sexta-feira

Requalificar o Monte Estoril




O Monte Estoril é um dos mais fantásticos recantos do Concelho de Cascais. Resultando da conjugação de diversos factores extraordinários, para ali confluíram diversos contributos que transformaram o antigo Pinhal da Andreza num sítio pleno de charme e cheio de segredos e de histórias que o tornaram muito especial.

A visão dos seus fundadores, mesclada pelo carácter onírico que muito contribuiu para o encanto romântico que todos lhe reconhecem, foi a pedra basilar que sustentou um projecto arrojado e determinante que haveria de dar o mote para o subsequente nascimento dos Estoris e para a consolidação de Cascais como destino turístico de excepção em termos internacionais.




Mas o Monte Estoril beneficiou ainda do carácter visionário de muitos dos seus moradores que, desde o final do Século XIX, têm sido capazes de recriar o espaço em torno de uma vivência social e cultural única que foi sempre determinante para a consolidação da estrutura urbana em que a povoação assenta.

Tendo sido o primeiro projecto urbanístico criado de raiz em Portugal, o Monte Estoril foi cadinho de experiências diversas que a memória local ainda consegue preservar. Do “Jazigo” de Manuel Duarte aos torreões altivos da “Vivenda Miramonte”, passando pelo autêntico castelo do antigo “Hotel Miramar” ou pela selva romântica que ainda sobrevive da inesquecível “Villa Montrose”, são muitos os exemplos de peças arquitectónicas cenograficamente integradas na localidade e que constroem no Monte Estoril um ambiente irrepetível em qualquer outro lugar de Portugal.




Mas, como pérola que é, o Monte Estoril foi sempre também alvo privilegiado da cobiça, do desnorte eleitoral e da incapacidade política que pontualmente vai afectando a vida neste concelho. Foi-se salvando, sem se livrar de pontuais atentados contra a sua excelência perpetrados aqui e ali ao longo dos tempos, pela argúcia, capacidade de entrega e devoção imensa dos Monte Estorilenses que desde sempre foram imbatíveis na defesa dos interesses do local.

Em 2002, quando Cascais começava a respirar de alívio depois da autêntica onda de betonização que varreu o concelho desde meados da década de 80, a Associação de Moradores do Monte Estoril preparou um plano global de salvaguarda urbana e patrimonial que entregou à edilidade cascalense.

O projecto, intitulado “PIRME – Projecto Integrado de Requalificação do Monte Estoril”, foi uma das mais inéditas e inovadoras propostas de requalificação urbanística jamais realizadas em Portugal, apresentando uma visão independente e livre de um grupo muito vasto de moradores, comerciantes, hoteleiros e demais operadores que trabalhavam no local. Da comissão promotora faziam parte Alfredo Dias Valente de Carvalho, António Pinto Coelho de Aguiar, Diogo Velez Mouta Pacheco de Amorim, Jaime Roque de Pinho de Almeida (Lavradio), João Aníbal Queirós Felgar Veiga Henriques, Joaquim Manuel Cardoso Mendes, José Francisco Gomes Santos Fernandes, José Luís de Athaíde de Almeida e Silva, Luís Miguel Lupi Alves Caetano, Manuel Pinto Barbosa, Paulo Ribeiro Maia de Loureiro e Salvador Correia de Sá.




Tinha como objectivo principal, para além de recriar um perímetro de protecção em torno das fronteiras urbanas do Monte Estoril, o de garantir que os moradores cumprissem aquilo que consideravam o seu dever participar na gestão e na orientação dos destinos da sua terra. Diziam de forma sublinhada que o fazia “à margem dos partidos políticos, mas não contra eles”, com uma forma de participação responsável, cordata e consciente. Mas também exigente…

Como é fácil de perceber, a qualidade incontestável do documento, atestado até pelas mais proeminentes autoridades políticas do Cascais de então, em nada influi nos destinos do Monte Estoril. A Sua independência relativamente aos muitos interesses de toda a ordem que sempre sobreviveram naquele local, condenou-o ao fracasso e a uma frustrante viagem em direcção ao caixote do lixo.




Com a entrada em vigor do novo PDM – Plano Director Municipal, que não assume a vocação municipal do concelho e que, por isso, não define as linhas programáticas estratégicas que hão-de marcar a existência urbanística do Concelho durante o seu período de vigência, alterou-se de forma substancial a política de salvaguarda patrimonial no Monte Estoril. Ao contrário do que até aqui existia, o novo PDM renega a unidade urbanística da localidade, composta por um conjunto de edifícios que a própria AMME inventariou e integrou no PIRME, e aposta numa apreciação casuística das intervenções que venham a ocorrer nos limites da localidade. Faz depender, desta forma, todo e qualquer projecto que venha a surgir do gosto específico de quem o aprecia. E assim, destruindo a unidade urbanística que deu corpo à excelência deste local, coloca em risco o carácter único e especial que ainda caracteriza o Monte Estoril, abrindo portas para quase tudo seja possível fazer.

Nesta época de mudança profunda que agora começa, importa homenagear a AMME pela coragem e determinação que colocou na apresentação deste inédito projecto. E relembrar todos os Cascalenses de que o Monte Estoril tem sido capaz de defender o seu carácter extraordinário desde meados do Século XIX. 

segunda-feira

O Obelisco da Memória em Angra do Heroísmo e a Guerra Civil Portuguesa




por João Aníbal Henriques

Um dos piores flagelos que afectou Portugal ao longo da sua História, foi a guerra civil, decorrida entre 1828 e 1834, que opôs os reis e irmãos D. Miguel e D. Pedro IV numa luta fratricida que quase destruiu o País.

D. Pedro de Alcântara de Bragança, filho primogénito do Rei Português D. João VI, recebeu em 1820 a incumbência do seu pai de ficar no Brasil em seu nome, com a função de príncipe regente. Devia, durante a ausência do pai na metrópole para tratar dos assuntos relacionados com a Revolução Liberal, representar a Coroa de Portugal nas terras de além-mar. Mas, pressionado pelos liberais Portugueses a regressar à metrópole e a fazer regredir o estatuto autonómico do Reino do Brasil, o príncipe cede aos interesses da antiga colónia e, num acto de traição da Portugal, é aclamado Imperador do Brasil, no dia 12 de Outubro de 1822, depois de ter proclamado a independência do novo reino num episódio que passou a designar-se como o “Grito do Ipiranga”.




