Até ao dia 10 de Junho de 1980 o actual Largo Luís de
Camões, em plano coração da Vila de Cascais, era um sórdido e mal preparado
parque de estacionamento a céu aberto. O equipamento, por sua vez, havia substituído
com carácter provisório este espaço onde anteriormente existiam casas antigas,
prolongando o eixo da Rua Regimento 19 de Infantaria, e que foram demolidas de
forma a abrir o espaço e a criar uma praça para onde se pretendia fazer
convergir as principais dinâmicas comerciais da velha vila piscatória. As obras
em curso, promovidas pelo saudoso Dr. Carlos Rosa, que presidia à Câmara
Municipal depois das eleições que foram ganhas pela Aliança Democrática, tinham
em vista a definição de uma linha de modernidade que promovesse o comércio
tradicional e permitisse a reafirmação de Cascais como destino de excelência no
seio da recém-criada Área Metropolitana de Lisboa.
Blog sobre Portugal, os Portugueses, a sua História, e a realidade política, económica, cultural e social Nacional.
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segunda-feira
As Obras de Construção do Largo Camões em Cascais
O Forte das Velas na Praia do Abano em Cascais
por João Aníbal Henriques
Só existe um adjectivo com a
abrangência suficiente para descrever de forma capaz o popularmente designado
Forte do Abano, situado a Norte da Praia do Guincho, em pleno Parque Natural
Sintra-Cascais: incrível!
Sendo um momento singelo de raiz
militar, semelhante tipologicamente a tantos outros existentes ao longo da
nossa linha de costa e construído especificamente para garantir a segurança do
território Nacional perante eventuais investidas marítimas dos nossos muitos
inimigos, é único na sua relação com o espaço e com o enquadramento cénico que
lhe dá forma.
A sua localização, num
promontório rochoso entre as Praias do Guincho e do Abano, plena e
permanentemente fustigado pela fúria das ondas do mar e pelo vento que chega
agreste e forte vindo da Serra de Sintra, confere-lhe um impacto sem par na
paisagem. À sua volta, no contraste permanente entre o azul do mar, o branco
das nuvens e o verde forte das encostas que dali seguem até à Peninha, a vista
alonga-se através de um dos mais inesquecíveis cenários do Concelho de Cascais,
potenciando a sua presença e reforçando a sua importância estratégica na
definição da vocação turística municipal.
Incrível também porque, até
contextualizando o monumento na sua mera função figurativa enquanto esteio
promocional do turismo desta região, o estado deplorável de abandono,
vandalismo latente e degradação acentuada, representa um autêntico atentado ao
património de Cascais, dos Cascalenses e mesmo de Portugal.
É totalmente inconcebível que num
país como Portugal e num Concelho como o de Cascais, nos quais a projecção da
importância do sector turístico é tão grande, seja possível deixar que
desleixadamente este tipo de equipamentos se vá perdendo por incúria, incapacidade e desinteresse das entidades públicas, perdendo
não só todo o valor cultural que a ele está inerente, como também todo o enorme
conjunto de potencialidades económicas, empresariais, culturais, patrimoniais,
educativas e outras que o mesmo apresenta. É inconcebível e intolerável que o
Estado Português, responsável tutelar pela salvaguarda dos valores que os
Portugueses lhe deram à guarda, permita que este tipo de peças patrimoniais
chegue a este estado de abandono, não efectuando sequer o mínimo esforço para
garantir que os mesmos estão fechados e inacessíveis aos vândalos que os vão
degradando.
E infelizmente, este não é caso
único, nem singular em Cascais e em Portugal! Intolerável e incrível!
O Forte das Velas, sendo peça
integrante no esforço efectuado depois da Restauração da Independência Nacional
em 1640, faz parte de um complexo de vários fortes que cruzavam fogo sobre as
principais enseadas marítimas de Cascais, recriando uma cortina que visava
impedir desembarques indesejados nas principais praias do concelho.
Com a volumetria tradicional da
sua época, o também designado Forte do Abano foi construído em 1642 por ordem
de D. António Luís de Castro, Conde de Cantanhede e Governador da Praça de
Cascais, e inicialmente guarnecido por sete peças de artilharia pesada.
Classificado como Imóvel de
Interesse Público através do Decreto 129/77, de Setembro de 1977, foi alvo de
várias obras de requalificação e adaptação ao longo dos anos, que lhe
conferiram o aspecto que hoje apresenta.
