No dia 20 de Julho de 1936 Cascais foi palco de um acontecimento dramático que mudou de forma drástica e permanente os destinos históricos da Espanha actual. Na localidade da Areia, junto ao areal do Guincho, uma avioneta despenhou-se abruptamente no solo depois de ter tentado descolar de um aeródromo improvisado na pista equestre da Quinta da Marinha. A bordo, depois de ter sido escolhido pelos seus pares para liderar a revolução instituída em Espanha contra a república vigente, seguia o General José Sanjurjo Sacanell, que regressava à sua pátria para dar corpo à mais dura das ditaduras jamais vividas em terras espanholas. O militar, que viveu exilado durante longos períodos no Estoril, organizou a partir desta terra os alicerces do novo regime político que pretendia fazer nascer, encetando em Cascais todos os contactos diplomáticos que lhe permitiram a angariação dos apoios necessário à boa concretização deste seu megalómano projecto. Com o acidente de 1936 em que perdeu a vida, abriu-se uma janela de oportunidade para muitos políticos emergentes nesta Espanha que estranhamente se debatia com adversidades diversas. E o seu lugar enquanto caudilho escolhido para liderar o país neste momento, foi ocupado até 1975 pelo General Francisco Franco, que recriou de acordo com o seu perfil um país completamente diferente marcado antes da sua morte por uma transição pacífica para um novo regime monárquico constitucional que coroa Juan Carlos e permite a institucionalização da democracia que os espanhóis hoje podem viver. Dir-se-á que a História não se faz com suposições, mas se não fosse o acidente ocorrido na Areia em 1936, o destino da Espanha teria sido certamente muito diferente. E Cascais, uma vez mais, acaba por ser eixo-axial de importância fundamental na roda do destino e dos acontecimentos.
Blog sobre Portugal, os Portugueses, a sua História, e a realidade política, económica, cultural e social Nacional.
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Caminhos da Liberdade: As Origens do Partido Comunista Português em Cascais...
Cascais
surge ao público associada quase sempre a uma ideia de conservadorismo que não
corresponde à realidade. Em vários sectores de actividade, desde a ciência, à
tecnologia, à pintura, escultura e literatura, passando pelo empreendedorismo e
até pela política, Cascais foi sempre terra de vanguarda e contribuiu de forma
decisiva para o nascimento e consolidação de ideias inovadoras que ajudaram a
transformar e a fazer evoluir Portugal e o próprio Mundo. Um destes exemplos
prende-se com o surpreendente rol de “Casas Clandestinas” existente neste
concelho. De facto, desde a sua fundação em 1921, que o Partido Comunista
Português utiliza o respeito pela liberdade que aqui encontra para dar corpo às
suas iniciativas e projectos. Em
Novembro de 1943, contra quase tudo o que é expectável, realiza-se no Monte
Estoril o primeiro congresso do partido depois de ter sido remetido à
clandestinidade, no qual o líder Álvaro Cunhal, em plena II Guerra Mundial, vem
defender a unidade da Nação Portuguesa na luta pelo pão, pela liberdade e pela
independência. E alguns anos depois, já em 1957, é em Cascais que são aprovados
os primeiros estatutos do partido, alicerçando um programa de princípios que
norteará a actividade comunista durante as épocas conturbadas que depressa
chegarão. Decorrido na Casa dos Cedros, em São João do Estoril, este V
Congresso do PCP é marcado pela grande discussão sobre o problema colonial,
tendo sido a primeira vez que os congressistas Portugueses recebem as saudações
oficiais por parte dos restantes partidos comunistas do Mundo de então. Depois,
já em 3 de Janeiro de 1960, foi na Vivenda Montalvinho, em São João do Estoril,
que o histórico líder comunista se refugiou depois do grande sucesso da sua fuga
da prisão em Peniche, mostrando de forma cabal ser este o destino de excepção
que melhor lhe garantiria a segurança neste momento tão importante, inquietante
e marcante da sua vida pessoal e da vida do próprio partido nascente. Em suma,
num registo historicamente longo de respeito pelo outro e pelo pensamento de
vanguarda, Cascais foi sempre um verdadeiro bastião de liberdade, tendo a
capacidade de acolher e promover formas alternativas e vanguardistas de
pensamento. Porque este é o ADN Cascalense.
sexta-feira
Avis e Cascais
Em 1385 a independência de Portugal foi salva por um homem. Chamava-se João das Regras. Criou uma nova dinastia - de Avis - e o Mundo novo em que agora vivemos. Foi devido a ele que a Europa se ligou à Ásia, à África, à América e à Oceania. Como prémio de vida o Rei Dom João I ofereceu-lhe o presente mais extraordinário do Portugal de então: o Senhorio de Cascais!