A solução de governabilidade e sucessão encontrada depois da morte de Dom João VI, passava pela colocação no trono Português da sua neta D. Maria da Glória, filha primogénita do seu filho brasileiro, que deveria desposar, para garantir o sustento jurídico do seu vínculo Real, o seu tio Dom Miguel de Bragança. Dado que a legislação em vigor não permitia que um só monarca acumulasse dois tronos e a praxis jurídica Portuguesa determinava o ‘Grito do Ipiranga’ como um acto de traição à Pátria fazendo cessar quaisquer direitos sucessórios que o seu promotor pudesse ter, este acordo adaptava-se às circunstância e selava-se assim um pacto que garantia a soberania de Portugal e do Brasil, ao mesmo tempo que se acautelavam os interesses das duas Nações no xadrez político que estava a definir novas fronteiras no Mundo de então.

Mas, como nem sempre a linearidade dos acontecimentos se compadece com as necessidades do dia-a-dia, os interesses específicos do Brasil, de França e da Inglaterra, misturados ainda com o clima de tensão que nunca se diluiu relativamente à presença Holandesa em terras de Vera Cruz, acabaram por determinar uma alteração substancial nos compromissos políticos assumidos. O Imperador do Brasil, com o apoio dos liberais ingleses, cujos interesses eram muitos e muito variados em Portugal, recebeu a incumbência de recuperar a Coroa Nacional, alegando que o seu irmão, entretanto aclamado Rei pelo povo português, havia quebrado o pacto e o juramento feito à Carta Liberal.




Dom Miguel, de espírito vivo e de coração profundamente vincado pelos interesses da Nação Portuguesa, não acatou as ordens do irmão brasileiro e recusou responder de forma cabal aos interesses ingleses. E o resultado, de todos bem conhecido, foi uma guerra civil terrível que dividiu o País em dois e que teve como principal consequência um estado de permanente dependência relativamente a Inglaterra.

Quando as Cortes de 1828 aclamaram Dom Miguel como Rei de Portugal, num acto de autonomia relativamente àquilo que haviam sido os principais laivos da determinante movimentação liberal que afectou o País nesta época, passaram a estar em causa um conjunto de leis que haviam sido definidas por países estrangeiros com interesses diferentes daqueles que eram os dos Portugueses de então. Dom Miguel, expressão completa daquilo que sempre havia sido a pedra angular da Portugalidade, representava assim um renovado sopro de independência do País relativamente a interesses terceiros, possivelmente deixando antever ainda alguns resquícios da essência nacionalista que resultou da Revolução de 1640.

O regresso à política municipalista, recuperando práticas antigas do Portugal de antanho, foi uma das medidas mais populares tomadas pelo novo Rei. Dando um passo atrás e recuperando valores associados ao absolutismo, renegando políticas estrangeiradas que haviam entrado em Portugal através de organizações de índole sobretudo inglesa e francesa e que nada tinham a ver com a tradição local, Dom Miguel alcança o apoio incondicional do povo, da nobreza tradicional e da Igreja. Mas o esforço diplomático internacional levado a cabo pela Coroa, querendo fazer reconhecer o rei, apenas consegue o apoio dos recém-nascidos Estados Unidos da América e do Vaticano, tendo-se debatido com o firme silêncio das restantes nações europeias.




O seu irmão, Imperador Dom Pedro I do Brasil, por seu turno, desenvolve contactos no mesmo sentido com os mais importantes movimentos liberais e para-maçónicos da Europa. Tendo conseguido o seu apoio, que tinha como principal objectivo o recuperar desses valores políticos liberais, acaba por abdicar do trono brasileiro, onde deixou o seu filho mais velho que foi aclamado como Imperador Dom Pedro II do Brasil, e regressa a Portugal com o objectivo de usurpar o trono.

A guerra civil entre absolutistas e liberais, apoiantes de Dom Miguel e de Dom Pedro, começa assim a dilacerar o País, impondo um clima de terror absoluto que vai mudar durante muitos anos a existência dos Portugueses. Começando por ser favorável aos miguelistas, que contavam com o apoio da maior parte dos Portugueses, o rumo da guerra mudou de forma inexorável quando Dom Pedro recebe o apoio dos ingleses. Depois de desembarcar nos Açores, onde transformou a Ilha Terceira e a Cidade de Angra no seu quartel-general, Dom Pedro lança uma série de ofensivas bem conseguidas contra o exército Português, alcançando vitórias que acabarão por ser vitais para o controle efectivo de Portugal.

A dureza das batalhas, bem documentada através da longevidade que a sua memória alcançou, teve o seu apogeu precisamente no Arquipélago dos Açores, que serviu de cenário para alguns dos seus mais ensanguentados episódios.

Na capital da Ilha Terceira, a força dos combates foi tão grande que o Rei D. Pedro IV, depois de recuperar o controle do trono, decide alterar o nome da cidade. A velhinha cidade de Angra, ganha então o epíteto ‘do Heroísmo’, que passa a integrar-lhe o nome com o objectivo expresso pelo rei de não deixar esquecer o heroísmo dos soldados liberais que ali apoiaram a sua causa.




No Alto da Memória, num flanco sobranceiro à cidade de Angra do Heroísmo, existe ainda hoje um estranho obelisco de forma piramidal, conhecido como o “Obelisco da Memória” que recorda essas batalhas. Erigido em 1856, foi feito com pedras retiradas do antigo Castelo dos Moinhos e integrando uma pedra trazida do porto da cidade, que teria sido lendariamente a primeira pedra pisada pelo Rei Dom Pedro IV quando chegou à Ilha Terceira.

A sua estética profundamente maçónica, com a sua estrutura piramidal que não nega a sua origem estrangeira, assenta numa vasta e complexa estrutura simbólica que traduz de forma muito assertiva o conjunto de valores e princípios que determinaram o apoio europeu ao Rei Dom Pedro. É essa influência, aliás, que melhor explica a dicotomia entre um país que genericamente apoiava o seu rei absoluto, Dom Miguel, e que se confrontou com as movimentações liberalizantes que pouco ou nada tinham a ver com as práticas reais em Portugal.




Mais do que a evolução das mentalidades que sustentavam a Coroa de Portugal, o obelisco piramidal do Alto da Memória, em Angra do Heroísmo, é a chave que permite interpretar as muitas mudanças que o País conheceu daí em diante e que, na sua generalidade, se prolongam até hoje no devir quotidiano dos Portugueses.

Deve ser visitado e conhecido, num esforço de interpretação que deixa antever aquilo que outrora foi Portugal.

