impor nos mercados internacionais. Com excepção de pequenas unidades de extrema qualidade reconhecida por muitos anos de excelente trabalho a receber quem nos visita, como é o caso do Hotel Albatroz ou do Hotel do Guincho, as novas cinco estrelas do nosso Concelho passam grandes dificuldades para se imporem no mercado, ao mesmo tempo que deixam para trás hotéis ocupados maioritariamente por ‘packs’ de turistas de ‘pé-descalço’, sem dinheiro para gastar, e que conspurcam os nossos jardins com os restos ressequidos das sandwiches compradas nos hipermercados que os alimentam durante a estadia.



A opção de um turismo de qualidade, assumida por Cascais logo nos finais do Século XIX, está hoje comprometida politicamente. Apesar de todos a assinalarem como espécie de farol que guia aqueles que nos governam, e de essa opção surgir nos programas eleitorais de todos os partidos, são cada vez mais raros aqueles que sabem o que se deve fazer para a atingir, em contraponto com os actuais responsáveis políticos de Cascais que estão convictos de que o caminho é o da suburbanidade e da extinção dos velhos pergaminhos da região.

A inexistência de uma visão de conjunto, que permita articular as inúmeras assimetrias que actualmente caracterizam o Concelho de Cascais, acaba por comprometer a consolidação da nossa vocação. A revisão do PDM que está actualmente em curso, atroz se pensarmos que oficializa o discurso e a postura oficial, é um importante contributo para a completa subversão de Cascais e  para o assumir desta região como um efectivo dormitório incaracterístico da Grande Lisboa.

Precisamos cada vez mais de um fluxo turístico que assuma Cascais como destino, e que visite esporadicamente Lisboa, Sintra e Mafra; precisamos de uma rede de operadores que promova lá fora as inúmeras mais valias deste Concelho… precisamos de um poder político que conheça e compreenda a região e que tenha a capacidade para gerir as inúmeras mais valias de Cascais e da Costa do Estoril.

Só que, por outro lado, precisamente também de uma intervenção requalificante nos nossos centros urbanos; precisamos de acabar com a proliferação de construções clandestinas; precisamos que criar um verdadeiro parque natural; precisamos de gerir convenientemente o nosso tráfego; precisamos de lugares de estacionamento; precisamos, enfim, de qualidade de vida para todos os Cascalenses.

Só assim, quando Cascais estiver devidamente organizado, podemos aspirar a obter novamente o cunho de qualidade que foi desaparecendo a partir de 1974.

E depois do adeus que vamos dizendo à qualidade que nos caracterizou ao longo dos últimos cem anos, resta-nos esperar que as eleições autárquicas deste ano nos tragam a vontade política permita gerir de forma conveniente e integrada este nosso Concelho de Cascais. 



Plano Director Municipal: Uma Estratégia de Afirmação para Cascais





por: João Aníbal Henriques

O Concelho de Cascais, situado estrategicamente num dos mais importantes locais da Área Metropolitana de Lisboa, exerceu sempre sobre os seres humanos atractivos que favoreceram a sua ocupação.Este processo, paulatino e serôdio, garantiu ao município um desenvolvimento constante que, a par com todos os seus condicionalismos naturais, acabou por transformar Cascais num dos espaços mais progressistas do País. Aqui, fruto das vicissitudes variadas atrás descritas, foi sempre possível encontrar o apogeu da modernidade, facto que consolidou a apetência natural que o espaço apresenta para receber as descobertas, fundamentando uma enorme capacidade de adaptação e desenvolvimento.

Desta forma, e de acordo com os indicadores constantes da documentação histórica, bem como dos diversos censos, levantamentos e sondagens que recentemente se têm desenvolvido em Cascais, é possível distinguir no Concelho aspectos positivos e negativos que resultam desta situação.

Em primeiro lugar, e oferecendo aos analistas a matéria necessária para a compreensão do “fenómeno” do desenvolvimento do município, Cascais foi sempre destino apetecido de todos aqueles que, alcançando uma posição social ou política relevante a nível Nacional, desejavam consolidar e perpetuar essa conquista através da angariação de uma certa posição. Este facto, que naturalmente resulta da grande proximidade de Cascais face à capital e, ao mesmo tempo, da enorme vantagem que emana da distância suficiente para que aqui, durante vários anos, fosse possível encontrar ainda a paz e o sossego que a Capital quase nunca conheceu, torna a atractividade deste espaço num chamariz constante que para aqui acaba por transportar grandes vultos que a História Nacional soube perpetuar e homenagear ao longo dos tempos.

Essas figuras de prestígio e grande relevo, situadas de forma curiosa ao longo dos diversos sectores dos muitos espectros políticos e partidários que Portugal conheceu ao longo dos últimos cem anos, assumem-se assim como os primeiros condicionantes de uma série de transformações que vão fazer de Cascais um espaço singular no contexto português.

A habitação, por exemplo, até aí caracterizada pela humildade que caracterizava também os pescadores e agricultores que viviam na Vila e no Concelho, foi obrigada a adaptar-se aos novos ocupantes, construindo-se vastos e vetustos empreendimentos que, à medida em que o tempo ia passando, iam progressivamente alterando a paisagem, a geometria, a volumetria e a memória do município.