segunda-feira
A Filiação Hermética da Alquimia Cascalense
A primeira escola de filosofia de
Portugal funcionou no antigo Convento de Nossa Senhora da Piedade em Cascais. O
edifício, onde actualmente está instalado o Centro Cultural, foi durante muitos
séculos cadinho primordial do pensamento e da cultura em Portugal, ali tendo
sido produzidas muitas das mais importantes e significantes obras de filosofia,
de História e das ciências dos séculos XVI,
XVII e XVIII. Destruído quase por completo durante o grande terramoto de
1755, o edifício foi transformado em Casa de Veraneio pelo Visconde da
Gandarinha e guardou na poeira dos novos tempos um dos mais extraordinários
segredos de Cascais… Transportado para o Jardim dos Condes de Castro Guimarães,
o painel de azulejos do antigo convento passa despercebido a muita gente. Mas
naquele recanto encantado, à vista de todos e a comprovar que muitas vezes é no
mais óbvio que se encontram as lições mais importantes, fica a prova da
filiação hermética de Cascais e sublinha o significado profundo da simbologia
alquímica desenvolvida no antigo convento. A “Procissão Triunfal”, misto de
teologia e alquimia, retrata a Virgem Maria que segue em Glória num carro
puxado a cavalo que esmaga com as suas rodas o dragão telúrico das forças
mortais e terrenas. À frente, ostentando de forma vigorosa o Sol e a Luz, numa
alusão simbólica à totalidade, os Arcanjos São Miguel e São Gabriel abrem o
caminho para os grandes pensadores de todos os tempos: A “Ciência de Maria”,
vulgo alquimia, consagra-se na Grande Obra de Santo António de Lisboa, Santa
Isabel de Portugal, Santo Alberto Magno, Santa Isabel da Hungria, Arnaldo de
Vilanova, etc. fechando o cenário com os anjos que carregam cada qual uma das
alfaias sagradas do Hermetismo Carmelitano. Numa época de absurdo absoluto, em
que se põem em causa os valores mais essenciais do humanismo português, importa
olhar com atenção para este segredo, pois é pegada fundamental na caminhada em
direcção ao entendimento iluminado da Sabedoria Divina que se oculta sob esta
capa protectora dos ataques inesperados do Mundo Profano. É Cascais, uma vez
mais, a tomar a dianteira desta procissão monumental!...
sexta-feira
Conversas de Cascais: a Europa Nasceu Aqui
Pedro Gomes Sanches e João Aníbal Henriques numa "Conversa de Cascais" no âmbito do programa de comemorações do 656º Aniversário da Vila de Cascais:
Cascais: um caminho para Portugal e para a Europa
por Pedro Gomes Sanches e João Aníbal Henriques
in "O Observador" 12 de Junho de 2020
Cascais é a mais sadia terra que se sabe em Portugal. Assim o disse Frei Nicolau de Oliveira, no seu "Livro das Grandezas de Lisboa" no Século XVI, e o confirmámos nós, desde o início dos anos 90 do século passado quando, num velho Mini Moke amarelo, calcorreamos juntos cada canto e recanto desta terra que agora festeja o seu 656.º aniversário.
Pode parecer presunção que dois Cascalenses de gema, criados com os aromas, as cores e as memórias muito vivas de uma infância em Cascais, venham agora a público dizer que a Europa também nasceu em Cascais. Mas não é. Porque a História, que nasce pujante nas pedras velhas da Villa Romana dos Casais Velhos , nos comprova que a púrpura ali fabricada alquimicamente teve papel decisivo na génese Católica, Apostólica e Romana da Europa em que vivemos.
Portugal, de uma forma geral, e Cascais, em particular, estão muito longe do estereótipo imposto à Europa pela centralidade franco-germânica. Não são, como muitos lá fora por desdém teimam em dizer, e muitos cá dentro por incúria teimam em confirmar, as periferias pobres e desinteressantes que, situadas no Finisterra dos Romanos, nada têm a acrescentar à História.
Pelo contrário. Portugal é a cara de uma magnífica Europa, plena de futuro e capaz de representar e acolher todos. Ou não tivesse já Pessoa, antes de qualquer União Europeia, afirmado que o rosto com que a Europa fitava o Ocidente, futuro do passado, era Portugal. A sua localização atlântica, vocação turística centenária e cosmopolitismo, transformam este país numa janela de oportunidades para uma Europa que respeite as diferenças e seja capaz de rentabilizar o seu conhecimento e a sua experiência para estabelecer alianças com outros povos. O Portugal que herdámos é a ponte de ligação directa a África, à América do Sul e à Ásia, tendo a potencialidade e também o dever de contribuir de forma pragmática para encontrar respostas que permitam inverter a crise geral em que parecemos mergulhados, e nos libertar do atavismo a que parecemos condenados.
E se há exemplo de que tal é possível, ele está precisamente aqui em Cascais. Na comemoração de mais um aniversário, ouvindo ao longe os passos abafados dos pescadores nossos avós que receberam o seu foral em 1364, temos um Cascais reforçado por um polo de ensino superior que reúne o melhor que existe no Mundo nas áreas da ciência, da economia e da gestão. Cascais hoje exporta saber, conjugando a experiência de muitos séculos e a sabedoria avoenga com a ambição futurista dos nossos filhos. E fá-lo com um património histórico e arqueológico recuperado para servir de atractivo à visita de todos aqueles que desejarem aprender e deslumbrar-se com as experiências extraordinárias que estamos preparados para lhes proporcionar, bem como alimentando a memória dos que cá vivem lembrando-os quem são e donde vieram.
A já recuperada Villa Romana de Freiria, em São Domingos de Rana; o antigo Convento de Nossa Senhora da Piedade, actual Centro Cultural de Cascais; a Casa Sommer, actual arquivo histórico; as Grutas Neolíticas de Alapraia, cujo núcleo de interpretação será em breve devolvido aos Cascalenses; as Grutas Pré-Históricas do Poço Velho, em pleno coração da vila; ou a fábrica de púrpura dos Casais Velhos, junto ao Guincho; são apenas alguns exemplos de que estamos preparados para o futuro sem esquecer o passado.