João Sande e Castro e as Contas do Desporto em Cascais




Um dia chegava eu à reunião […] e ia-se votar a construção do centro comercial CascaisVila. Após duas horas de discussão acesa e quando já passava das oito da noite, Judas perguntou, como é da praxe: ‘quem vota contra?’ Dei por mim sozinho com a mão no ar. Não que me arrependa de o ter feito. Pelo contrário, sinto bastante orgulho nisso. Apenas eu na altura fiquei um pouco espantado por ser o único a votar contra, por os meus colegas da oposição não terem votado em igual sentido.”

42 anos depois da revolução da liberdade, o prestar de contas político é de uma raridade confrangedora! E esse facto conduz a um progressivo afastamento entre eleitores e eleitos e a  um desinteresse generalizado que vai matando de forma paulatina a própria democracia.

O exercício da democracia, quando é concretizado sobre a escolha de propostas e programas por parte dos eleitores, só se completa quando os eleitos prestam contas do que fazem. A transparência relativamente ao que se fez e às opções que se tomaram, quando tudo isso acontece em consciência, pressupõe que ao eleitor é dada toda a informação. É esta que lhe permite analisar o desempenho do eleito e perceber quais foram os seus critérios de governação.

E foi isto precisamente que fez João Sande e Castro, antigo vereador da Câmara Municipal de Cascais que, num acto inédito na Nossa Terra, apresentou publicamente o seu livro “Desporto em Cascais”.

Passando em revista o seu trabalho à frente do Pelouro do Desporto na edilidade Cascalense, o ex-autarca analisa de forma detalhada cada projecto, cada iniciativa e cada decisão que tomou durante o período em que durou o seu mandato, explicando quais foram as ideias e os critérios que presidiram à sua actuação e as opções que tomou relativamente a quase tudo aquilo que lhe passou pelas mãos.

Podemos concordar ou discordar com as suas escolhas. Podemos acompanhá-lo nas suas opções político-ideológicas ou situarmo-nos nas antípodas das mesmas. Mas ninguém pode negar que, com este livro, João Sande e Castro presta um contributo inestimável para a consolidação da democracia e para o exercício de rigor e transparência que quase sempre falta nesta Nossa Terra.

E quando assim é, só pode ser a Bem de Cascais!...




João Sande e Castro tutelou o pelouro do desporto na Câmara Municipal de Cascais durante 12 anos. 
Neste livro descreve, de forma informal, o que foi a sua experiência na vereação e as 
relações da autarquia com os clubes do concelho.

O Triste Estado do Forte da Cadaveira em São João do Estoril




por João Aníbal Henriques

Conhecido oficialmente como Forte de São Teodósio ou da Cadaveira, o Forte d’Assubida, como popularmente é designado, situa-se a Nascente da Praia da Poça, em São João do Estoril, numa as margens da Ribeira da Cadaveira.




A estrutura, de cunho simples e desenhada com o objectivo de ser eficaz, foi erguida durante o período das Guerras da Restauração, logo depois de 1640. Integrando-se numa linha defensiva de larga escala contra as tentativas de reconquista do poder luso por parte dos exércitos espanhóis, o Forte de São Teodósio defendia a enseada da Praia da Poça, em fogo cruzado com o Forte Velho, situado na outra margem da ribeira. Deste plano de defesa da Costa de Lisboa, que se prolongava desde São Julião da Barra até ao Cabo da Roca, faziam parte mais de uma dezena de fortificações de várias dimensões, adaptando-se a orografia dos terrenos onde foram construídas.

O Forte da Cadaveira, com planta quadrangular semelhante às restantes, apresenta um pátio central a partir do qual se distribuíam os espaços interiores. Os quartéis e o paiol, sustentando um terraço de onde se obtém uma das mais extraordinárias vistas dos Estoris, viram a sua segurança reforçada, já em pleno Século XVIII, com a construção de três guaritas que passaram a permitir o patrulhamento nos principais ângulos de acesso à praia.




Classificado como Imóvel de Interesse Público desde Setembro de 1977, o Forte da Cadaveira conheceu uma história atribulada e nada linear. Depois de ter sido desactivado das suas funções militares, em 1843, o edifício foi entregue à Santa Casa da Misericórdia de Cascais que, por sua vez, o cedeu a um particular. Este, por seu turno, devolveu-o à Misericórdia que em 1942, depois do início das obras de construção da Avenida Marginal, o entregou à Guarda Fiscal, que aí se instalou até época recente. Já neste século, o edifício veio parar às mãos da Câmara Municipal de Cascais que prontamente anunciou um projecto para o local. Mas, por qualquer motivo que possivelmente alguém conhecerá, foi agora completamente abandonado, com a porta aberta e o interior acessível a todo o tipo de destruição.

O cenário que hoje apresenta o Forte da Cadaveira é dantesco. A porta destruída abre o espaço para o pátio coberto de lixo e de restos de fogueiras. E os alojamentos, ainda há pouco tempo em excelente estado de conservação, estão agora completamente destruídos, alguns com sinais de incêndio e os restantes cobertos de lixo nauseabundo e de seringas usadas. A bateria, de onde é possível observar a passagem magnífica do local, está praticamente coberta de entulho e o cheiro a fezes, combinado com os restos de refeições já apodrecidos e com centenas de garrafas partidas, torna praticamente impossível visitá-la.



Não existem palavras para descrever o estado em que se encontra este edifício classificado e que faz parte do património Cascalense. Responsáveis pela situação actual haverão certamente. E é deles a responsabilidade pela destruição da memória e da identidade dos Cascalenses.





sexta-feira

Abreu Nunes - 50 Anos de Saudades em Cascais





Cumprem-se por estes dias 50 anos desde o falecimento, em Cascais, do Engenheiro Augusto Jayme Telles de Abreu Nunes. Nascido no Funchal em 30 de Outubro de 1891, o Engenheiro Abreu Nunes é hoje, por infelicidade dos tempos em que vivemos, figura quase desconhecida dos Cascalenses. Mas do seu empenho na defesa de Cascais e da sua vida dedicada a esta Nossa Terra, depende quase tudo o que o município é hoje.


A intervenção cívica de Abreu Nunes começa logo depois da sua chegada a Cascais. Em 1934, quando Cascais se preparava para enfrentar os desafios enormes que foram o resultado das alterações provocadas no Mundo e na Europa pelas guerras mundiais, foi ele quem esteve à frente do processo de criação da Comissão Administrativa da futura Comissão de Propaganda de Cascais, organismo embrionário da futura Região de Turismo do Estoril.