Na componente de alojamento,
teria inicialmente três corpos cobertos virados a Este, protegidos da força do
mar pelo terraço onde se instalava o grosso da artilharia, e terá sido
reformado em meados do Século XIX, quando o desenvolvimento de novas técnicas
militares possibilitou a libertação de algum do espaço de aquartelamento, perdendo
o corpo central que foi substituído por um pequeno terraço a céu aberto e pela
nova cisterna de captação de água corrente.
Da estrutura inicial são ainda de
salientar as duas chaminés de aquecimento dos corpos de alojamento situados
junto à entrada, vandalizadas possivelmente de forma irrecuperável em época
recente, bem como a estrutura de transporte e captação das águas para o seu
espaço de armazenamento.
Com o enquadramento cénico único
propiciado pelo espaço onde se encontra, o Forte das Velas é uma das peças
patrimoniais que mais interesse desperta junto dos muitos milhares de veraneantes
e passeantes que frequentam a Praia do Guincho, que quase sempre sobem o espaço
da encosta para o observar mais de perto.
Sobre a porta da entrada,
praticamente ilegível debaixo do Escudo de Armas Português, a placa
comemorativa da sua inauguração desperta o gracejo dos que o visitam. Em
acentuada degradação e em estado de ruína eminente, é simultaneamente um
tesouro precioso e um perigo imenso, com a acessibilidade privilegiada que tem
cruzada com a falta de controle de quem por ali transita.
Resta pouco tempo de vida ao
Forte das Velas. Até porque para além do vandalismo a que está sujeito quotidianamente,
os próprios elementos se encarregam de o ir destruindo.
Com o seu desaparecimento e
paulatina degradação perde Cascais, perdem os Cascalenses e todos os
Portugueses. Incrível que seja assim!
quinta-feira
Estertor de Memórias em Cascais
por João Aníbal Henriques
Na década de 90, quando cobriram Cascais com uma imensa toalha de betão, era usual dizer-se que “podia ser pior”… E a coberto disso, porque de facto pode ser sempre muito pior, utilizando a mediocridade como bitola e renegando a excelência que foi sempre a principal imagem da Nossa Terra, foram matando a Identidade e a Memória de Cascais. O Projecto de Requalificação da Entrada Nascente de Cascais, que foi ontem apresentado publicamente, representa um retrocesso a esses tempos de má memória. Podia ser pior? Claro que sim. Mas o que se pretende fazer na entrada principal da vila é o assumir definitivo da vocação suburbana de Cascais, abandonando para sempre os parâmetros de excelência de outros tempos e de outras gentes. E já não será possível voltar atrás…
O projecto de requalificação da entrada de Cascais é antigo. Praticamente desde a inauguração do hipermercado, em 1973, que os Cascalenses defendem uma intervenção no espaço visando a recuperação dos valores urbanísticos tradicionais e a recriação de uma dinâmica arquitectónica que promova as memórias antigas que subsistem no local.
Ao contrário do que refere o esforço de propaganda associado à apresentação pública que ontem decorreu, este projecto é mais um que vem juntar-se aos vários que já foram desenvolvidos e que, para sorte dos Cascalenses, acabaram por nunca se concretizar. Desta maneira, perdidas no meio das ruínas que enchem todo o local, sobrevivem ainda os últimos resquícios de uma memória que Cascais não pode dar-se ao luxo de apagar.
O projecto agora apresentado, e que ficará em discussão pública sujeito às sugestões e críticas dos Cascalenses, pretende desenvolver um conjunto de operações urbanísticas que visam o reparcelamento da propriedade e a relocalização do hipermercado. Para os seus autores, a requalificação da principal entrada de Cascais passará pelo enterramento do estabelecimento comercial e pela reformatação de todo o terreno envolvente através da construção de um novo empreendimento que substituirá as ruínas patrimoniais que sobrevivem no local.
Mas, se é óbvia a necessidade de intervir neste espaço, até porque a vocação turística municipal é incompatível com o estado de ruína generalizada em que todo o quarteirão se transformou, as opções agora assumidas são profundamente atentatórias do registo de qualidade que os Cascalenses defendem.
Em primeiro lugar porque assumem como área de intervenção somente o quarteirão situado entre a Avenida de Sintra, a Avenida Marginal, a Avenida Marechal Carmona e a Rua Henrique Seixas, deixando de fora toda a margem esquerda da avenida, o espaço antigamente ocupado pela Quinta das Loureiras, onde está hoje o CascaisVilla, e os terrenos vazios circundantes. Esta opção, não só impede a recriação de um plano geral que efectivamente requalifique a entrada de Cascais, como constrange, em termos dos parâmetros urbanísticos que hão-de servir de referência nas intervenções a realizar no futuro nos espaços agora deixados de fora, a práxis urbanística que para aqui se defende.