Mas Cascais não é só património edificado. Num tempo, ora vagamente esquecido por força da crise pandémica, de emergência climática, Cascais está também na linha da frente na preservação do seu património ambiental e da sua biodiversidade. Da Duna da Cresmina à praia das Avencas, passando pela Ponta do Sal, Quinta do Pisão ou Ribeira das Vinhas; da aposta na mobilidade light ao envolvimento empenhado e estratégico na mobilidade metropolitana de Lisboa; são apenas alguns exemplos de que sabemos inovar sem deixar de preservar.
Mas que Europa é esta de que falamos e que país é este que projectamos a partir de Cascais?
Esta é uma Europa de Nações, assumindo a diferença de cada um como contributo inestimável para um todo mais forte. Uma Europa baseada no respeito pelo outro que, num Mundo em permanente convulsão, conhece as suas origens e tem a capacidade para se afirmar com contributos decisivos que nenhum outro pode promover. Um Europa, com Portugal na linha da frente, com a marca de um pluralismo onde todos cabem. E uma Europa livre, democrata e inovadora.
E o país? Um país à imagem de Cascais. Nos 656 anos de Cascais, o nosso mote é o reforço da identidade, da promoção da cultura, da gestão das memórias e por outro lado da capacidade de fazer por nós, de inovar e de olhar com optimismo e determinação o futuro. Porque nós Cascalenses temos orgulho no nosso passado, trabalhamos arduamente no nosso presente e estamos preparados para enfrentar sem medo o futuro. Chamando a nós, sem o velho fado do queixume, o desenho do nosso destino. É por isso, pelo futuro que constrói e pelo passado que honra, que Cascais está de parabéns!
segunda-feira
Joaquim António Pereira Baraona (1930-2018)
por João Aníbal Henriques
Agitador de massas, de consciências e de paradigmas, Joaquim
António Pereira Baraona, nascido em Ourique, no Alentejo, no ano de 1930 e
falecido em Cascais em 2018, foi uma das figuras mais marcantes e controversas
da História recente de Portugal.
Enorme, na sua capacidade de compreender o Mundo e os Homens
e de se entregar sem pejo na luta convicta pela justiça e pelos valores que
vivia de forma justificante e plena, era simultaneamente humilde na relação com
todos aqueles que ele sabia que viviam de acordo com os princípios que sempre
nortearam a sua existência.
O Comendador Joaquim Baraona nunca deixou ninguém indiferente
nos locais por onde passou. E, gerando de forma desconexa uma multiplicidade de
amores e ódios que determinaram a sua passagem pela Terra, deixou atrás de si
um rasto pujante e pleno de significado, que se multiplica e multiplicará
durante séculos de forma exponencial na medida em que muito do que fez e
defendeu teve, tem e terá repercussões duradouras na vida de muita gente e que
se estenderá por várias gerações.
Logo desde muito jovem, quando na Vila de Ourique aprendia as
primeiras letras, Joaquim Baraona deixou nota da sua diferença.
Oriundo de uma família ligada ao pequeno comércio local e à
exploração agrícola das terras, empenhou-se com muito sucesso na generalidade
das poucas iniciativas de âmbito social que existiam naquela região nessa
altura. Da Mocidade Portuguesa à Banda de Música Local, Baraona foi sempre
figura de destaque nos locais por onde passou. E tal facto, contrariamente ao
que dita a mediocridade da História, não resultou de grandes feitos e de
enormes iniciativas, até porque a sua tenra idade nessa época impediria tal
forma de estar e esse alcance normativo. Veio precisamente do facto de ele ser
figura diferente no devir social e anímico da sua terra, tendo assim construído
e reforçado a personalidade que o caracterizou até ao final da sua vida.
Sempre preocupado com o bem-estar de quem o rodeava, e com a
sua capacidade de contribuir para o sustento dos seus, logo desde muito jovem
foi um empreendedor nato, tendo trabalhado arduamente na criação de riqueza em
todos os locais por onde passava.
Na sua biografia “A Montanha” publicada quando comemorou o
70º aniversário, dizia-se que ainda em criança comprava fruta pelos pomares dos
arredores de Ourique, que revendia com lucro no centro de vila, melhorando a
vida de quem lhe comprava os seus produtos e também de quem, com esta sua
capacidade empreendedora, acabava por ser contributo inestimável na venda desses
produtos e no alargamento dos muito escassos mercados dessa época. E era uma
criança somente quem assim pensava e fazia, num ímpeto de construir e de criar
que nunca o largou até ao fim.
E nas terras do seu pai, cumprindo os afazeres que os
progenitores lhe encomendavam de acompanhar os trabalhos agrícolas que gente
assalariada era paga para realizar, nunca ninguém o viu de braços cruzados
dando ordens conforme seria de esperar. Desde cedo, chegando sempre antes dos
outros e sendo o último a largar o trabalho, campeava lado-a-lado com quem
trabalhava, endurecendo as mãos e o espírito e reforçando de forma inequívoca
os valores e os princípios que tão importantes serão nos episódios rocambolescos
que deram forma à sua História pessoal.
Durante a pujança da sua juventude, Joaquim Baraona foi
consubstanciando as suas potencialidades e amadurecendo o espírito, de uma
forma tão sentida que, nas descrições que dele fazem os seus contemporâneos,
surge envolvido por uma aura de concretizador sem par, que o há-de acompanhar
ao longo dos anos.