Na senda do trabalho realizado por Fausto Cardoso de Figueiredo, mentor e principal impulsionador do primeiro projecto turístico de Portugal – o Estoril -, Abreu Nunes cria em Cascais as bases que hão-de servir para promover a região a nível internacional. Com uma visão fora do seu tempo, aliando a capacidade de concretizar à noção exacta da importância deste recanto no contexto da animosidade crescente que grassava no velho continente, foi ele quem imaginou o Estoril como espaço privilegiado para receber em imensos exílios dourados grande parte das principais figuras da aristocracia mundial, reservando para o município Cascalense a honra de se ter tornado num dos destinos turísticos de referência no contexto europeu.




À frente da Comissão de Propaganda de Cascais, foi durante muitos anos responsável pelo programa de festas na velha vila piscatória, elaborando um vasto conjunto de iniciativas que desenvolviam a região fomentando a actividade económica e promovendo-a a nível internacional. E, mais importante do que tudo o resto, organizou estes eventos sempre com um cariz de intervenção social. De facto, dos bailes de Carnaval aos concursos de montras e de flores, tudo o que acontecia na região tinha como objectivo a angariação de fundos que serviam para apoiar as grandes obras de que Cascais necessitava para apoiar os mais pobres. As escolas, os lares de idosos, o velho hospital e a Praça de Touros, são somente alguns exemplos de equipamentos de que Cascais foi dotado com verbas oriundas da animação organizada por Abreu Nunes na comissão.

Foi também ele quem, em 1934, esteve à frente da inédita organização do primeiro concurso hípico de Cascais, no espaço onde mais tarde se haveria de construir o Hipódromo Municipal Manuel Possolo, recriando assim uma das mais arreigadas tradições desta terra.

Mais tarde, em Janeiro de 1939, o Engenheiro Abreu Nunes extingue a velha comissão e dá origem à nova Sociedade Propaganda de Cascais, da qual será o primeiro presidente, entidade que promoverá a construção da Maternidade de Cascais, do Clube Naval de Cascais, do novo Hospital da Misericórdia, etc.

Reconhecendo a sua dedicação e a capacidade de concretização demonstrada através das várias iniciativas que desenvolveu, o Governo de Portugal convida-o para instituir e presidir à Junta de Turismo da Costa do Sol. Nesse novo cargo, Abreu Nunes foi um dos pilares da estratégia de promoção internacional da marca turística ‘Estoril’ que durante 100 anos será uma das mais pujantes e bem conseguidas operações turísticas de Portugal.




A dinâmica da Junta de Turismo, que utilizava as mais modernas técnicas de marketing daquela época, é um dos traços da posição vanguardista de Abreu Nunes no Portugal de então. Os cartazes de promoção do Estoril, impulsionadores de muito daquilo que virá a ser a propaganda oficial de Portugal, traduzem bem o projecto que ele defendia para transformar esta terra numa espécie de Côte d’Azur Portuguesa.

No dia 12 de Outubro de 1966, a poucos dias de celebrar o seu 75º aniversário, o Engenheiro Abreu Nunes faleceu na sua casa de Cascais, deixando um legado que mudou literalmente a face da sua terra.


Cinquenta anos depois, vale a pena relembrar este Cascalense, na certeza de que a aura de excelência que hoje acompanha Cascais muito deve à sua capacidade de visão e ao mérito da sua aposta na promoção fundamentada do seu (nosso) Estoril. 


terça-feira

As Armas de Cascais






Representando a História e os principais valores associados à actividade piscatória no Concelho, o Brasão de Cascais foi aprovado pela Comissão Administrativa de Cascais em Abril de 1934.

A constituição heráldica das armas do Concelho, assente na Portaria nº 7839 desse mesmo ano, define com muita clareza os contornos do símbolo oficial de Cascais: "De prata com um castelo de vermelho, aberto e iluminado de prata, sobre uns rochedos de negro, saindo de um ondado de prata e de verde. O ondado coberto de uma rede de ouro. Coroa mural de prata de quatro torres. Listel branco com os dizeres Câmara Municipal de Cascais a negro. Bandeira vermelha. Cordões e borlas de prata e de vermelho. Lança e haste de ouro. Selo circular tendo ao centro as figuras das armas sem indicação dos esmaltes, tudo dentro de círculos concêntricos, com os dizeres Câmara Municipal de Cascais”.

A descrição oficial da simbologia municipal, explicada no próprio website oficial da Autarquia (www.cm-cascais.pt), diz que “o castelo representa a praça-forte, que impusera Cascais enquanto sentinela avançada de defesa da entrada do Tejo e, consequentemente, de Lisboa. Já o esmalte vermelho do castelo é a cor que, heraldicamente, significa vitória, ardis e guerras, e representa ainda a vida, a alegria, o sangue e a força. Por sua vez, a prata do campo das armas demonstra humildade e riqueza, qualidades dos naturais da região. O negro dos rochedos representa a terra e significa firmeza e honestidade, qualidades que também sempre distinguiram os naturais de Cascais. Note-se que o ondado de prata e o verde são as cores indicadas para simbolizar o mar, tanto mais que heraldicamente o verde corresponde à água e significa esperança e fé. Finalmente, a rede representa a vida activa dos cascalenses e o seu sustento, tendo a cor escolhida sido o ouro, que significa fortuna, poder e liberalidade. Refira-se, ainda, que o vermelho da bandeira teve por base a cor do castelo, o elemento principal das armas. A prata da coroa mural obedece à norma estabelecida para simbolizar as vilas”.

Apesar da importância destes símbolos na definição da Identidade Municipal de Cascais, com implicações práticas no devir quotidiano dos Cascalenses, têm sido vários os executivos municipais que optaram por recriar símbolos não oficiais que, utilizando estratégias de marketing que respondem a interesses propagandísticos distintos, acabam por desvirtuar e desformatar a imagem municipal.

O primeiro a proceder desta forma foi o Presidente José Luís Judas. Com o objectivo de demarcar a sua gestão do período precedente, optou por alterar o logotipo de Cascais. Embora mantendo o brasão oficial de forma integrada no novo desenho, acrescentou um facho de fogo cujo significado ainda hoje Cascais tem dificuldade em interpretar. Depois, com a chegada do Presidente António Capucho, tudo mudou novamente. Provavelmente com o mesmo objectivo de diferenciação relativamente ao período precedente, lá caiu definitivamente a heráldica oficial do município que foi substituída por um quadrado encarnado no qual surgia a letra C. E quando ele saiu, mantendo-se no entanto à frente dos destinos do Concelho a mesma coligação de partidos por ele criada, o logotipo foi alterado novamente, possivelmente respondendo à mesma necessidade de afirmação propagandística que enformara as alterações anteriores. Desta vez desaparece o quadrado e o nome Cascais surge em negativo sobre um rectângulo cinzento, com as letras esburacadas por pequenos círculos aleatoriamente colocados.