Depois, porque para tornar possível a reformatação urbana que pretendem, os autores deste plano defendem a demolição dos últimos exemplares da arquitectura de veraneio que ainda ali sobrevivem, substituindo-os por incaracterísticos edifícios habitacionais suburbanos que não representam a memória do local nem supõem a sua recuperação em prol da identidade de Cascais. Dirão certamente que os edifícios não estão classificados oficialmente, que estão em avançado estado de ruína, etc. E é verdade. Porque embora façam parte do “Levantamento do Património Cascalense”, adquirido pela Autarquia no ano 2000, o actual executivo municipal optou por incluir como anexo ao PDM somente os edifícios classificados, impedindo novos processos de classificação e a consequente recuperação da memória municipal que a eles estaria associada.
E, mais importante ainda, despreza por completo o valor identitário dos imóveis situados fora do quarteirão agora intervencionado (infelizmente a Casa da Quinta das Loureiras, onde funcionou o St. George’s School, foi demolida em má hora para construção do CascaisVilla), criando as condições políticas para que todos eles venham a ser substituídos por novos empreendimentos de características semelhantes àquelas que agora se defendem para este local.
E seria tão fácil desenvolver neste espaço um projecto verdadeiramente qualificador, minorando o impacto do que de pior lá existe e integrando e promovendo as peças que representam a nossa memória e a nossa identidade…
Em suma, a intervenção que se pretende fazer na entrada de Cascais não requalifica o espaço. Moderniza-o, introduzindo elementos que facilitam a fruição visual para quem chega à vila através da Avenida Marginal, mas despreza a oportunidade de intervir para recuperar uma das mais importantes memórias da Nossa Terra. E ao ser assim, e assumindo a explicação já antiga de que “podia ser pior”, condena a entrada de Cascais a uma mediocridade própria de uma qualquer terreola suburbana, arrastando definitivamente consigo a grandiosidade extraordinária que sempre definiu o charme empolgante e a vocação de excelência de Cascais.
E é uma pena que seja assim. Porque a Cascais já não restam muitas oportunidades.
sexta-feira
A Areia e a Capela de São Brás em Cascais
por João Aníbal Henriques
Quando em 1997, em pleno processo
de preparação do Levantamento Exaustivo do Património Cascalense, publiquei um
trabalho sobre a história da ruralidade da Freguesia de Cascais (*), a povoação
da Areia era ainda palco privilegiado das ancestrais tradições rurais que deram
forma ao município de Cascais.
No Largo de São Brás, expressão
máxima do sentido comunitário da localidade, congregavam-se os elementos
principais de uma existência na qual a ligação aos trabalhos da terra e uma
dependência extrema relativamente às agruras da natureza, se revezavam amiúde,
representando o principal sustentáculo de um ideário comunitário comum que
conduziu à arreigada identidade que a localidade ainda possui.
A Capela de São Brás, o chafariz
e o lavadouro comunitário, partilham por ali o coração simbólico da Areia,
dando forma a uma existência na qual a singeleza do quotidiano funciona como
elemento motivador de uma forma de ser e de estar que fomenta o tecido social
do local.
A Areia, de cujas origens pouco
se conhece, apresenta um topónimo que deriva da proximidade à Praia do Guincho
e a estrutura pobre dos seus solos. Mas, é também essa aparente fragilidade
natural que, conjugando-se em processos dinâmicos de sobrevivência, vem
determinar uma série de práticas que são vincadamente locais e
extraordinariamente únicas no contexto da existência rural de Cascais e de Portugal.
Do período romano, o povoado dos
Casais Velhos, com a milenar fábrica de púrpura e a ligação directa à cabeça do
Império, representa a expressão máxima da sua monumentalidade, traduzida em
algo que, apesar do abandono a que tem sido devotado ao longo dos últimos anos,
é irrepetível e assume laivos de primeira linha no inventário do património
Cascalense.
Mas a Capela de São Brás, situada
em plano coração da Areia, é também ela eixo essencial na estruturação moderna
da localidade, representando um papel catalisador no desenvolvimento da
estrutura social que há-de definir o devir quotidiano naquele espaço.