Quando se mudou para Cascais, num acto de entrega total e
absoluta e de adopção assumida de um novo destino que escolheu para corporizar
a vida adulta, fê-lo novamente de Alma e Coração, multiplicando de forma
abissal a sua lógica de concretizadora e deixando um legado de tal forma
impactante que as próximas gerações nunca o conseguirão esquecer.
Na terra de adopção, enquanto consolidava a sua família recém
constituída, Joaquim Baraona trabalhou afincadamente em vários projectos em
simultâneo e, mais uma vez, os frutos do seu empenho foram de tal maneira
fortes que alterou por completo a praxis social do seu local de residência.
Da Conservatória do Registo Predial, onde desempenhou funções
desde muito novo mas sempre com uma capacidade de criar que fazia toda a
diferença, até às instituições sociais da localidade, como a Paróquia de
Cascais, a Santa Casa da Misericórdia e as muitas academias e tertúlias
culturais que o Cascais de então ainda conseguia ter, Baraona recriou rotinas e
dinâmicas, instituiu novos procedimentos e gerou projectos-sobre-projectos num
ímpeto de criação de transformou as ditas instituições e as pessoas que com ele
participavam nos seus muitos projectos.
E, para além dos grandes empreendimentos de vulto e
circunstância que lhe granjearam o reconhecimento público e a notoriedade que
se prolongou durante a vida inteira, Joaquim Baraona interessou-se, participou,
empenhou-se e trabalhou de forma incessante em centenas de pequenos projectos
pessoais, em ajudas a todos quantos lho pediam e no apoio desmesurado a
incontáveis instituições de visibilidade nula, dos quais quase ninguém ouviu
falar, dos quais não ganhava nenhuma fama, mas que alteraram de forma brutal a
vida de muita gente…
Nesta sua faceta menos conhecida, na linha de benemérito e de
benfeitor recatado, foi sempre o mais discreto dos intervenientes, zangando-se
mesmo quando aqueles a quem ajudava, por entenderem que ao reconhecerem a sua
ajuda estavam a reforçar a gratidão que sentiam por ele, tornavam públicos os
actos de grande abnegação e humanismo que só ele tinha capacidade de
empreender.
Em termos da sua vida pública, são conhecidos e reconhecidos
os projectos enormes em que se envolveu. Bairros sociais construídos de raiz;
um novo, moderno e pujante hospital distrital pelo qual a vila ansiava há
tantos anos; uma praça de toiros construída a partir da conjugação do trabalho
empenhado e da dedicação comunitária de milhares de Cascalenses; a maternidade
na qual nasceram sucessivas gerações de Cascalenses; jornais e revistas;
colectividades; e tantas estátuas, monumentos, escolas, academias e associações
que nasceram pela sua mão e com a ajuda dele…
Não
existem palavras no léxico Português onde caiba a obra e o legado do Comendador
Joaquim Baraona. Porque ela, sendo reconhecidamente enorme na parte pública,
era incomensuravelmente maior na componente que poucos tiveram a sorte de
conhecer.
A grandiosidade do seu trabalho, trilhando caminhos quase sempre
improváveis mas sempre marcados pelo ferro do bem-fazer, espraiaram-se por
áreas das quais a sua obra transpira quotidianamente. Baraona foi erudito,
escritor, diplomata, político, empresário, benfeitor e tantas outras coisas
onde expressou a profundidade da sua excelência.
E, quando foi agraciado pela Presidência da República com a condecoração
máxima que existe para a área da benemerência, recebeu os louros do seu
trabalho perante uma multidão que todos os dias, na sua vida pública e privada,
vivia e usufruía dos resultados de tudo quanto ele estava a fazer.
Dias depois, quando a revolução aconteceu, foram muitos aqueles que
correram de imediato a defendê-lo. E ao contrário do que seria expectável, até
porque na vida de Joaquim Baraona nunca nada foi aquilo que seria de esperar
que se supusesse acontecer, os meses seguintes àquela mudança destruturante na
vida de Portugal, foram de continuidade e de luta constante para que o universo
dos Portugueses não se desmoronasse e para salvar postos de trabalho, ensejo e
projectos. Contou nessa altura com o apoio de quase todos os que estavam há
muito tempo ao seu lado mas, na força maior da raiva e da inveja, outros houve
que não foram capazes ou quiseram honrar os compromissos e as dívidas de vida
que com eles haviam contraído e que, de forma fácil e com o apoio dos novos
poderes emergentes, num registo de injustiça atroz e de um desprezo que Ser
Humano algum merece sofrer, ousaram apunhalar a sua confiança e sacar da sua
posse os instrumentos de que ele necessitava para se defender.
E Baraona surpreendeu novamente.
Perseguido pelo bem que tinha feito e sofrendo injúrias e as mentiras que
uns poucos usaram para toldar a rectidão da sua vida e a dedicação a tantos
projectos, teve de salvar os filhos ainda menores e de encontrar um caminho
alternativo que os salvaguardasse do sofrimento causado por motivos que ainda
nem sequer tinham capacidade de perceber. Rumou para o Brasil, para onde seguiu
praticamente sem nada, deixando para trás a casa, os bens pessoais, as memórias
da sua vida e o legado dos seus pais. Levava consigo a Alma Grande de Português
e a força avassaladora de quem tem a convicção de que esteja onde estiver a
força da sua determinação impõe-se a qualquer vicissitude conjuntural que possa
surgir.