Dir-se-á que é somente uma questão de gosto e que as alterações sucessivas representam unicamente a passagem do tempo. Mas não é. Cada uma destas operações tem significativos custos associados que, sendo pagos pelos Cascalenses, não trazem nenhum benefício ao Concelho. Por outro lado, ao alterarem os símbolos que nos representam, deturpam a Identidade de Cascais, conduzindo a uma anomia generalizada que impede a representação efectiva dos Cascalenses.

O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, aludindo à importância dos símbolos para a Identidade de Portugal, refere que “A diluição espiritual e cultural de um povo significará inevitavelmente a perca da sua identidade e a sua fusão num hoje sem futuro”.

Ninguém quer que isto aconteça na Nossa Terra!...


segunda-feira

Nossa Senhora da Conceição da Abóboda em Cascais




por João Aníbal Henriques

O dogma da Imaculada Conceição faz parte dos mais ancestrais arquétipos da Portugalidade. Praticamente desde a fundação da nacionalidade, provavelmente recuperando laivos de Fé que nos chegam desde o princípio dos tempos, que a Senhora da Conceição está directamente ligada aos mais importantes acontecimentos que regem a História de Portugal.




Em termos oficiais, foi no dia 8 de Dezembro de 1325, a pedido da Rainha Santa Isabel e por proposta do Bispo Dom Raimundo de Coimbra, que Nossa Senhora da Conceição foi decretada Padroeira de Portugal. Anos mais tarde, depois da Restauração da Independência Nacional, o Rei Dom João IV consagrou Portugal a Nossa Senhora da Conceição, sendo que desde essa altura, num reconhecimento perene à sua intervenção relativamente ao destino de Portugal, nenhum monarca Português voltou a usar a Coroa, colocada na imagem venerada em Vila Viçosa.

Também em 1385, na chegada ao trono da Dinastia de Avis, é Nossa Senhora da Conceição que corporiza a devoção principal de Portugal. Dom João I, Mestre de Avis, bem como o seu braço direito, o Condestável D. Nun’Álvares Pereira, dedicam a Nossa Senhora as suas vitórias e consagram-lhe o País numa profunda devoção. O Mosteiro de Santa Maria da Batalha, por um lado, e o Convento do Carmo, por outro, utilizam como sustentáculo de Fé precisamente o despojamento total relativamente à materialidade e uma entrega plena à Divindade. O Condestável, do alto do imenso poder político e económico que havia conquistado, entrega mesmo a sua vida, os seus bens e a sua própria identidade a Nossa Senhora, tendo morrido como simples Frei Nuno de Santa Maria, num exercício de despojamento total que representa a consagração profunda de Portugal ao seu novo estado.




Em Cascais, são vários os espaços de culto dedicados a Nossa Senhora da Conceição e geralmente relacionados com espaços de raiz rural, nos quais a memória colectiva preserva lembranças de antigos milagres onde a principal marca é a transmutação da matéria. Numa abordagem eminentemente alquímica relacionada com a importância de Nossa Senhora na defesa dos mais pobres e dos mais desesperados, numa linha que entronca nos milagres atribuídos à Rainha Santa, simultaneamente mulher do Rei Dom Dinis e zeladora dos interesses (leia-se conhecimentos) templários preservados em Portugal através da Ordem de Cristo, Nossa Senhora da Conceição intervêm directamente junto da comunidade Cascalense, interferindo positivamente no seu quotidiano e provocando alterações profundas na prática religiosa desta Nossa Terra.

Na localidade da Conceição da Abóboda, junto a Polima, na Freguesia de São Domingos de Rana, Nossa Senhora apareceu a uma pobre e esfomeada pastora que por ali andava a tomar conta do seu rebanho. Pedindo-lhe que se dirigisse à vizinha localidade de Freiria, enquanto ela própria zelava pelos animais do rebanho, Nossa Senhora indicou à pastora um forno de pão ao qual se deveria dirigir para pedir alimento. Ali chegada, a pastorinha explicou à forneira que a Senhora lhe tinha aparecido e pedido que colocasse para si um pouco de pão no forno. Esta, zombeteira e não acreditando na criança, põe no forno uma bola minúscula de massa que, depois de cozer se transforma num enorme pão. Não o querendo entregar, repete a operação com uma quantidade de massa ainda mais reduzida, mas o fenómeno volta a repetir-se de igual maneira. E numa terceira tentativa, colocando no forno uma míseras migalhas de farinha que dão origem ao maior pão jamais cozido naquele forno, a padeira apercebe-se da estranheza do que estava a acontecer e convence-se de que fora efectivamente a Senhora da Conceição que ali estava a intervir.

Simultaneamente, perto do local onde havia ficado o rebanho, um fidalgo local andava a caçar lebres. Um acidente, no entanto, fez com que a sua espingarda tivesse rebentado com um tiro mas, milagrosamente, sem lhe provocar qualquer espécie de ferimento. Tentando perceber o que se passava, o senhor encontra a pastorinha e a forneira que lhe contam o que se havia passado, tendo ele mandado erguer uma pequena ermida no local onde aparecera Nossa Senhora, como agradecimento pela sua intervenção miraculosa no acidente que sofreu.




A Capela de Nossa Senhora da Conceição da Abóboda é, assim, um testemunho físico extraordinário da ligação precoce que o povo de Cascais tem à Padroeira de Portugal, numa expressão de singeleza profunda que segue em linha com o apelo ao despojamento que o culto mariano expressa na sua origem sagrada.

De linhas simples e com elementos decorativos de índole profundamente rural, a capela apresenta uma só nave, onde sobressai a pedra tumular datada de 1579 mandada construir por Frei Gonçalo de Azevedo e o remate do arco de acesso ao Altar no qual se podem ver as cruzes da Ordem de Malta, à qual pertencia o frade fundador. No corpo da capela, merece especial destaque a imagem de Nossa Senhora do Ó, de origem desconhecida mas certamente de origem ainda medieval, entroncando no culto provavelmente pré-Cristão que evolui até chegar precisamente à Senhora da Conceição.