Sem origem cronológica conhecida,
a Capela de São Brás que hoje conhecemos será certamente o resultado de um
processo de paulatino desenvolvimento. A sacralidade do local, provavelmente
marcado por um antigo templo e/ou ermida que por lá tenha existido, foi
necessariamente o ponto de partida de uma expressão cultual que gera em seu
torno os elementos necessários à fixação humana. Em 1527, quando se realizou o
primeiro recenseamento à população, a Areia tinha somente nove vizinhos, o que
corresponde a pouco mais de duas dezenas de pessoas, que entre si partilhavam
os parcos recursos que resultavam do trabalho da terra.
A pobreza material da população,
cessada que estava a exploração riquíssima da produtiva fábrica de púrpura,
está bem expressa na formulação urbanística da localidade e, sobretudo, no
carácter chão da arquitectura desta sua capela. De traços simples e
simbolicamente próxima dos valores muito regulares que sempre caracterizaram a
existência local, a Capela de São Brás conjuga em si os principais elementos
que nos ajudam a perceber e a conhecer a povoação.
A devoção a São Brás, o santo arménio
que começa a sua vida adulta como médico e que abandona tudo o que tem e o seu
dia-a-dia na cidade depois de ouvir o chamamento de Deus, é também ela
ilustrativa do carácter longínquo que a Areia representou durante muitos anos,
em linha com a opção do Santo por uma vida de eremita, devotado à interioridade
e à oração, em comunhão profunda com a solidão da natureza. A singeleza da
história, a mesma que caracteriza a Capela de São Brás e mesmo o devir
quotidiano na localidade da Areia, dão nota desse desligar sentido das
correntes que nos prendem permanentemente à clausura da materialidade,
representando um ímpeto de libertação que é resultado da proximidade a Deus.
A Areia, na sua ligação a São
Brás, representa assim a profundidade da entrega devocional de Cascais à causa
do despojamento material, numa sentida e assumida opção pela simplicidade
extrema.
As duas devoções que estão nos
altares secundários deste templo, entregues a Nossa Senhora de Fátima e ao
Sagrado Coração de Jesus, são também elas expressivas deste caminho, denotando
uma continuidade na prática devocional que terá obrigatoriamente de assentar
numa vivência comunitária solidamente assente num conjunto e valores simbólicos
desenvolvidos ao longo de muitos anos.
Visitar a Areia e a Capela de São
Brás, num exercício de libertação perante a opressão sensível do charme de
Cascais e dos Estoris, é assim uma oportunidade para entender a perenidade
desta escapatória axial na formulação mais profunda da comunidade e do
património Cascalenses.
(*) HENRIQUES, João Aníbal, História Rural Cascalense,
Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 1997.
segunda-feira
A Capela de Nossa Senhora da Graça em Tires
por João Aníbal Henriques
Dizem os eruditos que a pequena
capela de Tires foi dedicada a Nossa Senhora da Graça num acto de gratidão
pelos benefícios recebidos pelos pescadores de Cascais, em 1362, quando foram
libertados do jugo administrativo de Sintra.
O templo, no entanto, é muito
mais recente, e embora não esteja datado em termos documentais, tal como acontece
com a generalidade de espaços de culto semelhantes, será provavelmente
originária do Século XVI ou XVII.
De planta simples e uma só nave,
integra-se esta capela na tipologia mais comum dos monumentos de cariz rural e
de estilo chão, espraiando a devoção dos habitantes mais humildes e geralmente
ligados de forma perene à terra e à sua produção.
A inovação da Senhora da Graça, “Ó
Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”, remete-nos
para um universo religioso profundamente marcado pelas devoções antigas que
proliferaram no actual território de Cascais desde tempos ancestrais. A
concepção imaculada da Virgem-Mãe, arquétipo primordial da religiosidade
pré-Cristã em Cascais, denota precisamente essa ligação à terra e aos ciclos da
fertilidade, conduzindo-nos, numa linha mística repleta de significado, para a
própria essência profunda e sagrada de Portugal.
De facto, Nossa Senhora da
Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal, foi sempre elemento indissociável
das graças concedidas a este País, num fluxo constante de oração e Fé que marcou de
forma indelével os mais importantes momentos da nossa História. O apelo à
Rainha, mãe ancestral de todos aqueles que utilizam a força da natureza como
bitola definidora das suas escolhas materiais, num «Ó» de súplica que fomenta os
mantras sonoros típicos da sabedoria mais avançada, faz-se precisamente através
de um acto de entrega total e absoluta à vontade de Deus numa ligação profunda
ao martírio de Cristo em defesa dos seus pares.