No Brasil repetiu tudo aquilo que fez durante a infância em Ourique e
durante o tempo em que trabalhou em Cascais. Construiu projectos inovadores,
arrasou com uma visão estratégica fulminante e mudou a face e o rumo do Estado
do Espírito-Santo que o recebeu de forma esfusiante por nele ver uma
perspectiva de futuro total e radicalmente diferente. Em Vitória moveu
montanhas, criou um resort turístico de fama mundial e dirigiu uma operação sem
precedentes de plantio de videiras e de produção do que ele chamava “o melhor
do vinho Português”. Criou empregos, gerou riqueza, mudou uma vez mais a vida
de muita gente.
No meio desse processo, quando o espectro melindroso dos efeitos da
revolução começava a dissipar-se em terras de vera gente, foi contactado pelo
novo Estado e, sondado acerca de um qualquer natural rancor que pudesse ter
depois de tudo aquilo que de terrível lhe haviam feito em Portugal, de imediato
se dispôs a abraçar a causa de sempre e, com Portugal no peito, logo se
transformou no mais pujante e dinâmico pilar das pontes diplomáticas a
estabelecer entre a democracia nascente e o potencialmente brilhante Brasil que
estava então a renascer.
Contra tudo e contra todas as expectativas criadas por aqueles que
miseravelmente e de forma cobarde o tinham atacado, geminou cidades e gerou
irmãos, recriou vínculos e laços fraternos entre academias e associações
sedeadas em ambos os lados do Atlântico, e fomentou negócios e dinâmicas
empresariais que muito contribuíram para a afirmação de Portugal no Mundo com o
denodo que só ele sabia ter.
Foi generoso acima do que seria expectável. Foi generoso com aqueles que o
apoiaram e com aqueles que o atacaram. Olhou sempre de cima para o lodo da
sociedade e impôs-se pela ligeireza com que regia os ódios, as implicâncias, as
maledicências e as invejas mesquinhas que a sociedade humana tem grande
dificuldade de ultrapassar e esquecer. Soube, porque era figura maior
do que os pequenos personagens com quem se cruzou na vida toda, virar a página
e abraçar Portugal como causa sua, continuando, praticamente até ao último dia,
a trabalhar a favor de toda a gente.
Quem teve a sorte de o conhecer bem recorda a sua boa-disposição, a
educação primorosa, o saber estar e o saber fazer e, acima de tudo, o carácter
implacável perante a ignomínia e a falsidade. Era irredutível em tudo o que
dizia respeito ao desleixo, ao desinteresse à incúria e à falta de rigor. E
isso gerou-lhe amores e ódios que foram marcantes ao longo de toda a vida.
Em Cascais, tudo transborda à obra de Joaquim Baraona. Ele está em cada
canto e recanto, em cada esquina e nos pequenos e grandes pormenores das ruas,
das casas e das instituições de Cascais.
Quando inaugurou aquele que seria o mais moderno e inovador hospital
Português, numa Vila de Cascais que ansiava pelo mesmo há muitas décadas e que
sempre se mostrou incapaz do o desenvolver, logo se deparou com outros
projectos e ideias que marcaram a vida da comunidade e que mostram bem a fibra
que sempre teve.
Numa entrevista concedida em 1970 ao
jornal “A Nossa Terra” o (demasiado) jovem Provedor Joaquim Baraona promete
iniciar de imediato as obras de remodelação do velho hospital e dotá-lo da mais
moderna tecnologia existente nessa época, num ímpeto de ousadia que não deixou
indiferentes os poderes instituídos de então. Considerando que o que existia
não era compatível com a vocação turística que Cascais vivia, Baraona menciona
os avanços técnicos e científicos que a medicina havia alcançado e refere como
exemplo uma máquina denominada “auto-analizer”, existente em vários hospitais
Norte-Americanos que era considerada um dos mais revolucionários equipamentos
do seu tempo. E, perante a estupefacção do repórter que o entrevistava, desde
logo promete que o Hospital de Cascais seria o primeiro a tê-lo em Portugal!
E assim
o fez! Procedendo a angariações de fundos e à captação de investimentos, o
jovem provedor consegue rapidamente obter os meios para proceder à reconstrução
do hospital, para o equipar com as mais modernas tecnologias e com o dito
“auto-analizer” que de imediato adquiriu nos Estados Unidos.
Mas
levantava-se um problema prático que o previdente provedor não tinha conseguido
prever: o hospital era demasiadamente pequeno e não existia espaço físico onde
se pudesse colocar este equipamento!
Mas
Joaquim Baraona não desistiu. Procurando em redor do hospital espaços vazios
onde fosse possível construir as instalações para montar o tão desejado
“auto-analizer” encontra ali mesmo ao lado, num terreno que pertencia ao Estado
e que se encontrava ocupado por um edifício onde tinha funcionado há algum
tempo um posto de apoio à tuberculose, a tão desejada solução para o seu
problema. Mas surpreendentemente foi muito mais fácil encontrar os meios para
adquirir o equipamento do que obter as autorizações governamentais para o
instalar no edifício devoluto já existente…
E uma
vez mais Joaquim Baraona não esmoreceu. Com o apoio unânime da Mesa
Administrativa da Misericórdia, o jovem provedor dirigiu-se ao prédio devoluto,
arrombou a porta oficialmente selada e iniciou de imediato a instalação do
equipamento. Como seria de esperar, as vozes críticas de sempre logo se
levantaram e as ameaças surgiram imediatamente. Mas Baraona sabia que o espaço
continuava legitimamente no domínio público e assim concretizou sem mais
atrasos o seu projecto que contribuiu de forma imediata para uma melhoria
significativa dos serviços médicos do hospital e que foi responsável pela vida
de milhares de Cascalenses. O novo hospital foi inaugurado em Abril de 1974,
dias antes da revolução, com a presença do Presidente da República e das mais
altas individualidades do Estado e da sociedade desta terra.
