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sexta-feira

Um Aborto




PS, PCP, BE e os Verdes vão aprovar hoje novas mudanças à lei do aborto. Totalmente liberalizado ate às 10 semanas, o aborto vai voltar a ser uma prática médica livre e sem constrangimentos de qualquer espécie. Como se de um método contraceptivo se tratasse, qualquer mulher pode ir ao hospital e abortar livremente.

Desta maneira, uma vez mais, os Portugueses serão obrigados a pagar taxas moderadoras se partirem uma perna ou um braço, se tiverem um qualquer acidente, se adoecerem ou se precisarem de mudar de óculos ou de tratar uma dor de dentes.

Mas se quiserem abortar é grátis!

É este o país que temos. 

segunda-feira

O Estranho Caso da Catalunha




por João Aníbal Henriques

Há alguns anos atrás (talvez bastassem dez) os resultados das eleições de ontem na Catalunha deixariam perplexos todos aqueles que para eles olhassem com um mínimo de atenção. Em primeiro lugar porque quem ganhou perdeu e quem perdeu ganhou… e, depois, porque ficou evidente a fragilidade nacional espanhola bem como a solidez estrutural da federação que os Reis Católicos recriaram há mais de 500 anos.

Se é certo que os independentistas catalães ganharam as eleições por terem conseguido eleger um maior número de deputados, é certo também que perderam as eleições por terem tido menos votos. Numa analogia muito pertinentes com o que pode vira passar-se em Portugal no próximo Domingo, os catalães demonstraram que perceberam bem a incoerência do sistema eleitoral que a Europa continua a utilizar que, nada traduzindo da realidade que temos, se distancia progressivamente dos cidadãos e impede a sua real representatividade e, logo, os fundamentos da própria democracia. Os que votaram, fizeram-no completamente divididos e profundamente desvinculados das causas imensamente fracturantes que estavam em causa. Os outros, ou sejam, os pouco mais de 22% de catalães que não quiseram participar neste acto eleitoral, vieram ainda reforçar mais este fenómeno de afastamento político, considerando-se mais grave ainda por se saber que dele dependia uma das mais importantes e impactantes decisões da História da Espanha.

Sendo estranho e muito complexo o cenário que resultou destas eleições, é linearmente o fim da linearidade que tem presidido à definição da realidade política na Europa, ajudando a clarificar e a explicar muitos dos fenómenos fracturantes que ultimamente têm sido apanágio do quotidiano no velho continente. As questões que se prendem com as dúvidas relativamente às dívidas soberanas, os resgates impulsionados pelos organismos internacionais, a tentativa de interferência nas políticas nacionais por parte da Alemanha federal ou mesmo as mais recentes (e intoleráveis) incertezas com a chegada dos refugiados, ganham uma nova perspectiva à luz do grito que ontem proferiram muitos catalães.

Em relação a Portugal, fracturado sem se saber muito bem porquê, dado que todos os candidatos às eleições de Domingo (radicalismos eleitoralistas à parte) concordam no essencial acerca daquilo que seria a sua opção política caso vençam o plebiscito, muito se esclarece em relação à incompreensível sobrevivência política da coligação PSD-CDS e ao também incompreensível desnorte de um PS aparentemente incapaz de lidar com a sua história. E se tudo está em aberto em relação às eleições legislativas que aí vêem, o certo é que aconteça o que acontecer o aparentemente estranho caso da Catalunha nos vem mostrar que um mundo novo e uma Europa diferente da que temos está prestes a nascer.

Porque já nada é o que era dantes. 

quinta-feira

O que vale o PS?




Decorreu ontem, perante a atenção dos media e dos muitos Portugueses que a ele assistiram, o segundo debate entre os dois candidatos a líderes do Partido Socialista em Portugal.

Chamam-lhe primárias, num esforço de aproximação ao modelo eleitoral americano, e teimam em transformá-las numa espécie de circo mediático no qual importam pouco as ideias e as propostas efectivas e na qual ganham força as tendências eleitorais dos votantes nacionais, entendidos como potenciais eleitores no universo das eleições que se vão alinhando no horizonte.

Cá fora, nos jornais, nas televisões e até nos transportes públicos, cruzam-se as opiniões sobre quem “ganhou o debate”, definindo-se um cenário à-priori em que um dos pretensos candidatos surge nitidamente destacado e quase “condenado” à vitória. Transversal às opiniões publicadas e aos comentários aguisados nos jornais da noite é a unanimidade em torno da não existência de conteúdos nestes debates. Quer um quer outro, ambos políticos calejados na lide da qual depende a sua sobrevivência, teimam em responder de forma insatisfatória às questão que os jornalistas lhes colocam e, quando instados a explicarem o que querem fazer, o que planeiam fazer, ou até qual é o seu projecto, fogem habilmente às questões e contornam os problemas de forma a não se comprometerem perante os Portugueses. A eles só lhes interesse ganhar as eleições no PS!...

Mas o que vale o PS? O que vale que o António Costa encoste ou que o António José Seguro se desequilibre na sua insegurança? O que interessa saber o que é que eles pretendem fazer se chegarem a ser governo (ou mesmo se pretendem fazer alguma coisa caso isso assim aconteça…) ou qual é a sua opinião acerca do estado em que se encontra Portugal? A resposta só pode ser peremptória: nada!