A singeleza da velhinha Capela de Nossa Senhora da Conceição da Abóboda contrasta de forma extraordinária com a grandeza do significado profundo que ela agrega e, sobretudo, com a sua importância na definição da Identidade Cascalense. Assumindo que a própria Nacionalidade depende das bases de sustentação ao nível da cultura e da espiritualidade, facilmente se percebe que a Capela da Abóboda é peça essencial do património municipal de Cascais.

Deve ser conhecida, reconhecido e valorizada.

A bem de Cascais!

quarta-feira

Dom Fuas Roupinho e o Castelo de Torres Vedras




por João Aníbal Henriques

Situado em plenas Linhas de Torres, conjunto de fortificações montado para proteger Lisboa durante a denominada Guerra Peninsular, o Castelo de Torres Vedras é uma das mais interessantes peças patrimoniais de Portugal.

Com origem marcada pela chegada dos Romanos, há mais de 2000 anos, a ocupação da colina onde a fortificação se situa representa um passo significativo na definição do fluxo territorial daquela zona. Aproveitando a topografia natural do local, altaneira relativamente ao espaço onde se viria a espraiar a cidade, o castelo define-se na paisagem, apresentando características que lhe advêm de uma história longa e pouco linear.

Do tempo dos romanos, quando um certo clima de paz imperava nesta região, são certamente as duas cisternas existentes dentro do espaço fortificado, não se sabendo ainda se existiriam panos de muralhas a envolver estes equipamentos. Sabe-se, no entanto, que durante a ocupação árabe terá sido construído o conjunto de muralhas que lhe concedeu a forma actual, muralhas essas que foram sucessivamente destruídas e reconstruídas devido a ataques, cataclismos naturais e necessidades práticas de adaptação da vida das comunidades que por ali habitaram.

De facto, a cidade de Torres Vedras foi conquistada por D. Afonso Henriques, em 1148, logo após a conquista de Santarém. O primeiro Rei de Portugal tê-la-á entregue a D. Fernão Gonçalves Churrichão, que ficou conhecido na História como Dom Fuas Roupinho, que reorganizou o espaço e reconstruiu as antigas muralhas.




O lendário nobre Português, de quem se conhece muito pouco a biografia, seria certamente um dos mais próximos companheiros do Rei conquistador e terá estado com ele nos primeiros passos da formação da Nacionalidade. Pensa-se ainda, pela forma como organizou a sua vida pública, que seria Cavaleiro Templário e que terá sido nessa condição que colaborou com o exército lusitano no processo de reconquista Cristã da Península Ibérica.

Dom Fuas Roupinho terá sido também o protagonista do chamado “Milagre da Nazaré”. Quando andava a caçar montado no seu cavalo ao longo da costa Oeste de Portugal, o fidalgo ter-se-á entusiasmado com um veado e perdeu completamente a noção do perigo que está associado àquele espaço de falésias. Num laivo de desespero, ao sentir-se condenado a cair pela arriba abaixo, terá apelado a Nossa Senhora em oração e em resposta Ela terá travado o cavalo já mesmo no limite da escarpa, salvando o nobre português de uma morte certa. Agradecido pela graça que lhe foi concedida, Dom Fuas Roupinho mandou erguer no local a Capela da Memória e, quando se preparava para iniciar as obras de construção do altar, os operários ter-se-ão deparado com uma antiga arca contendo as relíquias de São Brás e de São Bartolomeu e uma imagem de Nossa Senhora sentada num banco a amamentar o seu filho Jesus.

O impacto desta descoberta, principalmente devido ao facto de a imagem ter sido identificada como uma das mais antigas imagens da Virgem Maria, transportada até ao actual território Português algures no início do Século V, terá sido de tal forma grande que diversos monarcas Portugueses terão peregrinado até à Nazaré, mandando melhorar sucessivamente as edificação originais de Dom Fuas Roupinho e contribuído para o rápido alastramento da devoção ao Sítio da Nazaré.




Em Torres Vedras, depois de sofrer vários ataques por parte das forças muçulmanas, o castelo, depois das campanhas de consolidação levadas a cabo pelo senhor, terá conseguido sempre repelir o inimigo, sublinhando assim a sua importância no contexto da formação da própria Nacionalidade. Dom Dinis e posteriormente Dom Fernando, em linha com o que fizeram noutras cidades com importância para a defesa de Portugal, terão mandado efectuar obras de alargamento das muralhas de Torres Vedras, configurando o castelo com as mais modernas tecnologias de guerra que existiam na sua época.

Ao longo da sua história, muitos foram os episódios extraordinários que por ali se passaram. Mas dos mais importantes terá sido certamente o facto de ter tomado partido pela forças de Dona Beatriz, durante a crise de 1383-85, facto que levou o exército de Dom João I a atacar a cidade de forma a garantir a sua posse para a Coroa Portuguesa. Depois dessa vitória, o monarca terá escolhido precisamente o castelo como seu local de residência temporária, tendo sido dali que emitiu grande parte das ordens que tornaram possível o nascimento do Portugal moderno. Na “Crónica de Dom João I”, da autoria de Fernão Lopes, o cronista descreve o Castelo de Torres Vedras como sendo uma perfeita fortificação natural, dado que aproveita a topografia e o declive natural do terreno, complementados com as muralhas construídas, tornando-se um espaço quase totalmente inexpugnável: "Este lugar de Torres Vedras é uma fortaleza assentada em cima duma formação mota, a qual a natureza criou em tão ordenada igualdade como se a não fosse feita, artificialmente; a vila com a sua cerca a redor do monte, e na maior alteza dele está o castelo".




Do período Manuelino, quando Torres Vedras recebeu o seu segundo Foral, serão datadas as obras de modernização dos panos defensivos, bem como a porta de entrada no castelo, em forma ogival muito marcante e adornada com a esfera armilar, as armas de Portugal e a cruz da Ordem de Cristo.

Digno de uma nota especial, não só pelo facto de ser ilustrativa da importância estratégica da Cidade de Torres Vedras no contexto Nacional, como também por consolidar a sua relação próxima com os principais mentores do chamado espírito messiânico de Portugal, é também a sua conquista, em 1589, em pleno período filipino, pelas forças apoiantes de El-Rei D. António, conhecido por Prior do Crato. O Rei Português, com o apoio de forças Britânicas, terá desembarcado em Peniche com o intuito de reconquistar Lisboa para a Causa Nacional. Chegado a Torres Vedras já de noite, o monarca ter-se-á instalado no castelo, ordenando aos seus soldados que não se fizessem quaisquer saques junto da população. Estas, no entanto, dado o visível abandono da cidade, que se encontrava praticamente deserta, acabaram por beber bastante vinho, facto que, segundos as crónicas de então, terão provocado várias doenças e mesma a morte a alguns dos soldados sitiantes. O exército Português terá sido derrotado no dia seguinte, mercê do péssimo estado de saúde dos seus homens, quando o Senhor Dom António se dirigia à cidade de Lisboa. A Cidade de Torres Vedras foi então reconquistada sem esforço pelas forças fiéis aos Espanhóis.