Teria
sido impossível com outra pessoa qualquer! Com outro provedor é mais do
que certo que ainda hoje teríamos o “auto-analizer” por estrear e guardado numa
arrecadação qualquer. Mas a coragem e a determinação de Joaquim Baraona foi
essencial na defesa dos interesses legítimos de Cascais e dos Cascalenses, resultando
numa benfeitoria que funcionou até 2010…
Quando
partiu em 2018, o Comendador Joaquim Baraona deixou atrás de si um vazio
difícil (senão impossível) de preencher. Diz-se que não existe ninguém
insubstituível e que o ritmo da vida impõe que alguns partam e deixem o espaço
para outros fazerem e brilharem também. Mas isso não se aplica com Joaquim
Baraona. O espaço que ficou, num registo que era só dele, vai ficar vazio para
sempre. Infelizmente.
Na
grandeza do seu desapego e na coragem única que usava para enfrentar os
problemas, foi figura de tal forma grande que cobria com o manto do
desinteresse os pequenos personagens que nem sequer o conseguiam perceber.
Era o
Senhor Comendador. Era pai, amigo e companheiro. Era mestre e professor. Era
uma figura de tal maneira grande que qualquer homenagem que se lhe queira fazer
ficará sempre aquém da realidade efectiva com que viveu.
Que
descanse em paz. Porque por cá, ninguém o vai esquecer.
Obrigado Comendador.
sábado
A Aldeia Nova de Cascais no Alto da Bela Vista
O
Cascais que conhecemos e em que hoje vivemos, resultante das grandes alterações
havidas na vila a partir do último quartel do Século XIX quando o Rei Dom Luís escolheu
este espaço como destino privilegiado de veraneio, esconde de forma literal
todo um enquadramento histórico que deriva do processo natural de nascimento,
crescimento e afirmação da urbe no contexto nacional. O Alto da Bela Vista é
exemplo paradigmático desta situação, pois reúne em si mesmo um conjunto de
memórias consubstanciadas em património urbano de primeira importância para
Cascais, que ficou encoberto pela assimilação daquele espaço pelo perímetro
histórico consolidado da vila que agora temos. Conhecer a génese
histórico/urbanística do Alto da Bela Vista é, desta forma, um importante
contributo para a recuperação da Memória Histórica e, por extensão, da
Identidade Municipal de Cascais, reafirmando a capacidade de enquadramento dos
projectos que surjam para aquele local e potenciando o seu valor enquanto
factores consolidadores da cidadania local.
por João Aníbal Henriques
A Génese do Espaço e as
Memórias de Cascais
Ninguém sabe, de forma efectiva,
onde Cascais nasceu. A urbe que hoje temos, tradicionalmente marcada pelo
epíteto de “Vila de Reis e de Pescadores”, é o resultado efectivo de um enorme
conjunto de acontecimentos que por aqui se desenvolveram ao longo dos séculos.
Sabendo-se que a ligação de Cascais
ao mar é realidade inata à própria existência de aglomerados habitacionais
neste espaço, o certo é que a ligação da vila aos seus ilustres pescadores nem
sempre se desenhou a partir dos cenários que hoje conhecemos.
Nos primórdios da existência humana
em Cascais, quando as primeiras comunidades deambulavam em busca de segurança e
alimento, o espaço agora ocupado pela vila oferecia condições excepcionais de
habitabilidade.
O mar, fonte praticamente
inesgotável de alimentos, assegurava praticamente ao longo de todo o ano, o
sustento necessário à sobrevivência humana. E, se o clima e a paisagem eram (e
são cada vez mais) paradisíacos, faltava assegurar somente uma dessas
componentes básicas que dão sustento a existência de comunidades humanas: o
abrigo e a segurança perante ataques e intempéries.
Mas neste campo, possivelmente
diferenciando Cascais das demais enseadas arenosas e desérticas que abundavam
na região, possui no seu subsolo um conjunto de grutas e cavidades que, furando
a pedra calcária que dá forma ao nosso solo, formam um vasto complexo de
cavernas que apresentavam excelentes condições de acesso e habitabilidade.
Torna-se fácil perceber, desta
maneira, a razão de ser de ter sido provavelmente nas actuais Grutas do Poço
Velho, situadas no sopé do morro da Bela Vista, que Cascais nasceu
efectivamente. E de, nesses tempos imemoriais do Paleolítico, terem sido
ocupadas por caçadores-recolectores que naturalmente utilizavam o mar como sua
fonte principal de alimentos.
Cascais nasceu ali, há dezenas de
milhares de anos atrás, a partir do binómio que ainda corporiza o inconsciente
colectivo da grande maioria dos Cascalenses: o Sol e o Mar, definindo na sua
lógica de desenvolvimento urbano uma componente que vincula ambas as realidades
perante a necessidade maior de oferecer qualidade de vida a todos os seres
humanos que ali se instalaram e que escolheram este como o local ideal para
viver.