E nada, basicamente em linha com o facto de nada interessar também saber se Pedro Passos Coelho se mantém teimosamente na liderança do PSD, ou se o Portas consegue gerir a sua ambição sem com isso tomar decisões irrevogáveis que comprometem o futuro de Portugal e dos Portugueses. Ou sequer se a ficção se pode tornar realidade e termos um dia um governo onde existam comunistas verdadeiros que gritem a partir de São Bento as parangonas que lhes são ditadas pelo camarada Jerónimo, ou mesmo radicais de esquerda que levem alguém do Bloco de Esquerda (se ainda existir nessa altura) a um cargo com alguma espécie de poder.

Nada disso interessa nada porque importa pouco quem vai governar Portugal. Sem capacidade de decisão relativamente às suas fronteiras e ao seu território desde a assinatura do Tratado de Schengen, ao seu orçamento, ao seu corpo legislativo, à sua moeda ou sequer acerca da definição das suas políticas de saúde e/ou educação, Portugal já não é (mesmo que os políticos dos partidos teimem em dizer o contrário) um País soberano.

E, de forma efectiva, seja o Costa, o Seguro, o Coelho, o Portas, o Jerónimo ou o Louçã, o certo é que a margem de manobra de qualquer governo que venhamos a ter é muito curta e as diferenças entre qualquer destes actores serão, efectivamente, insignificantes.

O adjectivo é mesmo esse… insignificante. Tal como insignificante tem sido esta espécie de campanha eleitoral dentro do PS, tal como foi a campanha eleitoral autárquica e europeia do ano passado, e como certamente será a campanha legislativa que se aproxima. 

Não interessa nada a ninguém. Nem sequer aos Portugueses.

quarta-feira

O Resgate de Portugal





Aconteceu finalmente.

José Sócrates, depois de pressionado pelos bancos e pelas instâncias Europeias, foi obrigado a reconhecer o estado de caos completo e ruína eminente em que se encontra a república.

É estranho, depois de muitos meses em que a generalidade dos Portugueses tentou apelar ao bom senso e ao juízo do governo, que só agora, por imposição forçada vinda de fora, ele se tenha resignado a aceitar o veredicto final.

E não se pense, como ele tentou fazer crer, que o motivo que o impedia de avançar para a solução inevitável, que a sua preocupação era com a qualidade de vida dos Portugueses, que vão ser agora rude e duramente afectados pelas condições associadas ao resgate, nem tão pouco pelas consequências que este acto terá na imagem externa de Portugal.

Numa altura em que era imperativo que se assumisse a situação e se procurassem soluções eficazes que resolvessem os problemas, José Sócrates, o governo, a presidência da república e a generalidade dos partidos com assento parlamentar, estiveram entretidos a pensar e repensar estrategicamente as suas decisões de forma a garantirem que seriam pouco chamuscados nas suas pretensões eleitorais pelo estado a que Portugal chegou. Enganaram assim, em conjunto, os Portugueses.

Depois, desenvolvendo um exercício vil de profundo desrespeito por este País quase milenar, esqueceram-se que é a terceira vez que Portugal solicita um resgate idêntico. Fundado em 1143, quando a Europa estava envolvida nas trevas da medievalidade e num caos sem igual, nasceu um Portugal que se identificava pela forma como foi capaz de se organizar no velho continente. Depois foi preciso esperar oitocentos e trinta e três anos (833!!!) para que o governo de Portugal pedisse ajuda externa pela primeira vez. Logo depois, em meados dos anos oitenta, novo pedido e novo caos financeiro. Agora, em 2011, o terceiro pedido. Ou seja, em pouco mais de 35 anos, desde o 25 de Abril, houve três pedidos de resgate em Portugal. Três. Um por década. Três vezes em que Portugal não foi capaz de honrar os seus compromissos como aconteceu durante os 833 anos precedentes.

Está visto que o problema não está em Portugal nem nos Portugueses. Não está na crise internacional e no dito caos em que nos explicam que se encontra a Europa. O grande problema está no regime dito democrático em que nos colocaram que, pela terceira vez em três décadas, provou e comprovou que não é adequado aos interesses, às características e às necessidades de Portugal.

José Sócrates, com a desfaçatez que só ele consegue ter, ainda ousou mencionar no discurso em que anunciou o descalabro que a culpa para esta situação é dos partidos da oposição!... Disse que lhe chumbaram o PEC IV há quinze dias e que, por isso, Portugal soçobrou!... Como é possível dizer isto num canal público depois de seis anos à frente do governo! Dizer isto depois de um governo que teve maioria absoluta durante tantos anos! Dizer isto sem assumir a culpa pelas decisões escabrosas; pela incompetência total destes últimos seis anos; pelos esquemas e estórias mal explicadas em que envolveu o nosso País! Dizer isto, sem perceber que o problema é seu, e também dos restantes partidos que tomaram conta do País desde há 35 anos...

Agora é tempo de dificuldades. Mas também é tempo de transparência, rigor, frontalidade e honestidade. Portugal já não está habituado a isto, mas terá agora uma oportunidade única para se reformar e para reencontrar um caminho que lhe permita recuperar a dignidade dos primeiros 833 anos.

Porque Portugal vale a pena. Mesmo que eles digam que não.