Depois da destruição massiva provocada pelo grande terramoto de 1755, que fez ruir grande parte dos principais troços de muralha, o castelo de Torres Vedras só volta a ver o seu esplendor recuperado precisamente durante a já mencionada Guerra Peninsular, quando foi integrado nas chamadas Linhas de Torres e representou importante papel na defesa da capital contra os ataques dos exércitos franceses.

Durante os Séculos XIX e XX o castelo entrou na posse da autarquia e foi sofrendo várias obras de conservação. Hoje, mantendo o seu carácter altaneiro sobre a paisagem formada pelo casario torreense, faz jus à sua fama de inexpugnável, ostentando as características ameias ali colocadas pela Direcção Geral do Património nos idos dos anos 40.




Torres Vedras, ou sejam, as torres velhas do antiquíssimo castelo romano que dão corpo ao seu topónimo, é uma cidade que vale a pena visitar. Porque para além do seu castelo e demais peças extraordinárias de património, mantém bem viva a sua ligação umbilical à (sempre difícil) demanda de Fé que a Ordem de Cristo foi capaz de consubstanciar.

segunda-feira

A Capela de São Sebastião em Cascais




por João Aníbal Henriques

Passaram-se muitos meses desde que o temporal do Outono de 2015 destruiu o cruzeiro, o alpendre e o adro da Capela de São Sebastião, em Cascais. Mas, finalmente, foram efectuadas as obras de recuperação e reposta a dignidade daquela importante peça do património cascalense.

A Capela de São Sebastião, construída provavelmente em 1628, atendendo à inscrição existente na base do seu cruzeiro, possui um interessante conjunto azulejar cujas origens dispersas não se conhecem com exactidão.

A sua localização, fora da localidade e já muito perto da Enseada de Santa Marta, terá sido determinante para a sua formulação arquitectónica simples, em estilo dito “chão” e para as suas origens eminentemente ruralizantes. Situada originalmente na cerca do antigo Convento de Nossa Senhora da Piedade (actual Centro Cultural de Cascais), seria certamente posto avançado de oração e recolhimento daquele importante núcleo religioso da Vila de Cascais.




De acordo com alguns autores, serão do antigo convento, que foi construído em 1594 por D. António de Castro, então Senhor de Cascais e pela sua mulher D. Inês Pimentel, alguns dos painéis de azulejos que hoje se podem ver na capela e nas zonas envolventes. O mais importante, hoje colocado de forma cenicamente impactante no jardim construído no local pelos Condes de Castro Guimarães, é precisamente a “Procissão Alquímica” em que Nossa Senhora é transportada aos céus numa imensa carruagem inserida num cortejo do qual fazem parte algumas das mais importantes figuras da imagética transcendental da Portugalidade Sebástica.

O certo é que quer na figura “Civitates Urbius Terrarum” da autoria de Georgius Branius, de 1572, quer na planta geral da Vila de Cascais, datada de 1594 e guardada no Arquivo Geral de Simancas, a pequena capela surge expressamente representada, sendo certo, por esse motivo, que já nessa altura fazia parte do património religioso da localidade.




Na parede do adro, com datação provável dos finais do Século XVII, e correspondendo a uma das campanhas de obras de remodelação que o edifício terá sofrido ao longo da sua história, existe um painel azulejar polícromo dedicado ao Santíssimo Sacramento e, como não poderia deixar de ser numa peça de património de índole rural, à Imaculada Conceição da Virgem Maria. Uma vez mais, como é evidente, cerca de dois séculos antes de o Papa Pio IX, através da bula Inneffabilis Deus, ter solenemente definido a Imaculada Conceição como dogma, em linha com o que acontece com as principais orientações cultuais no Portugal de então e, especialmente, com as ancestrais tradições religiosas existentes no Concelho de Cascais.

O orago Sebastianista da capela, apelando ao supremo poder de Deus perante os homens e à permanente necessidade destes de tentarem impor a sua vontade, recupera também ele os laivos dessa paulatina degeneração dos cultos mais antigos das populações locais que, depois de Cristianizados, acabam por integrar-se de forma definitiva no conjunto de pressupostos sagrados que dão forma à Fé local.



A recuperação da Capela de São Sebastião, para além de um importante contributo para a consolidação da vocação turística municipal, que depende da existência de uma oferta significante que concretize a Região do Estoril como um destino turístico de excepção no contexto europeu, significa ainda o assumir da Identidade Cascalense, assente num imaginário colectivo na qual as memórias físicas se cruzam quase sempre com os vestígios materiais de gerações ancestrais.

É, por isso, uma boa notícia para a Nossa Terra!

Pax Júlia e o Castelo de Beja




por João Aníbal Henriques

São muito raras as cidades, sejam elas situadas no actual território Português ou fora dele, que podem orgulhar-se de ostentar um topónimo tão significativo como Beja. O actual nome da cidade, recuperando o topónimo ancestral (provavelmente pré-histórico) do local, deriva da palavra baja, ou seja, lama ou lodo, trazendo à memória a fertilidade excepcional dos terrenos agrícolas que envolvem a cidade. Mas, durante o processo de romanização, iniciado provavelmente no primeiro século antes de Cristo, adquiriu a designação latina de Pax Julia. O pax reverte para o processo de pacificação das populações célticas que foram invadidas pelos romanos, e o epíteto Julia tem a ver com o nome do Imperador que deu forma a esse processo de paz: Júlio César.

Beja é, por isso, cidade simultaneamente de paz e de fertilidade, ou seja, tem tudo aquilo de que o Ser Humano necessita para viver bem e usufruir da sua vida! A planície alentejana, dourada pelo restolho quente que dá forma e corpo ao ciclo agrícola, perpetua no tempo os valores antigos de gerações e gerações de Portugueses que se vão substituindo umas às outras neste espaço imenso.

E a História de Beja é longa e profícua. Inicia-se provavelmente durante a pré-História, como o indicam os muitos vestígios arqueológicos existentes nas redondezas, e afirma-se de forma peremptória durante o calcolítico quando ali foi construído um povoado fortificado que ocupava o espaço onde hoje se situa o castelo.