Suficientemente afastadas do mar
para poderem salvaguardar a segurança desejada mas, ao mesmo tempo, próximas o
suficiente para serem acessíveis no labor quotidiano, foi no espaço das Grutas
do Poço Velho que nasceram as primeiras comunidades piscatórias locais. Foi
também ali, a partir dos pressupostos atrás elencados, que nasceram e se
criaram as técnicas, as práticas e os conhecimentos que aproximam Cascais do
mar até à actualidade.
A consolidação e a sedentarização
destas primeiras comunidades humanas na génese do território Cascalense inicia
então um processo de paulatina aproximação física ao mar e às praias. O
desenvolvimento de conhecimentos na área das construções e a pacificação que
resultou do processo de Neolitização, tornou possível virar costas aos abrigos
naturais proporcionados pelas grutas e optar por formas de abrigo mais
precárias e melhor posicionadas relativamente ao mar. Nascem assim os primeiro
aglomerados pré-urbanos, possivelmente localizados em torno da Baía de Cascais,
a partir da construção de casas feitas com materiais perecíveis e cujos
vestígios não chegaram naturalmente até à actualidade.
Na época Romana, na qual a
urbanidade já tinha atingido outros níveis de conhecimento, já encontramos
vestígios arqueológicos de ocupação humana na actual zona do castelo, de cara
voltada para o mar mas ainda assim aproveitando o desnível do terreno para
assegurar alguma segurança suplementar (ver as Cetárias Romanas situadas na Rua
Marques Leal Pancada), ao mesmo tempo que o espaço antigo das velhas grutas de
outros tempos vai ficando olvidado.
Durante muitos séculos a vida de
Cascais recentrou-se em volta da Baía. Era ali que se situavam as velhas
cabanas abarracadas onde pernoitavam os pescadores que aqui chegavam, era
também ali que se situavam as indústrias de salga e conserva de peixe que
tornaram próspero o lugar.
Utilização e Usufruto
Mas como nada é linear na
História de Cascais, importa perceber que a concentração de esforços e o
assentamento das primeiras comunidades na actual zona junto ao mar, não
representou necessariamente o abandono dos velhos espaços. Pelo contrário.
Nas Grutas do Poço Velho e, de
forma muito progressiva nas encostas do morro da Bela Vista, foram ficando
pequenas comunidades humanas que trabalhavam e rentabilizavam esses espaços.
A primeira notícia que temos
desta realidade situa-se precisamente junto à entrada nas Grutas do Poço Velho
numa das ruas que dá acesso às mesmas para quem vinha da zona saloia situada no
triângulo verdejante e próspero que liga a Serra de Sintra ao mar. Na
pequeníssima e quase desconhecida Capela de Nossa da Conceição de Porto Seguro,
está ainda hoje uma placa votiva que refere que o templo e o hospício que lhe
estava anexo foi construído em 1691por Paschoal Dias e Maria da Costa,
originários de Oeiras e que ofereceram esse espaço aos Frades Capuchos de Santa Cruz da Serra de Sintra.
E por ali, contrariamente ao que
hoje se sabe, consolidou-se um núcleo de povoamento dependente do apoio social
proporcionado pelo hospício e, concomitantemente, pelo amparo espiritual da
invocação maior que Nossa Senhora da Conceição represente em Cascais e em
Portugal…
De tal forma foi importante esse
povoamento do local, demonstrando a documentação existente que houve
efectivamente um afastamento real entre esse espaço e o da consolidação
urbanística da Vila de Cascais e seus arrabaldes, que já no Século XIX, quando
a Corte escolhe a vila como estância de veraneio, Francisco Marques Leal
Pancada, um benemérito Cascalense também relacionado profissionalmente com a
conservação do peixe, adquire a capela e o hospício e efectua amplas obras de
conservação e restauro.
É importante não esquecer que foi
precisamente Leal Pancada que, tempos depois, oferece à população de Cascais o
terreno onde virá a ser construído o Hospital dos Condes de Castro Guimarães,
situado mesmo em frente ao local onde se situava o Campo Santo e o cemitério
principal da localidade.
A Vila Nova de Cascais, por
ironia do destino localizada precisamente sobre o local onde Cascais nasceu,
cresceu assim com uma dinâmica própria e a pujança de um local que detinha
meios próprios de subsistência. Sendo um arrabalde da vila propriamente dita,
preservou a sua identidade e consolidou a sua importância no crescimento e
consolidação geral da vida Cascalense.
Memórias e Identidade
Na caracterização da unidade
urbanística que resulta do devir histórico da Aldeia Nova de Cascais e do
próprio Alto da Bela Vista, importa recuperar muita da informação presente no
“Levantamento Exaustivo do Património Cascalense” (Fundação Cascais: 2000) onde
se elencavam cada casa e cada detalhe com relevância para a compreensão deste
importante núcleo Cascalense.