Por outro lado, ao nível daquilo que hoje comummente se entende ser a qualidade de vida, Cascais foi sendo dotado de infra-estruturas que procuravam responder às crescentes solicitações do novos habitantes. Habituados a regalias que, nessa época, apenas existiam na capital, os novos cascalenses, através das suas influências e do génio pessoal de alguns, criaram neste local uma panóplia de inovações que também contribuíram para um progresso e para um desenvolvimento sem igual.

Em segundo lugar, e pese embora o carácter eminentemente positivo de grande parte dessas circunstâncias, que acabaram por tornar Cascais num dos Concelhos mais evoluídos do País, é fundamental fazer ressaltar o conjunto de circunstâncias menos positivas que resultaram deste facto.

A sustentabilidade estrutural, quase sempre agregada a uma pré planificação que promove um equilíbrio entre as necessidades dos habitantes e a velocidade de evolução das instituições, acabou por ser abalada de uma forma circunstancial. As necessidades efectivas daqueles que habitavam em Cascais, em cada um dos momentos da sua vasta e prolixa história, estiveram sempre além da capacidade de resposta das instituições que, ontem como hoje, trabalham e planeiam sempre as suas actividades em função de necessidades que estão já quase sempre ultrapassadas quando se torna possível a sua concretização.

A rede viária, o saneamento básico, a distribuição de água, de electricidade e de gás, a recolha de resíduos urbanos ou industriais, ou até a gestão do parque urbano do município, contrastando com o enorme apogeu da sua vida social, foi-se progressivamente degradando, facto que culminou, pouco tempo depois da revolução de Abril de 1974, com o caos que resultou do enorme número de novos habitantes que, de uma forma politicamente correcta mas completamente ineficaz, anárquica e desordenada, vieram habitar para este município.

As soluções para a vivência caótica do Concelho de Cascais, principalmente ao longo dos últimos trinta e oito anos, têm-se pautado pela resposta pronta das instituições locais. Ninguém nega, como é evidente, o esforço, o empenhamento e a audácia de quase todos aqueles que, em nome de forças partidárias díspares, têm governado Cascais nos últimos tempos. No entanto, a prontidão com que se procuraram respostas e se empreenderam soluções, mais do que imbuída da necessidade  de salvaguardar os interesses de Cascais e dos cascalenses, foi condicionada de forma evidente pelos interesses partidários municipais ou Nacionais, que, mercê do seu carácter recente e da inexperiência dos seus quadros, se viram obrigados a recorrer a experiências desenvolvidas noutras partes da Europa e do Mundo. A história recente de Portugal é assim, mais do que um período de descoberta e de desenvolvimento, um espaço no qual, de forma desajeitada e desordenada, se experimentam soluções velhas para resolver novos problemas e que, como não podia deixar de ser, se caracterizam sobretudo pela ineficácia e pelo agravamento da situações preexistentes.




A importação para Cascais de modelos evolutivos de outros locais, quase sempre sem o cuidado, e muitas vezes sem o tempo necessário à sua adequação e adaptação a realidades novas, acabou por agravar os desequilíbrios internos e, principalmente nos últimos cinco anos, começou a contribuir para o desaparecimento das riquezas naturais e das condições que, antes de aqui habitar o Homem, fizeram deste território um espaço fundamental no contexto daquilo que haveria de ser o território Nacional.

O ambiente, a economia, a assistência social, a salubridade e a governabilidade local, mais do que em partidos ou coligações que possam trazer para Cascais figuras mais ou menos preponderantes da vida política, económica ou social do País, devem encontrar respostas no seio de Cascais e dos cascalenses. A sociedade civil, como hoje teimosamente e de forma pretensiosa se procurar distanciar os governados dos governadores, deve assumir, de forma permanente e com todas as consequência de tal facto, a governação dos locais onde habita.

De facto, e atendendo principalmente ao conhecimento de causa que deve suportar as decisões institucionais, reiterando a opinião de que a actividade política, dando ênfase às suas raízes clássicas, deve representar à vontade, à necessidade e à sensibilidade dos cidadãos nas escolhas que fazem para si próprios e para aqueles com quem co-habitam, não faz sentido nenhum, neste final de século e de milénio, teimar em impor aos munícipes de qualquer Concelho de Portugal respostas que, pelas suas características, não resultem da sua própria vontade e empenhamento.




Os instrumentos de gestão urbana, pelo seu carácter abrangente e pela sua linearidade ao nível das restrições que impõem ao desenvolvimento do Concelho, são assim uma das principais respostas aos muitos problemas de desordenamento que neste momento afectam Cascais. A sua concepção e concretização, mais do que qualquer outra decisão emanada dos poderes municipais, deve ter em conta  as características próprias daqueles que vão ser abrangidos pelas suas directivas, uma vez que, caso contrário, dificilmente poderão representar os interesses e, desta forma, verdadeiramente representar aqueles que ali habitam.

O Plano Director Municipal de Cascais, que se encontra agora em fase de revisão, representa, por tudo isto, o ponto nadir na gestão urbana e política do Concelho, definindo prioridades e faseando um desenvolvimento que, a ocorrer ao ritmo da vontade discricionária, em pouco tempo acabaria por desvirtuar por completo as características próprias desta municipalidade.

O futuro, baseado nos pressupostos que a Sociedade Civil agora pode fornecer, poderá assim ser de verdadeiro progresso e desenvolvimento concertado, sinónimo de qualidade de vida e de segurança para todos ou, pelo contrário, de vil corrida ao betão, desfavorecendo e contrariando aquilo que de bom Cascais tem ainda para oferecer.



Cascais, Dezembro de 2012