Quanto a este, altaneiro a partir das suas muralhas antigas, é produto da evolução dos tempos e das necessidades pelas quais foram passando os muitos pacenses que foram habitando o lugar. Se as primeiras pedras foram colocadas ainda antes da História, tendo-se perdido o seu rasto nos complicados repositórios da memória popular, certo é que os laivos da fortificação mais resistente serão de origem romana. André de Resende, o historiador quinhentista de Évora, assegura, embora sem fontes fidedignas que o atestem, que o local onde hoje se situa o castelo de Beja foi outrora ocupado por um oppidum romano, ou seja, uma fortificação de carácter simples e planta circular, cuja principal função seria a de proteger aqueles que governavam a cidade.

O próprio Júlio César, cumulado de glória por ter conseguido conquistar os anteriores habitantes do local, subjugando-os pela força do seu exército mas também pelo carácter imperioso da cultura que o Império Romano representava, terá estado ali para formalizar a paz que conseguira assegurar. O período romano, foi assim uma época de grande prosperidade para a cidade, que foi simultaneamente sede de convento – o Conventus Pacencis – e sede de uma das chancelarias da Lusitânia. Por ali passava uma das principais vias romanas, que permitia a ligação directa à capital do Império, corporizando um impulso urbanístico cujos vestígios são ainda hoje visíveis um pouco por toda a cidade.



O declínio do Império Romano e a sua progressiva desagregação, sendo sinónimo de uma diminuição paulatina do poder detido pelos invasores, representou também ele o início de um período de maior instabilidade no actual território alentejano e, por extensão, na própria cidade de Pax Julia. Os ataques dos bárbaros, sistemáticos e sucessivos ao longo de vários séculos, traduziram-se em várias conquistas e reconquistas que, como facilmente se percebe, significaram também saques e destruição, delapidando as muitas riquezas que existiam na cidade. Será porventura dessa época o período de maior destruição das muralhas do castelo. Sem tempo nem estabilidade para serem reconstruídas, o processo natural de erosão das mesmas e a incapacidade de se proceder a obras de reconstrução, gerou um processo de ruína acentuado, do qual não escaparam as necessidades práticas e quotidianas de pedras para utilização noutros equipamentos e em casas que foram sendo edificadas. É ainda hoje muito fácil encontrar nas ruas de Beja, casas e muros onde são notórias as grandes pedras retiradas da anterior fortificação da cidade e que, século após século, foram dando forma à urbe que hoje ali encontramos.

Já na idade média, durante o domínio árabe, foi Beja novamente retransformada numa das mais importantes cidades do Alentejo. Os ocupantes muçulmanos, ali chegados no ano de 711, propuseram-se recuperar o traçado urbano antigo e é dessa época a transição do topónimo romano – Pax Julia – para a ancestral Baja. No entanto, quer pelas guerras internas, quer possivelmente pelas alteração dos eixos estratégicos dentro do território, não voltou Beja a recuperar a grandiosidade de outros tempos.

As notícias mais recentes na História da Cidade e do seu castelo são assim do século XII, quando Fernão Gonçalves, chefiando um grupo de populares oriundos de Santarém, ataca a cidade de surpresa alcançando uma vitória retumbante. Embora tivesse sido sol de pouca dura, porque logo depois os inimigos muçulmanos conseguiram voltar a recuperar a cidade, o certo é que até este primeiro esforço de reconquista mostra bem o estado lastimoso em que Beja se encontrava. Um grupo mal armado e mal preparado, naturalmente motivado pela possibilidade do saque a que a vitória do seu ataque daria direito, avança de forma amadora e despreparada sobre as velhas muralhas e facilmente as consegue conquistar.

O regresso ao controle cristão não está devidamente documentado, mas um estudo comparativo com o que aconteceu nas redondezas, permite supor que Beja terá regressado à Coroa Portuguesa algures entre 1232 e 1234, dado terem sido estas as datas em que tal processo aconteceu com as vizinhas cidades de Moura, Serpa e Aljustrel. Mas o seu velho castelo, destruído por sucessivos séculos de ataques e de abandono, só virá a conhecer obras de recuperação com o Rei Dom Afonso III que em 1234 atribuiu o foral à cidade.



O Rei Dom Dinis, depois de confirmar o foral inicial, dedicou-se também à reconstrução do castelo, sendo da sua responsabilidade a generalidade dos amuralhamentos que ali hoje vemos. Foi também ele quem, por necessidades práticas associadas à consolidação da fronteira Nacional, mandou edificar a torre de menagem que é hoje um símbolo de Beja. Com cerca de 40 metros de altura, o que faz dela a mais alta de Portugal, foi concebida de forma similar àquela que existe no Castelo de Estremoz, tendo sido concluída provavelmente durante o reinado de D. João I, o fundador da Dinastia de Avis, à qual Beja se manteve firmemente fiel durante o conturbado processo político de 1383-1385.

Depois deste período, novamente no Século XVI se realizam obras no castelo, desta vez para o adaptar às modernas exigências técnicas da guerra, que já não se compadecia com a formulação eminentemente medieval da velha fortificação. Apesar deste esforço modernizativo, Beja foi completamente destruída pelas tropas napoleónicas durante as invasões francesas, tendo depois disso mantido o seu carácter humilde de cidade de província, estatuto que manteve até ao final da primeira metade do Século XX.




A partir daí, fruto de uma grande aposta do Estado, Beja conheceu um novo período de crescimento. Viu construídas várias escolas e um grande hospital, tendo recuperado alguma das suas antiga pujança. Para surpresa de muitos, ali se construiu um aeroporto internacional, nos idos de 2011, que apesar de não apresentar movimento (!?) é hoje o ex-libris das modernas obras públicas na cidade!

Mantendo nas suas armas municipais a figura do touro, recuperado da velha lenda que nos conta a forma como Beja conseguiu matar uma cobra venenosa que aterrorizava os habitantes da cidade, a urbe é hoje um símbolo muito firme da força e da perseverança que sempre caracterizou as suas gentes, sendo capaz de se afirmar como um espaço de excepcional importância para compreender Portugal e para perceber as origens da identidade Portuguesa.

A paz que a cidade ostenta, cobrindo de glória os muitos motivos de interesse para uma visita e a inesgotável fonte de História e de história que a cada canto e recanto representam, são marca indelével de um sentido de Portugalidade que é urgente compreender.