As peças que hoje restam, para
além do aglomerado habitacional que foi sendo construído a partir da criação do
velho hospício e da Capela de Porto Seguro, ambos peças-chave para compreender
e contextualizar eventuais intervenções futuras a realizar naquele espaço,
cingem-se tão somente aos detalhes arquitectónicos que sobreviveram às agruras
impostas pelos novos tempos e pelas novas necessidades. As cantarias das portas
e das janelas, muitas delas com decoração singela em memória de realidades que
não existem já, foram reutilizadas em processos de demolição e reconstrução
sucessivas que por ali se foram fazendo. E na divisão dos lotes, mesmo com as
contrariedades impostas pelo emparcelamento, ainda é possível encontrar os
vestígios daquele que foi o Cascais primordial de outros tempos, com as suas
courelas e pequenas quintas, os velhos currais de gado e até as actividades de
apoio à vida quotidiana no coração da vila.
Esta vertente “saloia” da Aldeia
Nova, o local onde se produzia muito daquilo que se consumia na vila de então,
foi-se consolidando com o desenvolvimento industrial. Em primeiro lugar, logo
ali ao lado, a Real Fábrica de Lanifícios de Cascais e, mais adiante, a Fábrica
de Conservas de Peixe que ajudou a definir a margem direita da ribeira. O
hospício, que entretanto foi evoluindo para um verdadeiro hospital (e cujo
edifício ainda lá se encontra transformado em espaço residencial), era destino
eminente para os mais pobres e desfavorecidos da sociedade de então.
Convergiriam para ali os que tinham menos posses e meios, sendo certo que
pescadores e mareantes ali encontravam o consolo físico e espiritual para os
males que os afectavam.
Será eventualmente por isso que,
a título de explicação, se mantém a ligação perene entre o mar e este arrabalde
“longínquo” do centro de Cascais onde, aliás, se situava o cemitério onde
encontravam os pescadores o seu eterno descanso. Possivelmente por isso
igualmente, e parecendo pôr em causa toda a lógica e discernimento, ali é
construído em época mais recente o “Bairro de Nossa Senhora dos Navegantes”
(vulgo Bairro dos Pescadores) que, até há muito pouco tempo era cenário de
velhos barcos esventrados ou em operações de reconstrução, pousados em pequenos
terrenos cheios de redes e apetrechos velhos de pesca.
Enquadramento
Urbanístico
A apreciação de operações
urbanísticas neste espaço, natural por sabermos que o envelhecimento do espaço
determina necessariamente a sua recuperação, actualização e modernização,
deveria ter em conta esta identidade própria do Alto da Bela Vista e a sua
importância efectiva na definição daquilo que ainda hoje é Cascais.
O enquadramento dos futuros
projectos nesta realidade, bem como a rentabilização das memórias patrimoniais
que ali subsistem, ajuda a qualificar as intervenções e, desta forma, consolida
a Identidade Municipal e promove a memória colectiva.
Interpretar desta maneira a realidade
que temos em linha com as pré-existências dos diversos lugares, assegura aos
que projectam nos mesmos condições ímpares para reforçarem igualmente a sua
atractividade e, por extensão natural, o valor intrínseco dos empreendimentos e
espaços.
Por esse motivo ganha redobrada
importância a proposta de requalificação do edifício situado na Rua da Bela
Vista, cuja Certidão Urbanística foi discutida na última reunião de Câmara.
Toda e qualquer intervenção efectuada no âmbito do contexto urbanístico e patrimonial
que seja sinónimo de melhoria da qualidade dos edifícios, e que o faça sem
desvirtuar o seu enquadramento genérico na realidade local, é contributo
decisivo para o reforço da vocação turística municipal, sendo que esta,
conforme está plasmado no próprio Plano Director Municipal, deverá ser
resultando de um acréscimo na identidade dos moradores e frequentadores do
local.
O potencial educativo e
pedagógico do Alto da Bela Vista, tal como acontece em tantos outros cantos e
recantos de Cascais, é imenso. É ali que reside a possibilidade de as novas
gerações criarem laços e vínculos perenes com quem os antecedeu na ocupação
deste espaço. Só assim, com esses laços bem evidentes e com uma abordagem
politicamente consciente desta importância, será possível fazer crescer Cascais
com qualidade, motivando os equilíbrios sociais com as necessidades de
prosperidade e empreendedorismo, e zelando por um reforço efectivo da
Identidade Municipal, essencial para uma cidadania consciente e, em última
instância, para uma democracia saudável.
Conclusão
A Aldeia Nova de Cascais é uma
realidade desconhecida de quase toda a gente. E esse facto, associado aos
naturais processos de rejuvenescimento dos nossos espaços habitacionais
consolidados, acaba por fazer perder potencialidades que um conhecimento enquadratório
daquela realidade almejaria alcançar.
Compreender a razão de ser
daquele espaço, os motivos que levaram a que tivesse chegado até nós com as
características que nele reconhecemos e as potencialidades imensas que possui
para a definição da qualidade que todos desejemos para Cascais, ajuda os
técnicos que formulam e apreciam os projectos para aquele lugar, os professores
e educadores das escolas locais, os políticos que decidem os destinos da nossa
terra, e até o cidadão comum que pretende construir ali (ou reconstruir) a sua
casa, a tomar as decisões que melhor correspondem aos interesses de todos os
Cascalenses.
Porque sem consciência de quem
somos, de onde viemos e para onde vamos, as discussões acabam naturalmente por
perder-se nos interesses mais mesquinhos e imediatos, delas resultando pouco
mais do que uma pequena peça na engrenagem imensa com que o sistema político
que temos nos constrange.
Porque como dizia Pedro Falcão no
seu “Cascais Menino”, este é “o Cascais com que sonhamos”.
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