Em Tires, Nossa Senhora da Graça
é assim espaço de memória que se define a partir do fulcro mais importante da
existência cultural da localidade. Com a sua estética simples, num corpo em que
a única nave abre caminho simbólico em direcção ao céu, são de sublinhar os
elementos decorativos esculpidos na pedra calcária da porta principal, nos
quais a flor, natureza em movimento, nos transporta para a concepção onírica
dos planos mais elevados. A torre sineira, simples na sua formulação, mas
perfeita na forma como se integra na estética do lugar, prima pela
proporcionalidade que fomenta o carácter da capela.
A Capela de Tires, no centro
nevrálgico da localidade, é assim uma espécie de eixo definidor que nos permite
conhecer melhor Portugal e a história recente das gentes anónimas de Cascais. Deve
ser conhecido e reconhecidamente integrado na vocação turística deste lugar.
A Capela de São Sebastião em Cascais
por João Aníbal Henriques
Passaram-se muitos meses desde
que o temporal do Outono de 2015 destruiu o cruzeiro, o alpendre e o adro da
Capela de São Sebastião, em Cascais. Mas, finalmente, foram efectuadas as obras
de recuperação e reposta a dignidade daquela importante peça do património
cascalense.
A Capela de São Sebastião,
construída provavelmente em 1628, atendendo à inscrição existente na base do
seu cruzeiro, possui um interessante conjunto azulejar cujas origens dispersas
não se conhecem com exactidão.
A sua localização, fora da
localidade e já muito perto da Enseada de Santa Marta, terá sido determinante
para a sua formulação arquitectónica simples, em estilo dito “chão” e para as
suas origens eminentemente ruralizantes. Situada originalmente na cerca do
antigo Convento de Nossa Senhora da Piedade (actual Centro Cultural de
Cascais), seria certamente posto avançado de oração e recolhimento daquele
importante núcleo religioso da Vila de Cascais.
De acordo com alguns autores,
serão do antigo convento, que foi construído em 1594 por D. António de Castro,
então Senhor de Cascais e pela sua mulher D. Inês Pimentel, alguns dos painéis
de azulejos que hoje se podem ver na capela e nas zonas envolventes. O mais
importante, hoje colocado de forma cenicamente impactante no jardim construído
no local pelos Condes de Castro Guimarães, é precisamente a “Procissão
Alquímica” em que Nossa Senhora é transportada aos céus numa imensa carruagem
inserida num cortejo do qual fazem parte algumas das mais importantes figuras
da imagética transcendental da Portugalidade Sebástica.
O certo é que quer na figura “Civitates Urbius Terrarum” da autoria de
Georgius Branius, de 1572, quer na planta geral da Vila de Cascais, datada de
1594 e guardada no Arquivo Geral de Simancas, a pequena capela surge
expressamente representada, sendo certo, por esse motivo, que já nessa altura
fazia parte do património religioso da localidade.
Na parede do adro, com datação
provável dos finais do Século XVII, e correspondendo a uma das campanhas de
obras de remodelação que o edifício terá sofrido ao longo da sua história,
existe um painel azulejar polícromo dedicado ao Santíssimo Sacramento e, como
não poderia deixar de ser numa peça de património de índole rural, à Imaculada
Conceição da Virgem Maria. Uma vez mais, como é evidente, cerca de dois séculos
antes de o Papa Pio IX, através da bula Inneffabilis
Deus, ter solenemente definido a Imaculada Conceição como dogma, em linha com
o que acontece com as principais orientações cultuais no Portugal de então e,
especialmente, com as ancestrais tradições religiosas existentes no Concelho de
Cascais.
O orago Sebastianista da capela,
apelando ao supremo poder de Deus perante os homens e à permanente necessidade
destes de tentarem impor a sua vontade, recupera também ele os laivos dessa
paulatina degeneração dos cultos mais antigos das populações locais que, depois
de Cristianizados, acabam por integrar-se de forma definitiva no conjunto de
pressupostos sagrados que dão forma à Fé local.
A recuperação da Capela de São
Sebastião, para além de um importante contributo para a consolidação da vocação
turística municipal, que depende da existência de uma oferta significante que
concretize a Região do Estoril como um destino turístico de excepção no
contexto europeu, significa ainda o assumir da Identidade Cascalense, assente
num imaginário colectivo na qual as memórias físicas se cruzam quase sempre com
os vestígios materiais de gerações ancestrais.
É, por isso, uma boa notícia para
a Nossa Terra!
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